Magnetismo

Marta Morais da Costa

Foto por Jaiju Jacob em Pexels.com

Se você pensa que leitura é atividade para sedentários, para velhinhos solitários, para esquisitões que adoram posar de intelectuais, para desempregados que precisam dar um up em seus conhecimentos, para aqueles entediados que buscam emoções em romances apimentados, enfim, para viajantes confinados pela pandemia que, na falta de viagens reais, buscam nos livros os países que não podem visitar, então, me desculpe: você está sendo restritivo, equivocado, talvez até preconceituoso.

Se você aí, prefere outras atividades mais emocionantes ou recompensadoras que a leitura, tipo viagem para qualquer lugar (até em volta de seu bairro), ou prefere o suor das academias, ou até mesmo o balanço das ondas sobre um barco ou deitado na areia. Ou uma visita ao shopping com todo o stress e aqueles encontros inesperados que acabam em café frio ou virada de rosto para não encarar o inimigo. Ou uma sessão de cinema, perfumada pelo ranço da manteiga da pipoca super-salgada. Ou a conversa de bar que acaba invariavelmente com seu humor no dia seguinte, embebido em uma ressaca homérica. Ou…ou… Me perdoe a franqueza, mas você está sendo restritivo, equivocado, desperdiçador dessas energias que desmobiliam o cérebro.

Leitura será para poucos? Para os experts que identificam já na primeira frase proferida se o falante lê de verdade ou se prefere apenas ouvir seletivamente o que lhe trazem os ventos das telas, dos fones e das bocas com pouco investimento cerebral? Ou poderia ser para todos, rompidos os grilhões de preconceitos e paralisias?

De criança eu achava ler a coisa mais adulta e difícil do mundo. Uma espécie de mágica, aquela de tirar daqueles desenhos em linha coelhos de palavras, pássaros de ideias, borboletas de histórias, árvores frondosas de sentimentos pra rir e pra chorar.

Assim. Uma pessoa chega, assim como se fizesse isso há anos, com um objeto retangular que ora engorda ora emagrece e muda sempre de vestido, senta (e até fica em pé, se for preciso), tira a roupa do retângulo, ventila as dobras das anáguas, abraça as linhas e entrelinhas com olhos devoradores e que dançam de cima a baixo, acompanhando silenciosa partitura em passos cadenciados, de lá pra cá, de cá pra lá.

Se perguntada o que faz, responde lentamente: “Leio…arrisco…me entrego.”

Continuo na clave da infância, porque diante dessa espécie singular de ser humano, saio com pontos de interrogação nos olhos, na mente, na memória: “Como pode? Como? Deve ser uma mágica ancestral, aprendida com xamãs poderosos, que nem a mais avançada tecnologia consegue vencer.”

Religiosamente, toda ferromagnetizada, atravesso as ruas e me rendo ora a livrarias, ora a bibliotecas imantadas, onde vou viver por um tempo sem relógio no campo magnético da escrita. Aprendendo uma pouco mais sobre as operosas artes das fórmulas, rituais e símbolos da leitura.

Sem restrições, sem preconceitos, sem desperdícios.

Árvores

Marta Morais da Costa

Foto por Darius Krause em Pexels.com

Eram árvores vizinhas.

Uma de largas folhas. Outra de delicada folhagem.

Cada uma a produzir flores em diferentes épocas do ano. Uma lançava grandes cachos amarelados na primavera. Outra se enfeitava de pequenas flores roxas no verão.

Uma erguia-se com tronco despido e coroa exuberante. Outra se espalhava em finos galhos, multiplicados e indomáveis ao longo de todo o tronco.

Encontravam-se as duas no alto quando galhos e folhas ficavam tão próximos que as árvores pareciam conversar com intimidade.

Mas era quando o vento punha em movimento a massa verde que elas melhor se definiam Bastava a brisa chegar que o diálogo manso começava. Eram delicadas palavras de amizade, eram juras de fidelidade, eram sussurros de esperança.

Quando se anunciava a tempestade, e o vento agredia as ramagens, a fúria se instalava. Só se ouviam queixumes, gritos e palavrões. O choque dos galhos era tremendo. Vez ou outra vinham ao chão as folhas mais sensíveis e as pequenas ramas enfraquecidas. O chão cobria-se de restos como de uma batalha floral.

