Destaque

Tocando as mesmas teclas

Marta Morais da Costa

Tem manhãs que são como holofotes sobre o nada. Muito trabalho e pouco resultado aproveitável.

Tem manhãs que são como roseiras em flor: o trabalho rende umas flores miúdas e bonitas, mas muito, muito espinho.

Tem manhãs que são como show de hard rock: muita luz, fumaça, barulho, maquilagem e gritos como se fosse música. O resultado? Cabeça à roda, corpo moído.

Tem manhãs com gosto de café, de terra molhada por chuva fininha, de sabiá cantando a alegria de filhotes. Dá vontade de escrever.

Hoje novamente foi assim.

Foto por Kaboompics .com em Pexels.com

O que veio para a ponta dos dedos foi uma cantilena antiga, ciranda de volta e meia, partitura toda de cor e ação, sons arcaicos, ritmo em dobras e voltas, ideias de voltas e dobras.

É que o assunto era a formação de leitores, “pra toda vida” dizem os utópicos; “na prática de sala de aula” pedem os ansiosos; “pra meus alunos deixarem os tabletes e os celulares” rogam os desiludidos.

O café, a chuva e o sabiá sonorizam e aromatizam a escrita. Só que ela vem dizer quase que o mesmo de anos passados porque o presente não soube ou não quis ver, ouvir, dançar junto, repartir.

Nas teclas já conhecidas o que surge é enumeração farta e aberta.

1 Gostar de ler é como amor feinho: leva tempo pra chegar, vem sorrateiro e fica morando pra sempre. Precisa de dois: olhares, recusas, balbucios, rubores, persistência. Mas quando chega, toma posse, instala-se, abre as janelas, purifica o ar e a alma.

Precisa de dois: eu e tu, tu e eu. Um livro e um leitor, apresentados em festa ou em velório. Presenteados: tu me envolves e eu recuo. Eu recuso, tu insistes. Tu demonstras e eu me calo. Eu te afasto, tu me cercas. Não te esqueço e tu me enlaças. Depois, cantam as harpas de Sião.

2 Formar leitores não é colocar em fôrmas. É estimular em alguém as formas de expressão, de extensão, de comoção. Formas são infinitas, pessoas são infinitas, livros são infinitos. Finita é a displicência, a ignorância, a desimportância e a falsa suficiência.

Precisa criar, rir, compartilhar, narrar e poetar o quanto não baste, nunca. Lançar ao ar as folhas da fantasia e as flores da sedução e esperar ansioso que elas caiam no colo de quem não sabia que as desejava tanto. Banir a tempestade das utilidades para um canto remoto; trazer no assovio a mutável imaginação para um namorico sob o leque da palmeira dançando com a brisa.

3 Leitura é infinda como as águas dos mares. Diversas em coloração, efêmeras em humores, fieis ao ir-e-vir constante, ora rasas-ora abismos, às vezes piscosas-às vezes perigosas, sempre maiores do que o tamanho de nossas vidas.

Quanto mais leio, mais releio. Quanto mais acumulo, mais devo. Quanto mais me despreza, mais me tem de joelhos. Quanto mais, quanto mais…

4 Um livro é uma máquina criada e movida por pessoas. Cadeia de gentes, seus elos são ares e olhares de quem pensa, age, recolhe e leva adiante. Elos de uma corrente que foi, é e virá. Diálogo entre tempos, têmperas e temperamentos. Corrente que integro e lego. O elo pequenino que sou suporta a torrente de todos os leitores.

O livro, indiferente ao meu afeto, segue, Casanova, em busca de mais amores.

