Cacos, lapsos e ausências

Marta Morais da Costa

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Fica pensando quantos dias ainda teria de lucidez. Afinal, o tempo só conta porque passa. E a cabeça lhe conta há tempos que enganos e lacunas tomam parte impertinente em seu cotidiano.

Corrompe o patrimônio simbólico do decoro e da imparcialidade, húmus de sua legitimidade

Não são apenas os nomes que desaparecem. Somem também os fatos, as datas, as causas. Vive abismos na fala. Olhos arregalados pescam em vão na memória. Olhos fechados concluem a busca sem resultado. Sepulta o passado com dó e piedade.

O menino que admirava o mestre passou a admirar o influenciador.

Fecha o botão do colarinho. Ajeita a gravata, presente da esposa que conhecia todos os seus gostos. O nó era especialidade dela. Saudade, viu, sua gostosa…

Criminosos confessos estão recuperando seu butim.

No portão de casa, pendurada, a revista da igreja com seus conselhos e versículos. Pô, vou ter que ler esse troço! Vão me cobrar. Botou a revista na pasta. Sai para a calçada e quase é atropelado pela moto invasora. Passa pela cabeça um raio de comparação: será melhor ser atropelado por uma moto ou por um automóvel? Se for para ser com motor, prefiro o elétrico. Pelo menos ganho manchete de jornal: “Atropelado por um veículo elétrico, o novo inimigo dos pedestres”. Morreria feliz: teria seu nome publicado. E não será entre os endividados.

Distraído perde o ônibus. Atraso à vista no trabalho.

É muito difícil você ficar duas horas, três horas, e ganhar tão pouco, e mesmo assim voltar no dia seguinte.

Chega ao escritório depois de todo mundo. Ou melhor, todo mundo está lá, mas o chefe está atrasado. Talvez um acidente. Talvez uma gripe. Talvez…

Retoma o relatório, interrompido na sexta, antes do feriadão. Começar de novo, nem lembra mais o que escreveu. Ansiedade apaga, pressa deslembra.

O excesso de dias quentes e temporais deve marcar a primavera.

Foram dias de solidão. Tenha um bom feriado, amigo. Sinais de vida absurda, excessiva. Uma xícara de café repõe energias. Bobagem. O que perdura é a azia. O gastro de óculos, a receita de dietas e medicamentos, a sensação de perda de parte da liberdade de escolha. Sem café, sem vontade de voltar ao relatório. E o chefe que não chega. Precisa de um aumento: a farmácia come o salário. Ele come mal.

A tentativa de silenciamento, que faz parte do estado geral de degradação intelectual.

Vai até a janela: caos no trânsito, vozes quase inaudíveis, o roncar dos motores, as punhaladas sonoras da construção ao lado. Nuvens nenhumas, calor por demais. A gravata o enforca paulatinamente. Precisa terminar o relatório. Acho que o chefe resolveu prolongar o feriado…

Volta ao computador: escreve frases, procura reatar. Enredam-se às letras imagens de lugares que nem sabe se existentes ou imaginários. Pessoas sentadas em gramados, conversando, lendo, tomando sol. Quando? No feriado?  Choveu com nunca. Uma viagem? Talvez. “Conforme especificado acima, o contratante descumpriu a cláusula 12ª do contrato assumido, incorrendo assim…” Toque de celular. É para Dario, na mesa ao lado. “Sim? Como? Que horror!”. Todos, olhos interrogativos. Dario: “Aviso sim.” Encerra a ligação. “Pessoal, o chefe não virá. Acontece que…”

Se você ama a vida, plante muitas árvores.

Chega cedo em casa. Zapeia pela televisão. A notícia o anestesia. Parece a cena da novela que assistia com a esposa. O tempo atropela as imagens, os rostos, os fatos.

Volta a zapear. Sente as pálpebras pesarem.

A internet fabrica, da noite para o dia, falsos especialistas e influencers dispostos a transformar o passado em frases de efeito.

Melhor ser atropelado por uma moto ou por um carro elétrico? Adormece.

Acidente em rua de muitas mãos

Marta Morais da Costa

A rua parecida com um dia feriado. A manhã era quase silêncio. É verdade: cedo demais pra passeios, tarde demais para festeiros. Também, sem previsão de trabalho ou compromisso, a mente disparava pensamentos não convergentes em frenética sucessão.

