Marta Morais da Costa
Ando por demais pessimista.
Quando Juscelino Kubitschek de Oliveira inaugurou Brasília fez um emocionado discurso, exaltando o poder transformador da nova capital do Brasil. Citou André Malraux em sua profecia a respeito dessa cidade nascendo do chão desértico, a Capital da Esperança. Seguindo o mesmo tom ufanista, Juscelino envolveu no momento glorioso de sua gestão todos os colaboradores, dos figurões aos operários e não poupou uma visão eufórica do feito mais relevante de seu governo:
Em nenhum momento de sua oração retórica tratou dos políticos e de seus gabinetes e dos ocupantes dos Três Poderes. Dirigiu-se a nós e ao futuro: “Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.”
Bem, hum, ham, pois é. Após 66 anos, o resultado de toda essa empolgação cabe em uma caixa de isopor (com cadeado, claro, porque deve ser sigiloso), a tal “revolução fecunda em prosperidade”.
Correta está a letra do Hino Nacional: “deitado em berço esplêndido”.
Meu pai, aventureiro arrojado, esteve em Brasília enquanto a cidade surgia do chão. Voltou a Curitiba, empolgadíssimo. Disse para minha mãe: “Apronte as malas. Junte tudo que é nosso. Vamos pra Brasília.” Minha mãe, sábia, cercada do quinteto filial, não arredou o pé: “Só saio daqui morta!”. Foi uma rebelde exemplar e certeira.
Hoje, solidários aos brasileiros sem penduricalhos, sofremos a prosperidade alheia e consideramos que a “Capital da Esperança” é uma fake news vetusta e seletiva.
Mais ainda: sofremos de neurose informativa. É só o veículo de comunicação chamar o repórter de Brasília que já erguemos a bandeira da desesperança. E ouvimos tilintar nossas moedas, escorrendo do bolso e caindo na vala comum.
Ai, ai, Brasília, a menina dos olhos e do coração do Presidente Bossa Nova metamorfoseou-se em vampira.
Nossos filhos nos olham em silêncio. Lá dentro deles, a voz da realidade, grave e soturna, nos acusa.
– Ingênuos, crédulos, ladrões de futuro!
Abaixo a cabeça, fecho os olhos, o coração em frangalhos e o pensamento, de chumbo.