Os bonitinhos 1

Marta Morais da Costa

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O rádio do carro me faz companhia. Fico sabendo que há uma campanha pública para adotar um ninho artificial para que os papagaios em quase extinção na Serra do Mar possam se acasalar e procriar. Uma iniciativa meritória em um país tão pouco cuidadoso com sua natureza. Um país que considera meritórias narrativas com bichinhos tão bonitinhos de carinha tão amigável e pelos que pedem carinho. Veja, Carlinhos! Observe, Luisinha! Não é lindo, Aninha? Com isso cresce a meiguice, a noção falseada sobre ratos e aranhas, ursos e serpentes, mas todos animais dignos de cuidados: tão bonitinhos!

Em um país nem tão distante, nas fotos e vídeos, as expressões de medo, o olhar assustado, a mão pequena colada na mão da mãe, as crianças esquecem as narrativas e seus personagens para atravessar corredores humanitários em fuga incompreensível. A disputa do espaço da rua não se dá com carros ou com brincadeiras: a paisagem é ocultada pelo carro de combate, pelas armas, pelo fogo que resta da batalha sem piedade. Nenhum livro, nenhuma escola, nenhuma paz doméstica preparou esses perdidos meninos e meninas para um tempo de guerra.

Os olhos que veem a guerra, viram a vida tranquila. Os olhos que viram a paz, agora contemplam as armas. Talvez na sua perdoável ignorância, achem tudo com cara de brincadeira, a mesma, só que em versão trágica. O gesto das mãos continua a cuidar do figurino da boneca amada, a fazer rodar o caminhão de bombeiros, tão bonitinho, vermelho e com luzes piscantes! Marcha, soldado/cabeça de papel…

As crianças de guerras pautadas pelo absurdo estão espalhadas pelo chão que sangra, ou deitadas em macas de flores vermelhas regadas com abundância, ou olhando incrédulas de olhos abertos e imóveis um céu enegrecido pela bestialidade adulta. Não mereceram nem os cuidados que animais predadores recebem nas histórias que ninguém mais lhes contará.

Crianças tão bonitinhas longe de seus bichinhos tão bonitinhos, maiúsculas em seu sacrifício, berrando cá dentro em mim a dor de um tempo convulso e sem remissão.

Veja, Carlinhos! Por que você está dormindo, Luisinha? Não é triste, Aninha?

AVESSOS

Marta Morais da Costa

 

nas contas opacas de um colar de dores

a cinza leve de um corpo ausente

 

no sorriso tímido de um rosto magro
a voragem imersa da fome atroz
 
a lua alfange mira o vácuo
a vida desatenta se esvai
 
no canto do quarto em silêncio
o menino sorve o veneno do sonho
 
a noite insensível ensombra
 
ela dá as costas e tranca a porta
desta vez sem volta.
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FINÍLOGO

Marta Morais da Costa

O livro chega ao fim. Choro devidas lágrimas. Ou um entressorriso de final feliz. Ou um brutal ponto de interrogação: como? acabou? mas “isso” é um final?

Final não sei, mas sinal de resposta do leitor “isso” é.

Mas, e para quem escreve?

Chegar ao final é brindar com champanha como no filme “Obsessão”?

Tirar toneladas de temores e ansiedade dos ombros e da consciência?

Colocar o computador no modo enviar e jogar a bomba no colo do editor?

Ou é sair sorrateiramente no meio da madrugada e ir beber sozinha no Bar Fim de Noite no largo São Judas aqui no calçadão do bairro?

Ou é fechar o arquivo do livro ainda sem título, deixar pra amanhã, escovar os dentes e cair com a roupa de trabalho na cama desalinhada e deixar Morfeu atacar com mísseis e obuses o corpo em exaustão?

Só sei que ao acordar só lembrava os deuses do Olimpo tentando me convencer que a vida continua e vale a pena.

