Sobre a formação de leitores

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Formar leitores vai além de alfabetizar. Supera momentos de encanto e emoção. É mais do que ter uma companhia que leia em voz alta ou que esteja junto em uma leitura silenciosa e individual. Formar leitores não é encher a casa de livros ou deixar alguém em uma biblioteca, perdido entre estantes.
Formar leitores tem a ver com educação, gradação, diversidade, acompanhamento. Não tem a ver com controle. Significa dar a mão para a pessoa e ensiná-la a andar entre livros.
Formar leitores (não importa se crianças ou adultos) é apresentá-los aos textos do mundo, contar de sua beleza e de seus perigos, exemplificar com outras histórias de leitores (inclusive a nossa) e aos poucos educar para ver, compreender, interpretar. Para descobrir e recriar.
Educar tem a ver com conhecimento e paciência. As pessoas têm tempos diferentes de aprendizagem: o educador lhes oferece o seu tempo e o seu saber. O saber não é um depósito de informações. São aprendizagens lidas e vividas colocadas a serviço de outrem. Um educador que não lê, não serve para formar leitores. Não terá a aprendizagem necessária para o infinito de textos. Não apenas em livros: em palcos, em sons, em papel, nas telas digitais.
Quem não sabe nadar, sucumbe ao mar. Para nadar no mar é preciso saber navegar. Para o oceano de textos, o leitor precisa de bússola, mapas, roteiros, ciência. Que se aprende na prática e no legado dos navegantes que por esse mar viajaram.
Formar leitores é uma arte. Arte tem a ver com técnica. Técnica tem a ver com estudo.
Estudo tem a ver com leituras. É o ciclo da vida. O círculo.

Apelo

Marta Morais da Costa

Não invoques os espíritos

contra a corrupção dos homens:

eles vivem na paz,

não virão para a guerra.

Não invoques a fúria paterna

para defender-te das injustiças:

aprende a lutar tuas próprias batalhas.

Não invoques o amor materno

para curar teus ferimentos do existir:

cura-os com a homeopatia do viver.

Não invoques o meu amor

para perdoar tuas ofensas:

aceita que ele está findo,

exaurido, estéril, ultrajado.

Nenhum apelo o fará renascer.

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Quereres

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Marta Morais da Costa

Quero a montanha e a árvore
quero a trilha íngreme
o ar fresco da altura
os pés nas pedras do caminho.
 
Quero a solidão gelada
a invadir nuvens e silêncios
onde a dor não respira
e a mortalha não alcança.
 
Quero cascatas impetuosas
diluindo nos abismos
os assombros o desespero,
o abandono a impotência.
 
Quero no canto dos pássaros
ver acolhido o desvalimento
mais atroz desses dias
sem oxigênio e sem saída.
 
Quero nas alturas ter asas
para fugir em direção ao sol
abandonando ao léu
as penas não consoladas
as lágrimas não extintas
a humanidade dissolvida
em arquejos e isolamentos,
cinicamente desprezados.
 
Quero levar comigo
na dissolvente memória
os dias não vividos
as dores vizinhas
os sacrifícios humanos
a perda dos amores
as esperanças roubadas.
E sepultá-los pelo caminho.
 
Quero deixar na terra
o horror de números
em escalada lúgubre,
hidras com mil cabeças
a uivar tragédias
a buscar o oxigênio
de um futuro que
talvez não chegue.

400 mil seres humanos

O horror tem limites? Estou descobrindo que não.

Mensagens insistentes de que o “céu fica em festas” quando recebe as pessoas queridas comprovam uma forma esperançosa de autoengano.

Entendo a necessidade de amenizar o luto e criar um espaço em que minimamente a dor possa se recolher e ferir menos.

Reconheço que a dor estraçalha e arrebenta todos os sentidos.

Questiono um céu coalhado de milhões de novos mortos, mais do que nunca surpreendidos quando levavam uma vida normal. Ou que acreditavam ser normal: poder escolher ficar ou sair, estar consigo ou com muitos, viajar, visitar sem compromisso as mecas do consumo, abraçar, apertar as mãos de conhecidos ou não, tomar um café ou um porre na mesa do bar, trabalhar respirando sem obstáculos, manifestar-se em presença.

