Estação Islândia

Marta Morais da Costa

Ontem, 15 de julho, completei sem comemoração, silenciosamente, quatro meses de confinamento por causa do coronavírus. Espero que não faltem 36 outros meses para completar uma quarentena mensal. Para tanto, conto com minha resistência física – a cada dia mais desistência. Conto muito mais com a capacidade científica de pesquisadores, laboratoristas, médicos e cientistas que irão criar a vacina mais aguardada deste século tão refratário a vacinas igualmente salvadoras.

Quando me encerrei com marido, livros e tecnologias e uma despensa razoavelmente bem servida, imaginava uma quarentena italiana ou britânica, sabendo que jamais seria uma temporada neozelandesa. O Brasil sempre foi para a maioria de seus habitantes um desapiedado lar de horrores e decepções. Não deu outra.

Quarenta dias + quarenta dias + quarenta dias +…

As fases desse luto pessoal e coletivo ganham contornos cada vez mais trágicos e depressivos. A esperança, qual chama de pobre vela de sebo, vai derretendo em cada notícia, em cada boletim, em cada gráfico de derrotas. Lançar-se à rua representa o mesmo risco de vida daqueles marinheiros audazes em caravelas de casca de noz, entregues aos bons e maus ventos atlânticos, tentando chegar ao eldorado, mesmo que ele fosse uma floresta de pau-brasil. Muitos saíam e poucos chegavam. Retornar não era preciso, navegar, sim.

Mas eu quero retornar, não ao que já fui, ou ao que imaginava ser meu futuro, ou ainda ao que sonhava ser o Brasil, ou ao tipo de felicidade que desejava à família e aos amigos. Quero retornar ao menos para minha casa sem a companhia de coroas, gripes mortais, sintomas de síndromes de qualquer espécie.

Quero retornar à contagem das quarentenas e dos ansiados festejos  quando elas chegarem ao fim. Simples assim. Pequeno assim. Individualista assim.

Quarenta dias + quarenta dias + quarenta dias + UM.

Eis que no dia de hoje, o noticiário jornalístico me brindou com uma fresta de sol, uma flor no asfalto, um pássaro no pântano. A notícia vinha de longe, de uma terra que na imaginação vejo povoada de duendes, fadas, animais mitológicos e seres humanos dotados de couraças resistentes a temperaturas glaciais e paisagens brancas.

A notícia vem da Islândia, terra que evoca em mim toda a magia do desconhecido e a admiração pelas diferenças culturais e históricas de um país marcado por auroras boreais e pessoas tão mágicas quanto a Rainha da Neve de minha infância.

Bem que na Copa do Mundo de Futebol de 2018 somou-se a essa imagem idílica que tenho da Islândia a realidade de uma seleção nacional aguerrida, desafiadora e identificada ao mais sonoro, potente e inusitado grito de torcedores. Era a “haka dos vikings”, um bater de palmas ritmadas e com os braços estendidos, sincronizado em uníssono, acompanhado de um emocionante e exótico “uh” profundo, cada vez mais rápido e cada vez mais envolvente.

Era uma Islândia diferente, atraente, inusitada.  Ganhava uma realidade menos mágica e mais humanamente empática. Agora, uma nova surpresa.

A Agência Nacional de Turismo da Islândia oferece um serviço de recebimento de gritos gravados a serem lançados ao ar em regiões remotas do país. Em tempos de pandemia é o reconhecimento da necessidade de expressar, isto é, de colocar para fora toda a força de nossa angústia, de nosso desconsolo, de nossa desesperança, de nossa dor. Tal como o grito primal, uma espécie de terapia que esteve em moda nos anos 1970, criado e defendido  pelo psicoterapeuta estadunidense Arthur Janov. Para quem curtia e curte o Beatles, ele influenciou o casalzinho icônico John e Yoko, que saiu gritando (nem tanto) os benefícios do grito primal para externar todo desequilíbrio humano. O sucesso na música se estendeu à também banda britânica, Primal Scream. Ah, esses britânicos… A Rainha Vitória foi vitoriosa até além-túmulo: tanta compostura e repressão deu no que deu!

Pegando um Ita no Atlântico Norte, saindo do porto dos duendes, e descendo cá para o abençoado país de palmeiras e sabiás, pinheiros e gralhas, estou pensando em gravar uns quarenta gritos diferentes, enviar pelas renas de São Nicolau lá para o país das neves e esperar que eles levem aos picos nevados e regiões desabitadas todo o temor, o desamparo, a angústia, os encontros perdidos, os braços estendidos sem abraços, a distância dolorida, as perdas cortantes e a consciência de viver em uma sociedade que arrisca vidas por um rolê no shopping.

Antes

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Marta Morais da Costa


 
me telefone
me escreva
sorria pra mim
acaricie com a voz
o meu nome
antes que seja tarde
 
me leve a passear
mãos dadas
sorriso leve
olhos na paisagem
coração aberto
antes que seja tarde
 
me conte segredos
exponha críticas
abrindo fundas chagas
de revelação
e velhos desgostos
antes que seja tarde
 
me ame
na cama
na grama
no tapete da sala
no leito de sempre núpcias
antes que seja tarde
 
ria dos meus defeitos
chore de alegria
confirme seu amor
ilumine a escuridão
próxima
antes que seja tarde

Vento

Marta Morais da Costa

 
Vento que balança as palhas dos coqueiros
vento que encrespa as ondas do mar
vento que assanha os cabelos da morena
me traz notícia de lá
(Prece ao vento, de Luiz Fernando Câmara, Gilvan Chaves e Alcy Pires Vermelho.)

