Sobre a formação de leitores

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Formar leitores vai além de alfabetizar. Supera momentos de encanto e emoção. É mais do que ter uma companhia que leia em voz alta ou que esteja junto em uma leitura silenciosa e individual. Formar leitores não é encher a casa de livros ou deixar alguém em uma biblioteca, perdido entre estantes.
Formar leitores tem a ver com educação, gradação, diversidade, acompanhamento. Não tem a ver com controle. Significa dar a mão para a pessoa e ensiná-la a andar entre livros.
Formar leitores (não importa se crianças ou adultos) é apresentá-los aos textos do mundo, contar de sua beleza e de seus perigos, exemplificar com outras histórias de leitores (inclusive a nossa) e aos poucos educar para ver, compreender, interpretar. Para descobrir e recriar.
Educar tem a ver com conhecimento e paciência. As pessoas têm tempos diferentes de aprendizagem: o educador lhes oferece o seu tempo e o seu saber. O saber não é um depósito de informações. São aprendizagens lidas e vividas colocadas a serviço de outrem. Um educador que não lê, não serve para formar leitores. Não terá a aprendizagem necessária para o infinito de textos. Não apenas em livros: em palcos, em sons, em papel, nas telas digitais.
Quem não sabe nadar, sucumbe ao mar. Para nadar no mar é preciso saber navegar. Para o oceano de textos, o leitor precisa de bússola, mapas, roteiros, ciência. Que se aprende na prática e no legado dos navegantes que por esse mar viajaram.
Formar leitores é uma arte. Arte tem a ver com técnica. Técnica tem a ver com estudo.
Estudo tem a ver com leituras. É o ciclo da vida. O círculo.

ANA MARIA, EU E AS PEDRAS DO CAMINHO

Só quem já percebeu o riso escarninho com que o interlocutor recebe a informação “Sou professora. De leitura e literatura.” sabe o que é uma sociedade desprovida de atenção e compromisso com a informação, o conhecimento, a cultura e a capacidade de compreender o mundo a partir de visões plurais.

Primeiro porque sempre se considera leitura sinônimo de alfabetização. A relação tem, é claro, sua história e pertinência. Até a década de 60, a leitura passava mais pelas metodologias de aprendizagem de letras do que por reflexões filosóficas, históricas, psicológicas, sociológicas e linguísticas. Com as teorias da recepção foram crescendo e se intensificando as áreas conectadas aos estudos sobre leitura, interpretação, conhecimentos prévios, cultura e desenvolvimento de inteligências. A leitura ganhou foros de cidadania, de espírito crítico, de relações plurais e de pensamento inovador.

E o Brasil, como em muitos setores mais, viveu um novo achamento da terra: a leitura era um território ainda ágrafo. Nova bandeira passou a tremular nas lides universitárias e nas salas de aula e centros de cultura: é preciso criar um país de leitores. Despejou-se sobre os bem intencionados bandeirantes um enorme volume de escritos, de teses, de ações, de feiras e congressos. As reações foram quebrando algumas barreiras, mas muros e fortalezas ainda resistem. Os números das pesquisas apontam um andar sonolento e desestimulante rumo ao não-me-importismo e mimimis irresponsáveis.

Vamos com Ana Maria Machado, retratando essa realidade amarga no livro Silenciosa algazarra, quando trata da outra leitura, a que não é alfabetização: “É outra a leitura que tantas vezes parece não ter importância e que, por isso, tem sua significação questionada e debatida nas insistentes perguntas feitas por jornalistas em entrevistas a escritores ou pelas sugestões de tema dadas por organizadores de congressos e seminários. É leitura de jornais, revistas, principalmente livros, a leitura daquilo que faz crescer. Tanto a leitura de informação aprofundada, que aumenta os conhecimentos, como a de literatura – sobretudo esta. Da primeira, é voz corrente dizer (com um ar superior e cheio de si, como se fosse verdade) que hoje em dia ela ficou inteiramente dispensável, substituída por meios de informação mais rápidos e eficientes, como a televisão ou a internet. Da literatura, desconfia-se porque se diz que ela é elitista, um luxo, coisa de intelectual de óculos que não faz sucesso na hora de namorar, algo que não tem nada a ver com a vida das pessoas, toma tempo de atividades mais interessantes e outras bobagens no gênero.” (p.13-14)

São comentários e comportamentos que tratam a cultura e o desenvolvimento de pessoas – e por extensão do país em que habitam – como se fosse um jogo de futebol em que apenas dois times concorrem (os leitores e os analfabetos funcionais) a um prêmio consumista e imediato (dinheiro, teres e haveres, erudição vazia e pernóstica). Um “ou isto ou aquilo” fora de tempo em uma sociedade plural e uma cultura diversificada. Em especial, quando se confunde uma rima que não é solução: leitura e literatura. Um mal entendido que não se dissipa porque convém aos seres de má vontade: “não leio literatura porque ela não serve para nada”.

Tudo mais mal que bem: adultos em geral são pessoas de caráter formado (assim creem), não dispostos a mudanças (comodidades são conquistas) e avessos a desafios (tá bom como está). Nem se queixam mais dos filhos mimados e do conhecimento atrasado. Afinal, se der para curtir o final de semana, as férias, a televisão, para que estudar? para que ler? para que suportar essa chatice?

Mais um pouquinho de Ana Maria Machado, a escritora e uma das muitas defensoras da leitura e da literatura como formadoras de autonomia pessoal: “Lê-se pouco no Brasil porque não se acha que ler é importante, não se tem exemplo de leitura, existe a sensação de que livro é uma coisa difícil, trabalhosa, não compensa o esforço. Só se faz obrigado. Um sacrifício penoso, feito andar em esteira de ginástica (…). No entanto, a realidade cotidiana, ao longo da vida, me ensinou outra coisa. Se é verdade que não é comum que um adulto que nunca leu consiga, de repente, do nada, descobrir as delícias da leitura, também é verdade que não conheço um único caso de criança alfabetizada que, tendo acesso a livros bons e interessantes, deixe de encontrar algum que a atraia muito e, a partir daí, queira ler mais e mais, sem parar. A curiosidade é instintiva. A constatação do encantamento, advinda do alimento da imaginação e do prazer da inteligência em atividade, garante o resto.” (p.16)

O texto de hoje é apenas um sinalizador: muitas paragens ainda virão nesse trabalho de Sísifo que é a formação de leitores.

SERVIÇO: MACHADO, Ana Maria. Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura.  São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Ler é perigoso! A literatura nas encruzilhadas da vida. (2)

Marta Morais da Costa

Continuo pelo avesso: não estarão certos os leitores que trocam os livros por outras atividades? Não estarão certos os entrevistados do mais recente “Retratos da Leitura no Brasil”(publicado em 2020 , cuja  pesquisa foi realizada de novembro 2019 a janeiro de 2020)  a não ler um único livro, mesmo que incompleto, nos últimos três meses? Quatro milhões e seiscentos mil brasileiros  deixaram de ler, e sinalizam aos demais que é preferível crer no que dizem do que encontrar tempo e paciência para ler um livro, a sós? A pesquisa dá conta que houve queda nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.  Apenas as regiões Norte e Sul tiveram acentuado acréscimo: 10% e 8% respectivamente.

Stefan Zweig escreveu que os livros são um universo “diversificado e perigoso”. No entanto, muitos projetos de leitura no Brasil ainda propõem visão única, padrão antigo, fuga a polêmicas, engessamentos. Lê-se para não pensar. Lê-se para não se pensar. Pode haver um “perigo na esquina” do texto que constrange e do texto que liberta, do texto que se consome e do texto que nos consome.

Julgo que ao confrontarmos as duas posições antagônicas das encruzilhadas da leitura (o padrão único e o diversificado) em momentos diferentes de nosso percurso na vida, chegamos à conclusão de que o alicerce da valorização da leitura nasce de nossa experiência, de nossas vivências com os textos. E a partir dessa vivência construímos nossa crença e nossa ética. Afirmamos, e com razão, que ler se aprende lendo. Melhor ainda, ler se aprende correndo riscos, permitindo que a diversidade de textos (e também de suportes) mantenha a aprendizagem em contínua revisão.

