Inversos

Da abundância fluem carências;

os fios das teias se enovelam;

a gota espessa, que balança

na ponta da folha, deságua.

No cume da montanha

vige o desejo dos vales;

das correntes turbulentas,

o sonho do remanso voa.

Nas areias do deserto,

o verde viril pontifica;

de cada boca sedenta,

a fome mais irradia.

Em cada beijo volátil,

o sexo mais se atrofia;

assim a vida se vira,

em carências, opostos,

nervuras.

Sob dossel fantasmal,

a matéria em desatino

faz brotar dos lençóis

sangue, suor e gemidos.

Há no tempo que passa

pelas janelas do corpo

um corroer magistral,

embebido de alegrias,

latentes e desdobráveis,

a mostrar, entredentes,

a beleza inconstante,

que dentre as cinzas

renasce

Marta Morais da Costa

Onde antes…

Onde antes estava o verde, agora predomina a terra seca, quase areia.

Foto por Pok Rie em Pexels.com

Árvores centenárias foram obrigadas a prestar vassalagem às motosserras.

A mata nativa – troncos finos e ramas debruçadas sobre o chão – jaz inerte.

O silêncio sem pássaros e as trilhas sem pisadas nem rastros.

As folhas e galhos perderam seu farfalhar, agora monturos secos e esquálidos.

Cortou-se a comunicação entre as árvores, abriu-se o horizonte em luz e vazio.

Onde antes não havia caminhos, agora são vias sem margens, travadas pelo entulho vegetal.

Por tantos anos, o arvoredo foi repouso dos olhos, umidade contra a secura do asfalto, paisagem de fotos e resguardo de degradação.

Hoje, de surpresa, a descoberta de que em alguns poucos dias, a natureza elaborada em séculos amanheceu destroçada.

O ser humano, rei das espécies, mais uma vez mostrou-se vilão, depredador, criminoso.

Contra ele, a dor da perda, a dor da crueldade alheia, a dor de descobrir-se também humano na desamparada impotência.

Lágrimas corroem a manhã ensolarada, desverdecida.

Marta Morais da Costa

A escrita utópica

Foto por Jessica Lewis Creative em Pexels.com

Queria escrever um conto falando de amor, com gentileza, com palavras poéticas e beijinhos doces.

Queria escrever um poema infantil, com musicalidade que ficasse impregnada na memória, com achados verbais e dialogando com os sentimentos ainda imaturos, mas já presentes na alma da criança.

Queria escrever uma crônica sobre a saudade com aquelas palavras que submergem o coração nas letras e que fazem as lágrimas verterem suaves sobre os sulcos da face.

Queria escrever um romance histórico com personagens que foram carne e ossos, frutos de suas fraquezas e coragem, mas que assumiram seu papel no momento em que a história deu uma cambalhota e mudou de rumo.

Queria escrever a biografia de cada um de meus antepassados até a quarta geração. Para tanto, eu pesquisaria em documentos familiares e na composição de meu sangue suas pequenas epopeias diárias, sua força de trabalho e a construção de um imaginário futuro utópico que as gerações seguintes não conseguiram construir. Queria descrever os detalhes mais crus e mais emocionantes do momento em que fui concebida.

Queria reconstruir em uma peça semidrama-semicomédia os percalços e as conquistas vividas por uma atriz no período da belle époque em temporadas-relâmpago por vários palcos do Brasil. Seriam certamente cenas de intensa paixão e imensas frustrações que mergulhariam minha escrita em desencontrados sentimentos de dor e de júbilo, encerrados pelo cair da cortina do esquecimento ao final do terceiro ato.

Ah, a escrita que poderia ser e nunca será! Talvez sua existência seja em mim esse embate entre o que eu gostaria de escrever e o que minha habilidade expressiva permite.

Tenho certeza de que na carta à posteridade que escrevo ao viver, eu não conseguirei ultrapassar as “mal traçadas linhas”.

