Urbanismo

Marta Morais da Costa

Da janela do apartamento, ela era visível na esquina do outro lado da rua. Nem os moradores mais antigos sabiam quem a havia plantado, ou quando. Talvez fosse uma remanescente de antigo bosque, arrasado para que casas e prédios surgissem no local.

Foto por Felix Mittermeier em Pexels.com

Ela significava o melhor antídoto contra a rotina, a pressão do trabalho, a consciência da morte. Eu e ela nos olhávamos, companheiras, ao longo do dia. Uma festa de diferentes sensações. Ver a dança suave dos galhos ao movimento da brisa ou frenética no tempo da tempestade. Admirar o brilho do sol em milhares de pontos de luz em suas folhas. Sentir a sombra protetora em dias de canícula. Acompanhar as cores cambiantes seguindo o  movimento do sol e das estações, tal um Monet vivo, urbano e intermitente na afirmação de sua maturidade.

Ela dominava majestosa a esquina de ruas que talvez nem existissem em sua mocidade. Mas casas e edifícios trouxeram pessoas. Pessoas trouxeram seus automóveis e a esquina trouxe um cruzamento de muitos acidentes. Este foi seu decreto de morte.

Como nas histórias, um dia – nada belo – chegaram os caminhões com seus operários e motosserras. Caíram primeiro os galhos mais altos, mais jovens. Em sua indesejada nudez, o tronco não dançava, nem brilhava, imóvel em cores e espanto. Esquartejá-lo foi questão de horas.

No lugar onde outrora existira uma imponente chau-chau, restou a ruína de uma saliência na calçada.

Na esquina, agora sem obstáculos visuais, os acidentes de trânsito continuam a acontecer.

Mal raiou, fresca e sanguínea, a madrugada…

Marta Morais da Costa

 

Verdade. Nem bem o dia era nascido e elas começaram a aparecer. Eram três boas novas em modos e naturezas diferentes, mas, juro, eram boas novas.

                O título desta pequena crônica-notícia nasceu em Raimundo Correa e eu, leitora mal intencionada, rapinei para expressar meu começo de dia presente. Pouco entendo de madrugadas, a não ser as insones. Pouco viajei como o poeta pelas aventuras de noitadas de sexo, vinho e rock-and-roll. Quer dizer: se as duas primeiras eram características da época biográfica do escritor, a última vai por minha conta. Bem como os professores ensinam: o leitor toma para si o texto, dá nele umas bofetadas ou algumas carícias e depois sai por aí trombeteando a “sua leitura”, categoria esta do mais puro narcisismo.

Nunca temos uma leitura exclusivamente nossa. Para desgosto dos autocentrados e egocêntricos desta sociedade perturbadoramente individualista, qualquer interpretação é uma apropriação feita a partir de vários investidores, para usar um jargãozinho mequetrefe do imperial mercado que nos governa. Lemos sempre com muitos escritos e intérpretes, pendurados ao redor de nosso cérebro, como minhocas pensantes e algumas vezes muito malandras, que Emília, a tal do sítio, acarinhava e alimentava. Esse cuidado com as quase serpentes muitos de nós fazemos questão de conservar.

Derrapei gostosamente no assunto deste texto: mas caminho em boas mãos e cérebros.

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com

Dando um cavalo de Tróia – o de pau é muito pouco instrutivo – volto ao dia amanhecendo. Pois é, acordar cedo demais desperta a vontade de deixar-se envolver pelo silêncio externo e pelas vozes internas de leituras sempre em andamento. Estava eu posta em sossego, ó bela Inês, mergulhada nos argumentos de Zigmunt Bauman em “O elogio da literatura” (Zahar, 2020), quando tropecei na armadilha de suas páginas e encontrei-me com a citação de Ionesco: “Sinto que toda mensagem de desesperança é o enunciado de uma situação da qual todo mundo deve, livremente, procurar uma saída.” (p.64)

Desespero, definhamento, depressão, destroços, desmatamento, desencontros, desprezo, desgoverno, esse cortejo infindável de palavras em des que perturbam nossa cabeça e nossas emoções no dia a dia e em todos os dias dos anos mais recentes e que vêm ao encontro da desesperança de Ionesco e na qual afundamos todos em desvarios. E, em um daqueles paradoxos desta vida sempre surpreendente,  o escritor do absurdo nos mergulha no caldo da realidade e, mais do que isso, espicaça e provoca o surgimento de reações e expectativas de futuro. Há uma saída e ela está estreitamente vinculada à liberdade.

Lembro-me de considerar, com taxa máxima de entusiasmo, aquela falsa frase patriótica “Laços fora, soldados” de um imperial e sensual jovem às margens do riacho. Assim como lindo era o sentido de libertar-se dos “grilhões que nos forjavam” do Hino da Independência. Minhocas-serpentes que mexeram com meu cérebro infantil e juvenil e deixaram seus filhotes na maturidade e nesta idade provecta. Liberdade pela qual muitos como eu clamam, sabendo que ela está encarcerada por jugos diversos e muitas vezes vendida em leilões nada beneficentes.

