“Falar de literatura é falar da própria vida e da vida dos outros”

Marta Morais da Costa

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Rosa Montero, escritora contemporânea espanhola, em A louca da casa, um livro vibrante, inteligente, sombrio e delicioso sobre a escrita literária e sua relação com a loucura (ou quase), que  está sempre rondando o escritor, seja ele poeta ou romancista ou dramaturgo. Imperdível. O assunto é tão avassalador que ela o retoma no recente O perigo de estar lúcida, publicado em 2023.

“Falar de literatura é falar da própria vida e da vida dos outros, de felicidade e da dor. E é também falar do amor, porque a paixão é o maior invento das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, a pessoa adormecida que sonha que está sonhando. E bem lá no fundo de tudo, para além das nossas fantasmagorias e dos nossos delírios, momentaneamente contida por esse punhado de palavras tal como um dique de areia de um menino contém as ondas da praia, surge a Morte, tão real, mostrando suas orelhas amarelas.”(p.12)

Em tão poucas linhas uma trajetória teórica sobre a literatura (porque não dizer, as artes?) que nasce em Platão e o “Mito da caverna”, passando por Sugismundo e toda a beleza e provocação de La vida es sueño, de Pedro Calderón de la Barca e os teóricos da palavra evocadora do Homem de Pedra, em D. Juan Tenório, de José Zorilla ou Mefistófeles de Fausto, de Goethe. Ou as narrativas de Morte, em todos as literaturas populares e orais, sem esquecer Freud e seu instinto de Morte.

Essas barreiras de palavras que o escritor em vão levanta para escapar da morte física e que o leva a escrever, escrever, escrever na tentativa de compreender porque a Indesejada (ah, Manuel Bandeira!) existe, porque a finitude sempre nos espreita, porque a morte é o continente verdadeiro do conteúdo da literatura.

Talvez nós, leitores, na voracidade da leitura de um livro puxando outro, estejamos mesmo construindo barreiras para retardar orelhas amarelas ou da cor que mais tememos.

Mas se tudo desaparece inevitavelmente, que a paixão continue sendo o resíduo mais denso e verdadeiro do que somos quando tudo parece sonho. Já sonhado por todos que nos antecederam. E nos contam, séculos afora, o deslumbramento de confrontos vencedores. Até a derrota final. Nossa.

Diz o poeta: “imortal posto que é chama”.

Cacos, lapsos e ausências

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Cacos, lapsos e ausências

                               Marta Morais da Costa

Fica pensando quantos dias ainda teria de lucidez. Afinal, o tempo só conta porque passa. E a cabeça lhe conta há tempos que enganos e lacunas tomam de assalto parte impertinente de seu cotidiano.

…corrompe o patrimônio simbólico do decoro e da imparcialidade, húmus de sua legitimidade…

Não são apenas os nomes que desaparecem. Somem também os fatos, as datas, as causas. Vive abismos na fala. Olhos arregalados pescam, em vão, na memória. Olhos fechados concluem a busca sem resultado. Sepulta o passado com dó e piedade.

…o menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador…

Fecha o botão do colarinho. Ajeita a gravata, presente da esposa, que conhecia todos os seus gostos. O nó era especialidade dela. Saudade, viu, sua gostosa…

…o excesso de dias quentes e temporais deve marcar a primavera…

No portão de casa, pendurada, a revista da igreja com seus conselhos e versículos. Pô, vou ter que ler esse troço! Vão me cobrar. Botou a revista na pasta.

Sai para a calçada e quase é atropelado pela moto invasora. Passa pela cabeça um raio de comparação: será melhor ser atropelado por uma moto ou por um automóvel? Se for para ser com motor, prefiro o elétrico. Pelo menos ganho manchete de jornal: “Atropelado por um veículo elétrico, o novo inimigo dos pedestres”. Morreria feliz: teria seu nome publicado. E não seria entre os endividados.

Distraído perde o ônibus. Atraso à vista no trabalho.

…é muito difícil você ficar duas horas, três horas, e ganhar tão pouco, e mesmo assim voltar no dia seguinte…

Chega ao escritório depois de todo mundo. Ou melhor, todo mundo está lá, mas o chefe está atrasado. Talvez um acidente. Talvez uma gripe. Talvez…

Retoma o relatório, interrompido na sexta, antes do feriadão. Começar de novo, nem lembra mais o que escreveu. Ansiedade apaga, pressa deslembra.

