Antigamente

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Bateu fundo o desejo nostálgico de escrever sobre um tempo passado e que dificilmente retornará. Um pouco de biografia, um tanto de memória, muito de imaginação, alimentados por relatos orais de outros e pelas páginas lidas em fontes diversas.

Nada como recordar o passado sem nunca poder recuperá-lo de verdade: ilusões de sermos testemunhas fiéis de qualquer fato observado. Nós, sempre nós, coletivos, a cultivar uma pretensa individualidade impossível.

Vamos, no entanto, em busca desses utópicos tempos memoriais.

Antigamente os sinos badalavam para marcar o inexorável escorrer do dia e da noite. A marcar missas e enterros, festas e quaresmas, centros da vida social e recatada em aparência.

Havia o ranger das rodas das carroças, algumas explosões de motores de automóveis, a atingir velocidades surpreendentes de 80 km horários!

Compravam-se alimentos a granel nos poucos armazéns de famílias a atender famílias, à vista ou no fio de bigode das cadernetas a fiado. A economia doméstica rigorosa mal permitia a matinê aos domingos. Mas a roupa era sempre asseada, engomada e impecável. Mães e tias estilistas e prendadas mantinham na máquina de costura a pedal a família em sua elegância interiorana.

A família crescia a cada dois anos, como cresciam os seios das meninas e as preocupações de soslaio de pais vigilantes.

A infância ainda não se havia ido de todo e a adolescência não era termo nem impedimento ainda. Era como se a passagem fosse direta da infância para a juventude adulta. Com dois marcos irrefutáveis: o baile dos 15 anos para as chamadas meninas-moças e o serviço militar para os rapagões.  Pórticos para a vida adulta com suas disponibilidades e responsabilidades. Esse duo de –ades não se exercia com igual intensidade nos dois sexos exclusivos (hoje, na multiplicidade de gêneros, palavra consiferada mais adequada e politicamente correta). Rapazes criavam asas e esporas facilmente. As moças ficavam sob as rédeas familiares. Avós, tios e irmãos decretavam costumes em igualdade com os atarefados pais, às voltas com todos os demais filhos e com a subsistência diária.

Nada impedia as brincadeiras de sempre: bola de gude, futebol, figurinhas, bonecas, pingue-pongue, pular corda, subir em árvores de quintais espaçosos e usar rodas de todos os diâmetros. Sem distinção de sexo. Uma infância de brincar com tudo e sem limites de território: em sua contiguidade o espaço mais socializado e socialista das crianças e dos adolescentes.

Um tempo em que a rua só era perigosa em momentos regulados pelo trabalho: a hora de ir para a fábrica ou a lavoura e a hora de voltar para casa, jantar e dormir. Sem televisão nem baladas ou raves: apenas as ondas do rádio e as conversas na cozinha, centro da sociabilidade familiar.

Quermesses da igreja, leilões, rifas, pescarias de bugigangas e músicas dedicadas aos namoricos e amigos, nessa ordem de preferência. Quando sobravam moedas, as matinês de domingo, animadas por filmes lançados há anos nos cinemas da capital.

No mais, a monotonia feliz dos dias regulados, das férias em casa, das viagens raras, dos amigos que só se disputavam por figurinhas e intrigas tolas.

O antigamente se espraia em ações e expectativas do hoje. De tal maneira amalgamou-se na vida interior e na memória, que dá sempre a impressão de ter sido apenas um documento histórico para dizer, entre rugas e cãs, “meninos, eu vi!”. Ou, em dias de mau humor e indignação com o presente, poder dizer-se em silêncio ou como uma acusação ao mundo mudado: “Era um tempo melhor: aquilo é que era vida!”

No entanto, no silêncio da solidão, em conversa com o espelho interior, sei que, verdade da verdade, o melhor mesmo era a idade: os olhos impregnados de jovens aprendizados e a alma aberta a acreditar no que viria.

Andando de banda…

“Do lado esquerdo carrego meus mortos.

Por isso caminho um pouco de banda.”

Carlos Drummond de Andrade

Amigos deveriam sempre estar de chegada. Jamais de partida.

Amigos deveriam sempre dizer alô. Adeus, jamais!

Amigos deveriam poder transformar retratos em cenas vivas; fotografias em revivescências.

Amigos não poderiam ter autorização para irem embora sem estar outras vezes conosco, em casa, na rua, em uma confeitaria, bebericando um café, ou até mesmo, num banco de praça contando lorotas, histórias e falando de amizade sem fim.