Não sei se foram eles, não sei se foi minha contraparte enxerida e digitante, não sei se copiei de algum site e esqueci qual, mas, ao abrir o computador no dia seguinte, saltou pra tela o último escrito da noite do fim do livro.

Peço aos amigos e inimigos, a algum e nenhoutros que escrevam pra mim dando respostas ou pistas mínimas sobre a autoria da cantilena que transcrevo.

Desde já considero que amigos ou inimigos respondentes integrarão a história do livro que, recém-findo, já deve andar por aí leve e solto, pronto para afagos e sopapos. Sempre receptivo a outras e novas palavras.

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Desenlaçamento

 

Um ensaio crítico sobre a história do livro pode ser a costura entre retalhos de histórias de livros, tal como uma história da leitura resulta do somatório parcial de histórias de leitores.

O propósito de aproximar, comparar, escolher e redigir fatos esparsos, coletados por outros escritores vários e diversos, é um exercício de persistência, de leitura de incontáveis páginas (impressas e virtuais), de um amálgama de materiais por vezes conflitantes, de um exercício diário de escolhas, de descartes, de favorecimentos.

Para quem escreve é, acima de tudo, estar em constante estado de aprendizagem. Não apenas de assuntos ou fatos ou narrativas sobre fatos, mas aprendizagens de entrelinhas, de empatias, de concordâncias e discordâncias teóricas e ideológicas em busca da construção de um texto denso e fluido, informativo sem ser cansativo, de admiração sem ser acrítico.

O resultado geralmente deixa lacunas no tecido da escrita pela impossibilidade de usar todos os fios, de saber que uma nova leitura trará à tona informações submersas. Emerge também o desejo maior e sempre avassalador de reescrever, de adicionar, de limar o estilo, de apagar impurezas, de recomeçar.

A escrita de um livro é sempre o desejo de reescrevê-lo.

Esse sentimento de recomeço corre paralelo ao momento da despedida, ao se colocar no alto da página a palavra “conclusão”.

No entanto, é necessário neste livro, que irá lançar-se ao mar dos leitores e do infinito de obras já escritas, colocar o ponto final – na realidade, as reticências.

Para tanto é preciso (re)ler, (re)ver o que ficou nas páginas anteriores e procurar dar a elas um norte, uma amarração, ou como Nanci Nóbrega ensinou, um arredondamento. Juntar o fim com o começo e o meio, e como a mítica serpente Ananta, percorrer o espaço sem tempo, fechar um círculo, uma etapa, um trabalho. Então, vamos concluir.

Destaque

Tocando as mesmas teclas

Marta Morais da Costa

Tem manhãs que são como holofotes sobre o nada. Muito trabalho e pouco resultado aproveitável.

Tem manhãs que são como roseiras em flor: o trabalho rende umas flores miúdas e bonitas, mas muito, muito espinho.

Tem manhãs que são como show de hard rock: muita luz, fumaça, barulho, maquilagem e gritos como se fosse música. O resultado? Cabeça à roda, corpo moído.

Tem manhãs com gosto de café, de terra molhada por chuva fininha, de sabiá cantando a alegria de filhotes. Dá vontade de escrever.

Hoje novamente foi assim.

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O que veio para a ponta dos dedos foi uma cantilena antiga, ciranda de volta e meia, partitura toda de cor e ação, sons arcaicos, ritmo em dobras e voltas, ideias de voltas e dobras.

É que o assunto era a formação de leitores, “pra toda vida” dizem os utópicos; “na prática de sala de aula” pedem os ansiosos; “pra meus alunos deixarem os tabletes e os celulares” rogam os desiludidos.

O café, a chuva e o sabiá sonorizam e aromatizam a escrita. Só que ela vem dizer quase que o mesmo de anos passados porque o presente não soube ou não quis ver, ouvir, dançar junto, repartir.

Nas teclas já conhecidas o que surge é enumeração farta e aberta.

