Indignação

Marta Morais da Costa

Hoje é dia do Corpo de Cristo.

Amanheci com a ressaca da notícia do encontro de “remanescentes humanos” (eita, expressão pra acalmar consciências entupidas!) dos assassinatos na Amazônia.

O engulho só aumentou: meu estômago forte já não consegue resistir a tanta porcaria que querem que eu engula neste país.

A democracia de araque em que tornaram o Brasil provoca náuseas em quem batalhou pelas “Diretas já!”.

Diretas à direita, volver! Diretas à direita, não quero ver! Quero Diretas pra escolher entre muitos lados e direções.

(a) Piolim e todos os palhaços em que querem me transformar.

Foto por BROTE studio em Pexels.com

Após a chuva

Marta Morais da Costa

O dia amanheceu úmido, neblinoso. A chuva havia lavado a calçada, os ninhos, as folhagens. A água levara com ela a secura dos olhos, da boca, do coração. O poder sonoro dos pingos saindo das calhas, pingando do telhado, escorrendo folhas abaixo, derramando-se pelo chão trazia conforto e sonolência.

Era um dia outro. As paredes calaram as ofensas, os móveis guardaram a violência do olhar e das mãos. O rosto marcado suavizou-se. Havia ainda esperança.

Que passava longe da presença dele, da frieza do olhar, da rudeza da fala.

Era feita de pedaços de lembranças felizes, de toques sedutores, de carícias de fogo. Era uma presença tênue do passado que se agigantava enquanto o presente projetava uma pequenez ameaçadora.

“Sua vadia! Preguiçosa! Enquanto eu ralo pra trazer comida pra casa, você se esbalda nesse sofá o dia inteiro! Cadê meu almoço?”. A ladainha era longa, os gritos alcançavam a vizinhança. Quando saísse à rua tinha certeza o olhar dos vizinhos teria a mesma frieza e desprezo que rondava os quartos, a sala, a cozinha de sua casa.

Não saía.

Consolava-se com o vídeo da cerimônia de casamento a rodar em sua solidão os momentos de alegria, de beijos e abraços, de valsas e cantorias, de um noivo carinhoso e de amigos risonhos. Vivia nas imagens o que a vida lhe roubara no cotidiano.

Não se defendia.

Jamais mostraria a ele, em palavras ou atos, a dor da solidão, a mesquinhez da vida sem horizontes, os sonhos derrotados.

Lembrava as queixas da mãe, as confissões das amigas. Por onde andam essas mulheres? Terão rompido os grilhões, cavado seu túmulo em vida, escolhido a cabeça baixa, o sim senhor? Escalaram o muro e vivem do outro lado, sorrindo suas dores, os olhos brilhando e o coração em sossego?

Culpa sua se nada sabe delas. Escolheu sua solidão e o prazer em humilhar-se e silenciar.

Mas um dia…

Quem sabe um dia após uma tempestade. Um dia após um dilúvio. Outro amanhecer e uma nova neblina…

Levanta do sofá, desliga o televisor, esconde o vídeo e se propõe a caprichar no almoço. Para quem? Sem perceber, desvia da cozinha e se descobre no quarto. Vazios os cabides, a sapateira. Foram-se ternos camisas gravatas e os pijamas. O guarda-roupa sorri entre as falhas das prateleiras. Vazios se completam.

Coloca sapatos altos, vestido novo, maquilagem o quanto baste. A chave da casa à mão. Sai e fecha a porta da rua, chaveia, guarda a chave em lugar protegido na bolsa. Talvez um dia volte. Ou não.

Gostei e recomendo 1

Henrique Rodrigues

E o escritor tímido, como fica?

PUBLISHNEWS, HENRIQUE RODRIGUES, 19/05/2022

Em sua coluna, Henrique Rodrigues questiona a lógica de mercado que vem balizando a vida literária contemporânea

Na semana passada participei de uma sequência de encontros literários em diferentes formatos. Aceitamos os convites distraidamente e, quando nos damos conta, estamos acendendo um cigarro no outro, como se dizia antigamente. Sempre detestei cigarros, aliás.

