Seis meses e meio propósito

Marta Morais da Costa

Resolvo que vou resolver tudo o que está em atraso. Daí resolvo que as resoluções são complicadas, porque nem tudo dá pra fazer à distância. E deixo pra depois das quarenta semanas.

Resolvo que vou limpar novamente a casa, aquela geral que antes a gente só fazia no Natal ou na véspera do aniversário. Daí resolvo que estou mais é com vontade de ver um filme, mesmo que seja classe B.

Resolvo que vou fazer dieta porque nem as roupas do tempo em que bati recordes na balança conseguem fechar zíperes, colocar botões nas casas correspondentes, enfeitar-se com cintos sem precisar novos furos. Daí resolvo ir pra cozinha fazer aquela moqueca caprichada, camarões saltando da panela e das moquequeiras por falta de espaço; molho em cascata dendezeira a inundar os pratos e aquela porção de farinha que só os antigos moinhos ainda produzem.

Resolvo que vou escrever pros manos que andam recolhidos e preocupados com filhos e netos, como eu e como a maioria das mulheres que levam a sério a maternidade e a netoposteridade. Daí resolvo que mandar uma mensagem de voz pelo whats é suficiente.

Resolvo que vou entrar no face pra saber dos amigos, mandar mensagens e responder a todas as postagens. Daí resolvo que ando meio cansada da publicidade que inunda a plataforma e que é melhor deixar quieto.

Foto por Eternal Happiness em Pexels.com

Resolvo que vou começar a fazer uns exercícios de alongamento, tipo terceira (melhor, quarta) idade e preparo halteres com garrafas de água, elásticos, um cabo de vassoura, uma esteirinha chinfrim e boto aquele Adidas meio velhinho pra poder me esbaldar sem comprometer as costuras. E aquele tênis Reebok crossfit abandonado. Daí resolvo que sem personal não dá pé, nunca vai dar. E depois até o ar anda rarefeito; com certeza terei tonturas.

Resolvo que vou ler aquele volume do Philippe Ariès, “O homem diante da morte”, de 837 páginas que me fita descaradamente lá da estante, me desafiando e me chamando de covarde porque não quero enfrentar o tema (ou como diriam os jornalistas e comunicadores que tratam a língua portuguesa a chicote: “enfrentar de frente o tema”). Sem querer dar o braço, o pé e a cabeça a torcer, reconhecendo um pouco de verdade no desafio, resolvo que primeiro preciso ler aquele volumezinho do Robert Musil, “Sobre a estupidez”, de 62 páginas, porque irá me permitir entender melhor o Brasil neste excepcional momento histórico. Planejo ler Ariès depois da vacina…

Resolvo que é melhor seguir Voltaire e Luciene e “cuidar de meu jardim”. Programo o passo a passo de minha ação: podo, planto, mudo, adubo, contrabandeio a água racionada, pinto os vasos e reforço a composteira. Daí resolvo que é melhor deixar por conta do jardineiro. Afinal, de meus avós e bisavós lavradores herdei um nome honrado e o desejo de me mudar para a cidade grande.

Resolvo que vou dar um rolê com meu carrinho que precisa esquentar o motor, movimentar a gasolina do tanque, por a bateria pra funcionar, aquecer os pneus e tomar um banho de sol. Irei só até o limite de meu bairro, entro no retorno e volto pra casa. E se o corona estiver me esperando na esquina? E o tal de por a máscara, tirar os sapatos ao voltar, lavar pela duocentésima vez diária as mãos com aquele sabão mal cheiroso? Daí resolvo que não terei tempo, porque ainda não li os dois jornais diários e aqueles sites especiais de cultura e me sentirei desatualizada. Provavelmente o remorso não me deixará dormir à noite.

Resolvo que depois de seis meses reclusa, qualquer resolução perdeu o sentido. A vontade e o pensamento tornaram-se prisioneiros da sobrevivência. Sem resiliência, sinto-me um legume (sem querer ofender os vegetarianos). Sem desejo de aventuras, sinto-me um cão treinado (sem ofensa aos amigos dos pétis). Sem horizontes e sem poder gritar meu horror e minha discordância, sinto que a cidadania morre um pouco a cada dia.

Nem sei se a escrita ainda pode me socorrer.

Consultório editorial

Para Júlio,

Célia Cris e

Cristiane,

editores, por ordem de entrada em meu afeto.

Marta Morais da Costa

Minha mesa de trabalho é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Papéis de todos os formatos, em blocos ou avulsos. Textos fotocopiados e encadernados com capas de muitas cores, espirais, grampos e prendedores em busca de publicação.  Livros impressos – alguns bem mal impressos – de diferentes espessuras, de formatos os mais estapafúrdios – muito grandes, diminutos, redondos, com ou sem vazados, em tecido e plástico ansiando por reedição. Dentro deles, ilustrações que vão do desenho medíocre ao regular, do figurativo ao geométrico, da escola de Da Vinci à de Romero Brito, de Janjão das Contas  a Mariazinha de Belém. Enfim, a mixórdia habitual da mesa de um editor de literatura para crianças.