Mas com a curta citação em prol de uma saída livre e libertária vieram dois outros acontecimentos: uma mensagem amiga gravada querendo ajudar-me a sair do abatimento psíquico (nada estranho nestes tempos brasileiros), assim como se atravessasse a madrugada e chegasse com os primeiros raios do sol e sua luz a devassar escuridões de sentimento e de angústia. Cara amiga, meu definhamento (palavra que também estelionatei de artigo do New York Times sobre a pandemia e suas sequelas) sofreu um abalo com sua mensagem. Criou vergonha na cara e veio cá para o computador ajudar-me a escrever esta crônica. Espero que as palavras continuem a ser em mim um corpo flutuante a manter-me em nível de sobrevivência. Sua mensagem foi matéria de meu resgate. Talvez passageiro, talvez não. O agradecimento, ao contrário, não é e nem será efêmero.

Enumerei três boas novas: a terceira veio em penas, bico e voo. Um pássaro, destes, simples, comum, vira-lata, entrou em nossa casa. Voou onde encontrou espaço, sobrevoou móveis e pessoas, trombou em vidros e cortinas e desapareceu em algum cômodo. Procuramos por ele com o espírito de devolvê-lo à natureza. Ele, talvez um amante de livros, havia se refestelado entre eles em meu escritório, ansioso talvez por encontrar entre as páginas uma saída. Talvez tenha lido a frase de Ionesco. Quem sabe…

Quando me aproximei dele, olhou-me com desesperança, bateu freneticamente as asas, creio que se imaginou preso – ou em situação pior. Pássaros são mensageiros alados, fios moventes a ligar o céu à terra e depositários de todas as conexões simbólicas que despejamos sobre eles. Mesmo que não sejam na realidade toda essa qualificação que nosso espírito humano quer ler na natureza, ele ali estava e eu o sentia um igual.

A porta que abri foi a porta por onde ele, usando sua liberdade de movimento, saiu e reencontrou altura, espaços, voos.

Que possa eu, que possamos todos, encontrar logo nossas asas, antigos e novos voos e a saída para nossos trágicos acontecimentos desses últimos anos des.

Domingos de antes

Marta Morais da Costa

Guardo comigo lembranças majestáticas de domingos infantis. O dia começava com um acordar em altas horas da manhã, por volta das 8. Ao longo da semana, não importava a clemência ou impiedade do tempo, era um levantar cedo e ir para a escola. Mas o domingo era diferente. Mesmo tardio, sobre a mesa nos esperavam o pão caseiro (fabricado no dia anterior a muitas mãos), a geleia caseira (que eu sempre recusava, nem me lembro por quais motivos; mas até hoje o doce estraga o enorme prazer de uma fatia de pão caseiro), café com leite e açúcar – naquele tempo, a balança não era um tormento. Todos enfatiotados a caminho da missa das dez, com retorno previsto a tempo de ajudar a mãe com o  almoço, perfumado de manjericão e louro.

Entre as horas da manhã, era um estar em férias: brincadeiras de bola, de arco, bicicleta, bolinhas de gude, a atraente corda boleada, gritaria, correria, alegria (embora de vez em quando a briga corresse solta e a mamãe juíza estabelecesse regras e castigos).

Depois do almoço, a visita aos amigos ou a ida à matinê no Cine Paroquial. Os filmes tinham uma defasagem de tempo que não nos atormentava. Se Hollywood havia produzido aquela película (assim era conhecida nas falas empoladas) há três ou dez anos antes, para nós era sempre estreia no tempo presente. E era uma festa. Não tinha pipoca, mas as balas voavam de fileira para fileiras, ou passavam de mão em mão, ou ficavam escondidas em bolsos para futuros deleites em casa e durante a semana no lanche na escola.

Ninguém sossegava nas cadeiras. Antes de começar, um alvoroço: amigos trocando de lugar para ficar juntos, inimigos procurando fileiras cada vez mais distantes. E os namorados… Na época ríamos de sua então considerada timidez, indo buscar o fundo da plateia, mais escuro e menos desejado pelos demais frequentadores (espectadores é termo de tempos mais recentes). Mais tarde vim a entender os porquês de tão estranha preferência. Mas aí já é outro cinema. Não aquele ambiente de alegre balbúrdia de um dia sem escola.

Atualmente ouço tanto falar em interação, em resposta do leitor, em inclusão. Minha memória obriga-se a reivindicar para meu passado infantil todas essas palavras dentro de uma sala de cinema. Não só as cadeiras, nada silenciosas nem confortáveis, emitiam contínuos crécks e tracks a qualquer movimento que não fosse a imobilidade, também as gargantas não se continham e participavam intensamente das notícias (louvando ou xingando times no noticiário de futebol, assoviando para as beldades cariocas ou da Riviera francesa, vaiando antagonistas de todos os tipos). Nos filmes, não apenas as risadas acompanhavam as cenas cômicas. O público vaiava vilões, assoviava para as divas hollywoodianas, ronronava ou imitava beijos nas cenas amorosas e reclamava (e muito) quando a película entrava em fade out nas possíveis cenas tórridas, que somente se iluminavam na imaginação dos presentes. A mais intensa e continuada participação era quando a fita se rompia e o projetista demorava um pouco mais a colar as partes: a vaia era estrondosa e até os personagens, quando voltavam à tela, pareciam meio trêmulos e hesitantes, atravessados pelas vaias e assovios.