1 Gostar de ler é como amor feinho: leva tempo pra chegar, vem sorrateiro e fica morando pra sempre. Precisa de dois: olhares, recusas, balbucios, rubores, persistência. Mas quando chega, toma posse, instala-se, abre as janelas, purifica o ar e a alma.

Precisa de dois: eu e tu, tu e eu. Um livro e um leitor, apresentados em festa ou em velório. Presenteados: tu me envolves e eu recuo. Eu recuso, tu insistes. Tu demonstras e eu me calo. Eu te afasto, tu me cercas. Não te esqueço e tu me enlaças. Depois, cantam as harpas de Sião.

2 Formar leitores não é colocar em fôrmas. É estimular em alguém as formas de expressão, de extensão, de comoção. Formas são infinitas, pessoas são infinitas, livros são infinitos. Finita é a displicência, a ignorância, a desimportância e a falsa suficiência.

Precisa criar, rir, compartilhar, narrar e poetar o quanto não baste, nunca. Lançar ao ar as folhas da fantasia e as flores da sedução e esperar ansioso que elas caiam no colo de quem não sabia que as desejava tanto. Banir a tempestade das utilidades para um canto remoto; trazer no assovio a mutável imaginação para um namorico sob o leque da palmeira dançando com a brisa.

3 Leitura é infinda como as águas dos mares. Diversas em coloração, efêmeras em humores, fieis ao ir-e-vir constante, ora rasas-ora abismos, às vezes piscosas-às vezes perigosas, sempre maiores do que o tamanho de nossas vidas.

Quanto mais leio, mais releio. Quanto mais acumulo, mais devo. Quanto mais me despreza, mais me tem de joelhos. Quanto mais, quanto mais…

4 Um livro é uma máquina criada e movida por pessoas. Cadeia de gentes, seus elos são ares e olhares de quem pensa, age, recolhe e leva adiante. Elos de uma corrente que foi, é e virá. Diálogo entre tempos, têmperas e temperamentos. Corrente que integro e lego. O elo pequenino que sou suporta a torrente de todos os leitores.

O livro, indiferente ao meu afeto, segue, Casanova, em busca de mais amores.

Magnetismo

Marta Morais da Costa

Foto por Jaiju Jacob em Pexels.com

Se você pensa que leitura é atividade para sedentários, para velhinhos solitários, para esquisitões que adoram posar de intelectuais, para desempregados que precisam dar um up em seus conhecimentos, para aqueles entediados que buscam emoções em romances apimentados, enfim, para viajantes confinados pela pandemia que, na falta de viagens reais, buscam nos livros os países que não podem visitar, então, me desculpe: você está sendo restritivo, equivocado, talvez até preconceituoso.

Se você aí, prefere outras atividades mais emocionantes ou recompensadoras que a leitura, tipo viagem para qualquer lugar (até em volta de seu bairro), ou prefere o suor das academias, ou até mesmo o balanço das ondas sobre um barco ou deitado na areia. Ou uma visita ao shopping com todo o stress e aqueles encontros inesperados que acabam em café frio ou virada de rosto para não encarar o inimigo. Ou uma sessão de cinema, perfumada pelo ranço da manteiga da pipoca super-salgada. Ou a conversa de bar que acaba invariavelmente com seu humor no dia seguinte, embebido em uma ressaca homérica. Ou…ou… Me perdoe a franqueza, mas você está sendo restritivo, equivocado, desperdiçador dessas energias que desmobiliam o cérebro.

Leitura será para poucos? Para os experts que identificam já na primeira frase proferida se o falante lê de verdade ou se prefere apenas ouvir seletivamente o que lhe trazem os ventos das telas, dos fones e das bocas com pouco investimento cerebral? Ou poderia ser para todos, rompidos os grilhões de preconceitos e paralisias?

De criança eu achava ler a coisa mais adulta e difícil do mundo. Uma espécie de mágica, aquela de tirar daqueles desenhos em linha coelhos de palavras, pássaros de ideias, borboletas de histórias, árvores frondosas de sentimentos pra rir e pra chorar.

