Interrupção

Marta Morais da Costa
 
Na suspensão do tempo viver
 
as asas do pássaro travadas em voo
a folha a caminho do chão
a frase musical no oco da boca do cantor
o olhar detido a caminho do objeto
a caneta em meia letra
o pé entre o vácuo e o asfalto
a colher ao tocar a superfície dos lábios
a carícia petrificada na ponta dos dedos
a mosca imóvel no ar
o grão de poeira suspenso ao sol
o perfume entre a flor e as narinas
o estertor da máquina em energia cortada
o pingo da chuva congelado no limite da vidraça
os lábios entreabertos à espera do beijo
- hiato do amor –
a nota truncada no choro agudo do bebê
o dedo em riste viajando para o mapa
o pensamento incompleto no branco do esquecimento
este poema sem
Foto por Mike em Pexels.com

Interjeicionista

Marta Morais da Costa

Na época em que se estudavam as classes gramaticais (eram assim tratadas em um tom de voz quase bíblico e em volume altissonante), coisa de substantivos adjetivos verbos preposições e quejandos, as interjeições ficavam sempre no final da fila.

Nos textos que líamos, com voz empostada e lentidão para evitar as armadilhas da pontuação, pois geralmente o fazíamos para que o professor avaliasse o grau de desenvolvimento da leitura – ai de nós!-  interjeições eram praticamente e inexistentes.

Ufa! Afinal textos sisudos se apoiam mais nas palavras substantivas (principalmente as abstratas, como amor, vingança, honra, patriotismo, amizade) e nos verbos, em especial no indicativo ou no imperativo afirmativo (hei, ainda se usa isso?), como obedeça, respeite, cumpra, faça. Além de desenvolver raciocínios altamente elaborados e expressos em orações subordinadas substantivas analíticas.

Puxa vida, não é que me vieram à memória textos do livro de leitura – nem sempre usado em sala, porque ficava na conta dos “deveres de casa” – escritos por autores célebres na época: Humberto de Campos, Manoel Bonfim, Thales de Andrade, Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Artur Azevedo, Rui Barbosa e assemelhados? Uma plêiade de escritores nem sempre contemporâneos, mas clássicos da literatura escolar.

Nossa, como o tempo muda autores, preferências, estilos e expectativas de leitura!

Viva a vida com suas transformações!

Francamente! Não sei se me prefiro hoje, alquebrada e desiludida, à lépida criança que cantava a lista de preposições e advérbios e que recheava suas redações de pontos de exclamação e pontos finais.

Cruzes! Hoje crescem em mim as interrogações em quantidade e tamanho; este, porque os olhos mal dão conta da fonte 14. Os pontos finais tornaram-se reticências. As certezas são pantanosas e o universo já extrapolou o grão de areia que representei um dia (ou como dizem levianamente os jornalistas redundantes: representei na minha “era”).

Alto com este texto digressivo! Volto às interjeições. Encontrei no dicionário (ah, ele continua sendo o “pai dos burros”!) que elas, além de exprimirem estados emocionais e auxiliarem a expressividade para o interlocutor, “dispensam estruturas linguísticas mais elaboradas”.

Arre, cheguei ao porto de destino!

Me descobri, ó céus!, uma interjeicionista de alta amperagem na interação com as postagens no facebook e no whatsapp. Quando preguiçosamente semeio emoticons, simpáticas faces/formas interjeicionais, e dou um piparote nas frases mais elaboradas. Raios! Substituo o verbal pelo visual, troco a frase pela exclamação, recuso a reflexão e assumo tão somente as “emoções que vivi”.

Ai, ai, ai! Começo a perder a argumentação para colocar em seu lugar a primeira impressão, os sentidos à frente do pensamento, a rapidez como descarte da interlocução, a pressa como desculpa para a desconsideração.

Caramba! Se a língua é parte de minha identidade, perco-me e perco-a. Embrutecida em sinais gráficos, robotizo-me.

Socorro! Ainda bem que, de vez em quando, obrigam-me a comprovar que não sou um robô! Talvez essas perspicazes e autoritárias plataformas digitais tenham pescado em minha atividade nas redes os peixes emocionais em cardumes cada vez mais numerosos.

Oxalá eu consiga recuperar um pouco daquela linguagem menos emotiva dos autores da minha infância!

Cáspite! Esse apego ao passado talvez seja apenas mais um sintoma da idade para além da faixa etária saudável. Alarme em alerta.