– Hoje o vento está para chuva, disse a mãe.

– Mas o rádio falou que vai ter sol, mãe! , retrucou sem titubear Julieta.

– Eu sei que a moça do tempo falou, mas é só olhar para o céu. Vento mais nuvem rabo de galo não dá outra. Até amanhã será uma chuvarada…

Julieta nada falou, mas confiava mais na meteorologia. Afinal, havia aprendido na escola o valor da ciência e a fé no progresso.

A mãe voltou à costura. Estava cansada, os olhos doíam, mas sentia muito prazer em costurar vestidos para a filha, Sempre inventava um tipo diferente de mangas, às vezes alterava o modelo do corte da saia, a posição dos botões, as fitas, o formato dos decotes e, sobretudo, as nervuras. O resultado de tanto trabalho a deixava tão realizada! Ainda mais que no corpo da filha qualquer roupa caía bem. Parecido com ela: quando moça não tinha páreo para sua elegância. Fosse na missa, na matinê no Cine Palácio, na visita às amigas, nas festas de aniversário, no baile da Sociedade 7 de Abril. Procurava um jeito modesto de olhar, meio cabisbaixa, mas, como uma onda de admiração, os olhares dos outros atravessavam sua modéstia e batiam forte em seu coração orgulhoso.

Um rápido cruzar de nuvem carregada toldou suas lembranças. A vida difícil e o tempo consumiram aquele pequeno orgulho e a modelagem de seu corpo. Hoje os quadris largos e o andar inseguro soterram a elegância juvenil. Mas sua filha, ah, tão linda, apaga esse desgosto!

Corta, alinhava, costura, desmancha, costura novamente, coloca os aviamentos finais. Está nessa labuta há três dias, mas o resultado certamente ficará bom.

– Mãe, vou sair. Até a casa da Nieta. Volto logo.

Sozinha, a mãe coloca no trabalho maior atenção. Ouve-se apenas o ritmo descompassado da agulha da máquina, ligando bobina e lançadeira, cumprindo o percurso que a mão desenha. As horas convertem-se em minutos. O vestido toma forma e encanto.

Aos poucos, enquanto as mãos enfrentam a tarefa de terminar a costura, o pensamento dança entre lembranças ao som da máquina de costura. Tia Filomena ocupou de imediato o nascer da memória: aprendera com ela a costurar. Ainda adolescente fora morar na casa da tia por alguns meses, “pra mode aprendê as custura”, segundo a mãe. Chegou ressabiada, com a sacolinha de roupas poucas e já gastas, com o jeito de menina da roça, olhar baixo, magrela, sandálias rotas. Tia Filomena a recebeu como filha: para aprender, para trabalhar, para receber conselhos e corretivos. No começo, as mãos mal controlavam os anéis das lâminas da tesoura e muito menos a direção do corte. Insistia, refazia, ensaiava os moldes em papel, firmava os pulsos. Aos poucos, juntando as duas paciências, ela e a tia começaram a trabalhar em dupla. Do alinhavo à costura final, cada uma fazia uma parte. Os vizinhos começaram a gostar das roupas que saíam da Filomena: saias de organdi, vestidos de chita e flanela, camisas de algodão, blusas de seda.

A máquina parece conversar com as lembranças da mãe: o tecido do vestido engancha-se na teia dos pensamentos e o passado redesenha-se a cada ponto e corte. O prazer de apender é agora o de criar e fazer: tia Filomena, que Deus a tenha, sempre soube que a menina franzina se tornara mulher de valia por sua graça e ajuda.

Voltou outra para a casa de seus pais. Ali sentiu que sua vida estava em outro lugar e foi embora para a cidade no carro de tio Anselmo para trabalhar na loja dele, vendendo coisas de enfeitar a casa. Enquanto vendia, sonhava com a sua casa, a família que iria criar, o marido de quem cuidar. Não sonhou muito. A realidade veio na pessoa do Antônio, boa pinta, operário da fábrica de autopeças, papo firme.

A máquina de costura silencia para ouvir um suspiro profundo. A mãe é tomada por uma lembrança morna de desejo. Ah, que rapaz cheiroso! Aquele sorriso infantil somado ao olhar de menino travesso mudou o rumo de sua vida. A primeira camisa que fez para ele teve que passar por umas cinco ou seis provas porque o melhor da testagem era deixar a mão escorregar pelo tecido das costas em forma de carinho com se fosse uma investigação de falhas na costura. Tinha de acabar como previsto: altar e cama.

O que ficou apenas no desejo foi a família grande, de muitos filhos. O tempo e o desamor fizeram da mãe mais uma peça defeituosa, descartada na lixeira da fábrica. Em uma das curvas da vida se viu sozinha mais Julieta. Mas a mãe não dá tempo para a tristeza. A máquina volta a ritmar o trabalho e o vestido remexe-se sobre o calcador, espalhando-se sobre a mesa e enxotando as lembranças de volta ao passado.

Julieta retorna antes de o trabalho estar pronto. Ao passar pela porta do quarto de costura, lança um olhar despreocupado, mas de imediato suspende a respiração e o olhar. O vestido é um primor! Nem tem tempo de segurar a autocensura: as amigas iriam morrer de inveja! Nieta, Bibi, Aléssia, Ciça, todas iriam querer um parecido ou igual. Mais forte veio o olhar de admiração do Alex. Julieta sorriu, prevendo um casinho de provocar carinhos e, quem sabe, ardências menos infantis.