Esqueci de incluir nessa mesa a pasta de correspondências. Cartas em papel, algumas até manuscritas! Nela, também a imensa variedade das escolhas humanas. Cores diferentes, tintas e fontes diversas, com ou sem logos, monogramas, stickers, adesivos, etiquetas, ilustrações e cartões de visita… Uma delas trouxe a foto do remetente; outra, uma flor seca colada em papel perfumado.

Enfim, minha mesa é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Não pelo contém, mas pelo que o material me obriga a fazer: destruir, ignorar, renegar, recusar, mandar procurar outra turma. Os raros sins implicam ainda muito trabalho: sugestão de correções, alterações, novos títulos, cortes na abundância de adjetivos, na sobra de preposições, na obesidade dos verbos. E a pontuação! É tanto erro que repasso a tarefa ao revisor, porque é paciente, minucioso e calado.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Eu poderia responder às cartas que me pedem edição de originais com respostas-padrão. “Lamento, mas nosso catálogo está completo para este ano.” “Lamento, mas seu original não atende a linha editorial.” “Lamento que, apesar da qualidade de seu material, não temos interesse em publicá-lo.” E assim por diante.

Poderia fazer assim. O capeta, porém, mora em mim. Respondo individualmente e em consonância com as mensagens enviadas. E não dou ponto sem nó. Explico-me melhor. Suponhamos que recebo um original, cujo autor me escreve um pedido nos seguintes termos:

“Senhor Editor”, (muitas cartas começam assim, no masculino predominante e em maiúsculas para afirmar minha autoridade e meu poder, penso eu) em anexo envio um original de minha autoria, dirigido ao público infantil. Sei que sua renomada editora… (“renomada” faz parte do puxa-saquismo nacional!)… busca novos autores e, por isso, tomei a liberdade de enviar-lhe meu original. É uma história de amizade, fraternidade, solidariedade e devotamento… (ufa, ainda bem que me poupou de mais um –ade!)…entre dois animais: um urso e uma arara…(ops, se encontraram onde? Em um zoológico multiambiental , tipo do gelo aos trópicos?) … que representam um adulto e uma criança,… (É evidente que o urso não é quem representa a criança!) …capazes de interagir e se compreender, anunciando no final feliz a possibilidade de um futuro melhor para a humanidade!!!(devo comentar na resposta esta  missão impossível? ainda mais com três exclamações?) Aguardo uma resposta afirmativa e…(por que os autores veem o mundo editorial como a Grande Mãe ou o Asilo dos Escritores?) Desejo-lhe uma boa leitura. (Meu Hades, já prevejo o que ela imagina ser uma boa leitura!). Atenciosamente, Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, a Esperançosa. (corações, beijinhos e flores de gosto duvidoso em stickers…).

Resposta do editor (no caso, eu, mulher):

Prezada senhora Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, (a ironia do adjetivo serve como anestesia para a cirúrgica amputação que segue) em resposta à sua elegante cartinha (mais hipocrisia) comunico-lhe que o mundo cor-de-rosa de seu urso e de sua arara não tem igual no Universo. Ocorre que esta editora tem uma linha de publicações que considera os leitores-crianças seres inteligentes e não criaturas dóceis que engolem qualquer historinha insossa e previsível, como a sua.

Cordialmente, (mais hipocrisia)

Mariana Morais Miranda Guerra.

Aqui, da mesa do Ão, em 18 de abril de 2018.

Admito que minha editora tem um catálogo reduzido. O trabalho, porém, jorra inesgotável de minha mesa. Estes olhos míopes tendem a fechar-se na altura do primeiro terço dos originais. Aos poucos, surge um sufocante nó na garganta.  É sinal inequívoco para interromper a leitura, porque os neurônios se movem adoidados, sem rumo e em revolta. Meus Campos Elíseos! Por que autores de livros para crianças se parecem a Torquemadas, prontos a jogar em fogueiras os indefesos pequenos leitores pelo crime de quererem arte  e não sermões? Literatura e não exercícios narrativos autoritários, recobertos pelo mel das boas intenções? Se as crianças que esses escritores concebem são o futuro deste país, pobre Brasil!

No entanto, como boa capeta, sou uma editora de princípios. Somente entra no catálogo o texto que ocupar um espaço de provocação. Não sou de Guerra à toa. Não me dobro a mistificações ocultas sob o manto subversivo da literatura. Uau, esta frase ficou retumbante! Vai para a legenda abaixo do logotipo da editora. Acompanhada de uma vibrante chama vermelha. Ops, estereótipo não!

Uma ideia melhor clareia meu propósito. Na logo, colocarei a imagem estilizada de minha mesa editorial e um lema em latim caprichado para criar uma aura de distinção: Ipsa littera potestas est. (Por sugestão do revisor de texto paciente, minucioso e quase calado, esclareço que o lema quer dizer: A letra é poder.). Ficou meio sem graça, não é? Acho melhor não traduzir. Assim não trairei a aura da erudição. Ocultarei este parágrafo do revisor de texto paciente, minucioso e crítico.

Desperto da derrapagem.

Num canto da estante, poucos originais à espera de uma segunda leitura. Ao lado da mesa, uma fragmentadora de papeis.