…criminosos confessos estão recuperando seu butim…

Foram dias de solidão. Tenha um bom feriado, amigo. Sinais de vida absurda, excessiva. Uma xícara de café repõe energias. Bobagem. O que perdura é a azia. O gastro de óculos, a receita de dietas e medicamentos, a sensação de perda de parte da liberdade de escolha. Sem café, sem vontade de voltar ao relatório. E o chefe que não chega. Precisa de um aumento: a farmácia come o salário. Ele come mal.

…a tentativa de silenciamento, que faz parte do estado geral de degradação intelectual…

Vai até a janela: caos no trânsito, vozes quase inaudíveis, o roncar dos motores, as punhaladas sonoras da construção ao lado. Nuvens nenhumas, calor por demais. A gravata o enforca paulatinamente. Precisa terminar o relatório. Acho que o chefe resolveu prolongar o feriado…

Volta ao computador: escreve frases, procura reatar. Enredam-se às letras imagens de lugares que nem sabe se existentes ou imaginários. Pessoas sentadas em gramados, conversando, lendo, tomando sol. Quando? No feriado?  Choveu com nunca. Uma viagem? Talvez. “Conforme especificado acima, o contratante descumpriu a cláusula 12ª do contrato assumido, incorrendo assim…” Toque de celular. É para Dario, na mesa ao lado. “Sim? Como? Que horror!”. Todos, olhos interrogativos. Dario: “Aviso sim.” Encerra a ligação. “Pessoal, o chefe não virá. Acontece que…”

…se você ama a vida, plante muitas árvores…

Chega cedo em casa. Zapeia pela televisão. A notícia o anestesia. Parece a cena da novela que assistia com a esposa. O tempo atropela as imagens, os rostos, os fatos.

Volta a zapear. Sente as pálpebras pesarem.

…a internet fabrica, da noite para o dia, falsos especialistas e influencers dispostos a transformar o passado em frases de efeito…

Melhor ser atropelado por uma moto ou por um carro elétrico? Adormece.

Remanso

Marta Morais da Costa

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Saúdo a insônia que me faz, recolhida,

viver o contato deslizante comigo.

O silêncio a sitiar o pensamento

e palavras profusas

a escorrer

para o papel.

Não há relógios, nem barreiras.

Só o imenso conforto das linhas

Submissas à avalanche das letras.

Diálogos interiores,

a abrir os arquivos, libertos,

coração sem flechas, nem temores

confessa, compulsivo, ódios e amores

do dia findo, da vida em extinção,

que aguilhoa o ritmo dos horrores.

Saúdo a chegada do sono

a reabrir o coração nos sonhos

da noite

a dividir

o tempo de viver

e

o tempo de confessar.

Acidente em rua de muitas mãos

Marta Morais da Costa

A rua parecida com um dia feriado. A manhã era quase silêncio. É verdade: cedo demais pra passeios, tarde demais para festeiros. Também, sem previsão de trabalho ou compromisso, a mente disparava pensamentos não convergentes em frenética sucessão.

Um som seco e em estalidos de vidros e plástico. Mais uma batida. Surpreendente pela calma circundante. No chão, fragmentos; nos carros, ferimentos. Poucos curiosos e alguns prestativos transeuntes a perguntar se machucou? Precisa socorro? Quer que eu telefone para alguém?

Mãos e braços de socorro, vozes alternadas de consolo e preocupação.

A criança, enlaçada na cadeirinha, olhos abertos de susto, boca aberta sem som. Tão logo, cercada por mãos e rostos desconhecidos, invasivos, começa a gritar e chorar. O som agudo amplia-se no espaço e comove pela sensação de impotência e de cuidados. A mãe, desfalecida e inválida, separada do filho, tudo ignora.

Sem acordo nem conspiração, cada qual passante se ocupa de ações simultâneas. Desembaraçar as pessoas de seus cintos, telefonar aos bombeiros e policiais, buscar manter o ar circulando entre os feridos. Dois carros, ações em dobro.

Um médico se apressa em avaliar o estado dos motoristas e passageiros. Há ferimentos diferentes em extensão e gravidade.

Ninguém ainda pensa em culpado, erro ou legislação. Somente em acudir, cuidar, solidarizar-se.

Sorrateiramente a mão resvala pelo banco, outra vasculha o porta malas aberto. Qualquer objeto será lucro. Rapidamente coisas somem em casaco, bolsos e bolsas, jaquetas.

O choro aumenta de volume, as vozes aumentam de quantidade, a preocupação aumenta de intensidade.

Ao longe, sirenas. Da cena do acidente esgueiram-se quase sombras.

