Albert Camus, cartas e laços.

Albert Camus (1913-1960) foi romancista, ensaísta, dramaturgo, filósofo e jornalista. Construiu sua obra baseado em um humanismo em que a consciência do absurdo da condição humana produz a revolta como uma resposta a esse absurdo. Entre seus textos há uma linha de pensamento filosófico desse absurdo presente na obra O mito de Sísifo (1942) , bem como nos romances O estrangeiro (1942) e A peste (1947) e peças de teatro como Calígula (1945). Em 1957 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Foi uma das mais importantes  consciências morais  do século XX. Faleceu em um acidente de automóvel em 1960.

Ao receber o Prêmio Nobel escreveu uma comovente carta de agradecimento a seu professor da escola primária, M. Germain Louis. A carta de Camus é conhecida. Menos acessível é a resposta de seu professor, de que não encontrei tradução em português e cometi a ousadia de traduzi-la do francês. A seguir as duas cartas.

19 de novembro de 1957

Caro Monsieur Germain,

Deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar-lhe de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno reconhecido. Eu o abraço com todas as minhas forças.

Albert Camus

Carta publicada em “O primeiro homem”, de Albert Camus. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silverira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

**************************************************************************

30 de abril de 1959

Meu querido menino,

Recebi, enviado por ti, o livro Camus, que o senhor J.Cl.Brisville houve por bem dedicar a mim.

Não sei expressar a alegria que me propiciou teu gesto gentil nem a maneira de te agradecer. Se fosse possível, eu abraçaria fortemente o rapaz que te tornaste e que seguirá sendo para mim sempre “meu pequeno Camus”.

Entretanto ainda não li a obra; apenas as primeiras páginas. Quem é Camus? Tenho a impressão de que aqueles que tentam decifrar tua personalidade não chegam a fazê-lo de verdade. Tu mostraste sempre um pudor instintivo em mostrar tua natureza, teus sentimentos. Tu consegues fazê-lo melhor quando tu és simples, direto. Bom demais! Estas impressões, tu me deste em sala de aula. O pedagogo que quer exercer com consciência sua profissão não negligencia nenhuma ocasião para conhecer seus alunos, suas crianças, e ele não cessa de o fazer. Uma resposta, um gesto, uma atitude são amplamente reveladores. Eu acredito, por isso, conhecer bem o rapaz gentil que tu eras, e o menino, frequentemente, contém em embrião o homem em que se tornará. Teu prazer de estar na aula revelava-se de todos os modos. Teu rosto expressava otimismo. E ao te analisar, eu jamais desconfiei da verdadeira situação de tua família, e não tive senão uma rápida percepção no momento em que tua mãe veio me ver a respeito de tua inscrição na lista dos candidatos a uma bolsa de estudos. Além do mais, isso ocorreu na ocasião  em que tu irias me deixar. Mas até aquele momento tu me parecias estar na mesma situação de teus colegas. Tinhas sempre tudo o que precisava ter. Como teu irmão, tu estavas adequadamente vestido. Acredito que eu não possa fazer um mais belo elogio a tua mamãe do que este.

Eu vi a lista crescente das obras que te são consagradas ou que falam de ti. E é uma satisfação muito grande para eu constatar que tua celebridade (é a exata verdade) não fez tua cabeça. Tu continuaste a ser Camus: bravo. Acompanhei com interesse as múltiplas peripécias da peça teatral que adaptaste e também montaste: Os possuídos. Gosto tanto de você que não me impediria de te desejar o maior sucesso: aquele que tu mereces.

Malraux quer, também, te oferecer um teatro. Sei que o teatro é tua paixão. Mas…conseguirás tu levar a bom termo e avante todas essas atividades? Temo que tu abuses de tuas forças. E, permita a teu velho amigo de observar, tu tens uma esposa gentil e duas crianças que necessitam seu marido e pai. A este respeito, vou te contar o que nos dizia às vezes nosso diretor da Escola Normal. Ele era muito duro conosco, o que nos impedia de ver, de sentir, que ele nos amava realmente. “A natureza tem um grande livro em que ela escreve minuciosamente todos os excessos que vocês cometerem.” Confesso que este sábio conselho me conteve muitas vezes no momento em que eu parecia esquecê-lo. Por isso digo, tente manter em branco a página que te foi reservada no Grande Livro da natureza.

