Tempos de Van Gogh

Marta Morais da Costa

Foto por Efdal YILDIZ em Pexels.com

Caros leitores, preciso alertá-los: o título desta crônica pode induzi-los a erro. Se vocês esperam um texto curto sobre a obra desse magnífico pintor, ficarão frustrados. Se, ao contrário, acharem que é presunção desta cronista querer em parcas e frouxas linhas abordar a obra de tão magnífico pintor, estarão duplamente certos: a cronista é fraca e o texto será sempre insuficiente, com poucas ou muitas linhas. Se vocês pensarem “lerei um panorama em voo de drone sobre o período histórico (magnífico!) em que viveu o magnífico pintor”, terão sido igualmente iludidos por uma crônica cujo título não corresponde ao conteúdo.

Para que não me acusem de usar o nome de tão magnífico pintor em vão, passo rapidamente a esclarecer um título que, confesso, é tão e muito pretensioso.

Um quadro de Van Gogh arremessa (assim mesmo, com violência) o espectador em um nebuloso mundo de torções (figuradas e imaginadas) de um espírito especialmente contorcido. Espectador-passante é tomado de abrupto pela mão que acorrenta o olhar num abismo de cores e curvas e linhas e dimensões arrebatadoras e provocadoras: o mundo e suas paisagens incitam mergulhos em razão e sentimentos convulsionados e convulsionáveis. O magnífico pintor faz do olhar de conforto, da arte de conforto – de qualquer conforto – rotos trapos, fiapos de conhecimentos prévios em derrocada, conduzindo a caminhos desconhecidos para um mundo também ele em convulsão.

A fórceps retorno à realidade de meu tempo, saio da arte para a natureza, desligo-me dela para um sobrevoo em textos nada perenes de um mundo convulsionado que amanhã oferecerá mais distorções, mais sangue, mais decepções e, provavelmente, mais espinhos transfixantes em meu desejo de ver pessoas vivendo em dignidade e em mútuo apoio.

O outono, versão idosa da primavera, não tem as cores vibrantes de Van Gogh – amarelos, azuis, verdes pujantes – mas é maravilhoso em seus tons alaranjados, marrons e verdes recolhidos. O sol outonal tem poentes indescritíveis em seus tons de saudade e carícias no pouco calor que amortece o dia, resfriando as noites de luares entre nuvens. O outono contém em sua expressão natural um rito de aquietação, de aceitação do inverno que se aproxima. Ao mesmo tempo, mantém o fio da esperança de ainda longínqua, mas previsível, primavera.

Gosto dos meio-tons outonais, do colorido que mistura o atrevimento e a decadência, o anúncio da claridade com a neblina, a chuva que traz o frio e o frio que se aquenta ao sol tímido, as flores a viver à beira do desaparecimento, as folhas que se recusam a cair em definitivo, as sombras que encurtam os dias. Outono sou eu, quase inverno, prestes a desaparecer.

Essa beleza incontestável de um tempo natural adequado ao ritmo das estações e da vida encontra sua desestabilização nas ações humanas.

Em um país cuja violência, tão frequente que deveria estar explícita no dístico da bandeira brasileira, outono ou primavera serão sempre tempos de conflagração. Não importa o calendário, tão desrespeitado quanto as leis: vide o carnaval desestabilizando para pior a marcha regular da natureza; vide o desassossego instaurado por falanges infratoras no que poderia ser o momento de retomada da vida após a cruel pandemia. Uma sociedade esmagada novamente em seus projetos de futuro por condições econômicas vividas como flagelo e causa de desumanidades. Neste país, o outono mais plácido (em tuas margens plácidas, ó Ipiranga!) é convulsionado pela fome e pela ambição, a revelar os piores estados de espírito, da poltronice à selvageria. Uma espécie de Van Gogh desvestido de arte, a causar não o impacto da beleza, mas o estupor da imbecilidade da humanidade degradada.

A Ucrânia devastada, a democracia rebaixada aqui e alhures, a emigração forçada, a degradação dos valores humanos, uma sociedade falseada, virtual e de avatares.

Estou mesmo outonal: a convulsão da arte de Van Gogh saiu dos olhos e da mente. Chegou-me ao coração em forma de profunda descrença. Talvez sem primavera.