Por conta dos eventos encadeados, acabei fazendo um tipo de mashup (em bom português: mistureba) mental de assuntos relacionados ao universo de livros, vida literária, censura, pautas identitárias, educação e congêneres. Naturalmente, essas temáticas estão relacionadas entre si, mas sabemos que os melhores debates são aqueles que deixam pontas soltas, gostinho de quero mais, pulgas atrás das orelhas e outras expressões populares que apontam o desejo de continuidade.

Algumas questões continuam me perseguindo até agora, enquanto batuco o teclado. Uma delas foi a necessidade de valorização dos professores, categoria tão exaurida moral e financeiramente, e ao mesmo tempo sobre a qual vem recaindo uma demanda administrativa tamanha que dificulta fazer algo fundamental como ler um livro e pensar sobre ele. Se entendemos que a mediação cultural no processo de formação de novos leitores é uma das etapas mais relevantes no tecido cultural, e que os educadores são os grandes agentes nesse processo, não dá para tratar esses profissionais como burocratas ou, para usar o eufemismo corrente, designer de conteúdo educacional.

Outro ponto que ainda me enrosca a cuca e aperta o coração foi ver jovens falando poesia no evento literário realizado na quadra da escola de samba. Ali em Madureira, subúrbio carioca tão rico culturalmente – porém sem uma biblioteca pública –, a garotada cantava e declamava tudo o que precisa ser dito. No fim do poema, repetiam em uníssono o verso que ecoa aqui ainda: “Precisamos morrer todo dia?”. A pergunta foi para todos nós, não se engane.

Em outro evento no qual havia público escolar, o palco para selfies e um tipo de karaokê estava lotado, com jovens amontoados fazendo dancinhas com celulares em punho numa agitação efervescente. Já nos espaços com debates e apresentações de contadores de histórias estavam às moscas ou com meia dúzia de gatos pingados, à exceção daqueles com celebridades televisivas e/ou do próprio universo das redes sociais. O problema não é o primeiro cenário em si, porque a garotada curte a zoeira mesmo, ainda mais quando alunos saem para uma visita, e sim o segundo quadro. Eis que, durante o nosso debate (vazio, como soy), surgiu a questão sobre como os escritores usam as redes sociais e a internet como um todo. Um dos meus colegas de papo reconheceu a quase compulsão de passar o dia conectado, inclusive durante as refeições, ao passo que o outro acreditou ser um caminho sem volta que a turma da literatura use esses recursos profissionalmente. Foi dito que, para um autor se apresentar a uma editora, é preciso evidenciar o uso constante das redes sociais.

O papo me fez pensar algumas coisas na hora e depois. Com toda a dinâmica atual, em que o silêncio da leitura e da escrita foi substituído pela exibição quase fetichista dos escritores e artistas em geral, como ficam aqueles que, a despeito da qualidade do trabalho, não se enquadram nesses esquemas? Nessas condições, um grande escritor tímido e recluso jamais chegaria a ter o seu texto publicado? Dalton Trevisan, Raduan Nassar, J. D. Salinger morreriam na praia? Antes que citem o caso de Elena Ferrante, vale lembrar que a enigmática autora italiana (e nem sabemos se ela é uma autora mesmo ou várias pessoas) tem no segredo da sua identidade um grande recurso de marketing.

Quando a produção literária se torna refém do meio em detrimento da liberdade criativa, me parece que algo está distorcido. Não é raro percebermos autores cujo texto, quando lido, se mostra muito aquém da performance sensualizada, do ativismo político, da saraivada de elogios automáticos, das opiniões instantâneas e outros tantos vícios que as redes sociais trouxeram para o comportamento geral.