Adendo 1: Este texto foi publicado no site da Editora Olho de Vidro em 16 de março de 2018. Eu o retomei, fiz algumas alterações e o republico porque gosto muito dele. Espero que meus poucos leitores não me abandonem de vez em razão de eu estar me repetindo, fazendo replay de mim, incapaz de escrever algo original. Tenho que reconhecer que talvez estejam certos.

Adendo 2: Por indicação do Marcelo del’Agnol, esta curta crônica me levou ao livro “A arte de recusar um original”, de Camilien Roy, que gostei demais de ler e com o qual me diverti muito. Nele aprendi novas técnicas de dizer “não” a qualquer escritor. Já estou preparada para criar uma editora, já que o trabalho de escritora fracassou ao me levar a redundâncias e autoplágios.

A solidão da mais alta prateleira

Foto por Film Bros em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Em obra sobre livros e bibliotecas, encontrei uma poética imagem de Lorde Macaulay sobre o sentido atribuído ao estado e à posição de certos livros na estante: “a poeira e o silêncio da mais alta prateleira”. Pensando em paredes cobertas de volumes, algumas somente alcançáveis por banquetas ou escadas, e refletindo sobre os valores que nos levam a organizar e dispor os livros num lugar determinado, escolhendo para eles tal ou qual companhia na estante, percebo o quanto de nossas transformações ao longo da vida se refletem nas bibliotecas que temos ante os olhos. Como os organizamos? Por assunto, época histórica, cor, ordem alfabética, gênero, coleção, tamanho, importância afetiva? Ou mais excentricamente ao sabor do acaso e do tempo em que foram lidos?

Quero convidar o leitor a pensar no exílio a que destinamos os livros de nosso acervo bibliográfico ao colocá-los nos lugares mais inacessíveis aos olhos e às mãos. Não penso num acervo extraordinário, como o de José Mindlin, nem numeroso como o das bibliotecas universitárias ou públicas. Basta pensar o que nos leva, diante da necessidade de escolher entre os livros que ficarão em fácil acesso e aqueles que ocultamos do olhar em prateleiras mais altas, ou em caixas depositadas em sótãos, ou em depósitos pouco frequentados da casa.

Que livros escolhemos para deixar ao alcance imediato da mão e à localização rápida do olhar? Por que relegamos aos cantos de prateleiras ou aos lugares de mais difícil acesso este ou aquele volume? Que critérios definem a visibilidade e a possível leitura, ou releitura, de um livro?

Começo uma possível justificativa pela suposição de que se encontram acessíveis os livros mais usados e/ou os mais amados. Utilidade e amor não estão necessariamente relacionados. No magistério, talvez eles vivam uma relação de constante confronto. Não uso em minhas aulas os textos de que mais gosto ou, em situação mais dramática, os livros que mais uso não são os de que mais gosto. Na primeira situação, vigora a censura de toda ordem (ideológica, moral, pedagógica, estilística). Na segunda, o conflito e o contraste: entre o que ensino e o que me interessa ler há um inescapável e definitivo divórcio. O perfeito casamento da utilidade com o gosto e o amor depende de tantas variáveis quanto em qualquer relacionamento entre seres humanos. Afinal, o livro também pode ser considerado, em metáforas humanizadas, o amigo, o companheiro, o confidente, o vilão, o inimigo…

Além da incompatibilidade, relegamos para a prateleira mais elevada os livros que, um dia, estiveram ao alcance da mão simplesmente porque hoje somos leitores diferentes. Ou aqueles que foram um erro de aquisição, mas dos quais não nos apartamos mesmo assim. Ou aqueles com os quais nos presentearam em absoluto desacordo com o que pensamos ou queremos ler, mas nos lembram pessoas ligadas indissoluvelmente à nossa história. Ou aqueles que em sua forma menos amorosa já lemos, mas sobre os quais não prevemos a mais remota possibilidade de nova leitura. Livros que deixaram seu silêncio original, passaram pelo processo de leitura e voltaram a um silêncio diferente, o do abandono. E ficaram a acumular a poeira do esquecimento e da solidão. Papel encadernado e desenhado, agora inútil e desdenhado.

Gostaria de imaginar para esses livros uma leve esperança: a de que eles tenham sido colocados no espaço menos acessível porque a utilização e a leitura, embora remotas, não são inexistentes. Livros que ficam à espera de um tempo de leitura mais propício, que tiveram de ser alçados à última prateleira porque alguns ali precisam estar, em razão de que os outros espaços foram todos sendo preenchidos e que, afastada a intenção do descarte, o leitor saberá como os atingir e ler no momento em que o desejar, bastando para tanto uma banqueta ou os degraus de uma escada. Caixas e estantes pouco iluminadas e esquecidas, que a necessidade de redescoberta do passado pode trazer novamente à luz, como a maravilhosa aventura leitora do protagonista Yambo de A misteriosa chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, que, tendo perdido parte de sua memória, recupera-a paulatinamente ao redescobrir o acervo de materiais de leitura esquecidos em sua antiga residência. Quais leitores já viveram a emoção de ter novamente nas mãos o volume que marcou a infância, a adolescência, que trouxe um momento de transformação pessoal no passado? Esse novo nascimento do livro, que incendiou a escuridão da memória da leitura antiga, estará em algum momento vinculado ao movimento das mãos e dos olhos a limparem a poeira e ao fazerem falar o livro guardado, até aquele momento silencioso.