Um som seco e em estalidos de vidros e plástico. Mais uma batida. Surpreendente pela calma circundante. No chão, fragmentos; nos carros, ferimentos. Poucos curiosos e alguns prestativos transeuntes a perguntar se machucou? Precisa socorro? Quer que eu telefone para alguém?

Mãos e braços de socorro, vozes alternadas de consolo e preocupação.

A criança, enlaçada na cadeirinha, olhos abertos de susto, boca aberta sem som. Tão logo, cercada por mãos e rostos desconhecidos, invasivos, começa a gritar e chorar. O som agudo amplia-se no espaço e comove pela sensação de impotência e de cuidados. A mãe, desfalecida e inválida, separada do filho, tudo ignora.

Sem acordo nem conspiração, cada qual passante se ocupa de ações simultâneas. Desembaraçar as pessoas de seus cintos, telefonar aos bombeiros e policiais, buscar manter o ar circulando entre os feridos. Dois carros, ações em dobro.

Um médico se apressa em avaliar o estado dos motoristas e passageiros. Há ferimentos diferentes em extensão e gravidade.

Ninguém ainda pensa em culpado, erro ou legislação. Somente em acudir, cuidar, solidarizar-se.

Sorrateiramente a mão resvala pelo banco, outra vasculha o porta malas aberto. Qualquer objeto será lucro. Rapidamente coisas somem em casaco, bolsos e bolsas, jaquetas.

O choro aumenta de volume, as vozes aumentam de quantidade, a preocupação aumenta de intensidade.

Ao longe, sirenas. Da cena do acidente esgueiram-se quase sombras.

Aos poucos, a roda se abre, os paramédicos trabalham e a cena fica cada vez mais definida e reiterada. É um acidente comum, com pessoas comuns e na dor comum de estarem vivas.

Aos poucos o sol é ofuscado pelas nuvens. A rua ganha maior sonoridade e movimento.

Os passantes passageiros curiosamente param, verificam a repetição entre o que veem e o que já viram, e passam adiante.

O silêncio do feriado se desfaz, os acidentados se refazem, os feridos são transportados. Os carros jazem tortos no asfalto.

Tudo passa.

Foi mais uma cena dramática em uma rua simpática de uma cidade brutalizada e semeadora de sofrimentos e mãos de afagos e afanos.

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Futebol

Marta Morais da Costa

O aniversário foi ontem. Hoje é a festa com bolo, velinhas e futebol.

O menino pediu presentes: cada amigo era um.

Tinha goleiro frangueiro, zagueiro fortão e ladrão de bola, centroavante goleador e ponta pra passar e marcar.

Ninguém perguntou peso, idade ou cor. Ali na igualdade, todos eram solidários. Cada qual em sua função.

Bola tocada, bola chutada. Se fosse gol, comemoravam. Se não fosse, comemoravam também.

Inimigo? Nem no time contrário. Afinal amigos a favor ou contra são sempre amigos. Para o que der e vier.

Pro bolo, pra bola,

pro choro, pra glória.

Gol, goles, gula,

jogo tudo junto

e misturado:

a festa é de todos

e futebol é equipe.

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ZUMBIDO

Marta Morais da Costa

O zumbido havia se transformado em pesadelo. Começara mansinho, como um chuvisco seco, muito distante. Aos poucos havia ganho corpo, peso e estridência. Em momentos imprevisíveis emitia silvos ensurdecedores.

Médicos, havia consultado seguindo, um a um, toda a lista do catálogo do plano de saúde. Alguns consultórios modernos e bem equipados e outros, a maioria, nem tanto. Diagnóstico? Mudava mais do que o tempo no outono, Estresse, surdez chegando no horizonte, uso excessivo de fones de ouvido, problemas nos rins, no esôfago, no labirinto. Talvez um câncer.

De consultórios a laboratórios, o tempo passando, o trabalho no escritório beirando o caos, a conta bancário minguando, o patrão reclamando e a mulher, já desamorosa, tu tá é com manha, querendo nem trabalhá.

Em 45 dias, estava no olho da rua, sem mulher, sentindo pegajosas as caras de consternação e compaixão de parentes e vizinhos.

