Crença

Marta Morais da Costa

Atrás de uma porta

a lua pode te visitar.

No muro que te separa

um joão-de-barro faz sua casa.

Na paisagem deserta

a flor nasce entre pedras.

Na árvore seca

a cigarra vem cantar.

Por trás da pálpebra

o olho busca a luz.

Assim é esta hora que nos mata:

reserva no átimo de um segundo

as lembranças

e a esperança

de, em alguma forma,

sobreviver.

HENRY BOREL (E MAIS 2000)

Marta Morais da Costa

Ele não conheceu a altura em longas pernas

não subiu em árvores não transpôs os mares

não trocou os dentes nem usou lentes

amigos raros brincadeiras poucas

as letras para ele continuaram enigmas

não passou do berço à cama

do pijama à beca ou terno

diplomas e salários não recebeu

não visitou Paris nem Pequim

não sofreu amores

não viveu a paternidade.

++++

Silenciado, imóvel e seviciado,

deixou a infância e a vida

entregues à sanha pérfida

do adulto, brutal disciplinador,

deformidade humana

ungida pelo manto

do silêncio,

da violência

da vaidade

da prepotência.

Necrópole

Foto por Ellie Burgin em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Em vão o desamparo clama sua impotência.

Perdem-se na noite os ais sem remédio.

Nada retorna a não ser o escárnio

do Olimpo de fados sinistros.

Remorso não cabe, consolo não há.

A resposta de impassíveis deuses

pune, asfixia, consome, reduz a pó.

Apelo

Marta Morais da Costa

Não invoques os espíritos

contra a corrupção dos homens:

eles vivem na paz,

não virão para a guerra.

Não invoques a fúria paterna

para defender-te das injustiças:

aprende a lutar tuas próprias batalhas.

Não invoques o amor materno

para curar teus ferimentos do existir:

cura-os com a homeopatia do viver.

Não invoques o meu amor

para perdoar tuas ofensas:

aceita que ele está findo,

exaurido, estéril, ultrajado.

Nenhum apelo o fará renascer.

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Quereres

Foto por Visually Us em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Quero a montanha e a árvore
quero a trilha íngreme
o ar fresco da altura
os pés nas pedras do caminho.
 
Quero a solidão gelada
a invadir nuvens e silêncios
onde a dor não respira
e a mortalha não alcança.
 
Quero cascatas impetuosas
diluindo nos abismos
os assombros o desespero,
o abandono a impotência.
 
Quero no canto dos pássaros
ver acolhido o desvalimento
mais atroz desses dias
sem oxigênio e sem saída.
 
Quero nas alturas ter asas
para fugir em direção ao sol
abandonando ao léu
as penas não consoladas
as lágrimas não extintas
a humanidade dissolvida
em arquejos e isolamentos,
cinicamente desprezados.
 
Quero levar comigo
na dissolvente memória
os dias não vividos
as dores vizinhas
os sacrifícios humanos
a perda dos amores
as esperanças roubadas.
E sepultá-los pelo caminho.
 
Quero deixar na terra
o horror de números
em escalada lúgubre,
hidras com mil cabeças
a uivar tragédias
a buscar o oxigênio
de um futuro que
talvez não chegue.

Desfile

Marta Morais da Costa

de mansinho cheguei ao camarim
no silêncio da madrugada
em cima vesti  cetim
por baixo rala alpaca
olhos de quiçá e cautela
pensar de só dúvidas
 
às pressas saí pra rua
pernas à toa
voz em sussurro
fora de prumo
leque de plumas
olhar quase azul
 
cantei
dancei
cansei
 
hora de retrair
mãos vazias
rosto sem brilhos
traje em tiras
na passarela
jaz a fantasia

 

esquecida
no asfalto.
 
cá dentro a nudez
reveste o  jamais

LEITURA

Marta Morais da Costa

Hoje, 7 de janeiro, Dia do Leitor

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Folhear livros é ter certeza da ignorância.

Ler vorazmente é a certeza do tempo rarefeito.

Na biblioteca infinita a consciência do tempo.

Na solidão da página a evidência do outro.

Um livro é o começo de outro eu,

desenhado na capa dos encontros,

inatingível na última página,

lançado à incógnita do próximo volume.  

Na leitura, a eterna incompletude.

Musicais

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Marta Morais da Costa

Musicais

I

Dor maior,

recipiente de lágrimas e

mil flechas,

fabricantes de ocas

soluções  ilusórias,

labirínticas falácias,

simulacros de cura.

                           

Dor maior que

sustém o coração

em síncopes

e silêncios.

 

II

Doce amor primeiro,

respirou ares de  primavera

mirando paixões estivais,

fatalizou os ventos gélidos  e

solidificou-se no outono,

latência aguda neste ocaso,

sinuosa e persistente chama.

 

Dos embates da paixão

restaram  ternas asperezas

misturadas a imagens solares,

fascínio de paisagens insólitas

solstícios de inquietudes

lastreados em tormentas,

sismos que todo amor contempla.