 

1374

Marta Morais da Costa

Aqui começa um texto que eu não gostaria de escrever. Serão palavras que deveriam vir com a advertência da Divina Comédia, de Dante: Lasciate! Deixai aqui neste pórtico toda a esperança. Mesmo aquela fabricada e acumulada artificialmente por décadas de persistente exercício de
“amanhã irá melhorar”, “vamos tentar mais uma vez”, “agora vai!”.

Não fui, não deu.

São menos 1374 brasileiros vivos sobre este território verde e amarelo. Somados aos 51 milhares que já partiram. O dia de ontem povoou o Brasil de outras 1374 cruzes – este simulacro sacrificial do corpo humano, braços abertos para a morte.

Mortes causadas por aquilo que é o elemento mais abundante na natureza: o ar. Aos 1374 brasileiros foi proibido o ato de inspirar e expirar. Em lugar do último e solitário suspiro, a desesperada luta por um último respiro.

Com eles morreram 1374 histórias de vida, abreviadas não importa a extensão do tempo: um dia, meses, muitos anos. Não importa: eles foram antes, perderam, lhes foi subtraída uma parcela de vida.

Tão fácil atribuir a uma impessoal e trágica epidemia este assassinato em massa! Mais do que o fado cruel da doença, pesa o fardo de viver em uma sociedade pobre – em vários sentidos – abandonada e desgovernada. O Brasil teve meses de antecipação para preparar-se adequadamente. Exemplos de outros países não faltaram. Sobrou a arrogância do negacionismo. Sobraram carnavais e festejos. Pesaram 2022, 2024, 2026, 2028…Anos que muitos não mais verão.

A maior parte da população veraneou, despreocupou-se e intrigou-se, no mais comezinho tugúrio aos mais ostentatórios palácios. Curtiu adoidada seu consumismo e sua ignorância, exilando experiências e tragédias alheias em troca do imaginário gigante adormecido e da mãe gentil. Antepôs a qualquer racionalidade os chavões de não temos terremotos e Deus é brasileiro. Viveu de fantasias reais e imaginárias em um país de tramoias e em um lodaçal de ostensiva, proclamada e orgulhosa ignorância.

Tal qual agressiva cigarra, deixou que as formigas continuassem seu trabalho: nem cantou, nem celebrou o verão. Sonolenta, colocou-se à mercê de quadrilhas de gafanhotos e hoje, em sua inércia, espera que as formigas a socorram. E morrem todas (ou quase todas): cigarras e formigas. Porque os gafanhotos em nuvens consomem o que compulsoriamente vai sendo abandonado pelo caminho.

Hoje é dia de São João. As quadrilhas de fantasia ficarão na virtualidade, enquanto as quadrilhas reais preparam mais mortos para o baile da Ilha Fiscal.

Uma sociedade com a maioria de seus cidadãos anestesiados, a sofrer a falta de shoppings, academias, salões de beleza, restaurantes e festas. Espertamente à espera que outros cumpram o que considera o dever de protegê-la.

Hoje o dia amanheceu em mim ainda noite. No céu sem nuvens, algumas estrelas retardatárias recomendavam a volta à cama confortável. Mas a seu desenho no espaço se sobrepunham 1374 cruzes na Terra. A elas se sobrepunha a dor de muitos mais milhares de amigos e familiares. Um mar de afetos agora sem corpo. Um mar de lágrimas agora sem resposta. Um infinito paredão de medo, angústias, solidão e desamparo a oprimir quem ficou nesta terra brasileira, calcinada do Amazonas ao Rio Grande do Sul, de ar rarefeito do Rio Grande ao Amazonas.

Esta terra brasileira, nanificada pelas servidões centenárias, contraída pelo temor e pela dor, silenciada à força por uma catástrofe minimizada. Nesta terra de nanicos, muitos deles inconsequentes, um dos piores sacrifícios é o de não se poder brincar o São João, é o de não poder voejar em torno da fogueira das vaidades, é o de correr riscos de pescar uma prenda e colher um esqueleto.

Quase tudo passará, pois o tempo a tudo aniquila. Passará a epidemia, mas a palavra escrita, que aqui registro, guardará um pouco da amedrontadora visão da bandeira com uma faixa de luto, enquanto diminuem rapidamente as forças de quem ainda luta nas frentes de combate contra as novas sete pragas. Não mais saúvas, mas pouca saúde. Não mais piratas caolhos, mas saqueadores de muitos olhos. Não mais lutas pela independência, mas a submissão e a subserviência. Não mais os clarins do “verde pendão da esperança”, mas o derrotismo da ignorância. Não mais a aquarela, mas as cinzas das queimadas e dos mortos. Não mais o céu de anil, mas o precipício do sofrimento.

