A linha tênue

Marta Morais da Costa

 

Foto por Vladyslav Dushenkovsky em Pexels.com

Gosto da palavra “tênue”: ela tem classe e delicadeza. É forte e sutil ao mesmo tempo: a consoante inicial explode e sem demora se estende em uma sequência de vogais e nasal, que atenua a força inicial. Os sons da palavra deslizam em direção à calma, à leveza e ao silêncio.

            A expressão “vida tênue” nada tem de original, nem na forma, nem em seu conteúdo. A vida é, sim, débil, delgada, fina, fraca. Um sopro. Um raio. Uma cigarra, barulhenta e efêmera. Tem a consistência da espuma degradável e a força de um fio de cabelo. Nasce vigorosa, vive de esperanças e se desfaz em perdas.

            É porque ela assim se constitui que a amamos com forças íntimas e ímpetos românticos. Ela nos dói e nos sorri. Espanca e afaga. Existe nos limites e desafia os imprevistos. Convida para um banquete e, muitas vezes, serve apenas ossos. Anuncia-se no primeiro choro e se despede no último suspiro. Entre a lágrima e apagamento ficam semeados momentos de prazer e horas de aflição. Mas tem bonitezas, embora nem sempre as vejamos. Alguns até fecham os olhos ou a recobrem toda de feiura e recusas. E antecipam o suspiro.

            A leitura de livros e a escuta de pessoas construiu em mim a associação de velhice e sabedoria. Como se a vida fosse cumulativa como a idade. Traríamos ao longo da jornada fardos cada vez mais pesados de aprendizagens e adornos cada vez mais leves de compreensão da realidade. Chegaríamos assim à linha tênue das despedidas. Serenos e cordatos.

            Mais uma ilusão. Tão imensa e tão distante como Jorge e seu dragão,  desenhados na diáfana lua cheia que invade meu quarto. O corpo que enfraquece abriga revoltas juvenis e sonhos adolescentes. Nada é calmo, nem envolto em aceitação. Não são as mesmas indecisões do começo do caminho, mas são sempre inseguranças, expectativas e nebulosidades.

            O corpo repousará definitivamente um dia. Seguirá em mim, no entanto, a certeza de que o espírito preserva o vigor da juventude e os olhos, mesmo fechados, estarão em busca de paisagens e cores ainda não vividas.

            E quando a Parca vier com sua cortante presença definir a ruptura do fio tênue, encontrará, não a mesa posta e cada coisa em seu lugar, como descreveu Manuel Bandeira; terá que me buscar entre livros, preparando o banquete de palavras fortes e delicadas, rudes e interrogativas, em que consoantes e vogais se contradigam em linhas vincadas, pétreas, permanentes.

Investigação

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Há alguma penalidade para aqueles que desumanamente abandonam seres humanos à própria sorte e guardam para si todos os recursos que poderiam dignificar a vida de todos?

Há alguma expectativa de futuro para um país que faz da educação um depósito de crianças e jovens que não veem horizontes, apenas cavernas escuras?

Há alguma manhã de sol nas previsões de uma sociedade que escolhe a noite da violência e o nevoeiro da ignorância?

Há alguma ressurreição possível nas milhares de covas plantadas na terra entranhada de gemidos, arquejos e lágrimas?

Há alguma nota dançando no ar, nascida da música de vidas de trabalho e de ânsias uma realidade menos amarga?

Há alguma alegria em assistir na tela reduzida do celular aquela live de amigos queridos que não se podem encontrar presencialmente, e muito menos abraçar?

Há nesta vida que se prolonga a possível pacificação dos temores e a desejável permanência de ímpetos e utopias?

Há alguma segurança para joelhos trêmulos levarem uma pobre carcaça até o ponto de ônibus ali adiante, passeando sobre pedras desencontradas de calçadas urbanas mal cuidadas?

Há alguma recompensa para olhos cansados que se esforçam para ler as letras miúdas de uma edição antiga de um romance de José de Alencar?

Há neste cansaço e amargura um caminho seguro para a terra de Oz, para o reino da rainha Luana ou para os Gerais?

No hiato das perguntas, nebulosas respostas se agitam e, impotentes, retornam ao silêncio.