Assim. Uma pessoa chega, como se fizesse isso há anos, com um objeto retangular que ora engorda ora emagrece e muda sempre de vestido, senta (e até fica em pé, se for preciso), tira a roupa do retângulo, ventila as dobras das anáguas, abraça as linhas e entrelinhas com olhos devoradores e que dançam de cima a baixo, acompanhando silenciosa partitura em passos cadenciados, de lá pra cá, de cá pra lá.

Se perguntada o que faz, responde lentamente: “Leio…arrisco…me entrego.”

Continuo na clave da infância, porque diante dessa espécie singular de ser humano, saio com pontos de interrogação nos olhos, na mente, na memória: “Como pode? Como? Deve ser uma mágica ancestral, aprendida com xamãs poderosos, que nem a mais avançada tecnologia consegue vencer.”

Religiosamente, toda ferromagnetizada, atravesso as ruas e me rendo ora a livrarias, ora a bibliotecas imantadas, onde vou viver por um tempo sem relógio no campo magnético da escrita. Aprendendo uma pouco mais sobre as operosas artes das fórmulas, rituais e símbolos da leitura.

Sem restrições, sem preconceitos, sem desperdícios.

Árvores

Marta Morais da Costa

Foto por Darius Krause em Pexels.com

Eram árvores vizinhas.

Uma de largas folhas. Outra de delicada folhagem.

Cada uma a produzir flores em diferentes épocas do ano. Uma lançava grandes cachos amarelados na primavera. Outra se enfeitava de pequenas flores roxas no verão.

Uma erguia-se com tronco despido e coroa exuberante. Outra se espalhava em finos galhos, multiplicados e indomáveis ao longo de todo o tronco.

Encontravam-se as duas no alto quando galhos e folhas ficavam tão próximos que as árvores pareciam conversar com intimidade.

Mas era quando o vento punha em movimento a massa verde que elas melhor se definiam. Bastava a brisa chegar que o diálogo manso começava. Eram delicadas palavras de amizade, eram juras de fidelidade, eram sussurros de esperança.

Quando se anunciava a tempestade, e o vento agredia as ramagens, a fúria se instalava. Só se ouviam queixumes, gritos e palavrões. O choque dos galhos era tremendo. Vez ou outra vinham ao chão as folhas mais sensíveis e as pequenas ramas enfraquecidas. O chão cobria-se com os restos de uma batalha floral.

Era, porém, nos dias claros da primavera, em que o vento – criança imprevisível – ora golpeava, ora acariciava, que as duas árvores vizinhas mais se assemelhavam aos humanos. Na lufada mais violenta, se debatiam, misturavam-se com força. Ora se impunham, ora eram feridas.

No entanto, quando o vento amainava, tocavam-se delicadamente, trocavam palavras gentis, e uma delas espargia sobre a outra pétalas douradas, que selavam sua intimidade, como beijos e carícias para sempre.

Até o próximo confronto, eram duas árvores destinadas a viverem próximas e unidas até a morte.

Herança

Marta Morais da Costa

Foto por Sohel Patel em Pexels.com

Herdara da mãe uma panela de ferro, três copos de vidro cristalino que, na infância, chamavam orgulhosamente de taças de vinho e só usavam nos natais. E uma lata de 20 litros que na origem havia armazenado margarina no armazém do seu Lalau.

A mãe ganhara a lata porque seu Lalau sabia que na casa dela não tinha moringa nem outra vasilha para armazenar a água do poço. Depois de uma boa esfregada com um pedaço de pano, cinzas e sabão, a lata quase se podia dizer nova, não fosse a estampa colorida de uma moça branca e loira, de longos cabelos lisos, sorriso de dentifrício a apresentar a margarina Regina, a rainha do forno e fogão.

