Marta Morais da Costa

Antigamente os sinos badalavam para marcar o inexorável escorrer do dia e da noite. Havia o ranger das rodas das carroças, algumas explosões de motores de automóveis, a atingir velocidades surpreendentes de 80 km horários!
A família crescia a cada dois anos, como cresciam os seios e as preocupações. A infância ainda não se fora de todo. Adolescência não era termo nem impedimento ainda. Era como se a passagem fosse direta da infância para a juventude adulta. Com dois marcos irredutíveis: o baile dos 15 anos (hoje em franca desvalorização) para as chamadas meninas-moças e o serviço militar para os rapagões (hoje pernóstica e colonizadamente denominados teens). Pórticos para a vida adulta com suas disponibilidades e responsabilidades. Esse duo de –ades não se exercia com igual intensidade nos dois sexos (entenda-se hoje: gênero, como palavra mais adequada e politicamente correta). Rapazes criavam asas e esporas facilmente. As moças ficavam sob as rédeas familiares. Avós, tios e irmãos decretavam costumes em igualdade de condições com os atarefados pais, às voltas com todos os demais filhos e com a subsistência diária.
Nada impedia as brincadeiras de sempre: bola de gude, futebol, figurinhas, bonecas, pingue-pongue, pular corda e usar rodas de todos os diâmetros. Sem distinção de sexo. Ops, de gênero.
Antigamente se pedia à benção dos mais velhos e dos padres, na esperança de que tudo viesse a acontecer conforme o previsto e a tradição e que todo o mal ficasse afastado (quem sabe, até por perto, atrás das cortinas). Orava-se ajoelhados à beira da cama, mesmo que o sono chamasse para o travesseiro e o colchão de crina ou de palha de milho. Colchão de mola era coisa de rico, bom demais para as camisolas de chita e os pijamas de morim.
Os relógios de pêndulo na parede, as imagens de santos recortadas de folhinhas, a foto de casamento dos avós a observar e guardar os costumes recatados de outrora. Paredes de tábuas e sarrafos, paredes com ouvidos e móveis de modelo caixote, sem glamour nem décor. Eram funcionais e bastava. A mesa comprida na cozinha acomodava em cadeiras de madeira rústica e assento de palha o bando de molecas e molecotes, uma ou outra visita e os pais nas duas pontas a governar com os olhos a família crescente, buliçosa, balaio de brigas e afetos.
Compravam-se alimentos a granel nos poucos armazéns de famílias a atender famílias, à vista ou no fio de bigode das cadernetas a fiado. A economia doméstica rigorosa mal permitia a matinê aos domingos. Mas a roupa era sempre asseada, engomada e impecável. Mães e tias estilistas e prendadas mantinham na máquina de costura a pedal a família em sua elegância interiorana.
Um tempo em que a rua só era perigosa em momentos regulados pelo trabalho: a hora de ir para a fábrica ou a lavoura e a hora de voltar para casa, jantar e dormir. Sem televisão nem baladas ou raves: apenas as ondas do rádio e as conversas na cozinha, centro da sociabilidade familiar.
Quermesses da igreja, leilões, rifas, pescarias de bugigangas e músicas dedicadas aos namoricos e amigos, nessa ordem de preferência. Quando sobravam moedas, as matinês de domingo, animadas por filmes lançados há anos nos cinemas da capital.
No mais, a monotonia feliz dos dias regulados, das férias em casa, das viagens raras, dos amigos que só se disputavam por figurinhas e intrigas tolas.
O antigamente se espraia em ações e expectativas do hoje. De tal maneira amalgamou-se na vida interior e na memória, que dá sempre a impressão de ter sido apenas um documento histórico para dizer, entre rugas e cãs, “meninos, eu vi!”. Ou, em dias de mau humor e indignação com o presente, poder dizer-se em silêncio ou como uma acusação ao mundo mudado: “Era um tempo melhor: aquilo é que era vida!”
No entanto, no silêncio da solidão, em conversa com o espelho interior, sei que, verdade da verdade, o melhor mesmo era a idade: os olhos impregnados de jovens aprendizados e a alma aberta a acreditar no que viria.