Canto contínuo

Marta Morais da Costa

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha

(Caetano Veloso)

Nos guardados da memória, as canções da adolescência ocupavam muitas gavetas.

Sons e letras, nomes e fatos formavam um capital inesgotável. A sem-censura adolescente nada sabia de timbre ou qualidade de voz. Soprano ou barítono eram apenas estrangeirismos e esquisitices de quem pavoneava conhecimentos musicais.

Gostava mesmo era do rádio ligado o dia inteiro, fazendo companhia. Em volume alto nos programas de calouros e muito íntimo, quase sussurrante, nas radionovelas. Alguém a lhe contar em segredo histórias de amor e ambição, que criavam a vilania. A posse como jogo já se chamuscando de infernos antecipados.

Mas era a música a paixão mais verdadeira. Cantava interiormente ao saudar o dia, a cozer as refeições, ao chuveiro. Dançavam os sons em bailes silenciosos.

Assim, dia a dia, formavam-se alianças sonoras e letras em conúbio nos cartórios da memória.

Ela chorava amores incompreendidos sem compreender o que era amar um homem. Somente sabia de sua indesejada solidão. Pai e mãe há muito morando no cemitério nos limites da cidade. Parentes nenhuns: se os tinha, eram desconhecidos, ausentes. O trabalho nômade de casa em casa não criava liames nem companhia.

Mas topou na esquina, em um domingo, com a realidade da fantasia. era músico, violonista, cantor nos bares da vida. O amor foi chama devoradora em um inferno de ciúmes.

Ele cantou, ela mergulhou nos sons e os dois se fizeram uma canção nova.

Juntos fizeram serenatas e duetos, desafinaram e concertaram. Árias em atrito, fados em lamúrias, modinhas em consonância, sambas em epifania. Mas chegou o desacordo do rock, chegaram as queixas do soul, as controvérsias do pop.

Hoje, cada um em seu ritmo díspar, segue a vida cantando em palcos incompatíveis.

O músico se foi, mas a música permanece.

Agora, na casa durante o dia acalantos ressoam, secundados por vozes infantis. O pão é pouco e vem acompanhado de choros de fome e do planger de cordas. Choros que ela compreende, harmoniza e acarinha.

Filhos da música e da euforia vêm partilhar as gavetas da memória: a cada um o seu ritmo, a cada um o seu canto, a cada um o sol e o escuro. E ela canta.

Uma casa à sombra

Foto por Engin Akyurt em Pexels.com

Juro que só passei aqui para ver o estado de nossa casa. Há tanto tempo que a gente deixou de morar nela, não é? O jardim está meio abandonado. Lembra o cuidado que tínhamos em aparar a grama, limpar as ervas indesejadas, plantar e replantas as flores?

Não esqueço os momentos em que, juntos, cuidávamos de tudo, horas a fio, conversando, fazendo planos, adubando, comentando o cenário político, podando, repassando a programação do dia seguinte. O trabalho rendia e sentíamos a cooperação tomar forma.

A casa branca de janelas azuis era acolhedora e alegre. Não descuidávamos dos detalhes: a pintura, os consertos, as portas abertas e, lá dentro, o perfume da limpeza e a claridade do acolhimento.

O quintal era nosso lugar de criação. A horta, o viveiro de plantas, as frutas pendentes, as flores anunciadoras da produção que se gestava. A sombra, o silêncio, a cômoda espreguiçadeira ao lado da rede colorida. O ruído das folhas no chão, a umidade do solo e a vida verde pacífica.

Quando foi que perdemos tudo isso? Foi naquele Natal frustrado? No Dia dos Namorados em que o amor bateu cabeça no umbral da porta e desfaleceu? No dia de minha demissão em que palavras acres e duras tentaram compensar a frustração? No final de semana de ciúme violento em que minha mão encontrou sua pele com a força da vingança? Nas manhãs de noites sem amor nem carinhos? No silêncio de bocas fechadas à força pelo sentimento de aridez e solidão? Na indiferença cotidiana que aos poucos ocupou os minutos sem fim?