Só assim para margarina entrar em casa: a mais constante das gorduras era a banha de porco, mais barata, e que seu Ari, do açougue, nem olhava para a balança ao embrulhar o quilo da mercadoria, colocando sempre muitos gramas a mais, por causa dos olhos verdes e tristes de minha mana mais velha. Margarina Regina era apenas uma rima, jamais alimentação.

O que agora chamava de casa desmerecia ainda mais o casebre da infância. Nele havia experimentado a necessidade de roupa, comida, conforto e afeto. Nele, vira o pai morrer  numa poça de vômito da última bebedeira. Nele, repartira a cama com três irmãos, dos quais era a única sobrevivente. Nele, aprendera que solidariedade dura uma única doação e muitas cobranças de reconhecimento. Que falta é palavra mais frequente do que bom dia. Que a barriga tem mais buracos por onde a comida se esvai do que paredes para impedir a fome de entrar. Que o sono é sem sonhos, que a vida é de pouco sono, que a morte tem sono pesado sem despertar.

Por isso, uma panela, copos e uma lata são quase os tesouros do rei da história que ouvira o palhaço contar na praça da cidade. Era o tempo do circo ficar na cidade e do desfile pelas ruas com os artistas convidando o público para os espetáculos. A criançada tinha direito a histórias, algumas mágicas, palhaços a trocar tabefes de mentira e a caírem de barriga postiça no chão a berrarem feito o porco quando vai para o sacrifício. Na época dois irmãos e eu íamos para a praça aproveitar o que era de graça. Sabíamos que nas noites seguintes, somente veríamos as luzes do pavilhão e ouviríamos a música da bandinha. Eram os efeitos luminosos e musicais da imaginação que corria solta em nossas cabeças, sentados os três na porta do casebre. Quando uns poucos amigos, mais sortudos, iam aos espetáculos, no dia seguinte andávamos a persegui-los para que contassem o que viram, ouviram e sentiram. Com esses retalhos de conversa e exageros montávamos nosso circo pessoal em tendas imaginárias, que carregávamos dia e noite por muito tempo.

Nem circo, nem margarina, muito menos vinho no Natal. Os copos passavam o ano inteiro protegidos no fundo da única prateleira da cozinha e de lá só saíam quando o pai ganhava de presente uma caixa com bombons melequentos, biscoitos amolecidos e uma garrafa de vinho azedo como a miséria. Meus irmãos e eu não podíamos tomar. A gente ganhava na canequinha de latão um pouco de limonada, mais azeda do que o vinho, porque açúcar era luxo para se aproveitar de vez em quando.

A panela de ferro hoje faz um arroz saboroso, mas no tempo da mãe recebia uma mistura de legumes, farinha e ovos das galinhas do terreiro. Um mexido que rendia porções miúdas, cheirando a delícias e engolidas com rapidez. Na medida em que a família diminuía, cresciam as porções. Só ficava um pouco de remorso porque a alegria da quantidade de comida era resultado de uma tragédia.

A lata, guardo comigo em lugar de honra na cozinha. Eu a decorei com restos da infância: fitas, panos, uma lasca de madeira da porta do casebre, contas de vidro, um pedaço de espelho, recortes de embalagem, tocos de vela, o único retrato de minha família reunida quando fomos à quermesse de Páscoa, umas tiras de papel em que, nos primeiros rabiscos, registrei lágrimas e sorrisos e a flor, agora seca, que ganhei do primeiro namorado.

A lata de margarina Regina reina sobre minha infância e me ensina, diariamente, a reconhecer as fomes que continuam a debilitar e as fomes que, saciadas, deixam cicatrizes na carne e na alma.

Talvez ela venha a ser a herança a deixar para minha filha.

Canto

Marta Morais da Costa

No alto da escada, ela cantava. Não o sucesso do momento, nem a cantiga de seus amores perdidos ou da esperança do reencontro. Cantava a alegria de estar viva e a beleza da natureza. Trazia do mundo pássaros cantores, brilhos de sol, esperança de chuvas, plantas a germinar.

