Juntas em dia frio

Marta Morais da Costa

Atravessam minhas velhas juntas o frio e a preguiça. Um me paralisa diante do aquecedor. A outra me paralisa diante do computador.

É quando a preguiça toma conta, que o cérebro à toa decide e exige a escrita. Toda razão aos romanos: se o ócio domina, vão-se os negócios! E tudo é só deleite, de café e de vinho. Escrever traz todo o trabalho para dentro e é como se não fosse trabalho (tripalium, voltam os romanos: aquilo que tortura).

Tem quem me diga por que você não sossega? Outro me alfineta aposentou pra quê? De novo escrevendo? Isso não vai dar certo. E rolam estigmas, desalentos, ralas invejas.

Além das juntas, a idade corrompeu os tímpanos que perderam sua acuidade e viraram paroxítonas, timpano, timpano, cada vez mais roucos e moucos, negando os graves e alisando os agudos.

Fui sendo alfabetizada e letrada ao longo da vida, mudando de escala e de intensidade. Já prevejo mais uma aprendizagem, desta vez sem palavras faladas, só nas mãos – sem canetas ou teclados – mas na dança dos sinais. Talvez para compensar as juntas duras avessas à dança, as mãos dançarão, bailarinas não previstas a realizar aquilo que o corpo exigiu de esforços, e não teve recompensa. Dancei como Ginger Rogers e Cid Charisse nos braços de Astaire em todos os filmes a que assisti. E tomei chá de cadeira em todos os bailes da vida.

Faz mal, não. Lembra o ditado: quando a vida fecha uma porta, Deus abre uma janela? Pois é: quem tem pernas e quadris imóveis, dança com as mãos. Manuletrare, diriam os romanos se falassem o estrupício de latim que penso saber.

Advertência ao possível leitor: o frio e a preguiça somam-se em uma escrita macunaímica sincrética e desacreditável. Lá no romance, o piá confessa em nuvens de ingenuidade que mentiu. Com a cara-de-pau latino-americana, tem todas as etnias e vizinhanças e sai supimpamente para continuar mentindo e arrotando grandezas.

Não sou capaz de tanto, painho Mário de Andrade. Mas tenho também meus sincretismos : a preguiça de hoje juntou em um texto sem-vergonha algumas meninas de cabelos brancos e com zoínhos revirando de gosto, a contar seus desgostos e fragilidades, bebericando um chá mais a sustância de um bolo de fubá.

Eita povinho que se queixa de barriga cheia!

Para além da janela da sala onde escrevo sobre velhezas, vejo passar pessoas que não têm tripalium, mas têm os olhos fundos de fome e de abandono.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Memória, leitura e comemorações

Marta Morais da Costa

Neste 9 de agosto, meu pai faria 100 anos. Essa nossa ocidental preferência por números decimais e, talvez, a imagem mítica de Matusalém vivendo um século podem estar na origem de uma celebração desse percurso de tempo.

Para além dessa motivação numérico-religiosa está a ação da memória que, ao constatar na folhinha a data repetida durante muitos anos, que vinha acompanhada de abraços, festejos e presentes, presentifica imagens, palavras, recordações.

Gosto do termo recordações, que tem em seu centro a palavra coração. O latim cordem amarra-se ao prefixo de repetição e ao sufixo de ação e temos o passado em movimento. A data e o coração tomam de assalto a memória e num átimo atômico, o pregresso regressa.

Para sua leitura tranquila,  ó raro leitor ó esquiva leitora, não pretendo falar de emoções filiais, de sentimentos de falta, de histórias familiares extintas.

Quero tratar da memória. O neurocientista Richard Restak publicou recentemente no New York Times uma recomendação de cuidados com a mente e exercícios para preservar a memória. O primeiro desses cuidados é o da atenção, que exige um desapego de diversionismos e derivativos e uma constante vigilância para manter a focalização.

Quando ler dá sono, podemos apostar que o leitor está à beira de um colapso por excesso de trabalho ou sua atenção ao texto que lê se perdeu. Não se exclui, é claro, o falso leitor, aquele que faz pose de, o desabituado de leituras, até mesmo avesso a elas, que, para não passar vexame público, finge que leu.