“A poeira e o silêncio da mais alta prateleira” não serão assim, sinais de abandono, mas de esperança de um dia essas páginas alçarem voo das alturas e, como Ícaros menos trágicos, virem a cair em mãos e mente de um leitor transformado pelo tempo. Então abrirão como asas para a jornada do conhecimento e do prazer, e, talvez, da memória até aquele momento adormecida.

A ÁGUA É O MATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Dedico a Guilherme, meu neto,

 e Eliana Yunes, amiga de muitas águas,

aniversariantes.

Marta Morais da Costa

O título acima não é um erro gramatical ou de digitação. Não o inventei. Ganhei de presente de um colega, entre risos e pensamentos até inconfessáveis, em uma sessão de julgamento de redações há algum tempo atrás. Um (ou uma?) jovem vestibulando (a) usou a comparação para argumentar a respeito dos cuidados que devemos ter com a água, que esbanjamos como se fosse eterna.

Vivemos tempos de restrições e de seca, seja de movimento por causa do coronavírus, seja de racionamento de água. E desejar o paraíso de poder correr de um lado a outro, livres, ou de imaginar  a água a fluir em espaços domésticos e na natureza é parte de nossa utopia neste 2020 aziago.

O que passou pela mente jovem e entusiasta ao associar o termo usual (patrimônio) e a descoberta da concordância, segundo seu entender, indispensável entre o sujeito da frase e seu predicativo? A água é patrimônio soa desconforme. Patri- é herdeiro de pater, pai, masculino, impeditivo, normativo, obstaculoso e obstaculador. A água fluida é mais o sentimento feminino, a adaptabilidade, a fonte e a origem. Ao mesmo tempo, é conjugação de componentes: H2O é fórmula geminada, dupla, conjugada.  Combina  melhor com matrimônio.

Lembro versos de Drummond em Menino antigo:

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.

Com ela, sim, me entendo bem melhor:

Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Lembro também Adélia Prado e sua conclusão imperiosa de que “Mulher é desdobrável”. Revejo na memória de leitura todos os poetas da água, desde o Amazonas caudal e misterioso de Cobra Norato, de Raul Bopp, à água que banha Manaus dos romances de Hatoum, as águas profundas e simbólicas de Grande sertão: veredas e a viagem pantaneira de Manoel de Barros, bem como as águas sulinas de Breviário das terras do Brasil, de Luiz Antônio de Assis Brasil e Os rios inumeráveis, de Álvaro Cardoso Gomes. Todos esses (e muitos mais) caminhos de água doce por onde viajam e cruzam as embarcações que carregam origens e brasileiros de todos os tempos.

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A mãe e as águas. A mãe das águas: Iara, a que deseja, atrai e mata. A mulher matrimônio.

São tempos de queimadas e de assassinato da natureza neste Brasil de meu Deus, que costumava ser dadivoso e compartilhável, e que se transforma dia a dia, por incúria e ganância, no deserto de “tenebrosas transações”, como Chico Buarque advertiu.

Voltando à descoberta juvenil, pode ser que a receosa e tensa candidata (imagine aqui, leitor, também as formas masculinas) a uma vaga na universidade não tenha feito nenhuma dessas associações. Mas esta leitora que aqui escreve, sim. A analogia tomada por outros colegas leitores enquanto erro ou manifestação de incapacidade linguística, pôde provocar em mim outra interpretação. E indagações.

A mãe-matrimônio da humanidade também pode ser considerada a linguagem verbal, oral ou escrita, pois permite ao leitor fecundado criar, por sua vez, e disseminar sentidos, valores, belezas, enganos, ilusões…

O livro-útero, cuja água placentária envolve o leitor e na qual ele experimenta e aprende a reconhecer a autoimagem (borrada, deformada, cruel ou prazerosa) em vivência solitária num primeiro momento.

Que mistérios e belezas esconde a língua nesses encontros inesperados? O quanto pode criar o leitor a partir de textos sem intenção estética? Freud acena com os achados dos lapsos inconscientes e o leitor deleita-se com a busca dos processos analógicos e das razões (conscientes) que originaram as imagens reveladoras.

O leitor, essa figura metamórfica e plural, arredia, desconfiada ou apaixonada – e entregue -, mas sempre em busca de uma parcela de identidade em cada livro lido. Identidade que foge, como correm as águas dos rios.

Em O último leitor, o ficcionista e professor argentino Ricardo Piglia escreveu estudos sobre autores (Borges, Kafka, Tolstoi e Joyce) além de estudos sobre leitores. O prólogo trata de um fotógrafo, que “diz que se chama” Russell. Ele constrói uma maquete, antes uma “máquina sinóptica” da cidade de Buenos Aires, fruto de sua interpretação da cidade “que era mais real do que a realidade, mais indefinido e mais puro”. Piglia, citando Pound, reafirma que “a leitura é uma arte da réplica”. A tentativa de compreender e o fascínio pelo que se consegue apreender do que se lê, tornam a nós, leitores, seres replicantes.