Quanto tempo mais continuaremos inzoneiros? Responde aí, seu Ary!

A garça e a cobra

Marta Morais da Costa

Fotos: Fábio Morais da Costa

No lago em que uma garça branca habitava, os peixes se tornavam cada dia mais escassos. Talvez porque, vindas nas migrações anuais, houvesse cada vez maior número de garças que comiam cada vez mais peixes. Talvez porque os peixes se reproduziam cada vez menos. Talvez porque os homens pescassem cada vez mais os peixes que se reproduziam cada vez menos. Fosse por qualquer um desses acontecimentos ou por todos eles juntos, a verdade é que a garça ficava cada dia mais faminta.

Uma tarde a garça viu uma pequena cobra ao lado de uma pedra no fundo do lago. Imediatamente mergulhou o longo bico, sentiu a cobra presa e começou a puxá-la lentamente, estranhando o peso excessivo.

Disfarçada em formato de pedra, havia uma cobra maior, mais esperta, mais experiente, cheia de artimanhas. Quando viu aproximar-se o bico da garça, agarrou-se à cauda da cobrinha e deixou-se puxar, engatada, para fora da água.

Sabia que poderia salvar-se mais facilmente deslizando pela superfície do lago.

A garça fazia um grande esforço, mas de repente o peso diminuiu. Ela descobriu só então que havia puxado uma presa maior e mais suculenta. Mas já era tarde, porque a falsa pedra descolou-se da cobrinha, deslizou velozmente para longe e desapareceu nas plantas da margem.

A garça, então, teve de contentar-se com o petisco menor. Que, nem por isso, foi menos delicioso. A diferença é que a fome voltaria mais cedo.

Moral: Experiência, esperteza e artimanhas mantêm vivos os graúdos. Por isso, todo dia é dia de Golias.

Muitos anos de vida

Marta Morais da Costa
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Foto por Natalie em Pexels.com

(Ao fundo, enquanto você lê esta crônica, imagine ouvir os acordes do “Parabéns a você”, cujo volume sobe nos compassos correspondentes ao verso “muitos anos de vida”)

Hoje fiz um jantarzinho de aniversário: são exatos três meses de confinamento. Coloquei sobre a toalha florida dois copos em formato de clepsidras, nas quais a areia cai mais lentamente do que o normal. Também depositei sobre a mesa as fotos da família. Das três mais recentes gerações.

Colei em cada prato um diferente item da lista de desejos a realizar tão logo eu possa voltar a algum tipo de convívio social.

  • Beber litros de café em boa companhia, em conversas sem hora pra acabar.
  • Sentar em um banco da pracinha perto de casa e ficar observando pessoas (sim, elas existem!) que passam, calmas ou apressadas, com suas sacolas de compras.
  • Divertir-me com crianças em bicicletas ou rodando no carrossel iluminado da mesma pracinha.
  • Deliciar-me com o som das ofertas do carro dos sonhos que está passando. E comer dois deles, porque não quero mais ser de ferro, nem contar calorias!
  • Acompanhar com os olhos velhos como eu a fazer sua caminhada tipo vitamina D + xô-artrose. E pensar: fazem eles muito bem! Quanto a mim, acompanho-os com o olhar.
  • Entrar no meu carrinho modelo anos 90 e dar um rolê sem compromisso, parando para admirar uma árvore, um jardim florido, uma casa monumental.
  • Fazer uma visita longa para matar ao máximo a saudade de uma livraria física (se é que sobrou alguma) e sair de lá com livros a mancheias e, se o dinheiro der, uma nova coleção de CDs. Sei que é programa bem tiozão, mas a alegria da gente desconhece prazo de validade tecnológica.
  • Tomar um caldo de cana na Kombi estacionada na esquina de casa (será que seu Matias sobreviveu à covid e à crise econômica?).
  • Fazer um pudim italiano, levar na casa de minha mãe e comer tudo sem culpa, juntas, enquanto trocamos histórias e temores.
  • Comprar ingressos para uma peça de teatro e um show musical em teatrinhos aconchegantes e em boa companhia. Ah, e uma tarde todinha curtindo aqueles filmes para não esquecer do Cine Passeio!
  • Levar meus netos à loja de brinquedos para uma farra consumista de deixar o cartão de crédito enrubescido. Ah, não posso esquecer de comprar quebra-cabeças e bichos de pelúcia para mim!
  • Convidar meu marido para uma viagem bate-e-volta pra um lugarzinho bem romântico, sem máscaras nem álcool em gel. Só afeto e gentileza.