Andréia me lembra que nós te vimos e ouvimos num programa literário da televisão, referente à peça Os possuídos. Era emocionante te ver respondendo às perguntas. E, apesar de mim, eu fazia a observação maliciosa de que tu não duvidavas que, finalmente, eu acabaria te vendo e ouvindo. Isto compensou um pouco tua ausência da Argélia. Não te vemos há tanto tempo…

Antes de terminar, quero te dizer o quanto me fazem sofrer como professor leigo, os projetos ameaçadores urdidos contra nossa escola. Acredito, ter respeitado ao longo de toda a minha carreira o que há de mais sagrado na criança: o direito de procurar a sua verdade. Eu vos amei a todos e creio haver feito todo o possível para não manifestar minhas ideias e não pesar assim sobre vossa jovem inteligência. Quando o assunto era Deus (está no programa), eu dizia que alguns acreditavam nele, outros não. E que na plenitude de seus direitos, cada um fazia o que queria [fazer]. O mesmo para o capítulo das religiões, eu me limitava a indicar aquelas que existem, às quais pertenciam aqueles a quem ela agradava.

Para ser sincero, eu acrescentava que havia pessoas que não praticavam nenhuma religião. Sei bem que isso não agrada àqueles que gostariam de fazer dos professores uns caixeiros viajantes da religião e, para ser mais preciso, da religião católica. Na Escola primária da Argélia (instalada então no parque de Galland), meu pai, como seus companheiros, era obrigado a ir à missa e comungar todos os domingos. Um dia, revoltado com esta obrigação, ele pôs a hóstia “consagrada” dentro de um livro de missa e o fechou! O Diretor da escola foi informado desse fato e não hesitou em expulsar meu pai da escola. Eis o que querem os partidários da “Escola livre” (livre…para pensar como eles). Com a composição da atual Câmara de Deputados, temo que o golpe tenha sucesso. O “Canard Enchainé” assinalou que, em um departamento, uma centena de turmas da Escola leiga funciona sob um crucifixo afixado na parede. Vejo nisso um abominável atentado contra a consciência das crianças. O que virá a acontecer daqui a algum tempo? Esses pensamentos me entristecem profundamente.

Saiba que, mesmo quando não escrevo, penso frequentemente em vocês todos.

A senhora Germain e eu abraçamos fortemente a vocês quatro.

Afetuosamente teu

Germain Louis

Post Scriptum: Deixo a cada leitor a interpretação da carta do professor Germain Louis, mas não posso deixar de manifestar minha admiração pelo exemplo de ser humano e de profissional educador. Há na relação entre o professor e o aluno por ele educado uma corrente ética indelével, transfusiva, de continuidades. Assim como nossos filhos, nossos alunos serão sempre “nossos pequenos”, não porque permaneceram infantis, mas porque deixaram em nós o sopro da infância e da juventude que manteve nosso espírito vivo e interessado na vida e na profissão.

Marta Morais da Costa

Edgar Morin: “É preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida”

Palestra de Edgar Morin no 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho de 2019.

“Quando tivemos a ousadia de convidar o francês Edgar Morin para participar do nosso Congresso, não acreditávamos que ele poderia aceitar. Hoje, estamos diante de um dos maiores pensadores da atualidade, que aos 98 anos continua a impactar os educadores com suas falas”, disse Caio Lo Bianco, idealizador e gerente executivo do LIV, durante o 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho.

Morin, antropólogo e teórico da complexidade humana, discursou para 1.500 pessoas durante cerca de 1 hora (veja na íntegra nesta transmissão em vídeo). Além de discorrer sobre a relação entre emoção e razão no pensamento complexo, falou sobre o Brasil. Citou nomes de comunidades e times de futebol, arrancou reações e aplausos da plateia: “Vi neste país muitos episódios magníficos e também terríveis desde 1960. Um Brasil das iniciativas e particularidades, de tantos esforços criativos para criar uma vida melhor mesmo com poderes que só procuram o lucro e a dominação. Esse Brasil que eu amo, eu quero saudá-lo!”, disse.

Abaixo, confira as principais ideias apresentadas pelo pensador, que abordou temas como o conceito de ser humano, as relações entre as pessoas, o papel dos docentes na educação de crianças e jovens, as mudanças na sociedade e a globalização.