Aos poucos, a roda se abre, os paramédicos trabalham e a cena fica cada vez mais definida e reiterada. É um acidente comum, com pessoas comuns e na dor comum de estarem vivas.

Aos poucos o sol é ofuscado pelas nuvens. A rua ganha maior sonoridade e movimento.

Os passantes passageiros curiosamente param, verificam a repetição entre o que veem e o que já viram, e passam adiante.

O silêncio do feriado se desfaz, os acidentados se refazem, os feridos são transportados. Os carros jazem tortos no asfalto.

Tudo passa.

Foi mais uma cena dramática em uma rua simpática de uma cidade brutalizada e semeadora de sofrimentos e mãos de afagos e afanos.

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O que fazer em um domingo qualquer

Marta Morais da Costa

Comece pelo mais prazeroso: não faça nada. Somente relaxe e aproveite o sol, o mar, o quase silêncio das obras nas ruas, nos prédios, na vizinhança, sobre sua cabeça no apartamento daquele vizinho que não dá sossego, mas que sustenta o trabalho e emprego dos profissionais da construção e da decoração.

Se os parentes não abrem mão da sua divertida companhia e o convidam pra churrasco ou um rodízio de sushi ou aquela paella coloridíssima e rescendendo a maresia, vai com tudo. Esqueça colesterol, fígado e pâncreas. Caia de boca.

Se aquela tia idosa reclama que faz tempo que você não aparece e que ela está quase se despedindo da (ah você sabe de quê! Dela, aquela, a inescapável, ora!). Ela quase não consegue terminar o convite, a voz engasgada no telefone (porque whats, você sabe, né? Ninguém é obrigado a consumir aos 83 anos!) Vá até ela: l’humanité oblige!. Troque a televisão, o futebol e seus acompanhamentos por algumas horas naquela casa-museu, mas com cheirinho de bolo de laranja e cafezinho à moda mineira. Acumule milhas-minutos em sua conta no éter!

Mas quem sabe esse domingo tenha cara de cultura. Sabe aquele lançamento do livro de seu ex-colega de universidade, cujo convite não sai das postagens do instagram há mais de dois meses? Vai, são poucos minutos lá no bar do Geninho, e mais umas horas no trânsito, mas amizade é cada vez mais rara hojemdia. Amigo é pra essas coisas. E depois vai que o colega ganha um prêmio Jabuti ou um Oceanos. Cara, o autógrafo vai render mais reais em sua conta! É só anunciar mais tarde no OLX. E o amigo só vai descobrir que você vendeu o livro ou porque foi ele mesmo que comprou ou porque visitou justamente o sebo em que o autógrafo com seu nome explícito foi acompanhar o volume do livro que você nem leu.

Ou o domingo cultural pode ser uma ida ao cinema com seu filho desejoso de comer umas pipocas coloridas com gosto de morango (argh!!) ou, pior ainda, com sabor de falso chocolate que lambuzará até as imagens daquele filme de animação que todos os pais da escola estão elogiando e que, tal como  o chocolate, vem adocicado e melequento trazer as mesmas personagens, fazendo as mesmas coisas e usando diálogos com as mesmas palavras acompanhadas de grunhidos, que alguns denominam, cinicamente a meu ver, de “filme dirigido a crianças inteligentes” (argh!)

Para completar seu domingo feliz, não esqueça a stand up comedy que sua esposa tanto tem vontade de ver. Recomendação enfática das amigas do salão de beleza em que ela passou a tarde toda do sábado dando um trato no visual para desfilar sua beleza pra você (segundo ela). Acho que não convém eu aprofundar essa questão. Mas, voltando  à peça de riso fácil: você vai se divertir um bocado, tenho certeza. O tempo passará rapidamente e todo ele indolor. Só ficará um resquício de cinzas em seu cérebro, que tentou desesperadamente encontrar sentido onde não havia. Tudo era entretenimento, meu!

Enfim, seu domingo foi agitado, acompanhado, tumultuado, solidário, socializante.

Pense bem, nada é em vão. Afinal, a vida passa rapidamente. E quem sabe, daqui a algum tempo, você não pensará com seus botões (se eles ainda existirem) ou com seus parafusos: como eram felizes os domingos de antigamente!