A garganta abria sons de poesia, rimas alternadas, perfeitas, compassos de canções antigas de um povo assinalado pela alegria. O ar ganhou cores e sentidos. Os minutos ficaram congelados em relógios ocultos, mas implacáveis. A quentura da canção inundou o ar gélido da manhã.

O degrau me congelou no espaço. Os ouvidos me içaram. Foi-se sorrateira a ansiedade das horas que fechariam o dia. Nem compromissos, nem promessas, nem programas. A vida suspensa em lábios e sons e ritmo.

No encontro da música a cortina de um palco abrindo-se afoita e leve. Vinha do passado o reconhecimento: era o canto melancólico e suave da infância longínqua. Lábios maternos a acalentar a filha rebelde, a recusar adormecer-se em um tempo de agitação, a anular no sono as horas de brincar, a recusar o apelo dos jogos em companheirismo infantil.

As palavras adocicadas pelo afeto entravam, então, em ouvidos inquietos que pediam exclamações e interjeições. Vinham falando de prados e pássaros, de amores distantes e luares brilhantes. Promoviam o encontro do dedicado amante e cavaleiro e sua dama distante e altaneira. Construía em palavras castelo e caminhos, trazia nos sons o desejo do amor e da perda de si.

Eu, criança, nada entendia daquele enredo, mas entendia da presença, do afeto, dos sons cálidos, da suave calma que aos poucos fechava os olhos e expandia a paz.  E adormecia sonhando amores outros, ainda inatingíveis e já plenos.

O canto se interrompe. Uma risada estilhaça o ambiente. Ao lado da voz, um homem, desses trabalhadores braçais, magro, negro, pobre. Em sorriso franco, olhar travesso, as palavras ecoaram a claridade do canto: “Eu gosto tanto quando você canta para mim: o dia fica azulzinho.”

Terminei de subir a escada e, sorrindo, atravessei a porta de vidro. O dia ficara azulzinho.

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Versos, saudade e chamas

Marta Morais da Costa

De saia pregueada azul-marinho, blusa branca imaculada e engomada, meias brancas e sapatos pretos cuidadosamente engraxados, marchei por alguns anos, cercada de amigas e fanfarras, celebrando a Independência do Brasil. Menina ainda, achava aquilo tudo um evento digno de todos os louvores. Vibrava com o Hino Nacional Brasileiro, mesmo sem entender sua letra. Meus cadernos Avante acresciam o orgulho de ver tremular a bandeira brasileira no alto do mastro. Era um tempo de ordens e de inflamados sentimentos patrióticos, ilustrado pelo quadro de Pedro Américo, tido como registro fotográfico de uma situação política e de gestos patrióticos. E hoje jogado na prateleira da pós-verdade e, mais triste, em foto paródica.

Ah! foi bom ter a vida estendida até poder ler 1822, de Laurentino Gomes, e largar de ser ingênua e boba ao acreditar em historinhas que não assumem seu invólucro imaginativo e deturpador!

Será a tal sabedoria dos anciãos, esta de ver cair por terra um a um todos os castelos de ideias e aprendizagens da infância? Será sabedoria esta árida consciência de que o que se vê, ouve, fala e lê é apenas a consciência de que o sentido poderia ser outro? De que a verdade é uma versão? De que o que acontece é incompleto se for colocado em palavras? De que até a fotografia hoje é montagem e perspectiva, não mais registro? Que o real realmente é uma ilusão de realidade?

E, por mais que a repitamos, a palavra real é mais porosa e lacunar do que aquilo que ela pretende traduzir.