Fragmento de O longo adeus, de Raymond Chandler (1953)

Personagem rico Harlam Potter dialogando com o detetive  Philip Marlowe (p.252-253)

 “- Não sou uma figura pública e nem tenho a intenção de ser. Sempre tive muito trabalho evitando qualquer tipo de publicidade. Tenho influência, mas não abuso. (…) Nós vivemos no que se chama de democracia, regida pela maioria do povo. Uma ideia ótima se chegasse a funcionar. O povo elege, mas são as máquinas partidárias que nomeiam, e as máquinas partidárias, para serem eficientes, precisam de muito dinheiro. Alguém precisa dar esse dinheiro a eles e este alguém , seja um indivíduo, um grupo financeiro, um sindicato ou o que você quiser, espera alguma coisa em troca. O que eu e gente como eu esperamos é simplesmente viver nossa vida numa decente privacidade. Os gritos constantes em favor da liberdade de imprensa, com algumas honrosas exceções, significam liberdade para lidar com escândalos, crimes, sexo, sensacionalismo, ódio, alusões indiretas ou os usos políticos e financeiros da propaganda. Um jornal é um negócio feito para faturar através  das vendas de publicidade. Esta é uma pré-condição à sua circulação e você sabe do que a circulação depende.”

(…)

“Há uma coisa especial em relação a dinheiro – continuou. – Em grandes quantidades, tende a ter vida própria, até mesmo uma consciência própria. Fica muito difícil se controlar o poder do dinheiro. O homem sempre foi um animal venal. O crescimento das populações, os enormes custos das guerras, a incessante pressão confiscatória dos impostos – tudo isso faz o homem cada vez mais venal. O homem comum está cansado e assustado, e um homem cansado e assustado não pode ter ideais. Precisa comprar comida pra sua família. Na nossa época presenciamos um declínio chocante tanto na moral pública quanto na moral privada. Não se pode esperar qualidade de pessoas cujas vidas são uma sujeição à falta de qualidade. Não se pode ter qualidade com produção em massa. Não se deseja isso porque demoraria muito a chegar. Portanto, para substituir isso há o estilo, que é um logro comercial com a intenção de produzir coisas obsoletas e artificiais. A produção de massa não poderia vender seus produtos no ano que vem a não ser que faça o que vendeu este ano ficar fora de moda. Temos as cozinhas mais brancas e os banheiros mais brilhantes do mundo. Mas na adorável cozinha branca a dona-de-casa americana média não consegue cozinhar uma refeição boa de comer, e o adorável banheiro brilhante é sobretudo um receptáculo para desodorantes, laxativos, soníferos e produtos desta quadrilha de vigaristas que se chama indústria de cosméticos. Nós fazemos as embalagens mais bonitas do mundo, sr. Marlowe. O que está lá dentro é, na maior parte, lixo.”

A educação negada

Marta Morais da Costa

Foto por Stephen Paris em Pexels.com

O que é pior do que uma educação formal capenga? A ausência de educação.

A geração nem/nem apresenta crescimento constante . Não estudar e não trabalhar têm a ver com um país que desvaloriza o conhecimento (mesmo que aprove a fachada falsa de um diploma, muitas vezes adquirido ou conquistado sem empenho do estudante). Não estudar tem a ver com projetos de protagonismo: para que estudar se, mesmo sem escola, fulanos “se dão bem na vida”?

O não trabalhar tem várias causas. Uma delas, sem dúvida, se chama parasitismo. Machado de Assis bem o configurou na “teoria do medalhão” e em muitos personagens cínicos e desocupados.

O que é pior do que a pandemia para reduzir o aprendizado dos estudantes? A guerra.

Quando um milhão e quinhentas mil crianças são obrigadas a deixar seu país em vias de destruição, as escolas podem oferecer apenas um abrigo formal, já que o simbólico deixou de existir. Bombardear escolas não é matar exclusivamente os habitantes perseguidos por bombas e fuzis. É matar o que representam simbolicamente como futuro do país. Ali se realiza concretamente o que os estudantes de gerações passadas mais temiam: levar bomba em alguma disciplina.

Mas há outras formas de arrasar com a educação adquirida nas escolas. Ela pode começar com traques de São João, com bombinhas juninas e busca-pés, até chegar às armas biológicas dos desvios de verbas e leis retrógradas, além do caradurismo terraplanista e a anticiência.