Esta crônica tem a ver com o desejo de replicação, maternidade torta em busca de continuidade, enraizada na frase desajeitada do tenso e esperançoso vestibulando (leia-se aqui sua versão feminina também) e no entusiasmo pelo texto denso de Piglia, a procriar sentidos em mim.

PAIS E PAÍS

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Olha, já estou roendo unha

A saudade é testemunha

Do que agora vou dizer

Quando na janela

Eu me debruço

O meu cantar é um soluço

A galopar no maçapê




(Roendo unha, de Luiz Gonzaga e Luiz Ramalho)

Sei que os números são criação humana e que o sistema decimal é uma convenção. Mas quando alguns algarismos se alinham com zeros à direita, como tudo ganha um formato diferente. Um sentido mais intenso. Uma noção de ciclo que finda ou que se inicia.

Assim foi com o ano 1000, assim vivemos em 2000, e agora sufocamos com 100.000.

Neste 9 de agosto, um Dia dos Pais à distância, seja por causa do confinamento com temores e esperanças, seja por causa do com fim dos que se foram sem a presença dos filhos que geraram, sem a presença da mulher com quem os gerou. Pais que deixam retratos, soluços e saudade.

Aos que estão ao alcance da voz, da imagem em telas, à espera da visita próxima no tempo e na distância, será um Dia dos Pais passível de adiamento, mas pleno das expectativas de abraços e beijos e olhos e carinhos logo ali adiante.

Dos que sumiram na aterradora dimensão da vida e que ultrapassaram o limite da existência ficou o perfume ácido da saudade, os rios sofridos que viajam  pela planície da ausência, a memória dolorida de momentos marcantes e de horas e dias fugazes, perdidos, não vividos em plenitude e agora desaparecidos para sempre.

É normal, previsto e fatal que um dia nos faltassem. Mas que tivessem o tempo de vida roubado e antecipado é imperdoável e incompreensível. Hoje mais do que nunca. Em especial quando o descaso de muitos, quando a prepotência de tantos, quando a insensibilidade de milhões conseguiram produzir uma chacina sem precedentes no Brasil.

Não há solidariedade, nem sacrifício de profissionais de saúde e nem equipamentos que estanquem a falta de ar, a falta de medicamentos, a falta de competência e falta de vergonha em quem poderia diminuir essa tragédia.

Um país que se esboroa, em frangalhos, poroso a todas as desumanidades e desumanização, fruto de pessoas que se dedicam de corpo e alma ao dinheiro e ao poder, crava dentes cada vez mais incisivos na carne de seus compatriotas, arrancando-lhes últimos suspiros a cada minuto do dia.

Pais, mães e filhos, em uma conta macabra, não cansam de preencher estatísticas, gráficos, murais de fotos e valas – milhares de valas – em todo o país.

Números redondos que possuem pontas afiadas a ferir de mortes simbólicas e afetivas a outros milhares de brasileiros.

Já existe quem diga que em três anos teremos esquecido a pandemia. Há quem diga que a vida normal deixará de existir. Há quem diga que nada se deve lamentar pois todos morreremos um dia, há quem diga que esses números são inflados por ideologia, há quem simplesmente diga se não for da minha família, tudo bem.

Na verdade, 100 000 brasileiros levaram com eles uma parte de nossa história coletiva, uma parte de nosso sentir solidário, uma parte da identidade deste país.

Deixaram para trás uma nova identidade que arreganha os dentes, que fuzila com o olhar e que distribui a mancheias doses letais de indiferença.

Pais ausentes que posam em retratos retorcidos de um pobre país.

 

Marta Morais da Costa

Estação Islândia

Marta Morais da Costa

Ontem, 15 de julho, completei sem comemoração, silenciosamente, quatro meses de confinamento por causa do coronavírus. Espero que não faltem 36 outros meses para completar uma quarentena mensal. Para tanto, conto com minha resistência física – a cada dia mais desistência. Conto muito mais com a capacidade científica de pesquisadores, laboratoristas, médicos e cientistas que irão criar a vacina mais aguardada deste século tão refratário a vacinas igualmente salvadoras.

Quando me encerrei com marido, livros e tecnologias e uma despensa razoavelmente bem servida, imaginava uma quarentena italiana ou britânica, sabendo que jamais seria uma temporada neozelandesa. O Brasil sempre foi para a maioria de seus habitantes um desapiedado lar de horrores e decepções. Não deu outra.

Quarenta dias + quarenta dias + quarenta dias +…

As fases desse luto pessoal e coletivo ganham contornos cada vez mais trágicos e depressivos. A esperança, qual chama de pobre vela de sebo, vai derretendo em cada notícia, em cada boletim, em cada gráfico de derrotas. Lançar-se à rua representa o mesmo risco de vida daqueles marinheiros audazes em caravelas de casca de noz, entregues aos bons e maus ventos atlânticos, tentando chegar ao eldorado, mesmo que ele fosse uma floresta de pau-brasil. Muitos saíam e poucos chegavam. Retornar não era preciso, navegar, sim.