Amigos não poderiam partir de supetão: afinal, a amizade é longa porque os anos já pesam e se medem em décadas.

Amigo contador de histórias, não pode partir jamais. Porque não tem como recuperar a voz uma vez solta no ar. A voz não é uma pipa que retorna. Mesmo que o amigo crie pipas e faça de sua voz conto e canto. A voz não é como um livro, que reabro e refaço a conversa.

Amigo com voz mansa, voz de avô cuidadoso, de pessoa encantadora de pessoas, de cuidador de amizades, de cuidador de mentes, de cuidador de corações, ah, este não tem ordem nem licença para partir.

Mas partiu. E deixou amigos partidos. Uma história com fim. Um canto em silêncio. Uma leitura interrompida.

Francisco abriu voo para o além, aonde as pipas não chegam, aonde as histórias são outras.

Lá, juntou-se a outras bibliotecas andantes e irão banquetear-se com seus jeitos inesquecíveis de falar histórias de seus povos, agora mais órfãos.

Francisco Gregório Filho, sua presença na vida de seus amigos será perene, porque é impossível esquecer a generosidade, a fidalguia e a arte de um amigo como você.

Agradeço à vida que me permitiu aprender com você.

Marta Morais da Costa

A FALTA QUE A LEITURA FAZ

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Poucas aventuras são mais instigantes do que a escrita. Veio pela nuvem um convite para participar de uma experiência compartilhada sobre leitura. Não para tratar de sua teoria, muito menos de estatísticas – às vezes decepcionantes – sobre o número decrescente de leitores no Brasil. Tampouco para falar de experiências exitosas sobre a conquista de novos leitores (as experiências decepcionantes ficam guardadas no íntimo de nossas conversas ao espelho).

É para, no reverso da história e no modo inverso do espelho, dizer com o peito opresso e os olhos prestes a marejar a falta que a leitura faz. Primeiro e veloz passo foi a consulta etimológica desta palavra tão dolorida, a falta.

Falta de comida, de escola de qualidade, de vergonha na cara, de carinho, de pessoas, de sentimentos humanos altruístas. A falta é sempre um mergulho no contundente, no preocupante, no vexaminoso. Mas vá lá: convite de boas intenções, vindo de mãos generosas e mente afiada, como a da Eliana Yunes, é irrecusável. Boto a mão na massa do texto e escondo aquilo que machuca na parte inferior da parte inferior da parte inferior do fundo do cérebro.

Até a origem da palavra falta, em sua etimologia indoeuropeia, é obscura. Mas as suas derivações trazem um conjunto de situações e naturezas que se combinam para dizer da distância daquilo que um ser humano de razoável inteligência preza. Senão vejamos esse bando de palavras em nuvem sobejamente pesada: falaz, falência, falácia, falha, falso, falecer, desfalecer, falsete, falível, falsificação. Queremos, em nosso professar, que todas elas tenham em seu formato um redundante não a precedê-las.

Nosso desejo é de total negação: não as quero em meu entorno, em meus amigos, dentro de mim.

Falta, proveniente do latim vulgar fallita é forma verbal do verbo fallere, que pode significar“enganar,faltar,falsificar,equivocar-se, escapar a algo ou passar despercebido”.De cara, afirmo sem medo de errar: falta e leitura são opostos absolutos. Sua proximidade é a negação do empenho em formar leitores, objetivo maior do trabalho intenso e denodado de muitos de nós.

Em mim, a falta da leitura teria me conduzido (neste ponto, seguro meus dedos para não escrever uma mesóclise tão repudiada quanto correta gramaticalmente!) ao Hades pessoal, ao apagamento intelectual, ao isolamento, a um estado de regressão humana naquilo que reputo de mais significativo: a capacidade de visão múltipla e crítica.

Sem leitura, viva a falsificação! viva o equívoco! viva a diminuta capacidade de perceber a vida! viva o engano e, mais ainda, viva o auto-engano!

No elogio da ignorância, projeto político há tanto tempo vigente no Brasil – e, na atualidade, convertido em dogma-, a leitura não tem lugar. Sua falta, seu desfalecimento e a falsificação do conhecimento projetam-se em sombras ululantes, em esgares sem lucidez, em falas de fundo falso.