Sempre tive a sensação de que a experiência literária nos desloca para um tempo diferente, ou mesmo para a percepção diferente da existência. Do escapismo de um best-seller à leitura vagarosa de um clássico, a ideia é que a literatura nos transporta para outro lugar onde não somos atropelados pela necessidade vertiginosa, superficial e etérea da vida ordinária. Daí ela, a literatura, ser extraordinária.

Se vivemos no tempo em que uma expressão artística está tributária à mesma lógica que cria subfamosos oriundos de reality shows, sistema tão questionado pela fugacidade e pelo esvaziamento, não caberia à própria arte também questionar essa mecânica com seus recursos técnicos e específicos perante as subjetividades?

Faço essas perguntas também para mim, usuário que sou de algumas redes sociais. É preciso reconhecer todas as facilidades que esses recursos nos trouxeram, especialmente a possibilidade de interação com leitores. No entanto, comparando com a situação de 15 anos atrás, quando o grande atrativo dos nossos blogs eram os textos que tentávamos compartilhar, parece que tudo foi fagocitado e transformado em mercadoria moldada ao formato determinado pelo aplicativo do momento.

Não sei, algo me parece estranho. Em meio a esse mundo de aparências e dancinhas, talvez precisemos voltar à procura de leitores, em vez de seguidores e clicadas.

Acesso em 2 de junho de 2022:

https://www.publishnews.com.br/materias/2022/05/19/e-o-escritor-timido-como-fica?fbclid=IwAR1gZiMDrgD_2K26OHboEaD6QokcO0DR16W3zC51xO6BiZVfukk_RZhyW5Q

Fragmento de O longo adeus, de Raymond Chandler (1953)

Personagem rico Harlam Potter dialogando com o detetive  Philip Marlowe (p.252-253)

 “- Não sou uma figura pública e nem tenho a intenção de ser. Sempre tive muito trabalho evitando qualquer tipo de publicidade. Tenho influência, mas não abuso. (…) Nós vivemos no que se chama de democracia, regida pela maioria do povo. Uma ideia ótima se chegasse a funcionar. O povo elege, mas são as máquinas partidárias que nomeiam, e as máquinas partidárias, para serem eficientes, precisam de muito dinheiro. Alguém precisa dar esse dinheiro a eles e este alguém , seja um indivíduo, um grupo financeiro, um sindicato ou o que você quiser, espera alguma coisa em troca. O que eu e gente como eu esperamos é simplesmente viver nossa vida numa decente privacidade. Os gritos constantes em favor da liberdade de imprensa, com algumas honrosas exceções, significam liberdade para lidar com escândalos, crimes, sexo, sensacionalismo, ódio, alusões indiretas ou os usos políticos e financeiros da propaganda. Um jornal é um negócio feito para faturar através  das vendas de publicidade. Esta é uma pré-condição à sua circulação e você sabe do que a circulação depende.”

(…)

“Há uma coisa especial em relação a dinheiro – continuou. – Em grandes quantidades, tende a ter vida própria, até mesmo uma consciência própria. Fica muito difícil se controlar o poder do dinheiro. O homem sempre foi um animal venal. O crescimento das populações, os enormes custos das guerras, a incessante pressão confiscatória dos impostos – tudo isso faz o homem cada vez mais venal. O homem comum está cansado e assustado, e um homem cansado e assustado não pode ter ideais. Precisa comprar comida pra sua família. Na nossa época presenciamos um declínio chocante tanto na moral pública quanto na moral privada. Não se pode esperar qualidade de pessoas cujas vidas são uma sujeição à falta de qualidade. Não se pode ter qualidade com produção em massa. Não se deseja isso porque demoraria muito a chegar. Portanto, para substituir isso há o estilo, que é um logro comercial com a intenção de produzir coisas obsoletas e artificiais. A produção de massa não poderia vender seus produtos no ano que vem a não ser que faça o que vendeu este ano ficar fora de moda. Temos as cozinhas mais brancas e os banheiros mais brilhantes do mundo. Mas na adorável cozinha branca a dona-de-casa americana média não consegue cozinhar uma refeição boa de comer, e o adorável banheiro brilhante é sobretudo um receptáculo para desodorantes, laxativos, soníferos e produtos desta quadrilha de vigaristas que se chama indústria de cosméticos. Nós fazemos as embalagens mais bonitas do mundo, sr. Marlowe. O que está lá dentro é, na maior parte, lixo.”

