“O valor da literatura reside justamente nessa experiência que autores e leitores vivenciam ao manusear a linguagem literária. Por ser única, pessoal e intransferível, por ser uma experiência singular de linguagem, por ser uma construção simbólica feita somente de palavras, a experiência literária é extremamente libertária e humanizadora. Por meio dela, como já anunciava Roland Barthes em sua Aula (1980), podemos assumir o lugar do outro sem deixar de ser nós mesmos, rompemos com os limites do tempo e do espaço da realidade histórica a que estamos irremediavelmente presos, significamos e ressignificamos nossa vida e nosso mundo em outras tantas vidas e mundos. Em suma, pela relação intensa com a linguagem enquanto linguagem e construção simbólica do mundo e de nós mesmos, , que é o fundamento da experiência literária, nos libertamos das constrições e dos ordenamentos que nos são dados socialmente e nos fazemos verdadeiramente humanos. Por ser linguagem simbólica, palavra imaginada, a literatura guarda em si todos os sonhos do homem e a experiência literária nos revela que não há sujeito ou mundo impossível de ser sonhado (Paulino e Cosson, 2009).” (p.179)
COSSON, Rildo. Paradigmas do ensino da literatura. SP: Contexto, 2020.
Breve comentário
Não é um belo fragmento que eleva e seduz? “Não há sujeito ou mundo impossível de ser sonhado”? Então, por quais bateladas de água os leitores andam sumindo, as livrarias vendendo canetas cadernos e quejandos, porque os livros empacam e estocam-se nas prateleiras e a literatura não atrai baratas nem traças nem moscas? Para convencer uma criança digital e um adulto mais indigitado ainda, só com filmes muita saliva e olhinhos revirados de prazer carmenmirandado pra dizer: leia, você precisa pensar, largar mão de ser pau-mandado abrir os olhos pro mundo e o cérebro para pensamentos de segundo grau. Nem assim: literatura é Oscar de inutensílio garantido e coisa pra babaca.
Hoje estou incrédula. Perdão aos meus amigos e mestres. Mas não largo a mão de vocês por razões de sobrevivência e um tanto de teimosia: vamos de sonhos e poesia que atrás veio gente e tem muita na nossa frente.