O zumbido agora orquestrava. Graves e agudos, colcheias e semi, uma disputa acirrada com o canto dos pássaros e a grita da criançada. Ouvir música parecia um dueto desafinado e em ritmo descompassado.

Certa noite, vozes indistintas travavam conversas intermináveis que começavam no vestíbulo do ouvido e só silenciavam nos escaninhos do cérebro. Alguns dias mais e as vozes altercavam com risos e assobios.

Evitava sair à rua: confundiam-se os sons dos automóveis com o roncar de algumas vozes sonolentas. Temia ser atropelado e, se sobrevivesse, saber que havia incorporado sons de freadas e ranger de rodas.

Surpreendeu-se um dia prestando atenção no diálogo entre as vozes interiores e saber que trocavam informações e prognósticos sobre sua pessoa. Ah, o Alfredo está achando que não existimos, que somos ruídos em seus ouvidos. Deixa o bobo pensar assim; de todo modo ele não vem nos perturbar. O tonto pensa que é doença: sabe nada. E as vozes altercavam-se e criavam novas avaliações sobre ele.

Em cada dia riscado na folhinha, debates e acusações, risos de escárnio e prognósticos de aniquilamento. Ele ouvia tudo e nem duvidava. Estava mesmo vivendo mais os outros dentro de si do que a vida pulsante fora de sua cabeça.

A batida na porta tirou sua atenção da interioridade. A bela mulher que o mirava do outro lado da porta aberta só queria algumas respostas ao questionário sobre a relevância de se construir um shopping nas imediações.

Os olhos negros, no entanto, lhe pareceram familiares. Talvez uma amiga da ex, talvez uma passageira do metrô do tempo em que trabalhava, talvez alguém da televisão.

– Senhor Alfredo, como vai o zumbido? Melhorou com as vozes? Nós somos mesmo muito tagarelas, não?

Lá dentro, no fundo do cérebro, uma voz se fez ouvir:

– Irene, volte para casa! Deixe de brincar de pesquisadora!

Foi então que descobriu: o zumbido jamais partiria. Era agora sua anulação.

Ele se perdera nos outros.

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Contos em mim menor

A escrita do conto dialoga com a variedade dos gêneros literários. Pode conter a concisão e musicalidade dos poemas, o diálogo e a ação do teatro, as personagens complexas dos romances, a filosofia dos tratados, o humor da linguagem carnavalizada, os temas e contraditos da realidade, a veloz e cotidiana comunicação do jornalismo, as relações éticas e emocionais da psicanálise, e os mitos ancestrais em roupagens atualizadas. Enfim, um conto é a vida em movimento, acondicionada em embalagens econômicas.

Contos em mim menor é livro quese fez de leituras, observação, memória e imaginação. E pretende se inserir nas dobras da tradição milenar do escrever para narrar histórias de personagens comuns, de momentos especiais, de acontecimentos ímpares. É uma antologia pautada pela diversidade. Por vezes se aproxima do relato realista, em outras demanda parentesco com a poesia. As personagens aproximam-se dos leitores, mas por vezes se colocam distantes para serem observadas e analisadas. A linguagem narrativa é envolvida pelo coloquial, sem dispensar a presença do termo incomum, da frase tortuosa, da ironia ferina ou do humor revelador.

Esta coletânea metaforiza-se no vidro: os grãos minúsculos da areia formando uma liga poderosa e múltipla. O vidro que protege, torna transparente, reflete impiedosamente, envolve ou estilhaça-se em cacos: corta, fere, expõe entranhas.

Com defeitos e plenitude, Contos em mim menor realiza uma literatura de grãos de areia, de vidros e de espelhos.

Transamazônica

Marta Morais da Costa

A proximidade do início da primavera lhe trazia uma sensação de fragrância florais, brisas instáveis ao sabor do passar das horas do dia, a expectativa de melhor humor e passeios tranquilos à luz do sol de raios amenos.

Mais do que isso: mal se anunciavam os tons róseos da manhã, já estava às voltas com o aguar das flores, a sensação de um novo e promissor dia de vida e os preparativos do café a dois, silencioso, mas cheio de pequenas atenções.

Só que não.