Questiono um céu aglomerado abrindo espaços na Terra e nos corações com São Pedro atarantado e frustrado por não poder receber a todos com as honras, cuidados e atenção que cada um merece. Batalhões e batalhões de anjos convocados com  urgência para dar suporte ao atendimento, mais  do que os batalhões de equipes intensivistas, do que os contingentes de profissionais da saúde.  

Nem a diferença de quem recebe almas e de quem recebe corpos com almas pode desqualificar uns ou outros. Anjos e homens formam uma corrente de acolhimento que parece ligar o Céu e a Terra.

Pensando melhor: nem tudo é tão sereno, nem tudo é tão contínuo, nem tudo é tão homogêneo. Nem o paralelismo formal é definitivo ou definidor.

Há aqui na Terra, porém, camadas de horror que bradam aos céus – mesmo que do Céu eu nada conheça e só reproduza o o que me contaram ou o que li. Horror nascido de nossa pobre e material humanidade concreta. É possível imaginar a dor física, a expectativa de cura, a consciência do fim, tudo o que a pessoa moribunda gostaria de viver, dizer, amar. Sofremos junto. Isto é, alguns conseguem essa empatia humanizada. Outros apenas contam quantidades, sem lhes dar algum valor social ou humano. Somente valores numéricos: atingimos a cifra, a curva é ascendente, a média móvel sofreu acréscimo de 7%, estamos em segundo lugar no número de mortos. E dê-lhe polca pandêmica!

Nesta semana, sofro de falta de ar (não aquele que levou ao céu tantas pessoas). Mas só encontro o ar fétido de uma sociedade em grande parte anestesiada e que desligou qualquer aparelho de consideração ao outro, de respeito à coletividade. Aquela que sai em busca de um prazer inadiável, de interações superficiais, de goles substanciais de “eu posso’ e  “eu quero” e “e daí?”. Se uma parte desse contingente pode ser considerado imbecil e ignorante, outra parte sofre de sociopatias diversas ou brinca de falsa divindade.

Tenho neste momento (e muitos como eu, certamente) os olhos assombrados pelo medo – por mim e por muitos queridos -, os olhos ensandecidos pelas imagens de não-me-importismo, os olhos inundados pelo lamento e pelo sofrimento de quem foi apartado de seu bem-querer, os olhos indignados pela incompetência daqueles que tudo açambarcam e nada entregam, os olhos a cada dia mais sem brilho ao reconhecer que “vivo em um tempo de guerra, vivo em um tempo sem paz” e vivo em completa derrota por não ter suficientemente contribuído por um mundo melhor.

Observação 1: Esta crônica foi editada inicialmente em 26 de fevereiro de 2021 com o título “251 mil”, mas na medida que a tragédia nacional foi se tornando mais cruel e o número de vidas perdidas aumentou, o título foi sendo atualizado. As demais palavras, embora duras, embora desestimuladoras, porém, continuam sinceras e válidas.

Observação 2: No dia de hoje, 29 de abril de 2021, o Brasil tem registradas 400 021 mortes pela COVID 19. Neste curto tempo de fevereiro até agora, cada atualização do título desta crônica custou a mim doloridas reflexões, intensa indignação e um lamento infindável. Diante da necropolítica que trouxe os brasileiros até aqui, o sentimento de perda não se extinguiu. Extinguiu-se, sim, minha capacidade emocional de seguir registrando ausências. Respeitosamente, pouparei a mim e a meus caros leitores o registro continuado de nossa tragédia.

Marta Morais da Costa

Máscaras

Marta Morais da Costa

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Versão Céu Estrelado

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

Aos poucos fomos perdendo o receio do pior: bastava ficar recolhido, sair tomando cuidados básicos: distanciamento, máscara, álcool em gel. Passamos um pouco de dificuldade no início: tudo era muito diferente. A falta da vida normal de saídas, encontros, conversas, longos abraços doeu um pouco. A certeza de que estávamos ajudando a salvar vidas, a manter o vírus afastado, a não piorar as estatísticas, acendia a luz da cidadania.

