Apagamentos

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Marta Morais da Costa

É a hora desperta de mais uma noite de insônia. Diante de mim na mesa de trabalho o monitor do computador, o teclado, a impressora e a parafernália de cabos e fios que se embaraçam, tornam os espaços cada vez mais restritos, a desenhar roteiros próprios sobre o tampo da mesa, a escorrer aquáticos e negros pelas bordas e quinas.

Um cenário típico e sem surpresas do presente laboral de uma escriba.

Os olhos inchados repousam sobre o teclado. Nesta madrugada estão espertos. Os indícios de utilização incessante ganham inusitado relevo. Só então repara no desaparecimento e, em alguns casos, no quase apagamento da tinta branca que facilita o reconhecimento das teclas.

Sem dúvida, a pintura das letras não é de boa qualidade, dialogo-me interiormente. Ou será que a primeira explicação nasce do autoengano de atribuir culpa a outrem?

Melhor, penso: talvez o uso constante tenha corroído algumas teclas. Investigo as pistas da persistente escrita. Estão invisíveis o A e o E. Semidesaparecidos os desenhos do I e do O. Mas imperturbável, inteiro, quase novo: o U.

A língua portuguesa é realmente uma pauta sonora colorida, clara, de cantos solares de estio. O lúgubre U e suas propriedades invariantes, sem tons e semitons, o deixam pouco tocado. Os dedos irão pesar em outras combinações da partitura. Assim os As estupendos em claridade e combinações com acentos, nasais e tônicas. Como o E e o O, abrindo-se em brados de trompete ou fechando-se em lamentos saxofônicos. O I vibrante despertando olhos e ouvidos para sua esbelta agudeza, para os alertas de ironias e desatinos.

A vocalidade da língua falada e escrita no Brasil, despudorada, sem segredos, difere das oclusões e esconderijos da fala de Portugal. Nossa tropical alegria e malemolência e nossa tropical lentidão ecoam na fala que acompanha os dedos tamborilando o ritmo ralentado da enunciação.

E as consoantes?

O maior número delas suporta melhor o apagamento da identidade dada pela tinta. elas dividem o peso das palavras a sustentar-se ora sobre umas, ora sobre outras. As mais enfraquecidas e quase invisíveis são as teclas R e S: a sibilante e a vibrante, a manifestarem as contradições deste país-continente. Entre sussurros e arroubos, juntos ou separados, vão descrevendo nos sons nossas mazelas adolescentes.

Outra dupla siamesa, o M e o N, contribuem para nasalizar o veludo de uma língua em tom menor, amaciada pela história de um povo dito pacífico e quase de joelhos. O povo do jeitinho, das fugas, dos esconderijos e da impunidade.

A letra D perde sua redondeza e cria ângulos quase explodindo no T, como a querer cortar as ligações prepositivas de, dos, das, dum, duma e a esgarçar relações, deixando-as soltas na frase. Pão Açúcar, casa seis milhões…

Surpreende-me a tecla SHIFT, que no seu orgulhoso anglicismo, me leva a pensar que ando exagerando nos nomes próprios, nos títulos e quiçá nos Absolutos e até no egocentrismo do meu nome espalhado em tudo o que escrevo.

Nesse devaneio tecladista e linguístico, me impressiona sobremaneira a limpidez, a visibilidade e o pouco uso da interrogação. A tecla que a identifica brilha soberana no teclado. Ando assertiva demais, concluo. Onde estão olhos e atenção para os ???? da vida e do meu tempo?

Com urgência meu pensamento precisa reaprender o caminho das perguntas e ordenar ao mindinho direito que tecle o quê, quem e por quês deste tempo presente trágico.

400 mil seres humanos

O horror tem limites? Estou descobrindo que não.

Mensagens insistentes de que o “céu fica em festas” quando recebe as pessoas queridas comprovam uma forma esperançosa de autoengano.

Entendo a necessidade de amenizar o luto e criar um espaço em que minimamente a dor possa se recolher e ferir menos.

Reconheço que a dor estraçalha e arrebenta todos os sentidos.

Questiono um céu coalhado de milhões de novos mortos, mais do que nunca surpreendidos quando levavam uma vida normal. Ou que acreditavam ser normal: poder escolher ficar ou sair, estar consigo ou com muitos, viajar, visitar sem compromisso as mecas do consumo, abraçar, apertar as mãos de conhecidos ou não, tomar um café ou um porre na mesa do bar, trabalhar respirando sem obstáculos, manifestar-se em presença.

Questiono um céu aglomerado abrindo espaços na Terra e nos corações com São Pedro atarantado e frustrado por não poder receber a todos com as honras, cuidados e atenção que cada um merece. Batalhões e batalhões de anjos convocados com  urgência para dar suporte ao atendimento, mais  do que os batalhões de equipes intensivistas, do que os contingentes de profissionais da saúde.  

Nem a diferença de quem recebe almas e de quem recebe corpos com almas pode desqualificar uns ou outros. Anjos e homens formam uma corrente de acolhimento que parece ligar o Céu e a Terra.

Pensando melhor: nem tudo é tão sereno, nem tudo é tão contínuo, nem tudo é tão homogêneo. Nem o paralelismo formal é definitivo ou definidor.

Há aqui na Terra, porém, camadas de horror que bradam aos céus – mesmo que do Céu eu nada conheça e só reproduza o o que me contaram ou o que li. Horror nascido de nossa pobre e material humanidade concreta. É possível imaginar a dor física, a expectativa de cura, a consciência do fim, tudo o que a pessoa moribunda gostaria de viver, dizer, amar. Sofremos junto. Isto é, alguns conseguem essa empatia humanizada. Outros apenas contam quantidades, sem lhes dar algum valor social ou humano. Somente valores numéricos: atingimos a cifra, a curva é ascendente, a média móvel sofreu acréscimo de 7%, estamos em segundo lugar no número de mortos. E dê-lhe polca pandêmica!