Relação entre razão e emoção no pensamento complexo

“Eu quero abordar a, que é o tipo de pensamento que eu pratico e elaborei. Costumamos identificar o homem como homo sapiens, ou seja, dotado da razão, mas nessa definição clássica não há a emoção e o delírio. Mesmo um matemático com uma atividade unicamente racional sente ao mesmo tempo a paixão pela matemática. Não há razão fria – apenas talvez em alguns economistas ou tecnocratas que consideram os seres humanos como objetos nos quais podemos botar cifras. Se não, sempre temos a presença da emoção.

O ser humano é um ser de paixão, que pode ter sentimentos muito fortes que, no limite, podem levá-lo ao delírio. Cada um de nós pode participar de fenômenos de histeria quando fazemos parte de uma multidão ou se estamos em crise de uma certa loucura, algo que depois podemos nos arrepender. Essa loucura não se encontra apenas nos indivíduos, mas num processo histórico. A paixão deve ser sempre controlada pela razão. Se não, podemos sentir um amor cego por alguém que se aproveita de nós, ou viver a paixão por um líder – como um Hitler ou Stalin.  

A primeira lição dialógica: é preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida. O ser humano não é apenas um fabricante ou usuário de ferramenta, um homo faber, mas alguém que vive com mitos, crenças e religiões.”

A prosa e a poesia da vida

“Do ponto de vista da vida, temos a prosa e a poesia. A prosa da vida são as coisas que somos obrigados a fazer para ganharmos o pão de cada dia. Já a poesia da vida é o que nos dá o fervor, a emoção, a exaltação, o jogo, a beleza, o fato de contemplar o oceano, as gaivotas e as praias. Infelizmente, nossas sociedades são invadidas pela prosa, mas devemos resistir delas em nossas amizades e relações humanas. Poesia na vida é fundamental. A poesia é um aspecto de emoção feliz, que nos coloca no deslumbramento e no êxtase.”

A razão e a afetividade

“A afetividade pode ocorrer no âmago da racionalidade. Precisamos promover uma razão sensível e aberta: que conhece seus limites, que aceita o que não pode conhecer – como o mistério do mundo e de coisas que fogem de seu controle –, e que aceita as contradições. Noções que podem ser contraditórias, como vida e morte, podem ser complementares, como tudo o que é inseparável. A razão sensível proporciona emoções. O pensamento precisa dialogar com a mitologia e o pensamento simbólico, por exemplo. A razão precisa ser vigilante contra seus próprios limites e sua tendência de ter certezas absolutas.”

Exploração das emoções

preciso estar atento à exploração da emoção para fins econômicos ou políticos, na propaganda ou na mídia. Muitos costumam selecionar crimes ou catástrofes, ou mostrar crianças e idosos sorrindo, para causar emoções e impulsionar determinadas ações. Há um problema da exploração e controle da emoção que provoca guerras, levanta histeria designando culpados ou excluindo minorias, sendo racista, machista e homofóbico.”

Papel das humanidades e da educação

“Percebemos qual o papel essencial da literatura, da filosofia, do cinema e das artes. O romance, por exemplo, nos comove porque seguimos os personagens e conhecemos as relações sociais, o que a ciência é incapaz de fazer. Um romance, o cinema ou o teatro nos ensinam sobre a vida.

Não basta uma educação baseada apenas na técnica e na racionalidade: a educação deve ter o papel fundamental das humanidades, que nos ensina a meditar sobre a vida e que enriquece nosso destino e o dos outros. Fui marcado por leituras e filmes, e penso que isso deve estar presente na mente dos professores. A tendência atual é diminuir o papel das humanidades e das artes para prevalecer as ciências – e é claro que devemos ter engenheiros e matemáticos –, mas o problema da cultura é muito grande por causa da dissociação entre a cultura científica e as humanidades. A reflexão da ciência não chega aos humanistas e a reflexão dos humanistas faz falta aos cientistas.

A missão do ensino é fundamental para o ser humano, já que ajuda o ser a dar o melhor de si mesmo e evitar o pior. Somos potencialmente homo sapiens, seres razoáveis e delirantes, pensantes e afetivos. Devemos buscar que esse ‘eu’ seja cultivado sempre com o ‘você’.”

Primeira conclusão: o ser humano é complexo e paradoxal

“Vamos à primeira conclusão: é preciso ter racionalidade na emoção e na paixão. A razão, a emoção e a paixão são necessárias e insuficientes. Relacionar tudo isso é essencial.