Textos nas redes, telefonemas, oferta de auxílio (em especial para os quarentenados idosos), um desejo de ser solidário (muitas vezes o desejo transformado em ações), podcasts, lives, mensagens de otimismo, muito coraçãozinho e fotos lindas da natureza, de festas antigas, de viagens de sonho. Isso tudo foi acalmando a ansiedade, diminuindo o medo, acomodando nossa vida a um retiro cujo final era luminoso.

As notícias sobre vacinas começavam a ocupar o espaço em noticiário e a produzir imagens de salvação dentro de nossa voluntária solidão. Aprendemos a ter paciência, a minimizar problemas, a rever valores e comportamentos. Ficamos mais próximos de nossos próximos e mais senhores de nós mesmos.

Dedicamos o tempo a tarefas que relegávamos a outrem ou novas ações e atitudes. Aprendemos línguas estrangeiras, lemos mais e outros livros, assistimos a filmes de todas as categorias, colocamos ordem em horários, coisas e rotinas domésticas.

Nossas casas ganharam efetivamente o sentido de lares: proteção, companheirismo, boas práticas de relacionamento, um “vamos junto” até que a covid nos separe. Mas resistimos, vivemos mudanças que reconhecemos temporárias. Talvez sobrevivam em tempo sem quarentena. Talvez não.

É verdade que os divórcios aumentaram, que as crianças perderam aprendizagens, que os projetos para o Ano Novo foram destruídos e que a balança foi impiedosa com o sedentarismo obrigatório. É verdade que a cidadania (antes uma miragem) mostrou sua face de verdadeiro deserto sem fim, cruel, impiedoso, canalha. Mas hoje até relevamos essas dificuldades porque a proximidade do dia de vacinação apagará todos os pecados.

Afinal, um ano não vivido na integralidade é muito pouco para a sobrevida que acreditamos estar logo à frente.

Corremos sem sair do lugar e aquartelados entre a porta de entrada e a sem saída, aguardamos que nossa obediência e nossa reclusão (com toda sua carga de sacrifícios) nos mantenham vivos até a liberdade, ainda que tardia.

Esperamos a luz no fim do túnel, antes que ele se feche.

Foto por Francesco Ungaro em Pexels.com

Versão Raios e Trovoadas

Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.

Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.

A epidemia virou pandemia, três meses se quadruplicaram. O medo se tornou um item do cardápio diário. Toda a vida foi trancada em um quarto escuro, guardado por um pitbull e fechado a cadeado.

Os safados e os sacanas de sempre atacaram e destruíram o que apareceu pela frente. Continuam a agir diante de nossa passividade e covardia. Descobriram que o medo é o senhor da razão. Colocaram sem pudor na vitrina sua crueldade, indiferença, ganância e insaciável cobiça.

O novo normal veio em forma de deboche e despreparo. Toda incompetência e arrogância conheceu a luz, despudoradamente.

Veio a ciência com seu discurso meia boca e meia cara. Existe vacina, mas não para todos. Existe conhecimento, mas não para todos. Existem saídas, mas… Afinal, a ciência também é humana, feita por quem se cansa e por quem desiste.

Quem sabe a fé. Deus provê. Enquanto uns oram por seus mitos, outros rezam por seus mortos. Os agnósticos riem esfíngicos. Ao menos não descreem em vão.

A quarentena se transformou em trecentena e como a pilha de mortos, não cessa de crescer. Empilham-se os dias e sonhos e ânsias de liberdade. Para os tolos. Os espertos sempre continuam a vida normal, descuidados, debochados, inconsequentes, carpindo os dias para sai e a noite derradeira para os outros.

O novo normal é a revivescência da barbárie. A solidariedade é  o encontro virtual, o que se deseja com a certeza de nunca realizar.

Um ano se vai em um país pindorâmico de um anão anestesiado que sonha um abortado futuro. Não terra brasilis, sed terra ignorantis.

Hoje, com futuro encolhido e regressivo, em um quarto com janela gradeada, de onde se vê o horizonte e as flores, e de onde só sairemos em direção ao porão.

Depois de um ano, colecionamos virtualidades. O mundo dos robôs já chegou. Nossa convivência é com máquinas. Não com gente. As lives são pessoas bidimensionais, como em canais interativos. Não com pessoas diversas, mas com inimigos transmissores, que também nos olham e nos consideram inimigos.