Em antiga marchinha de carnaval de minha meninice, cantava a letra: “pode me faltar tudo na vida: arroz, feijão e pão/ mas não quero que me falte a danada da cachaça”. Quando se chega a um tempo em que até a cachaça falta, além da manteiga, do pão, pior que tudo, do amor, faltar também a leitura é acabar com o carnaval, com a música, com a alegria.

Eu precisaria renascer para poder encarar uma distopia sem leitura.

Talvez o aniversariante de setembro, este país nascido à beira de um riachinho, ouvindo um grito contendo a palavra morte, pudesse renascer para outra realidade menos degradante, mais diversa e múltipla. O riachinho poderia estar lá, mas o grito seria primal, vital, cobrando o direito a pensar. Porque neste, a leitura tem seu lugar. E não é o lugar da falência, mas o da vida, “mesmo que seja Severina.”, como acreditou um poeta que carregava em seu nome o achamento da terra até então ignota.

Marta Morais da Costa

Curitiba /PR, 14 de setembro de 2022

OBS.: Este texto integra a coletânea de crônicas editada pelo iiLer e pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio sob o título “A falta que faz a leitura“, em formato de livro digital, organizado por Eliana Yunes, publicado em 26 de outubro de 2022.

Onde antes…

Onde antes estava o verde, agora predomina a terra seca, quase areia.

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Árvores centenárias foram obrigadas a prestar vassalagem às motosserras.

A mata nativa – troncos finos e ramas debruçadas sobre o chão – jaz inerte.

O silêncio sem pássaros e as trilhas sem pisadas nem rastros.

As folhas e galhos perderam seu farfalhar, agora monturos secos e esquálidos.

Cortou-se a comunicação entre as árvores, abriu-se o horizonte em luz e vazio.

Onde antes não havia caminhos, agora são vias sem margens, travadas pelo entulho vegetal.

Por tantos anos, o arvoredo foi repouso dos olhos, umidade contra a secura do asfalto, paisagem de fotos e resguardo de degradação.

Hoje, de surpresa, a descoberta de que em alguns poucos dias, a natureza elaborada em séculos amanheceu destroçada.

O ser humano, rei das espécies, mais uma vez mostrou-se vilão, depredador, criminoso.

Contra ele, a dor da perda, a dor da crueldade alheia, a dor de descobrir-se também humano na desamparada impotência.

Lágrimas corroem a manhã ensolarada, desverdecida.

Marta Morais da Costa

A escrita utópica

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Queria escrever um conto falando de amor, com gentileza, com palavras poéticas e beijinhos doces.

Queria escrever um poema infantil, com musicalidade que ficasse impregnada na memória, com achados verbais e dialogando com os sentimentos ainda imaturos, mas já presentes na alma da criança.

Queria escrever uma crônica sobre a saudade com aquelas palavras que submergem o coração nas letras e que fazem as lágrimas verterem suaves sobre os sulcos da face.

Queria escrever um romance histórico com personagens que foram carne e ossos, frutos de suas fraquezas e coragem, mas que assumiram seu papel no momento em que a história deu uma cambalhota e mudou de rumo.

Queria escrever a biografia de cada um de meus antepassados até a quarta geração. Para tanto, eu pesquisaria em documentos familiares e na composição de meu sangue suas pequenas epopeias diárias, sua força de trabalho e a construção de um imaginário futuro utópico que as gerações seguintes não conseguiram construir. Queria descrever os detalhes mais crus e mais emocionantes do momento em que fui concebida.

Queria reconstruir em uma peça semidrama-semicomédia os percalços e as conquistas vividas por uma atriz no período da belle époque em temporadas-relâmpago por vários palcos do Brasil. Seriam certamente cenas de intensa paixão e imensas frustrações que mergulhariam minha escrita em desencontrados sentimentos de dor e de júbilo, encerrados pelo cair da cortina do esquecimento ao final do terceiro ato.

Ah, a escrita que poderia ser e nunca será! Talvez sua existência seja em mim esse embate entre o que eu gostaria de escrever e o que minha habilidade expressiva permite.

Tenho certeza de que na carta à posteridade que escrevo ao viver, eu não conseguirei ultrapassar as “mal traçadas linhas”.

Marta Morais da Costa

Juntas em dia frio

Marta Morais da Costa

Atravessam minhas velhas juntas o frio e a preguiça. Um me paralisa diante do aquecedor. A outra me paralisa diante do computador.

É quando a preguiça toma conta, que o cérebro à toa decide e exige a escrita. Toda razão aos romanos: se o ócio domina, vão-se os negócios! E tudo é só deleite, de café e de vinho. Escrever traz todo o trabalho para dentro e é como se não fosse trabalho (tripalium, voltam os romanos: aquilo que tortura).