Flash Gordon e o vilão Ming: ah, seriados de antanho!

Ao final da sessão, saíamos da sala de cinema lambuzados de balas, meio roucos de participação e com a alma lavada. Em especial se Flash Gordon, o galã do seriado, havia se safado dos perigos, mesmo que o herói estivesse em vias de enfrentar outros e mais terríveis. Não sabíamos como, mas tínhamos certeza de que ele se safaria. Voltaríamos no domingo seguinte para conferir. E novamente colaborar com a festa comunitária da matinê.

Vale!

Foto por Nacho Juu00e1rez em Pexels.com

Marta Morais da Costa

No cinema, a cena de suspense, com passos ressoando apressados na calçada mal iluminada acompanhados de música em graves e compassos curtos, deixa acelerado o coração do espectador, a respiração suspensa e uma palidez interior que define a tensão e até o medo.

Sempre me pareceu exagerado – porque acentuado demais – o som dos passos, como se os sapatos da personagem tivessem ferraduras ou fossem especializados em sapateados. Hoje vejo que eles tentam cadenciar a aceleração cardíaca, bem como a música parece colar à mente a ideia de padrão, como quem diz: “preocupa não, espectador: você já sabe a razão pela qual esses sons estão ali”. Será que sei? Em vez de acalmar, eles me precipitam dentro da cena e eu sou o andante solitário prestes a sofrer ou a descobrir a potência do Mal.

A vida não tem preparação. É ao vivo e sempre surpreendente. Mesmo os esquemas mais previsíveis encontram atalhos, desvios, negações. Penso nos encontros casuais, nas coincidências, nos planos frustrados e nos improvisos bem sucedidos. A imprevisibilidade do formato das nuvens parece expressar, em linguagem aérea e etérea, o texto terrestre e humano.

Amores, afetos de todos os tipos, encontros nascidos de desencontros e desencontros vice e versa, palavras que voam e palavras que matam, acasos definitivos, a saúde que ultrapassa vaticínios fatais ou que abandona o vivente nos braços da morte, a infância defunta e a maturidade violenta, os dramas pessoais camuflados em sorrisos e gentilezas, as comemorações convergindo para a violência. Enfim, como diz Vinícius poeta, “A vida é pra valer (…) A vida não é de brincadeira, amigo.”.

Ela não tem as regras fixas das brincadeiras, nem sempre o seu prazer, nem sempre só seus trabalhos. Não tem só o brincar coletivo, tem o brincar escondido. A bola que nela rola escolhe caminhos indesejados, vai parar no inesperado e reverter o jogo.

Nestes dias difíceis e trágicos, em que o Brasil se desnuda em tragédias, em solidariedade, em abusos e mudanças de rota, em descobertas e falcatruas, como se  apenas agora, inaugurado  o ciclo de uma outra metade do milênio de seu surgimento para o mundo, o gigante adormecido descobrisse que é um ser minúsculo e despreparado para sua própria história.

A vida que vinha se preparando para ser a estrela de um show de emoções e alegrias, de repente se descobre apenas uma passagem para o céu (assim esperamos todos) do além. Mas é nesse impasse que ela ganha vulto, razão e sentido.

Ela vale, é pra valer, mesmo que o vale seja de lágrimas.

Vale! Fac valeas!

 

*Na despedida, fosse presencial ou em mensagens escritas, os romanos usavam as expressões latinas que reproduzo aqui. A palavra “Vale” significava “passa bem!”, “fica bem!”. E a expressão “fac valeas” expressava um conselho: “cuida-te”, “tem cuidado contigo”.

Apagamentos

Foto por Pixabay em Pexels.com

Marta Morais da Costa

É a hora desperta de mais uma noite de insônia. Diante de mim na mesa de trabalho o monitor do computador, o teclado, a impressora e a parafernália de cabos e fios que se embaraçam, tornam os espaços cada vez mais restritos, a desenhar roteiros próprios sobre o tampo da mesa, a escorrer aquáticos e negros pelas bordas e quinas.

Um cenário típico e sem surpresas do presente laboral de uma escriba.

Os olhos inchados repousam sobre o teclado. Nesta madrugada estão espertos. Os indícios de utilização incessante ganham inusitado relevo. Só então repara no desaparecimento e, em alguns casos, no quase apagamento da tinta branca que facilita o reconhecimento das teclas.

Sem dúvida, a pintura das letras não é de boa qualidade, dialogo-me interiormente. Ou será que a primeira explicação nasce do autoengano de atribuir culpa a outrem?

Melhor, penso: talvez o uso constante tenha corroído algumas teclas. Investigo as pistas da persistente escrita. Estão invisíveis o A e o E. Semidesaparecidos os desenhos do I e do O. Mas imperturbável, inteiro, quase novo: o U.

A língua portuguesa é realmente uma pauta sonora colorida, clara, de cantos solares de estio. O lúgubre U e suas propriedades invariantes, sem tons e semitons, o deixam pouco tocado. Os dedos irão pesar em outras combinações da partitura. Assim os As estupendos em claridade e combinações com acentos, nasais e tônicas. Como o E e o O, abrindo-se em brados de trompete ou fechando-se em lamentos saxofônicos. O I vibrante despertando olhos e ouvidos para sua esbelta agudeza, para os alertas de ironias e desatinos.