Nesse artigo, Restak recomenda como exercício para a memória “ler mais romances”. Esta ingênua e persistente mediadora de leitura aqui, ao ver essa recomendação, elevou o neurocientista ao Panteão dos Gurus da Leitura.

Cá pra nós (como aprecio esta expressão de cumplicidade!), acompanhar um texto verbal longo não é para qualquer leitor digital ou de imagens (sequenciadas ou não). Talvez isso denuncie a memória curta de grande parte de cidadãos brasileiros… Não lembram o que viam e leram em curto espaço de tempo. Mais ainda, procuram apagar da memória, como se a vida fosse uma página em branco que se escreve a cada dia. Como se fôssemos seres caídos de galáxias vizinhas e de olhos completamente sem história nem imagens precedentes.

Ler um romance é exercitar a capacidade de lembrar. Lembrar personagens, espaços, imagens verbais poderosas e situações que aconteceram não a milhas de distância, mas há algumas páginas atrás.

Minha longa história com meu pai se encadeia  e se circulariza a cada dia à medida que mais dias cabem na minha biografia. Não é apenas no espelho que o reencontro. São frases, conceitos, conselhos. A nem todos adotei ou segui. Sem arrependimentos. Foram escolhas, desacordos e recusas. Como qualquer filho em sua relação com os pais, Freud explicou. Como a própria história das nações e dos povos: a imagem do Pai precisa ser superada para que a civilização possa afirmar-se.

A lembrança de meu pai no seu centenário me faz pensar mais agudamente e com tristeza no bicentenário do Brasil. E, no espelho dessa comemoração cívica, eu não me reconheço.

Fonte: https://www.estadao.com.br/internacional/nytiw/exercicios-mentais-e-mudanca-de-habitos-neurologista-da-dicas-para-proteger-a-memoria/. Acesso em 7 de agosto de 2022.

O escritor

Marta Morais da Costa

Era um escritor desorganizado que escrevia à mão em folhas soltas. Alguns textos terminavam em uma só folha. Outros se estendiam por várias, que ele nem se dava o trabalho de numerar.

Espalhava os escritos pelo escritório: sobre a mesa de trabalho, sobre a poltrona de leitura, sobre o armário. Dentro de gavetas, pastas e caixas.

Depois recolhia os textos desordenadamente. Assim, a história de um pato manco continuava na história do menino alemão que viajava pelo Alasca. A história do navio fantasma virava de repente a do lobo faminto, perdido na floresta.

Por isso, nasciam histórias incríveis, que surpreendiam os leitores. No entanto, era um escritor famoso porque suas histórias pareciam relatos de sonhos.

E ele era amado por isso, porque os leitores esperam muitas vezes que o fantástico venha preencher os vazios da vida real.

Agora, o escritor está se aperfeiçoando. Escreve frases isoladas em pedaços de papel que espalha pela casa toda.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Irene Vallejo

Você acha que o mal é um aliado da literatura?

Acredito que a literatura visa explorar o nosso interior, tanto os espaços luminosos quanto o subsolo escuro. Não creio que haja uma aliança entre o mal e a escrita, mas entre a criação e o humano em todas as suas facetas. Cada artista inventa o seu próprio percurso e mapeia os territórios que mais o fascinam. A bondade, como o mal, tem complexidades interessantes. Nosso Quixote, por exemplo, mergulha nas contradições de um personagem que aspira a ser justo e ajudar pessoas carentes, mas que comete grandes erros ao tentar colocar suas ideias em prática. O Idiota, de Dostoievski, é seu herdeiro. Uma literatura que só se interessasse pelo mal seria tão pobre quanto a literatura exemplar.