Pra não dizer que não falei de cruzes

Marta Morais da Costa

Já li os jornais. Já chorei por dentro todas as desilusões e temores. Já adubei a esperança, já troquei a água dos vasos de projetos de vida melhor. Já desaguei em textos de delicadeza e amorosidade. Fiz valer meus bons propósitos de mulher e cidadã. Já prestei ao meu dia nascente os deveres e ações a que me propus ao acordar em leito quente e de noite bem dormida.

Agora, manhã já alta, me arrogo o direito de gritar minha indignação, minha dor mais profunda, meu desejo de açoitar responsáveis pela terra arrasada que virou o país que eu amava e que defendia. Foram décadas de dedicação a uma cultura que acreditava valer o tempo de estudo e de divulgação, a uma terra que podia abrigar pessoas bravas e destemidas em defesa de um futuro melhor para todos.

Hoje me dedico a lamentar. Lamentar um país que, em 521 anos de história, atualmente só é capaz de repetir defeitos e crimes e de retornar ao atraso, à negação. Lamentar que, em razão da deseducação, da desinformação, do abandono institucional, o Brasil conseguiu produzir 500 000 mortos, e em contagem crescente.

Pior ainda: segundo a médica infectologista Ana Luiza Bierrenbach, autora de um estudo para a Vital Strategies, a marca trágica chega a mais de 700 000  vítimas de uma peste que combina a agressividade de um vírus com a agressividade assassina dos negacionistas.

Espero ter saúde para saber daqui a alguns anos toda a extensão dessa tragédia brasileira. A combinação vírus+ignorância+assalto aos cofres públicos+fome+desemprego+destruição das instituições criará outro Brasil. Segundo prognósticos sem bola de cristal e sem curandeirismo, sairemos da pandemia destroçados, doentes, pobres e desesperançados.

Tentei me filiar ao cordão pollyânnico para acreditar que pensamento positivo, escrita tematicamente amorosa e disseminação da esperança trariam conforto para uns, otimismo para outros e a crença no futuro para todos.

Com o passar dos dias, descubro que nada compensa os mortos queridos, os mortos desconhecidos, os mortos não sabidos. Morremos um pouco com cada um deles. Sinto que aos poucos estou morrendo por dentro, expatriada em meu país, soterrada em meus propósitos, descrente de saídas próximas e acuada pelo vírus e pela história.

Ao longo de um pouco mais de quinze meses, foi ganhando em mim a percepção atávica e ancestral de outras pestes, de outras ditaduras e falsas democracias, de períodos de fome e desumanidade, de grosseria e agressividade que afligiram pessoas melhores que eu. A peste de Tebas se fez presente em Édipo Rei. Boccaccio gravou em Decamerão a peste medieval. Camus metaforizou a mortandade de alma e corpo em A peste.  Picasso legou à posteridade todo o horror de Guernica. Antônio Callado fez de Reflexos do baile e Quarup o testamento da ditadura militar no Brasil.

Deste último, sempre me foi impactante a descoberta feita pelo protagonista de que o centro, o coração do Brasil, era um imenso e indestrutível formigueiro. Callado hoje vivo talvez substituísse a imagem por um esgoto a céu aberto em que os ratos se entredevoram, pela fome, pela ambição ou pelo poder.

A pátria armada, a madrasta hostil e o sangrento pavilhão sem esperança são as distorções de hinos cantados com a mão no fuzil e os pés na lama.

Os gladiadores saudavam o César de plantão, antes de morrer em benefício do espetáculo “panis et circem”. Talvez aqueles que, asfixiados, jazem nas UTIs brasileiras endereçassem de outro modo sua mensagem ao mandatário mortífero da vez e seus gestos não tivessem nenhuma compostura heroica.

Em Curitiba, no dia posterior ao trágico registro de 500 000 brasileiros mortos asfixiados.

O CAMAFEU

Marta Morais da Costa

Foto por Tom Swinnen em Pexels.com

O banco de jardim estava convidativo e eu cansada por demais. Os anos deixaram as pernas fracas e o fôlego curto. Sentada, fiquei a observar os passantes. Todos pareciam saber aonde queriam chegar, todos pareciam ter pressa e precaução, todos não me viam ali a observar sua passagem. Até que…

Saltou-me na memória a conversa que eu havia tido com uma quase adolescente, na festa de aniversário de meu neto. Eu também estava sentada, à frente de uma mesa de docinhos, balões e sanduíches. Ela foi chegando devagar, os olhos fixos no camafeu que enfeitava uma correntinha de prata no meu pescoço.