A diáspora infantil espalha uma cultura riquíssima como a ucaraniana, divide-a e pulveriza. Lança as crianças em ambientes hospitaleiros, mas distantes do solo natal em geografia e ambiência cultural. Além de todas as dificuldades psicológicas e afetivas que toda guerra alimenta e faz crescer.

Mas guerras cruéis têm nuances e naturezas diversas. No Brasil, ela é silenciosa e matadora, como se promovida por assassinos de aluguel. Age nas sombras, nos detalhes, em busca do momento adequado para destruir.

O que é pior do que a guerra e a pandemia para destruir a educação? A omissão dos agentes políticos e pedagógicos.

Não é de hoje, não é do período pré-pandemia, não vem do início do século XXI, a destruição da educação brasileira. É projeto que se desenvolveu e desenvolve silenciosa e cruelmente há algumas décadas.

Gabriel Gabrowski, no jornal Extraclasse, editado no Rio Grande do Sul, faz uma análise bastante séria e apontando reais causas do que intitula “Apagão ou destruição da docência no Brasil”. Recomendo a leitura em https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2022/05/apagao-ou-destruicao-da-docencia-no-brasil/.

Do artigo, extraio um fragmento: “Registra-se ainda, o desprestígio e a desvalorização  social; a contestação e não pagamento do piso nacional por gestores públicos; o exercício da docência em áreas conhecimento sem habilitação acadêmica; a insegurança provocada por mudanças nos planos de carreira no efetivo exercício e na aposentadoria; a ausência de políticas de apoio financeiro na formação inicial e continuada; a responsabilização dos professores pela falta de condições de aprendizagem dos estudantes e, a desresponsabilização dos gestores públicos pela má gestão da educação.”

Cada um desses itens representa um grau a mais no terremoto que causa fissuras, desequilibra, desmonta e implode o edifício da educação brasileira.   E a quem isso efetivamente importa? Não aos que detêm o poder de corrigir e alterar a situação. Importa mais a quem só perde com ela. Os alunos que nem sabem que perdem, porque não ganham nunca. Os professores que sabem que perdem porque sonharam e trabalharam para obter aprendizados e profissão respeitada. Os pais – em especial os que acreditam na educação como fundamento para a melhoria de vida de seus filhos – porque sabem que as crianças e adolescentes não sabem e sabem que seu esforço pessoal e financeiro se esboroa no desencanto.

Quem ganha? Os discurseiros de boca de empáfia, os que cobiçam os tostões das verbas, os que rapam o fundo dos tachos em sua gulodice de notas e moedas.

Enquanto isso, os cursos de licenciatura minguam, os possíveis bons e dedicados professores abandonam as salas de aula para buscar sobrevivência alhures, os alunos ficam entregues a um ensino lacunar, precário, insuficiente para capacitá-los a profissões minimamente dignas, afastando-os de uma vida com esperança.

“Estudos e dados do INEP/MEC indicam que a maioria dos professores em efetivo exercício possuem 50 anos ou mais, enquanto os professores com até 24 anos correspondem a menos que um quinto. O censo do ensino superior 2020, publicado recentemente, confirma tendência de redução de matrículas nos cursos de licenciatura nos últimos anos. O último censo revela, também, que os Cursos de licenciaturas tiveram o menor ingresso (18%)”, escreve Gabriel Gabrowski.

Nada contra o envelhecimento dos professores nas salas de aulas, mas tudo contra a falta de renovação, da convivência com o novo, com o entusiasmo e com os vislumbres de futuro que um professor jovem traz ao coletivo.

Na geleia geral da cultura obtida por meio do conhecimento propiciado pela escola que desaba, não me causam espécie as manifestações de pouco apreço pelo estudo e a intensa revelação de espíritos obscuros e orgulhosos de sua ignorância.

De mansinho

Marta Morais da Costa

“Ele foi chegando de mansinho.”