E aqui derivamos outro debate contemporâneo: a corrente que defende eliminar dos clássicos as palavras e ideias que dos nossos parâmetros atuais achamos inadequadas, especialmente os livros infantis e juvenis. Na minha opinião, é preciso aspirar a que os jovens entrem em contato com criações complexas, não com manuais de conduta. Personagens malignos são um ingrediente crucial nos contos tradicionais, para que as crianças aprendam que o mal existe. Mais cedo ou mais tarde eles terão notícias dela (dos valentões que os assediam no pátio da escola aos tiranos genocidas). O maravilhoso e perturbador Flannery O’Connor escreveu que aquele que “lê apenas livros edificantes está seguindo um caminho seguro, mas um caminho sem esperança, porque lhe falta coragem. Se por acaso você lesse um bom romance, saberia muito bem que algo está acontecendo com ele”. Sentir algum desconforto faz parte da experiência de ler um livro; há muito mais pedagogia na inquietação do que no alívio. Podemos colocar toda a ela vai parar de nos explicar o mundo. literatura do passado sob a faca para cirurgia plástica, mas então  ela vai parar de nos explicar o mundo. “

Parte da entrevista de Irene Vallejo publicada em :

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,best-seller-mundial-narra-a-espetacular-historia-do-livro,70004120020

A espanhola Irene Vallejo é autora de “O infinito em um junco” sobre a história do livro.

Que diriam os fariseus sobre Monteiro Lobato?

Crença

Marta Morais da Costa

Atrás de qualquer porta

a lua pode te seduzir.

No muro que te cerceia

a curruíra faz seu ninho.

Na paisagem deserta

a flor oculta as pedras.

Na árvore seca

a cigarra vem cantar.

Por trás da pálpebra

o olho busca a luz.

Assim o tempo que te corrói:

preserva em um átimo

nítidas lembranças

e a frágil esperança

da sobrevivência,

fortuita,

aleatória.

Livro

Foto por rikka ameboshi em Pexels.com

 

 

 

Todo livro principia

no ponto de encontro

da ponta com o papel.

 

Lápis ou caneta,

pouco importa.

 

Qual broca na rocha

a ponta cria o ponto

de onde jorram águas

                ainda impuras,

represadas,

embebidas

de matéria orgânica

que fertiliza a escrita

na enchente das páginas.

 

Agricultor zeloso,

o escritor se entrega

ao solo copioso

a separar o joio

– que indiciará a realidade –

enquanto faz do trigo

o pão das utopias.

 

Marta Morais da Costa

Ética

Marta Morais da Costa

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Acreditava no amor, aquele que é doação, sinceridade, respeito e resiliência.

Mas continuava solteiro. De todas as namoradas, nenhuma cumpriu a lista de qualidades exigidas.

Acreditava na amizade, nas trocas, na companhia para todas as horas.

Mas vivia encerrado em casa, solitário. Amigos com problemas e sem humor eram deixados de lado.

Acreditava na ciência. Toda a ciência: a que cura, a que moderniza, a que inventa. Até aquela que planeja e constrói coisas feias.

Mas caiu nos braços da superstição e da magia. A ciência havia trazido a guerra e a ganância.

Acreditava na educação como impulso para vidas marcantes.

Mas doou todos os livros, rasgou diplomas e vendeu computador e celular. A educação desejada só vai chegar quando ele não mais estiver sobre a terra.

Acreditava na felicidade plena em comunhão com a natureza.

Mas morava em um apartamento de 30 m² de frente para outro apartamento de frente para outras janelas fechadas de frente para paredes sem reboco.

Acreditava em todas as igualdades e em todos os méritos.

Mas descobriu o preconceito, Medusa indestrutível.

Acreditava na paz de espírito com a chegada da velhice.

Está morrendo aos poucos entre gemidos e dores: gasto, roído e triturado.

Não acreditava no poder da mentira e da fraude.

Viveu e viu.

Indignação

Marta Morais da Costa

Hoje é dia do Corpo de Cristo.

Amanheci com a ressaca da notícia do encontro de “remanescentes humanos” (eita, expressão pra acalmar consciências entupidas!) dos assassinatos na Amazônia.

O engulho só aumentou: meu estômago forte já não consegue resistir a tanta porcaria que querem que eu engula neste país.

A democracia de araque em que tornaram o Brasil provoca náuseas em quem batalhou pelas “Diretas já!”.

Diretas à direita, volver! Diretas à direita, não quero ver! Quero Diretas pra escolher entre muitos lados e direções.

(a) Piolim e todos os palhaços em que querem me transformar.

Foto por BROTE studio em Pexels.com

Após a chuva

Marta Morais da Costa

O dia amanheceu úmido, neblinoso. A chuva havia lavado a calçada, os ninhos, as folhagens. A água levara com ela a secura dos olhos, da boca, do coração. O poder sonoro dos pingos saindo das calhas, pingando do telhado, escorrendo folhas abaixo, derramando-se pelo chão trazia conforto e sonolência.