– Posso lhe perguntar uma coisa? – disse ela, com olhos inquietos.

– Você não quer antes dizer seu nome? – perguntei.

– Eu sou Luísa. Queria saber onde você conseguiu esse…como se diz?

– Camafeu – respondi. Comprei em uma viagem no ano passado.

– Ah! Eu quase tive um desses…

– Como assim: quase tive ?

– Bem… é uma história comprida.

A menina sentou-se na cadeira em frente.

– Eu morava ao lado da casa de dona Sofia. Sempre que dava um tempo, eu corria para a casa dela e ficava conversando. Levava uma flor, um doce, uma fruta ou um pouco de chá. Ela era muito sozinha, sabe? O Teco falava que ela era meio maluca. Mas hoje eu sei que não era. Era apenas solitária. Os filhos e netos moravam longe. O marido tinha morrido. Ninguém ia na casa dela. Mas ela contava histórias muito bonitas do tempo em que era menina, lá longe, na Europa. Às vezes chorava e eu ficava triste também.

Luísa falava com rapidez e dava para perceber pelos olhos dela que as imagens e as histórias estavam lá dentro ainda vivas.

– Estou deixando você chateada, tia?

– Nada, nem um pouquinho, Luísa. Pode continuar…

– Um dia, dona Sofia me levou até o quarto dela e abriu uma caixinha cheia de anéis, correntes, brincos, braceletes. Um mais lindo que o outro. E foi contando: este, ganhei de meu marido, aquele foi presente de minha avó; o azul comprei na Espanha. Cada joia tinha uma história. Ela contava e eu ouvia com gosto. Então ela me mostrou um camafeu, igual ao da senhora. Assim com essa figurinha de mulher, branca, delicada, parece que olhando para mim, cercada de pedrinhas brilhantes. Dona Sofia percebeu que eu gostei do camafeu. Então ela colocou ele em minhas mãos e disse: cuide dele alguns dias para mim. Voltei para casa, feliz. Minha mãe disse que eu ficasse alguns dias com ele e depois deveria devolver. No dia em que devolvi, Dona Sofia me disse sorrindo: quando eu for embora desta vida, vou deixar esta joia para você. Vou avisar meus filhos e eles darão o camafeu para você.

– Por que você não está usando esse presente? – perguntei, curiosa.

– Bem …quando dona Sofia morreu, os filhos vieram e levaram tudo o que era dela e nem lembraram de meu camafeu.

Luísa abaixou a cabeça e escondeu as lágrimas. Pensei na dor dessa menina, lembrei minha infância tão sem recompensas, considerei que poderia quem sabe comprar outro para mim.

Retirei a corrente do pescoço, abri as mãos da menina e nelas depositei a nacarada figurinha cercada de pequenas luzes brilhantes.

– É seu – disse. Faz de conta que dona Sofia me pediu para dar a você.

Luísa sorriu, segurou o camafeu como um tesouro e depositou em meu rosto um beijo agradecido como jamais recebi na vida.

Hoje, juro que vi passar, junto ao banco em que estou sentada, uma jovem de lindos olhos brilhantes e um camafeu pendurado no pescoço. Talvez fosse Luísa.

Urbanismo

Marta Morais da Costa

Da janela do apartamento, ela era visível na esquina do outro lado da rua. Nem os moradores mais antigos sabiam quem a havia plantado, ou quando. Talvez fosse uma remanescente de antigo bosque, arrasado para que casas e prédios surgissem no local.

Foto por Felix Mittermeier em Pexels.com

Ela significava o melhor antídoto contra a rotina, a pressão do trabalho, a consciência da morte. Eu e ela nos olhávamos, companheiras, ao longo do dia. Uma festa de diferentes sensações. Ver a dança suave dos galhos ao movimento da brisa ou frenética no tempo da tempestade. Admirar o brilho do sol em milhares de pontos de luz em suas folhas. Sentir a sombra protetora em dias de canícula. Acompanhar as cores cambiantes seguindo o  movimento do sol e das estações, tal um Monet vivo, urbano e intermitente na afirmação de sua maturidade.