Tem quem me diga por que você não sossega? Outro me alfineta aposentou pra quê? De novo escrevendo? Isso não vai dar certo. E rolam estigmas, desalentos, ralas invejas.

Além das juntas, a idade corrompeu os tímpanos que perderam sua acuidade e viraram paroxítonas, timpano, timpano, cada vez mais roucos e moucos, negando os graves e alisando os agudos.

Fui sendo alfabetizada e letrada ao longo da vida, mudando de escala e de intensidade. Já prevejo mais uma aprendizagem, desta vez sem palavras faladas, só nas mãos – sem canetas ou teclados – mas na dança dos sinais. Talvez para compensar as juntas duras avessas à dança, as mãos dançarão, bailarinas não previstas a realizar aquilo que o corpo exigiu de esforços, e não teve recompensa. Dancei como Ginger Rogers e Cid Charisse nos braços de Astaire em todos os filmes a que assisti. E tomei chá de cadeira em todos os bailes da vida.

Faz mal, não. Lembra o ditado: quando a vida fecha uma porta, Deus abre uma janela? Pois é: quem tem pernas e quadris imóveis, dança com as mãos. Manuletrare, diriam os romanos se falassem o estrupício de latim que penso saber.

Advertência ao possível leitor: o frio e a preguiça somam-se em uma escrita macunaímica sincrética e desacreditável. Lá no romance, o piá confessa em nuvens de ingenuidade que mentiu. Com a cara-de-pau latino-americana, tem todas as etnias e vizinhanças e sai supimpamente para continuar mentindo e arrotando grandezas.

Não sou capaz de tanto, painho Mário de Andrade. Mas tenho também meus sincretismos : a preguiça de hoje juntou em um texto sem-vergonha algumas meninas de cabelos brancos e com zoínhos revirando de gosto, a contar seus desgostos e fragilidades, bebericando um chá mais a sustância de um bolo de fubá.

Eita povinho que se queixa de barriga cheia!

Para além da janela da sala onde escrevo sobre velhezas, vejo passar pessoas que não têm tripalium, mas têm os olhos fundos de fome e de abandono.

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Memória, leitura e comemorações

Marta Morais da Costa

Neste 9 de agosto, meu pai faria 100 anos. Essa nossa ocidental preferência por números decimais e, talvez, a imagem mítica de Matusalém vivendo um século podem estar na origem de uma celebração desse percurso de tempo.

Para além dessa motivação numérico-religiosa está a ação da memória que, ao constatar na folhinha a data repetida durante muitos anos, que vinha acompanhada de abraços, festejos e presentes, presentifica imagens, palavras, recordações.

Gosto do termo recordações, que tem em seu centro a palavra coração. O latim cordem amarra-se ao prefixo de repetição e ao sufixo de ação e temos o passado em movimento. A data e o coração tomam de assalto a memória e num átimo atômico, o pregresso regressa.

Para sua leitura tranquila,  ó raro leitor ó esquiva leitora, não pretendo falar de emoções filiais, de sentimentos de falta, de histórias familiares extintas.

Quero tratar da memória. O neurocientista Richard Restak publicou recentemente no New York Times uma recomendação de cuidados com a mente e exercícios para preservar a memória. O primeiro desses cuidados é o da atenção, que exige um desapego de diversionismos e derivativos e uma constante vigilância para manter a focalização.

Quando ler dá sono, podemos apostar que o leitor está à beira de um colapso por excesso de trabalho ou sua atenção ao texto que lê se perdeu. Não se exclui, é claro, o falso leitor, aquele que faz pose de, o desabituado de leituras, até mesmo avesso a elas, que, para não passar vexame público, finge que leu.

Nesse artigo, Restak recomenda como exercício para a memória “ler mais romances”. Esta ingênua e persistente mediadora de leitura aqui, ao ver essa recomendação, elevou o neurocientista ao Panteão dos Gurus da Leitura.

Cá pra nós (como aprecio esta expressão de cumplicidade!), acompanhar um texto verbal longo não é para qualquer leitor digital ou de imagens (sequenciadas ou não). Talvez isso denuncie a memória curta de grande parte de cidadãos brasileiros… Não lembram o que viam e leram em curto espaço de tempo. Mais ainda, procuram apagar da memória, como se a vida fosse uma página em branco que se escreve a cada dia. Como se fôssemos seres caídos de galáxias vizinhas e de olhos completamente sem história nem imagens precedentes.