Nesta semana, sofro de falta de ar (não aquele que levou ao céu tantas pessoas). Mas só encontro o ar fétido de uma sociedade em grande parte anestesiada e que desligou qualquer aparelho de consideração ao outro, de respeito à coletividade. Aquela que sai em busca de um prazer inadiável, de interações superficiais, de goles substanciais de “eu posso’ e  “eu quero” e “e daí?”. Se uma parte desse contingente pode ser considerado imbecil e ignorante, outra parte sofre de sociopatias diversas ou brinca de falsa divindade.

Tenho neste momento (e muitos como eu, certamente) os olhos assombrados pelo medo – por mim e por muitos queridos -, os olhos ensandecidos pelas imagens de não-me-importismo, os olhos inundados pelo lamento e pelo sofrimento de quem foi apartado de seu bem-querer, os olhos indignados pela incompetência daqueles que tudo açambarcam e nada entregam, os olhos a cada dia mais sem brilho ao reconhecer que “vivo em um tempo de guerra, vivo em um tempo sem paz” e vivo em completa derrota por não ter suficientemente contribuído por um mundo melhor.

Observação 1: Esta crônica foi editada inicialmente em 26 de fevereiro de 2021 com o título “251 mil”, mas na medida que a tragédia nacional foi se tornando mais cruel e o número de vidas perdidas aumentou, o título foi sendo atualizado. As demais palavras, embora duras, embora desestimuladoras, porém, continuam sinceras e válidas.

Observação 2: No dia de hoje, 29 de abril de 2021, o Brasil tem registradas 400 021 mortes pela COVID 19. Neste curto tempo de fevereiro até agora, cada atualização do título desta crônica custou a mim doloridas reflexões, intensa indignação e um lamento infindável. Diante da necropolítica que trouxe os brasileiros até aqui, o sentimento de perda não se extinguiu. Extinguiu-se, sim, minha capacidade emocional de seguir registrando ausências. Respeitosamente, pouparei a mim e a meus caros leitores o registro continuado de nossa tragédia.

Marta Morais da Costa

Máscaras

Marta Morais da Costa

Foto por Jou00e3o Pavese em Pexels.com

Versão Céu Estrelado

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

Aos poucos fomos perdendo o receio do pior: bastava ficar recolhido, sair tomando cuidados básicos: distanciamento, máscara, álcool em gel. Passamos um pouco de dificuldade no início: tudo era muito diferente. A falta da vida normal de saídas, encontros, conversas, longos abraços doeu um pouco. A certeza de que estávamos ajudando a salvar vidas, a manter o vírus afastado, a não piorar as estatísticas, acendia a luz da cidadania.

Textos nas redes, telefonemas, oferta de auxílio (em especial para os quarentenados idosos), um desejo de ser solidário (muitas vezes o desejo transformado em ações), podcasts, lives, mensagens de otimismo, muito coraçãozinho e fotos lindas da natureza, de festas antigas, de viagens de sonho. Isso tudo foi acalmando a ansiedade, diminuindo o medo, acomodando nossa vida a um retiro cujo final era luminoso.

As notícias sobre vacinas começavam a ocupar o espaço em noticiário e a produzir imagens de salvação dentro de nossa voluntária solidão. Aprendemos a ter paciência, a minimizar problemas, a rever valores e comportamentos. Ficamos mais próximos de nossos próximos e mais senhores de nós mesmos.

Dedicamos o tempo a tarefas que relegávamos a outrem ou novas ações e atitudes. Aprendemos línguas estrangeiras, lemos mais e outros livros, assistimos a filmes de todas as categorias, colocamos ordem em horários, coisas e rotinas domésticas.

Nossas casas ganharam efetivamente o sentido de lares: proteção, companheirismo, boas práticas de relacionamento, um “vamos junto” até que a covid nos separe. Mas resistimos, vivemos mudanças que reconhecemos temporárias. Talvez sobrevivam em tempo sem quarentena. Talvez não.

É verdade que os divórcios aumentaram, que as crianças perderam aprendizagens, que os projetos para o Ano Novo foram destruídos e que a balança foi impiedosa com o sedentarismo obrigatório. É verdade que a cidadania (antes uma miragem) mostrou sua face de verdadeiro deserto sem fim, cruel, impiedoso, canalha. Mas hoje até relevamos essas dificuldades porque a proximidade do dia de vacinação apagará todos os pecados.

Afinal, um ano não vivido na integralidade é muito pouco para a sobrevida que acreditamos estar logo à frente.

Corremos sem sair do lugar e aquartelados entre a porta de entrada e a sem saída, aguardamos que nossa obediência e nossa reclusão (com toda sua carga de sacrifícios) nos mantenham vivos até a liberdade, ainda que tardia.

Esperamos a luz no fim do túnel, antes que ele se feche.

Foto por Francesco Ungaro em Pexels.com

Versão Raios e Trovoadas

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

A epidemia virou pandemia, três meses se quadruplicaram. O medo se tornou um item do cardápio diário. Toda a vida foi trancada em um quarto escuro, guardado por um pitbull e fechado a cadeado.

Os safados e os sacanas de sempre atacaram e destruíram o que apareceu pela frente. Continuam a agir diante de nossa passividade e covardia. Descobriram que o medo é o senhor da razão. Colocaram sem pudor na vitrina sua crueldade, indiferença, ganância e insaciável cobiça.

O novo normal veio em forma de deboche e despreparo. Toda incompetência e arrogância conheceu a luz, despudoradamente.

Veio a ciência com seu discurso meia boca e meia cara. Existe vacina, mas não para todos. Existe conhecimento, mas não para todos. Existem saídas, mas… Afinal, a ciência também é humana, feita por quem se cansa e por quem desiste.

Quem sabe a fé. Deus provê. Enquanto uns oram por seus mitos, outros rezam por seus mortos. Os agnósticos riem esfíngicos. Ao menos não descreem em vão.

A quarentena se transformou em trecentena e como a pilha de mortos, não cessa de crescer. Empilham-se os dias e sonhos e ânsias de liberdade. Para os tolos. Os espertos sempre continuam a vida normal, descuidados, debochados, inconsequentes, carpindo os dias para sai e a noite derradeira para os outros.