Ela dominava majestosa a esquina de ruas que talvez nem existissem em sua mocidade. Mas casas e edifícios trouxeram pessoas. Pessoas trouxeram seus automóveis e a esquina trouxe um cruzamento de muitos acidentes. Este foi seu decreto de morte.

Como nas histórias, um dia – nada belo – chegaram os caminhões com seus operários e motosserras. Caíram primeiro os galhos mais altos, mais jovens. Em sua indesejada nudez, o tronco não dançava, nem brilhava, imóvel em cores e espanto. Esquartejá-lo foi questão de horas.

No lugar onde outrora existira uma imponente chau-chau, restou a ruína de uma saliência na calçada.

Na esquina, agora sem obstáculos visuais, os acidentes de trânsito continuam a acontecer.

Mal raiou, fresca e sanguínea, a madrugada…

Marta Morais da Costa

 

Verdade. Nem bem o dia era nascido e elas começaram a aparecer. Eram três boas novas em modos e naturezas diferentes, mas, juro, eram boas novas.

                O título desta pequena crônica-notícia nasceu em Raimundo Correa e eu, leitora mal intencionada, rapinei para expressar meu começo de dia presente. Pouco entendo de madrugadas, a não ser as insones. Pouco viajei como o poeta pelas aventuras de noitadas de sexo, vinho e rock-and-roll. Quer dizer: se as duas primeiras eram características da época biográfica do escritor, a última vai por minha conta. Bem como os professores ensinam: o leitor toma para si o texto, dá nele umas bofetadas ou algumas carícias e depois sai por aí trombeteando a “sua leitura”, categoria esta do mais puro narcisismo.

Nunca temos uma leitura exclusivamente nossa. Para desgosto dos autocentrados e egocêntricos desta sociedade perturbadoramente individualista, qualquer interpretação é uma apropriação feita a partir de vários investidores, para usar um jargãozinho mequetrefe do imperial mercado que nos governa. Lemos sempre com muitos escritos e intérpretes, pendurados ao redor de nosso cérebro, como minhocas pensantes e algumas vezes muito malandras, que Emília, a tal do sítio, acarinhava e alimentava. Esse cuidado com as quase serpentes muitos de nós fazemos questão de conservar.

Derrapei gostosamente no assunto deste texto: mas caminho em boas mãos e cérebros.

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com

Dando um cavalo de Tróia – o de pau é muito pouco instrutivo – volto ao dia amanhecendo. Pois é, acordar cedo demais desperta a vontade de deixar-se envolver pelo silêncio externo e pelas vozes internas de leituras sempre em andamento. Estava eu posta em sossego, ó bela Inês, mergulhada nos argumentos de Zigmunt Bauman em “O elogio da literatura” (Zahar, 2020), quando tropecei na armadilha de suas páginas e encontrei-me com a citação de Ionesco: “Sinto que toda mensagem de desesperança é o enunciado de uma situação da qual todo mundo deve, livremente, procurar uma saída.” (p.64)

Desespero, definhamento, depressão, destroços, desmatamento, desencontros, desprezo, desgoverno, esse cortejo infindável de palavras em des que perturbam nossa cabeça e nossas emoções no dia a dia e em todos os dias dos anos mais recentes e que vêm ao encontro da desesperança de Ionesco e na qual afundamos todos em desvarios. E, em um daqueles paradoxos desta vida sempre surpreendente,  o escritor do absurdo nos mergulha no caldo da realidade e, mais do que isso, espicaça e provoca o surgimento de reações e expectativas de futuro. Há uma saída e ela está estreitamente vinculada à liberdade.

Lembro-me de considerar, com taxa máxima de entusiasmo, aquela falsa frase patriótica “Laços fora, soldados” de um imperial e sensual jovem às margens do riacho. Assim como lindo era o sentido de libertar-se dos “grilhões que nos forjavam” do Hino da Independência. Minhocas-serpentes que mexeram com meu cérebro infantil e juvenil e deixaram seus filhotes na maturidade e nesta idade provecta. Liberdade pela qual muitos como eu clamam, sabendo que ela está encarcerada por jugos diversos e muitas vezes vendida em leilões nada beneficentes.