Hoje é Dia do, da, de…

Marta Morais da Costa

Foto por Gert Coetzee em Pexels.com

Confesso que a indiferença a datas comemorativas há muito tempo me assola. Em insana consciência acuso a leitura por esta falha calendárica. Essa indiferença resultou de ter bebido  o chá em que o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Domidongo comemoraram um  desaniversário em “Alice no país das maravilhas”. A proposta revolucionária de Lewis Carroll acendeu em mim uma lampadinha de descoberta: enquanto brindamos aniversários, datas cívicas e comemorativas de 24 horas, ocultamos outro tempo, muito mais longo, em que a vida pode nos brindar com alegrias mais intensas, com encontros mais inesperados, com brindes surpreendentes.

As datas marcadas e limitadas podem ser motivo de lembrança mais aguda e total. No Natal vamos lembrar mais intensamente os que nascem e os que compõem nossa vida com sua presença. No dia do professor, mais nos lembramos de reivindicações e de valores da profissão. Embora em cada aula, em cada preparação, em cada trabalho extraclasse o dia do professor faça sentido intenso e mais real.

Nos dias de vantagens ao comércio, como os dedicados aos pais, às crianças, aos namorados, às mães, uma rosa é menos rosa do que em dias não marcados. A surpresa e o inesperado perfuram os muros de distância e iluminam o olhar desprevenido. Aquele bilhete inesperado palavreando o afeto, mesmo que deixado em comezinhas mesas, em desengonçados aparadores, em espaços premidos entre louças e panelas, na contumaz porta da geladeira ou no teclado do computador podem alvoroçar sentimentos, revolucionar lembranças, incendiar afetos frios e apáticos.  

A linguagem do afeto não recusa palavrões e transborda em gestos, falas e ações, vestidos do mais torpe figurino, ousando fazer crer que a violência é uma forma de amor, que o assédio é atenção, que autoritarismo é cuidado. Ao arrepio dessa inversão, o coração demanda janelas e respiradouros e se lança ora em abismos de solidão ora em cachoeiras de rebeldia, deixando atrás de si silêncios e pedras, espinhos, limo e lodo.

Não é um dia assinalado em agendas e calendários que os afetos nada pacíficos, mas que almejam encontros verdadeiros, buscam saídas, consolo e retribuição. É no dia a dia dos suores, das rotinas, das pressas silenciadoras que eles se camuflam e se recolhem em esperas que, sem menos, explodem em revelações. Aí não importam datas, presentes e cumprimentos: somente o tempo presente e a indispensável presença.

O  “Oscar da lacração”

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Que a língua é um organismo vivo, sabemos.

Que os falantes contribuem com termos novos continuadamente, já sabemos.

Que as gírias e jargões identificam, entre outros, grupos sociais, econômicos, profissionais, culturais e etários, estamos cansados de saber.

Mas (há sempre um mas no meio do caminho) ter que ir buscar no dicionário o significado da manchete de uma notícia para confirmar se o que a oralidade nos conta é a mesma narrativa que a língua escrita compreende, dá uma torção na autoestima. A gíria que desconheço é proporcionalmente mensurável com a idade a que consegui chegar. Em palavras mais cruas: pô, estou velha!

Na leitura diária dos jornais, geralmente feita como um exercício de despertar (em vários sentidos), encontrei hoje cedo a manchete que serve de título a esta crônica.

Não assisti à cerimônia da entrega do Oscar 2022. E não foi somente a este evento: não me movo no movie segundo o que a estatueta comanda. Tenho curiosidade, claro, como sou curiosa por resultados de futebol, por estatísticas, por pesquisas, por previsões e resultados de eleições. Procuro manter disso tudo uma distância que me permita continuar saudável. Principalmente manter o sono estável. Sem aquela de “sou inocente e durmo tranquila”! Durmo com todos os meus pecados, principalmente com os de estimação.

Mas um Oscar de lacração tem a ver com públicos e com recepção. E confesso que aí a coisa fica mais interessante para mim. Não é exatamente sobre a qualidade dos filmes a que o título da notícia faz referência. Mas à própria rentabilidade de público para a premiação tradicional. Os jornalistas apontam o dedo em riste para o fracasso de edições recentes do evento. As notícias insistem nas novidades inseridas no roteiro e nos apresentadores deste ano.