O novo normal é a revivescência da barbárie. A solidariedade é  o encontro virtual, o que se deseja com a certeza de nunca realizar.

Um ano se vai em um país pindorâmico de um anão anestesiado que sonha um abortado futuro. Não terra brasilis, sed terra ignorantis.

Hoje, com futuro encolhido e regressivo, em um quarto com janela gradeada, de onde se vê o horizonte e as flores, e de onde só sairemos em direção ao porão.

Depois de um ano, colecionamos virtualidades. O mundo dos robôs já chegou. Nossa convivência é com máquinas. Não com gente. As lives são pessoas bidimensionais, como em canais interativos. Não com pessoas diversas, mas com inimigos transmissores, que também nos olham e nos consideram inimigos.

Uma sociedade acuada pelos lobos famintos, agressivos e solidários apenas com sua alcateia.

Uma sociedade ameba, enclausurada, a implorar por vacinas e pela velha normalidade. Desejando apenas continuar a ser sobrevivente, já que a vida se restringiu a paredes, ilusoriamente transitórias.

O novo normal, se chegar, será árido por fora e ácido por dentro. Uma sociedade obrigatoriamente adoecida, em que o riso é um esgar e a voz, um sopro.

Não existe vacina para a assustadora descoberta do Mal e para a devastação interior.

Lives: pleonasmos e entusiasmos

Marta Morais da Costa

Ao longo desta longa reclusão desta infortunada e cada vez mais longa pandemia, escolhi dividir meu tempo diário com um grande número de lives, esta invasora dos lares e dos silêncios. Se alguma aversão eu tivesse à tecnologia, eu a teria perdido gostosamente neste período. Ser analfabeta digital não significa que sonho com tempos do uso da pena de ganso e do pergaminho. Como nos amores não correspondidos, quanto mais dificuldades encontro, mais o desejo aumenta.

Seria muito mais devoradora de vida a pandemia sem a vida (live) com que a tecnologia me presenteou. Seria menos ativa intelectualmente esta trecentena sem o convívio com pensares e falares tão diversificados. Seria mais triste este tempo de horror (e não só causado pela pandemia) sem o riso provocado por palavras jocosas e por erros imprevistos que rechearam esse tempo de espetáculos. Seria mais tedioso o contínuo descarte das folhas do calendário – enquanto a vacina não chega – não fosse a companhia de pessoas, em sua maioria desconhecidas, que desfilaram em imagens quadradinhas ou em diálogos chat(ianos).

Congressos, feiras, cursos, palestras, entrevistas, encontros à distância, nada deixei de lado quando os assuntos estavam no meu horizonte de interesse ou na minha simpatia pelos assuntos. Do entusiasmo e voracidade iniciais cheguei ao sublime estágio da seleção rigorosa e do impiedoso descarte do que se repetia, do que se superficializava, do que demonstrava a arrogância e presunção de falantes e escreventes.

Porque estou em fase de prova de vida em ano de mortes e rebobino os filmes – caraca, como esta expressão envelheceu! – do que vi e vivi, registro uma breve síntese. Já que falei em filmes, recordo também aquele aviso providencial que eximia de responsabilidade judicial a equipe técnica e artística: “Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.” Coincidência sim, mas também consciência de que essas pessoas existem de fato.

Mediador-a: Por favor, ligue seu microfone. Aí na parte de baixo da tela…não achou? o ícone que tem um microfone…esse é o do vídeo!…a imagem sumiu…está me ouvindo? tente o outro, o do microfone…Aíííí, agora deu. Parabéns!

Entrevistado-a: Pois é na minha infância, quando eu era criança, não tinha livros em casa…Li meu primeiro livro completo na universidade. Mas lá na escola a gente lia historinhas com fadinhas, bichinhos, fantasminhas, casinhas…

Mediador-a: Professora, como a senhora explica os resultados da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” que dão conta da diminuição do número de leitores no Brasil? Mas antes que a senhora responda que saudar as pessoas que estão nos assistindo…oi, Clara! Há quanto tempo!! que bom que você está aqui. Nossa, também o Carlos Alberto, presidente da companhia de Velas Iaraçu! Agradeço por estar aqui. Professora, sua amiga Joana lhe manda um beijo e saudades. Também estão conosco pessoas de Luís Navegador (SC), Arraial dos Aflitos (GO), Boa Esperança dos Vulneráveis (PR), Cratera (PI), Sol de Inverno (AC) e muitos outros lugares deste Brasilzão. Professora, o que a senhora poderia dizer sobre a leitura de bebês?

Entrevistado: Então, quando vim morar aqui na capital e entrei para a universidade…sei lá, meio assim sem muita leitura, entusiasmado com a possibilidade de aprender e aí fui conhecendo alguns mestres: o professor João que me emprestou muitos livros e dava umas aulas inesquecíveis; o excelente professor Vítor, que me apresentou Descartes, Darwin, Derrida e me indicou o livro de minha vida, o ….(inaudível), do grande Nietszche. Também li Sartre, Camus, Proust, Butler, Botton, Bacon, Arendt (neste momento a avalanche de nomes foi cortada por uma tosse agnóstica potente e o mediador passou a palavra para outra convidada).

Palestrante: Bom dia a todos. Bom dia a todas. Gostaria de agradecer blá-blá-blá  e dizer que no momento desenvolvo os seguintes projetos blá-blá-blá (a enrolação se prolonga por mais uns vinte minutos ). Eu escrevi a minha fala e peço desculpas porque vou ler. Segundo os princípios da epistemologia genético-virótica, os sintomas de desleiturização estão relacionados….(o número de pessoas assistindo diminui a cada 30 segundos). Passando ao segundo item (já são 15 os participantes). Concluindo… (o-a palestrante e o-a mediador-a são os participantes restantes).

Mediador-a: Vou fazer uma pergunta a todos os convidados  e quem quiser começar é só falar: a literatura infantil serve para quê?  E, se quiserem, podem já responder à segunda questão: como é escrever para crianças?