Nem sempre a leitura e a literatura entram em nossa vida como um ato de razão, uma escolha racional. Por vezes, ler constitui um momento mágico. O nascer do leitor, por exemplo, origina narrativas que o registram de forma sempre emocionante. Uma das mais tocantes, a meu ver, é a de Alberto Manguel contada em “A história da leitura” (1997, p.18)

“Então, um dia, da janela de um carro (o destino daquela viagem está agora esquecido) vi um cartaz na beira da estrada. A visão não pode ter durado muito: talvez o carro tenha parado por um instante, talvez tenha apenas diminuído a marcha, o suficiente para que eu lesse, grandes, gigantescas, certas formas semelhantes às de meu livro, mas formas que eu nunca vira antes. E, contudo, de repente eu sabia o que eram elas; escutei-as em minha cabeça, elas se metamorfosearam, passando de linhas pretas e espaços brancos a uma realidade sólida, sonora, significante. Eu tinha feito tudo aquilo sozinho. Ninguém realizara a mágica para mim. Eu e as formas estávamos sozinhos juntos, revelando-nos em um diálogo silenciosamente respeitoso. Como conseguia transformar meras linhas em realidade viva, eu era todo-poderoso. Eu podia ler.”

Esse momento inaugural e iluminado do processo de alfabetização é um caminho sem volta, melhor ainda, um caminho que dará em muitas encruzilhadas. Não há diplomas de leitor, eles se fazem ao andar. Não existe encruzilhada quando o caminho é único, não é mesmo?

Passei a adolescência na companhia dos livros que comprei (com verba de aniversários e natais) de baciada na papelaria próxima de casa (traduzindo: a Biblioteca das moças, com M. Delly capitaneando os livros preferidos). Li também os que fui encontrando aleatoriamente em estantes da Biblioteca Pública, em especial aventuras da coleção Terramarear. Naquele tempo as bibliotecárias se limitavam a carimbar a carteirinha e a conferir se devolvíamos os livros inteiros, sem rabiscos, manchas de café etc.  Li o que encontrei em caixotes de revistas e livros de bolso de um tio aficionado:  a revista X9, volumes de Seleções do Reader’s Digest e os volumes do faroeste fake, tendo como cenário o oeste dos EUA . Mais tarde descobri que o faroeste era caboclo, os livros foram escritos por  José Carlos Riyoki Inoue, autor do interior de S. Paulo. É claro que não li os 1 086 que escreveu, mas passei por dezenas deles e por muitos de seus 39 pseudônimos! Vem daí, acredito, uma elasticidade leitora que me levou nas muitas décadas da vida a não ter preconceitos arraigados contra quaisquer gêneros literários! Eu tinha a estrada pavimentada para ser uma devoradora de inutilidades bibliográficas! Mas encontrei uma história semelhante ao ler um romance menor de Umberto Eco, “A misteriosa chama da Rainha Loana”(2004),  que me devolveu a serenidade de encontrar citados muitos dos livros, revistas e filmes que fazem parte desse terreno subterrâneo e inconfessável de leituras que afrontam os cânones.

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Assim como não fui tolhida ao garimpar os caixotes sangrentos, o mesmo não se pode dizer de experiências de leitura censuradas, seja no plano individual, seja no social. Bibliotecas escolares organizadas segundo critérios discutíveis (eles sempre o são) estabelecem rigidamente por prateleira a série a que correspondem os livros e professores e bibliotecários ou atendentes da biblioteca, seriamente comprometidos, mas censores convictos, impedem as crianças de terem acesso a prateleiras “proibidas”, “perigosas”.

Expandindo essa censura escolar para momentos históricos e ideológicos mais complexos, a destruição de livros, nascida da necessidade que o poder impõe de corrigir rotas, de apagar encruzilhadas tem acompanhado a história da humanidade desde tempos muito remotos. E atende sempre à intenção de destruir a encruzilhada e substituí-la pelo caminho único. Luciano Canfora, em “Livro e liberdade” rastreia o desaparecimento violento de obras e a censura a autores na Antiguidade Clássica. Fernando Báez, em “A história universal da destruição de livros” mapeia eventos e estigmas que levaram ao desaparecimento cruel e intencional de boa parte dos escritos ao longo da história da humanidade. O SESC Copacabana realizou uma exposição imersiva em que, depois de assistir à reconstituição da biblioteca real de Alberto Manguel (cujo livro dá título à exposição: “Biblioteca à noite”), os visitantes iniciavam, no cenário de uma floresta, uma viagem por dez bibliotecas físicas ou lendárias, visíveis com óculos de realidade virtual e uma delas de impacto brutal: o incêndio da biblioteca de Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia Herzegovina. Um violinista tocando, sentado no degrau da uma escada que conduz ao saguão da biblioteca, enquanto o fogo inicia e se propaga atrás das portas fechadas da entrada ao acervo da biblioteca.

Báez no final de seu livro relata o episódio trágico da destruição da Biblioteca de Bagdá pelas tropas dos Estados Unidos em evento recente. E anuncia uma possibilidade arrepiante:

“Convém assinalar que milhões e milhões de livros foram digitalizados e convertidos em dados eletrônicos recebidos por uma espécie de biblioteca de caráter virtual. (…) Essas bibliotecas de traços futuristas, no entanto, não estão a salvo. Dezenas de hackers, ou piratas informáticos, tentam atacá-las constantemente para destruir seus arquivos. Não está longe o dia em que no lugar de fogo os biblioclastas utilizarão programas informáticos destrutivos, limpos e devastadores.(…) A destruição dos livros está longe de acabar.”

Enfim, nesta tarefa de colocar em perigo de morte as bibliotecas com seus livros, fica muito distante a compreensão da atividade leitora, segundo C.S. Lewis, em Um experimento na crítica literária : “O verdadeiro leitor, este lê todas as obras com seriedade, no sentido que as lê com total entusiasmo, fazendo-se tão receptivo quanto é capaz.”. A negação dos livros é a escolha exata das eternas Veredas Mortas, dos pactos com a negação, com a ausência de recepção, com  o fechamento e bloqueio de todas as estradas. O negacionismo da essência do entusiasmo, que etimologicamente assinala a ligação da ação de ler com o estado de arrebatamento, de fervor interior, de inspiração divina.

Não pretendo abrir a intimidade de minha leitura para todas as encruzilhadas que vivi, não se preocupem. Há abismos que nem a nós mesmos confessamos… Mas um dos mais recentes, eu posso confessar.

Referi-me no início desta fala sobre a atração dos abismos, o amor ao perigo. Na leitura, é claro. Vasculhando livrarias há alguns poucos anos encontrei um livro nessa linha perigosa. É de Mikita Brottman, uma psicanalista e professora estadounidense, do Maryland Institute College of Art, de Baltimore, intitulado “The solitary vice against reading” (O vício solitário contra a leitura). É um livro instigante porque traz relatos, experiências e reflexões a respeito de leituras que não são as mais respeitadas, que não estão exclusivamente em livros e integram a cultura de massa (revistas e cinema, por exemplo). Enquanto professora universitária e escritora, ela lê os repertórios da cultura contemporânea pelo avesso ou pelo anverso, como quer João Cabral de Melo Neto, em poema dedicado à poeta Marianne Moore (1897-1972):

Ela aprendeu que o lado claro

das coisas é o anverso

e por isso as disseca:

para ler textos mais corretos.

E que gêneros ela leu e se encontrou neles? Livros de crime e horror, biografias, livros com confissões de celebridades (que denomina “vanity fair” e a cultura do voyeurismo), policiais- sem dúvida-  e revistas leigas sobre psicanálise. Mikita Brottmann enlaça essas leituras com uma bem-humorada crítica à leitura de obras “bem comportadas” e de clássicos da literatura. Sua argumentação gira em torno da rejeição de leitores adultos a leituras sisudas, tradicionais, que apelam mais à razão do que à sensibilidade, mais à abstração do que ao real cotidiano. Sua visão de leitura aponta para outra sinalização: ‘Não abandone o caminho do prazer da leitura! Leia sem preconceitos. Desconfie de seu professor.”. Sim, isso mesmo! Uma postura à moda da “Sociedade dos poetas mortos” com sua atitude desafiante e a proposta de formas alternativas de ler a produção cultural.