Era um dia outro. As paredes calaram as ofensas, os móveis guardaram a violência do olhar e das mãos. O rosto marcado suavizou-se. Havia ainda esperança.

Que passava longe da presença dele, da frieza do olhar, da rudeza da fala.

Era feita de pedaços de lembranças felizes, de toques sedutores, de carícias de fogo. Era uma presença tênue do passado que se agigantava enquanto o presente projetava uma pequenez ameaçadora.

“Sua vadia! Preguiçosa! Enquanto eu ralo pra trazer comida pra casa, você se esbalda nesse sofá o dia inteiro! Cadê meu almoço?”. A ladainha era longa, os gritos alcançavam a vizinhança. Quando saísse à rua tinha certeza o olhar dos vizinhos teria a mesma frieza e desprezo que rondava os quartos, a sala, a cozinha de sua casa.

Não saía.

Consolava-se com o vídeo da cerimônia de casamento a rodar em sua solidão os momentos de alegria, de beijos e abraços, de valsas e cantorias, de um noivo carinhoso e de amigos risonhos. Vivia nas imagens o que a vida lhe roubara no cotidiano.

Não se defendia.

Jamais mostraria a ele, em palavras ou atos, a dor da solidão, a mesquinhez da vida sem horizontes, os sonhos derrotados.

Lembrava as queixas da mãe, as confissões das amigas. Por onde andam essas mulheres? Terão rompido os grilhões, cavado seu túmulo em vida, escolhido a cabeça baixa, o sim senhor? Escalaram o muro e vivem do outro lado, sorrindo suas dores, os olhos brilhando e o coração em sossego?

Culpa sua se nada sabe delas. Escolheu sua solidão e o prazer em humilhar-se e silenciar.

Mas um dia…

Quem sabe um dia após uma tempestade. Um dia após um dilúvio. Outro amanhecer e uma nova neblina…

Levanta do sofá, desliga o televisor, esconde o vídeo e se propõe a caprichar no almoço. Para quem? Sem perceber, desvia da cozinha e se descobre no quarto. Vazios os cabides, a sapateira. Foram-se ternos camisas gravatas e os pijamas. O guarda-roupa sorri entre as falhas das prateleiras. Vazios se completam.

Coloca sapatos altos, vestido novo, maquilagem o quanto baste. A chave da casa à mão. Sai e fecha a porta da rua, chaveia, guarda a chave em lugar protegido na bolsa. Talvez um dia volte. Ou não.

Gostei e recomendo 1

Henrique Rodrigues

E o escritor tímido, como fica?

PUBLISHNEWS, HENRIQUE RODRIGUES, 19/05/2022

Em sua coluna, Henrique Rodrigues questiona a lógica de mercado que vem balizando a vida literária contemporânea

Na semana passada participei de uma sequência de encontros literários em diferentes formatos. Aceitamos os convites distraidamente e, quando nos damos conta, estamos acendendo um cigarro no outro, como se dizia antigamente. Sempre detestei cigarros, aliás.

Por conta dos eventos encadeados, acabei fazendo um tipo de mashup (em bom português: mistureba) mental de assuntos relacionados ao universo de livros, vida literária, censura, pautas identitárias, educação e congêneres. Naturalmente, essas temáticas estão relacionadas entre si, mas sabemos que os melhores debates são aqueles que deixam pontas soltas, gostinho de quero mais, pulgas atrás das orelhas e outras expressões populares que apontam o desejo de continuidade.

Algumas questões continuam me perseguindo até agora, enquanto batuco o teclado. Uma delas foi a necessidade de valorização dos professores, categoria tão exaurida moral e financeiramente, e ao mesmo tempo sobre a qual vem recaindo uma demanda administrativa tamanha que dificulta fazer algo fundamental como ler um livro e pensar sobre ele. Se entendemos que a mediação cultural no processo de formação de novos leitores é uma das etapas mais relevantes no tecido cultural, e que os educadores são os grandes agentes nesse processo, não dá para tratar esses profissionais como burocratas ou, para usar o eufemismo corrente, designer de conteúdo educacional.