Não fiquei conectada para ouvir as respostas. Sei que, ao menos por boa educação e respeito, deveria dar aos participantes meu voto de confiança e acreditar que as respostas seriam de alto nível e proveito, já que as perguntas ficaram aquém do analfabetismo indagativo. Mas me esperava no canto esquerdo da mesa um volume da obra completa de João Cabral de Melo Neto. Preferi rever a “Educação pela pedra”, porque o avanço tecnológico ainda não conseguiu me explicar porque a educação tem tantas carências no Brasil.

Da cor do pecado

Marta Morais da Costa

O pecado foi o monstro temível e aterrador de minha infância. A cabeça hipertrofiada, o riso bestial, olhos em fogo, dentes lupinos, garras e cascos. Algo como um diabo medieval somado à besta do lago Ness. Nem por isso eu deixava de levar semanalmente ao confessionário uma lista decuplicada de transgressões às leis divinas. É verdade que, perto do que a idade madura traria, o rol era apenas fruto da imaginação e eco dos sermões dominicais. Nascemos todos anjos, alguns perdem as asas e humanizam-se rapidamente. Em slow motion, demorei a perdê-las. E até hoje tento humanizar-me. Dura tarefa, talvez impossível. Se o que vejo ao redor e cotidianamente é o modelo de humanidade, fico mais certa de que não quero assumir em mim o que meus olhos descobrem.

Esta crônica não tem a intenção de atuar como confessionário, portanto, fiquem tranquilos, leitores, prometo não enveredar por questões religiosas, embora elas enveredem teimosamente no meio de minhas palavras e dos dedos a dançar pelo teclado. Vade retro, temptatione!

Herdei do repertório brasileiro de canções, tão rico, diverso e inovador (com o perdão dos países que reclamam esses adjetivos, mas não passam de arremedos de nossa criatividade musical) uma composição que, se puder, canto no volume mais alto que as pregas vocais aguentarem: “Da cor do pecado”, de Bororó.  Para além do caldo sensual, das imagens voluptuosas, me intriga essa minúscula construção verbal desafiadora do título. Qual é a cor? Por que é pecado?

Vai daí que recebo um meme instigante sobre “Os 7 pecados literários” de @nosso_universo_literario. Conhecem? Tomo a liberdade de reproduzir para os poucos que ainda não o viram:

1 Gula- Devorar um livro em poucos dias.

2 Avareza- Não emprestar livros.

3 Luxúria – Desejar um livro sem ter lido os que já tem.

4 Ira – Querer matar um personagem.

5 Inveja – Cobiçar o livro do próximo.

6 Preguiça – Enrolar para terminar um livro.

7 Orgulho – Achar que o gênero que você lê é o melhor.

Depois de um exame de consciência na velocidade da luz, fiquei achando que até melhorei ao longo dos anos. Sabem aquela lista de 10 pecados no confessionário da infância? Pois é, agora são somente sete!

Incorro em todos esses, sem culpa, gostosamente.

Também não é para fazer uma profissão de fé pecaminosa em relação à leitura que iniciei esta crônica-confissão. O que me perturba é a tal “cor do pecado”. Será que tem a ver com a cor das vogais do poema de Rimbaud?

Só pra recordar: o jovem poeta e futuro mercador de armas Arthur Rimbaud escreveu um soneto intitulado “Voyelles” e nele atribuiu às cinco vogais francesas (com timbres diferentes dos da língua portuguesa, embora escritas tal e qual) as seguintes cores:  negra (a), branca (e), vermelha (i), azul (o) e  verde (u).

É evidente que eu e mais alguns milhões de pessoas dariam cores diferentes para as mesmas vogais, sem correr o risco de levar uma arminha pela cara. Cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é”. E o que não somos é, seguramente, submissos a declarações subjetivas de alfabetos coloridos, mesmo com o arrojo poético rimbaudiano.

Longe de mim ser comparada ao mestre armeiro, mas minha atração pelo abismo me leva a tentar resolver a minha maior incógnita do momento: qual é a cor do pecado?

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Junto alhos e bugalhos e parto de imediato para a tentativa de uma resposta exequível (viva a reforma ortográfica recente: pronuncio o u, mas não o marco mais com trema!) sem tremer.

Os tais sete pecados capitais formam um conjunto de número mítico que, como boa virginiana, apresentarei em ordem alfabética. No meu entendimento, hoje composto por neurônios decrescentes e joelhos esfolados de tanto rezar, eles seriam cromaticamente associados, pintados e bordados desta maneira:

– Avareza, dourada como os potes de ouro do rei Midas e a caverna de Ali Babá. Afinal, entesourar hoje é para nababos e contos maravilhosos.

– Gula: a este tenho o maior apreço, e para confirmar minha adesão entusiasta, coloco neste pecadinho a enormidade possível das cores, um cardápio multicolorido como a natureza que nos alimenta o corpo e o espírito.

– Inveja, santa ou pecaminosa, é amarela! Está na palidez do invejoso e nas órbitas esbugalhadas de quem trocaria tudo o que tem pelo ouro de tolo dos outros.

– Ira é branca no esgar dos dentes de crocodilo de um rosto desequilibrado, na baba a espumar nos lábios, no apagão dos neurônios.

– Luxúria – eita “pecado rasgado, suado, do lado de baixo do Equador”! Tua cor está nos cenários da rede Globo, no mesmo vermelho de roupas e espaços de teatros e cinemas, na sensualidade rubra das divas e dos divos, no desejo ardente a levar as almas para os divãs de psicanalistas.

– Orgulho é um pecado de sangue azul. Da cor do céu que julgam habitar os nobres de calção de esfola-gato dos tempos de Gregório de Matos até os privilegiados da vida que circulam nas vias privilegiadas da sociedade de sangue vermelho, igualzinho para todos.

– Preguiça, vício macunaímico, indolente pendão das décadas perdidas e do retrocesso, bandeira falsa atribuída aos artistas, que mais criam quanto mais trabalham, mesmo estando em redes ou leitos insones.  Você, preguiça, é bege, flicts, a cor rejeitada da boca para fora e tatuada a ferro e fogo, que a alma lava, esfrega, mas não apaga.