Na conclusão do livro, ela afirma: (vou tentar traduzir aproximadamente o texto – fiquem tranquilos não o lerei em inglês, pois tenho respeito aos ouvidos alheios.) “A literatura me deu uma dose enorme de prazer, e há certos livros aos quais voltei de novo e de novo. Em retrospecto, porém, eu reconheço que os livros que foram os mais significativos para mim ao longo da vida foram aqueles que, na primeira leitura, eu considerei os mais perturbadores ou os mais difíceis de ler.” Interessante esta conclusão porque, ao mesmo tempo em que insiste na noção de prazer e de liberdade de escolha, retorna à ideia de que significativo é o texto perturbador. Podendo estar fora do circuito das obras constantes de listas das obras mais valiosas e merecedoras de leitura. Posiciona e valoriza o leitor como aquele que foi perturbado e que encontrou a sua frente um texto desafiador.

Segue mais profundamente nessa valorização do leitor, citando Mortimer Adler, com o qual concorda que “a prática de educadores, mesmo que bem intencionados, que tentam deixar a leitura menos  penosa do que ela é, não só a tornam menos estimulante, mas também enfraquecem a vontade e as mentes daqueles contra quem esta fraude é perpetrada.”

Esta é uma encruzilhada profissional tão séria e desafiadora, semelhante às Veredas Mortas de Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”. A função do educador em seu desempenho profissional na formação de leitores, em especial de leitores da literatura, tem a ver com três aspectos, no meu entendimento:

1 a definição dos objetivos e valores humanos da leitura da literatura (permanentes ou mutáveis);

2 a definição dos critérios de seleção de textos (que denomino, “As escolhas de Sofia”);

3 a definição de metodologia equivalente ao objeto em estudo (cujo apelo se pode traduzir por um “Professor, poetize-se!”).

Este momento abre para outros caminhos: os atalhos, veredas e becos sem saída do trabalho voltado à formação de leitores na escola. E pede um novo capítulo. que poderá vir a seu tempo.

fico por aqui, quem sabe na chegada a uma nova encruzilhada. Agradeço sua companhia, sua paciência e atenção. Agradeço em especial à Pastoral; também à Patrícia e à Maria Beatriz pelo impecável suporte tecnológico.

E convido João Cabral de Melo Neto a vir em minha companhia por mais um tantinho do caminho. Maurício Fernandes, a quem agradeço demais, em sua voz e interpretação dirá um pouco do que esta velha leitora conseguiu aprender nas encruzilhadas de sua vida:

“Rio lento da várzea,

Vou agora ainda mais lento,

Que agora minhas águas

De tanta lama me pesam.

Vou agora tão lento,

Porque é pesado o que carrego:

Vou carregado de ilhas

Recolhidas enquanto desço;

De ilhas de terra preta,

imagem do homem aqui de perto

E do homem que encontrei

no meu comprido trajeto (…)”

(João Cabral de Melo Neto, O rio.)

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A leitura: multicolorida e em mosaico (fragmento)

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Marta Morais da Costa

Para Paul Ricoeur, “a leitura é REFIGURAÇÃO = transformação, re-simbolização, re-mitização.” A partir dessa analogia, hoje não se pode mais conceber a leitura como exercício de alfabetização ou como procedimento que levará a interpretações únicas, fechadas, pré-determinadas, pré-configuradas pela intenção de um autor. Mesmo um texto objetivo: “A República foi proclamada pelo marechal Deodoro em 1889.” provocará diferentes reações, a depender do modo de ler e do repertório dos leitores. Aceitação, dúvida, negação, repulsa, patriotismo, exaltação militar etc.

Mesmo alfabetizado, o leitor não termina nunca seu processo de formação leitora. Vive em estado de tensão permanente entre o horizonte do presente (o leitor que é hoje) e os textos do passado. Isso faz com que o horizonte do presente esteja em constante formação porque põe sempre à prova nossos pré-conceitos. Mas a tensão se revela também, e continuamente, quando o leitor se depara com textos até então excluídos de seu repertório: livros sobre física quântica, sobre jornalismo literário, sobre teoria da desconstrução, sobre a história da perspectiva dos excluídos, sobre filmes ficcionais com o tempo reverso (p.e., o filme “Amnésia”, de 2000, com Christopher Nolan).

Essa multiplicidade permite compreender por que as portas de entrada da leitura são muitas e, por vezes, surpreendentes. Bruxos, vampiros, cabanas, números, fórmulas, imagens, sons podem estar na fonte primeira da sede saciada. O perigo não está nessa fonte, está, sim, em converter a fonte em único lugar onde se pode beber. Há lagos, rios, corredeiras, cascatas, riachins e oceanos, em que se apresentam e despenham as águas da leitura. Para beber, para banhar-se, para afogar-se, para aceitar ou recusar. O leitor pode viver sua vida leitora no mesmo lago, mas jamais compreenderá a força do oceano. Pode ler exclusivamente quadrinhos a vida inteira, mas perderá as imagens incompletas dos grandes romances. Pode ler exclusivamente textos científicos, mas perderá o movimento intenso e prismático dos quadrinhos e a força imaginária da literatura. Poderá ler exclusivamente a ficção, mas não aprenderá a intensa liberdade da poesia e o rigor especulativo do discurso histórico. O escritor japonês Haruki Murakami afirma: “Se você só lê os livros que todo mundo está lendo, você só pode pensar o que todo mundo está pensando.”

Ler é uma ação solidária de integração na história da cultura. Ao ler, estou sozinho, isolado, mas apenas fisicamente. Mental, imaginária e intelectualmente, estou bem (ou mal) acompanhado. Por isso, antes de interromper, com boas intenções, a leitura de alguém embevecido, pense que pode estar cortando – temporariamente – o fio humano que tece a história da cultura.

E as ações para formar leitores e dar alma à leitura oferecem às pessoas a oportunidade de descobrirem-se múltiplas na multiplicidade incontrolável dos textos.

(In: Revista da Academia Paranaense de Letras, Curitiba, nº 69, p. 68-70)

Ler é perigoso! A literatura nas encruzilhadas da vida. (1)

(Live no I Circuito de Literatura e Artes da Pastoral Univeritária Anchieta da PUC-Rio, em 27 de outubro de 2020)

Marta Morais da Costa

“Sem a beleza, o amor ou o perigo, seria quase fácil viver”.

(Albert Camus)

Saúdo a todos e agradeço o convite de Maurício Fernandes, que chegou em uma noite de ares rarefeitos por causa da seca curitibana e trouxe a energia boa da leitura e da literatura. Agradeço também à Pastoral Universitária Anchieta pela oportunidade de conversar com seus participantes e convidados.

Em minha idade, estar fazendo uma live tem algo de paradoxal: nos bastidores fica a luta travada com a tecnologia (e como trava), esta indesejada da velha geração. Fica igualmente a encenação de um estar à vontade conversando com a câmera como se estivesse no olho a olho com as pessoas. Nós nos fazemos falta: eu cá sem vocês e vocês aí me vendo em uma tela limitadora, em fala intermediada pela transmissão à distância. Confesso que ficarei feliz se a imagem não congelar, se o som for audível, se o power point não falhar, se a voz não quebrar no meio das frases… assim, tipo pesadelo de professor.