Era, porém, nos dias claros da primavera, em que o vento – criança imprevisível – ora golpeava, ora acariciava, que as duas árvores vizinhas mais se assemelhavam aos humanos. Na lufada mais violenta, se debatiam, misturavam-se com força. Ora se impunham, ora eram feridas.

No entanto, quando o vento amainava, tocavam-se delicadamente, trocavam palavras gentis, e uma delas espargia sobre a outra pétalas douradas, que selavam sua intimidade, como beijos e carícias para sempre.

Até o próximo confronto, eram duas árvores destinadas a viverem próximas e unidas até a morte.

Herança

Marta Morais da Costa

Foto por Sohel Patel em Pexels.com

Herdara da mãe uma panela de ferro, três copos de vidro cristalino que, na infância, chamavam orgulhosamente de taças de vinho e só usavam nos natais. E uma lata de 20 litros que na origem havia armazenado margarina no armazém do seu Lalau.

A mãe ganhara a lata porque seu Lalau sabia que na casa dela não tinha moringa nem outra vasilha para armazenar a água do poço. Depois de uma boa esfregada com um pedaço de pano, cinzas e sabão, a lata quase se podia dizer nova, não fosse a estampa colorida de uma moça branca e loira, de longos cabelos lisos, sorriso de dentifrício a apresentar a margarina Regina, a rainha do forno e fogão.

Só assim para margarina entrar em casa: a mais constante das gorduras era a banha de porco, mais barata, e que seu Ari, do açougue, nem olhava para a balança ao embrulhar o quilo da mercadoria, colocando sempre muitos gramas a mais, por causa dos olhos verdes e tristes de minha mana mais velha. Margarina Regina era apenas uma rima, jamais alimentação.

O que agora chamava de casa desmerecia ainda mais o casebre da infância. Nele havia experimentado a necessidade de roupa, comida, conforto e afeto. Nele, vira o pai morrer  numa poça de vômito da última bebedeira. Nele, repartira a cama com três irmãos, dos quais era a única sobrevivente. Nele, aprendera que solidariedade dura uma única doação e muitas cobranças de reconhecimento. Que falta é palavra mais frequente do que bom dia. Que a barriga tem mais buracos por onde a comida se esvai do que paredes para impedir a fome de entrar. Que o sono é sem sonhos, que a vida é de pouco sono, que a morte tem sono pesado sem despertar.

Por isso, uma panela, copos e uma lata são quase os tesouros do rei da história que ouvira o palhaço contar na praça da cidade. Era o tempo do circo ficar na cidade e do desfile pelas ruas com os artistas convidando o público para os espetáculos. A criançada tinha direito a histórias, algumas mágicas, palhaços a trocar tabefes de mentira e a caírem de barriga postiça no chão a berrarem feito o porco quando vai para o sacrifício. Na época dois irmãos e eu íamos para a praça aproveitar o que era de graça. Sabíamos que nas noites seguintes, somente veríamos as luzes do pavilhão e ouviríamos a música da bandinha. Eram os efeitos luminosos e musicais da imaginação que corria solta em nossas cabeças, sentados os três na porta do casebre. Quando uns poucos amigos, mais sortudos, iam aos espetáculos, no dia seguinte andávamos a persegui-los para que contassem o que viram, ouviram e sentiram. Com esses retalhos de conversa e exageros montávamos nosso circo pessoal em tendas imaginárias, que carregávamos dia e noite por muito tempo.

Nem circo, nem margarina, muito menos vinho no Natal. Os copos passavam o ano inteiro protegidos no fundo da única prateleira da cozinha e de lá só saíam quando o pai ganhava de presente uma caixa com bombons melequentos, biscoitos amolecidos e uma garrafa de vinho azedo como a miséria. Meus irmãos e eu não podíamos tomar. A gente ganhava na canequinha de latão um pouco de limonada, mais azeda do que o vinho, porque açúcar era luxo para se aproveitar de vez em quando.

A panela de ferro hoje faz um arroz saboroso, mas no tempo da mãe recebia uma mistura de legumes, farinha e ovos das galinhas do terreiro. Um mexido que rendia porções miúdas, cheirando a delícias e engolidas com rapidez. Na medida em que a família diminuía, cresciam as porções. Só ficava um pouco de remorso porque a alegria da quantidade de comida era resultado de uma tragédia.