Mas com a curta citação em prol de uma saída livre e libertária vieram dois outros acontecimentos: uma mensagem amiga gravada querendo ajudar-me a sair do abatimento psíquico (nada estranho nestes tempos brasileiros), assim como se atravessasse a madrugada e chegasse com os primeiros raios do sol e sua luz a devassar escuridões de sentimento e de angústia. Cara amiga, meu definhamento (palavra que também estelionatei de artigo do New York Times sobre a pandemia e suas sequelas) sofreu um abalo com sua mensagem. Criou vergonha na cara e veio cá para o computador ajudar-me a escrever esta crônica. Espero que as palavras continuem a ser em mim um corpo flutuante a manter-me em nível de sobrevivência. Sua mensagem foi matéria de meu resgate. Talvez passageiro, talvez não. O agradecimento, ao contrário, não é e nem será efêmero.

Enumerei três boas novas: a terceira veio em penas, bico e voo. Um pássaro, destes, simples, comum, vira-lata, entrou em nossa casa. Voou onde encontrou espaço, sobrevoou móveis e pessoas, trombou em vidros e cortinas e desapareceu em algum cômodo. Procuramos por ele com o espírito de devolvê-lo à natureza. Ele, talvez um amante de livros, havia se refestelado entre eles em meu escritório, ansioso talvez por encontrar entre as páginas uma saída. Talvez tenha lido a frase de Ionesco. Quem sabe…

Quando me aproximei dele, olhou-me com desesperança, bateu freneticamente as asas, creio que se imaginou preso – ou em situação pior. Pássaros são mensageiros alados, fios moventes a ligar o céu à terra e depositários de todas as conexões simbólicas que despejamos sobre eles. Mesmo que não sejam na realidade toda essa qualificação que nosso espírito humano quer ler na natureza, ele ali estava e eu o sentia um igual.

A porta que abri foi a porta por onde ele, usando sua liberdade de movimento, saiu e reencontrou altura, espaços, voos.

Que possa eu, que possamos todos, encontrar logo nossas asas, antigos e novos voos e a saída para nossos trágicos acontecimentos desses últimos anos des.

Domingos de antes

Marta Morais da Costa

Guardo comigo lembranças majestáticas de domingos infantis. O dia começava com um acordar em altas horas da manhã, por volta das 8. Ao longo da semana, não importava a clemência ou impiedade do tempo, era um levantar cedo e ir para a escola. Mas o domingo era diferente. Mesmo tardio, sobre a mesa nos esperavam o pão caseiro (fabricado no dia anterior a muitas mãos), a geleia caseira (que eu sempre recusava, nem me lembro por quais motivos; mas até hoje o doce estraga o enorme prazer de uma fatia de pão caseiro), café com leite e açúcar – naquele tempo, a balança não era um tormento. Todos enfatiotados a caminho da missa das dez, com retorno previsto a tempo de ajudar a mãe com o  almoço, perfumado de manjericão e louro.

Entre as horas da manhã, era um estar em férias: brincadeiras de bola, de arco, bicicleta, bolinhas de gude, a atraente corda boleada, gritaria, correria, alegria (embora de vez em quando a briga corresse solta e a mamãe juíza estabelecesse regras e castigos).

Depois do almoço, a visita aos amigos ou a ida à matinê no Cine Paroquial. Os filmes tinham uma defasagem de tempo que não nos atormentava. Se Hollywood havia produzido aquela película (assim era conhecida nas falas empoladas) há três ou dez anos antes, para nós era sempre estreia no tempo presente. E era uma festa. Não tinha pipoca, mas as balas voavam de fileira para fileiras, ou passavam de mão em mão, ou ficavam escondidas em bolsos para futuros deleites em casa e durante a semana no lanche na escola.

Ninguém sossegava nas cadeiras. Antes de começar, um alvoroço: amigos trocando de lugar para ficar juntos, inimigos procurando fileiras cada vez mais distantes. E os namorados… Na época ríamos de sua então considerada timidez, indo buscar o fundo da plateia, mais escuro e menos desejado pelos demais frequentadores (espectadores é termo de tempos mais recentes). Mais tarde vim a entender os porquês de tão estranha preferência. Mas aí já é outro cinema. Não aquele ambiente de alegre balbúrdia de um dia sem escola.