A vocalidade da língua falada e escrita no Brasil, despudorada, sem segredos, difere das oclusões e esconderijos da fala de Portugal. Nossa tropical alegria e malemolência e nossa tropical lentidão ecoam na fala que acompanha os dedos tamborilando o ritmo ralentado da enunciação.

E as consoantes?

O maior número delas suporta melhor o apagamento da identidade dada pela tinta. elas dividem o peso das palavras a sustentar-se ora sobre umas, ora sobre outras. As mais enfraquecidas e quase invisíveis são as teclas R e S: a sibilante e a vibrante, a manifestarem as contradições deste país-continente. Entre sussurros e arroubos, juntos ou separados, vão descrevendo nos sons nossas mazelas adolescentes.

Outra dupla siamesa, o M e o N, contribuem para nasalizar o veludo de uma língua em tom menor, amaciada pela história de um povo dito pacífico e quase de joelhos. O povo do jeitinho, das fugas, dos esconderijos e da impunidade.

A letra D perde sua redondeza e cria ângulos quase explodindo no T, como a querer cortar as ligações prepositivas de, dos, das, dum, duma e a esgarçar relações, deixando-as soltas na frase. Pão Açúcar, casa seis milhões…

Surpreende-me a tecla SHIFT, que no seu orgulhoso anglicismo, me leva a pensar que ando exagerando nos nomes próprios, nos títulos e quiçá nos Absolutos e até no egocentrismo do meu nome espalhado em tudo o que escrevo.

Nesse devaneio tecladista e linguístico, me impressiona sobremaneira a limpidez, a visibilidade e o pouco uso da interrogação. A tecla que a identifica brilha soberana no teclado. Ando assertiva demais, concluo. Onde estão olhos e atenção para os ???? da vida e do meu tempo?

Com urgência meu pensamento precisa reaprender o caminho das perguntas e ordenar ao mindinho direito que tecle o quê, quem e por quês deste tempo presente trágico.

400 mil seres humanos

O horror tem limites? Estou descobrindo que não.

Mensagens insistentes de que o “céu fica em festas” quando recebe as pessoas queridas comprovam uma forma esperançosa de autoengano.

Entendo a necessidade de amenizar o luto e criar um espaço em que minimamente a dor possa se recolher e ferir menos.

Reconheço que a dor estraçalha e arrebenta todos os sentidos.

Questiono um céu coalhado de milhões de novos mortos, mais do que nunca surpreendidos quando levavam uma vida normal. Ou que acreditavam ser normal: poder escolher ficar ou sair, estar consigo ou com muitos, viajar, visitar sem compromisso as mecas do consumo, abraçar, apertar as mãos de conhecidos ou não, tomar um café ou um porre na mesa do bar, trabalhar respirando sem obstáculos, manifestar-se em presença.

Questiono um céu aglomerado abrindo espaços na Terra e nos corações com São Pedro atarantado e frustrado por não poder receber a todos com as honras, cuidados e atenção que cada um merece. Batalhões e batalhões de anjos convocados com  urgência para dar suporte ao atendimento, mais  do que os batalhões de equipes intensivistas, do que os contingentes de profissionais da saúde.  

Nem a diferença de quem recebe almas e de quem recebe corpos com almas pode desqualificar uns ou outros. Anjos e homens formam uma corrente de acolhimento que parece ligar o Céu e a Terra.

Pensando melhor: nem tudo é tão sereno, nem tudo é tão contínuo, nem tudo é tão homogêneo. Nem o paralelismo formal é definitivo ou definidor.

Há aqui na Terra, porém, camadas de horror que bradam aos céus – mesmo que do Céu eu nada conheça e só reproduza o o que me contaram ou o que li. Horror nascido de nossa pobre e material humanidade concreta. É possível imaginar a dor física, a expectativa de cura, a consciência do fim, tudo o que a pessoa moribunda gostaria de viver, dizer, amar. Sofremos junto. Isto é, alguns conseguem essa empatia humanizada. Outros apenas contam quantidades, sem lhes dar algum valor social ou humano. Somente valores numéricos: atingimos a cifra, a curva é ascendente, a média móvel sofreu acréscimo de 7%, estamos em segundo lugar no número de mortos. E dê-lhe polca pandêmica!

Nesta semana, sofro de falta de ar (não aquele que levou ao céu tantas pessoas). Mas só encontro o ar fétido de uma sociedade em grande parte anestesiada e que desligou qualquer aparelho de consideração ao outro, de respeito à coletividade. Aquela que sai em busca de um prazer inadiável, de interações superficiais, de goles substanciais de “eu posso’ e  “eu quero” e “e daí?”. Se uma parte desse contingente pode ser considerado imbecil e ignorante, outra parte sofre de sociopatias diversas ou brinca de falsa divindade.