A educação negada

Marta Morais da Costa

Foto por Stephen Paris em Pexels.com

O que é pior do que uma educação formal capenga? A ausência de educação.

A geração nem/nem apresenta crescimento constante . Não estudar e não trabalhar têm a ver com um país que desvaloriza o conhecimento (mesmo que aprove a fachada falsa de um diploma, muitas vezes adquirido ou conquistado sem empenho do estudante). Não estudar tem a ver com projetos de protagonismo: para que estudar se, mesmo sem escola, fulanos “se dão bem na vida”?

O não trabalhar tem várias causas. Uma delas, sem dúvida, se chama parasitismo. Machado de Assis bem o configurou na “teoria do medalhão” e em muitos personagens cínicos e desocupados.

O que é pior do que a pandemia para reduzir o aprendizado dos estudantes? A guerra.

Quando um milhão e quinhentas mil crianças são obrigadas a deixar seu país em vias de destruição, as escolas podem oferecer apenas um abrigo formal, já que o simbólico deixou de existir. Bombardear escolas não é matar exclusivamente os habitantes perseguidos por bombas e fuzis. É matar o que representam simbolicamente como futuro do país. Ali se realiza concretamente o que os estudantes de gerações passadas mais temiam: levar bomba em alguma disciplina.

Mas há outras formas de arrasar com a educação adquirida nas escolas. Ela pode começar com traques de São João, com bombinhas juninas e busca-pés, até chegar às armas biológicas dos desvios de verbas e leis retrógradas, além do caradurismo terraplanista e a anticiência.

A diáspora infantil espalha uma cultura riquíssima como a ucaraniana, divide-a e pulveriza. Lança as crianças em ambientes hospitaleiros, mas distantes do solo natal em geografia e ambiência cultural. Além de todas as dificuldades psicológicas e afetivas que toda guerra alimenta e faz crescer.

Mas guerras cruéis têm nuances e naturezas diversas. No Brasil, ela é silenciosa e matadora, como se promovida por assassinos de aluguel. Age nas sombras, nos detalhes, em busca do momento adequado para destruir.

O que é pior do que a guerra e a pandemia para destruir a educação? A omissão dos agentes políticos e pedagógicos.

Não é de hoje, não é do período pré-pandemia, não vem do início do século XXI, a destruição da educação brasileira. É projeto que se desenvolveu e desenvolve silenciosa e cruelmente há algumas décadas.

Gabriel Gabrowski, no jornal Extraclasse, editado no Rio Grande do Sul, faz uma análise bastante séria e apontando reais causas do que intitula “Apagão ou destruição da docência no Brasil”. Recomendo a leitura em https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2022/05/apagao-ou-destruicao-da-docencia-no-brasil/.

Do artigo, extraio um fragmento: “Registra-se ainda, o desprestígio e a desvalorização  social; a contestação e não pagamento do piso nacional por gestores públicos; o exercício da docência em áreas conhecimento sem habilitação acadêmica; a insegurança provocada por mudanças nos planos de carreira no efetivo exercício e na aposentadoria; a ausência de políticas de apoio financeiro na formação inicial e continuada; a responsabilização dos professores pela falta de condições de aprendizagem dos estudantes e, a desresponsabilização dos gestores públicos pela má gestão da educação.”