Mas eu quero retornar, não ao que já fui, ou ao que imaginava ser meu futuro, ou ainda ao que sonhava ser o Brasil, ou ao tipo de felicidade que desejava à família e aos amigos. Quero retornar ao menos para minha casa sem a companhia de coroas, gripes mortais, sintomas de síndromes de qualquer espécie.

Quero retornar à contagem das quarentenas e dos ansiados festejos  quando elas chegarem ao fim. Simples assim. Pequeno assim. Individualista assim.

Quarenta dias + quarenta dias + quarenta dias + UM.

Eis que no dia de hoje, o noticiário jornalístico me brindou com uma fresta de sol, uma flor no asfalto, um pássaro no pântano. A notícia vinha de longe, de uma terra que na imaginação vejo povoada de duendes, fadas, animais mitológicos e seres humanos dotados de couraças resistentes a temperaturas glaciais e paisagens brancas.

A notícia vem da Islândia, terra que evoca em mim toda a magia do desconhecido e a admiração pelas diferenças culturais e históricas de um país marcado por auroras boreais e pessoas tão mágicas quanto a Rainha da Neve de minha infância.

Bem que na Copa do Mundo de Futebol de 2018 somou-se a essa imagem idílica que tenho da Islândia a realidade de uma seleção nacional aguerrida, desafiadora e identificada ao mais sonoro, potente e inusitado grito de torcedores. Era a “haka dos vikings”, um bater de palmas ritmadas e com os braços estendidos, sincronizado em uníssono, acompanhado de um emocionante e exótico “uh” profundo, cada vez mais rápido e cada vez mais envolvente.

Era uma Islândia diferente, atraente, inusitada.  Ganhava uma realidade menos mágica e mais humanamente empática. Agora, uma nova surpresa.

A Agência Nacional de Turismo da Islândia oferece um serviço de recebimento de gritos gravados a serem lançados ao ar em regiões remotas do país. Em tempos de pandemia é o reconhecimento da necessidade de expressar, isto é, de colocar para fora toda a força de nossa angústia, de nosso desconsolo, de nossa desesperança, de nossa dor. Tal como o grito primal, uma espécie de terapia que esteve em moda nos anos 1970, criado e defendido  pelo psicoterapeuta estadunidense Arthur Janov. Para quem curtia e curte o Beatles, ele influenciou o casalzinho icônico John e Yoko, que saiu gritando (nem tanto) os benefícios do grito primal para externar todo desequilíbrio humano. O sucesso na música se estendeu à também banda britânica, Primal Scream. Ah, esses britânicos… A Rainha Vitória foi vitoriosa até além-túmulo: tanta compostura e repressão deu no que deu!

Pegando um Ita no Atlântico Norte, saindo do porto dos duendes, e descendo cá para o abençoado país de palmeiras e sabiás, pinheiros e gralhas, estou pensando em gravar uns quarenta gritos diferentes, enviar pelas renas de São Nicolau lá para o país das neves e esperar que eles levem aos picos nevados e regiões desabitadas todo o temor, o desamparo, a angústia, os encontros perdidos, os braços estendidos sem abraços, a distância dolorida, as perdas cortantes e a consciência de viver em uma sociedade que arrisca vidas por um rolê no shopping.

Interjeicionista

Marta Morais da Costa

Na época em que se estudavam as classes gramaticais (eram assim tratadas em um tom de voz quase bíblico e em volume altissonante), coisa de substantivos adjetivos verbos preposições e quejandos, as interjeições ficavam sempre no final da fila.

Nos textos que líamos, com voz empostada e lentidão para evitar as armadilhas da pontuação, pois geralmente o fazíamos para que o professor avaliasse o grau de desenvolvimento da leitura – ai de nós!-  interjeições eram praticamente e inexistentes.

Ufa! Afinal textos sisudos se apoiam mais nas palavras substantivas (principalmente as abstratas, como amor, vingança, honra, patriotismo, amizade) e nos verbos, em especial no indicativo ou no imperativo afirmativo (hei, ainda se usa isso?), como obedeça, respeite, cumpra, faça. Além de desenvolver raciocínios altamente elaborados e expressos em orações subordinadas substantivas analíticas.

Puxa vida, não é que me vieram à memória textos do livro de leitura – nem sempre usado em sala, porque ficava na conta dos “deveres de casa” – escritos por autores célebres na época: Humberto de Campos, Manoel Bonfim, Thales de Andrade, Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Artur Azevedo, Rui Barbosa e assemelhados? Uma plêiade de escritores nem sempre contemporâneos, mas clássicos da literatura escolar.

Nossa, como o tempo muda autores, preferências, estilos e expectativas de leitura!

Viva a vida com suas transformações!

Francamente! Não sei se me prefiro hoje, alquebrada e desiludida, à lépida criança que cantava a lista de preposições e advérbios e que recheava suas redações de pontos de exclamação e pontos finais.

Cruzes! Hoje crescem em mim as interrogações em quantidade e tamanho; este, porque os olhos mal dão conta da fonte 14. Os pontos finais tornaram-se reticências. As certezas são pantanosas e o universo já extrapolou o grão de areia que representei um dia (ou como dizem levianamente os jornalistas redundantes: representei na minha “era”).