A lata, guardo comigo em lugar de honra na cozinha. Eu a decorei com restos da infância: fitas, panos, uma lasca de madeira da porta do casebre, contas de vidro, um pedaço de espelho, recortes de embalagem, tocos de vela, o único retrato de minha família reunida quando fomos à quermesse de Páscoa, umas tiras de papel em que, nos primeiros rabiscos, registrei lágrimas e sorrisos e a flor, agora seca, que ganhei do primeiro namorado.

A lata de margarina Regina reina sobre minha infância e me ensina, diariamente, a reconhecer as fomes que continuam a debilitar e as fomes que, saciadas, deixam cicatrizes na carne e na alma.

Talvez ela venha a ser a herança a deixar para minha filha.

Canto

Marta Morais da Costa

No alto da escada, ela cantava. Não o sucesso do momento, nem a cantiga de seus amores perdidos ou da esperança do reencontro. Cantava a alegria de estar viva e a beleza da natureza. Trazia do mundo pássaros cantores, brilhos de sol, esperança de chuvas, plantas a germinar.

A garganta abria sons de poesia, rimas alternadas, perfeitas, compassos de canções antigas de um povo assinalado pela alegria. O ar ganhou cores e sentidos. Os minutos ficaram congelados em relógios ocultos, mas implacáveis. A quentura da canção inundou o ar gélido da manhã.

O degrau me congelou no espaço. Os ouvidos me içaram. Foi-se sorrateira a ansiedade das horas que fechariam o dia. Nem compromissos, nem promessas, nem programas. A vida suspensa em lábios e sons e ritmo.

No encontro da música a cortina de um palco abrindo-se afoita e leve. Vinha do passado o reconhecimento: era o canto melancólico e suave da infância longínqua. Lábios maternos a acalentar a filha rebelde, a recusar adormecer-se em um tempo de agitação, a anular no sono as horas de brincar, a recusar o apelo dos jogos em companheirismo infantil.

As palavras adocicadas pelo afeto entravam, então, em ouvidos inquietos que pediam exclamações e interjeições. Vinham falando de prados e pássaros, de amores distantes e luares brilhantes. Promoviam o encontro do dedicado amante e cavaleiro e sua dama distante e altaneira. Construía em palavras castelo e caminhos, trazia nos sons o desejo do amor e da perda de si.

Eu, criança, nada entendia daquele enredo, mas entendia da presença, do afeto, dos sons cálidos, da suave calma que aos poucos fechava os olhos e expandia a paz.  E adormecia sonhando amores outros, ainda inatingíveis e já plenos.

O canto se interrompe. Uma risada estilhaça o ambiente. Ao lado da voz, um homem, desses trabalhadores braçais, magro, negro, pobre. Em sorriso franco, olhar travesso, as palavras ecoaram a claridade do canto: “Eu gosto tanto quando você canta para mim: o dia fica azulzinho.”

Terminei de subir a escada e, sorrindo, atravessei a porta de vidro. O dia ficara azulzinho.

Foto por Dominika Roseclay em Pexels.com

Versos, saudade e chamas

Marta Morais da Costa

De saia pregueada azul-marinho, blusa branca imaculada e engomada, meias brancas e sapatos pretos cuidadosamente engraxados, marchei por alguns anos, cercada de amigas e fanfarras, celebrando a Independência do Brasil. Menina ainda, achava aquilo tudo um evento digno de todos os louvores. Vibrava com o Hino Nacional Brasileiro, mesmo sem entender sua letra. Meus cadernos Avante acresciam o orgulho de ver tremular a bandeira brasileira no alto do mastro. Era um tempo de ordens e de inflamados sentimentos patrióticos, ilustrado pelo quadro de Pedro Américo, tido como registro fotográfico de uma situação política e de gestos patrióticos. E hoje jogado na prateleira da pós-verdade e, mais triste, em foto paródica.

Ah! foi bom ter a vida estendida até poder ler 1822, de Laurentino Gomes, e largar de ser ingênua e boba ao acreditar em historinhas que não assumem seu invólucro imaginativo e deturpador!

Será a tal sabedoria dos anciãos, esta de ver cair por terra um a um todos os castelos de ideias e aprendizagens da infância? Será sabedoria esta árida consciência de que o que se vê, ouve, fala e lê é apenas a consciência de que o sentido poderia ser outro? De que a verdade é uma versão? De que o que acontece é incompleto se for colocado em palavras? De que até a fotografia hoje é montagem e perspectiva, não mais registro? Que o real realmente é uma ilusão de realidade?