A frase não me saía da cabeça. Lia textos, arrumava a casa, aguava as flores, passava a roupa. E ela continuava a martelar o cérebro e a memória.

Quem era “ele”? Chegava aonde? Por que de “mansinho”?

A frase foi ganhando boca e olhos, uma silhueta desenhou-se e ele veio andando para dentro de mim. Sem nome, sem perfil, somente andando.

Passei a emoldurar um rosto: cabelos negros, encaracolados. Abundantes. E uma fala tranquila e clara: “Cheguei.”

Ainda não consigo distinguir um nome e qual é nossa relação. Mas é de amor, sinto.

Aos poucos descubro que ele morou comigo por um tempo. Ocupou um espaço. E meu pensamento. Mais do que isso: conheceu meus desejos e meus desamores. Nutriu-se de um modo de olhar para o mundo e para as pessoas, que encontrava pontos de semelhança com o meu. Mas diferente em arestas e colorido. Como se o menino quisesse mostrar independência, sem provocar divergências.

Aos poucos desfiava-se um rosário de sons: ora falas, ora cantigas. E a gente brincava, se divertia e silenciava. Mas logo depois a conversa fazia uma curva e retornava mais lenta, com fendas e desvãos. A gente pensava que pensava em um e no outro. Até nem precisar falar, olhando, de mansinho. Rindo, de mansinho. Amando.

Agora sei quem ele é. Por ele, conheci outras frações de mim.

E talvez ele saiba que partes são essas.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Em 9 de maio de 2022

O acordeão, a flauta e o violão

Marta Morais da Costa

Dizia a velha flauta ao acordeão bailarino:

– Enquanto grito tesa e louca, você dança e sacode a pança. No mesmo ritmo, enquanto eu choro, você ri.

– Engano seu, dona Flauta, responde o acordeão. Minha dança me cansa. Sinto-me pesado. Mas você parece esbelta e faceira.

Enquanto a conversa seguia, o violão, sem alarde, fazia ressoar dores de amor nas notas tristes de um samba canção.

Na orquestra da vida, cada um e todos se queixam, enquanto a música não para.

Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

Tempos de Van Gogh

Marta Morais da Costa

Foto por Efdal YILDIZ em Pexels.com

Caros leitores, preciso alertá-los: o título desta crônica pode induzi-los a erro. Se vocês esperam um texto curto sobre a obra desse magnífico pintor, ficarão frustrados. Se, ao contrário, acharem que é presunção desta cronista querer em parcas e frouxas linhas abordar a obra de tão magnífico pintor, estarão duplamente certos: a cronista é fraca e o texto será sempre insuficiente, com poucas ou muitas linhas. Se vocês pensarem “lerei um panorama em voo de drone sobre o período histórico (magnífico!) em que viveu o magnífico pintor”, terão sido igualmente iludidos por uma crônica cujo título não corresponde ao conteúdo.

Para que não me acusem de usar o nome de tão magnífico pintor em vão, passo rapidamente a esclarecer um título que, confesso, é tão e muito pretensioso.

Um quadro de Van Gogh arremessa (assim mesmo, com violência) o espectador em um nebuloso mundo de torções (figuradas e imaginadas) de um espírito especialmente contorcido. Espectador-passante é tomado de abrupto pela mão que acorrenta o olhar num abismo de cores e curvas e linhas e dimensões arrebatadoras e provocadoras: o mundo e suas paisagens incitam mergulhos em razão e sentimentos convulsionados e convulsionáveis. O magnífico pintor faz do olhar de conforto, da arte de conforto – de qualquer conforto – rotos trapos, fiapos de conhecimentos prévios em derrocada, conduzindo a caminhos desconhecidos para um mundo também ele em convulsão.

A fórceps retorno à realidade de meu tempo, saio da arte para a natureza, desligo-me dela para um sobrevoo em textos nada perenes de um mundo convulsionado que amanhã oferecerá mais distorções, mais sangue, mais decepções e, provavelmente, mais espinhos transfixantes em meu desejo de ver pessoas vivendo em dignidade e em mútuo apoio.