Aí, a situação fica mais interessante. Um público de cinema que adora espetacularizar e ser espetacularizado. Um público de espectadores movido por histórias de vida, de superação, de glamour, de sucesso, de emoções que a vida real não lhes trouxe.  O mundo das fadas da arte cinematográfica, com seus ogros e bruxos indispensáveis.

O tapete vermelho, vitrina da moda; os artistas em poses e previsões sobre ser ou não favoritos à estatueta; os grupos em lugares acessíveis pelas câmeras-olhos do mundo; os bordões e gags e piadas narcísicas e centradas no mundinho do cinema. E aqui fora os cavalinhos correndo.

Adoro cinema, minha imaginação foi e continua sendo nutrida por ele. A pandemia favoreceu muitos banquetes à la Babette e intoxicações de lixões. Senti a ausência das comunidades de auditórios e salas, reunidas por causa das telas e histórias.  Confesso que se pudesse estar frente a frente, olhos nos olhos com Frances McDormand, Olívia Colman, Judy Dench ou Viola Davis  ficaria para sempre muda e paralisada pela emoção. Para citar as que andam vivas nas ruas reais. Vê-las na telinha do televisor ao menos me impede um infarto.

Mas a cerimônia do Oscar me exclui por uma razão muito simples: se for pra competir, prefiro o esporte; se for pra exaltar, prefiro meus heróis próximos; se for pra mitificar, estou fora. É um espetáculo tedioso para quem tem mais o que ler e escrever. Nem para copiar e/ou admirar modelitos das atrizes famosas ou pretendentes a) me serve. Até porque tenho noção do ridículo. E espelhos.

A sucessão de nomes, fotos, cenas, fragmentados e isolados mostrados na assim proclamada cerimônia conta uma história que é pura ilusão, mais do que o cinema naturalmente produz. Dirão alguns que é o reconhecimento do trabalho de técnicos, atores, diretores e todas as pessoas que constroem essa indústria de arte e de dinheiro. Nem assim. Prefiro que meu jornal diário lacre quem está fazendo um trabalho meritório de alimentar o imaginário ensinando a pensar e a pescar. Quem está lutando bravamente para afirmar sua humanidade e sua competência erguendo casas, iluminando a vida, mantendo os espaços limpos de sujeira material e moral.

Artistas são o sal da terra, talvez seu Himalaia. Espetáculos de premiação são disputas de poder. Festa, ornamento, carnaval que termina em uma quarta-feira de cinzas. Para mim, é mais lucração do que lacração.

Agora, com licença, vou rever “Três canções para Benazir”, mais feroz do que um ataque de cães e em ritmo de um coração despedaçado.

Que fazer? Sou mesmo inclinada a tragédias…

Os bonitinhos 1

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

O rádio do carro me faz companhia. Fico sabendo que há uma campanha pública para adotar um ninho artificial para que os papagaios em quase extinção na Serra do Mar possam se acasalar e procriar. Uma iniciativa meritória em um país tão pouco cuidadoso com sua natureza. Um país que considera meritórias narrativas com bichinhos tão bonitinhos de carinha tão amigável e pelos que pedem carinho. Veja, Carlinhos! Observe, Luisinha! Não é lindo, Aninha? Com isso cresce a meiguice, a noção falseada sobre ratos e aranhas, ursos e serpentes, mas todos animais dignos de cuidados: tão bonitinhos!

Em um país nem tão distante, nas fotos e vídeos, as expressões de medo, o olhar assustado, a mão pequena colada na mão da mãe, as crianças esquecem as narrativas e seus personagens para atravessar corredores humanitários em fuga incompreensível. A disputa do espaço da rua não se dá com carros ou com brincadeiras: a paisagem é ocultada pelo carro de combate, pelas armas, pelo fogo que resta da batalha sem piedade. Nenhum livro, nenhuma escola, nenhuma paz doméstica preparou esses perdidos meninos e meninas para um tempo de guerra.

