Domingos de antes

Marta Morais da Costa

Guardo comigo lembranças majestáticas de domingos infantis. O dia começava com um acordar em altas horas da manhã, por volta das 8. Ao longo da semana, não importava a clemência ou impiedade do tempo, era um levantar cedo e ir para a escola. Mas o domingo era diferente. Mesmo tardio, sobre a mesa nos esperavam o pão caseiro (fabricado no dia anterior a muitas mãos), a geleia caseira (que eu sempre recusava, nem me lembro por quais motivos; mas até hoje o doce estraga o enorme prazer de uma fatia de pão caseiro), café com leite e açúcar – naquele tempo, a balança não era um tormento. Todos enfatiotados a caminho da missa das dez, com retorno previsto a tempo de ajudar a mãe com o  almoço, perfumado de manjericão e louro.

Entre as horas da manhã, era um estar em férias: brincadeiras de bola, de arco, bicicleta, bolinhas de gude, a atraente corda boleada, gritaria, correria, alegria (embora de vez em quando a briga corresse solta e a mamãe juíza estabelecesse regras e castigos).

Depois do almoço, a visita aos amigos ou a ida à matinê no Cine Paroquial. Os filmes tinham uma defasagem de tempo que não nos atormentava. Se Hollywood havia produzido aquela película (assim era conhecida nas falas empoladas) há três ou dez anos antes, para nós era sempre estreia no tempo presente. E era uma festa. Não tinha pipoca, mas as balas voavam de fileira para fileiras, ou passavam de mão em mão, ou ficavam escondidas em bolsos para futuros deleites em casa e durante a semana no lanche na escola.

Ninguém sossegava nas cadeiras. Antes de começar, um alvoroço: amigos trocando de lugar para ficar juntos, inimigos procurando fileiras cada vez mais distantes. E os namorados… Na época ríamos de sua então considerada timidez, indo buscar o fundo da plateia, mais escuro e menos desejado pelos demais frequentadores (espectadores é termo de tempos mais recentes). Mais tarde vim a entender os porquês de tão estranha preferência. Mas aí já é outro cinema. Não aquele ambiente de alegre balbúrdia de um dia sem escola.

Atualmente ouço tanto falar em interação, em resposta do leitor, em inclusão. Minha memória obriga-se a reivindicar para meu passado infantil todas essas palavras dentro de uma sala de cinema. Não só as cadeiras, nada silenciosas nem confortáveis, emitiam contínuos crécks e tracks a qualquer movimento que não fosse a imobilidade, também as gargantas não se continham e participavam intensamente das notícias (louvando ou xingando times no noticiário de futebol, assoviando para as beldades cariocas ou da Riviera francesa, vaiando antagonistas de todos os tipos). Nos filmes, não apenas as risadas acompanhavam as cenas cômicas. O público vaiava vilões, assoviava para as divas hollywoodianas, ronronava ou imitava beijos nas cenas amorosas e reclamava (e muito) quando a película entrava em fade out nas possíveis cenas tórridas, que somente se iluminavam na imaginação dos presentes. A mais intensa e continuada participação era quando a fita se rompia e o projetista demorava um pouco mais a colar as partes: a vaia era estrondosa e até os personagens, quando voltavam à tela, pareciam meio trêmulos e hesitantes, atravessados pelas vaias e assovios.

Flash Gordon e o vilão Ming: ah, seriados de antanho!

Ao final da sessão, saíamos da sala de cinema lambuzados de balas, meio roucos de participação e com a alma lavada. Em especial se Flash Gordon, o galã do seriado, havia se safado dos perigos, mesmo que o herói estivesse em vias de enfrentar outros e mais terríveis. Não sabíamos como, mas tínhamos certeza de que ele se safaria. Voltaríamos no domingo seguinte para conferir. E novamente colaborar com a festa comunitária da matinê.