Alto com este texto digressivo! Volto às interjeições. Encontrei no dicionário (ah, ele continua sendo o “pai dos burros”!) que elas, além de exprimirem estados emocionais e auxiliarem a expressividade para o interlocutor, “dispensam estruturas linguísticas mais elaboradas”.

Arre, cheguei ao porto de destino!

Me descobri, ó céus!, uma interjeicionista de alta amperagem na interação com as postagens no facebook e no whatsapp. Quando preguiçosamente semeio emoticons, simpáticas faces/formas interjeicionais, e dou um piparote nas frases mais elaboradas. Raios! Substituo o verbal pelo visual, troco a frase pela exclamação, recuso a reflexão e assumo tão somente as “emoções que vivi”.

Ai, ai, ai! Começo a perder a argumentação para colocar em seu lugar a primeira impressão, os sentidos à frente do pensamento, a rapidez como descarte da interlocução, a pressa como desculpa para a desconsideração.

Caramba! Se a língua é parte de minha identidade, perco-me e perco-a. Embrutecida em sinais gráficos, robotizo-me.

Socorro! Ainda bem que, de vez em quando, obrigam-me a comprovar que não sou um robô! Talvez essas perspicazes e autoritárias plataformas digitais tenham pescado em minha atividade nas redes os peixes emocionais em cardumes cada vez mais numerosos.

Oxalá eu consiga recuperar um pouco daquela linguagem menos emotiva dos autores da minha infância!

Cáspite! Esse apego ao passado talvez seja apenas mais um sintoma da idade para além da faixa etária saudável. Alarme em alerta.

 

1374

Marta Morais da Costa

Aqui começa um texto que eu não gostaria de escrever. Serão palavras que deveriam vir com a advertência da Divina Comédia, de Dante: Lasciate! Deixai aqui neste pórtico toda a esperança. Mesmo aquela fabricada e acumulada artificialmente por décadas de persistente exercício de
“amanhã irá melhorar”, “vamos tentar mais uma vez”, “agora vai!”.

Não fui, não deu.

São menos 1374 brasileiros vivos sobre este território verde e amarelo. Somados aos 51 milhares que já partiram. O dia de ontem povoou o Brasil de outras 1374 cruzes – este simulacro sacrificial do corpo humano, braços abertos para a morte.

Mortes causadas por aquilo que é o elemento mais abundante na natureza: o ar. Aos 1374 brasileiros foi proibido o ato de inspirar e expirar. Em lugar do último e solitário suspiro, a desesperada luta por um último respiro.

Com eles morreram 1374 histórias de vida, abreviadas não importa a extensão do tempo: um dia, meses, muitos anos. Não importa: eles foram antes, perderam, lhes foi subtraída uma parcela de vida.

Tão fácil atribuir a uma impessoal e trágica epidemia este assassinato em massa! Mais do que o fado cruel da doença, pesa o fardo de viver em uma sociedade pobre – em vários sentidos – abandonada e desgovernada. O Brasil teve meses de antecipação para preparar-se adequadamente. Exemplos de outros países não faltaram. Sobrou a arrogância do negacionismo. Sobraram carnavais e festejos. Pesaram 2022, 2024, 2026, 2028…Anos que muitos não mais verão.

A maior parte da população veraneou, despreocupou-se e intrigou-se, no mais comezinho tugúrio aos mais ostentatórios palácios. Curtiu adoidada seu consumismo e sua ignorância, exilando experiências e tragédias alheias em troca do imaginário gigante adormecido e da mãe gentil. Antepôs a qualquer racionalidade os chavões de não temos terremotos e Deus é brasileiro. Viveu de fantasias reais e imaginárias em um país de tramoias e em um lodaçal de ostensiva, proclamada e orgulhosa ignorância.

Tal qual agressiva cigarra, deixou que as formigas continuassem seu trabalho: nem cantou, nem celebrou o verão. Sonolenta, colocou-se à mercê de quadrilhas de gafanhotos e hoje, em sua inércia, espera que as formigas a socorram. E morrem todas (ou quase todas): cigarras e formigas. Porque os gafanhotos em nuvens consomem o que compulsoriamente vai sendo abandonado pelo caminho.

Hoje é dia de São João. As quadrilhas de fantasia ficarão na virtualidade, enquanto as quadrilhas reais preparam mais mortos para o baile da Ilha Fiscal.

Uma sociedade com a maioria de seus cidadãos anestesiados, a sofrer a falta de shoppings, academias, salões de beleza, restaurantes e festas. Espertamente à espera que outros cumpram o que considera o dever de protegê-la.

Hoje o dia amanheceu em mim ainda noite. No céu sem nuvens, algumas estrelas retardatárias recomendavam a volta à cama confortável. Mas a seu desenho no espaço se sobrepunham 1374 cruzes na Terra. A elas se sobrepunha a dor de muitos mais milhares de amigos e familiares. Um mar de afetos agora sem corpo. Um mar de lágrimas agora sem resposta. Um infinito paredão de medo, angústias, solidão e desamparo a oprimir quem ficou nesta terra brasileira, calcinada do Amazonas ao Rio Grande do Sul, de ar rarefeito do Rio Grande ao Amazonas.