Perdemos, deixamos sumir, indiferentes vimos transformarem-se o afeto e a cumplicidade. Em seu lugar, a fria indiferença, palavras geladas em coração ainda quente. Sem tentações, sem frestas, sem fugas: só o progressivo abandono do que parecia ser a inamovível felicidade a dois.

De repente, a troca ácida de frases e de mágoas adormecidas. Fomos vítimas e algozes de nossa própria incúria e soberba. Nada ficou sólido o suficiente para contornos ou retornos. Seguimos em frente (em frente?) separados, isolados e desolados.

Do outro lado da rua, olho o jardim em desmazelo. Olho em mim em desalento. Olho o passado em imagem desmaiada. A casa reluz em branco e azul, portas fechadas, janelas abertas de onde jorram cascatas de trágico Chopin.

A música ambienta a certeza de que o quintal, inacessível aos olhos, resiste em alguns pontos de sombra e verde (resistente à total destruição). O aroma doce das frutas parece permanecer. Talvez seja o desejo de que nem tudo seja desaparecimento.

No canto mais à sombra no jardim, me parece distinguir teu vulto esbelto, as mãos camponesas e carinhosas, o riso fácil, o olhar afetuoso. Em vão.

Continuo o caminho. Sei agora que não retornarei a ver a casa. Seu coração deixou de bater neste exato momento. Ela permanece branca e azul, como um cadáver.

Agora a solidão engolfa a a tarde.

 

Vou, voto e volto

Foto por Pixabay em Pexels.com

São sete horas da manhã. O dia está nublado. Um vento anuncia chuva e essa perspectiva me faz sentir ainda mais frio. Hoje não estou para ninguém: não quero telefone, nem whatsapp, nem televisão. O rádio vai ficar mudo. A cabeça tem apenas dois compartimentos: a vontade e a memória. Hoje é dia de votar.

Depois de ler, ouvir, assistir e refletir, montei um cardápio de números. Vou derramá-los conscienciosamente na urna, toque por toque, na sequência proposta pela máquina. Levo todos na memória que não há de falhar. Sempre fui um ás na matemática. Pena que tive de abandonar os estudos. Mas foi para ajudar em casa, tão grande era a necessidade.

Passei uma noite em claro quando me despedi da escola. Um pouco de ansiedade para começar a ganhar meu sustento e muito de tristeza porque sem escola o futuro fica mais incerto. Mas nem sempre há caminhos a escolher: às vezes a rota está previamente traçada.

Um café forte, um pãozinho dormido e a maçã para o caminho de volta. Corro para não perder o ônibus que na semana me leva para a fábrica e hoje para a escola. As ruas ainda estão sonolentas, poucas pessoas sem pressa, ônibus em meia carga, que aos poucos aumenta. Desço perto de meu destino e sou recebido por uma garoa que faz brilhar minha jaqueta. Bom augúrio para meus objetivos. Com passos apressados entro no prédio que abandonei há pouco tempo.

Meus olhos percorrem avisos que ilustram as paredes em busca da confirmação do local de votação. Em minha frente, duas cabeças já branquejadas, com dificuldade procuram sua seção. Se vocês quiserem, posso ajudar. Eles, surpresos, agradecem. Qual é o número da seção? Eles se atrapalham com o título de eleitor que está em suas mãos. Viram e reviram o papel, descobrem e dizem. Localizei: estão próximos das salas. E se encaminham, lado a lado, para cumprir um papel para o qual estão até dispensados. Meus pais darão futuramente este mesmo exemplo? A imagem deles toma o palco da memória e, por uma centelha de instante, a escola virou sua casa e a dúvida se inseriu nos olhos de seus pais.

Conferi o local da seção e tomei o rumo das escadas. Impedidas por um homem e dois cachorros, que, vestidos nas cores do partido, pareciam qualificar e exibir as preferências políticas do seu dono, que nem se importava em interromper o trânsito. Cidadania não é apenas poder votar, pensei. Exigi a passagem e subi.