– Mãe, que lindo! Posso provar?

– Ainda não terminei, Julieta. Faltam os acabamentos.

Percebendo a ansiedade da filha, consente. Julieta roda o quarto, expande-se para a sala, usa todo o corredor, desfilando a la Giselle, contente de si, agradecida à mãe, fazendo planos.

A noite toda a casa parecia estremecer com a ventania: janelas, portas, paredes. A tarde traz a tormenta, a inquietude e mais temor. Fechadas em casa, mãe e filha, correm a socorrer goteiras, a reforçar janelas, a impedir a água de passar sob as frestas das portas.

De nada adiantou: a casa não resistiu ao ciclone bomba e desabou. Na correnteza da enchente ficou a boiar, desvalido, de braços abertos, saia em roda e todo ataviado um lindo vestido vermelho, vazio de sua dona e da fada de mãos habilidosas que o criara.

“Vento diga, por favor,
aonde se escondeu o meu amor.”

Minha primeira live em tempo de epidemia ou A primeira live a gente nunca esquece

Marta Morais da Costa

Na placidez atemorizada dos dias de quarentena, o tempo escorre lentamente e os dias parecem mais longos. Nos vazios criados pelo estar constantemente em casa, surgem oportunidades e ânsia de experiências diferentes. Na tecnologia capaz de aproximar pessoas isoladas em casas diferentes, surgem recursos que sustentam ideias e ações de aproximação. Esses ingredientes combinados justificam o novo espetáculo chamado “live”, o já conhecido “ao vivo”.

O termo e o fato se tornaram corriqueiros e as pessoas abrem bocas desmesuradas para anunciar a novidade: a laaaaive.

Como tudo na vida da comunicação nasce, tem sucesso, redunda-se, satura e morre, viveremos o ciclo da novidade com bastante rapidez. Tão logo voltem os dias supostamente felizes, nada superará o encontro real de olhares. Ficarão resquícios do que vimos e ouvimos nas telas, pois a solidão e a distância são humanamente esporádicas.

O vivo abstrato e mediado por recursos tecnológicos é frio, tem apenas duas dimensões, de vez em quando apaga, trava, não me responde no tempo adequado do diálogo presencial. A oralidade transmitida tem atrasos, descompasso de movimentos labial e de som, são seres esquartejados, colados em álbum de figurinhas moventes, parecem marionetes humanas (realizando com a diferença de século e meio o sonho de Meyerhold!)

Mas quem não tem vida normal na clausura, caça com laives: abundantes, diversificadas em temas e semelhantes no formato. Como presas fáceis, capturadas pela impossibilidade de deslocar-se a lugares de convivência coletiva, podemos passar o dia todo a assistir as laives no compasso estranho de real conversação ou em formato histórico do já acontecido no Youtube. Umas funcionam como desfastio, outras como aprendizagem. Outras…bem…não funcionam simplesmente.

Participar de uma, no entanto, tem o encanto da novidade, o desafio do nunca feito, a exposição aos inesperados (sejam de fala ou de tecnologia). Uma vivência com todas as qualidades e defeitos da vida: a busca de saídas, a procura de contatos humanos, o compartilhamento, a exposição de ideias e valores, os encontros e desencontros.

Em parceria com Etel Frota e Vera Mussi, enfrentamos o tema “A literatura como remédio para uma epidemia”, uma fala a três, patrocinada pelo Departamento Cultural do Clube Curitibano. A discussão trouxe aos participantes uma reflexão sobre os modos como são recebidos os textos pelos leitores e o uso que dele fazem durante um período de quarentena. Também foi explorada a questão relativa aos estágios de enfrentamento mental durante esse período quase (às vezes totalmente) solitário e tenso, que põe à prova disposições diferentes de enfrentamento. Na conclusão, a literatura apareceu como uma forma múltipla, tanto em personagens, culturas, temas e narrativas. Pela diversidade própria do gênero, ela tem condições de atingir de modo diferente, leitores diversificados. Mais do que isso, o isolamento permitiu a exploração de outros suportes para o texto literário, seja o digital ou o audiolivro.

Não se pode também esquecer a importância das narrações orais que ocuparam muitos espaços das lives de diferentes leitores e narradores orais, amenizando a tesão, trazendo a público histórias e autores, provocando olhares diferentes sobre a realidade e a própria literatura.

No meu percurso profissional estive sempre disposta a aventuras. Fazer uma live nas condições atuais representou mais um desafio e me lembrou uma pequena crônica que escrevi sobre outra experiência que impactou o modo com que passei a mediar saberes e textos literários enquanto professora. A crônica é de 2006 e o passar do tempo apenas mudou a tecnologia. O assombro e a vontade de experimentar continuam os mesmos. Para quem tiver a paciência de ler, segue a transcrição do texto, tal como foi publicado pelo jornal “O Estado do Paraná”, que apoiava e divulgava uma crônica semanal sobre leitura e cultura (esta, sim, uma atitude que assombra pela ausência na atualidade).

A PRIMEIRA MULTIMÍDIA A GENTE NUNCA ESQUECE         

As aventuras de um professor em sala de aula só podem ser bem compreendidas à distância. Enquanto se dá a travessia pelas águas conturbadas dos deveres do magistério – preparação de aulas, reuniões, projetos, relatórios, infinitas leituras e correções e reescritas, além das prioritárias atividades na tarefa de transmitir/discutir o conhecimento – pouco tempo sobra para uma reflexão sobre o fazer docente e seus instrumentos.