O outono, versão idosa da primavera, não tem as cores vibrantes de Van Gogh – amarelos, azuis, verdes pujantes – mas é maravilhoso em seus tons alaranjados, marrons e verdes recolhidos. O sol outonal tem poentes indescritíveis em seus tons de saudade e carícias no pouco calor que amortece o dia, resfriando as noites de luares entre nuvens. O outono contém em sua expressão natural um rito de aquietação, de aceitação do inverno que se aproxima. Ao mesmo tempo, mantém o fio da esperança de ainda longínqua, mas previsível, primavera.

Gosto dos meio-tons outonais, do colorido que mistura o atrevimento e a decadência, o anúncio da claridade com a neblina, a chuva que traz o frio e o frio que se aquenta ao sol tímido, as flores a viver à beira do desaparecimento, as folhas que se recusam a cair em definitivo, as sombras que encurtam os dias. Outono sou eu, quase inverno, prestes a desaparecer.

Essa beleza incontestável de um tempo natural adequado ao ritmo das estações e da vida encontra sua desestabilização nas ações humanas.

Em um país cuja violência, tão frequente que deveria estar explícita no dístico da bandeira brasileira, outono ou primavera serão sempre tempos de conflagração. Não importa o calendário, tão desrespeitado quanto as leis: vide o carnaval desestabilizando para pior a marcha regular da natureza; vide o desassossego instaurado por falanges infratoras no que poderia ser o momento de retomada da vida após a cruel pandemia. Uma sociedade esmagada novamente em seus projetos de futuro por condições econômicas vividas como flagelo e causa de desumanidades. Neste país, o outono mais plácido (em tuas margens plácidas, ó Ipiranga!) é convulsionado pela fome e pela ambição, a revelar os piores estados de espírito, da poltronice à selvageria. Uma espécie de Van Gogh desvestido de arte, a causar não o impacto da beleza, mas o estupor da imbecilidade da humanidade degradada.

A Ucrânia devastada, a democracia rebaixada aqui e alhures, a emigração forçada, a degradação dos valores humanos, uma sociedade falseada, virtual e de avatares.

Estou mesmo outonal: a convulsão da arte de Van Gogh saiu dos olhos e da mente. Chegou-me ao coração em forma de profunda descrença. Talvez sem primavera.

Hoje é Dia do, da, de…

Marta Morais da Costa

Foto por Gert Coetzee em Pexels.com

Confesso que a indiferença a datas comemorativas há muito tempo me assola. Em insana consciência acuso a leitura por esta falha calendárica. Essa indiferença resultou de ter bebido  o chá em que o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Domidongo comemoraram um  desaniversário em “Alice no país das maravilhas”. A proposta revolucionária de Lewis Carroll acendeu em mim uma lampadinha de descoberta: enquanto brindamos aniversários, datas cívicas e comemorativas de 24 horas, ocultamos outro tempo, muito mais longo, em que a vida pode nos brindar com alegrias mais intensas, com encontros mais inesperados, com brindes surpreendentes.

As datas marcadas e limitadas podem ser motivo de lembrança mais aguda e total. No Natal vamos lembrar mais intensamente os que nascem e os que compõem nossa vida com sua presença. No dia do professor, mais nos lembramos de reivindicações e de valores da profissão. Embora em cada aula, em cada preparação, em cada trabalho extraclasse o dia do professor faça sentido intenso e mais real.

Nos dias de vantagens ao comércio, como os dedicados aos pais, às crianças, aos namorados, às mães, uma rosa é menos rosa do que em dias não marcados. A surpresa e o inesperado perfuram os muros de distância e iluminam o olhar desprevenido. Aquele bilhete inesperado palavreando o afeto, mesmo que deixado em comezinhas mesas, em desengonçados aparadores, em espaços premidos entre louças e panelas, na contumaz porta da geladeira ou no teclado do computador podem alvoroçar sentimentos, revolucionar lembranças, incendiar afetos frios e apáticos.  