Como pecadora não arrependida, entendo que esta crônica se estende por demais com apenas sete pecados. Os outros estarão escritos em livros inúmeros localizados nos cantos mais escuros da biblioteca infindável de Borges.

A janela aberta

Marta Morais da Costa

Em frente ao teclado e à tela abre-se a ampla janela. A cabeça cede à urgência da escrita. À revelia dos comandos, a crônica nasce contestadora.

Eu queria escrever sobre a descoberta desanimadora de que quatro milhões e seiscentos mil brasileiros não quiseram ser leitores, segundo a recente edição do “Retratos de Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e o Itaú Cultural. Mas lá fora o sol ilumina a paisagem e impõe um desejo de sair, passear, encontrar a natureza.

Eu pensei em escrever sobre o processo de desertificação em curso no Brasil e na absoluta irrealidade em que vivem brasileiros e, em especial, os comandantes desta casa incendiada e desarvorada. Mas a janela aberta deixa passar uma brisa cálida e terna que abraça o corpo e o deixa acarinhado.

Preciso escrever sobre os mais de 137 mil brasileiros enterrados e silenciados por abandono e descaso neste país negacionista e cruelmente anti-solidário. País de festas e bares, de praias e inadiáveis compras. Um país em que as máscaras não são de pano nem de acrílico, são naturais e procuram disfarçar a hipocrisia. Mas através da janela descubro um ninho de pássaros na árvore da calçada, a me avisar que ainda há vida que vale a pena lá fora.

Estava em minha pauta escrever sobre o acobertamento da corrupção mais a roubalheira do dinheiro dos pagadores de impostos – pesando na cesta básica e no churrasco domingueiro, porém o caviar fica de fora. Neste país em que, podendo, muitos não se furtam em roubar e desmentir. Mas o esplendor das flores no jardim, anunciando a presença de mais uma primavera, capturam meus olhos com brilhos e cores e formas e beleza.

Eu preciso escrever sobre La Niña, sobre as crianças sem escola, sobre os adultos sem futuro, sobre a seca a mostrar arreganhada a terra em mosaico arenoso. Mas ao longe descubro um menino ciclista, a desafiar a gravidade e os cuidados maternos, e a fazer girar as rodas de sua nave espacial, sonhando com viagens sem tempo nem destino.

Eu queria – e precisava- escrever sobre a solidão, o medo, a dor da ausência, a vida parada no relógio e na folhinha, as frestas de esperança com a possiblidade de uma vacina, venha de onde vier. Vacina que dói em minha alma brasileira, ao saber que a nossa ciência está quase tão destruída quanto a imagem deste país entre nós e entre os outros. Mas o tempo da escrita pode ser um bálsamo momentâneo.

A janela aberta deixa passar os sons de uma música longínqua a falar que “felicidade é como a pluma/ que o vento vai levando pelo ar./ Voa tão leve/ mas tem a vida breve./ Precisa que haja vento sem parar.”

Deixo teclado, tela, computador e crônica em suas possibilidades e concretude. Vou até a janela reverenciar este breve momento de felicidade.

Foto por Alessio Cesario em Pexels.com

Seis meses e meio propósito

Marta Morais da Costa

Resolvo que vou resolver tudo o que está em atraso. Daí resolvo que as resoluções são complicadas, porque nem tudo dá pra fazer à distância. E deixo pra depois das quarenta semanas.

Resolvo que vou limpar novamente a casa, aquela geral que antes a gente só fazia no Natal ou na véspera do aniversário. Daí resolvo que estou mais é com vontade de ver um filme, mesmo que seja classe B.

Resolvo que vou fazer dieta porque nem as roupas do tempo em que bati recordes na balança conseguem fechar zíperes, colocar botões nas casas correspondentes, enfeitar-se com cintos sem precisar novos furos. Daí resolvo ir pra cozinha fazer aquela moqueca caprichada, camarões saltando da panela e das moquequeiras por falta de espaço; molho em cascata dendezeira a inundar os pratos e aquela porção de farinha que só os antigos moinhos ainda produzem.

Resolvo que vou escrever pros manos que andam recolhidos e preocupados com filhos e netos, como eu e como a maioria das mulheres que levam a sério a maternidade e a netoposteridade. Daí resolvo que mandar uma mensagem de voz pelo whats é suficiente.

Resolvo que vou entrar no face pra saber dos amigos, mandar mensagens e responder a todas as postagens. Daí resolvo que ando meio cansada da publicidade que inunda a plataforma e que é melhor deixar quieto.

Foto por Eternal Happiness em Pexels.com

Resolvo que vou começar a fazer uns exercícios de alongamento, tipo terceira (melhor, quarta) idade e preparo halteres com garrafas de água, elásticos, um cabo de vassoura, uma esteirinha chinfrim e boto aquele Adidas meio velhinho pra poder me esbaldar sem comprometer as costuras. E aquele tênis Reebok crossfit abandonado. Daí resolvo que sem personal não dá pé, nunca vai dar. E depois até o ar anda rarefeito; com certeza terei tonturas.

Resolvo que vou ler aquele volume do Philippe Ariès, “O homem diante da morte”, de 837 páginas que me fita descaradamente lá da estante, me desafiando e me chamando de covarde porque não quero enfrentar o tema (ou como diriam os jornalistas e comunicadores que tratam a língua portuguesa a chicote: “enfrentar de frente o tema”). Sem querer dar o braço, o pé e a cabeça a torcer, reconhecendo um pouco de verdade no desafio, resolvo que primeiro preciso ler aquele volumezinho do Robert Musil, “Sobre a estupidez”, de 62 páginas, porque irá me permitir entender melhor o Brasil neste excepcional momento histórico. Planejo ler Ariès depois da vacina…

Resolvo que é melhor seguir Voltaire e Luciene e “cuidar de meu jardim”. Programo o passo a passo de minha ação: podo, planto, mudo, adubo, contrabandeio a água racionada, pinto os vasos e reforço a composteira. Daí resolvo que é melhor deixar por conta do jardineiro. Afinal, de meus avós e bisavós lavradores herdei um nome honrado e o desejo de me mudar para a cidade grande.