            À medida que o tempo se esvai na sucessão vertiginosa dos números de horas, meses e anos, tomamos consciência das mudanças pelas quais passaram nossos dias em sala de aula, bem como da maneira como assimilamos, ou não, as teorias e os paradigmas, também estes em sucessão vertiginosa. A imersão no tempo presente costuma distorcer a proporcionalidade e mérito de fatos, pessoas, atitudes e pensamentos. Não seria diferente com a escola e seus agentes.

            Não faz tanto tempo assim, a tecnologia mais avançada em sala de aula era representada pelo flanelógrafo e pelo projetor de slides. Não faz tanto tempo assim, um sinal de modernidade era a projeção de transparências (lâminas, em algumas regiões do país) em preto e branco e, suprassumo dos encantos e despesas, a colorida! A era digital rapidamente jogou para o canto escuro das antiguidades esses materiais. Hoje, é com certa sensação de vergonha – e encontrando um ar de mal disfarçada comiseração de nosso interlocutor – que pedimos um retroprojetor para ilustrar, definir melhor, economizar nosso trabalho docente.

            As universidades fizeram do instrumental mulmidiático um fator de sedução para atrair novos alunos.  Quem organiza eventos se prepara com muitas unidades do já popular datashow, escolhendo salas especiais, porque sabe que palestrantes e conferencistas não abrem mão dessa tecnologia. As escolas, no entanto, ainda amargam essa deficiência a mais.

            O computador, já sabemos, não veio apenas para facilitar o trabalho docente e a aprendizagem discente. Trouxe consigo um novo modo de ler e nova textualidade. Provocou uma enxurrada de estudos e desencadeou uma reflexão intensa sobre a possibilidade de desaparecimento do livro. Passado o período terrorista, lidamos na atualidade com novas realidades em sala de aula. A tecnologia permitiu aos docentes revelar não o domínio sobre a máquina e a inventividade de formas visuais: demonstrou com grande clareza as deficiências cognitivas e didáticas dos utilizadores de multimídia.

            Tenho em minhas retinas da memória a imagem da primeira apresentação em datashow a que assisti. Para iniciar a apresentação, foram necessários um complexo trabalho técnico de montagem e, durante a palestra, a permanente assistência de um especialista em informática. Mas a revelação das imagens e a descoberta das possibilidades comunicativas e sedutoras daquela apresentação marcaram profundamente os neófitos como eu. O novo brinquedo, ou melhor, a nova tecnologia permitia transformar em imagens idéias e, sobretudo, relações inumeráveis. Além de trazer um certo clima cinematográfico ou televisivo para o ambiente radiofônico da sala de aula.

            Muitos e muitos slides depois, já me é possível utilizar e conviver com o instrumental (hoje mais simplificado e banal), além de produzir alguma análise sobre seu uso docente.

            Em ensaio de 1996, José Dieguez atribuía às imagens três funções básicas: a funções informativa, persuasiva e de catalisação de experiências. Na primeira, abria para quatro subgrupos: o primeiro realiza a substituição de uma realidade concreta, o segundo trata de categorizar os objetos, o terceiro explica e organiza as relações entre objetos, e o quarto facilita a amostragem de informação, porque apenas traduz a linguagem verbal em imagem.

            Já a função persuasiva está apoiada em dois tipos de imagem: as motivadoras e as estéticas. A função final, a catalisadora, eu a vivi naquele primeiro contato com a possibilidade de organizar as imagens para transformá-las em material vivo, móvel, docente.

Mas, ao longo de minha experiência, tenho assistido a um uso preferencialmente informativo e pouco estético dessa tecnologia. A cor, as formas, os recursos de som e movimento são utilizados muitas vezes em si mesmos. A fala docente que os acompanha tornou-se repetição da imagem. Não foram poucas as ocasiões em que o professor leu o texto tal qual inscrito na imagem da tela. A função de facilitação redundante, concretizada no uso da multimídia como um retroprojetor animado e colorido, sempre me dá a impressão de uma rubra e macia cereja enfeitando um bolo insosso e pétreo. Enfeite tecnológico para criar um ambiente de modernidade, mascarando conteúdo e prática docente primitivos, deficitários e enganadores.

A associação imediata que um leitor crítico dessa nova linguagem, proposta pelo computador, faz é com a televisão, cheia de recursos de imagem, cor e movimento, tratando do óbvio com obviedade, persuadindo pela redundância, estimulando o olhar catatônico com uma enxurrada de signos visuais primários.

Quando o ensino supervaloriza a tecnologia (por mais rápida e universal que possa ser) em detrimento do saber, podemos estar seguros de que o conhecimento foi se alocar num canto escuro da biblioteca, em livros ainda fechados, fáceis de abrir e movimentar porque não precisam de cliques e teclas.