Em contraponto aos briosos e ilusórios desfiles da infância, a alma se enternecia e acalentava com os versos de “Pátria minha”, de Vinícius de Moraes. Eu que, à época, mal saíra de Curitiba para algumas paragens interioranas, me sentia exilada qual o poeta, e desejosa de uma pátria tão terna e pequena que caberia no meu entendimento juvenil. A nova “canção do exílio” do poeta-diplomata foi escrita após 1946, quando Vinícius assumiu o posto consular em Los Angeles. “Pátria minha” ganhou ares de fidalguia poética ao ser publicado em 1949 na prensa artesanal de outro poeta ímpar, João Cabral de Melo Neto, em Barcelona. Mais do que as cartas levadas por José Bonifácio a D. Pedro, a edição de um poema marcadamente saudoso anunciava uma pátria que não existia e nem viria a existir, mas que continha paradoxalmente o sentimento de maternidade, de seio úbere ao qual, quando em estado de saudade, sempre buscamos volver. Os versos do poeta longínquo diziam no lá a imagem que ele criara em si da pátria, esse cá distante.

“A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.”

Neste desesperador ano de 2021, senti falta de minha pátria, mais do que de meu uniforme escolar, de minha marcha desajeitada ao som da fanfarra escolar.  Saia, blusa e sapatos tornaram-se farrapos tal como o entusiasmado coro a saudar o virudum.

Reencontrei Vinícius na outra face de seu poema: a que substitui a dor da saudade pela dor do que é seu avesso.

“Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.”

A dor da terra destroçada. Do amor que não é mais. Da vergonha em lugar do orgulho. Do rio em chamas.

Despedidas

Marta Morais da Costa

Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com

A porta de saída. A chave. O portão em seu chorar habitual. A rua deserta. A chuva faiscante nas folhas e no asfalto.

Passos seguros. A bolsa colada ao corpo. O guarda-chuva criando um halo de proteção. Braços banhados no gotejar das varetas. Sobe a umidade pelas solas dos sapatos. Apressa-se. Até a marquise próxima. Mais alguns metros. Equilibra desajeitadamente o guarda-chuva, a bolsa e o celular. Pede um táxi.

Tem duas horas que sua vida desabou.

A espera vã por um telefonema. Estou chegando. Abra a garagem para mim. O toque no botão, a porta abrindo, o carro entrando. Depois era correr para os braços, as palavras, o beijo de chegada. Só então a vida retornava. Sem trabalhar, o dia era longo. A distância era sofrida em fogo de saudade. Ele no escritório. Ela embrulhada em lençóis, sem vontade, sem ação.

Currículos distribuídos. Telefonemas em vão. Mensagens negativas. Nada, ninguém, nenhum. A fila do desemprego. A angústia da inação. A lembrança do trabalho. A constância do dinheiro pingando na conta. A segurança do emprego. As amizades, as conversas, o sentir-se útil. Mesmo que utilizada.

O caos repentino, as perdas, a demissão. Na cambalhota da história, a rua, o porta afora, os dias iguais e vazios. A inatividade a levar de roldão o entusiasmo, o riso, a disciplina, os objetivos. Aos poucos, o desapego, o desleixo e a indiferença.

O marido dobrando os dias. O marido dividindo o salário. O marido desapegando-se dela.

Mais dias e mais dias: a vida perdeu seu curso, o amor perdeu a força, a união gastou seus elos. A mesmice envolveu o tempo em mortalhas. Eram duas solidões a ocupar a mesma cama, os mesmos móveis e o espaço sufocante de uma casa sem ar.

Não tardaram as palavras viperinas, as janelas fechadas, os olhares desconfiados de vizinhos.

E a casa cercada de muros, a morte grassando no bairro, a tevê em enchentes de más notícias. A vida sem sol, sem saúde, sem saída.

Até aquela noite. Palavras duras, com sabor de sangue. A verdade do amor em agonia e a impossibilidade do afeto. Em volta, ruínas do que foram um dia luas de carinhos e clarões de felicidade.

O táxi estaciona a seu lado. Entra e pede rodoviária, por favor. Também a cidade está perdida. Banco de trás, silêncio, quase escuridão. A lágrima não tem sal. Talvez apenas a chuva que a submerge no desastre de um tempo sem futuro. Talvez.