Máquina do tempo

Através dos relatos, podemos saber como sonhavam ou sentiam pessoas que morreram antes de nosso nascimento, podemos até ouvi-las vivas dentro de nós, uma invocação impossível para qualquer outra espécie. Desde a Ilíada, onde nasce a literatura europeia, reconstituímos mentalmente épocas passadas, escutando as vozes e outros milênios. É possível que as palavras impressas não sejam mais que fantasmas de vozes ou sombras mentais, mas são importantes. Elas ampliam nossa breve passagem pela vida, porque quem lê acrescenta à sua vida as vidas de todas as épocas e, assim, milhares de anos de conhecimento se fundem dentro de si. O tempo de cada leitor se expande pela confluência entre a realidade tangível e o passado reconstruído. A máquina do tempo existe: são os livros.

Irene Vallejo. Manifesto pela leitura. Tradução Julia Dantas. Porto Alegre, Dublinense/Seiva, 2026. p.31.

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O tempo dos livros: sua criação, a edição, o conteúdo, a chegada aos olhos de um leitor.

O tempo do leitor: sua biografia de leitura, o ritmo no tempo dos olhos, a viagem à memória. o tempo do lido.

O tempo do tempo do leitor: reler, descobrir de novo, descobrir-se, reler-se.

O tempo de repouso. O tempo de leitura. O tempo de repouso. O esquecimento.

Um livro é um livro, é um livro, é um livro…

Arte e ciência

Northrop Frye. A imaginação educada. Tradução de Adriel Teixeira , Bruno Geraldine e Cristiano Gomes. Campinas (SP): Vide Editorial, 2017. p19-21.

“Temos (…) três níveis da mente e uma linguagem para cada uma, o que nas sociedades de língua inglesa quer dizer uma língua inglesa para cada um. Há o nível da consciência e perspectividade, onde o mais importante é a diferença entre o eu e tudo o mais. A linguagem desse nível é a da conversa corriqueira, que consiste basicamente em monólogo. Como vocês logo perceberão se abrirem os ouvidos para as conversas alheias ou para a própria fala. Podemos chama-la de linguagem da autoexpressão. Em seguida vem o nível da participação social – a linguagem profissional ou tecnológica dos professores, pregadores, cientistas, juristas, políticos, publicitários, jornalistas. A essa já chamamos linguagem do senso prático. Por fim há o nível da imaginação, que produz a linguagem literária dos poemas, peças teatrais, romances. Não são de fato três línguas, é claro, mas sim três motivos para usar as apalavras.

Com base nisso podemos talvez distinguir entre as artes e as ciências. A ciência parte do mundo onde temos de viver, aceitando seus fatos e tentando explicar suas leis. A partir daí, move-se em direção à imaginação: torna-se um constructo mental, o modelo de uma maneira possível de interpretar a experiência. Quanto mais longe vá nessa direção, mais tende a falar a linguagem da matemática que é, com efeito, uma das linguagens da imaginação tal como a literatura e a música. A arte, por sua vez, parte do mundo que construímos, e não do mundo que observamos. Ela começa com a imaginação, e então dirige-se para a experiência comum – isto é, procura fazer-se tão convincente e reconhecível quanto possível. Entende-se daí por que costumamos veras ciências como acionais e as artes como emocionais: aquelas partem do mundo como ele é, estas do mundo que queremos ter. (…) Mas, claro, é tolice ver o cientista como um pensador frio, desprovido de emoções, e o artista como um tipo mergulhado numa embriaguez emocional sem fim. Não se pode distinguir as artes das ciências pelos processos mentais realizados nelas: ambas operam num misto de intuição e senso comum. Uma ciência e uma arte altamente desenvolvidas aproximam-se muito no aspecto psicológico como nos demais.

(…)

Uma importante diferença (…) A ciência à medida que avança vai aprendendo cada vez mais sobre o mundo; ela evolui e aprimora-se.  Um físico contemporâneo sabe mais de física do que sabia Newton, ainda que não seja um cientista tão notável. Já a literatura começa com o modelo possível da experiência, e o que ela produz é o modelo literário que denominamos clássico. A literatura não evolui, não se aprimora, não progride. Talvez dramaturgos do futuro venham a escrever peças tão boas quanto Rei Lear, embora muito diferentes, mas é a arte dramática como um todo jamais superará Rei Lear, que ocupa o seu topo, assim como Édipo Rei, escrito dois mil anos antes; ambos continuarão modelos de arte dramática enquanto perdurar a espécie humana.”

Comentário

Arte e ciência não correm em linhas paralelas. Imbricam-se, enlaçam-se em momentos históricos em que predomina a concepção de uma escrita de base realista e mesmo naturalista como no século XIX. Afastam-se nos períodos de arte intimista e psicológica. Voltam a encontrar-se em ambientação de fidelidade histórica, como nos romances de Sthendal e Walter Scott. E perdem-se em horizontes de nevróticos versos simbolistas para renascer em autobiografias dee Annie Ernaux ou na sofisticada reconstituição do sul dos Estados Unidos, feita por Faulkner.