Atualmente ouço tanto falar em interação, em resposta do leitor, em inclusão. Minha memória obriga-se a reivindicar para meu passado infantil todas essas palavras dentro de uma sala de cinema. Não só as cadeiras, nada silenciosas nem confortáveis, emitiam contínuos crécks e tracks a qualquer movimento que não fosse a imobilidade, também as gargantas não se continham e participavam intensamente das notícias (louvando ou xingando times no noticiário de futebol, assoviando para as beldades cariocas ou da Riviera francesa, vaiando antagonistas de todos os tipos). Nos filmes, não apenas as risadas acompanhavam as cenas cômicas. O público vaiava vilões, assoviava para as divas hollywoodianas, ronronava ou imitava beijos nas cenas amorosas e reclamava (e muito) quando a película entrava em fade out nas possíveis cenas tórridas, que somente se iluminavam na imaginação dos presentes. A mais intensa e continuada participação era quando a fita se rompia e o projetista demorava um pouco mais a colar as partes: a vaia era estrondosa e até os personagens, quando voltavam à tela, pareciam meio trêmulos e hesitantes, atravessados pelas vaias e assovios.

Flash Gordon e o vilão Ming: ah, seriados de antanho!

Ao final da sessão, saíamos da sala de cinema lambuzados de balas, meio roucos de participação e com a alma lavada. Em especial se Flash Gordon, o galã do seriado, havia se safado dos perigos, mesmo que o herói estivesse em vias de enfrentar outros e mais terríveis. Não sabíamos como, mas tínhamos certeza de que ele se safaria. Voltaríamos no domingo seguinte para conferir. E novamente colaborar com a festa comunitária da matinê.

Vale!

Foto por Nacho Juu00e1rez em Pexels.com

Marta Morais da Costa

No cinema, a cena de suspense, com passos ressoando apressados na calçada mal iluminada acompanhados de música em graves e compassos curtos, deixa acelerado o coração do espectador, a respiração suspensa e uma palidez interior que define a tensão e até o medo.

Sempre me pareceu exagerado – porque acentuado demais – o som dos passos, como se os sapatos da personagem tivessem ferraduras ou fossem especializados em sapateados. Hoje vejo que eles tentam cadenciar a aceleração cardíaca, bem como a música parece colar à mente a ideia de padrão, como quem diz: “preocupa não, espectador: você já sabe a razão pela qual esses sons estão ali”. Será que sei? Em vez de acalmar, eles me precipitam dentro da cena e eu sou o andante solitário prestes a sofrer ou a descobrir a potência do Mal.

A vida não tem preparação. É ao vivo e sempre surpreendente. Mesmo os esquemas mais previsíveis encontram atalhos, desvios, negações. Penso nos encontros casuais, nas coincidências, nos planos frustrados e nos improvisos bem sucedidos. A imprevisibilidade do formato das nuvens parece expressar, em linguagem aérea e etérea, o texto terrestre e humano.

Amores, afetos de todos os tipos, encontros nascidos de desencontros e desencontros vice e versa, palavras que voam e palavras que matam, acasos definitivos, a saúde que ultrapassa vaticínios fatais ou que abandona o vivente nos braços da morte, a infância defunta e a maturidade violenta, os dramas pessoais camuflados em sorrisos e gentilezas, as comemorações convergindo para a violência. Enfim, como diz Vinícius poeta, “A vida é pra valer (…) A vida não é de brincadeira, amigo.”.

Ela não tem as regras fixas das brincadeiras, nem sempre o seu prazer, nem sempre só seus trabalhos. Não tem só o brincar coletivo, tem o brincar escondido. A bola que nela rola escolhe caminhos indesejados, vai parar no inesperado e reverter o jogo.

Nestes dias difíceis e trágicos, em que o Brasil se desnuda em tragédias, em solidariedade, em abusos e mudanças de rota, em descobertas e falcatruas, como se  apenas agora, inaugurado  o ciclo de uma outra metade do milênio de seu surgimento para o mundo, o gigante adormecido descobrisse que é um ser minúsculo e despreparado para sua própria história.

A vida que vinha se preparando para ser a estrela de um show de emoções e alegrias, de repente se descobre apenas uma passagem para o céu (assim esperamos todos) do além. Mas é nesse impasse que ela ganha vulto, razão e sentido.