Na toalha florida, pus um HD com as notícias e polêmicas da catástrofe brasileira. Pra não esquecer, para cobrar, para homenagear, para lamentar.

Coloquei sobre a toalha as receitas das refeições frugais, das conversas sobre comida, dos programas de culinária pró-obesidade da televisão; retratos do dia a dia de quem, por sorte ou mérito, ficou do lado privilegiado dos que puderam manter uma alimentação continuada.

Sobre a mesa, espalhei esparsamente flores secas. Elas nasceram durante o confinamento, feneceram e secaram. Lá fora, no entanto, a morte continua sua colheita.

Distribuí sobre os objetos na mesa centenas de corações recortados e identificados com os nomes das pessoas com quem convivi virtualmente neste período triste. Sob os nomes, desenhei pássaros, flores e chamas: a leveza, as cores e o calor humano.

Enfim, coube ainda sobre a toalha de flores estampadas, algumas folhas de papel contendo o que escrevi para falar de mim, de nós e dos que, como eu, terão outras histórias para contar. Sobre estas páginas, como uma velinha comemorativa, vai esta folha que você lê.

Três meses: quantos mais?

“Pa-ra-béns-pa-ra-nós,
mui-tos-a-nos-de-vi-da!”

Rotinas

                                           Marta Morais da Costa

1

-Alô, mãe?

– Alô? Alô? Quem fala?

– Sou eu, mãe, a Adriana. Não tá reconhecendo a voz?

– Oi, filha. Sabe, né, que tô meio surda…Você está bem?

– Me virando, mãe, com essa loucura da epidemia…

– Me conte uma novidade.

– Eu?? Tô fechada em casa, como a senhora. Novidade nenhuma. O de sempre.

O diálogo pode ser monótono. A novidade inexistente. As relações longínquas. A rotina entediante. Tudo o que conspira contra a vida social, mesmo a mais recatada do novo ano a.C.

Olha que Adriana caprichou nas mensagens de Ano Novo. Votos de paz, saúde, prosperidade. Tudo em cinzas. Parece que foi no século passado. Talvez tenha sido mesmo. Sente como se relatasse sua vida de menina para o filho mais novo. “Naquele tempo a gente saía para um jantar no restaurante, via uns filmezinhos no cinema, namorava, comprava sorvete, dava uma passadinha no shopping, ia pro chá com as amigas. Coisinhas básicas. Até abraço, aperto de mão, confiança no outro. Isso tudo que a gente não pode fazer hoje, filho.”

Nem tudo posso falar para ele. O tédio, a saudade, o medo. Da casa hoje conheço cada canto, cada azulejo, cada coisa no e fora de lugar. Precisa consertar a pia do banheiro, a torneira do jardim, o piso da garagem. Acho que a calha está entupida…Mas cadê a coragem para trazer os trabalhadores e aceitar sua circulação pelo ambiente da casa?

Nem falo do cabelo espevitado do Rui, da visita rotineira ao cárdio, da roupa na lavanderia esperando ser retirada, no aniversário da Ninoca que se aproxima, no presente do Raul prometido e atrasado.

A vida ficou reduzida, os compromissos caducaram, a viagem anual foi adiada, as aulas suspensas. Tudo o que já não poderá ser.

Liga a TV e tudo parece o mesmo de ontem. Liga o computador e não aguenta mais lives e lives e facebook e instagram: tudo do mesmo. Se whats gastasse, restaria a tela vazia. Por que ninguém mais escreve? A lista de contatos encolheu e silenciou. Nem a alegria de receber o marido na volta do trabalho existe mais. Aliás, nem o trabalho.

O vazio, o medo, a perspectiva de futuro encolhendo.

Soube que o vizinho da esquina foi para a UTI. A família dele recolhida, cortinas fechadas. Silêncio.

É, podia ser pior aqui. “Se queixando de barriga cheia”, diria a mãe. Hoje, como transanteontem, como há noventa dias.

Por causa do corona até deixou de lado a obsessão por famílias reais, suas coroas de cabeça em cabeça. Seu encanto aristocrático, cadáveres futuros iguaizinhos aos milhares de enterrados em covas rasas e sem velório.