Ler um romance é exercitar a capacidade de lembrar. Lembrar personagens, espaços, imagens verbais poderosas e situações que aconteceram não a milhas de distância, mas há algumas páginas atrás.

Minha longa história com meu pai se encadeia  e se circulariza a cada dia à medida que mais dias cabem na minha biografia. Não é apenas no espelho que o reencontro. São frases, conceitos, conselhos. A nem todos adotei ou segui. Sem arrependimentos. Foram escolhas, desacordos e recusas. Como qualquer filho em sua relação com os pais, Freud explicou. Como a própria história das nações e dos povos: a imagem do Pai precisa ser superada para que a civilização possa afirmar-se.

A lembrança de meu pai no seu centenário me faz pensar mais agudamente e com tristeza no bicentenário do Brasil. E, no espelho dessa comemoração cívica, eu não me reconheço.

Fonte: https://www.estadao.com.br/internacional/nytiw/exercicios-mentais-e-mudanca-de-habitos-neurologista-da-dicas-para-proteger-a-memoria/. Acesso em 7 de agosto de 2022.

O escritor

Marta Morais da Costa

Era um escritor desorganizado que escrevia à mão em folhas soltas. Alguns textos terminavam em uma só folha. Outros se estendiam por várias, que ele nem se dava o trabalho de numerar.

Espalhava os escritos pelo escritório: sobre a mesa de trabalho, sobre a poltrona de leitura, sobre o armário. Dentro de gavetas, pastas e caixas.

Depois recolhia os textos desordenadamente. Assim, a história de um pato manco continuava na história do menino alemão que viajava pelo Alasca. A história do navio fantasma virava de repente a do lobo faminto, perdido na floresta.

Por isso, nasciam histórias incríveis, que surpreendiam os leitores. No entanto, era um escritor famoso porque suas histórias pareciam relatos de sonhos.

E ele era amado por isso, porque os leitores esperam muitas vezes que o fantástico venha preencher os vazios da vida real.

Agora, o escritor está se aperfeiçoando. Escreve frases isoladas em pedaços de papel que espalha pela casa toda.

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Tempos de Van Gogh

Marta Morais da Costa

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Caros leitores, preciso alertá-los: o título desta crônica pode induzi-los a erro. Se vocês esperam um texto curto sobre a obra desse magnífico pintor, ficarão frustrados. Se, ao contrário, acharem que é presunção desta cronista querer em parcas e frouxas linhas abordar a obra de tão magnífico pintor, estarão duplamente certos: a cronista é fraca e o texto será sempre insuficiente, com poucas ou muitas linhas. Se vocês pensarem “lerei um panorama em voo de drone sobre o período histórico (magnífico!) em que viveu o magnífico pintor”, terão sido igualmente iludidos por uma crônica cujo título não corresponde ao conteúdo.

Para que não me acusem de usar o nome de tão magnífico pintor em vão, passo rapidamente a esclarecer um título que, confesso, é tão e muito pretensioso.

Um quadro de Van Gogh arremessa (assim mesmo, com violência) o espectador em um nebuloso mundo de torções (figuradas e imaginadas) de um espírito especialmente contorcido. Espectador-passante é tomado de abrupto pela mão que acorrenta o olhar num abismo de cores e curvas e linhas e dimensões arrebatadoras e provocadoras: o mundo e suas paisagens incitam mergulhos em razão e sentimentos convulsionados e convulsionáveis. O magnífico pintor faz do olhar de conforto, da arte de conforto – de qualquer conforto – rotos trapos, fiapos de conhecimentos prévios em derrocada, conduzindo a caminhos desconhecidos para um mundo também ele em convulsão.

A fórceps retorno à realidade de meu tempo, saio da arte para a natureza, desligo-me dela para um sobrevoo em textos nada perenes de um mundo convulsionado que amanhã oferecerá mais distorções, mais sangue, mais decepções e, provavelmente, mais espinhos transfixantes em meu desejo de ver pessoas vivendo em dignidade e em mútuo apoio.

O outono, versão idosa da primavera, não tem as cores vibrantes de Van Gogh – amarelos, azuis, verdes pujantes – mas é maravilhoso em seus tons alaranjados, marrons e verdes recolhidos. O sol outonal tem poentes indescritíveis em seus tons de saudade e carícias no pouco calor que amortece o dia, resfriando as noites de luares entre nuvens. O outono contém em sua expressão natural um rito de aquietação, de aceitação do inverno que se aproxima. Ao mesmo tempo, mantém o fio da esperança de ainda longínqua, mas previsível, primavera.