Resolvo que vou dar um rolê com meu carrinho que precisa esquentar o motor, movimentar a gasolina do tanque, por a bateria pra funcionar, aquecer os pneus e tomar um banho de sol. Irei só até o limite de meu bairro, entro no retorno e volto pra casa. E se o corona estiver me esperando na esquina? E o tal de por a máscara, tirar os sapatos ao voltar, lavar pela duocentésima vez diária as mãos com aquele sabão mal cheiroso? Daí resolvo que não terei tempo, porque ainda não li os dois jornais diários e aqueles sites especiais de cultura e me sentirei desatualizada. Provavelmente o remorso não me deixará dormir à noite.

Resolvo que depois de seis meses reclusa, qualquer resolução perdeu o sentido. A vontade e o pensamento tornaram-se prisioneiros da sobrevivência. Sem resiliência, sinto-me um legume (sem querer ofender os vegetarianos). Sem desejo de aventuras, sinto-me um cão treinado (sem ofensa aos amigos dos pétis). Sem horizontes e sem poder gritar meu horror e minha discordância, sinto que a cidadania morre um pouco a cada dia.

Nem sei se a escrita ainda pode me socorrer.

Consultório editorial

Para Júlio,

Célia Cris e

Cristiane,

editores, por ordem de entrada em meu afeto.

Marta Morais da Costa

Minha mesa de trabalho é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Papéis de todos os formatos, em blocos ou avulsos. Textos fotocopiados e encadernados com capas de muitas cores, espirais, grampos e prendedores em busca de publicação.  Livros impressos – alguns bem mal impressos – de diferentes espessuras, de formatos os mais estapafúrdios – muito grandes, diminutos, redondos, com ou sem vazados, em tecido e plástico ansiando por reedição. Dentro deles, ilustrações que vão do desenho medíocre ao regular, do figurativo ao geométrico, da escola de Da Vinci à de Romero Brito, de Janjão das Contas  a Mariazinha de Belém. Enfim, a mixórdia habitual da mesa de um editor de literatura para crianças.

Esqueci de incluir nessa mesa a pasta de correspondências. Cartas em papel, algumas até manuscritas! Nela, também a imensa variedade das escolhas humanas. Cores diferentes, tintas e fontes diversas, com ou sem logos, monogramas, stickers, adesivos, etiquetas, ilustrações e cartões de visita… Uma delas trouxe a foto do remetente; outra, uma flor seca colada em papel perfumado.

Enfim, minha mesa é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Não pelo contém, mas pelo que o material me obriga a fazer: destruir, ignorar, renegar, recusar, mandar procurar outra turma. Os raros sins implicam ainda muito trabalho: sugestão de correções, alterações, novos títulos, cortes na abundância de adjetivos, na sobra de preposições, na obesidade dos verbos. E a pontuação! É tanto erro que repasso a tarefa ao revisor, porque é paciente, minucioso e calado.

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Eu poderia responder às cartas que me pedem edição de originais com respostas-padrão. “Lamento, mas nosso catálogo está completo para este ano.” “Lamento, mas seu original não atende a linha editorial.” “Lamento que, apesar da qualidade de seu material, não temos interesse em publicá-lo.” E assim por diante.

Poderia fazer assim. O capeta, porém, mora em mim. Respondo individualmente e em consonância com as mensagens enviadas. E não dou ponto sem nó. Explico-me melhor. Suponhamos que recebo um original, cujo autor me escreve um pedido nos seguintes termos:

“Senhor Editor”, (muitas cartas começam assim, no masculino predominante e em maiúsculas para afirmar minha autoridade e meu poder, penso eu) em anexo envio um original de minha autoria, dirigido ao público infantil. Sei que sua renomada editora… (“renomada” faz parte do puxa-saquismo nacional!)… busca novos autores e, por isso, tomei a liberdade de enviar-lhe meu original. É uma história de amizade, fraternidade, solidariedade e devotamento… (ufa, ainda bem que me poupou de mais um –ade!)…entre dois animais: um urso e uma arara…(ops, se encontraram onde? Em um zoológico multiambiental , tipo do gelo aos trópicos?) … que representam um adulto e uma criança,… (É evidente que o urso não é quem representa a criança!) …capazes de interagir e se compreender, anunciando no final feliz a possibilidade de um futuro melhor para a humanidade!!!(devo comentar na resposta esta  missão impossível? ainda mais com três exclamações?) Aguardo uma resposta afirmativa e…(por que os autores veem o mundo editorial como a Grande Mãe ou o Asilo dos Escritores?) Desejo-lhe uma boa leitura. (Meu Hades, já prevejo o que ela imagina ser uma boa leitura!). Atenciosamente, Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, a Esperançosa. (corações, beijinhos e flores de gosto duvidoso em stickers…).

Resposta do editor (no caso, eu, mulher):

Prezada senhora Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, (a ironia do adjetivo serve como anestesia para a cirúrgica amputação que segue) em resposta à sua elegante cartinha (mais hipocrisia) comunico-lhe que o mundo cor-de-rosa de seu urso e de sua arara não tem igual no Universo. Ocorre que esta editora tem uma linha de publicações que considera os leitores-crianças seres inteligentes e não criaturas dóceis que engolem qualquer historinha insossa e previsível, como a sua.

Cordialmente, (mais hipocrisia)

Mariana Morais Miranda Guerra.

Aqui, da mesa do Ão, em 18 de abril de 2018.

Admito que minha editora tem um catálogo reduzido. O trabalho, porém, jorra inesgotável de minha mesa. Estes olhos míopes tendem a fechar-se na altura do primeiro terço dos originais. Aos poucos, surge um sufocante nó na garganta.  É sinal inequívoco para interromper a leitura, porque os neurônios se movem adoidados, sem rumo e em revolta. Meus Campos Elíseos! Por que autores de livros para crianças se parecem a Torquemadas, prontos a jogar em fogueiras os indefesos pequenos leitores pelo crime de quererem arte  e não sermões? Literatura e não exercícios narrativos autoritários, recobertos pelo mel das boas intenções? Se as crianças que esses escritores concebem são o futuro deste país, pobre Brasil!