Soube que andam derrubando estátuas: teme que seus valiosos reis e rainhas coroados despenquem em praça pública, arrojados ao chão pela horda de inimigos. Seria mais um fator dramático a ser contabilizado em suas perdas e danos.

– Novidades, mãe? Ah, a chuva desta noite foi ótima: abriu mais um botão de rosa no jardim!

– Como? Vai viajar de novo para Berlim?

– Não, não. Nasceu uma rosa no jardim!

– E isso é novidade? Rosas nascem todos os anos… Conte uma novidade pra valer.

Mal sabe ela que uma novidade para valer tem muitos algarismos de tragédias e descasos. Melhor voltar aos cantinhos empoeirados da casa. E limpá-los como se fosse o cérebro e o coração dominados pelo medo.

fique-em-casa

2

O velho despertador soa frenético e se sacode no horário de sempre: mais um dia de trabalho. Em poucos minutos, de roupa limpa, cara amassada, xícara de café na mão, pão com manteiga, sério, magro, ansioso. Deposita a xícara na pia, no mesmo movimento pega a marmita e coloca na mochila. Um beijo distraído no rosto de mulher, um tchau quase inaudível, a porta que se fecha depois de deixar entrar o ar ainda frio e úmido da madrugada.

Na rua outros vultos silenciosos: um bando de mascarados apressados em direção ao ponto de ônibus. Que chega quase lotado. Alguns sentam, outros agarram firmemente as barras de apoio, aos poucos o ar se aquece, as máscaras sufocam, o rodar dos pneus embalança os corpos até o próximo solavanco.  Ninguém fala, as cabeças vão projetando filmes particulares: imagens de casa, de conversas, planos de trabalho, advertências de saúde, expectativas. A costurar as imagens aquela frase inútil do ”fique em casa”, tão inútil quanto os inúteis que ficam em casa e não trabalham, ou dizem que trabalham num tal de romófice.

Se ficasse em casa, poderia estar mais seguro, mas a quem poderia recorrer se perdesse o emprego no açougue? Já foi tão difícil seu Amadeu me contratar. Se eu disser que vou ficar em casa, posso assinar a demissão, pensava Delvair. O filme na cabeça reprisava as imagens de queixas da mulher, de pedidos chorosos do filho, de bolsos vazios, de caminhadas sem fim em busca de emprego, de idas inúteis à agência do trabalhador, de noites em claro. “Fique em casa!”: isto é coisa pra riquinho ou pra aposentado.

O terminal ferve de gente. Lá na frente uma fila pra passar álcool em gel. Já que tem que andar pelas ruas, um pouco de cuidado tem que ter: a tevê insiste nisso. Ainda vai andar uns quarteirões até chegar ao trabalho. É gente andando pra todos os lados, todos muito próximos, alguns sem máscara. É confiar em Jesus e seguir em frente.

Seu Amadeu no caixa parece ficar menos ansioso quando Delvair entra. Imediatamente o rapaz veste avental e gorro e vai pro fundo do açougue começar a fatiar a carne e separar o que vai para o balcão e o que fica na geladeira.

Hoje a carne veio bonita, parece macia. Corta, limpa, separa. Algumas peças vão temperadas pro churrasco da moçada. E o dia corre em trabalho, mal tem tempo de almoçar, de beber uma água, de lavar as mãos. Ainda bem que os fregueses voltaram: se continuasse aquela venda mixuruca talvez perdesse o emprego. Agora não.

Seu Amadeu liga a tevê e lá pelo meio do noticiário, um jornalista com cara de tragédia anuncia que o número de infectados subiu, que é preciso aumentar os cuidados, que talvez fosse melhor fechar o comércio. Tá louco, o privilegiado! Lá no estudiozinho com ar condicionado, terno elegante, voz macia, sorriso colgate, lá tudo pode. Mas a vida real é esta aqui: se não sair, não trabalha. Se não trabalhar, não põe comida na mesa, nem filho na escola. Vivem todos no mundo da lua, como dizia meu pai.

Hora de ir para casa. Mesmo caminho, mesmo terminal, mesmo ônibus lotado, mesmos perigos. Em casa um afago no filho, um beijo rápido na mulher, um jantar de luxo (seu Amadeu lhe deu uns retalhos de carne), um pouco de futebol na tevê e cama.

Logo o despertador vai tocar. Ele vai levantar e fazer tudo igual. Talvez lá pela frente tenha um encontro marcado com o tal coronavírus. Isso será uma quebra da rotina, uma novidade. Ou talvez a última novidade.