Se o convite foi um presente, a sugestão do professor Maurício para o tema deste nosso encontro foi maior ainda. “Ler é perigoso!” com um ponto de exclamação que é ao mesmo tempo um alerta e uma descoberta. Confesso que tenho uma queda pelos abismos, pelos precipícios, pelos riscos do desconhecido. Alguém falou perigoso? Deixa ver: para quem fica escrevendo e falando que ler é uma atividade prazerosa, que contribui para a formação de um espírito crítico, que transforma o leitor, que favorece a imaginação e mais isso e mais aquilo e este outro, como assim, perigoso? E lá fui eu baixar livros da estante, consultar o falível Google, ler os livros quase esquecidos, comprar mais uma dezena deles, interrogar e interrogar-me. Aos poucos quem estava a perigo era eu. Insônia, inquietude, insegurança, interrogações. Mas aos poucos o abismo foi lentamente ficando menos atemorizador, sem ter perdido a atração dos perigosos abismos.

Os papeis, livros, anotações, memórias e leitura leitura leitura foram se organizando devagar, devagarinho. E nasceu uma proposta de fala que foi ganhando corpo e alguma organicidade. E aqui chegou. A primeira modificação foi na abertura do título: a proposta do professor Maurício foi singular, mas a resposta será plural. Não cruzamentos, apenas seguindo a forma de cruz, mas encruzilhadas, que além de lugar de cruzamento pode assegurar o significado metafórico de  “Momento ou situação em que se apresentam várias possibilidades para se chegar a uma decisão”. Serão, pois, encruzilhadas, implicando escolhas: a continuidade ou a ruptura de um novo caminho.

Começo pela origem da palavra.

PERIGO! do verbo latino periri: periculum (significa tentativa,  prova, risco,  exame). O ato de ler enquanto uma atividade de risco, o leitor enquanto um aventureiro que se arrisca. Fazendo tentativas de compreensão, interpretação e apropriação. Ler enquanto uma operação, um agir, não enquanto uma submissão. O texto encarado como um desafio, uma desacomodação. O leitor inicia sua trajetória no texto entendendo que precisa arriscar, nada lhe será dado pronto, fechado, definido. Ele precisa atuar como periclitor, ou seja, precisa arriscar-se, por-se em perigo. Não se trata de um perigo físico, nem mental: a própria ação de ler é arriscada. Em cada texto submetemos nossa aprendizagem de leitura ao perigo de nos confrontarmos com o incomum, com o não experimentado, com outra e diferente forma de atuação leitora. Quando eu me refiro a texto, incluam, por favor, textos, em diferentes linguagens (jornais impressos ou digitais, publicidade, documentários, livros didáticos, jingles, fotos, filmes etc) .

E a leitura da literatura? Bom, desde que o texto seja efetivamente arte, isto é, que contenha a técnica literária e a intenção artística, nós, leitores, estaremos sempre em risco durante nossa atividade. Banksy, um artista plástico contemporâneo e desafiador, afirma que “a arte deve confortar o perturbado e perturbar o confortável”. Enquanto arte, será sempre contramão.

Volto à etimologia para trazer dois termos pertencentes ao mesmo campo semântico de “periculum”. São as palavras peritus = perito, que significa o “que sabe por experiência, o instruído”; e imperitia = ignorância. São os que passaram pela experiência textual e, no caso da arte, enfrentaram os perigos mais numerosos, perturbadores, desafiadores e desconfortáveis. E amadureceram na experiência. Ou ignoraram os textos que lhe passaram pelo caminho.

Ler entendido como um ato de ruptura, como quem chega de mansinho e confortável e… plict, plact , zum! o que foi lido muda, desvia, transtorna, perturba o leitor.É o momento de estar sobre um fio que atravessa o abismo. É chegar a uma encruzilhada em que a estrada desconhecida é a única saída. A encruzilhada abre caminhos, mas a decisão de tomar um ou outro é do leitor. E nesta escolha ele pode encontrar a pedra de Drummond, a toca do coelho de Alice ou a planície da literatura de massa.

Retirar um volume da estante pode ser um passaporte para lugar nenhum, mas pode ser o visto de entrada em um país estranho, diferente, revelador. E aí ler é perigoso porque é arriscado, porque sai do traçado, porque coloca à prova, porque examina. É a própria aventura do leitor que arrisca sentidos, que questiona, que “se coloca à distância para melhor ver”, como ensina Eliana Yunes. Por isso, perito é o que sabe por experiência, porque se arriscou, porque experimentou.

Pois é, vinha eu, criança ainda, e topei com o perigoso Monteiro Lobato (hoje mais perigoso ainda porque acusado de não ser o autor da história de hoje por ter sido o autor da história de ontem). Pior ainda, por ter criado uma perigosa boneca falante e asneirante que botou abaixo alguns ditames da velha educação e da velha República, construindo uma biografia ficcional para lá de desafiadora.  Eu vinha de contos, fábulas e poemas, em modelo uniforme de colégio de freiras: blusa branca, saia anil. Neles, tudo dava certo no final: as crianças aprendiam a ser adultas antes do tempo, por contingência e por obediência.

Emília me jogou uma capa de chita, tirou meus sapatos de verniz e encheu minha cabeça de porquês! Mais perigosa ficou porque o livro que me chegou às mãos (tipo “Felicidade Clandestina”) não veio pelos caminhos da escola. Um tio bem intencionado pretendeu me presentear com um volume de reforço às aulas do primário e colocou em minhas mãos um exemplar de “Emília no país da gramática e aritmética da Emília”! Um volume, duas histórias! Mas o tiro saiu pela culatra em bom ditado antigo… e perigoso. Em lugar de aprender as classes gramaticais, o fascínio veio pelas ilustrações em que palavras viravam corpos e vice-versa, e uma voz irônica botava abaixo barbarismos e solecismos, questionava classificações e mostrava uma dança de palavras que escapavam pelas frestas da gramática e se perdiam em outros mundos. Foi paixão daquelas de preocupar pais vigilantes.  

Cada um de nós, leitores, carrega seu primeiro amor (“que foi como uma flor que desabrochou”). O tal “Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor” que o Chico Buarque cantou em “Flor da idade”. Também carrego o meu.

Eu poderia dizer uma mentira deslavada: havia nascido ali com Emília o abismo em que me precipitaria para o resto de meus dias. Que nada! Depois do furacão-abismo Lobato, voltei ao conforto de leituras escolares padronizadas e livros sobre aventuras em países exóticos e manuais de amores eternos, com mulheres perfeitas e cavalheiros arrogantes e mais tarde apaixonados!

O psicanalista Bruno Bettelheim, que faleceu aos 82 anos, em entrevista afirmava que, de tudo o que leu ao longo da vida, avaliava ter encontrado leituras significativas e transformadoras em apenas 4 obras. Levo a vantagem de, um pouco distante dos 82 e espero distante também da hora fatal, já ter encontrado um número maior de paixões literárias e desviantes. Talvez eu seja mais volúvel. Ou tenha uma formação mais rasteira e por isso sujeita a sacudidas mais frequentes, a mudanças de caminho mais constantes.

Nesta já longa caminhada acompanhada de livros, magistério e muita leitura algumas dúvidas consegui esclarecer para mim mesma. Mas à medida que solucionava algumas, pululavam a minha volta dezenas de outras. Vou escolher algumas só para ilustrar algumas encruzilhadas que deram em caminhos inusitados e em muitas pedras.

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Começo por uma paixão de maturidade: Manoel de Barros

VII

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos –

o verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros. O Livro das Ignorãças. 1993.p.17)

Os delírios que Lobato criou deixei se espalharem em outros livros e outros fazeres ao longo da vida.

Tive uma formação profissional na Universidade muito desigual, péssima em áreas essenciais para meu magistério posterior. Um dos livros que me colocou no caminho possível da grande encruzilhada pedagógica foi “Summerhill, liberdade sem medo”, de Alexander Sutherland Neill, que chegou ao Brasil no início da década de 1960 e que conheci alguns anos depois. Perigosíssimo. Falar em liberdade sem medo em tempos de ditadura era quase como ter escondido em casa um volume de “O Capital”, de Karl Marx. No livro, é narrada a experiência inovadora com educação na Inglaterra apoiada em um tipo de gestão democrática com flexibilização curricular, em que as aulas são opcionais e os alunos participam das decisões sobre estudos e gestão. Como resultado da leitura que me fascinou, comoveu e entusiasmou, não criei uma Summerhill curitibana. Criei, sim, uma utopia interior que me arrastou por planícies e abismos ao longo da carreira. E que reencontrei e vivenciei na literatura. Liberdade sem medo tem tudo a ver com literatura de qualidade, com leitura qualificada. Juntei as duas e saí lutando.