No entanto, como boa capeta, sou uma editora de princípios. Somente entra no catálogo o texto que ocupar um espaço de provocação. Não sou de Guerra à toa. Não me dobro a mistificações ocultas sob o manto subversivo da literatura. Uau, esta frase ficou retumbante! Vai para a legenda abaixo do logotipo da editora. Acompanhada de uma vibrante chama vermelha. Ops, estereótipo não!

Uma ideia melhor clareia meu propósito. Na logo, colocarei a imagem estilizada de minha mesa editorial e um lema em latim caprichado para criar uma aura de distinção: Ipsa littera potestas est. (Por sugestão do revisor de texto paciente, minucioso e quase calado, esclareço que o lema quer dizer: A letra é poder.). Ficou meio sem graça, não é? Acho melhor não traduzir. Assim não trairei a aura da erudição. Ocultarei este parágrafo do revisor de texto paciente, minucioso e crítico.

Desperto da derrapagem.

Num canto da estante, poucos originais à espera de uma segunda leitura. Ao lado da mesa, uma fragmentadora de papeis.

Adendo 1: Este texto foi publicado no site da Editora Olho de Vidro em 16 de março de 2018. Eu o retomei, fiz algumas alterações e o republico porque gosto muito dele. Espero que meus poucos leitores não me abandonem de vez em razão de eu estar me repetindo, fazendo replay de mim, incapaz de escrever algo original. Tenho que reconhecer que talvez estejam certos.

Adendo 2: Por indicação do Marcelo del’Agnol, esta curta crônica me levou ao livro “A arte de recusar um original”, de Camilien Roy, que gostei demais de ler e com o qual me diverti muito. Nele aprendi novas técnicas de dizer “não” a qualquer escritor. Já estou preparada para criar uma editora, já que o trabalho de escritora fracassou ao me levar a redundâncias e autoplágios.

A solidão da mais alta prateleira

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Marta Morais da Costa

Em obra sobre livros e bibliotecas, encontrei uma poética imagem de Lorde Macaulay sobre o sentido atribuído ao estado e à posição de certos livros na estante: “a poeira e o silêncio da mais alta prateleira”. Pensando em paredes cobertas de volumes, algumas somente alcançáveis por banquetas ou escadas, e refletindo sobre os valores que nos levam a organizar e dispor os livros num lugar determinado, escolhendo para eles tal ou qual companhia na estante, percebo o quanto de nossas transformações ao longo da vida se refletem nas bibliotecas que temos ante os olhos. Como os organizamos? Por assunto, época histórica, cor, ordem alfabética, gênero, coleção, tamanho, importância afetiva? Ou mais excentricamente ao sabor do acaso e do tempo em que foram lidos?

Quero convidar o leitor a pensar no exílio a que destinamos os livros de nosso acervo bibliográfico ao colocá-los nos lugares mais inacessíveis aos olhos e às mãos. Não penso num acervo extraordinário, como o de José Mindlin, nem numeroso como o das bibliotecas universitárias ou públicas. Basta pensar o que nos leva, diante da necessidade de escolher entre os livros que ficarão em fácil acesso e aqueles que ocultamos do olhar em prateleiras mais altas, ou em caixas depositadas em sótãos, ou em depósitos pouco frequentados da casa.

Que livros escolhemos para deixar ao alcance imediato da mão e à localização rápida do olhar? Por que relegamos aos cantos de prateleiras ou aos lugares de mais difícil acesso este ou aquele volume? Que critérios definem a visibilidade e a possível leitura, ou releitura, de um livro?

Começo uma possível justificativa pela suposição de que se encontram acessíveis os livros mais usados e/ou os mais amados. Utilidade e amor não estão necessariamente relacionados. No magistério, talvez eles vivam uma relação de constante confronto. Não uso em minhas aulas os textos de que mais gosto ou, em situação mais dramática, os livros que mais uso não são os de que mais gosto. Na primeira situação, vigora a censura de toda ordem (ideológica, moral, pedagógica, estilística). Na segunda, o conflito e o contraste: entre o que ensino e o que me interessa ler há um inescapável e definitivo divórcio. O perfeito casamento da utilidade com o gosto e o amor depende de tantas variáveis quanto em qualquer relacionamento entre seres humanos. Afinal, o livro também pode ser considerado, em metáforas humanizadas, o amigo, o companheiro, o confidente, o vilão, o inimigo…

Além da incompatibilidade, relegamos para a prateleira mais elevada os livros que, um dia, estiveram ao alcance da mão simplesmente porque hoje somos leitores diferentes. Ou aqueles que foram um erro de aquisição, mas dos quais não nos apartamos mesmo assim. Ou aqueles com os quais nos presentearam em absoluto desacordo com o que pensamos ou queremos ler, mas nos lembram pessoas ligadas indissoluvelmente à nossa história. Ou aqueles que em sua forma menos amorosa já lemos, mas sobre os quais não prevemos a mais remota possibilidade de nova leitura. Livros que deixaram seu silêncio original, passaram pelo processo de leitura e voltaram a um silêncio diferente, o do abandono. E ficaram a acumular a poeira do esquecimento e da solidão. Papel encadernado e desenhado, agora inútil e desdenhado.