A contribuição do pensamento complexo é de salientar que pode ser aceito tudo o que parecer contraditório e paradoxal. Por exemplo: não há autonomia sem dependência. É preciso romper com o pensamento linear, aquele que liga uma só causa a um efeito.”

Segunda conclusão: devemos ensinar as crianças a questionar

“A segunda conclusão diz respeito ao ensino: a qualidade de qualquer docente deve ser praticar o eros, que é o amor, tanto para a matéria que ensina quanto pelo estudante. O professor deve lembrar que a criança é um filósofo selvagem e um poeta selvagem.

Filósofo selvagem porque é aquele que faz as perguntas fundamentais. Infelizmente, fazemos com que as crianças percam esse tipo de pensamento e se adaptem a um pequeno compartimento social. Devemos desenvolver nelas a capacidade de questionar, já que a chave de qualquer filosofia é a curiosidade. Essa capacidade poética deve ser valorizada enquanto criança e mantida em toda a vida adulta.

A criança é um poeta selvagem porque se surpreende e olha com certo deslumbramento para as coisas. O adolescente tem aspirações profundas, talvez utópicas ou insensatas, mas o que fazemos normalmente é domesticá-lo para esquecer a tudo. Todo o sistema educacional que conhecemos foi feito para degradar e transformar o indivíduo numa máquina específica dentro da máquina social. O que se pede para as pessoas é que elas se resignem, mas os professores devem ajudar todos a desenvolver essa dialógica entre a razão, a emoção e a paixão.”

Globalização e comunidade humana: conclusão final

“Estamos em uma época que, com a globalização, todos os seres humanos do mundo sofrem os mesmos perigos e ameaças: uma ameaça da biosfera que está precipitando, principalmente quando os governos deixam que essa degradação avance, como aqui na Amazônia. Temos o desenvolvimento das armas, a destruição maciça e as armas cibernéticas que podem destruir a sociedade. Há esse fenômeno extraordinário que é a globalização técnica e econômica, mas ao invés de fazer com que as pessoas se entendam melhor, as coloca em situações de crise e de angústia. E, ao invés de saberem que têm um destino em comum, se fecham em uma identidade particular e singular.

Esquecem que todos somos humanos, da mesma aventura que nos leva não sei pra onde. É preciso situar novamente o sentido da aventura humana. Cada um de nós não é somente um cidadão de uma nação, mas uma partícula dessa aventura que começou na pré-história. Muito antes da história, há um conflito inseparável entre as forças da união e amor, e as forças da destruição, da guerra e do conflito. Cada vez é uma delas que vai predominar. Há uma única certeza: é preciso saber tomar partido pelas forças de eros, do amor, da fraternidade para toda a humanidade.”

Fonte: https://blog.inteligenciadevida.com.br/2019/06/20/edgar-morin-e-preciso-ser-guiado-ao-mesmo-tempo-pela-razao-e-pela-paixao-e-isso-e-navegar-pela-vida/

Uma presença imorredoura

Relendo Farenheit 451, lembrei de anotar uma fala linda do personagem Granger sobre seu avô.

Pensando em Bartolomeu Queirós e sua trilogia “Indez”, “Por parte de pai” e “Ler e escrever e fazer conta de cabeça”, com lindas e líricas passagens sobre pai e avô, compartilho o texto de Ray Bradbury.

Bartô merecerá mais tempo e um afeto especial.

Foto por Pritam Kumar em Pexels.com

“Meu avô morreu quando eu era garoto. Ele era escultor. Também era um homem muito generoso, com muito amor para dar ao mundo, e ajudou a reduzir a miséria de nossa cidade; e ele fazia brinquedos para nós e fez milhões de coisas na vida; sempre tinha as mãos ocupadas. E quando morreu, subitamente percebi que não estava chorando por ele, mas por todas as coisas que ele fazia. Eu chorava porque ele nunca mais as faria novamente, nunca mais esculpiria outra peça de madeira ou nos ajudaria a criar pombos no quintal, nem tocaria violino do jeito que tocava ou nos contaria piadas com aquele seu jeito especial. Ele fazia parte de nós e quando morreu, todas essas coisas morreram com ele, e não havia ninguém para fazê-las do jeito que ele fazia. Ele era único. Era um homem importante. Jamais superei sua morte. Muitas vezes penso: quantas esculturas maravilhosas jamais vieram à luz porque ele morreu. Quantas piadas estão perdidas para o mundo e quantos pombos suas mãos deixarão de tocar. Ele moldava o mundo. Ele fazia coisas para o mundo. O mundo sofreu uma perda de dez milhões de ações generosas na noite em que ele morreu.”