Recomeço

Foto por Irina Iriser em Pexels.com
                               Marta Morais da Costa
Ao abrirem portas
em frinchas temerosas
as pessoas, vulneráveis,
sairão para o “novo normal”.
 
Sobreviventes.
 
A busca da generosidade universal
o apoio aos princípios da ciência médica
a crença na reorganização do trabalho
o abandono de posições terrivelmente rígidas
o congraçamento sem preconceitos
a amorosidade ao enlaçar pessoas.
 
Utópicas.
 
Mas nem a peste, a queda dos impérios,
as guerras, a tragédia das torres,
as revoluções e suas quimeras,
nem mesmo a pomba alvissareira
extinguiu Sodoma, criou espécies
ou fechou a caixa de Pandora.
 
Resistentes.
 
A solidão que não ensina,
o medo que não desafia,
a morte que não alerta,
e a reflexão que não atua
não mudam as pessoas
que não mudam o mundo.
 
Aprendizes.
 
 
Novas atitudes resilientes
seguirão latentes.
Até a próxima hecatombe.

Os preferidos

Aceitei um desafio proposto no facebook para apresentar, ao longo da semana, as capas de sete livros que fossem considerados relevantes em minha formação como leitora. O resultado dessa escolha difícil vem a seguir.

Dia 1

Vai longe o dia em que tudo começou, mas continua aqui próximo o encantamento da leitura de “Reinações de Narizinho”. A lamentar os brasileiros e brasileirinhos que passaram ao largo de Monteiro Lobato porque, segundo alguns professores, é “muito difícil de ler”, em especial porque escreve em português rsrsrs

Vai na capa primeira, no título primeiro: o amor primeiro.

Dia 2

No tempo em que os contos maravilhosos retornaram às bibliotecas (ignorados por quem acreditava que as fadas eram fator de alienação), Marina Colasanti trouxe um mundo de encantos, do imaginário recobrindo o inconsciente, de personagens e enredos ultrapassando os limites do racional e submergindo os leitores em inúmeros subtextos. A poesia e o encantamento vieram de mãos dadas a partir de “Uma ideia toda azul” (1980) e “Doze reis e a moça no labirinto do vento” (1982). Até hoje continuam de mãos dadas tecendo maravilhas e “A moça tecelã” se tornou senhora de muitas mentes femininas, sua representante poética e sua bandeira.

Dia 3

Antônio Callado escreveu sobre o Brasil, com argúcia, com dedicação, com amor não correspondido. Nando, protagonista do romance-retrato-epopeia deste país, “Quarup” (1967) em sua expedição em busca do centro geográfico do país, encontra-o em um formigueiro. Saúvas – hoje diríamos ratazanas – que consomem as forças do país. Quem o lê hoje? Callado era realmente um gentleman e um homem dominado pelo amor a um país ingrato.  De sua obra ficcional, minha paixão é por “Sempreviva”, uma história de amor e morte, de rebeldia e torturadores. Nela me encantam o lirismo rude, a linguagem poética e Herinha, a menina-natureza, nosso Puck (de “Sonhos de uma noite de verão”) tropical, a ninfa da vingança. Dessa paixão pelo romance nasceu o título de meu livro e de meu blog. Callado semprevivo.

Dia 4

são sete dezenas de pequenos textos encadeados em sequência de videoclipe, editados em 2001. rufatto usa o cenário da cidade de são paulo – que pode ser qualquer cidade – com seus habitantes quase invisíveis, com acontecimentos tipo trailer de filmes diferentes: ação, suspense, comédia, psicopatia, romantismo. a gente lê eles eram muitos cavalos (citação de um verso do romanceiro da inconfidência, de cecília meireles) e descobre a vida prismática de quem (sobre)vive na desigual urbanidade atual. a gente ri, quase chega às lágrimas, se revolta, se interroga, busca respostas e descobre que mesmo em minúsculas, a literatura nos coloca diante do imprevisível, do desumano, dos conflitos e da vida como ela é.

Dia 5

O teatro. Ah, o teatro! Coração rasgado em cada espetáculo, sangue arterial alterado em cada fala, veias abertas em cada gesto. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, deixou de herança – entre outras belezuras – este testamento, ditado em seu leito no hospital: “Rasga, coração”. Em 1969 assisti à estreia em Curitiba. Desde então vive em mim. O projeto de revolucionário do filho ainda jovem a dialogar e conflitar com o pai, velho revolucionário, agora em casa, mas assumindo o protagonismo de uma revolução cotidiana, a que podemos fazer todos na vida real, comum, burguesa ou não. O coração humano que se rasga nas batalhas diárias, seja por pão, paz, protagonismo, pensamento livre ou partilhamento. Ah, o teatro e os milênios de um legado de humanidade e denúncia.