Tenho neste momento (e muitos como eu, certamente) os olhos assombrados pelo medo – por mim e por muitos queridos -, os olhos ensandecidos pelas imagens de não-me-importismo, os olhos inundados pelo lamento e pelo sofrimento de quem foi apartado de seu bem-querer, os olhos indignados pela incompetência daqueles que tudo açambarcam e nada entregam, os olhos a cada dia mais sem brilho ao reconhecer que “vivo em um tempo de guerra, vivo em um tempo sem paz” e vivo em completa derrota por não ter suficientemente contribuído por um mundo melhor.

Observação 1: Esta crônica foi editada inicialmente em 26 de fevereiro de 2021 com o título “251 mil”, mas na medida que a tragédia nacional foi se tornando mais cruel e o número de vidas perdidas aumentou, o título foi sendo atualizado. As demais palavras, embora duras, embora desestimuladoras, porém, continuam sinceras e válidas.

Observação 2: No dia de hoje, 29 de abril de 2021, o Brasil tem registradas 400 021 mortes pela COVID 19. Neste curto tempo de fevereiro até agora, cada atualização do título desta crônica custou a mim doloridas reflexões, intensa indignação e um lamento infindável. Diante da necropolítica que trouxe os brasileiros até aqui, o sentimento de perda não se extinguiu. Extinguiu-se, sim, minha capacidade emocional de seguir registrando ausências. Respeitosamente, pouparei a mim e a meus caros leitores o registro continuado de nossa tragédia.

Marta Morais da Costa

Máscaras

Marta Morais da Costa

Foto por Jou00e3o Pavese em Pexels.com

Versão Céu Estrelado

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

Aos poucos fomos perdendo o receio do pior: bastava ficar recolhido, sair tomando cuidados básicos: distanciamento, máscara, álcool em gel. Passamos um pouco de dificuldade no início: tudo era muito diferente. A falta da vida normal de saídas, encontros, conversas, longos abraços doeu um pouco. A certeza de que estávamos ajudando a salvar vidas, a manter o vírus afastado, a não piorar as estatísticas, acendia a luz da cidadania.

Textos nas redes, telefonemas, oferta de auxílio (em especial para os quarentenados idosos), um desejo de ser solidário (muitas vezes o desejo transformado em ações), podcasts, lives, mensagens de otimismo, muito coraçãozinho e fotos lindas da natureza, de festas antigas, de viagens de sonho. Isso tudo foi acalmando a ansiedade, diminuindo o medo, acomodando nossa vida a um retiro cujo final era luminoso.

As notícias sobre vacinas começavam a ocupar o espaço em noticiário e a produzir imagens de salvação dentro de nossa voluntária solidão. Aprendemos a ter paciência, a minimizar problemas, a rever valores e comportamentos. Ficamos mais próximos de nossos próximos e mais senhores de nós mesmos.

Dedicamos o tempo a tarefas que relegávamos a outrem ou novas ações e atitudes. Aprendemos línguas estrangeiras, lemos mais e outros livros, assistimos a filmes de todas as categorias, colocamos ordem em horários, coisas e rotinas domésticas.

Nossas casas ganharam efetivamente o sentido de lares: proteção, companheirismo, boas práticas de relacionamento, um “vamos junto” até que a covid nos separe. Mas resistimos, vivemos mudanças que reconhecemos temporárias. Talvez sobrevivam em tempo sem quarentena. Talvez não.

É verdade que os divórcios aumentaram, que as crianças perderam aprendizagens, que os projetos para o Ano Novo foram destruídos e que a balança foi impiedosa com o sedentarismo obrigatório. É verdade que a cidadania (antes uma miragem) mostrou sua face de verdadeiro deserto sem fim, cruel, impiedoso, canalha. Mas hoje até relevamos essas dificuldades porque a proximidade do dia de vacinação apagará todos os pecados.

Afinal, um ano não vivido na integralidade é muito pouco para a sobrevida que acreditamos estar logo à frente.

Corremos sem sair do lugar e aquartelados entre a porta de entrada e a sem saída, aguardamos que nossa obediência e nossa reclusão (com toda sua carga de sacrifícios) nos mantenham vivos até a liberdade, ainda que tardia.

Esperamos a luz no fim do túnel, antes que ele se feche.

Foto por Francesco Ungaro em Pexels.com

Versão Raios e Trovoadas

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

A epidemia virou pandemia, três meses se quadruplicaram. O medo se tornou um item do cardápio diário. Toda a vida foi trancada em um quarto escuro, guardado por um pitbull e fechado a cadeado.

Os safados e os sacanas de sempre atacaram e destruíram o que apareceu pela frente. Continuam a agir diante de nossa passividade e covardia. Descobriram que o medo é o senhor da razão. Colocaram sem pudor na vitrina sua crueldade, indiferença, ganância e insaciável cobiça.

O novo normal veio em forma de deboche e despreparo. Toda incompetência e arrogância conheceu a luz, despudoradamente.

Veio a ciência com seu discurso meia boca e meia cara. Existe vacina, mas não para todos. Existe conhecimento, mas não para todos. Existem saídas, mas… Afinal, a ciência também é humana, feita por quem se cansa e por quem desiste.

Quem sabe a fé. Deus provê. Enquanto uns oram por seus mitos, outros rezam por seus mortos. Os agnósticos riem esfíngicos. Ao menos não descreem em vão.