Filas enormes, queixas, irritação. Mas ninguém arredou o pé. Afinal, os meios de comunicação derreteram os cérebros espectadores com mensagens de vote vote vote cidadania cidadania dia importante a festa da democracia e outros imperativos.

Em algumas seções, filas, problemas, esperas. Em outras, a fluidez da tecnologia e da destreza. O rádio e a tevê anunciam prisões, fraudes e urnas ineficientes. Parece que viver mais obstáculos melhora a eleição, dá visibilidade ao caos e divulga o mau caráter de poucos.

Mas votar é imperativo.

Respeitar o resultado serão outros quinhentos. Queixas, surpresas, temores e torcidas de futebol, é tudo. Esperança de um Brasil melhor? Sim, sempre. O difícil é o como. Nesta palavrinha – como – desliza o tempo em direção à cova. Cava-se na história um preâmbulo que jamais chega a um primeiro capítulo razoável. Como as promessas de boca cheia de acabar com o analfabetismo no Brasil.  Décadas se foram e milhões de brasileiros continuam sem ler ou leem mal. Funcional apenas, o alfabetismo vence sempre as eleições.

Entro na cabine, reconheço a urna, digito obedientemente os números da memória e, ainda aflito, teclo FIM.

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Em tempo: este texto foi escrito em 2 de outubro de 2022, quando o Brasil continuou sua trajetória para trás.

Ética

Marta Morais da Costa

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Acreditava no amor, aquele que é doação, sinceridade, respeito e resiliência.

Mas continuava solteiro. De todas as namoradas, nenhuma cumpriu a lista de qualidades exigidas.

Acreditava na amizade, nas trocas, na companhia para todas as horas.

Mas vivia encerrado em casa, solitário. Amigos com problemas e sem humor eram deixados de lado.

Acreditava na ciência. Toda a ciência: a que cura, a que moderniza, a que inventa. Até aquela que planeja e constrói coisas feias.

Mas caiu nos braços da superstição e da magia. A ciência havia trazido a guerra e a ganância.

Acreditava na educação como impulso para vidas marcantes.

Mas doou todos os livros, rasgou diplomas e vendeu computador e celular. A educação desejada só vai chegar quando ele não mais estiver sobre a terra.

Acreditava na felicidade plena em comunhão com a natureza.

Mas morava em um apartamento de 30 m² de frente para outro apartamento de frente para outras janelas fechadas de frente para paredes sem reboco.

Acreditava em todas as igualdades e em todos os méritos.

Mas descobriu o preconceito, Medusa indestrutível.

Acreditava na paz de espírito com a chegada da velhice.

Está morrendo aos poucos entre gemidos e dores: gasto, roído e triturado.

Não acreditava no poder da mentira e da fraude.

Viveu e viu.

Após a chuva

Marta Morais da Costa

O dia amanheceu úmido, neblinoso. A chuva havia lavado a calçada, os ninhos, as folhagens. A água levara com ela a secura dos olhos, da boca, do coração. O poder sonoro dos pingos saindo das calhas, pingando do telhado, escorrendo folhas abaixo, derramando-se pelo chão trazia conforto e sonolência.

Era um dia outro. As paredes calaram as ofensas, os móveis guardaram a violência do olhar e das mãos. O rosto marcado suavizou-se. Havia ainda esperança.

Que passava longe da presença dele, da frieza do olhar, da rudeza da fala.

Era feita de pedaços de lembranças felizes, de toques sedutores, de carícias de fogo. Era uma presença tênue do passado que se agigantava enquanto o presente projetava uma pequenez ameaçadora.

“Sua vadia! Preguiçosa! Enquanto eu ralo pra trazer comida pra casa, você se esbalda nesse sofá o dia inteiro! Cadê meu almoço?”. A ladainha era longa, os gritos alcançavam a vizinhança. Quando saísse à rua tinha certeza o olhar dos vizinhos teria a mesma frieza e desprezo que rondava os quartos, a sala, a cozinha de sua casa.