Alguns anos depois uma encruzilhada de Veredas Mortas, habitada pelo Cujo, o Ão, o Cramulhão, o Barzabu, o Satanazim, o Dianho de Guimarães Rosa colocou no precipício mais profundo e chamuscável a literatura que eu havia lido até o momento. Grande Sertão: Veredas é até hoje a paixão e a encruzilhada mais definitiva de minha leitura e de minha ligação umbilical com a língua. foi realmente “a voz de poeta, que é a voz de fazer nascimento”. Liberdade sem medo de ler, de escrever, de pensar, de sentir, de olhar para o mundo. Parodiando o “Ver com olhos livres” do Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade, pude viver um ler com olhos livres. E estávamos em plena ditadura…

Outros terremotos, outros verbos delirantes viriam e continuam a chegar. Há uma formação de leitores que atinge certo grau de autonomia ao final da escolarização, mas há outra formação que realizamos, muitas vezes individualmente, ao longo de toda a vida.  Isto significa que, ao buscar insaciavelmente o encontro com o livro perfeito, nos arriscamos, caminhamos à beira do precipício – talvez com maior cansaço e dificuldade motora por causa da idade, mas permanecemos abertos ao erro e às descobertas.

Um teórico da leitura, de base filosófica e histórica, Hans-Robert Jauss, lançou em sua teoria o termo “horizonte de expectativas” de que gosto muito. “Todo leitor se aproxima de um texto com suas próprias ideias sobre o que espera encontrar nele; estas ideias dependem do marco social e cultural em que se encontre o leitor”, assim se define esse horizonte. Eu acrescentaria que também atua como baliza nesse processo o histórico de suas leituras, o modo como lê e os objetivos que projeta para aquilo que lê.  Trata-se de reconhecer os limites de percepção e visão ditados pelo histórico de leituras de um leitor e por seus conhecimentos prévios a respeito da língua, dos modos de produção de sentidos e de cosmovisões, todos colocados em um texto determinado.

Gosto dessa denominação “horizonte de expectativas” porque horizonte é uma metáfora visual muito rica, vivenciável e mutável. Quem pouco lê, tem um horizonte de expectativas em relação à leitura que é estreito, finito, restrito. Este horizonte se ampliará à medida que leituras diversificadas e múltiplas forem acontecendo. Será ampliado na medida em que o leitor, ultrapassando perigos, se torne mais perito na ação de ler. Contribuem para essa ampliação todos os textos da cultura que fazem parte de sua formação, não importa o suporte em que estejam.

Outra não é a posição do escritor-cartunista-gênio Quino, o criador da Mafalda, quando a faz afirmar que “Viver sem ler é perigoso, porque te obriga a crer no que dizem.”. Sujeita-se o leitor, voluntariamente ou não, a assumir  o “horizonte de leitura” estabelecido por outrem.

Está posto um problema ontológico e metafísico neste momento: afinal qual ação é perigosa? Ler? Ou não ler? “’Ora, direis ouvir estrelas”: é claro que tudo depende da perspectiva e valores. Depende de ver o horizonte?

Cócegas mentais me fazem pensar pelo avesso: não seria mais tranquilo, e com grande economia de tempo e expansão dos prazeres do ócio, deixar a indolência tomar conta das pessoas e limitá-las a ler apenas o básico, isto é, aquelas formas textuais necessárias à sobrevivência cotidiana básica, primária? Ou então, convencê-las que ler é difícil, trabalhoso, que é melhor substituir os livros por outras atividades ou ler apenas livros de que se goste e que sejam simples em sua linguagem e rasos no tratamento dos assuntos? Textos que sigam o mesmo modelito narrativo ou poético, cristalizado? Ou então que proporcionem exclusivamente entretenimento?

Foto por Amanda Cottrell em Pexels.com

Não quero que pensem que prefiro um atalho de pedras, sem asfalto nem sinalização, a uma ampla estrada pavimentada e em, digamos, dez vias. Também tenho minhas paixonites volúveis no mundo atraente dos best-sellers. Só não fico estacionada em uma das dez pistas, acreditando que assim chegarei a qualquer lugar paradisíaco. Percebo que nem todas as encruzilhadas me oferecem perigos dramáticos e riscos. Elas podem apontar caminhos de Iaras e Botos sedutores que, enleando o leitor em abraços amorosos, o prendem em armadilhas mortais. Ler qualquer coisa, ler por ler, ler para contabilizar, ler para atender à lista dos mais vendidos, pode significar um abismo acolchoado, atapetado, envolvente, atordoante e escravizador.

Não é esta a programação decretada por Beatty, o comandante dos bombeiros incendiários em Farenheit 451? Algo assim como:

“Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as tanto de “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário. (…) Portanto, que venham seus clubes e festas, seus acrobatas e mágicos, seus heróis, carros a jato, motogiroplanos, seu sexo e heroína, tudo o que tenha a ver com reflexo condicionado. Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com  muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo o que peço é um passatempo sólido.”  ( Ray Bradbury, Farenheit 451)

Continua no próximo capítulo.

Marcos de uma Estrada Real

Marta Morais da Costa

Ler e escrever. Lire et écrire. Leggere e scrivere. To write and to read. Lesen und Schreiben

Essas palavras que, irmanadas, ecoam uma na outra a sonoridade final ou inicial, não constituem apenas verbos e rimas, mas propõem uma aliança  que seus praticantes recusam a desfazer. Leio para bem escrever. Escrevo para melhor ler. Qual dos dois, tal o enigma infantil – e transcendental – da galinha e do ovo, está na origem, é o momento inaugural de uma trajetória em códigos, textos e suportes?

Em décadas recentes, vozes que procuram atestar a importância dessa dupla ação física e intelectual povoam páginas impressas ou digitais. As opiniões, as definições, os depoimentos e as tentativas de descrição invadem a cultura em seus mais diferentes ambientes: a oralidade, o público massivo, a erudição mais refinada. 

Escritores no Brasil espalham-se pelos mais diferentes canais, códigos, plataformas e suportes. A cultura vê-se invadida por uma produção que parece fazer submergir os leitores e emergir escritores em cada canto, fresta e desvão deste país. Talvez seja um auspicioso sinal de um povo em necessidade premente de expressão pessoal. Talvez seja um sinal de um povo em desvio inconsciente da aprendizagem provocada pela leitura: escreve-se mesmo sem amadurecer leituras. Ou talvez a enxurrada de novos textos e nos mais variados suportes comprove que o nível intelectual de um povo talvez possa ser medido não pelo que se lê, mas pelo que se escreve. O que jogaria ao mar todas as pesquisas que achatam nosso orgulho nacional quando os brasileiros participam de concursos ou competições de leitura, compreensão e reflexão a partir do que leem, como o PISA, o Enem, o ENADE.

Sônia Rodrigues dedica um livro à descrição e à análise do RPG – ou seja, do Roleplaying game – um jogo alicerçado em personagens e enredo, arquitetado pelos jogadores ao jogar. O título é “Roleplaying games e a pedagogia da imaginação no Brasil”. Duas afirmações da autora chamaram-me a atenção. Eu as reproduzo para poder comentá-las.

A primeira delas afirma categoricamente que “Uma criança ou adolescente narrando histórias só com o auxílio de sua imaginação, sem repertório ou iniciação, está fadada a propor enredos pobres.”  (RODRIGUES, 2004, p.137). Não posso fugir a uma associação com a escola. Professores almejam que seus alunos sejam capazes de produzir textos denominados pela pedagogia do engano de “criativos” sem a devida preocupação com “repertório e iniciação”. Temas livres, redações de supetão, textos de baixa paródia, chavões, lugares-comuns, banalidades e trivialidades colocadas no alto do pódio da avaliação, como se fossem o suprassumo da capacidade expressiva dos pobres redatores iludidos.