A quarentena se transformou em trecentena e como a pilha de mortos, não cessa de crescer. Empilham-se os dias e sonhos e ânsias de liberdade. Para os tolos. Os espertos sempre continuam a vida normal, descuidados, debochados, inconsequentes, carpindo os dias para sai e a noite derradeira para os outros.

O novo normal é a revivescência da barbárie. A solidariedade é  o encontro virtual, o que se deseja com a certeza de nunca realizar.

Um ano se vai em um país pindorâmico de um anão anestesiado que sonha um abortado futuro. Não terra brasilis, sed terra ignorantis.

Hoje, com futuro encolhido e regressivo, em um quarto com janela gradeada, de onde se vê o horizonte e as flores, e de onde só sairemos em direção ao porão.

Depois de um ano, colecionamos virtualidades. O mundo dos robôs já chegou. Nossa convivência é com máquinas. Não com gente. As lives são pessoas bidimensionais, como em canais interativos. Não com pessoas diversas, mas com inimigos transmissores, que também nos olham e nos consideram inimigos.

Uma sociedade acuada pelos lobos famintos, agressivos e solidários apenas com sua alcateia.

Uma sociedade ameba, enclausurada, a implorar por vacinas e pela velha normalidade. Desejando apenas continuar a ser sobrevivente, já que a vida se restringiu a paredes, ilusoriamente transitórias.

O novo normal, se chegar, será árido por fora e ácido por dentro. Uma sociedade obrigatoriamente adoecida, em que o riso é um esgar e a voz, um sopro.

Não existe vacina para a assustadora descoberta do Mal e para a devastação interior.

Lives: pleonasmos e entusiasmos

Marta Morais da Costa

Ao longo desta longa reclusão desta infortunada e cada vez mais longa pandemia, escolhi dividir meu tempo diário com um grande número de lives, esta invasora dos lares e dos silêncios. Se alguma aversão eu tivesse à tecnologia, eu a teria perdido gostosamente neste período. Ser analfabeta digital não significa que sonho com tempos do uso da pena de ganso e do pergaminho. Como nos amores não correspondidos, quanto mais dificuldades encontro, mais o desejo aumenta.

Seria muito mais devoradora de vida a pandemia sem a vida (live) com que a tecnologia me presenteou. Seria menos ativa intelectualmente esta trecentena sem o convívio com pensares e falares tão diversificados. Seria mais triste este tempo de horror (e não só causado pela pandemia) sem o riso provocado por palavras jocosas e por erros imprevistos que rechearam esse tempo de espetáculos. Seria mais tedioso o contínuo descarte das folhas do calendário – enquanto a vacina não chega – não fosse a companhia de pessoas, em sua maioria desconhecidas, que desfilaram em imagens quadradinhas ou em diálogos chat(ianos).

Congressos, feiras, cursos, palestras, entrevistas, encontros à distância, nada deixei de lado quando os assuntos estavam no meu horizonte de interesse ou na minha simpatia pelos assuntos. Do entusiasmo e voracidade iniciais cheguei ao sublime estágio da seleção rigorosa e do impiedoso descarte do que se repetia, do que se superficializava, do que demonstrava a arrogância e presunção de falantes e escreventes.

Porque estou em fase de prova de vida em ano de mortes e rebobino os filmes – caraca, como esta expressão envelheceu! – do que vi e vivi, registro uma breve síntese. Já que falei em filmes, recordo também aquele aviso providencial que eximia de responsabilidade judicial a equipe técnica e artística: “Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.” Coincidência sim, mas também consciência de que essas pessoas existem de fato.

Mediador-a: Por favor, ligue seu microfone. Aí na parte de baixo da tela…não achou? o ícone que tem um microfone…esse é o do vídeo!…a imagem sumiu…está me ouvindo? tente o outro, o do microfone…Aíííí, agora deu. Parabéns!

Entrevistado-a: Pois é na minha infância, quando eu era criança, não tinha livros em casa…Li meu primeiro livro completo na universidade. Mas lá na escola a gente lia historinhas com fadinhas, bichinhos, fantasminhas, casinhas…

Mediador-a: Professora, como a senhora explica os resultados da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” que dão conta da diminuição do número de leitores no Brasil? Mas antes que a senhora responda que saudar as pessoas que estão nos assistindo…oi, Clara! Há quanto tempo!! que bom que você está aqui. Nossa, também o Carlos Alberto, presidente da companhia de Velas Iaraçu! Agradeço por estar aqui. Professora, sua amiga Joana lhe manda um beijo e saudades. Também estão conosco pessoas de Luís Navegador (SC), Arraial dos Aflitos (GO), Boa Esperança dos Vulneráveis (PR), Cratera (PI), Sol de Inverno (AC) e muitos outros lugares deste Brasilzão. Professora, o que a senhora poderia dizer sobre a leitura de bebês?

Entrevistado: Então, quando vim morar aqui na capital e entrei para a universidade…sei lá, meio assim sem muita leitura, entusiasmado com a possibilidade de aprender e aí fui conhecendo alguns mestres: o professor João que me emprestou muitos livros e dava umas aulas inesquecíveis; o excelente professor Vítor, que me apresentou Descartes, Darwin, Derrida e me indicou o livro de minha vida, o ….(inaudível), do grande Nietszche. Também li Sartre, Camus, Proust, Butler, Botton, Bacon, Arendt (neste momento a avalanche de nomes foi cortada por uma tosse agnóstica potente e o mediador passou a palavra para outra convidada).