Os olhos que veem a guerra, viram a vida tranquila. Os olhos que viram a paz, agora contemplam as armas. Talvez na sua perdoável ignorância, achem tudo com cara de brincadeira, a mesma, só que em versão trágica. O gesto das mãos continua a cuidar do figurino da boneca amada, a fazer rodar o caminhão de bombeiros, tão bonitinho, vermelho e com luzes piscantes! Marcha, soldado/cabeça de papel…

As crianças de guerras pautadas pelo absurdo estão espalhadas pelo chão que sangra, ou deitadas em macas de flores vermelhas regadas com abundância, ou olhando incrédulas de olhos abertos e imóveis um céu enegrecido pela bestialidade adulta. Não mereceram nem os cuidados que animais predadores recebem nas histórias que ninguém mais lhes contará.

Crianças tão bonitinhas longe de seus bichinhos tão bonitinhos, maiúsculas em seu sacrifício, berrando cá dentro em mim a dor de um tempo convulso e sem remissão.

Veja, Carlinhos! Por que você está dormindo, Luisinha? Não é triste, Aninha?

FINÍLOGO

Marta Morais da Costa

O livro chega ao fim. Choro devidas lágrimas. Ou um entressorriso de final feliz. Ou um brutal ponto de interrogação: como? acabou? mas “isso” é um final?

Final não sei, mas sinal de resposta do leitor “isso” é.

Mas, e para quem escreve?

Chegar ao final é brindar com champanha como no filme “Obsessão”?

Tirar toneladas de temores e ansiedade dos ombros e da consciência?

Colocar o computador no modo enviar e jogar a bomba no colo do editor?

Ou é sair sorrateiramente no meio da madrugada e ir beber sozinha no Bar Fim de Noite no largo São Judas aqui no calçadão do bairro?

Ou é fechar o arquivo do livro ainda sem título, deixar pra amanhã, escovar os dentes e cair com a roupa de trabalho na cama desalinhada e deixar Morfeu atacar com mísseis e obuses o corpo em exaustão?

Só sei que ao acordar só lembrava os deuses do Olimpo tentando me convencer que a vida continua e vale a pena.

Não sei se foram eles, não sei se foi minha contraparte enxerida e digitante, não sei se copiei de algum site e esqueci qual, mas, ao abrir o computador no dia seguinte, saltou pra tela o último escrito da noite do fim do livro.

Peço aos amigos e inimigos, a algum e nenhoutros que escrevam pra mim dando respostas ou pistas mínimas sobre a autoria da cantilena que transcrevo.

Desde já considero que amigos ou inimigos respondentes integrarão a história do livro que, recém-findo, já deve andar por aí leve e solto, pronto para afagos e sopapos. Sempre receptivo a outras e novas palavras.

Foto por Stefan Messing em Pexels.com

Desenlaçamento

 

Um ensaio crítico sobre a história do livro pode ser a costura entre retalhos de histórias de livros, tal como uma história da leitura resulta do somatório parcial de histórias de leitores.

O propósito de aproximar, comparar, escolher e redigir fatos esparsos, coletados por outros escritores vários e diversos, é um exercício de persistência, de leitura de incontáveis páginas (impressas e virtuais), de um amálgama de materiais por vezes conflitantes, de um exercício diário de escolhas, de descartes, de favorecimentos.

Para quem escreve é, acima de tudo, estar em constante estado de aprendizagem. Não apenas de assuntos ou fatos ou narrativas sobre fatos, mas aprendizagens de entrelinhas, de empatias, de concordâncias e discordâncias teóricas e ideológicas em busca da construção de um texto denso e fluido, informativo sem ser cansativo, de admiração sem ser acrítico.

O resultado geralmente deixa lacunas no tecido da escrita pela impossibilidade de usar todos os fios, de saber que uma nova leitura trará à tona informações submersas. Emerge também o desejo maior e sempre avassalador de reescrever, de adicionar, de limar o estilo, de apagar impurezas, de recomeçar.

A escrita de um livro é sempre o desejo de reescrevê-lo.

Esse sentimento de recomeço corre paralelo ao momento da despedida, ao se colocar no alto da página a palavra “conclusão”.

No entanto, é necessário neste livro, que irá lançar-se ao mar dos leitores e do infinito de obras já escritas, colocar o ponto final – na realidade, as reticências.

Para tanto é preciso (re)ler, (re)ver o que ficou nas páginas anteriores e procurar dar a elas um norte, uma amarração, ou como Nanci Nóbrega ensinou, um arredondamento. Juntar o fim com o começo e o meio, e como a mítica serpente Ananta, percorrer o espaço sem tempo, fechar um círculo, uma etapa, um trabalho. Então, vamos concluir.