E sabemos que não apenas a escola valoriza este campeonato de trivialidades narrativas ou poéticas. As estantes e os e-readers acumulam textos que não passam de um amontoado de clichês, de desabafos, de falsa espontaneidade em forma de narrativas (como as biografias de anônimos em busca da celebridade, de narcisos desejando que a água se transforme em espelho, de preferência com gambiarras de LED).

É verdade que aprendemos muito ao reconhecer e aplicar modelos, padrões, exemplos. Mais rapidamente aprende a ler quem tem em sua vida exemplos de leitores. A família, os professores, os amigos, um vizinho, um ídolo do cinema ou da música, alguém que leia e divulgue a leitura será sempre um indutor de leitores, um formador de leitores. São círculos concêntricos dentro das águas da cultura.  Mas “sem repertório, sem iniciação…os enredos serão pobres.” Seria como se o mundo começasse repetidamente da fase zero. Seria como se, em termos de leitura e escrita, o aprendiz estivesse sempre retornando ao período anterior à criação dos sumérios. O repertório criado pela história dos textos, o leitor-escritor que tem conhecimento ao menos de parte desse percurso, está melhor equipado para ler e escrever. Mesmo que posteriormente venha a se insurgir contra padrões e exemplaridades. Os pioneiros serão marcos inamovíveis da Estrada Real da leitura e da escrita.  

A segunda afirmação adota outra perspectiva: “Escreve o leitor que se arrisca à exposição. O leitor que não teme (em excesso, pelo menos) a rejeição ou aquele que precisa da companhia, do aplauso, da apreciação de alguém que o leia.” (RODRIGUES, 2004, p.185). Quando me deparei com esta frase, entrei em grave crise identitária. Escrevo há muito tempo com a ingênua intenção de expor ideias, preferencialmente. A forma reflexiva do verbo (expor-se) passava ao largo de minhas modestas pretensões. Mas aprendi que a linguagem é um confessionário ou um divã inescapável. Ao expor me exponho.  Nem Pablo Neruda com sua definição objetiva e professoral de texto  (“Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca ideias.”) me propiciou alívio à crise.

Talvez uma visão cética como a de Carlos Drummond de Andrade pudesse aquietar-me: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”. Materializar dessa forma a escrita, pensar apenas como um preenchimento de lacunas espaciais, como um quantitativo de linhas e volumes talvez pudesse retirar da escrita o peso da exposição da identidade.

Argumento enganoso! A escrita, mesmo de uma crônica desengonçada e despretensiosa sobre ler e escrever como esta, pode corroborar a visão de Elvira Vigna: “Quando escreve, você não fica igual ao que era antes. Você se modifica. Tem que pagar esse preço, de saber que você vai ficar diferente.”

 

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Neste período de epidemia – que se faz longo, além de qualquer expectativa – em que fomos encerrados por força de um vírus em nossas casas e em nós mesmos, quantos não deram início à leitura ou à escrita? São tantas as demonstrações livrescas (jogos, gincanas, declarações de amor, bibliotecas como pano de fundo de lives, crescentes vendas eletrônicas de livros, ebooks e audiolivros) que formam um lastro de euforia em educadores e promotores de leitura. Talvez seja apenas um fenômeno pandêmico que cessará com a chegada de vacinas anti-leitura.

Também a escrita se derrama em páginas, sites, blogs, mensagens, diários. Não necessariamente uma escrita literária ou estética. Mas algo como uma via de expressão a mais na sociedade tão afogada por palavras escritas. Mas a escrita, seja destampatória ou exercício, traz novidade para uma cultura avessa a textões e a qualquer papel que lembre, ou exija, o trabalho de ler.

À espera da vacina, à espera das transformações, à espera de outro olhar da sociedade para a escrita e a leitura, continuarei nesta cidadela, acreditando na resistência de seus muros feitos de livros e de suas janelas feitas de escritas. Talvez nada do anunciado “novo normal” se cumpra. Faz mal, não. Perder batalhas, perder a guerra, perder o juízo e até a própria história são fatos da vida. Nem sempre é possível nesta jornada sobre a Terra exclamar “veni, vidi, vici”.

Mas será sempre possível dizer, em latim ou em português, ego vivo, eu vivo, continuo viva.

Obs.: Esta é uma nova versão de um texto que publiquei em novembro de 2017. São dois anos, oito meses, milhares de páginas e uma epidemia de diferença entre aquela data e esta publicação. Algumas ideias e citações permanecem. Outras foram acrescentadas ou intensificadas. O propósito central permaneceu: tratar da relação entre leitura e escrita, porque continuo acreditando que essas duas ações fazem a diferença no mundo e na vida. Salvacionismo? Talvez. Eu diria antes que é um manifesto, um protesto e uma constatação.

Minha primeira live em tempo de epidemia ou A primeira live a gente nunca esquece

Marta Morais da Costa

Na placidez atemorizada dos dias de quarentena, o tempo escorre lentamente e os dias parecem mais longos. Nos vazios criados pelo estar constantemente em casa, surgem oportunidades e ânsia de experiências diferentes. Na tecnologia capaz de aproximar pessoas isoladas em casas diferentes, surgem recursos que sustentam ideias e ações de aproximação. Esses ingredientes combinados justificam o novo espetáculo chamado “live”, o já conhecido “ao vivo”.

O termo e o fato se tornaram corriqueiros e as pessoas abrem bocas desmesuradas para anunciar a novidade: a laaaaive.

Como tudo na vida da comunicação nasce, tem sucesso, redunda-se, satura e morre, viveremos o ciclo da novidade com bastante rapidez. Tão logo voltem os dias supostamente felizes, nada superará o encontro real de olhares. Ficarão resquícios do que vimos e ouvimos nas telas, pois a solidão e a distância são humanamente esporádicas.

O vivo abstrato e mediado por recursos tecnológicos é frio, tem apenas duas dimensões, de vez em quando apaga, trava, não me responde no tempo adequado do diálogo presencial. A oralidade transmitida tem atrasos, descompasso de movimentos labial e de som, são seres esquartejados, colados em álbum de figurinhas moventes, parecem marionetes humanas (realizando com a diferença de século e meio o sonho de Meyerhold!)

Mas quem não tem vida normal na clausura, caça com laives: abundantes, diversificadas em temas e semelhantes no formato. Como presas fáceis, capturadas pela impossibilidade de deslocar-se a lugares de convivência coletiva, podemos passar o dia todo a assistir as laives no compasso estranho de real conversação ou em formato histórico do já acontecido no Youtube. Umas funcionam como desfastio, outras como aprendizagem. Outras…bem…não funcionam simplesmente.

Participar de uma, no entanto, tem o encanto da novidade, o desafio do nunca feito, a exposição aos inesperados (sejam de fala ou de tecnologia). Uma vivência com todas as qualidades e defeitos da vida: a busca de saídas, a procura de contatos humanos, o compartilhamento, a exposição de ideias e valores, os encontros e desencontros.

Em parceria com Etel Frota e Vera Mussi, enfrentamos o tema “A literatura como remédio para uma epidemia”, uma fala a três, patrocinada pelo Departamento Cultural do Clube Curitibano. A discussão trouxe aos participantes uma reflexão sobre os modos como são recebidos os textos pelos leitores e o uso que dele fazem durante um período de quarentena. Também foi explorada a questão relativa aos estágios de enfrentamento mental durante esse período quase (às vezes totalmente) solitário e tenso, que põe à prova disposições diferentes de enfrentamento. Na conclusão, a literatura apareceu como uma forma múltipla, tanto em personagens, culturas, temas e narrativas. Pela diversidade própria do gênero, ela tem condições de atingir de modo diferente, leitores diversificados. Mais do que isso, o isolamento permitiu a exploração de outros suportes para o texto literário, seja o digital ou o audiolivro.

Não se pode também esquecer a importância das narrações orais que ocuparam muitos espaços das lives de diferentes leitores e narradores orais, amenizando a tesão, trazendo a público histórias e autores, provocando olhares diferentes sobre a realidade e a própria literatura.