Uma sociedade acuada pelos lobos famintos, agressivos e solidários apenas com sua alcateia.

Uma sociedade ameba, enclausurada, a implorar por vacinas e pela velha normalidade. Desejando apenas continuar a ser sobrevivente, já que a vida se restringiu a paredes, ilusoriamente transitórias.

O novo normal, se chegar, será árido por fora e ácido por dentro. Uma sociedade obrigatoriamente adoecida, em que o riso é um esgar e a voz, um sopro.

Não existe vacina para a assustadora descoberta do Mal e para a devastação interior.

Desfile

Marta Morais da Costa

de mansinho cheguei ao camarim
no silêncio da madrugada
em cima vesti  cetim
por baixo rala alpaca
olhos de quiçá e cautela
pensar de só dúvidas
 
às pressas saí pra rua
pernas à toa
voz em sussurro
fora de prumo
leque de plumas
olhar quase azul
 
cantei
dancei
cansei
 
hora de retrair
mãos vazias
rosto sem brilhos
traje em tiras
na passarela
jaz a fantasia

 

esquecida
no asfalto.
 
cá dentro a nudez
reveste o  jamais

Albert Camus, cartas e laços.

Albert Camus (1913-1960) foi romancista, ensaísta, dramaturgo, filósofo e jornalista. Construiu sua obra baseado em um humanismo em que a consciência do absurdo da condição humana produz a revolta como uma resposta a esse absurdo. Entre seus textos há uma linha de pensamento filosófico desse absurdo presente na obra O mito de Sísifo (1942) , bem como nos romances O estrangeiro (1942) e A peste (1947) e peças de teatro como Calígula (1945). Em 1957 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Foi uma das mais importantes  consciências morais  do século XX. Faleceu em um acidente de automóvel em 1960.

Ao receber o Prêmio Nobel escreveu uma comovente carta de agradecimento a seu professor da escola primária, M. Germain Louis. A carta de Camus é conhecida. Menos acessível é a resposta de seu professor, de que não encontrei tradução em português e cometi a ousadia de traduzi-la do francês. A seguir as duas cartas.

19 de novembro de 1957

Caro Monsieur Germain,

Deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar-lhe de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno reconhecido. Eu o abraço com todas as minhas forças.

Albert Camus

Carta publicada em “O primeiro homem”, de Albert Camus. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silverira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

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30 de abril de 1959

Meu querido menino,

Recebi, enviado por ti, o livro Camus, que o senhor J.Cl.Brisville houve por bem dedicar a mim.

Não sei expressar a alegria que me propiciou teu gesto gentil nem a maneira de te agradecer. Se fosse possível, eu abraçaria fortemente o rapaz que te tornaste e que seguirá sendo para mim sempre “meu pequeno Camus”.

Entretanto ainda não li a obra; apenas as primeiras páginas. Quem é Camus? Tenho a impressão de que aqueles que tentam decifrar tua personalidade não chegam a fazê-lo de verdade. Tu mostraste sempre um pudor instintivo em mostrar tua natureza, teus sentimentos. Tu consegues fazê-lo melhor quando tu és simples, direto. Bom demais! Estas impressões, tu me deste em sala de aula. O pedagogo que quer exercer com consciência sua profissão não negligencia nenhuma ocasião para conhecer seus alunos, suas crianças, e ele não cessa de o fazer. Uma resposta, um gesto, uma atitude são amplamente reveladores. Eu acredito, por isso, conhecer bem o rapaz gentil que tu eras, e o menino, frequentemente, contém em embrião o homem em que se tornará. Teu prazer de estar na aula revelava-se de todos os modos. Teu rosto expressava otimismo. E ao te analisar, eu jamais desconfiei da verdadeira situação de tua família, e não tive senão uma rápida percepção no momento em que tua mãe veio me ver a respeito de tua inscrição na lista dos candidatos a uma bolsa de estudos. Além do mais, isso ocorreu na ocasião  em que tu irias me deixar. Mas até aquele momento tu me parecias estar na mesma situação de teus colegas. Tinhas sempre tudo o que precisava ter. Como teu irmão, tu estavas adequadamente vestido. Acredito que eu não possa fazer um mais belo elogio a tua mamãe do que este.