Os olhos foram o primeiro alerta: secos, doloridos, como se mergulhados em areias desérticas. Logo a respiração perdia sua leveza quase imperceptível para ganhar arquejos de pouco fôlego.

A janela do apartamento deu o alarma: o horizonte perdia a limpidez para acinzentar, embaçar e quase esconder a linha do horizonte. A noite parecia sofrer para ir embora e permanecia em surda batalha com as margens do dia.

A imagem idílica de amanheceres em poética quietude embaçava-se igualmente. A rinite tomou conta de sua respiração e de seu dia, que começava se liquefazendo em rotinas de cuidados e socorros. Os anúncios do corpo eram de incômodos e mal-estares.

Entre a surpresa e a ansiedade, o olhar lançado ao exterior através da janela do quarto foi ganhando mais compreensão: a linha cinzenta era mais espessa e mais alongada do que a cotidiana poluição. Trazia em sua cor mais definida uma pressuposição de ameaça.

Pelas frestas de portas e janelas o velho novo monstro insalubre trouxe as sobras da natureza em combustão. O ar monoxidal, carbonífero carbonizador, espalhava o mal-estar, furava pulmões em agressiva invasão, tomando posse de espaços, telas, corpos em absorção ingênua, movimentando formigas humanas sem proteção pelos caminhos de hospitais, clínicas, enfermarias e sofrimentos.

Entre lágrimas e coriza, ela padecia a asfixia de um tempo e uma sociedade agora desvalida por força de suas inconsequentes atitudes de descaso e desleixo.

Plantas e troncos, bichos e águas, envoltos em fogo e fumaça apontavam dedos carbonizados para assassinos Neros a tocar não harpas, mas fósforos e isqueiros em combustíveis.

Enquanto isso, prisioneira do horror, ela sonhava umidades e verdes, cada vez mais distantes e imaginários. E ela contava para ninguéns a bucólica narrativa, versão pastoral, de camponeses cantando em versos aos sons de flautas, a natureza risonha de “verdes mares bravios” de uma terra de palmeiras, embelezada pelo nome sonoro de Pindorama.

Enquanto isso, chegavam notícias de acordos e conchavos protelatórios, cozidos em negociatas ao fogo de agonizantes árvores e cerrados, em crepitações eleitoreiras.

Criavam-se os sulcos de nova e flamante transamazônica viajando em um sinistro corredor de fumaça.

Chaves

Marta Morais da Costa

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Depositou o chaveiro sobre a mesa. Não porque fosse deixá-lo à vista para não perder. Não porque fosse um peso a menos no bolso. Também não para demonstrar propriedades a que pudesse acessar diretamente. Talvez para demostrar a ela sua condição de proprietário, de posses garantidoras do futuro, de acesso a muitos lugares todos seus ou sob sua responsabilidade. Duas chaves podem abrir poucas portas: dezenas delas abrem portas de respeitabilidade e poder.

Distraidamente ela passeou os olhos sobre o molho de chaves. Fixou-se no chaveiro, uma gasta tira de couro com argolas, que reuniam diferentes tamanhos e formas de chaves. Os olhos deslizaram do molho para a mesa, em imbuia escura e aparentemente sólida. Viajaram até as paredes camufladas por um simples papel colorido lembrando flores impressionistas.

– Qual é sua resposta? –  indagou com aparente calma e disfarçada curiosidade.

– Preciso responder agora? – ela retornou com dissimulada ingenuidade.

– Sim, precisa. Dependo dela para decidir meu futuro.

– Se for positiva?

– Inicio os preparativos.

– Se for negativa?

– Sairei de sua vida.

– E um talvez?

– Certamente não se aplica à minha pergunta.

– Então, dois minutos mais. Por favor.

Num aparente gesto descuidado, ele bateu delicadamente com os dedos no molho de chaves e as deixou mais visíveis para ela. Sobressaíam as chaves novas, brilhantes, maiores. As pequenas e coloridas, montavam o cenário para as protagonistas. O tempo escorreu por entre os interstícios do chaveiro.

– E então?

– Bem, sabe… pensando bem… minha resposta é não.

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Lamento. Muito.

Juntou o chaveiro, as chaves tilintaram em despedida, a escorrer lágrimas de metal. Sumiram no bolso e ele sumiu na esquina, apagando-se do cenário.