Palestrante: Bom dia a todos. Bom dia a todas. Gostaria de agradecer blá-blá-blá  e dizer que no momento desenvolvo os seguintes projetos blá-blá-blá (a enrolação se prolonga por mais uns vinte minutos ). Eu escrevi a minha fala e peço desculpas porque vou ler. Segundo os princípios da epistemologia genético-virótica, os sintomas de desleiturização estão relacionados….(o número de pessoas assistindo diminui a cada 30 segundos). Passando ao segundo item (já são 15 os participantes). Concluindo… (o-a palestrante e o-a mediador-a são os participantes restantes).

Mediador-a: Vou fazer uma pergunta a todos os convidados  e quem quiser começar é só falar: a literatura infantil serve para quê?  E, se quiserem, podem já responder à segunda questão: como é escrever para crianças?

Não fiquei conectada para ouvir as respostas. Sei que, ao menos por boa educação e respeito, deveria dar aos participantes meu voto de confiança e acreditar que as respostas seriam de alto nível e proveito, já que as perguntas ficaram aquém do analfabetismo indagativo. Mas me esperava no canto esquerdo da mesa um volume da obra completa de João Cabral de Melo Neto. Preferi rever a “Educação pela pedra”, porque o avanço tecnológico ainda não conseguiu me explicar porque a educação tem tantas carências no Brasil.

Da cor do pecado

Marta Morais da Costa

O pecado foi o monstro temível e aterrador de minha infância. A cabeça hipertrofiada, o riso bestial, olhos em fogo, dentes lupinos, garras e cascos. Algo como um diabo medieval somado à besta do lago Ness. Nem por isso eu deixava de levar semanalmente ao confessionário uma lista decuplicada de transgressões às leis divinas. É verdade que, perto do que a idade madura traria, o rol era apenas fruto da imaginação e eco dos sermões dominicais. Nascemos todos anjos, alguns perdem as asas e humanizam-se rapidamente. Em slow motion, demorei a perdê-las. E até hoje tento humanizar-me. Dura tarefa, talvez impossível. Se o que vejo ao redor e cotidianamente é o modelo de humanidade, fico mais certa de que não quero assumir em mim o que meus olhos descobrem.

Esta crônica não tem a intenção de atuar como confessionário, portanto, fiquem tranquilos, leitores, prometo não enveredar por questões religiosas, embora elas enveredem teimosamente no meio de minhas palavras e dos dedos a dançar pelo teclado. Vade retro, temptatione!

Herdei do repertório brasileiro de canções, tão rico, diverso e inovador (com o perdão dos países que reclamam esses adjetivos, mas não passam de arremedos de nossa criatividade musical) uma composição que, se puder, canto no volume mais alto que as pregas vocais aguentarem: “Da cor do pecado”, de Bororó.  Para além do caldo sensual, das imagens voluptuosas, me intriga essa minúscula construção verbal desafiadora do título. Qual é a cor? Por que é pecado?

Vai daí que recebo um meme instigante sobre “Os 7 pecados literários” de @nosso_universo_literario. Conhecem? Tomo a liberdade de reproduzir para os poucos que ainda não o viram:

1 Gula- Devorar um livro em poucos dias.

2 Avareza- Não emprestar livros.

3 Luxúria – Desejar um livro sem ter lido os que já tem.

4 Ira – Querer matar um personagem.

5 Inveja – Cobiçar o livro do próximo.

6 Preguiça – Enrolar para terminar um livro.

7 Orgulho – Achar que o gênero que você lê é o melhor.

Depois de um exame de consciência na velocidade da luz, fiquei achando que até melhorei ao longo dos anos. Sabem aquela lista de 10 pecados no confessionário da infância? Pois é, agora são somente sete!

Incorro em todos esses, sem culpa, gostosamente.

Também não é para fazer uma profissão de fé pecaminosa em relação à leitura que iniciei esta crônica-confissão. O que me perturba é a tal “cor do pecado”. Será que tem a ver com a cor das vogais do poema de Rimbaud?

Só pra recordar: o jovem poeta e futuro mercador de armas Arthur Rimbaud escreveu um soneto intitulado “Voyelles” e nele atribuiu às cinco vogais francesas (com timbres diferentes dos da língua portuguesa, embora escritas tal e qual) as seguintes cores:  negra (a), branca (e), vermelha (i), azul (o) e  verde (u).

É evidente que eu e mais alguns milhões de pessoas dariam cores diferentes para as mesmas vogais, sem correr o risco de levar uma arminha pela cara. Cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é”. E o que não somos é, seguramente, submissos a declarações subjetivas de alfabetos coloridos, mesmo com o arrojo poético rimbaudiano.

Longe de mim ser comparada ao mestre armeiro, mas minha atração pelo abismo me leva a tentar resolver a minha maior incógnita do momento: qual é a cor do pecado?