Eu vi a lista crescente das obras que te são consagradas ou que falam de ti. E é uma satisfação muito grande para eu constatar que tua celebridade (é a exata verdade) não fez tua cabeça. Tu continuaste a ser Camus: bravo. Acompanhei com interesse as múltiplas peripécias da peça teatral que adaptaste e também montaste: Os possuídos. Gosto tanto de você que não me impediria de te desejar o maior sucesso: aquele que tu mereces.

Malraux quer, também, te oferecer um teatro. Sei que o teatro é tua paixão. Mas…conseguirás tu levar a bom termo e avante todas essas atividades? Temo que tu abuses de tuas forças. E, permita a teu velho amigo de observar, tu tens uma esposa gentil e duas crianças que necessitam seu marido e pai. A este respeito, vou te contar o que nos dizia às vezes nosso diretor da Escola Normal. Ele era muito duro conosco, o que nos impedia de ver, de sentir, que ele nos amava realmente. “A natureza tem um grande livro em que ela escreve minuciosamente todos os excessos que vocês cometerem.” Confesso que este sábio conselho me conteve muitas vezes no momento em que eu parecia esquecê-lo. Por isso digo, tente manter em branco a página que te foi reservada no Grande Livro da natureza.

Andréia me lembra que nós te vimos e ouvimos num programa literário da televisão, referente à peça Os possuídos. Era emocionante te ver respondendo às perguntas. E, apesar de mim, eu fazia a observação maliciosa de que tu não duvidavas que, finalmente, eu acabaria te vendo e ouvindo. Isto compensou um pouco tua ausência da Argélia. Não te vemos há tanto tempo…

Antes de terminar, quero te dizer o quanto me fazem sofrer como professor leigo, os projetos ameaçadores urdidos contra nossa escola. Acredito, ter respeitado ao longo de toda a minha carreira o que há de mais sagrado na criança: o direito de procurar a sua verdade. Eu vos amei a todos e creio haver feito todo o possível para não manifestar minhas ideias e não pesar assim sobre vossa jovem inteligência. Quando o assunto era Deus (está no programa), eu dizia que alguns acreditavam nele, outros não. E que na plenitude de seus direitos, cada um fazia o que queria [fazer]. O mesmo para o capítulo das religiões, eu me limitava a indicar aquelas que existem, às quais pertenciam aqueles a quem ela agradava.

Para ser sincero, eu acrescentava que havia pessoas que não praticavam nenhuma religião. Sei bem que isso não agrada àqueles que gostariam de fazer dos professores uns caixeiros viajantes da religião e, para ser mais preciso, da religião católica. Na Escola primária da Argélia (instalada então no parque de Galland), meu pai, como seus companheiros, era obrigado a ir à missa e comungar todos os domingos. Um dia, revoltado com esta obrigação, ele pôs a hóstia “consagrada” dentro de um livro de missa e o fechou! O Diretor da escola foi informado desse fato e não hesitou em expulsar meu pai da escola. Eis o que querem os partidários da “Escola livre” (livre…para pensar como eles). Com a composição da atual Câmara de Deputados, temo que o golpe tenha sucesso. O “Canard Enchainé” assinalou que, em um departamento, uma centena de turmas da Escola leiga funciona sob um crucifixo afixado na parede. Vejo nisso um abominável atentado contra a consciência das crianças. O que virá a acontecer daqui a algum tempo? Esses pensamentos me entristecem profundamente.

Saiba que, mesmo quando não escrevo, penso frequentemente em vocês todos.

A senhora Germain e eu abraçamos fortemente a vocês quatro.

Afetuosamente teu

Germain Louis

Post Scriptum: Deixo a cada leitor a interpretação da carta do professor Germain Louis, mas não posso deixar de manifestar minha admiração pelo exemplo de ser humano e de profissional educador. Há na relação entre o professor e o aluno por ele educado uma corrente ética indelével, transfusiva, de continuidades. Assim como nossos filhos, nossos alunos serão sempre “nossos pequenos”, não porque permaneceram infantis, mas porque deixaram em nós o sopro da infância e da juventude que manteve nosso espírito vivo e interessado na vida e na profissão.

