Marta Morais da Costa

Nas mãos, a caneta constrói casas como pás de pedreiros, como o martelo do carpinteiro. Elas se erguem em tijolos desiguais, mas sólidos e bem assentados em uma sintaxe arquitetônica tosca e deselegante. A casa abre-se em portas e janelas sem fim para a Rua dos Seus Olhos.
Aos poucos as letras erguem paredes na velocidade lenta e contínua da mão que para, hesita, rejunta, azuleja. Sinuosas, espaçosas, alternam-se em curvas e em arestas, transformando o ar da página em arabescos que, à semelhança do Alhambra, funde paredes e escrita numa eterna adoração da escrita sagrada, não porque faça de Deus seu assunto, mas porque pequenos deuses moleques habitam as palavras, soprando-lhes sentidos.
Ora o texto se levanta em estranhas formas de Picasso e Gaudí, tortuosas e prismáticas em direção à última linha. Os tropeços e erros de cálculo espalham-se nos borrões e nos erros gramaticais.
Ora o texto se apoia na fria poesia dos tijolos e argamassa, protegendo em suas camadas de telhas e rejuntes a temática tímida, no ladrilhar balbuciante da vida reclusa e de quem fez da escrita um lar.
O mundo lá fora desdenha a casa tortuosa e se compraz em picos de desarmonia e cobiça. Tortura-se e se faz tortura, explode tanto em riso quanto em gritos trágicos. O homem deixa esvair-se entre mesquinhez e ganância um planeta erodido e ainda belo. Esmaga seus filhos em rotinas e ódio, calcinando afetos e premiando hierarquias.
E na casa, ao abrigo da nulidade, a escrita continua um trabalho de construção de paredes, portas, janelas coloridas e fechadas, invioláveis ao mundo que continuadamente ataca os alicerces com aríetes de dor e opressão.
A casa já mostra rachaduras e frestas, mas resiste, sabendo que é só uma questão de tempo a invasão da crueldade humana. Enquanto isso escreve-se no reforço de paredes, na proteção das portas, no travamento das janelas.
A caneta sabe que enquanto escrever haverá resistência ainda. E a casa continuará viva e altiva. Prenuncio de outros Prometeus; de Cassandras de poder e fúria.
Enquanto paredes sobrem em seu destino de ruínas próximas, a crueldade humana avança, pisando com botas cinzas e ruínas.
Escrever é desafiar previsões. É evitar que tudo se transforme em pó.