Dia 6

Sándor Márai (1900-1989), um escritor húngaro, entrou em minha biblioteca e em minha leitura com este livro, “AS BRASAS”, indicado por uma grande amigo e enorme pessoa, o dr. Jamil Signorini. Chegou com delicadeza no grupo de leitura da PUCPR – que durou dez anos de leituras semanais ininterruptas, um tempo e uma atividade das mais felizes de minha vida profissional. Uma narrativa escrita com perfeição sobre a amizade, o amor, a honra, a palavra que revela e esconde. dois amigos se reencontram 41 anos depois: o tempo, a memória e o ajuste de contas com um passado sempre presente chegam ao leitor com vagar e profundidade, num entrecruzar de vozes que identificam a melhor literatura. Os detalhes, as sugestões e os fiapos de fala e memória são fios de uma teia que prende o leitor, que o fazem querer ler mais e outros livros do autor, que fazem valer demais o tempo de leitura investido. Li várias obras dele, traduzidas para o português, e igualmente apaixonantes. Uma delas – Veredicto em Canudos (2002) – apresenta sob uma perspectiva diferente a nossa epopeia de Canudos, texto que nasceu da leitura entusiasmada do livro de Euclides da Cunha, realizada por Sándor Márai. “As brasas” é uma obra-prima da literatura.

Dia 7

Deixei para o final da lista semanal a paixão mais forte, mais duradoura, mais vital. A obra total de Guimarães Rosa! Grande sertão: veredas: primal, inaugural, épico, transcendental, beleza perfeita. Citado e transcitado e trescitado por dez entre dez bons leitores. Paixão para a vida inteira, de mesa e cabeceira. Para não repetir, trago a capa de uma edição primorosa, com a ilustração do incrível e maravilhoso Poty. Basta comparar com as capas posteriores, para ver o quanto perdemos em desafio e beleza em troca da tal modernização. Os contos antológicos do volume, lançado em 1946, (salientando “Burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “Duelo”, “São Marcos”, “Conversa de bois”, “A hora e a vez de Augusto Matraga”) desafiam até hoje nossos padrões de narrativa, desafiam a língua que pensamos conhecer, desafiam o pouco conhecimento que temos deste país, desafiam a literatura brasileira, inauguram rios caudalosos de outras obras que tentam se aproximar dela. Assunto para muitos e muitos posts. Poty traduziu como nenhum outro artista plástico a essência dessas narrativas. Amor geral pela obra, com coração em pedaços por não colocar também a trilogia de “Corpo de baile”. Ave, Guimarães Rosa! Os que escrevem deveriam te saudar. Os que escreverão talvez venham a te esquecer (a geleia geral de nossa cultura de fa$chada sequestra e esquece de nossos autores mais significativos).

A imaginação pede passagem na formação de leitores

Marta Morais da Costa

Pergunte ao professor se as crianças gostam de ouvir histórias. Pode apostar que de 100 entrevistados, 100 deles dirão que elas adoram. Nem importa muito a qualidade dessas histórias, nem a do contador. Vale muito mais a dose de fantasia que elas trazem. Em 2006, saiu publicado “Sobre histórias de fadas”, livro de Tolkien, autor de “O senhor dos anéis”. Éum texto excelente sobre esse gênero literário, com um estudo sobre a diferença entre magia, encantamento e fantasia, termos que não se equivalem integralmente. Para o referido autor, a magia finge produzir uma alteração no Mundo Primário, aquele que atinge os sentidos mais concretos. Corresponde a narrativas de mundos imaginários, muitas vezes fora da realidade, mas que acabam em situação conhecida: tudo não passara de um sonho da personagem! O extraordinário se reduz a um sonho, por isso Tolkien o considera magia, resultado de um truque que tem explicação lógica.