Ela vale, é pra valer, mesmo que o vale seja de lágrimas.

Vale! Fac valeas!

 

*Na despedida, fosse presencial ou em mensagens escritas, os romanos usavam as expressões latinas que reproduzo aqui. A palavra “Vale” significava “passa bem!”, “fica bem!”. E a expressão “fac valeas” expressava um conselho: “cuida-te”, “tem cuidado contigo”.

Apagamentos

Foto por Pixabay em Pexels.com

Marta Morais da Costa

É a hora desperta de mais uma noite de insônia. Diante de mim na mesa de trabalho o monitor do computador, o teclado, a impressora e a parafernália de cabos e fios que se embaraçam, tornam os espaços cada vez mais restritos, a desenhar roteiros próprios sobre o tampo da mesa, a escorrer aquáticos e negros pelas bordas e quinas.

Um cenário típico e sem surpresas do presente laboral de uma escriba.

Os olhos inchados repousam sobre o teclado. Nesta madrugada estão espertos. Os indícios de utilização incessante ganham inusitado relevo. Só então repara no desaparecimento e, em alguns casos, no quase apagamento da tinta branca que facilita o reconhecimento das teclas.

Sem dúvida, a pintura das letras não é de boa qualidade, dialogo-me interiormente. Ou será que a primeira explicação nasce do autoengano de atribuir culpa a outrem?

Melhor, penso: talvez o uso constante tenha corroído algumas teclas. Investigo as pistas da persistente escrita. Estão invisíveis o A e o E. Semidesaparecidos os desenhos do I e do O. Mas imperturbável, inteiro, quase novo: o U.

A língua portuguesa é realmente uma pauta sonora colorida, clara, de cantos solares de estio. O lúgubre U e suas propriedades invariantes, sem tons e semitons, o deixam pouco tocado. Os dedos irão pesar em outras combinações da partitura. Assim os As estupendos em claridade e combinações com acentos, nasais e tônicas. Como o E e o O, abrindo-se em brados de trompete ou fechando-se em lamentos saxofônicos. O I vibrante despertando olhos e ouvidos para sua esbelta agudeza, para os alertas de ironias e desatinos.

A vocalidade da língua falada e escrita no Brasil, despudorada, sem segredos, difere das oclusões e esconderijos da fala de Portugal. Nossa tropical alegria e malemolência e nossa tropical lentidão ecoam na fala que acompanha os dedos tamborilando o ritmo ralentado da enunciação.

E as consoantes?

O maior número delas suporta melhor o apagamento da identidade dada pela tinta. elas dividem o peso das palavras a sustentar-se ora sobre umas, ora sobre outras. As mais enfraquecidas e quase invisíveis são as teclas R e S: a sibilante e a vibrante, a manifestarem as contradições deste país-continente. Entre sussurros e arroubos, juntos ou separados, vão descrevendo nos sons nossas mazelas adolescentes.

Outra dupla siamesa, o M e o N, contribuem para nasalizar o veludo de uma língua em tom menor, amaciada pela história de um povo dito pacífico e quase de joelhos. O povo do jeitinho, das fugas, dos esconderijos e da impunidade.

A letra D perde sua redondeza e cria ângulos quase explodindo no T, como a querer cortar as ligações prepositivas de, dos, das, dum, duma e a esgarçar relações, deixando-as soltas na frase. Pão Açúcar, casa seis milhões…

Surpreende-me a tecla SHIFT, que no seu orgulhoso anglicismo, me leva a pensar que ando exagerando nos nomes próprios, nos títulos e quiçá nos Absolutos e até no egocentrismo do meu nome espalhado em tudo o que escrevo.

Nesse devaneio tecladista e linguístico, me impressiona sobremaneira a limpidez, a visibilidade e o pouco uso da interrogação. A tecla que a identifica brilha soberana no teclado. Ando assertiva demais, concluo. Onde estão olhos e atenção para os ???? da vida e do meu tempo?

Com urgência meu pensamento precisa reaprender o caminho das perguntas e ordenar ao mindinho direito que tecle o quê, quem e por quês deste tempo presente trágico.

400 mil seres humanos

O horror tem limites? Estou descobrindo que não.