Cada um desses itens representa um grau a mais no terremoto que causa fissuras, desequilibra, desmonta e implode o edifício da educação brasileira.   E a quem isso efetivamente importa? Não aos que detêm o poder de corrigir e alterar a situação. Importa mais a quem só perde com ela. Os alunos que nem sabem que perdem, porque não ganham nunca. Os professores que sabem que perdem porque sonharam e trabalharam para obter aprendizados e profissão respeitada. Os pais – em especial os que acreditam na educação como fundamento para a melhoria de vida de seus filhos – porque sabem que as crianças e adolescentes não sabem e sabem que seu esforço pessoal e financeiro se esboroa no desencanto.

Quem ganha? Os discurseiros de boca de empáfia, os que cobiçam os tostões das verbas, os que rapam o fundo dos tachos em sua gulodice de notas e moedas.

Enquanto isso, os cursos de licenciatura minguam, os possíveis bons e dedicados professores abandonam as salas de aula para buscar sobrevivência alhures, os alunos ficam entregues a um ensino lacunar, precário, insuficiente para capacitá-los a profissões minimamente dignas, afastando-os de uma vida com esperança.

“Estudos e dados do INEP/MEC indicam que a maioria dos professores em efetivo exercício possuem 50 anos ou mais, enquanto os professores com até 24 anos correspondem a menos que um quinto. O censo do ensino superior 2020, publicado recentemente, confirma tendência de redução de matrículas nos cursos de licenciatura nos últimos anos. O último censo revela, também, que os Cursos de licenciaturas tiveram o menor ingresso (18%)”, escreve Gabriel Gabrowski.

Nada contra o envelhecimento dos professores nas salas de aulas, mas tudo contra a falta de renovação, da convivência com o novo, com o entusiasmo e com os vislumbres de futuro que um professor jovem traz ao coletivo.

Na geleia geral da cultura obtida por meio do conhecimento propiciado pela escola que desaba, não me causam espécie as manifestações de pouco apreço pelo estudo e a intensa revelação de espíritos obscuros e orgulhosos de sua ignorância.

De mansinho

Marta Morais da Costa

“Ele foi chegando de mansinho.”

A frase não me saía da cabeça. Lia textos, arrumava a casa, aguava as flores, passava a roupa. E ela continuava a martelar o cérebro e a memória.

Quem era “ele”? Chegava aonde? Por que de “mansinho”?

A frase foi ganhando boca e olhos, uma silhueta desenhou-se e ele veio andando para dentro de mim. Sem nome, sem perfil, somente andando.

Passei a emoldurar um rosto: cabelos negros, encaracolados. Abundantes. E uma fala tranquila e clara: “Cheguei.”

Ainda não consigo distinguir um nome e qual é nossa relação. Mas é de amor, sinto.

Aos poucos descubro que ele morou comigo por um tempo. Ocupou um espaço. E meu pensamento. Mais do que isso: conheceu meus desejos e meus desamores. Nutriu-se de um modo de olhar para o mundo e para as pessoas, que encontrava pontos de semelhança com o meu. Mas diferente em arestas e colorido. Como se o menino quisesse mostrar independência, sem provocar divergências.

Aos poucos desfiava-se um rosário de sons: ora falas, ora cantigas. E a gente brincava, se divertia e silenciava. Mas logo depois a conversa fazia uma curva e retornava mais lenta, com fendas e desvãos. A gente pensava que pensava em um e no outro. Até nem precisar falar, olhando, de mansinho. Rindo, de mansinho. Amando.

Agora sei quem ele é. Por ele, conheci outras frações de mim.

E talvez ele saiba que partes são essas.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Em 9 de maio de 2022

O acordeão, a flauta e o violão

Marta Morais da Costa

Dizia a velha flauta ao acordeão bailarino:

– Enquanto grito tesa e louca, você dança e sacode a pança. No mesmo ritmo, enquanto eu choro, você ri.