Não saía.

Consolava-se com o vídeo da cerimônia de casamento a rodar em sua solidão os momentos de alegria, de beijos e abraços, de valsas e cantorias, de um noivo carinhoso e de amigos risonhos. Vivia nas imagens o que a vida lhe roubara no cotidiano.

Não se defendia.

Jamais mostraria a ele, em palavras ou atos, a dor da solidão, a mesquinhez da vida sem horizontes, os sonhos derrotados.

Lembrava as queixas da mãe, as confissões das amigas. Por onde andam essas mulheres? Terão rompido os grilhões, cavado seu túmulo em vida, escolhido a cabeça baixa, o sim senhor? Escalaram o muro e vivem do outro lado, sorrindo suas dores, os olhos brilhando e o coração em sossego?

Culpa sua se nada sabe delas. Escolheu sua solidão e o prazer em humilhar-se e silenciar.

Mas um dia…

Quem sabe um dia após uma tempestade. Um dia após um dilúvio. Outro amanhecer e uma nova neblina…

Levanta do sofá, desliga o televisor, esconde o vídeo e se propõe a caprichar no almoço. Para quem? Sem perceber, desvia da cozinha e se descobre no quarto. Vazios os cabides, a sapateira. Foram-se ternos camisas gravatas e os pijamas. O guarda-roupa sorri entre as falhas das prateleiras. Vazios se completam.

Coloca sapatos altos, vestido novo, maquilagem o quanto baste. A chave da casa à mão. Sai e fecha a porta da rua, chaveia, guarda a chave em lugar protegido na bolsa. Talvez um dia volte. Ou não.

De mansinho

Marta Morais da Costa

“Ele foi chegando de mansinho.”

A frase não me saía da cabeça. Lia textos, arrumava a casa, aguava as flores, passava a roupa. E ela continuava a martelar o cérebro e a memória.

Quem era “ele”? Chegava aonde? Por que de “mansinho”?

A frase foi ganhando boca e olhos, uma silhueta desenhou-se e ele veio andando para dentro de mim. Sem nome, sem perfil, somente andando.

Passei a emoldurar um rosto: cabelos negros, encaracolados. Abundantes. E uma fala tranquila e clara: “Cheguei.”

Ainda não consigo distinguir um nome e qual é nossa relação. Mas é de amor, sinto.

Aos poucos descubro que ele morou comigo por um tempo. Ocupou um espaço. E meu pensamento. Mais do que isso: conheceu meus desejos e meus desamores. Nutriu-se de um modo de olhar para o mundo e para as pessoas, que encontrava pontos de semelhança com o meu. Mas diferente em arestas e colorido. Como se o menino quisesse mostrar independência, sem provocar divergências.

Aos poucos desfiava-se um rosário de sons: ora falas, ora cantigas. E a gente brincava, se divertia e silenciava. Mas logo depois a conversa fazia uma curva e retornava mais lenta, com fendas e desvãos. A gente pensava que pensava em um e no outro. Até nem precisar falar, olhando, de mansinho. Rindo, de mansinho. Amando.

Agora sei quem ele é. Por ele, conheci outras frações de mim.

E talvez ele saiba que partes são essas.

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Em 9 de maio de 2022

Herança

Marta Morais da Costa

Foto por Sohel Patel em Pexels.com

Herdara da mãe uma panela de ferro, três copos de vidro cristalino que, na infância, chamavam orgulhosamente de taças de vinho e só usavam nos natais. E uma lata de 20 litros que na origem havia armazenado margarina no armazém do seu Lalau.

A mãe ganhara a lata porque seu Lalau sabia que na casa dela não tinha moringa nem outra vasilha para armazenar a água do poço. Depois de uma boa esfregada com um pedaço de pano, cinzas e sabão, a lata quase se podia dizer nova, não fosse a estampa colorida de uma moça branca e loira, de longos cabelos lisos, sorriso de dentifrício a apresentar a margarina Regina, a rainha do forno e fogão.