Acima do Primário, o autor posiciona o Mundo Secundário, sustentado pela necessidade de ficção e de fantasia. Nele é que habita o encantamento, objetivo buscado pela fantasia, uma “atividade humana natural”, que não destrói nem nega a razão. “A fantasia criativa está fundamentada no firme reconhecimento de que as coisas são assim no mundo como este aparece sob o Sol.”, afirma o escritor. Para ter acesso ao Secundário, a imaginação é a chave, e consiste na capacidade da mente humana em “formar imagens mentais de coisas que não estão presentes de fato”.. Quando se aplica a operações mais complexas, pode ser denominada fantasia. É no imaginário que mora o encantamento; não no mágico. O mundo natural – Mundo Primário, segundo Tolkien – quando necessariamente transformado pela capacidade imaginativa dos seres humanos, deixa de ser primário. No Secundário, impera a ordem da fantasia, ou seja, é um mundo comandado por imagens mentais que buscam encantar, construído sobre bases semelhantes ao Primário, mas sem a necessidade de materializar-se. Vivo e real à sua maneira.

Essa rede de significados e conceitos nos auxilia a entender alguns comportamentos infantis e como eles se relacionam com histórias inventadas –  ouvidas, escritas ou lidas. Essa compreensão auxilia o trabalho pedagógico dos mediadores de leitura e o processo de formação do leitor.

Ao querer ouvir muitas vezes a mesma história, a criança deixa agir sua imaginação, suspende voluntariamente a incredulidade sobre os fatos narrados e passa a acreditar no que ouve como se fosse realidade. É a voluntária adesão do leitor ao imaginário contido no texto literário. É sua caminhada pelo Mundo Secundário.

Como pode o letramento aproveitar-se da natureza da fantasia infantil e traduzi-la na aprendizagem dos escritos e da leitura?

Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Em um primeiro momento, o ato de contar histórias, que dá vida à literatura, aproveita essa inclinação da criança para o imaginário.

A segunda etapa consiste em transpor a voz do professor para o livro – seja na versão impressa, digital ou em audiolivro – permite à criança visualizar os sons que ouviu. Deve-se cercar o ambiente com quadrinhos, ilustrações, recortes, desenhos, livros, CDs, DVDs, vídeos. Não é desse modo que as histórias vivem no cotidiano?

Em uma terceira etapa, deve-se evitar que a escola transforme a fantasia em um exercício apenas, seja gramatical ou de conteúdo, seja um desenho. A escola tenta dominar o imaginário infantil, seja separando o imaginado e a realidade (“isso é sonho”, “só na historinha”, dizem os professores). Os contos são usados para moralismo, lição, direcionamento para o real. São considerados mágicos, como se essa fosse uma qualidade positiva para a imaginação humana. Ao contrário, tem forte cunho reducionista. Tudo fica primário, explicável, uma extensão do real.

Uma quarta etapa refere-se à escola que, pragmática, transforma a fantasia em elementos de trabalho pedagógico, em “atividade”, termo que esconde a intenção de cobrança, avaliação e controle.

Ouvir narrativas tem destacado papel na formação de esquemas narrativos mentais, que permanecem na memória das crianças, e retornam quando são evocadas por outras narrativas, lidas ou ouvidas. Explica porque as crianças acostumadas às narrativas aprendem a ler e a escrever com maior facilidade e criatividade.

Quando o adulto lê para a criança, em especial textos de literatura, não apenas a introduz no mundo da escrita e de suas funções, como oportuniza momentos de intimidade com as letras, que podem converter-se em desejo de ler, de decifrar as letras por conta própria. E a literatura age emotivamente sobre o leitor

Se um quadro com motivos alimentares (frutas, comidas, temperos) estimula o apetite, por que não acreditar em resultado semelhante com textos escritos literários e a leitura? A exposição da criança aos textos do mundo cria a necessidade de ler. E pode causar crises de abstinência quando a necessidade não for atendida.

Não há receitas infalíveis para a passagem da alfabetização ao letramento, mas não se consegue autonomia sem práticas, sem um progressivo e contínuo exercício em que o leitor vai aprendendo a lidar com diferentes esquemas e normas que os textos naturalmente contêm. Basta associar a dificuldade que os mais velhos sentem ao lidar com a leitura de quadrinhos ou na tela do computador.

A criança se comporta diante dos textos que lhe são desconhecidos como o ancião: precisa aprender, exercitar-se – e muito – para descobrir os sentidos, para compreender os mecanismos de organização e funcionamento textual.

Neto e avô vivem realidade em espelho nessas duas situações. O que vai impelir um ou outro ao atendimento da carência é a consciência da falta. Se me faz falta, busco eliminá-la. A leitura carece deixar de ser luxo, para tornar-se necessidade, preenchimento de vazios na alma.