– Engano seu, dona Flauta, responde o acordeão. Minha dança me cansa. Sinto-me pesado. Mas você parece esbelta e faceira.

Enquanto a conversa seguia, o violão, sem alarde, fazia ressoar dores de amor nas notas tristes de um samba canção.

Na orquestra da vida, cada um e todos se queixam, enquanto a música não para.

Foto por Ylanite Koppens em Pexels.com

Tempos de Van Gogh

Marta Morais da Costa

Foto por Efdal YILDIZ em Pexels.com

Caros leitores, preciso alertá-los: o título desta crônica pode induzi-los a erro. Se vocês esperam um texto curto sobre a obra desse magnífico pintor, ficarão frustrados. Se, ao contrário, acharem que é presunção desta cronista querer em parcas e frouxas linhas abordar a obra de tão magnífico pintor, estarão duplamente certos: a cronista é fraca e o texto será sempre insuficiente, com poucas ou muitas linhas. Se vocês pensarem “lerei um panorama em voo de drone sobre o período histórico (magnífico!) em que viveu o magnífico pintor”, terão sido igualmente iludidos por uma crônica cujo título não corresponde ao conteúdo.

Para que não me acusem de usar o nome de tão magnífico pintor em vão, passo rapidamente a esclarecer um título que, confesso, é tão e muito pretensioso.

Um quadro de Van Gogh arremessa (assim mesmo, com violência) o espectador em um nebuloso mundo de torções (figuradas e imaginadas) de um espírito especialmente contorcido. Espectador-passante é tomado de abrupto pela mão que acorrenta o olhar num abismo de cores e curvas e linhas e dimensões arrebatadoras e provocadoras: o mundo e suas paisagens incitam mergulhos em razão e sentimentos convulsionados e convulsionáveis. O magnífico pintor faz do olhar de conforto, da arte de conforto – de qualquer conforto – rotos trapos, fiapos de conhecimentos prévios em derrocada, conduzindo a caminhos desconhecidos para um mundo também ele em convulsão.

A fórceps retorno à realidade de meu tempo, saio da arte para a natureza, desligo-me dela para um sobrevoo em textos nada perenes de um mundo convulsionado que amanhã oferecerá mais distorções, mais sangue, mais decepções e, provavelmente, mais espinhos transfixantes em meu desejo de ver pessoas vivendo em dignidade e em mútuo apoio.

O outono, versão idosa da primavera, não tem as cores vibrantes de Van Gogh – amarelos, azuis, verdes pujantes – mas é maravilhoso em seus tons alaranjados, marrons e verdes recolhidos. O sol outonal tem poentes indescritíveis em seus tons de saudade e carícias no pouco calor que amortece o dia, resfriando as noites de luares entre nuvens. O outono contém em sua expressão natural um rito de aquietação, de aceitação do inverno que se aproxima. Ao mesmo tempo, mantém o fio da esperança de ainda longínqua, mas previsível, primavera.

Gosto dos meio-tons outonais, do colorido que mistura o atrevimento e a decadência, o anúncio da claridade com a neblina, a chuva que traz o frio e o frio que se aquenta ao sol tímido, as flores a viver à beira do desaparecimento, as folhas que se recusam a cair em definitivo, as sombras que encurtam os dias. Outono sou eu, quase inverno, prestes a desaparecer.

Essa beleza incontestável de um tempo natural adequado ao ritmo das estações e da vida encontra sua desestabilização nas ações humanas.

Em um país cuja violência, tão frequente que deveria estar explícita no dístico da bandeira brasileira, outono ou primavera serão sempre tempos de conflagração. Não importa o calendário, tão desrespeitado quanto as leis: vide o carnaval desestabilizando para pior a marcha regular da natureza; vide o desassossego instaurado por falanges infratoras no que poderia ser o momento de retomada da vida após a cruel pandemia. Uma sociedade esmagada novamente em seus projetos de futuro por condições econômicas vividas como flagelo e causa de desumanidades. Neste país, o outono mais plácido (em tuas margens plácidas, ó Ipiranga!) é convulsionado pela fome e pela ambição, a revelar os piores estados de espírito, da poltronice à selvageria. Uma espécie de Van Gogh desvestido de arte, a causar não o impacto da beleza, mas o estupor da imbecilidade da humanidade degradada.