BRADBURY, Ray. Farenheit 451. Tradução Cid Knipel. 2ª.ed. São Paulo: Globo, 2012. p.189.

Os preferidos

Aceitei um desafio proposto no facebook para apresentar, ao longo da semana, as capas de sete livros que fossem considerados relevantes em minha formação como leitora. O resultado dessa escolha difícil vem a seguir.

Dia 1

Vai longe o dia em que tudo começou, mas continua aqui próximo o encantamento da leitura de “Reinações de Narizinho”. A lamentar os brasileiros e brasileirinhos que passaram ao largo de Monteiro Lobato porque, segundo alguns professores, é “muito difícil de ler”, em especial porque escreve em português rsrsrs

Vai na capa primeira, no título primeiro: o amor primeiro.

Dia 2

No tempo em que os contos maravilhosos retornaram às bibliotecas (ignorados por quem acreditava que as fadas eram fator de alienação), Marina Colasanti trouxe um mundo de encantos, do imaginário recobrindo o inconsciente, de personagens e enredos ultrapassando os limites do racional e submergindo os leitores em inúmeros subtextos. A poesia e o encantamento vieram de mãos dadas a partir de “Uma ideia toda azul” (1980) e “Doze reis e a moça no labirinto do vento” (1982). Até hoje continuam de mãos dadas tecendo maravilhas e “A moça tecelã” se tornou senhora de muitas mentes femininas, sua representante poética e sua bandeira.

Dia 3

Antônio Callado escreveu sobre o Brasil, com argúcia, com dedicação, com amor não correspondido. Nando, protagonista do romance-retrato-epopeia deste país, “Quarup” (1967) em sua expedição em busca do centro geográfico do país, encontra-o em um formigueiro. Saúvas – hoje diríamos ratazanas – que consomem as forças do país. Quem o lê hoje? Callado era realmente um gentleman e um homem dominado pelo amor a um país ingrato.  De sua obra ficcional, minha paixão é por “Sempreviva”, uma história de amor e morte, de rebeldia e torturadores. Nela me encantam o lirismo rude, a linguagem poética e Herinha, a menina-natureza, nosso Puck (de “Sonhos de uma noite de verão”) tropical, a ninfa da vingança. Dessa paixão pelo romance nasceu o título de meu livro e de meu blog. Callado semprevivo.

Dia 4

são sete dezenas de pequenos textos encadeados em sequência de videoclipe, editados em 2001. rufatto usa o cenário da cidade de são paulo – que pode ser qualquer cidade – com seus habitantes quase invisíveis, com acontecimentos tipo trailer de filmes diferentes: ação, suspense, comédia, psicopatia, romantismo. a gente lê eles eram muitos cavalos (citação de um verso do romanceiro da inconfidência, de cecília meireles) e descobre a vida prismática de quem (sobre)vive na desigual urbanidade atual. a gente ri, quase chega às lágrimas, se revolta, se interroga, busca respostas e descobre que mesmo em minúsculas, a literatura nos coloca diante do imprevisível, do desumano, dos conflitos e da vida como ela é.

Dia 5

O teatro. Ah, o teatro! Coração rasgado em cada espetáculo, sangue arterial alterado em cada fala, veias abertas em cada gesto. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, deixou de herança – entre outras belezuras – este testamento, ditado em seu leito no hospital: “Rasga, coração”. Em 1969 assisti à estreia em Curitiba. Desde então vive em mim. O projeto de revolucionário do filho ainda jovem a dialogar e conflitar com o pai, velho revolucionário, agora em casa, mas assumindo o protagonismo de uma revolução cotidiana, a que podemos fazer todos na vida real, comum, burguesa ou não. O coração humano que se rasga nas batalhas diárias, seja por pão, paz, protagonismo, pensamento livre ou partilhamento. Ah, o teatro e os milênios de um legado de humanidade e denúncia.