Enquanto a ciência, segundo Frye evolui, a literatura retorna a modelos passados para mostrar escritas contemporâneas que guardam, como pérolas em seu interior, os grandes livros lidos por escritores na língua viva do seu tempo presente.

O que Northrop Frye nos ensina é que preconceitos, frases feitas e mitos de um olhar objetivo e frio sobre a realidade humana como oposto ao olhar idealizador, imaginativo e e desfigurador da mesma realidade não encontram na literatura abrigo ou acolhimento. O gênero literário embebeda-se na pluralidade e adormece, pleno, nos braços generosos da linguagem.

A pressa e o impresso

” Filha destes tempos acelerados, nossa imaginação foi colonizada pela velocidade, pelo imediato e pela explosão de novidades que surgem e desaparecem umas sobre as outras. Vivemos fascinados pelas conexões instantâneas, pelos processadores cada vez mais rápidos e pela hipnose das telas. No entanto, toda essa tecnologia extraordinária foi concebida por uma máquina que trabalha devagar: o cérebro.
Obcecados pela pressa, corremos o risco de nos tornar mais crédulos, mais ávidos e mais domesticados.”

Irene Vallejo em Manifesto pela leitura. Porto Alegre: Dublinense/Seiva, 2026A

Brasília, Capital da Esperança.

Marta Morais da Costa

Ando por demais pessimista.

Quando Juscelino Kubitschek de Oliveira inaugurou Brasília fez um emocionado discurso, exaltando o poder transformador da nova capital do Brasil. Citou André Malraux em sua profecia a respeito dessa cidade nascendo do chão desértico, a Capital da Esperança. Seguindo o mesmo tom ufanista, Juscelino envolveu no momento glorioso de sua gestão todos os colaboradores, dos figurões aos operários e não poupou uma visão eufórica do feito mais relevante de seu governo:

Em nenhum momento de sua oração retórica tratou dos políticos e de seus gabinetes e dos ocupantes dos Três Poderes. Dirigiu-se a nós e ao futuro: “Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.”

Bem, hum, ham, pois é. Após 66 anos, o resultado de toda essa empolgação cabe em uma caixa de isopor (com cadeado, claro, porque deve ser sigiloso), a tal “revolução fecunda em prosperidade”.

Correta está a letra do Hino Nacional: “deitado em berço esplêndido”.

Meu pai, aventureiro arrojado, esteve em Brasília enquanto a cidade surgia do chão. Voltou a Curitiba, empolgadíssimo. Disse para minha mãe: “Apronte as malas. Junte tudo que é nosso. Vamos pra Brasília.” Minha mãe, sábia, cercada do quinteto filial, não arredou o pé: “Só saio daqui morta!”. Foi uma rebelde exemplar e certeira.

Hoje, solidários aos brasileiros sem penduricalhos, sofremos a prosperidade alheia e consideramos que a “Capital da Esperança” é uma fake news vetusta e seletiva.

Mais ainda: sofremos de neurose informativa. É só o veículo de comunicação chamar o repórter de Brasília que já erguemos a bandeira da desesperança. E ouvimos tilintar nossas moedas, escorrendo do bolso e caindo na vala comum.

Ai, ai, Brasília, a menina dos olhos e do coração do Presidente Bossa Nova metamorfoseou-se em vampira.

Nossos filhos nos olham em silêncio. Lá dentro deles, a voz da realidade, grave e soturna, nos acusa.

– Ingênuos, crédulos, ladrões de futuros!

Abaixo a cabeça, fecho os olhos, o coração em frangalhos e o pensamento sob um manto de chumbo.

Futebol

Marta Morais da Costa

O aniversário foi ontem. Hoje é a festa com bolo, velinhas e futebol.

O menino pediu presentes: cada amigo era um.

Tinha goleiro frangueiro, zagueiro fortão e ladrão de bola, centroavante goleador e ponta pra passar e marcar.

Ninguém perguntou peso, idade ou cor. Ali na igualdade, todos eram solidários. Cada qual em sua função.

Bola tocada, bola chutada. Se fosse gol, comemoravam. Se não fosse, comemoravam também.

Inimigo? Nem no time contrário. Afinal amigos a favor ou contra são sempre amigos. Para o que der e vier.

Pro bolo, pra bola,

pro choro, pra glória.

Gol, goles, gula,

jogo tudo junto

e misturado:

a festa é de todos

e futebol é equipe.

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