Ela continuou sentada à mesa, semblante decidido, olhos secos e fixos em uma das flores do papel de parede. Sem portas nem chaves. Apenas a luz filtrada pela janela aberta, que não precisa de chaves. Mas que não dispensa a luz e a lua.

Fora de ordem

Marta Morais da Costa

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Ô, Helena, tu vai ao mercado? Leva o Chico com tu que preciso resolver problema de boleto no banco.

E onde a gente se encontra depois, Cecília?

No ponto de ônibus, Helena. Calculo que em meia hora tô lá…

Tudo bem. Tchau então.

Helena pegou a mão de Chico e se foram porta adentro do mercado. Pão, cenoura, leite, arroz que estava em oferta, um pacotinho de farinha. Ah, e ovos! Tudo rapidinho pra poder cumprir o tempo aprazado. Chico quieto ao lado, ajudando a colocar no carrinho as comprinhas apressadas.

Mas quem resiste a uma prateleira de doces e chocolates? Helena se debruça sobre o balcão pra escolher as batatas. Chico, pacotinho de farinha na mão, aproveita para escapar para o corredor ao lado. Quer um pirulito vermelho como aquele que o Reca tinha na boca no recreio da escola. Sai de fininho, mexe e remexe e desalinha as mercadorias na prateleira. Nada do pirulito. Talvez no próximo corredor.

Sem Chico, em direção contrária, Helena aflita entrava em corredores cada vez menos próximos do desejo do menino: detergentes, compotas, álcool álcool álcool em formatos e cores diversas – do vinho ao caramelo, do verde ao incolor – e nada do Chico… Começou a temer.

O rapaz viu o menino, sozinho e atrapalhado, perguntou o nome, quem o havia trazido, onde estava a pessoa. Respostas confusas, a voz de criança usando uma língua parecida com o português. E o choro imediato a molhar os sons e expressar seu temor.

O mercado em polvorosa: a mulher procurando o menino, o menino procurando o pirulito, o rapaz procurando compreender, todos querendo reunir novamente a mulher e o menino. E todos a quererem trazer de volta a rotina de um mercado com pessoas que escolhem e compram e se vão.

Aos poucos uns falam com outros, de corredor a corredor o caso corre, as informações correm e corre o boato de que a criança tinha sido abandonada. Já se falava em polícia, boletim, aplicação das sanções de “abandono de incapaz”. Helena sem carrinho e sem compras andando em círculos pelos locais já devassados, gentes tomando a mão de qualquer criança que parecesse estar abandonada – e muitas crianças pareciam zumbis, mesmo com adultos por perto.

Não durou muito a procura: o suficiente para eletrizar o ambiente, parar as caixas registradoras, tirar do trabalho os repositores, provocar o engarrafamento de carrinhos e compras deixados ao léu, vozes altercando-se é esse o menino? essa a criança? e aquele ali? será que o menino não saiu e foi pra rua?

A palavra rua explodiu no ambiente: mães agarravam os filhos, prendiam nos braços, gritavam sua maternidade é meu! é meu! esse é meu! Vários clientes correram para fora do mercado, a vistoriar a rua que, por sorte, estava quase vazia e não tinha crianças à vista. Voltavam e em voz alta – até exagerada – tentavam acalmar quem estava nos corredores não saiu, não saiu, tem que estar aqui dentro! Clientes mais perspicazes juram que viram nuvens de alívio azuizinhas baixando sobre mercadorias secas e molhadas, pairando belas e leves sobre a panificadora e até o açougue.

Em cena cinematográfica, eis que Helena entra em um corredor, que ela jura ser o dos doces e chocolates, e o rapaz que trazia Chico pela mão jura que era o dos talcos e sabonetes, não importa, Helena vê Chico que vê Helena. Correm um para o outro, abraçam-se e os clientes, todos sorrindo mazzaropimente, aplaudiram a cena final daquele suspense capitalista.

Ah, Chico trazia na boca um pirulito vermelho…

Tudo bem, Helena? Comprou o que tu precisava? Chico se comportou? Os três reunidos no ponto de ônibus, sem atrasos de parte a parte.