Esta terra brasileira, nanificada pelas servidões centenárias, contraída pelo temor e pela dor, silenciada à força por uma catástrofe minimizada. Nesta terra de nanicos, muitos deles inconsequentes, um dos piores sacrifícios é o de não se poder brincar o São João, é o de não poder voejar em torno da fogueira das vaidades, é o de correr riscos de pescar uma prenda e colher um esqueleto.

Quase tudo passará, pois o tempo a tudo aniquila. Passará a epidemia, mas a palavra escrita, que aqui registro, guardará um pouco da amedrontadora visão da bandeira com uma faixa de luto, enquanto diminuem rapidamente as forças de quem ainda luta nas frentes de combate contra as novas sete pragas. Não mais saúvas, mas pouca saúde. Não mais piratas caolhos, mas saqueadores de muitos olhos. Não mais lutas pela independência, mas a submissão e a subserviência. Não mais os clarins do “verde pendão da esperança”, mas o derrotismo da ignorância. Não mais a aquarela, mas as cinzas das queimadas e dos mortos. Não mais o céu de anil, mas o precipício do sofrimento.

Quanto tempo mais continuaremos inzoneiros? Responde aí, seu Ary!

Muitos anos de vida

Marta Morais da Costa
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Foto por Natalie em Pexels.com

(Ao fundo, enquanto você lê esta crônica, imagine ouvir os acordes do “Parabéns a você”, cujo volume sobe nos compassos correspondentes ao verso “muitos anos de vida”)

Hoje fiz um jantarzinho de aniversário: são exatos três meses de confinamento. Coloquei sobre a toalha florida dois copos em formato de clepsidras, nas quais a areia cai mais lentamente do que o normal. Também depositei sobre a mesa as fotos da família. Das três mais recentes gerações.

Colei em cada prato um diferente item da lista de desejos a realizar tão logo eu possa voltar a algum tipo de convívio social.

  • Beber litros de café em boa companhia, em conversas sem hora pra acabar.
  • Sentar em um banco da pracinha perto de casa e ficar observando pessoas (sim, elas existem!) que passam, calmas ou apressadas, com suas sacolas de compras.
  • Divertir-me com crianças em bicicletas ou rodando no carrossel iluminado da mesma pracinha.
  • Deliciar-me com o som das ofertas do carro dos sonhos que está passando. E comer dois deles, porque não quero mais ser de ferro, nem contar calorias!
  • Acompanhar com os olhos velhos como eu a fazer sua caminhada tipo vitamina D + xô-artrose. E pensar: fazem eles muito bem! Quanto a mim, acompanho-os com o olhar.
  • Entrar no meu carrinho modelo anos 90 e dar um rolê sem compromisso, parando para admirar uma árvore, um jardim florido, uma casa monumental.
  • Fazer uma visita longa para matar ao máximo a saudade de uma livraria física (se é que sobrou alguma) e sair de lá com livros a mancheias e, se o dinheiro der, uma nova coleção de CDs. Sei que é programa bem tiozão, mas a alegria da gente desconhece prazo de validade tecnológica.
  • Tomar um caldo de cana na Kombi estacionada na esquina de casa (será que seu Matias sobreviveu à covid e à crise econômica?).
  • Fazer um pudim italiano, levar na casa de minha mãe e comer tudo sem culpa, juntas, enquanto trocamos histórias e temores.
  • Comprar ingressos para uma peça de teatro e um show musical em teatrinhos aconchegantes e em boa companhia. Ah, e uma tarde todinha curtindo aqueles filmes para não esquecer do Cine Passeio!
  • Levar meus netos à loja de brinquedos para uma farra consumista de deixar o cartão de crédito enrubescido. Ah, não posso esquecer de comprar quebra-cabeças e bichos de pelúcia para mim!
  • Convidar meu marido para uma viagem bate-e-volta pra um lugarzinho bem romântico, sem máscaras nem álcool em gel. Só afeto e gentileza.

Na toalha florida, pus um HD com as notícias e polêmicas da catástrofe brasileira. Pra não esquecer, para cobrar, para homenagear, para lamentar.

Coloquei sobre a toalha as receitas das refeições frugais, das conversas sobre comida, dos programas de culinária pró-obesidade da televisão; retratos do dia a dia de quem, por sorte ou mérito, ficou do lado privilegiado dos que puderam manter uma alimentação continuada.

Sobre a mesa, espalhei esparsamente flores secas. Elas nasceram durante o confinamento, feneceram e secaram. Lá fora, no entanto, a morte continua sua colheita.

Distribuí sobre os objetos na mesa centenas de corações recortados e identificados com os nomes das pessoas com quem convivi virtualmente neste período triste. Sob os nomes, desenhei pássaros, flores e chamas: a leveza, as cores e o calor humano.

Enfim, coube ainda sobre a toalha de flores estampadas, algumas folhas de papel contendo o que escrevi para falar de mim, de nós e dos que, como eu, terão outras histórias para contar. Sobre estas páginas, como uma velinha comemorativa, vai esta folha que você lê.

Três meses: quantos mais?

“Pa-ra-béns-pa-ra-nós,
mui-tos-a-nos-de-vi-da!”