A linguagem do afeto não recusa palavrões e transborda em gestos, falas e ações, vestidos do mais torpe figurino, ousando fazer crer que a violência é uma forma de amor, que o assédio é atenção, que autoritarismo é cuidado. Ao arrepio dessa inversão, o coração demanda janelas e respiradouros e se lança ora em abismos de solidão ora em cachoeiras de rebeldia, deixando atrás de si silêncios e pedras, espinhos, limo e lodo.

Não é um dia assinalado em agendas e calendários que os afetos nada pacíficos, mas que almejam encontros verdadeiros, buscam saídas, consolo e retribuição. É no dia a dia dos suores, das rotinas, das pressas silenciadoras que eles se camuflam e se recolhem em esperas que, sem menos, explodem em revelações. Aí não importam datas, presentes e cumprimentos: somente o tempo presente e a indispensável presença.

O  “Oscar da lacração”

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Que a língua é um organismo vivo, sabemos.

Que os falantes contribuem com termos novos continuadamente, já sabemos.

Que as gírias e jargões identificam, entre outros, grupos sociais, econômicos, profissionais, culturais e etários, estamos cansados de saber.

Mas (há sempre um mas no meio do caminho) ter que ir buscar no dicionário o significado da manchete de uma notícia para confirmar se o que a oralidade nos conta é a mesma narrativa que a língua escrita compreende, dá uma torção na autoestima. A gíria que desconheço é proporcionalmente mensurável com a idade a que consegui chegar. Em palavras mais cruas: pô, estou velha!

Na leitura diária dos jornais, geralmente feita como um exercício de despertar (em vários sentidos), encontrei hoje cedo a manchete que serve de título a esta crônica.

Não assisti à cerimônia da entrega do Oscar 2022. E não foi somente a este evento: não me movo no movie segundo o que a estatueta comanda. Tenho curiosidade, claro, como sou curiosa por resultados de futebol, por estatísticas, por pesquisas, por previsões e resultados de eleições. Procuro manter disso tudo uma distância que me permita continuar saudável. Principalmente manter o sono estável. Sem aquela de “sou inocente e durmo tranquila”! Durmo com todos os meus pecados, principalmente com os de estimação.

Mas um Oscar de lacração tem a ver com públicos e com recepção. E confesso que aí a coisa fica mais interessante para mim. Não é exatamente sobre a qualidade dos filmes a que o título da notícia faz referência. Mas à própria rentabilidade de público para a premiação tradicional. Os jornalistas apontam o dedo em riste para o fracasso de edições recentes do evento. As notícias insistem nas novidades inseridas no roteiro e nos apresentadores deste ano.

Aí, a situação fica mais interessante. Um público de cinema que adora espetacularizar e ser espetacularizado. Um público de espectadores movido por histórias de vida, de superação, de glamour, de sucesso, de emoções que a vida real não lhes trouxe.  O mundo das fadas da arte cinematográfica, com seus ogros e bruxos indispensáveis.

O tapete vermelho, vitrina da moda; os artistas em poses e previsões sobre ser ou não favoritos à estatueta; os grupos em lugares acessíveis pelas câmeras-olhos do mundo; os bordões e gags e piadas narcísicas e centradas no mundinho do cinema. E aqui fora os cavalinhos correndo.

Adoro cinema, minha imaginação foi e continua sendo nutrida por ele. A pandemia favoreceu muitos banquetes à la Babette e intoxicações de lixões. Senti a ausência das comunidades de auditórios e salas, reunidas por causa das telas e histórias.  Confesso que se pudesse estar frente a frente, olhos nos olhos com Frances McDormand, Olívia Colman, Judy Dench ou Viola Davis  ficaria para sempre muda e paralisada pela emoção. Para citar as que andam vivas nas ruas reais. Vê-las na telinha do televisor ao menos me impede um infarto.