No meu percurso profissional estive sempre disposta a aventuras. Fazer uma live nas condições atuais representou mais um desafio e me lembrou uma pequena crônica que escrevi sobre outra experiência que impactou o modo com que passei a mediar saberes e textos literários enquanto professora. A crônica é de 2006 e o passar do tempo apenas mudou a tecnologia. O assombro e a vontade de experimentar continuam os mesmos. Para quem tiver a paciência de ler, segue a transcrição do texto, tal como foi publicado pelo jornal “O Estado do Paraná”, que apoiava e divulgava uma crônica semanal sobre leitura e cultura (esta, sim, uma atitude que assombra pela ausência na atualidade).

A PRIMEIRA MULTIMÍDIA A GENTE NUNCA ESQUECE         

As aventuras de um professor em sala de aula só podem ser bem compreendidas à distância. Enquanto se dá a travessia pelas águas conturbadas dos deveres do magistério – preparação de aulas, reuniões, projetos, relatórios, infinitas leituras e correções e reescritas, além das prioritárias atividades na tarefa de transmitir/discutir o conhecimento – pouco tempo sobra para uma reflexão sobre o fazer docente e seus instrumentos.

            À medida que o tempo se esvai na sucessão vertiginosa dos números de horas, meses e anos, tomamos consciência das mudanças pelas quais passaram nossos dias em sala de aula, bem como da maneira como assimilamos, ou não, as teorias e os paradigmas, também estes em sucessão vertiginosa. A imersão no tempo presente costuma distorcer a proporcionalidade e mérito de fatos, pessoas, atitudes e pensamentos. Não seria diferente com a escola e seus agentes.

            Não faz tanto tempo assim, a tecnologia mais avançada em sala de aula era representada pelo flanelógrafo e pelo projetor de slides. Não faz tanto tempo assim, um sinal de modernidade era a projeção de transparências (lâminas, em algumas regiões do país) em preto e branco e, suprassumo dos encantos e despesas, a colorida! A era digital rapidamente jogou para o canto escuro das antiguidades esses materiais. Hoje, é com certa sensação de vergonha – e encontrando um ar de mal disfarçada comiseração de nosso interlocutor – que pedimos um retroprojetor para ilustrar, definir melhor, economizar nosso trabalho docente.

            As universidades fizeram do instrumental mulmidiático um fator de sedução para atrair novos alunos.  Quem organiza eventos se prepara com muitas unidades do já popular datashow, escolhendo salas especiais, porque sabe que palestrantes e conferencistas não abrem mão dessa tecnologia. As escolas, no entanto, ainda amargam essa deficiência a mais.

            O computador, já sabemos, não veio apenas para facilitar o trabalho docente e a aprendizagem discente. Trouxe consigo um novo modo de ler e nova textualidade. Provocou uma enxurrada de estudos e desencadeou uma reflexão intensa sobre a possibilidade de desaparecimento do livro. Passado o período terrorista, lidamos na atualidade com novas realidades em sala de aula. A tecnologia permitiu aos docentes revelar não o domínio sobre a máquina e a inventividade de formas visuais: demonstrou com grande clareza as deficiências cognitivas e didáticas dos utilizadores de multimídia.

            Tenho em minhas retinas da memória a imagem da primeira apresentação em datashow a que assisti. Para iniciar a apresentação, foram necessários um complexo trabalho técnico de montagem e, durante a palestra, a permanente assistência de um especialista em informática. Mas a revelação das imagens e a descoberta das possibilidades comunicativas e sedutoras daquela apresentação marcaram profundamente os neófitos como eu. O novo brinquedo, ou melhor, a nova tecnologia permitia transformar em imagens idéias e, sobretudo, relações inumeráveis. Além de trazer um certo clima cinematográfico ou televisivo para o ambiente radiofônico da sala de aula.

            Muitos e muitos slides depois, já me é possível utilizar e conviver com o instrumental (hoje mais simplificado e banal), além de produzir alguma análise sobre seu uso docente.

            Em ensaio de 1996, José Dieguez atribuía às imagens três funções básicas: a funções informativa, persuasiva e de catalisação de experiências. Na primeira, abria para quatro subgrupos: o primeiro realiza a substituição de uma realidade concreta, o segundo trata de categorizar os objetos, o terceiro explica e organiza as relações entre objetos, e o quarto facilita a amostragem de informação, porque apenas traduz a linguagem verbal em imagem.

            Já a função persuasiva está apoiada em dois tipos de imagem: as motivadoras e as estéticas. A função final, a catalisadora, eu a vivi naquele primeiro contato com a possibilidade de organizar as imagens para transformá-las em material vivo, móvel, docente.

Mas, ao longo de minha experiência, tenho assistido a um uso preferencialmente informativo e pouco estético dessa tecnologia. A cor, as formas, os recursos de som e movimento são utilizados muitas vezes em si mesmos. A fala docente que os acompanha tornou-se repetição da imagem. Não foram poucas as ocasiões em que o professor leu o texto tal qual inscrito na imagem da tela. A função de facilitação redundante, concretizada no uso da multimídia como um retroprojetor animado e colorido, sempre me dá a impressão de uma rubra e macia cereja enfeitando um bolo insosso e pétreo. Enfeite tecnológico para criar um ambiente de modernidade, mascarando conteúdo e prática docente primitivos, deficitários e enganadores.

A associação imediata que um leitor crítico dessa nova linguagem, proposta pelo computador, faz é com a televisão, cheia de recursos de imagem, cor e movimento, tratando do óbvio com obviedade, persuadindo pela redundância, estimulando o olhar catatônico com uma enxurrada de signos visuais primários.

Quando o ensino supervaloriza a tecnologia (por mais rápida e universal que possa ser) em detrimento do saber, podemos estar seguros de que o conhecimento foi se alocar num canto escuro da biblioteca, em livros ainda fechados, fáceis de abrir e movimentar porque não precisam de cliques e teclas.

(crônica publicada em “O Estado do Paraná” em 10 de março de 2006) 

A imaginação pede passagem na formação de leitores

Marta Morais da Costa

Pergunte ao professor se as crianças gostam de ouvir histórias. Pode apostar que de 100 entrevistados, 100 deles dirão que elas adoram. Nem importa muito a qualidade dessas histórias, nem a do contador. Vale muito mais a dose de fantasia que elas trazem. Em 2006, saiu publicado “Sobre histórias de fadas”, livro de Tolkien, autor de “O senhor dos anéis”. Éum texto excelente sobre esse gênero literário, com um estudo sobre a diferença entre magia, encantamento e fantasia, termos que não se equivalem integralmente. Para o referido autor, a magia finge produzir uma alteração no Mundo Primário, aquele que atinge os sentidos mais concretos. Corresponde a narrativas de mundos imaginários, muitas vezes fora da realidade, mas que acabam em situação conhecida: tudo não passara de um sonho da personagem! O extraordinário se reduz a um sonho, por isso Tolkien o considera magia, resultado de um truque que tem explicação lógica.

Acima do Primário, o autor posiciona o Mundo Secundário, sustentado pela necessidade de ficção e de fantasia. Nele é que habita o encantamento, objetivo buscado pela fantasia, uma “atividade humana natural”, que não destrói nem nega a razão. “A fantasia criativa está fundamentada no firme reconhecimento de que as coisas são assim no mundo como este aparece sob o Sol.”, afirma o escritor. Para ter acesso ao Secundário, a imaginação é a chave, e consiste na capacidade da mente humana em “formar imagens mentais de coisas que não estão presentes de fato”.. Quando se aplica a operações mais complexas, pode ser denominada fantasia. É no imaginário que mora o encantamento; não no mágico. O mundo natural – Mundo Primário, segundo Tolkien – quando necessariamente transformado pela capacidade imaginativa dos seres humanos, deixa de ser primário. No Secundário, impera a ordem da fantasia, ou seja, é um mundo comandado por imagens mentais que buscam encantar, construído sobre bases semelhantes ao Primário, mas sem a necessidade de materializar-se. Vivo e real à sua maneira.