Outro ponto que ainda me enrosca a cuca e aperta o coração foi ver jovens falando poesia no evento literário realizado na quadra da escola de samba. Ali em Madureira, subúrbio carioca tão rico culturalmente – porém sem uma biblioteca pública –, a garotada cantava e declamava tudo o que precisa ser dito. No fim do poema, repetiam em uníssono o verso que ecoa aqui ainda: “Precisamos morrer todo dia?”. A pergunta foi para todos nós, não se engane.

Em outro evento no qual havia público escolar, o palco para selfies e um tipo de karaokê estava lotado, com jovens amontoados fazendo dancinhas com celulares em punho numa agitação efervescente. Já nos espaços com debates e apresentações de contadores de histórias estavam às moscas ou com meia dúzia de gatos pingados, à exceção daqueles com celebridades televisivas e/ou do próprio universo das redes sociais. O problema não é o primeiro cenário em si, porque a garotada curte a zoeira mesmo, ainda mais quando alunos saem para uma visita, e sim o segundo quadro. Eis que, durante o nosso debate (vazio, como soy), surgiu a questão sobre como os escritores usam as redes sociais e a internet como um todo. Um dos meus colegas de papo reconheceu a quase compulsão de passar o dia conectado, inclusive durante as refeições, ao passo que o outro acreditou ser um caminho sem volta que a turma da literatura use esses recursos profissionalmente. Foi dito que, para um autor se apresentar a uma editora, é preciso evidenciar o uso constante das redes sociais.

O papo me fez pensar algumas coisas na hora e depois. Com toda a dinâmica atual, em que o silêncio da leitura e da escrita foi substituído pela exibição quase fetichista dos escritores e artistas em geral, como ficam aqueles que, a despeito da qualidade do trabalho, não se enquadram nesses esquemas? Nessas condições, um grande escritor tímido e recluso jamais chegaria a ter o seu texto publicado? Dalton Trevisan, Raduan Nassar, J. D. Salinger morreriam na praia? Antes que citem o caso de Elena Ferrante, vale lembrar que a enigmática autora italiana (e nem sabemos se ela é uma autora mesmo ou várias pessoas) tem no segredo da sua identidade um grande recurso de marketing.

Quando a produção literária se torna refém do meio em detrimento da liberdade criativa, me parece que algo está distorcido. Não é raro percebermos autores cujo texto, quando lido, se mostra muito aquém da performance sensualizada, do ativismo político, da saraivada de elogios automáticos, das opiniões instantâneas e outros tantos vícios que as redes sociais trouxeram para o comportamento geral.

Sempre tive a sensação de que a experiência literária nos desloca para um tempo diferente, ou mesmo para a percepção diferente da existência. Do escapismo de um best-seller à leitura vagarosa de um clássico, a ideia é que a literatura nos transporta para outro lugar onde não somos atropelados pela necessidade vertiginosa, superficial e etérea da vida ordinária. Daí ela, a literatura, ser extraordinária.

Se vivemos no tempo em que uma expressão artística está tributária à mesma lógica que cria subfamosos oriundos de reality shows, sistema tão questionado pela fugacidade e pelo esvaziamento, não caberia à própria arte também questionar essa mecânica com seus recursos técnicos e específicos perante as subjetividades?

Faço essas perguntas também para mim, usuário que sou de algumas redes sociais. É preciso reconhecer todas as facilidades que esses recursos nos trouxeram, especialmente a possibilidade de interação com leitores. No entanto, comparando com a situação de 15 anos atrás, quando o grande atrativo dos nossos blogs eram os textos que tentávamos compartilhar, parece que tudo foi fagocitado e transformado em mercadoria moldada ao formato determinado pelo aplicativo do momento.

Não sei, algo me parece estranho. Em meio a esse mundo de aparências e dancinhas, talvez precisemos voltar à procura de leitores, em vez de seguidores e clicadas.

Acesso em 2 de junho de 2022:

https://www.publishnews.com.br/materias/2022/05/19/e-o-escritor-timido-como-fica?fbclid=IwAR1gZiMDrgD_2K26OHboEaD6QokcO0DR16W3zC51xO6BiZVfukk_RZhyW5Q