Marta Morais da Costa

Juntas em dia frio

Marta Morais da Costa

Atravessam minhas velhas juntas o frio e a preguiça. Um me paralisa diante do aquecedor. A outra me paralisa diante do computador.

É quando a preguiça toma conta, que o cérebro à toa decide e exige a escrita. Toda razão aos romanos: se o ócio domina, vão-se os negócios! E tudo é só deleite, de café e de vinho. Escrever traz todo o trabalho para dentro e é como se não fosse trabalho (tripalium, voltam os romanos: aquilo que tortura).

Tem quem me diga por que você não sossega? Outro me alfineta aposentou pra quê? De novo escrevendo? Isso não vai dar certo. E rolam estigmas, desalentos, ralas invejas.

Além das juntas, a idade corrompeu os tímpanos que perderam sua acuidade e viraram paroxítonas, timpano, timpano, cada vez mais roucos e moucos, negando os graves e alisando os agudos.

Fui sendo alfabetizada e letrada ao longo da vida, mudando de escala e de intensidade. Já prevejo mais uma aprendizagem, desta vez sem palavras faladas, só nas mãos – sem canetas ou teclados – mas na dança dos sinais. Talvez para compensar as juntas duras avessas à dança, as mãos dançarão, bailarinas não previstas a realizar aquilo que o corpo exigiu de esforços, e não teve recompensa. Dancei como Ginger Rogers e Cid Charisse nos braços de Astaire em todos os filmes a que assisti. E tomei chá de cadeira em todos os bailes da vida.

Faz mal, não. Lembra o ditado: quando a vida fecha uma porta, Deus abre uma janela? Pois é: quem tem pernas e quadris imóveis, dança com as mãos. Manuletrare, diriam os romanos se falassem o estrupício de latim que penso saber.

Advertência ao possível leitor: o frio e a preguiça somam-se em uma escrita macunaímica sincrética e desacreditável. Lá no romance, o piá confessa em nuvens de ingenuidade que mentiu. Com a cara-de-pau latino-americana, tem todas as etnias e vizinhanças e sai supimpamente para continuar mentindo e arrotando grandezas.

Não sou capaz de tanto, painho Mário de Andrade. Mas tenho também meus sincretismos : a preguiça de hoje juntou em um texto sem-vergonha algumas meninas de cabelos brancos e com zoínhos revirando de gosto, a contar seus desgostos e fragilidades, bebericando um chá mais a sustância de um bolo de fubá.

Eita povinho que se queixa de barriga cheia!

Para além da janela da sala onde escrevo sobre velhezas, vejo passar pessoas que não têm tripalium, mas têm os olhos fundos de fome e de abandono.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Memória, leitura e comemorações

Marta Morais da Costa

Neste 9 de agosto, meu pai faria 100 anos. Essa nossa ocidental preferência por números decimais e, talvez, a imagem mítica de Matusalém vivendo um século podem estar na origem de uma celebração desse percurso de tempo.

Para além dessa motivação numérico-religiosa está a ação da memória que, ao constatar na folhinha a data repetida durante muitos anos, que vinha acompanhada de abraços, festejos e presentes, presentifica imagens, palavras, recordações.

Gosto do termo recordações, que tem em seu centro a palavra coração. O latim cordem amarra-se ao prefixo de repetição e ao sufixo de ação e temos o passado em movimento. A data e o coração tomam de assalto a memória e num átimo atômico, o pregresso regressa.

Para sua leitura tranquila,  ó raro leitor ó esquiva leitora, não pretendo falar de emoções filiais, de sentimentos de falta, de histórias familiares extintas.

Quero tratar da memória. O neurocientista Richard Restak publicou recentemente no New York Times uma recomendação de cuidados com a mente e exercícios para preservar a memória. O primeiro desses cuidados é o da atenção, que exige um desapego de diversionismos e derivativos e uma constante vigilância para manter a focalização.