Mensagens insistentes de que o “céu fica em festas” quando recebe as pessoas queridas comprovam uma forma esperançosa de autoengano.

Entendo a necessidade de amenizar o luto e criar um espaço em que minimamente a dor possa se recolher e ferir menos.

Reconheço que a dor estraçalha e arrebenta todos os sentidos.

Questiono um céu coalhado de milhões de novos mortos, mais do que nunca surpreendidos quando levavam uma vida normal. Ou que acreditavam ser normal: poder escolher ficar ou sair, estar consigo ou com muitos, viajar, visitar sem compromisso as mecas do consumo, abraçar, apertar as mãos de conhecidos ou não, tomar um café ou um porre na mesa do bar, trabalhar respirando sem obstáculos, manifestar-se em presença.

Questiono um céu aglomerado abrindo espaços na Terra e nos corações com São Pedro atarantado e frustrado por não poder receber a todos com as honras, cuidados e atenção que cada um merece. Batalhões e batalhões de anjos convocados com  urgência para dar suporte ao atendimento, mais  do que os batalhões de equipes intensivistas, do que os contingentes de profissionais da saúde.  

Nem a diferença de quem recebe almas e de quem recebe corpos com almas pode desqualificar uns ou outros. Anjos e homens formam uma corrente de acolhimento que parece ligar o Céu e a Terra.

Pensando melhor: nem tudo é tão sereno, nem tudo é tão contínuo, nem tudo é tão homogêneo. Nem o paralelismo formal é definitivo ou definidor.

Há aqui na Terra, porém, camadas de horror que bradam aos céus – mesmo que do Céu eu nada conheça e só reproduza o o que me contaram ou o que li. Horror nascido de nossa pobre e material humanidade concreta. É possível imaginar a dor física, a expectativa de cura, a consciência do fim, tudo o que a pessoa moribunda gostaria de viver, dizer, amar. Sofremos junto. Isto é, alguns conseguem essa empatia humanizada. Outros apenas contam quantidades, sem lhes dar algum valor social ou humano. Somente valores numéricos: atingimos a cifra, a curva é ascendente, a média móvel sofreu acréscimo de 7%, estamos em segundo lugar no número de mortos. E dê-lhe polca pandêmica!

Nesta semana, sofro de falta de ar (não aquele que levou ao céu tantas pessoas). Mas só encontro o ar fétido de uma sociedade em grande parte anestesiada e que desligou qualquer aparelho de consideração ao outro, de respeito à coletividade. Aquela que sai em busca de um prazer inadiável, de interações superficiais, de goles substanciais de “eu posso’ e  “eu quero” e “e daí?”. Se uma parte desse contingente pode ser considerado imbecil e ignorante, outra parte sofre de sociopatias diversas ou brinca de falsa divindade.

Tenho neste momento (e muitos como eu, certamente) os olhos assombrados pelo medo – por mim e por muitos queridos -, os olhos ensandecidos pelas imagens de não-me-importismo, os olhos inundados pelo lamento e pelo sofrimento de quem foi apartado de seu bem-querer, os olhos indignados pela incompetência daqueles que tudo açambarcam e nada entregam, os olhos a cada dia mais sem brilho ao reconhecer que “vivo em um tempo de guerra, vivo em um tempo sem paz” e vivo em completa derrota por não ter suficientemente contribuído por um mundo melhor.

Observação 1: Esta crônica foi editada inicialmente em 26 de fevereiro de 2021 com o título “251 mil”, mas na medida que a tragédia nacional foi se tornando mais cruel e o número de vidas perdidas aumentou, o título foi sendo atualizado. As demais palavras, embora duras, embora desestimuladoras, porém, continuam sinceras e válidas.

Observação 2: No dia de hoje, 29 de abril de 2021, o Brasil tem registradas 400 021 mortes pela COVID 19. Neste curto tempo de fevereiro até agora, cada atualização do título desta crônica custou a mim doloridas reflexões, intensa indignação e um lamento infindável. Diante da necropolítica que trouxe os brasileiros até aqui, o sentimento de perda não se extinguiu. Extinguiu-se, sim, minha capacidade emocional de seguir registrando ausências. Respeitosamente, pouparei a mim e a meus caros leitores o registro continuado de nossa tragédia.

Marta Morais da Costa