(crônica publicada em “O Estado do Paraná” em 10 de março de 2006) 

Interrupção

Marta Morais da Costa
 
Na suspensão do tempo viver
 
as asas do pássaro travadas em voo
a folha a caminho do chão
a frase musical no oco da boca do cantor
o olhar detido a caminho do objeto
a caneta em meia letra
o pé entre o vácuo e o asfalto
a colher ao tocar a superfície dos lábios
a carícia petrificada na ponta dos dedos
a mosca imóvel no ar
o grão de poeira suspenso ao sol
o perfume entre a flor e as narinas
o estertor da máquina em energia cortada
o pingo da chuva congelado no limite da vidraça
os lábios entreabertos à espera do beijo
- hiato do amor –
a nota truncada no choro agudo do bebê
o dedo em riste viajando para o mapa
o pensamento incompleto no branco do esquecimento
este poema sem
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Interjeicionista

Marta Morais da Costa

Na época em que se estudavam as classes gramaticais (eram assim tratadas em um tom de voz quase bíblico e em volume altissonante), coisa de substantivos adjetivos verbos preposições e quejandos, as interjeições ficavam sempre no final da fila.

Nos textos que líamos, com voz empostada e lentidão para evitar as armadilhas da pontuação, pois geralmente o fazíamos para que o professor avaliasse o grau de desenvolvimento da leitura – ai de nós!-  interjeições eram praticamente e inexistentes.

Ufa! Afinal textos sisudos se apoiam mais nas palavras substantivas (principalmente as abstratas, como amor, vingança, honra, patriotismo, amizade) e nos verbos, em especial no indicativo ou no imperativo afirmativo (hei, ainda se usa isso?), como obedeça, respeite, cumpra, faça. Além de desenvolver raciocínios altamente elaborados e expressos em orações subordinadas substantivas analíticas.

Puxa vida, não é que me vieram à memória textos do livro de leitura – nem sempre usado em sala, porque ficava na conta dos “deveres de casa” – escritos por autores célebres na época: Humberto de Campos, Manoel Bonfim, Thales de Andrade, Olavo Bilac, Júlia Lopes de Almeida, Artur Azevedo, Rui Barbosa e assemelhados? Uma plêiade de escritores nem sempre contemporâneos, mas clássicos da literatura escolar.

Nossa, como o tempo muda autores, preferências, estilos e expectativas de leitura!

Viva a vida com suas transformações!

Francamente! Não sei se me prefiro hoje, alquebrada e desiludida, à lépida criança que cantava a lista de preposições e advérbios e que recheava suas redações de pontos de exclamação e pontos finais.

Cruzes! Hoje crescem em mim as interrogações em quantidade e tamanho; este, porque os olhos mal dão conta da fonte 14. Os pontos finais tornaram-se reticências. As certezas são pantanosas e o universo já extrapolou o grão de areia que representei um dia (ou como dizem levianamente os jornalistas redundantes: representei na minha “era”).

Alto com este texto digressivo! Volto às interjeições. Encontrei no dicionário (ah, ele continua sendo o “pai dos burros”!) que elas, além de exprimirem estados emocionais e auxiliarem a expressividade para o interlocutor, “dispensam estruturas linguísticas mais elaboradas”.

Arre, cheguei ao porto de destino!

Me descobri, ó céus!, uma interjeicionista de alta amperagem na interação com as postagens no facebook e no whatsapp. Quando preguiçosamente semeio emoticons, simpáticas faces/formas interjeicionais, e dou um piparote nas frases mais elaboradas. Raios! Substituo o verbal pelo visual, troco a frase pela exclamação, recuso a reflexão e assumo tão somente as “emoções que vivi”.

Ai, ai, ai! Começo a perder a argumentação para colocar em seu lugar a primeira impressão, os sentidos à frente do pensamento, a rapidez como descarte da interlocução, a pressa como desculpa para a desconsideração.

Caramba! Se a língua é parte de minha identidade, perco-me e perco-a. Embrutecida em sinais gráficos, robotizo-me.

Socorro! Ainda bem que, de vez em quando, obrigam-me a comprovar que não sou um robô! Talvez essas perspicazes e autoritárias plataformas digitais tenham pescado em minha atividade nas redes os peixes emocionais em cardumes cada vez mais numerosos.

Oxalá eu consiga recuperar um pouco daquela linguagem menos emotiva dos autores da minha infância!

Cáspite! Esse apego ao passado talvez seja apenas mais um sintoma da idade para além da faixa etária saudável. Alarme em alerta.

 

1374

Marta Morais da Costa

Aqui começa um texto que eu não gostaria de escrever. Serão palavras que deveriam vir com a advertência da Divina Comédia, de Dante: Lasciate! Deixai aqui neste pórtico toda a esperança. Mesmo aquela fabricada e acumulada artificialmente por décadas de persistente exercício de
“amanhã irá melhorar”, “vamos tentar mais uma vez”, “agora vai!”.

Não fui, não deu.

São menos 1374 brasileiros vivos sobre este território verde e amarelo. Somados aos 51 milhares que já partiram. O dia de ontem povoou o Brasil de outras 1374 cruzes – este simulacro sacrificial do corpo humano, braços abertos para a morte.

Mortes causadas por aquilo que é o elemento mais abundante na natureza: o ar. Aos 1374 brasileiros foi proibido o ato de inspirar e expirar. Em lugar do último e solitário suspiro, a desesperada luta por um último respiro.

Com eles morreram 1374 histórias de vida, abreviadas não importa a extensão do tempo: um dia, meses, muitos anos. Não importa: eles foram antes, perderam, lhes foi subtraída uma parcela de vida.

Tão fácil atribuir a uma impessoal e trágica epidemia este assassinato em massa! Mais do que o fado cruel da doença, pesa o fardo de viver em uma sociedade pobre – em vários sentidos – abandonada e desgovernada. O Brasil teve meses de antecipação para preparar-se adequadamente. Exemplos de outros países não faltaram. Sobrou a arrogância do negacionismo. Sobraram carnavais e festejos. Pesaram 2022, 2024, 2026, 2028…Anos que muitos não mais verão.