Magnetismo

Marta Morais da Costa

Foto por Jaiju Jacob em Pexels.com

Se você pensa que leitura é atividade para sedentários, para velhinhos solitários, para esquisitões que adoram posar de intelectuais, para desempregados que precisam dar um up em seus conhecimentos, para aqueles entediados que buscam emoções em romances apimentados, enfim, para viajantes confinados pela pandemia que, na falta de viagens reais, buscam nos livros os países que não podem visitar, então, me desculpe: você está sendo restritivo, equivocado, talvez até preconceituoso.

Se você aí, prefere outras atividades mais emocionantes ou recompensadoras que a leitura, tipo viagem para qualquer lugar (até em volta de seu bairro), ou prefere o suor das academias, ou até mesmo o balanço das ondas sobre um barco ou deitado na areia. Ou uma visita ao shopping com todo o stress e aqueles encontros inesperados que acabam em café frio ou virada de rosto para não encarar o inimigo. Ou uma sessão de cinema, perfumada pelo ranço da manteiga da pipoca super-salgada. Ou a conversa de bar que acaba invariavelmente com seu humor no dia seguinte, embebido em uma ressaca homérica. Ou…ou… Me perdoe a franqueza, mas você está sendo restritivo, equivocado, desperdiçador dessas energias que desmobiliam o cérebro.

Leitura será para poucos? Para os experts que identificam já na primeira frase proferida se o falante lê de verdade ou se prefere apenas ouvir seletivamente o que lhe trazem os ventos das telas, dos fones e das bocas com pouco investimento cerebral? Ou poderia ser para todos, rompidos os grilhões de preconceitos e paralisias?

De criança eu achava ler a coisa mais adulta e difícil do mundo. Uma espécie de mágica, aquela de tirar daqueles desenhos em linha coelhos de palavras, pássaros de ideias, borboletas de histórias, árvores frondosas de sentimentos pra rir e pra chorar.

Assim. Uma pessoa chega, como se fizesse isso há anos, com um objeto retangular que ora engorda ora emagrece e muda sempre de vestido, senta (e até fica em pé, se for preciso), tira a roupa do retângulo, ventila as dobras das anáguas, abraça as linhas e entrelinhas com olhos devoradores e que dançam de cima a baixo, acompanhando silenciosa partitura em passos cadenciados, de lá pra cá, de cá pra lá.

Se perguntada o que faz, responde lentamente: “Leio…arrisco…me entrego.”

Continuo na clave da infância, porque diante dessa espécie singular de ser humano, saio com pontos de interrogação nos olhos, na mente, na memória: “Como pode? Como? Deve ser uma mágica ancestral, aprendida com xamãs poderosos, que nem a mais avançada tecnologia consegue vencer.”

Religiosamente, toda ferromagnetizada, atravesso as ruas e me rendo ora a livrarias, ora a bibliotecas imantadas, onde vou viver por um tempo sem relógio no campo magnético da escrita. Aprendendo uma pouco mais sobre as operosas artes das fórmulas, rituais e símbolos da leitura.

Sem restrições, sem preconceitos, sem desperdícios.

Canto

Marta Morais da Costa

No alto da escada, ela cantava. Não o sucesso do momento, nem a cantiga de seus amores perdidos ou da esperança do reencontro. Cantava a alegria de estar viva e a beleza da natureza. Trazia do mundo pássaros cantores, brilhos de sol, esperança de chuvas, plantas a germinar.

A garganta abria sons de poesia, rimas alternadas, perfeitas, compassos de canções antigas de um povo assinalado pela alegria. O ar ganhou cores e sentidos. Os minutos ficaram congelados em relógios ocultos, mas implacáveis. A quentura da canção inundou o ar gélido da manhã.

O degrau me congelou no espaço. Os ouvidos me içaram. Foi-se sorrateira a ansiedade das horas que fechariam o dia. Nem compromissos, nem promessas, nem programas. A vida suspensa em lábios e sons e ritmo.

No encontro da música a cortina de um palco abrindo-se afoita e leve. Vinha do passado o reconhecimento: era o canto melancólico e suave da infância longínqua. Lábios maternos a acalentar a filha rebelde, a recusar adormecer-se em um tempo de agitação, a anular no sono as horas de brincar, a recusar o apelo dos jogos em companheirismo infantil.