Só assim para margarina entrar em casa: a mais constante das gorduras era a banha de porco, mais barata, e que seu Ari, do açougue, nem olhava para a balança ao embrulhar o quilo da mercadoria, colocando sempre muitos gramas a mais, por causa dos olhos verdes e tristes de minha mana mais velha. Margarina Regina era apenas uma rima, jamais alimentação.

O que agora chamava de casa desmerecia ainda mais o casebre da infância. Nele havia experimentado a necessidade de roupa, comida, conforto e afeto. Nele, vira o pai morrer  numa poça de vômito da última bebedeira. Nele, repartira a cama com três irmãos, dos quais era a única sobrevivente. Nele, aprendera que solidariedade dura uma única doação e muitas cobranças de reconhecimento. Que falta é palavra mais frequente do que bom dia. Que a barriga tem mais buracos por onde a comida se esvai do que paredes para impedir a fome de entrar. Que o sono é sem sonhos, que a vida é de pouco sono, que a morte tem sono pesado sem despertar.

Por isso, uma panela, copos e uma lata são quase os tesouros do rei da história que ouvira o palhaço contar na praça da cidade. Era o tempo do circo ficar na cidade e do desfile pelas ruas com os artistas convidando o público para os espetáculos. A criançada tinha direito a histórias, algumas mágicas, palhaços a trocar tabefes de mentira e a caírem de barriga postiça no chão a berrarem feito o porco quando vai para o sacrifício. Na época dois irmãos e eu íamos para a praça aproveitar o que era de graça. Sabíamos que nas noites seguintes, somente veríamos as luzes do pavilhão e ouviríamos a música da bandinha. Eram os efeitos luminosos e musicais da imaginação que corria solta em nossas cabeças, sentados os três na porta do casebre. Quando uns poucos amigos, mais sortudos, iam aos espetáculos, no dia seguinte andávamos a persegui-los para que contassem o que viram, ouviram e sentiram. Com esses retalhos de conversa e exageros montávamos nosso circo pessoal em tendas imaginárias, que carregávamos dia e noite por muito tempo.

Nem circo, nem margarina, muito menos vinho no Natal. Os copos passavam o ano inteiro protegidos no fundo da única prateleira da cozinha e de lá só saíam quando o pai ganhava de presente uma caixa com bombons melequentos, biscoitos amolecidos e uma garrafa de vinho azedo como a miséria. Meus irmãos e eu não podíamos tomar. A gente ganhava na canequinha de latão um pouco de limonada, mais azeda do que o vinho, porque açúcar era luxo para se aproveitar de vez em quando.

A panela de ferro hoje faz um arroz saboroso, mas no tempo da mãe recebia uma mistura de legumes, farinha e ovos das galinhas do terreiro. Um mexido que rendia porções miúdas, cheirando a delícias e engolidas com rapidez. Na medida em que a família diminuía, cresciam as porções. Só ficava um pouco de remorso porque a alegria da quantidade de comida era resultado de uma tragédia.

A lata, guardo comigo em lugar de honra na cozinha. Eu a decorei com restos da infância: fitas, panos, uma lasca de madeira da porta do casebre, contas de vidro, um pedaço de espelho, recortes de embalagem, tocos de vela, o único retrato de minha família reunida quando fomos à quermesse de Páscoa, umas tiras de papel em que, nos primeiros rabiscos, registrei lágrimas e sorrisos e a flor, agora seca, que ganhei do primeiro namorado.

A lata de margarina Regina reina sobre minha infância e me ensina, diariamente, a reconhecer as fomes que continuam a debilitar e as fomes que, saciadas, deixam cicatrizes na carne e na alma.

Talvez ela venha a ser a herança a deixar para minha filha.

Despedidas

Marta Morais da Costa

Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com

A porta de saída. A chave. O portão em seu chorar habitual. A rua deserta. A chuva faiscante nas folhas e no asfalto.