A maior parte da população veraneou, despreocupou-se e intrigou-se, no mais comezinho tugúrio aos mais ostentatórios palácios. Curtiu adoidada seu consumismo e sua ignorância, exilando experiências e tragédias alheias em troca do imaginário gigante adormecido e da mãe gentil. Antepôs a qualquer racionalidade os chavões de não temos terremotos e Deus é brasileiro. Viveu de fantasias reais e imaginárias em um país de tramoias e em um lodaçal de ostensiva, proclamada e orgulhosa ignorância.

Tal qual agressiva cigarra, deixou que as formigas continuassem seu trabalho: nem cantou, nem celebrou o verão. Sonolenta, colocou-se à mercê de quadrilhas de gafanhotos e hoje, em sua inércia, espera que as formigas a socorram. E morrem todas (ou quase todas): cigarras e formigas. Porque os gafanhotos em nuvens consomem o que compulsoriamente vai sendo abandonado pelo caminho.

Hoje é dia de São João. As quadrilhas de fantasia ficarão na virtualidade, enquanto as quadrilhas reais preparam mais mortos para o baile da Ilha Fiscal.

Uma sociedade com a maioria de seus cidadãos anestesiados, a sofrer a falta de shoppings, academias, salões de beleza, restaurantes e festas. Espertamente à espera que outros cumpram o que considera o dever de protegê-la.

Hoje o dia amanheceu em mim ainda noite. No céu sem nuvens, algumas estrelas retardatárias recomendavam a volta à cama confortável. Mas a seu desenho no espaço se sobrepunham 1374 cruzes na Terra. A elas se sobrepunha a dor de muitos mais milhares de amigos e familiares. Um mar de afetos agora sem corpo. Um mar de lágrimas agora sem resposta. Um infinito paredão de medo, angústias, solidão e desamparo a oprimir quem ficou nesta terra brasileira, calcinada do Amazonas ao Rio Grande do Sul, de ar rarefeito do Rio Grande ao Amazonas.

Esta terra brasileira, nanificada pelas servidões centenárias, contraída pelo temor e pela dor, silenciada à força por uma catástrofe minimizada. Nesta terra de nanicos, muitos deles inconsequentes, um dos piores sacrifícios é o de não se poder brincar o São João, é o de não poder voejar em torno da fogueira das vaidades, é o de correr riscos de pescar uma prenda e colher um esqueleto.

Quase tudo passará, pois o tempo a tudo aniquila. Passará a epidemia, mas a palavra escrita, que aqui registro, guardará um pouco da amedrontadora visão da bandeira com uma faixa de luto, enquanto diminuem rapidamente as forças de quem ainda luta nas frentes de combate contra as novas sete pragas. Não mais saúvas, mas pouca saúde. Não mais piratas caolhos, mas saqueadores de muitos olhos. Não mais lutas pela independência, mas a submissão e a subserviência. Não mais os clarins do “verde pendão da esperança”, mas o derrotismo da ignorância. Não mais a aquarela, mas as cinzas das queimadas e dos mortos. Não mais o céu de anil, mas o precipício do sofrimento.

Quanto tempo mais continuaremos inzoneiros? Responde aí, seu Ary!

A garça e a cobra

Marta Morais da Costa

Fotos: Fábio Morais da Costa

No lago em que uma garça branca habitava, os peixes se tornavam cada dia mais escassos. Talvez porque, vindas nas migrações anuais, houvesse cada vez maior número de garças que comiam cada vez mais peixes. Talvez porque os peixes se reproduziam cada vez menos. Talvez porque os homens pescassem cada vez mais os peixes que se reproduziam cada vez menos. Fosse por qualquer um desses acontecimentos ou por todos eles juntos, a verdade é que a garça ficava cada dia mais faminta.

Uma tarde a garça viu uma pequena cobra ao lado de uma pedra no fundo do lago. Imediatamente mergulhou o longo bico, sentiu a cobra presa e começou a puxá-la lentamente, estranhando o peso excessivo.

Disfarçada em formato de pedra, havia uma cobra maior, mais esperta, mais experiente, cheia de artimanhas. Quando viu aproximar-se o bico da garça, agarrou-se à cauda da cobrinha e deixou-se puxar, engatada, para fora da água.

Sabia que poderia salvar-se mais facilmente deslizando pela superfície do lago.

A garça fazia um grande esforço, mas de repente o peso diminuiu. Ela descobriu só então que havia puxado uma presa maior e mais suculenta. Mas já era tarde, porque a falsa pedra descolou-se da cobrinha, deslizou velozmente para longe e desapareceu nas plantas da margem.

A garça, então, teve de contentar-se com o petisco menor. Que, nem por isso, foi menos delicioso. A diferença é que a fome voltaria mais cedo.

Moral: Experiência, esperteza e artimanhas mantêm vivos os graúdos. Por isso, todo dia é dia de Golias.

Muitos anos de vida

Marta Morais da Costa
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Foto por Natalie em Pexels.com

(Ao fundo, enquanto você lê esta crônica, imagine ouvir os acordes do “Parabéns a você”, cujo volume sobe nos compassos correspondentes ao verso “muitos anos de vida”)

Hoje fiz um jantarzinho de aniversário: são exatos três meses de confinamento. Coloquei sobre a toalha florida dois copos em formato de clepsidras, nas quais a areia cai mais lentamente do que o normal. Também depositei sobre a mesa as fotos da família. Das três mais recentes gerações.