Marta Morais da Costa

LEITURA

Marta Morais da Costa

Hoje, 7 de janeiro, Dia do Leitor

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Folhear livros é ter certeza da ignorância.

Ler vorazmente é a certeza do tempo rarefeito.

Na biblioteca infinita a consciência do tempo.

Na solidão da página a evidência do outro.

Um livro é o começo de outro eu,

desenhado na capa dos encontros,

inatingível na última página,

lançado à incógnita do próximo volume.  

Na leitura, a eterna incompletude.

O sorriso

Marta Morais da Costa

Se pudesse, passaria o dia todo sorrindo. Não porque fosse uma otimista, mas porque seus dentes eram perfeitos, brancos como a neve ao cair.  Os músculos faciais, ao se retesarem para formatar aquela expressão de completo acordo com a vida, faziam sobressair as maçãs do rosto, em puro veludo rosa. A pele esbanjava brilhos e os olhos executavam uma ciranda caprichosa e franca. A cabeça parecia ganhar altura e o corpo repousava em uma postura ao mesmo tempo sem tensões, mas atenta, como que à espera do correspondente sorriso alheio, receptivo, admirador, concordante.

Sorrir era sua arma de conquista, sua alma exibicionista. Era um cartão de visita e a  mensagem de ocupação do espaço-tempo do contato, da conversa, do centro da roda.

Sorria segura, ocultando atrás das retinas um cérebro de observadora, de cientista, de dissecadora de cobaias. Armadilhava o sorriso e capturava detalhes e reações que, de imediato, selecionava e arquivava na memória. A surpresa de quem a considerava apenas mais um exemplar de fêmea. A admiração de quem inscrevia em sua pessoa o sinete de mulher perfeita. A explosão emocional em quem o rosto em movimento elevava o enlevo ao grau mais absoluto de amor à primeira vista – melhor, ao primeiro sorriso. A contida inveja de possíveis rivais estraçalhadas entre o reconhecimento da força de sua presença contente e a autopiedade pela revelação dos próprios defeitos. Mais que todos, sobressaía o olhar hipnotizado do esteta no momento em que descobria a sua frente uma Vênus renascida ou Galatéia retirada da pedra informe.

Sorria e amealhava reações. Sorria e alimentava-se com a adjetivação superlativa que coalhava o chão imaginário em seu redor. Sorria e vampirizava a existência alheia, sobrevivente.

Veio o tempo em que o sorriso fixou-se. Não aceitava que ele desaparecesse do espelho em que, estática, se contemplava. Recusava posar para fotos em que só ou acompanhada não pudesse irradiar o sorriso complacente com a posteridade. Sentava-se à mesa, desdenhando ações mortais de comer e beber: passava as refeições entre líquidos sorvidos entre lábios distendidos e garfadas-relâmpago a justificar um mastigar risonho. Adormecia somente após certificar-se que o rosto ainda encenava a alegria de permanecer sorridente na cabeça pousada sobre o travesseiro.

Para todos, era a Miss Simpatia perfeita nos primeiros encontros. Aos poucos a fixidez inalterada do sorriso emitia sinais de complacente e pegajosa aceitação de tudo. Em pouco tempo, o sorriso assemelhava-se a uma máscara a desdenhar da realidade e a qualificação de indiferença e desprezo pela dor alheia colava-se ao ricto facial. Ela envelhecia em uma ilha de solitude.

O sorriso que atraía era o mesmo que afastava. Seu senso de observação passou a exigir mais aproximação, mais empatia. Passou a exercitar os músculos para compor expressões de afeto, de compreensão, de consideração para as histórias de outros. O sorriso, antes fixo, começou a apresentar fissuras e desalinhos. Na desarmonia do rosto não mais imperava a atração. Abria-se o confronto com a repulsa.

Sorria automaticamente para os pedidos de ajuda, para as queixas de amor, para as notícias de luto, para as urgências da fome, para as descrenças e desesperanças. Quem se aproximava dela era recebido pela mecânica irrefreável de um sorriso petrificado. Por dentro, ela se contorcia em impossíveis mudanças da face: queria gritar sua compaixão, despejar suas lágrimas, estender-se em ouvidos solidários.

Em vão. A solidão alargou-se em profundo isolamento.