A Ucrânia devastada, a democracia rebaixada aqui e alhures, a emigração forçada, a degradação dos valores humanos, uma sociedade falseada, virtual e de avatares.

Estou mesmo outonal: a convulsão da arte de Van Gogh saiu dos olhos e da mente. Chegou-me ao coração em forma de profunda descrença. Talvez sem primavera.

Hoje é Dia do, da, de…

Marta Morais da Costa

Foto por Gert Coetzee em Pexels.com

Confesso que a indiferença a datas comemorativas há muito tempo me assola. Em insana consciência acuso a leitura por esta falha calendárica. Essa indiferença resultou de ter bebido  o chá em que o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Domidongo comemoraram um  desaniversário em “Alice no país das maravilhas”. A proposta revolucionária de Lewis Carroll acendeu em mim uma lampadinha de descoberta: enquanto brindamos aniversários, datas cívicas e comemorativas de 24 horas, ocultamos outro tempo, muito mais longo, em que a vida pode nos brindar com alegrias mais intensas, com encontros mais inesperados, com brindes surpreendentes.

As datas marcadas e limitadas podem ser motivo de lembrança mais aguda e total. No Natal vamos lembrar mais intensamente os que nascem e os que compõem nossa vida com sua presença. No dia do professor, mais nos lembramos de reivindicações e de valores da profissão. Embora em cada aula, em cada preparação, em cada trabalho extraclasse o dia do professor faça sentido intenso e mais real.

Nos dias de vantagens ao comércio, como os dedicados aos pais, às crianças, aos namorados, às mães, uma rosa é menos rosa do que em dias não marcados. A surpresa e o inesperado perfuram os muros de distância e iluminam o olhar desprevenido. Aquele bilhete inesperado palavreando o afeto, mesmo que deixado em comezinhas mesas, em desengonçados aparadores, em espaços premidos entre louças e panelas, na contumaz porta da geladeira ou no teclado do computador podem alvoroçar sentimentos, revolucionar lembranças, incendiar afetos frios e apáticos.  

A linguagem do afeto não recusa palavrões e transborda em gestos, falas e ações, vestidos do mais torpe figurino, ousando fazer crer que a violência é uma forma de amor, que o assédio é atenção, que autoritarismo é cuidado. Ao arrepio dessa inversão, o coração demanda janelas e respiradouros e se lança ora em abismos de solidão ora em cachoeiras de rebeldia, deixando atrás de si silêncios e pedras, espinhos, limo e lodo.

Não é um dia assinalado em agendas e calendários que os afetos nada pacíficos, mas que almejam encontros verdadeiros, buscam saídas, consolo e retribuição. É no dia a dia dos suores, das rotinas, das pressas silenciadoras que eles se camuflam e se recolhem em esperas que, sem menos, explodem em revelações. Aí não importam datas, presentes e cumprimentos: somente o tempo presente e a indispensável presença.

O  “Oscar da lacração”

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Que a língua é um organismo vivo, sabemos.

Que os falantes contribuem com termos novos continuadamente, já sabemos.

Que as gírias e jargões identificam, entre outros, grupos sociais, econômicos, profissionais, culturais e etários, estamos cansados de saber.

Mas (há sempre um mas no meio do caminho) ter que ir buscar no dicionário o significado da manchete de uma notícia para confirmar se o que a oralidade nos conta é a mesma narrativa que a língua escrita compreende, dá uma torção na autoestima. A gíria que desconheço é proporcionalmente mensurável com a idade a que consegui chegar. Em palavras mais cruas: pô, estou velha!