Colei em cada prato um diferente item da lista de desejos a realizar tão logo eu possa voltar a algum tipo de convívio social.

  • Beber litros de café em boa companhia, em conversas sem hora pra acabar.
  • Sentar em um banco da pracinha perto de casa e ficar observando pessoas (sim, elas existem!) que passam, calmas ou apressadas, com suas sacolas de compras.
  • Divertir-me com crianças em bicicletas ou rodando no carrossel iluminado da mesma pracinha.
  • Deliciar-me com o som das ofertas do carro dos sonhos que está passando. E comer dois deles, porque não quero mais ser de ferro, nem contar calorias!
  • Acompanhar com os olhos velhos como eu a fazer sua caminhada tipo vitamina D + xô-artrose. E pensar: fazem eles muito bem! Quanto a mim, acompanho-os com o olhar.
  • Entrar no meu carrinho modelo anos 90 e dar um rolê sem compromisso, parando para admirar uma árvore, um jardim florido, uma casa monumental.
  • Fazer uma visita longa para matar ao máximo a saudade de uma livraria física (se é que sobrou alguma) e sair de lá com livros a mancheias e, se o dinheiro der, uma nova coleção de CDs. Sei que é programa bem tiozão, mas a alegria da gente desconhece prazo de validade tecnológica.
  • Tomar um caldo de cana na Kombi estacionada na esquina de casa (será que seu Matias sobreviveu à covid e à crise econômica?).
  • Fazer um pudim italiano, levar na casa de minha mãe e comer tudo sem culpa, juntas, enquanto trocamos histórias e temores.
  • Comprar ingressos para uma peça de teatro e um show musical em teatrinhos aconchegantes e em boa companhia. Ah, e uma tarde todinha curtindo aqueles filmes para não esquecer do Cine Passeio!
  • Levar meus netos à loja de brinquedos para uma farra consumista de deixar o cartão de crédito enrubescido. Ah, não posso esquecer de comprar quebra-cabeças e bichos de pelúcia para mim!
  • Convidar meu marido para uma viagem bate-e-volta pra um lugarzinho bem romântico, sem máscaras nem álcool em gel. Só afeto e gentileza.

Na toalha florida, pus um HD com as notícias e polêmicas da catástrofe brasileira. Pra não esquecer, para cobrar, para homenagear, para lamentar.

Coloquei sobre a toalha as receitas das refeições frugais, das conversas sobre comida, dos programas de culinária pró-obesidade da televisão; retratos do dia a dia de quem, por sorte ou mérito, ficou do lado privilegiado dos que puderam manter uma alimentação continuada.

Sobre a mesa, espalhei esparsamente flores secas. Elas nasceram durante o confinamento, feneceram e secaram. Lá fora, no entanto, a morte continua sua colheita.

Distribuí sobre os objetos na mesa centenas de corações recortados e identificados com os nomes das pessoas com quem convivi virtualmente neste período triste. Sob os nomes, desenhei pássaros, flores e chamas: a leveza, as cores e o calor humano.

Enfim, coube ainda sobre a toalha de flores estampadas, algumas folhas de papel contendo o que escrevi para falar de mim, de nós e dos que, como eu, terão outras histórias para contar. Sobre estas páginas, como uma velinha comemorativa, vai esta folha que você lê.

Três meses: quantos mais?

“Pa-ra-béns-pa-ra-nós,
mui-tos-a-nos-de-vi-da!”

Rotinas

                                           Marta Morais da Costa

1

-Alô, mãe?

– Alô? Alô? Quem fala?

– Sou eu, mãe, a Adriana. Não tá reconhecendo a voz?

– Oi, filha. Sabe, né, que tô meio surda…Você está bem?

– Me virando, mãe, com essa loucura da epidemia…

– Me conte uma novidade.

– Eu?? Tô fechada em casa, como a senhora. Novidade nenhuma. O de sempre.

O diálogo pode ser monótono. A novidade inexistente. As relações longínquas. A rotina entediante. Tudo o que conspira contra a vida social, mesmo a mais recatada do novo ano a.C.

Olha que Adriana caprichou nas mensagens de Ano Novo. Votos de paz, saúde, prosperidade. Tudo em cinzas. Parece que foi no século passado. Talvez tenha sido mesmo. Sente como se relatasse sua vida de menina para o filho mais novo. “Naquele tempo a gente saía para um jantar no restaurante, via uns filmezinhos no cinema, namorava, comprava sorvete, dava uma passadinha no shopping, ia pro chá com as amigas. Coisinhas básicas. Até abraço, aperto de mão, confiança no outro. Isso tudo que a gente não pode fazer hoje, filho.”

Nem tudo posso falar para ele. O tédio, a saudade, o medo. Da casa hoje conheço cada canto, cada azulejo, cada coisa no e fora de lugar. Precisa consertar a pia do banheiro, a torneira do jardim, o piso da garagem. Acho que a calha está entupida…Mas cadê a coragem para trazer os trabalhadores e aceitar sua circulação pelo ambiente da casa?

Nem falo do cabelo espevitado do Rui, da visita rotineira ao cárdio, da roupa na lavanderia esperando ser retirada, no aniversário da Ninoca que se aproxima, no presente do Raul prometido e atrasado.

A vida ficou reduzida, os compromissos caducaram, a viagem anual foi adiada, as aulas suspensas. Tudo o que já não poderá ser.