Quando ler dá sono, podemos apostar que o leitor está à beira de um colapso por excesso de trabalho ou sua atenção ao texto que lê se perdeu. Não se exclui, é claro, o falso leitor, aquele que faz pose de, o desabituado de leituras, até mesmo avesso a elas, que, para não passar vexame público, finge que leu.

Nesse artigo, Restak recomenda como exercício para a memória “ler mais romances”. Esta ingênua e persistente mediadora de leitura aqui, ao ver essa recomendação, elevou o neurocientista ao Panteão dos Gurus da Leitura.

Cá pra nós (como aprecio esta expressão de cumplicidade!), acompanhar um texto verbal longo não é para qualquer leitor digital ou de imagens (sequenciadas ou não). Talvez isso denuncie a memória curta de grande parte de cidadãos brasileiros… Não lembram o que viam e leram em curto espaço de tempo. Mais ainda, procuram apagar da memória, como se a vida fosse uma página em branco que se escreve a cada dia. Como se fôssemos seres caídos de galáxias vizinhas e de olhos completamente sem história nem imagens precedentes.

Ler um romance é exercitar a capacidade de lembrar. Lembrar personagens, espaços, imagens verbais poderosas e situações que aconteceram não a milhas de distância, mas há algumas páginas atrás.

Minha longa história com meu pai se encadeia  e se circulariza a cada dia à medida que mais dias cabem na minha biografia. Não é apenas no espelho que o reencontro. São frases, conceitos, conselhos. A nem todos adotei ou segui. Sem arrependimentos. Foram escolhas, desacordos e recusas. Como qualquer filho em sua relação com os pais, Freud explicou. Como a própria história das nações e dos povos: a imagem do Pai precisa ser superada para que a civilização possa afirmar-se.

A lembrança de meu pai no seu centenário me faz pensar mais agudamente e com tristeza no bicentenário do Brasil. E, no espelho dessa comemoração cívica, eu não me reconheço.

Fonte: https://www.estadao.com.br/internacional/nytiw/exercicios-mentais-e-mudanca-de-habitos-neurologista-da-dicas-para-proteger-a-memoria/. Acesso em 7 de agosto de 2022.

O escritor

Marta Morais da Costa

Era um escritor desorganizado que escrevia à mão em folhas soltas. Alguns textos terminavam em uma só folha. Outros se estendiam por várias, que ele nem se dava o trabalho de numerar.

Espalhava os escritos pelo escritório: sobre a mesa de trabalho, sobre a poltrona de leitura, sobre o armário. Dentro de gavetas, pastas e caixas.

Depois recolhia os textos desordenadamente. Assim, a história de um pato manco continuava na história do menino alemão que viajava pelo Alasca. A história do navio fantasma virava de repente a do lobo faminto, perdido na floresta.

Por isso, nasciam histórias incríveis, que surpreendiam os leitores. No entanto, era um escritor famoso porque suas histórias pareciam relatos de sonhos.

E ele era amado por isso, porque os leitores esperam muitas vezes que o fantástico venha preencher os vazios da vida real.

Agora, o escritor está se aperfeiçoando. Escreve frases isoladas em pedaços de papel que espalha pela casa toda.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Irene Vallejo

Você acha que o mal é um aliado da literatura?

Acredito que a literatura visa explorar o nosso interior, tanto os espaços luminosos quanto o subsolo escuro. Não creio que haja uma aliança entre o mal e a escrita, mas entre a criação e o humano em todas as suas facetas. Cada artista inventa o seu próprio percurso e mapeia os territórios que mais o fascinam. A bondade, como o mal, tem complexidades interessantes. Nosso Quixote, por exemplo, mergulha nas contradições de um personagem que aspira a ser justo e ajudar pessoas carentes, mas que comete grandes erros ao tentar colocar suas ideias em prática. O Idiota, de Dostoievski, é seu herdeiro. Uma literatura que só se interessasse pelo mal seria tão pobre quanto a literatura exemplar.