Gosto dos meio-tons outonais, do colorido que mistura o atrevimento e a decadência, o anúncio da claridade com a neblina, a chuva que traz o frio e o frio que se aquenta ao sol tímido, as flores a viver à beira do desaparecimento, as folhas que se recusam a cair em definitivo, as sombras que encurtam os dias. Outono sou eu, quase inverno, prestes a desaparecer.

Essa beleza incontestável de um tempo natural adequado ao ritmo das estações e da vida encontra sua desestabilização nas ações humanas.

Em um país cuja violência, tão frequente que deveria estar explícita no dístico da bandeira brasileira, outono ou primavera serão sempre tempos de conflagração. Não importa o calendário, tão desrespeitado quanto as leis: vide o carnaval desestabilizando para pior a marcha regular da natureza; vide o desassossego instaurado por falanges infratoras no que poderia ser o momento de retomada da vida após a cruel pandemia. Uma sociedade esmagada novamente em seus projetos de futuro por condições econômicas vividas como flagelo e causa de desumanidades. Neste país, o outono mais plácido (em tuas margens plácidas, ó Ipiranga!) é convulsionado pela fome e pela ambição, a revelar os piores estados de espírito, da poltronice à selvageria. Uma espécie de Van Gogh desvestido de arte, a causar não o impacto da beleza, mas o estupor da imbecilidade da humanidade degradada.

A Ucrânia devastada, a democracia rebaixada aqui e alhures, a emigração forçada, a degradação dos valores humanos, uma sociedade falseada, virtual e de avatares.

Estou mesmo outonal: a convulsão da arte de Van Gogh saiu dos olhos e da mente. Chegou-me ao coração em forma de profunda descrença. Talvez sem primavera.

Hoje é Dia do, da, de…

Marta Morais da Costa

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Confesso que a indiferença a datas comemorativas há muito tempo me assola. Em insana consciência acuso a leitura por esta falha calendárica. Essa indiferença resultou de ter bebido  o chá em que o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Domidongo comemoraram um  desaniversário em “Alice no país das maravilhas”. A proposta revolucionária de Lewis Carroll acendeu em mim uma lampadinha de descoberta: enquanto brindamos aniversários, datas cívicas e comemorativas de 24 horas, ocultamos outro tempo, muito mais longo, em que a vida pode nos brindar com alegrias mais intensas, com encontros mais inesperados, com brindes surpreendentes.

As datas marcadas e limitadas podem ser motivo de lembrança mais aguda e total. No Natal vamos lembrar mais intensamente os que nascem e os que compõem nossa vida com sua presença. No dia do professor, mais nos lembramos de reivindicações e de valores da profissão. Embora em cada aula, em cada preparação, em cada trabalho extraclasse o dia do professor faça sentido intenso e mais real.

Nos dias de vantagens ao comércio, como os dedicados aos pais, às crianças, aos namorados, às mães, uma rosa é menos rosa do que em dias não marcados. A surpresa e o inesperado perfuram os muros de distância e iluminam o olhar desprevenido. Aquele bilhete inesperado palavreando o afeto, mesmo que deixado em comezinhas mesas, em desengonçados aparadores, em espaços premidos entre louças e panelas, na contumaz porta da geladeira ou no teclado do computador podem alvoroçar sentimentos, revolucionar lembranças, incendiar afetos frios e apáticos.  

A linguagem do afeto não recusa palavrões e transborda em gestos, falas e ações, vestidos do mais torpe figurino, ousando fazer crer que a violência é uma forma de amor, que o assédio é atenção, que autoritarismo é cuidado. Ao arrepio dessa inversão, o coração demanda janelas e respiradouros e se lança ora em abismos de solidão ora em cachoeiras de rebeldia, deixando atrás de si silêncios e pedras, espinhos, limo e lodo.

Não é um dia assinalado em agendas e calendários que os afetos nada pacíficos, mas que almejam encontros verdadeiros, buscam saídas, consolo e retribuição. É no dia a dia dos suores, das rotinas, das pressas silenciadoras que eles se camuflam e se recolhem em esperas que, sem menos, explodem em revelações. Aí não importam datas, presentes e cumprimentos: somente o tempo presente e a indispensável presença.