Liga a TV e tudo parece o mesmo de ontem. Liga o computador e não aguenta mais lives e lives e facebook e instagram: tudo do mesmo. Se whats gastasse, restaria a tela vazia. Por que ninguém mais escreve? A lista de contatos encolheu e silenciou. Nem a alegria de receber o marido na volta do trabalho existe mais. Aliás, nem o trabalho.

O vazio, o medo, a perspectiva de futuro encolhendo.

Soube que o vizinho da esquina foi para a UTI. A família dele recolhida, cortinas fechadas. Silêncio.

É, podia ser pior aqui. “Se queixando de barriga cheia”, diria a mãe. Hoje, como transanteontem, como há noventa dias.

Por causa do corona até deixou de lado a obsessão por famílias reais, suas coroas de cabeça em cabeça. Seu encanto aristocrático, cadáveres futuros iguaizinhos aos milhares de enterrados em covas rasas e sem velório.

Soube que andam derrubando estátuas: teme que seus valiosos reis e rainhas coroados despenquem em praça pública, arrojados ao chão pela horda de inimigos. Seria mais um fator dramático a ser contabilizado em suas perdas e danos.

– Novidades, mãe? Ah, a chuva desta noite foi ótima: abriu mais um botão de rosa no jardim!

– Como? Vai viajar de novo para Berlim?

– Não, não. Nasceu uma rosa no jardim!

– E isso é novidade? Rosas nascem todos os anos… Conte uma novidade pra valer.

Mal sabe ela que uma novidade para valer tem muitos algarismos de tragédias e descasos. Melhor voltar aos cantinhos empoeirados da casa. E limpá-los como se fosse o cérebro e o coração dominados pelo medo.

fique-em-casa

2

O velho despertador soa frenético e se sacode no horário de sempre: mais um dia de trabalho. Em poucos minutos, de roupa limpa, cara amassada, xícara de café na mão, pão com manteiga, sério, magro, ansioso. Deposita a xícara na pia, no mesmo movimento pega a marmita e coloca na mochila. Um beijo distraído no rosto de mulher, um tchau quase inaudível, a porta que se fecha depois de deixar entrar o ar ainda frio e úmido da madrugada.

Na rua outros vultos silenciosos: um bando de mascarados apressados em direção ao ponto de ônibus. Que chega quase lotado. Alguns sentam, outros agarram firmemente as barras de apoio, aos poucos o ar se aquece, as máscaras sufocam, o rodar dos pneus embalança os corpos até o próximo solavanco.  Ninguém fala, as cabeças vão projetando filmes particulares: imagens de casa, de conversas, planos de trabalho, advertências de saúde, expectativas. A costurar as imagens aquela frase inútil do ”fique em casa”, tão inútil quanto os inúteis que ficam em casa e não trabalham, ou dizem que trabalham num tal de romófice.

Se ficasse em casa, poderia estar mais seguro, mas a quem poderia recorrer se perdesse o emprego no açougue? Já foi tão difícil seu Amadeu me contratar. Se eu disser que vou ficar em casa, posso assinar a demissão, pensava Delvair. O filme na cabeça reprisava as imagens de queixas da mulher, de pedidos chorosos do filho, de bolsos vazios, de caminhadas sem fim em busca de emprego, de idas inúteis à agência do trabalhador, de noites em claro. “Fique em casa!”: isto é coisa pra riquinho ou pra aposentado.

O terminal ferve de gente. Lá na frente uma fila pra passar álcool em gel. Já que tem que andar pelas ruas, um pouco de cuidado tem que ter: a tevê insiste nisso. Ainda vai andar uns quarteirões até chegar ao trabalho. É gente andando pra todos os lados, todos muito próximos, alguns sem máscara. É confiar em Jesus e seguir em frente.

Seu Amadeu no caixa parece ficar menos ansioso quando Delvair entra. Imediatamente o rapaz veste avental e gorro e vai pro fundo do açougue começar a fatiar a carne e separar o que vai para o balcão e o que fica na geladeira.

Hoje a carne veio bonita, parece macia. Corta, limpa, separa. Algumas peças vão temperadas pro churrasco da moçada. E o dia corre em trabalho, mal tem tempo de almoçar, de beber uma água, de lavar as mãos. Ainda bem que os fregueses voltaram: se continuasse aquela venda mixuruca talvez perdesse o emprego. Agora não.

Seu Amadeu liga a tevê e lá pelo meio do noticiário, um jornalista com cara de tragédia anuncia que o número de infectados subiu, que é preciso aumentar os cuidados, que talvez fosse melhor fechar o comércio. Tá louco, o privilegiado! Lá no estudiozinho com ar condicionado, terno elegante, voz macia, sorriso colgate, lá tudo pode. Mas a vida real é esta aqui: se não sair, não trabalha. Se não trabalhar, não põe comida na mesa, nem filho na escola. Vivem todos no mundo da lua, como dizia meu pai.

Hora de ir para casa. Mesmo caminho, mesmo terminal, mesmo ônibus lotado, mesmos perigos. Em casa um afago no filho, um beijo rápido na mulher, um jantar de luxo (seu Amadeu lhe deu uns retalhos de carne), um pouco de futebol na tevê e cama.

Logo o despertador vai tocar. Ele vai levantar e fazer tudo igual. Talvez lá pela frente tenha um encontro marcado com o tal coronavírus. Isso será uma quebra da rotina, uma novidade. Ou talvez a última novidade.