E, por mais que a repitamos, a palavra real é mais porosa e lacunar do que aquilo que ela pretende traduzir.

Em contraponto aos briosos e ilusórios desfiles da infância, a alma se enternecia e acalentava com os versos de “Pátria minha”, de Vinícius de Moraes. Eu que, à época, mal saíra de Curitiba para algumas paragens interioranas, me sentia exilada qual o poeta, e desejosa de uma pátria tão terna e pequena que caberia no meu entendimento juvenil. A nova “canção do exílio” do poeta-diplomata foi escrita após 1946, quando Vinícius assumiu o posto consular em Los Angeles. “Pátria minha” ganhou ares de fidalguia poética ao ser publicado em 1949 na prensa artesanal de outro poeta ímpar, João Cabral de Melo Neto, em Barcelona. Mais do que as cartas levadas por José Bonifácio a D. Pedro, a edição de um poema marcadamente saudoso anunciava uma pátria que não existia e nem viria a existir, mas que continha paradoxalmente o sentimento de maternidade, de seio úbere ao qual, quando em estado de saudade, sempre buscamos volver. Os versos do poeta longínquo diziam no lá a imagem que ele criara em si da pátria, esse cá distante.

“A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.”

Neste desesperador ano de 2021, senti falta de minha pátria, mais do que de meu uniforme escolar, de minha marcha desajeitada ao som da fanfarra escolar.  Saia, blusa e sapatos tornaram-se farrapos tal como o entusiasmado coro a saudar o virudum.

Reencontrei Vinícius na outra face de seu poema: a que substitui a dor da saudade pela dor do que é seu avesso.

“Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.”

A dor da terra destroçada. Do amor que não é mais. Da vergonha em lugar do orgulho. Do rio em chamas.

Despedidas

Marta Morais da Costa

Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com

A porta de saída. A chave. O portão em seu chorar habitual. A rua deserta. A chuva faiscante nas folhas e no asfalto.

Passos seguros. A bolsa colada ao corpo. O guarda-chuva criando um halo de proteção. Braços banhados no gotejar das varetas. Sobe a umidade pelas solas dos sapatos. Apressa-se. Até a marquise próxima. Mais alguns metros. Equilibra desajeitadamente o guarda-chuva, a bolsa e o celular. Pede um táxi.

Tem duas horas que sua vida desabou.

A espera vã por um telefonema. Estou chegando. Abra a garagem para mim. O toque no botão, a porta abrindo, o carro entrando. Depois era correr para os braços, as palavras, o beijo de chegada. Só então a vida retornava. Sem trabalhar, o dia era longo. A distância era sofrida em fogo de saudade. Ele no escritório. Ela embrulhada em lençóis, sem vontade, sem ação.

Currículos distribuídos. Telefonemas em vão. Mensagens negativas. Nada, ninguém, nenhum. A fila do desemprego. A angústia da inação. A lembrança do trabalho. A constância do dinheiro pingando na conta. A segurança do emprego. As amizades, as conversas, o sentir-se útil. Mesmo que utilizada.

O caos repentino, as perdas, a demissão. Na cambalhota da história, a rua, o porta afora, os dias iguais e vazios. A inatividade a levar de roldão o entusiasmo, o riso, a disciplina, os objetivos. Aos poucos, o desapego, o desleixo e a indiferença.

O marido dobrando os dias. O marido dividindo o salário. O marido desapegando-se dela.

Mais dias e mais dias: a vida perdeu seu curso, o amor perdeu a força, a união gastou seus elos. A mesmice envolveu o tempo em mortalhas. Eram duas solidões a ocupar a mesma cama, os mesmos móveis e o espaço sufocante de uma casa sem ar.

Não tardaram as palavras viperinas, as janelas fechadas, os olhares desconfiados de vizinhos.

E a casa cercada de muros, a morte grassando no bairro, a tevê em enchentes de más notícias. A vida sem sol, sem saúde, sem saída.

Até aquela noite. Palavras duras, com sabor de sangue. A verdade do amor em agonia e a impossibilidade do afeto. Em volta, ruínas do que foram um dia luas de carinhos e clarões de felicidade.

O táxi estaciona a seu lado. Entra e pede rodoviária, por favor. Também a cidade está perdida. Banco de trás, silêncio, quase escuridão. A lágrima não tem sal. Talvez apenas a chuva que a submerge no desastre de um tempo sem futuro. Talvez.