Passos seguros. A bolsa colada ao corpo. O guarda-chuva criando um halo de proteção. Braços banhados no gotejar das varetas. Sobe a umidade pelas solas dos sapatos. Apressa-se. Até a marquise próxima. Mais alguns metros. Equilibra desajeitadamente o guarda-chuva, a bolsa e o celular. Pede um táxi.

Tem duas horas que sua vida desabou.

A espera vã por um telefonema. Estou chegando. Abra a garagem para mim. O toque no botão, a porta abrindo, o carro entrando. Depois era correr para os braços, as palavras, o beijo de chegada. Só então a vida retornava. Sem trabalhar, o dia era longo. A distância era sofrida em fogo de saudade. Ele no escritório. Ela embrulhada em lençóis, sem vontade, sem ação.

Currículos distribuídos. Telefonemas em vão. Mensagens negativas. Nada, ninguém, nenhum. A fila do desemprego. A angústia da inação. A lembrança do trabalho. A constância do dinheiro pingando na conta. A segurança do emprego. As amizades, as conversas, o sentir-se útil. Mesmo que utilizada.

O caos repentino, as perdas, a demissão. Na cambalhota da história, a rua, o porta afora, os dias iguais e vazios. A inatividade a levar de roldão o entusiasmo, o riso, a disciplina, os objetivos. Aos poucos, o desapego, o desleixo e a indiferença.

O marido dobrando os dias. O marido dividindo o salário. O marido desapegando-se dela.

Mais dias e mais dias: a vida perdeu seu curso, o amor perdeu a força, a união gastou seus elos. A mesmice envolveu o tempo em mortalhas. Eram duas solidões a ocupar a mesma cama, os mesmos móveis e o espaço sufocante de uma casa sem ar.

Não tardaram as palavras viperinas, as janelas fechadas, os olhares desconfiados de vizinhos.

E a casa cercada de muros, a morte grassando no bairro, a tevê em enchentes de más notícias. A vida sem sol, sem saúde, sem saída.

Até aquela noite. Palavras duras, com sabor de sangue. A verdade do amor em agonia e a impossibilidade do afeto. Em volta, ruínas do que foram um dia luas de carinhos e clarões de felicidade.

O táxi estaciona a seu lado. Entra e pede rodoviária, por favor. Também a cidade está perdida. Banco de trás, silêncio, quase escuridão. A lágrima não tem sal. Talvez apenas a chuva que a submerge no desastre de um tempo sem futuro. Talvez.

Sobre o amor e a guerra

Foto por Theodore Ferguson em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Antigamente no Paraíso, os animais andavam, caçavam, comiam e adormeciam. Eles abriam a boca, mas nada se ouvia. Eram todos mudos. Embora o Paraíso estivesse povoado por seres vivos, mas não se ouvia nenhuma voz.

O silêncio habitava o Paraíso.

Um dia, um beija-flor enamorado tentava mostrar seu amor – batia as asas, girava seu corpo, dançava, fazia caretas e trazia um buquê de insetos para oferecer à sua bem-amada.

Na angústia de expressar seu amor, ele perdeu a respiração, engasgou-se e começou a tossir. Entre os ataques de tosse, ele percebe um som estranho que sai de sua garganta e descobre que o ar produziu um barulho agradável.

Então ele tenta diferentes movimentos de bico e outros ritmos feitos pelos golpes de ar. Pouco a pouco nasce um canto em sua garganta, que corta o ar e acaba com o silêncio.

Os outros animais ficam espantados. O que era aquilo?, se perguntam, entre assustados e curiosos. Então, eles também principiam a fazer barulhos com a garganta. Surgem urros, guinchos, zurros, relinchos, latidos, bramidos e cacarejos. Mas somente os animais enamorados conseguiam produzir sons sedutores e agradáveis.

O Paraíso ficou, assim, cheio de música e conversas.

Mas o amor também faz suas guerras. E rapidamente gritos, rugires e sons agressivos vêm criar a assonância de uma música de guerra. A mesma voz que fala de amor, fala de sua morte. E até mesmo expressa ódio.