Gostaria de imaginar para esses livros uma leve esperança: a de que eles tenham sido colocados no espaço menos acessível porque a utilização e a leitura, embora remotas, não são inexistentes. Livros que ficam à espera de um tempo de leitura mais propício, que tiveram de ser alçados à última prateleira porque alguns ali precisam estar, em razão de que os outros espaços foram todos sendo preenchidos e que, afastada a intenção do descarte, o leitor saberá como os atingir e ler no momento em que o desejar, bastando para tanto uma banqueta ou os degraus de uma escada. Caixas e estantes pouco iluminadas e esquecidas, que a necessidade de redescoberta do passado pode trazer novamente à luz, como a maravilhosa aventura leitora do protagonista Yambo de A misteriosa chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, que, tendo perdido parte de sua memória, recupera-a paulatinamente ao redescobrir o acervo de materiais de leitura esquecidos em sua antiga residência. Quais leitores já viveram a emoção de ter novamente nas mãos o volume que marcou a infância, a adolescência, que trouxe um momento de transformação pessoal no passado? Esse novo nascimento do livro, que incendiou a escuridão da memória da leitura antiga, estará em algum momento vinculado ao movimento das mãos e dos olhos a limparem a poeira e ao fazerem falar o livro guardado, até aquele momento silencioso.

“A poeira e o silêncio da mais alta prateleira” não serão assim, sinais de abandono, mas de esperança de um dia essas páginas alçarem voo das alturas e, como Ícaros menos trágicos, virem a cair em mãos e mente de um leitor transformado pelo tempo. Então abrirão como asas para a jornada do conhecimento e do prazer, e, talvez, da memória até aquele momento adormecida.

A ÁGUA É O MATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Dedico a Guilherme, meu neto,

 e Eliana Yunes, amiga de muitas águas,

aniversariantes.

Marta Morais da Costa

O título acima não é um erro gramatical ou de digitação. Não o inventei. Ganhei de presente de um colega, entre risos e pensamentos até inconfessáveis, em uma sessão de julgamento de redações há algum tempo atrás. Um (ou uma?) jovem vestibulando (a) usou a comparação para argumentar a respeito dos cuidados que devemos ter com a água, que esbanjamos como se fosse eterna.

Vivemos tempos de restrições e de seca, seja de movimento por causa do coronavírus, seja de racionamento de água. E desejar o paraíso de poder correr de um lado a outro, livres, ou de imaginar  a água a fluir em espaços domésticos e na natureza é parte de nossa utopia neste 2020 aziago.

O que passou pela mente jovem e entusiasta ao associar o termo usual (patrimônio) e a descoberta da concordância, segundo seu entender, indispensável entre o sujeito da frase e seu predicativo? A água é patrimônio soa desconforme. Patri- é herdeiro de pater, pai, masculino, impeditivo, normativo, obstaculoso e obstaculador. A água fluida é mais o sentimento feminino, a adaptabilidade, a fonte e a origem. Ao mesmo tempo, é conjugação de componentes: H2O é fórmula geminada, dupla, conjugada.  Combina  melhor com matrimônio.

Lembro versos de Drummond em Menino antigo:

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.

Com ela, sim, me entendo bem melhor:

Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Lembro também Adélia Prado e sua conclusão imperiosa de que “Mulher é desdobrável”. Revejo na memória de leitura todos os poetas da água, desde o Amazonas caudal e misterioso de Cobra Norato, de Raul Bopp, à água que banha Manaus dos romances de Hatoum, as águas profundas e simbólicas de Grande sertão: veredas e a viagem pantaneira de Manoel de Barros, bem como as águas sulinas de Breviário das terras do Brasil, de Luiz Antônio de Assis Brasil e Os rios inumeráveis, de Álvaro Cardoso Gomes. Todos esses (e muitos mais) caminhos de água doce por onde viajam e cruzam as embarcações que carregam origens e brasileiros de todos os tempos.

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A mãe e as águas. A mãe das águas: Iara, a que deseja, atrai e mata. A mulher matrimônio.

São tempos de queimadas e de assassinato da natureza neste Brasil de meu Deus, que costumava ser dadivoso e compartilhável, e que se transforma dia a dia, por incúria e ganância, no deserto de “tenebrosas transações”, como Chico Buarque advertiu.

Voltando à descoberta juvenil, pode ser que a receosa e tensa candidata (imagine aqui, leitor, também as formas masculinas) a uma vaga na universidade não tenha feito nenhuma dessas associações. Mas esta leitora que aqui escreve, sim. A analogia tomada por outros colegas leitores enquanto erro ou manifestação de incapacidade linguística, pôde provocar em mim outra interpretação. E indagações.

A mãe-matrimônio da humanidade também pode ser considerada a linguagem verbal, oral ou escrita, pois permite ao leitor fecundado criar, por sua vez, e disseminar sentidos, valores, belezas, enganos, ilusões…

O livro-útero, cuja água placentária envolve o leitor e na qual ele experimenta e aprende a reconhecer a autoimagem (borrada, deformada, cruel ou prazerosa) em vivência solitária num primeiro momento.

Que mistérios e belezas esconde a língua nesses encontros inesperados? O quanto pode criar o leitor a partir de textos sem intenção estética? Freud acena com os achados dos lapsos inconscientes e o leitor deleita-se com a busca dos processos analógicos e das razões (conscientes) que originaram as imagens reveladoras.

O leitor, essa figura metamórfica e plural, arredia, desconfiada ou apaixonada – e entregue -, mas sempre em busca de uma parcela de identidade em cada livro lido. Identidade que foge, como correm as águas dos rios.

Em O último leitor, o ficcionista e professor argentino Ricardo Piglia escreveu estudos sobre autores (Borges, Kafka, Tolstoi e Joyce) além de estudos sobre leitores. O prólogo trata de um fotógrafo, que “diz que se chama” Russell. Ele constrói uma maquete, antes uma “máquina sinóptica” da cidade de Buenos Aires, fruto de sua interpretação da cidade “que era mais real do que a realidade, mais indefinido e mais puro”. Piglia, citando Pound, reafirma que “a leitura é uma arte da réplica”. A tentativa de compreender e o fascínio pelo que se consegue apreender do que se lê, tornam a nós, leitores, seres replicantes.

Esta crônica tem a ver com o desejo de replicação, maternidade torta em busca de continuidade, enraizada na frase desajeitada do tenso e esperançoso vestibulando (leia-se aqui sua versão feminina também) e no entusiasmo pelo texto denso de Piglia, a procriar sentidos em mim.