Fábula do lobo e da cabra

Marta Morais da Costa

Na montanha, as cabras se dispersaram, cada qual em busca de novas plantas rasteiras para se alimentar e cumprir sua sina de sobrevivência e produção de leite.

Atrás de um robusto pinheiro, o lobo as observava, faminto e paciente. Sabia que era comum alguma cabra distraída afastar-se do rebanho e colocar-se voluntariamente em perigo. Seus ancestrais eram exímios caçadores e ensinaram como agir diante da imprevidência caprina.

Naquele dia, o sol forte deixava um rastro de cansaço e sonolência na paisagem e nos animais. Uma cabra experiente aconselhou à jovem e distraída cabra a precaver-se dos lobos e a não se separar do rebanho.

Mas cabras jovens são arrojadas e desobedientes. E, além disso, logo ali, entre pedras e um fio d’água que descia da montanha, havia um tufo de erva macia e apetitosa, como que a chamar por ela. A jovem cabra dirigiu-se para moita e ficou escondida do rebanho pelas pedras.

O lobo percebeu que era sua oportunidade de almoçar. Sorrateiramente aproximou-se. A cabra só percebeu sua presença quando já estavam frente a frente.

– A grama está macia, senhorita? , perguntou o lobo.

A cabra não titubeou:

– Muito macia, senhor! Quer dividir comigo?

– Não, obrigado. Não como ervas. Prefiro carne.

– Faz mal, senhor. Carne envelhece e pode causar vários problemas de saúde, inclusive tumores malignos.

O lobo ficou surpreso. A cabra não havia se assustado com sua feroz aparência. E ainda tinha o desplante de lhe dar conselho! Inclusive usava uma linguagem complicada…

– Engana-se, mocinha.  Meus antepassados já comiam carne e, que eu saiba, nenhum deles morreu dessas palavras difíceis aí.

A cabra percebeu que o lobo ficou assustado com o que tinha ouvido. Aí resolveu exagerar. Abriu bem os olhos, franziu os pelos da testa, caprichou no cabrês e disse candidamente:

– Veremos o que o senhor dirá quando suas entranhas forem sendo destruídas e a dor o fizer uivar dia e noite, sem remédio. Dizem que são doenças terríveis, daquelas que só se deseja para o pior inimigo…

O lobo começou a duvidar de sua fome. E se ela tivesse razão? Nos tempos modernos tudo havia mudado. Quem sabe os lobos atualmente não seriam mais vulneráveis à carne? Quem sabe as cabras também fossem diferentes, com um organismo mais envenenado e comer sua carne seria perigoso?  

Na dúvida, afastou-se e desapareceu entre os pinheiros.

A cabra voltou tranquilamente a degustar a moita verde e macia.

Morais da história:

A informação, quando bem utilizada, salva vidas.

Ser jovem não significa ser ingênuo.

Os tempos mudaram, assim como as fábulas.

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O que será

Marta Morais da Costa

Foto por Rezha-fahlevi em Pexels.com

Já levantava da cama com a língua envenenada. Expelia um “bom dia” que sabia a cianureto. Os olhos, geralmente atrozes círculos vermelhos e íris dilatadas, jogavam sobre coisas e pessoas o ácido muriático armazenado em noites de insônia. As mãos, enregeladas, eram hélices em movimento tentando afincar garras e unhas em qualquer corpo sólido interposto ao seu caminhar. A cabeça coroava o píncaro da arrogância e da pretensão.

Abriu a porta dos fundos e lançou-se ao quintal, farejando rastros da noite agonizante e caçando razões para alimentar sua fome de ações turbulentas, motivadas por nenhum sentido e sem objetivos confessáveis.

Chutou pedras, latas e tijolos. Catou cavacos e galhos secos para acolchoar os lugares possíveis de andar, de sentar ou descansar. Aos outros, o pior. Um varapau lhe servia de lança para cutucar ninhos, desfazer frutas, desbastar folhas das árvores. Sanhudo e beligerante, começou o dia a seu modo: em pé de guerra.

Trouxe para a casa e a rua, a aguda e inescapável violência. Reprimendas, caras feias, palavras azedas e gestos indignados eram combustível aditivado para sua razão de existir e agir.

O tempo lhe trouxe a solidão e o repúdio. A comunidade preferiu preservar-se e garantir frestas de paz.