As palavras adocicadas pelo afeto entravam, então, em ouvidos inquietos que pediam exclamações e interjeições. Vinham falando de prados e pássaros, de amores distantes e luares brilhantes. Promoviam o encontro do dedicado amante e cavaleiro e sua dama distante e altaneira. Construía em palavras castelo e caminhos, trazia nos sons o desejo do amor e da perda de si.

Eu, criança, nada entendia daquele enredo, mas entendia da presença, do afeto, dos sons cálidos, da suave calma que aos poucos fechava os olhos e expandia a paz.  E adormecia sonhando amores outros, ainda inatingíveis e já plenos.

O canto se interrompe. Uma risada estilhaça o ambiente. Ao lado da voz, um homem, desses trabalhadores braçais, magro, negro, pobre. Em sorriso franco, olhar travesso, as palavras ecoaram a claridade do canto: “Eu gosto tanto quando você canta para mim: o dia fica azulzinho.”

Terminei de subir a escada e, sorrindo, atravessei a porta de vidro. O dia ficara azulzinho.

Foto por Dominika Roseclay em Pexels.com

Versos, saudade e chamas

Marta Morais da Costa

De saia pregueada azul-marinho, blusa branca imaculada e engomada, meias brancas e sapatos pretos cuidadosamente engraxados, marchei por alguns anos, cercada de amigas e fanfarras, celebrando a Independência do Brasil. Menina ainda, achava aquilo tudo um evento digno de todos os louvores. Vibrava com o Hino Nacional Brasileiro, mesmo sem entender sua letra. Meus cadernos Avante acresciam o orgulho de ver tremular a bandeira brasileira no alto do mastro. Era um tempo de ordens e de inflamados sentimentos patrióticos, ilustrado pelo quadro de Pedro Américo, tido como registro fotográfico de uma situação política e de gestos patrióticos. E hoje jogado na prateleira da pós-verdade e, mais triste, em foto paródica.

Ah! foi bom ter a vida estendida até poder ler 1822, de Laurentino Gomes, e largar de ser ingênua e boba ao acreditar em historinhas que não assumem seu invólucro imaginativo e deturpador!

Será a tal sabedoria dos anciãos, esta de ver cair por terra um a um todos os castelos de ideias e aprendizagens da infância? Será sabedoria esta árida consciência de que o que se vê, ouve, fala e lê é apenas a consciência de que o sentido poderia ser outro? De que a verdade é uma versão? De que o que acontece é incompleto se for colocado em palavras? De que até a fotografia hoje é montagem e perspectiva, não mais registro? Que o real realmente é uma ilusão de realidade?

E, por mais que a repitamos, a palavra real é mais porosa e lacunar do que aquilo que ela pretende traduzir.

Em contraponto aos briosos e ilusórios desfiles da infância, a alma se enternecia e acalentava com os versos de “Pátria minha”, de Vinícius de Moraes. Eu que, à época, mal saíra de Curitiba para algumas paragens interioranas, me sentia exilada qual o poeta, e desejosa de uma pátria tão terna e pequena que caberia no meu entendimento juvenil. A nova “canção do exílio” do poeta-diplomata foi escrita após 1946, quando Vinícius assumiu o posto consular em Los Angeles. “Pátria minha” ganhou ares de fidalguia poética ao ser publicado em 1949 na prensa artesanal de outro poeta ímpar, João Cabral de Melo Neto, em Barcelona. Mais do que as cartas levadas por José Bonifácio a D. Pedro, a edição de um poema marcadamente saudoso anunciava uma pátria que não existia e nem viria a existir, mas que continha paradoxalmente o sentimento de maternidade, de seio úbere ao qual, quando em estado de saudade, sempre buscamos volver. Os versos do poeta longínquo diziam no lá a imagem que ele criara em si da pátria, esse cá distante.

“A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.”

Neste desesperador ano de 2021, senti falta de minha pátria, mais do que de meu uniforme escolar, de minha marcha desajeitada ao som da fanfarra escolar.  Saia, blusa e sapatos tornaram-se farrapos tal como o entusiasmado coro a saudar o virudum.

Reencontrei Vinícius na outra face de seu poema: a que substitui a dor da saudade pela dor do que é seu avesso.

“Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.”