É por causa dessas contradições que os sons do amor se escondem e não se mostram senão em momentos especiais. Muito raramente.

Esta é uma história que se conta para explicar a origem da voz dos animais.

Além do mais, é por isso que o amor e o Paraíso, ele também, contêm espaços de Inferno.

O sorriso

Marta Morais da Costa

Se pudesse, passaria o dia todo sorrindo. Não porque fosse uma otimista, mas porque seus dentes eram perfeitos, brancos como a neve ao cair.  Os músculos faciais, ao se retesarem para formatar aquela expressão de completo acordo com a vida, faziam sobressair as maçãs do rosto, em puro veludo rosa. A pele esbanjava brilhos e os olhos executavam uma ciranda caprichosa e franca. A cabeça parecia ganhar altura e o corpo repousava em uma postura ao mesmo tempo sem tensões, mas atenta, como que à espera do correspondente sorriso alheio, receptivo, admirador, concordante.

Sorrir era sua arma de conquista, sua alma exibicionista. Era um cartão de visita e a  mensagem de ocupação do espaço-tempo do contato, da conversa, do centro da roda.

Sorria segura, ocultando atrás das retinas um cérebro de observadora, de cientista, de dissecadora de cobaias. Armadilhava o sorriso e capturava detalhes e reações que, de imediato, selecionava e arquivava na memória. A surpresa de quem a considerava apenas mais um exemplar de fêmea. A admiração de quem inscrevia em sua pessoa o sinete de mulher perfeita. A explosão emocional em quem o rosto em movimento elevava o enlevo ao grau mais absoluto de amor à primeira vista – melhor, ao primeiro sorriso. A contida inveja de possíveis rivais estraçalhadas entre o reconhecimento da força de sua presença contente e a autopiedade pela revelação dos próprios defeitos. Mais que todos, sobressaía o olhar hipnotizado do esteta no momento em que descobria a sua frente uma Vênus renascida ou Galatéia retirada da pedra informe.

Sorria e amealhava reações. Sorria e alimentava-se com a adjetivação superlativa que coalhava o chão imaginário em seu redor. Sorria e vampirizava a existência alheia, sobrevivente.

Veio o tempo em que o sorriso fixou-se. Não aceitava que ele desaparecesse do espelho em que, estática, se contemplava. Recusava posar para fotos em que só ou acompanhada não pudesse irradiar o sorriso complacente com a posteridade. Sentava-se à mesa, desdenhando ações mortais de comer e beber: passava as refeições entre líquidos sorvidos entre lábios distendidos e garfadas-relâmpago a justificar um mastigar risonho. Adormecia somente após certificar-se que o rosto ainda encenava a alegria de permanecer sorridente na cabeça pousada sobre o travesseiro.

Para todos, era a Miss Simpatia perfeita nos primeiros encontros. Aos poucos a fixidez inalterada do sorriso emitia sinais de complacente e pegajosa aceitação de tudo. Em pouco tempo, o sorriso assemelhava-se a uma máscara a desdenhar da realidade e a qualificação de indiferença e desprezo pela dor alheia colava-se ao ricto facial. Ela envelhecia em uma ilha de solitude.

O sorriso que atraía era o mesmo que afastava. Seu senso de observação passou a exigir mais aproximação, mais empatia. Passou a exercitar os músculos para compor expressões de afeto, de compreensão, de consideração para as histórias de outros. O sorriso, antes fixo, começou a apresentar fissuras e desalinhos. Na desarmonia do rosto não mais imperava a atração. Abria-se o confronto com a repulsa.

Sorria automaticamente para os pedidos de ajuda, para as queixas de amor, para as notícias de luto, para as urgências da fome, para as descrenças e desesperanças. Quem se aproximava dela era recebido pela mecânica irrefreável de um sorriso petrificado. Por dentro, ela se contorcia em impossíveis mudanças da face: queria gritar sua compaixão, despejar suas lágrimas, estender-se em ouvidos solidários.

Em vão. A solidão alargou-se em profundo isolamento.