Isabel contou para Raul que disse ao José que avisou ao Fernando que trocou mensagens com o Luiz que comunicou à Gabriela que resolveu interromper a corrente: o dia se anunciava em trevas, o ar rarefeito lembrava fumos de enxofre, tudo era culpa dele, o Cujo, o que trazia guardado no dentro o desejo de aniquilar – pelas armas, pelo descaso, pela língua e por atos – as amedrontadas manifestações de sobrevivência e de afeições.

Gabriela sussurrou para Vitória que murmurou ao ouvido de Sofia que repassou a Francisco que confidenciou ao Álvaro que cochichou a Simone uma mensagem de convocação à resistência. Nem precisou de brisa a espalhar o desejo de agir. Aos poucos cada qual trouxe ao grupo o que sabia fazer de melhor: cantar, escrever, discursar, guardar segredos, destilar confiança, clarear obscuridades, desvendar intenções, cumprir acordos, despertar esperança.

Quando a noite instalou no céu a lua dos sonhos, uma nova história começou a nascer. Nela não haveria o protagonismo plutônico. O raio da novidade iluminou céu e, mesmo sabendo das agonias a ser vividas, ninguém titubeou, temeu ou desistiu.

Mal a luz atravessou as soleiras, um a um, eles foram povoando a praça e, congraçados plantaram árvores, desembaraçaram de galhos os lugares, restabeleceram velhas normas de convivência. E se prepararam para dizer não e enfrentar as Fúrias.

Sóis e luas se sucederam, indiferentes. No pó, que o tempo vai espalhar, continuam a circular grãos beligerantes. No presente, os venenos ainda se impõem. Amanhã, quem sabe, os perfumes irão impregnar a brisa.

A linha tênue

Marta Morais da Costa

 

Foto por Vladyslav Dushenkovsky em Pexels.com

Gosto da palavra “tênue”: ela tem classe e delicadeza. É forte e sutil ao mesmo tempo: a consoante inicial explode e sem demora se estende em uma sequência de vogais e nasal, que atenua a força inicial. Os sons da palavra deslizam em direção à calma, à leveza e ao silêncio.

            A expressão “vida tênue” nada tem de original, nem na forma, nem em seu conteúdo. A vida é, sim, débil, delgada, fina, fraca. Um sopro. Um raio. Uma cigarra, barulhenta e efêmera. Tem a consistência da espuma degradável e a força de um fio de cabelo. Nasce vigorosa, vive de esperanças e se desfaz em perdas.

            É porque ela assim se constitui que a amamos com forças íntimas e ímpetos românticos. Ela nos dói e nos sorri. Espanca e afaga. Existe nos limites e desafia os imprevistos. Convida para um banquete e, muitas vezes, serve apenas ossos. Anuncia-se no primeiro choro e se despede no último suspiro. Entre a lágrima e apagamento ficam semeados momentos de prazer e horas de aflição. Mas tem bonitezas, embora nem sempre as vejamos. Alguns até fecham os olhos ou a recobrem toda de feiura e recusas. E antecipam o suspiro.

            A leitura de livros e a escuta de pessoas construiu em mim a associação de velhice e sabedoria. Como se a vida fosse cumulativa como a idade. Traríamos ao longo da jornada fardos cada vez mais pesados de aprendizagens e adornos cada vez mais leves de compreensão da realidade. Chegaríamos assim à linha tênue das despedidas. Serenos e cordatos.

            Mais uma ilusão. Tão imensa e tão distante como Jorge e seu dragão,  desenhados na diáfana lua cheia que invade meu quarto. O corpo que enfraquece abriga revoltas juvenis e sonhos adolescentes. Nada é calmo, nem envolto em aceitação. Não são as mesmas indecisões do começo do caminho, mas são sempre inseguranças, expectativas e nebulosidades.

            O corpo repousará definitivamente um dia. Seguirá em mim, no entanto, a certeza de que o espírito preserva o vigor da juventude e os olhos, mesmo fechados, estarão em busca de paisagens e cores ainda não vividas.

            E quando a Parca vier com sua cortante presença definir a ruptura do fio tênue, encontrará, não a mesa posta e cada coisa em seu lugar, como descreveu Manuel Bandeira; terá que me buscar entre livros, preparando o banquete de palavras fortes e delicadas, rudes e interrogativas, em que consoantes e vogais se contradigam em linhas vincadas, pétreas, permanentes.