Dia 6

Sándor Márai (1900-1989), um escritor húngaro, entrou em minha biblioteca e em minha leitura com este livro, “AS BRASAS”, indicado por uma grande amigo e enorme pessoa, o dr. Jamil Signorini. Chegou com delicadeza no grupo de leitura da PUCPR – que durou dez anos de leituras semanais ininterruptas, um tempo e uma atividade das mais felizes de minha vida profissional. Uma narrativa escrita com perfeição sobre a amizade, o amor, a honra, a palavra que revela e esconde. dois amigos se reencontram 41 anos depois: o tempo, a memória e o ajuste de contas com um passado sempre presente chegam ao leitor com vagar e profundidade, num entrecruzar de vozes que identificam a melhor literatura. Os detalhes, as sugestões e os fiapos de fala e memória são fios de uma teia que prende o leitor, que o fazem querer ler mais e outros livros do autor, que fazem valer demais o tempo de leitura investido. Li várias obras dele, traduzidas para o português, e igualmente apaixonantes. Uma delas – Veredicto em Canudos (2002) – apresenta sob uma perspectiva diferente a nossa epopeia de Canudos, texto que nasceu da leitura entusiasmada do livro de Euclides da Cunha, realizada por Sándor Márai. “As brasas” é uma obra-prima da literatura.

Dia 7

Deixei para o final da lista semanal a paixão mais forte, mais duradoura, mais vital. A obra total de Guimarães Rosa! Grande sertão: veredas: primal, inaugural, épico, transcendental, beleza perfeita. Citado e transcitado e trescitado por dez entre dez bons leitores. Paixão para a vida inteira, de mesa e cabeceira. Para não repetir, trago a capa de uma edição primorosa, com a ilustração do incrível e maravilhoso Poty. Basta comparar com as capas posteriores, para ver o quanto perdemos em desafio e beleza em troca da tal modernização. Os contos antológicos do volume, lançado em 1946, (salientando “Burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “Duelo”, “São Marcos”, “Conversa de bois”, “A hora e a vez de Augusto Matraga”) desafiam até hoje nossos padrões de narrativa, desafiam a língua que pensamos conhecer, desafiam o pouco conhecimento que temos deste país, desafiam a literatura brasileira, inauguram rios caudalosos de outras obras que tentam se aproximar dela. Assunto para muitos e muitos posts. Poty traduziu como nenhum outro artista plástico a essência dessas narrativas. Amor geral pela obra, com coração em pedaços por não colocar também a trilogia de “Corpo de baile”. Ave, Guimarães Rosa! Os que escrevem deveriam te saudar. Os que escreverão talvez venham a te esquecer (a geleia geral de nossa cultura de fa$chada sequestra e esquece de nossos autores mais significativos).

VII

de Manoel de Barros

Foto por Porapak Apichodilok em Pexels.com

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá

onde a criança diz: Eu escuto a cor dos

passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não

funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um

verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz

de fazer nascimentos –

o verbo tem que pegar delírio.

(Manoel de Barros. O Livro das Ignorãças. 1993.p.17)

A TRAMA DO TEMPO

EDUARDO GALEANO

Tinha cinco anos quando foi embora.

Cresceu em outro país, falou outra língua.

Quando regressou, já havia vivido muita vida.

Felisa Ortega chegou à cidade de Bilbao, subiu no alto do monte Artxanda e andou o caminho, que não havia esquecido, até a casa que havia sido a sua casa.

Tudo parecia pequeno, encolhido pelos anos; e lhe dava vergonha que os vizinhos escutassem os golpes de tambor que lhe sacudiam o peito.

Não encontrou seu triciclo, nem as poltronas de vime colorido, nem a mesa da cozinha onde sua mãe, que lia histórias para ela, havia cortado com uma tesourada o lobo que fazia Felisa chorar. Tampouco encontrou a sacada de onde havia visto os aviões alemães que iam bombardear Guernica.

Pouco depois, os vizinhos tiveram coragem de contar: não, aquela não era a sua casa. Sua casa tinha sido aniquilada. Aquela que ela estava vendo tinha sido construída sobre as ruínas.

Então, alguém apareceu, do fundo dos tempos. Alguém que disse:

– Eu sou a Elena.

As duas se gastaram de tanto se abraçar.

Muito haviam corrido, juntas, naqueles bosques e arvoredos da infância.

E Elena disse:

– Tenho uma coisa para você.

E trouxe uma travessa de porcelana branca, com desenhos azuis.

Felisa a reconheceu. Sua mãe oferecia, naquela travessa, os biscoitinhos de avelã que fazia para todos.

Elena a havia encontrado, intacta, entre os escombros, e tinha guardado durante cinquenta e oito anos.

(In: GALEANO, Eduardo. Bocas do tempo.)