Essa rede de significados e conceitos nos auxilia a entender alguns comportamentos infantis e como eles se relacionam com histórias inventadas –  ouvidas, escritas ou lidas. Essa compreensão auxilia o trabalho pedagógico dos mediadores de leitura e o processo de formação do leitor.

Ao querer ouvir muitas vezes a mesma história, a criança deixa agir sua imaginação, suspende voluntariamente a incredulidade sobre os fatos narrados e passa a acreditar no que ouve como se fosse realidade. É a voluntária adesão do leitor ao imaginário contido no texto literário. É sua caminhada pelo Mundo Secundário.

Como pode o letramento aproveitar-se da natureza da fantasia infantil e traduzi-la na aprendizagem dos escritos e da leitura?

Foto por Daria Shevtsova em Pexels.com

Em um primeiro momento, o ato de contar histórias, que dá vida à literatura, aproveita essa inclinação da criança para o imaginário.

A segunda etapa consiste em transpor a voz do professor para o livro – seja na versão impressa, digital ou em audiolivro – permite à criança visualizar os sons que ouviu. Deve-se cercar o ambiente com quadrinhos, ilustrações, recortes, desenhos, livros, CDs, DVDs, vídeos. Não é desse modo que as histórias vivem no cotidiano?

Em uma terceira etapa, deve-se evitar que a escola transforme a fantasia em um exercício apenas, seja gramatical ou de conteúdo, seja um desenho. A escola tenta dominar o imaginário infantil, seja separando o imaginado e a realidade (“isso é sonho”, “só na historinha”, dizem os professores). Os contos são usados para moralismo, lição, direcionamento para o real. São considerados mágicos, como se essa fosse uma qualidade positiva para a imaginação humana. Ao contrário, tem forte cunho reducionista. Tudo fica primário, explicável, uma extensão do real.

Uma quarta etapa refere-se à escola que, pragmática, transforma a fantasia em elementos de trabalho pedagógico, em “atividade”, termo que esconde a intenção de cobrança, avaliação e controle.

Ouvir narrativas tem destacado papel na formação de esquemas narrativos mentais, que permanecem na memória das crianças, e retornam quando são evocadas por outras narrativas, lidas ou ouvidas. Explica porque as crianças acostumadas às narrativas aprendem a ler e a escrever com maior facilidade e criatividade.

Quando o adulto lê para a criança, em especial textos de literatura, não apenas a introduz no mundo da escrita e de suas funções, como oportuniza momentos de intimidade com as letras, que podem converter-se em desejo de ler, de decifrar as letras por conta própria. E a literatura age emotivamente sobre o leitor

Se um quadro com motivos alimentares (frutas, comidas, temperos) estimula o apetite, por que não acreditar em resultado semelhante com textos escritos literários e a leitura? A exposição da criança aos textos do mundo cria a necessidade de ler. E pode causar crises de abstinência quando a necessidade não for atendida.

Não há receitas infalíveis para a passagem da alfabetização ao letramento, mas não se consegue autonomia sem práticas, sem um progressivo e contínuo exercício em que o leitor vai aprendendo a lidar com diferentes esquemas e normas que os textos naturalmente contêm. Basta associar a dificuldade que os mais velhos sentem ao lidar com a leitura de quadrinhos ou na tela do computador.

A criança se comporta diante dos textos que lhe são desconhecidos como o ancião: precisa aprender, exercitar-se – e muito – para descobrir os sentidos, para compreender os mecanismos de organização e funcionamento textual.

Neto e avô vivem realidade em espelho nessas duas situações. O que vai impelir um ou outro ao atendimento da carência é a consciência da falta. Se me faz falta, busco eliminá-la. A leitura carece deixar de ser luxo, para tornar-se necessidade, preenchimento de vazios na alma.

Daí, bró? Beleza, Machadão?

                                                                                              Marta Morais da Costa

Machado de Assis, por Stegun

Um terço do corpo tatuado, os lóbulos esbanjando enormes botões pretos assemelhados a bodoques, fones devidamente posicionados nos ouvidos para curtir um heavy metal altissonante, skate nas mãos e boné de pala reta – colocado ao contrário, é claro – e  a última gíria na boca: tudo isso me permitiria, anciã provecta, divar na tchurma do meu neto?

Segundo alguns equivocados (vá lá, talvez bem intencionados) lidadores culturais, atitude e ação semelhantes podem ser adotadas com textos machadianos com o objetivo meritório de conquistar leitores.

Depois da morte do autor, constatada e epitafiada por Foucault e Barthes, estaríamos vivendo os lúgubres tempos da morte da autoria e da autoridade escrevente. Nada de a linguagem expressar um tempo e uma cosmovisão históricos. O importante agora é travesti-la em garota-propaganda para seduzir o mercado de leitores. Diriam os anjos do Mal: bem feito para quem colocou o leitor como juiz absoluto! Tal como nas famílias condescendentes, o adolescente bate o pé e as chaves do carro deslizam para suas mãos. Então, adolescente e leitor viram rei.

Queremos conquistar leitores? Sim. Temos recursos para isto? Sim. Até mesmo trocar autoria e estilo dos maiores escritores da língua portuguesa para adequar obras à compreensão tida como rastaquera e rasteira dos adolescentes e dos jovens? Sim e não! Sim, para a finalidade de prolongar, aprofundar e manter a imbecilidade cultural reinante. Não, se entendermos que a leitura é também desafio e conquista, e não é acomodação.

A formação de leitores para a literatura pela escola tem produzido resultados esquizofrênicos. Alguns poucos alunos se dizem leitores por causa de seus professores. A maioria foge entediada da leitura obrigatória, dos livros considerados clássicos ou de qualquer texto que exija um razoável espaço de tempo e concentração, uma reflexão de profundidade mínima, um trabalho de compreensão mais apurado. Essa realidade é flagrada nos índices nacionais e internacionais a respeito da leitura de qualidade, é flagrada na absurda ausência de usuários de bibliotecas e frequentadores de livrarias.  Talvez seja arcaísmo pensar bibliotecas e livrarias físicas. Pensemos, então, em celulares, tablets e e-readers. Basta averiguar o que fazem os aficionados de produtos de alta tecnologia que, alheios ao entorno, se dedicam a teclar e alisar telas o tempo todo. Quantos deles estão lendo algum livro digital?

Para consertar esse mundo quase sem literatura, pensam alguns que basta aplicar aos textos a mesma idiotia pedagógica da facilitação, uma metodologia de facilitação.  Pois é preciso ler os clássicos – porque sempre são eles os bodes expiatórios de programas e professores que, para formar leitores, servem-se da papa fina da literatura, usando-a como angu. Então, para que a pretensa e, segundo eles, a intransponível dificuldade de leitura seja amenizada, não se furtam a resumir, adaptar, extrair palavras, sinonimizar pobremente os textos literários de qualidade. Há tempos a escola vem operando essa mutilação. Agora, a intenção, a metodologia e os recursos ganham notoriedade na imprensa com o aval do governo federal.

Relato uma experiência do início dos anos 90 do século passado.  Em União da Vitória, cidade do interior do Paraná, uma professora, orientada por Sandra Konell, na época mestranda da Universidade Federal do Paraná, trabalhou com alunos de NOVE anos textos de Kafka (“A ponte”) e de Guimarães Rosa (“A menina de lá”) entre outros da literatura infantil e adulta. O resultado foi do choque e catatonia iniciais ao deslumbramento e aprendizagem finais. Onde esteve a varinha de condão desse sucesso? No trabalho professoral de mediação qualificada, na crença de que os alunos mesmo muito jovens não são estúpidos e incapazes, e, não menos importante, na certeza de que a literatura de qualidade (mesmo que não seja Machado de Assis, vítima contumaz de citações sem leitura) pode abrir horizontes de compreensão do mundo.

Uma perguntinha me atormenta: o cáustico, desvendador e elegante humor machadiano precisará ser transformado em deboche, em stand-up comedy, em cômico de séries televisivas para ser melhor compreendido?