Mas a cerimônia do Oscar me exclui por uma razão muito simples: se for pra competir, prefiro o esporte; se for pra exaltar, prefiro meus heróis próximos; se for pra mitificar, estou fora. É um espetáculo tedioso para quem tem mais o que ler e escrever. Nem para copiar e/ou admirar modelitos das atrizes famosas ou pretendentes a) me serve. Até porque tenho noção do ridículo. E espelhos.

A sucessão de nomes, fotos, cenas, fragmentados e isolados mostrados na assim proclamada cerimônia conta uma história que é pura ilusão, mais do que o cinema naturalmente produz. Dirão alguns que é o reconhecimento do trabalho de técnicos, atores, diretores e todas as pessoas que constroem essa indústria de arte e de dinheiro. Nem assim. Prefiro que meu jornal diário lacre quem está fazendo um trabalho meritório de alimentar o imaginário ensinando a pensar e a pescar. Quem está lutando bravamente para afirmar sua humanidade e sua competência erguendo casas, iluminando a vida, mantendo os espaços limpos de sujeira material e moral.

Artistas são o sal da terra, talvez seu Himalaia. Espetáculos de premiação são disputas de poder. Festa, ornamento, carnaval que termina em uma quarta-feira de cinzas. Para mim, é mais lucração do que lacração.

Agora, com licença, vou rever “Três canções para Benazir”, mais feroz do que um ataque de cães e em ritmo de um coração despedaçado.

Que fazer? Sou mesmo inclinada a tragédias…

Os bonitinhos 1

Marta Morais da Costa

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O rádio do carro me faz companhia. Fico sabendo que há uma campanha pública para adotar um ninho artificial para que os papagaios em quase extinção na Serra do Mar possam se acasalar e procriar. Uma iniciativa meritória em um país tão pouco cuidadoso com sua natureza. Um país que considera meritórias narrativas com bichinhos tão bonitinhos de carinha tão amigável e pelos que pedem carinho. Veja, Carlinhos! Observe, Luisinha! Não é lindo, Aninha? Com isso cresce a meiguice, a noção falseada sobre ratos e aranhas, ursos e serpentes, mas todos animais dignos de cuidados: tão bonitinhos!

Em um país nem tão distante, nas fotos e vídeos, as expressões de medo, o olhar assustado, a mão pequena colada na mão da mãe, as crianças esquecem as narrativas e seus personagens para atravessar corredores humanitários em fuga incompreensível. A disputa do espaço da rua não se dá com carros ou com brincadeiras: a paisagem é ocultada pelo carro de combate, pelas armas, pelo fogo que resta da batalha sem piedade. Nenhum livro, nenhuma escola, nenhuma paz doméstica preparou esses perdidos meninos e meninas para um tempo de guerra.

Os olhos que veem a guerra, viram a vida tranquila. Os olhos que viram a paz, agora contemplam as armas. Talvez na sua perdoável ignorância, achem tudo com cara de brincadeira, a mesma, só que em versão trágica. O gesto das mãos continua a cuidar do figurino da boneca amada, a fazer rodar o caminhão de bombeiros, tão bonitinho, vermelho e com luzes piscantes! Marcha, soldado/cabeça de papel…

As crianças de guerras pautadas pelo absurdo estão espalhadas pelo chão que sangra, ou deitadas em macas de flores vermelhas regadas com abundância, ou olhando incrédulas de olhos abertos e imóveis um céu enegrecido pela bestialidade adulta. Não mereceram nem os cuidados que animais predadores recebem nas histórias que ninguém mais lhes contará.

Crianças tão bonitinhas longe de seus bichinhos tão bonitinhos, maiúsculas em seu sacrifício, berrando cá dentro em mim a dor de um tempo convulso e sem remissão.

Veja, Carlinhos! Por que você está dormindo, Luisinha? Não é triste, Aninha?