Chico é um menino obediente, Cecília. Até me ajudou a colocar as coisas no carrinho. Deu tudo certo e Helena baixou os olhos. Vai que eles ainda guardassem restos de medo…

No estilo Marley e eu…

Marta Morais da Costa

Gostava de dirigir e de sair por aí sem saber aonde ir e sem ter hora de chegar. Logo que a profissão lhe permitiu, entrou em uma concessionária e comprou um carro zero. Comprometeu por quatro anos o orçamento reduzido, mas pôde exibir um semblante pacífico e de meio sorriso, típico das pessoas contentes consigo e com o que veem ao redor.

É verdade que, rodando pela cidade, viu muitas cenas tristes de gente morando em calçadas, de casebres com placa em neon, oferecendo serviços como conserto de sapatos, pintura, tarô e flores artificiais.

Viu também o empilhamento de pessoas e casas com vinte, trinta andares e um jardim frontal de 5mx10m com calçadas ocupando o triplo de espaço. Viu transeuntes apressados, carregados, solidários, gritantes, cabisbaixos, atônitos, suplicantes e, acima de tudo, aguerridos sobreviventes das batalhas urbanas.

Viu quadras em ruínas, parques coloridos, pontes de vários tamanhos, árvores e tocos, bosques e areais, dejetos e placas de projetos, flores nas janelas e muros pichados.

Ouviu palavrões, buzinas, ameaças, assaltos, pedidos de dinheiro e oferta de balas. Admirou os artistas de esquina, os motoristas cuidadosos e os prestadores de serviços públicos em ação. Não parou em acidentes, foi parada em proximidade de incêndios e em manifestações em prol de bandeiras variadas.

Nada diferente do que qualquer motorista vê, ouve, contempla e vive quando se aventura nas ruas de uma cidade.

Mas tinha uma identidade peculiar: a cada quatro anos, entrava em uma concessionária, deixava ali o automóvel em uso e saía com a nota fiscal de um novo carro. Zero, é lógico.

Não o fazia por exibicionismo, superstição ou pelo mau estado do velho companheiro. Apenas cumpria o conselho que havia recebido do pai: troque de carro a cada quatro anos – ou menos- já que você não entende e nem quer aprender sobre mecânica; carro novo costuma não dar problema durante esse período.

Pontualmente fez isso durante toda a vida. E a cada nova aquisição batizava a máquina com um nome-síntese do que considerava ser a identidade do veículo, muita além e mais significativa do que a placa obrigatória.

Passou pelo Grama, verde, baixinho, macio; pelo Estácio, que um dia transportou uma caixa de vinis de samba, que ganhou de uma prima que foi morar em Salvador; pela Madame de Sévigné, uma perua amarela, que lembrava as cores dos Correios; pela Madá, também conhecida por Madalena, com quem viveu de modo que “nem tão pouco se admite/que do nosso amor duvide”; o Sabiá, um potente fusca que cantava os pneus e os pinos que era uma beleza, tanto nos lás como nos cás; um corcel preto, Batman, que subia a serra em voos noturnos e amanhecia apaziguado na caverna do subsolo do prédio.  

Mas o maior conflito, a dúvida entre espada e caldeirinha, a escolha de Sofia está sendo neste momento. Cumprem-se quatro anos de vida amigável com uma onda civilizada, a Frozen, prateada e com termostato desregulado, que se mantém invariável na temperatura ártica de 16 graus. Mais-dia-menos-dia, entrará na concessionária para trocar, talvez, pela derradeira máquina de sua vida útil de motorista amadora.

Tem que ser um carro coroação, um ser significativo de uma trajetória de medos e surpresas, de paisagens e rostos, de multas e prestações, de desapego e dependência, de conversas a vidros fechados e brigas entre pedais. Não sabe como será essa máquina: dependerá do contato elétrico, faísca de descoberta: é esse! Tem cara de the end!

Venha na cor que vier, no tamanho que tiver, na potência pequena ou maiúscula do motor, bebendo álcool ou descarregando bateria, será seu amor derradeiro. O nome, este, já escolheu.

Consulta o saldo bancário, veste seu melhor traje “vou comprar um carro zero”, entra na Frozen e se dirige à concessionária.

Vai se encontrar, certamente, pela vez primeira com o Adieu, mes enfants!

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