Na leitura diária dos jornais, geralmente feita como um exercício de despertar (em vários sentidos), encontrei hoje cedo a manchete que serve de título a esta crônica.

Não assisti à cerimônia da entrega do Oscar 2022. E não foi somente a este evento: não me movo no movie segundo o que a estatueta comanda. Tenho curiosidade, claro, como sou curiosa por resultados de futebol, por estatísticas, por pesquisas, por previsões e resultados de eleições. Procuro manter disso tudo uma distância que me permita continuar saudável. Principalmente manter o sono estável. Sem aquela de “sou inocente e durmo tranquila”! Durmo com todos os meus pecados, principalmente com os de estimação.

Mas um Oscar de lacração tem a ver com públicos e com recepção. E confesso que aí a coisa fica mais interessante para mim. Não é exatamente sobre a qualidade dos filmes a que o título da notícia faz referência. Mas à própria rentabilidade de público para a premiação tradicional. Os jornalistas apontam o dedo em riste para o fracasso de edições recentes do evento. As notícias insistem nas novidades inseridas no roteiro e nos apresentadores deste ano.

Aí, a situação fica mais interessante. Um público de cinema que adora espetacularizar e ser espetacularizado. Um público de espectadores movido por histórias de vida, de superação, de glamour, de sucesso, de emoções que a vida real não lhes trouxe.  O mundo das fadas da arte cinematográfica, com seus ogros e bruxos indispensáveis.

O tapete vermelho, vitrina da moda; os artistas em poses e previsões sobre ser ou não favoritos à estatueta; os grupos em lugares acessíveis pelas câmeras-olhos do mundo; os bordões e gags e piadas narcísicas e centradas no mundinho do cinema. E aqui fora os cavalinhos correndo.

Adoro cinema, minha imaginação foi e continua sendo nutrida por ele. A pandemia favoreceu muitos banquetes à la Babette e intoxicações de lixões. Senti a ausência das comunidades de auditórios e salas, reunidas por causa das telas e histórias.  Confesso que se pudesse estar frente a frente, olhos nos olhos com Frances McDormand, Olívia Colman, Judy Dench ou Viola Davis  ficaria para sempre muda e paralisada pela emoção. Para citar as que andam vivas nas ruas reais. Vê-las na telinha do televisor ao menos me impede um infarto.

Mas a cerimônia do Oscar me exclui por uma razão muito simples: se for pra competir, prefiro o esporte; se for pra exaltar, prefiro meus heróis próximos; se for pra mitificar, estou fora. É um espetáculo tedioso para quem tem mais o que ler e escrever. Nem para copiar e/ou admirar modelitos das atrizes famosas ou pretendentes a) me serve. Até porque tenho noção do ridículo. E espelhos.

A sucessão de nomes, fotos, cenas, fragmentados e isolados mostrados na assim proclamada cerimônia conta uma história que é pura ilusão, mais do que o cinema naturalmente produz. Dirão alguns que é o reconhecimento do trabalho de técnicos, atores, diretores e todas as pessoas que constroem essa indústria de arte e de dinheiro. Nem assim. Prefiro que meu jornal diário lacre quem está fazendo um trabalho meritório de alimentar o imaginário ensinando a pensar e a pescar. Quem está lutando bravamente para afirmar sua humanidade e sua competência erguendo casas, iluminando a vida, mantendo os espaços limpos de sujeira material e moral.

Artistas são o sal da terra, talvez seu Himalaia. Espetáculos de premiação são disputas de poder. Festa, ornamento, carnaval que termina em uma quarta-feira de cinzas. Para mim, é mais lucração do que lacração.

Agora, com licença, vou rever “Três canções para Benazir”, mais feroz do que um ataque de cães e em ritmo de um coração despedaçado.

Que fazer? Sou mesmo inclinada a tragédias…