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Junto alhos e bugalhos e parto de imediato para a tentativa de uma resposta exequível (viva a reforma ortográfica recente: pronuncio o u, mas não o marco mais com trema!) sem tremer.

Os tais sete pecados capitais formam um conjunto de número mítico que, como boa virginiana, apresentarei em ordem alfabética. No meu entendimento, hoje composto por neurônios decrescentes e joelhos esfolados de tanto rezar, eles seriam cromaticamente associados, pintados e bordados desta maneira:

– Avareza, dourada como os potes de ouro do rei Midas e a caverna de Ali Babá. Afinal, entesourar hoje é para nababos e contos maravilhosos.

– Gula: a este tenho o maior apreço, e para confirmar minha adesão entusiasta, coloco neste pecadinho a enormidade possível das cores, um cardápio multicolorido como a natureza que nos alimenta o corpo e o espírito.

– Inveja, santa ou pecaminosa, é amarela! Está na palidez do invejoso e nas órbitas esbugalhadas de quem trocaria tudo o que tem pelo ouro de tolo dos outros.

– Ira é branca no esgar dos dentes de crocodilo de um rosto desequilibrado, na baba a espumar nos lábios, no apagão dos neurônios.

– Luxúria – eita “pecado rasgado, suado, do lado de baixo do Equador”! Tua cor está nos cenários da rede Globo, no mesmo vermelho de roupas e espaços de teatros e cinemas, na sensualidade rubra das divas e dos divos, no desejo ardente a levar as almas para os divãs de psicanalistas.

– Orgulho é um pecado de sangue azul. Da cor do céu que julgam habitar os nobres de calção de esfola-gato dos tempos de Gregório de Matos até os privilegiados da vida que circulam nas vias privilegiadas da sociedade de sangue vermelho, igualzinho para todos.

– Preguiça, vício macunaímico, indolente pendão das décadas perdidas e do retrocesso, bandeira falsa atribuída aos artistas, que mais criam quanto mais trabalham, mesmo estando em redes ou leitos insones.  Você, preguiça, é bege, flicts, a cor rejeitada da boca para fora e tatuada a ferro e fogo, que a alma lava, esfrega, mas não apaga.

Como pecadora não arrependida, entendo que esta crônica se estende por demais com apenas sete pecados. Os outros estarão escritos em livros inúmeros localizados nos cantos mais escuros da biblioteca infindável de Borges.

A janela aberta

Marta Morais da Costa

Em frente ao teclado e à tela abre-se a ampla janela. A cabeça cede à urgência da escrita. À revelia dos comandos, a crônica nasce contestadora.

Eu queria escrever sobre a descoberta desanimadora de que quatro milhões e seiscentos mil brasileiros não quiseram ser leitores, segundo a recente edição do “Retratos de Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e o Itaú Cultural. Mas lá fora o sol ilumina a paisagem e impõe um desejo de sair, passear, encontrar a natureza.

Eu pensei em escrever sobre o processo de desertificação em curso no Brasil e na absoluta irrealidade em que vivem brasileiros e, em especial, os comandantes desta casa incendiada e desarvorada. Mas a janela aberta deixa passar uma brisa cálida e terna que abraça o corpo e o deixa acarinhado.

Preciso escrever sobre os mais de 137 mil brasileiros enterrados e silenciados por abandono e descaso neste país negacionista e cruelmente anti-solidário. País de festas e bares, de praias e inadiáveis compras. Um país em que as máscaras não são de pano nem de acrílico, são naturais e procuram disfarçar a hipocrisia. Mas através da janela descubro um ninho de pássaros na árvore da calçada, a me avisar que ainda há vida que vale a pena lá fora.

Estava em minha pauta escrever sobre o acobertamento da corrupção mais a roubalheira do dinheiro dos pagadores de impostos – pesando na cesta básica e no churrasco domingueiro, porém o caviar fica de fora. Neste país em que, podendo, muitos não se furtam em roubar e desmentir. Mas o esplendor das flores no jardim, anunciando a presença de mais uma primavera, capturam meus olhos com brilhos e cores e formas e beleza.

Eu preciso escrever sobre La Niña, sobre as crianças sem escola, sobre os adultos sem futuro, sobre a seca a mostrar arreganhada a terra em mosaico arenoso. Mas ao longe descubro um menino ciclista, a desafiar a gravidade e os cuidados maternos, e a fazer girar as rodas de sua nave espacial, sonhando com viagens sem tempo nem destino.

Eu queria – e precisava- escrever sobre a solidão, o medo, a dor da ausência, a vida parada no relógio e na folhinha, as frestas de esperança com a possiblidade de uma vacina, venha de onde vier. Vacina que dói em minha alma brasileira, ao saber que a nossa ciência está quase tão destruída quanto a imagem deste país entre nós e entre os outros. Mas o tempo da escrita pode ser um bálsamo momentâneo.

A janela aberta deixa passar os sons de uma música longínqua a falar que “felicidade é como a pluma/ que o vento vai levando pelo ar./ Voa tão leve/ mas tem a vida breve./ Precisa que haja vento sem parar.”

Deixo teclado, tela, computador e crônica em suas possibilidades e concretude. Vou até a janela reverenciar este breve momento de felicidade.

Foto por Alessio Cesario em Pexels.com