A dor da terra destroçada. Do amor que não é mais. Da vergonha em lugar do orgulho. Do rio em chamas.

A linha tênue

Marta Morais da Costa

 

Foto por Vladyslav Dushenkovsky em Pexels.com

Gosto da palavra “tênue”: ela tem classe e delicadeza. É forte e sutil ao mesmo tempo: a consoante inicial explode e sem demora se estende em uma sequência de vogais e nasal, que atenua a força inicial. Os sons da palavra deslizam em direção à calma, à leveza e ao silêncio.

            A expressão “vida tênue” nada tem de original, nem na forma, nem em seu conteúdo. A vida é, sim, débil, delgada, fina, fraca. Um sopro. Um raio. Uma cigarra, barulhenta e efêmera. Tem a consistência da espuma degradável e a força de um fio de cabelo. Nasce vigorosa, vive de esperanças e se desfaz em perdas.

            É porque ela assim se constitui que a amamos com forças íntimas e ímpetos românticos. Ela nos dói e nos sorri. Espanca e afaga. Existe nos limites e desafia os imprevistos. Convida para um banquete e, muitas vezes, serve apenas ossos. Anuncia-se no primeiro choro e se despede no último suspiro. Entre a lágrima e apagamento ficam semeados momentos de prazer e horas de aflição. Mas tem bonitezas, embora nem sempre as vejamos. Alguns até fecham os olhos ou a recobrem toda de feiura e recusas. E antecipam o suspiro.

            A leitura de livros e a escuta de pessoas construiu em mim a associação de velhice e sabedoria. Como se a vida fosse cumulativa como a idade. Traríamos ao longo da jornada fardos cada vez mais pesados de aprendizagens e adornos cada vez mais leves de compreensão da realidade. Chegaríamos assim à linha tênue das despedidas. Serenos e cordatos.

            Mais uma ilusão. Tão imensa e tão distante como Jorge e seu dragão,  desenhados na diáfana lua cheia que invade meu quarto. O corpo que enfraquece abriga revoltas juvenis e sonhos adolescentes. Nada é calmo, nem envolto em aceitação. Não são as mesmas indecisões do começo do caminho, mas são sempre inseguranças, expectativas e nebulosidades.

            O corpo repousará definitivamente um dia. Seguirá em mim, no entanto, a certeza de que o espírito preserva o vigor da juventude e os olhos, mesmo fechados, estarão em busca de paisagens e cores ainda não vividas.

            E quando a Parca vier com sua cortante presença definir a ruptura do fio tênue, encontrará, não a mesa posta e cada coisa em seu lugar, como descreveu Manuel Bandeira; terá que me buscar entre livros, preparando o banquete de palavras fortes e delicadas, rudes e interrogativas, em que consoantes e vogais se contradigam em linhas vincadas, pétreas, permanentes.

Investigação

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Há alguma penalidade para aqueles que desumanamente abandonam seres humanos à própria sorte e guardam para si todos os recursos que poderiam dignificar a vida de todos?

Há alguma expectativa de futuro para um país que faz da educação um depósito de crianças e jovens que não veem horizontes, apenas cavernas escuras?

Há alguma manhã de sol nas previsões de uma sociedade que escolhe a noite da violência e o nevoeiro da ignorância?

Há alguma ressurreição possível nas milhares de covas plantadas na terra entranhada de gemidos, arquejos e lágrimas?

Há alguma nota dançando no ar, nascida da música de vidas de trabalho e de ânsias uma realidade menos amarga?

Há alguma alegria em assistir na tela reduzida do celular aquela live de amigos queridos que não se podem encontrar presencialmente, e muito menos abraçar?

Há nesta vida que se prolonga a possível pacificação dos temores e a desejável permanência de ímpetos e utopias?

Há alguma segurança para joelhos trêmulos levarem uma pobre carcaça até o ponto de ônibus ali adiante, passeando sobre pedras desencontradas de calçadas urbanas mal cuidadas?

Há alguma recompensa para olhos cansados que se esforçam para ler as letras miúdas de uma edição antiga de um romance de José de Alencar?

Há neste cansaço e amargura um caminho seguro para a terra de Oz, para o reino da rainha Luana ou para os Gerais?

No hiato das perguntas, nebulosas respostas se agitam e, impotentes, retornam ao silêncio.