AVESSOS

Marta Morais da Costa

 

nas contas opacas de um colar de dores

a cinza leve de um corpo ausente

 

no sorriso tímido de um rosto magro
a voragem imersa da fome atroz
 
a lua alfange mira o vácuo
a vida desatenta se esvai
 
no canto do quarto em silêncio
o menino sorve o veneno do sonho
 
a noite insensível ensombra
 
ela dá as costas e tranca a porta
desta vez sem volta.
Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com

FINÍLOGO

Marta Morais da Costa

O livro chega ao fim. Choro devidas lágrimas. Ou um entressorriso de final feliz. Ou um brutal ponto de interrogação: como? acabou? mas “isso” é um final?

Final não sei, mas sinal de resposta do leitor “isso” é.

Mas, e para quem escreve?

Chegar ao final é brindar com champanha como no filme “Obsessão”?

Tirar toneladas de temores e ansiedade dos ombros e da consciência?

Colocar o computador no modo enviar e jogar a bomba no colo do editor?

Ou é sair sorrateiramente no meio da madrugada e ir beber sozinha no Bar Fim de Noite no largo São Judas aqui no calçadão do bairro?

Ou é fechar o arquivo do livro ainda sem título, deixar pra amanhã, escovar os dentes e cair com a roupa de trabalho na cama desalinhada e deixar Morfeu atacar com mísseis e obuses o corpo em exaustão?

Só sei que ao acordar só lembrava os deuses do Olimpo tentando me convencer que a vida continua e vale a pena.

Não sei se foram eles, não sei se foi minha contraparte enxerida e digitante, não sei se copiei de algum site e esqueci qual, mas, ao abrir o computador no dia seguinte, saltou pra tela o último escrito da noite do fim do livro.

Peço aos amigos e inimigos, a algum e nenhoutros que escrevam pra mim dando respostas ou pistas mínimas sobre a autoria da cantilena que transcrevo.

Desde já considero que amigos ou inimigos respondentes integrarão a história do livro que, recém-findo, já deve andar por aí leve e solto, pronto para afagos e sopapos. Sempre receptivo a outras e novas palavras.

Foto por Stefan Messing em Pexels.com

Desenlaçamento

 

Um ensaio crítico sobre a história do livro pode ser a costura entre retalhos de histórias de livros, tal como uma história da leitura resulta do somatório parcial de histórias de leitores.

O propósito de aproximar, comparar, escolher e redigir fatos esparsos, coletados por outros escritores vários e diversos, é um exercício de persistência, de leitura de incontáveis páginas (impressas e virtuais), de um amálgama de materiais por vezes conflitantes, de um exercício diário de escolhas, de descartes, de favorecimentos.

Para quem escreve é, acima de tudo, estar em constante estado de aprendizagem. Não apenas de assuntos ou fatos ou narrativas sobre fatos, mas aprendizagens de entrelinhas, de empatias, de concordâncias e discordâncias teóricas e ideológicas em busca da construção de um texto denso e fluido, informativo sem ser cansativo, de admiração sem ser acrítico.

O resultado geralmente deixa lacunas no tecido da escrita pela impossibilidade de usar todos os fios, de saber que uma nova leitura trará à tona informações submersas. Emerge também o desejo maior e sempre avassalador de reescrever, de adicionar, de limar o estilo, de apagar impurezas, de recomeçar.

A escrita de um livro é sempre o desejo de reescrevê-lo.

Esse sentimento de recomeço corre paralelo ao momento da despedida, ao se colocar no alto da página a palavra “conclusão”.

No entanto, é necessário neste livro, que irá lançar-se ao mar dos leitores e do infinito de obras já escritas, colocar o ponto final – na realidade, as reticências.

Para tanto é preciso (re)ler, (re)ver o que ficou nas páginas anteriores e procurar dar a elas um norte, uma amarração, ou como Nanci Nóbrega ensinou, um arredondamento. Juntar o fim com o começo e o meio, e como a mítica serpente Ananta, percorrer o espaço sem tempo, fechar um círculo, uma etapa, um trabalho. Então, vamos concluir.