E aqui derivamos outro debate contemporâneo: a corrente que defende eliminar dos clássicos as palavras e ideias que dos nossos parâmetros atuais achamos inadequadas, especialmente os livros infantis e juvenis. Na minha opinião, é preciso aspirar a que os jovens entrem em contato com criações complexas, não com manuais de conduta. Personagens malignos são um ingrediente crucial nos contos tradicionais, para que as crianças aprendam que o mal existe. Mais cedo ou mais tarde eles terão notícias dela (dos valentões que os assediam no pátio da escola aos tiranos genocidas). O maravilhoso e perturbador Flannery O’Connor escreveu que aquele que “lê apenas livros edificantes está seguindo um caminho seguro, mas um caminho sem esperança, porque lhe falta coragem. Se por acaso você lesse um bom romance, saberia muito bem que algo está acontecendo com ele”. Sentir algum desconforto faz parte da experiência de ler um livro; há muito mais pedagogia na inquietação do que no alívio. Podemos colocar toda a ela vai parar de nos explicar o mundo. literatura do passado sob a faca para cirurgia plástica, mas então  ela vai parar de nos explicar o mundo. “

Parte da entrevista de Irene Vallejo publicada em :

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,best-seller-mundial-narra-a-espetacular-historia-do-livro,70004120020

A espanhola Irene Vallejo é autora de “O infinito em um junco” sobre a história do livro.

Que diriam os fariseus sobre Monteiro Lobato?

Crença

Marta Morais da Costa

Atrás de qualquer porta

a lua pode te seduzir.

No muro que te cerceia

a curruíra faz seu ninho.

Na paisagem deserta

a flor oculta as pedras.

Na árvore seca

a cigarra vem cantar.

Por trás da pálpebra

o olho busca a luz.

Assim o tempo que te corrói:

preserva em um átimo

nítidas lembranças

e a frágil esperança

da sobrevivência,

fortuita,

aleatória.

Livro

Foto por rikka ameboshi em Pexels.com

 

 

 

Todo livro principia

no ponto de encontro

da ponta com o papel.

 

Lápis ou caneta,

pouco importa.

 

Qual broca na rocha

a ponta cria o ponto

de onde jorram águas

                ainda impuras,

represadas,

embebidas

de matéria orgânica

que fertiliza a escrita

na enchente das páginas.

 

Agricultor zeloso,

o escritor se entrega

ao solo copioso

a separar o joio

– que indiciará a realidade –

enquanto faz do trigo

o pão das utopias.

 

Marta Morais da Costa

Ética

Marta Morais da Costa

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Acreditava no amor, aquele que é doação, sinceridade, respeito e resiliência.

Mas continuava solteiro. De todas as namoradas, nenhuma cumpriu a lista de qualidades exigidas.

Acreditava na amizade, nas trocas, na companhia para todas as horas.

Mas vivia encerrado em casa, solitário. Amigos com problemas e sem humor eram deixados de lado.

Acreditava na ciência. Toda a ciência: a que cura, a que moderniza, a que inventa. Até aquela que planeja e constrói coisas feias.

Mas caiu nos braços da superstição e da magia. A ciência havia trazido a guerra e a ganância.

Acreditava na educação como impulso para vidas marcantes.

Mas doou todos os livros, rasgou diplomas e vendeu computador e celular. A educação desejada só vai chegar quando ele não mais estiver sobre a terra.

Acreditava na felicidade plena em comunhão com a natureza.

Mas morava em um apartamento de 30 m² de frente para outro apartamento de frente para outras janelas fechadas de frente para paredes sem reboco.

Acreditava em todas as igualdades e em todos os méritos.

Mas descobriu o preconceito, Medusa indestrutível.

Acreditava na paz de espírito com a chegada da velhice.

Está morrendo aos poucos entre gemidos e dores: gasto, roído e triturado.

Não acreditava no poder da mentira e da fraude.

Viveu e viu.