Sem ponto final

Marta Morais da Costa

Em meu dia de leituras cabem tantos textos de tantos gêneros de tantos autores e muitos assuntos. Passo do exótico ao erótico, do econômico ao espacial, do gastronômico ao policial, do esportivo ao musical, do horóscopo à política. Tropeço nas linhas retas e nos assuntos tortos. Leio os colunistas que odeio e aplaudo os que amo.

Dizem línguas venenosas que jornal de aposentado tem apenas três seções: obituário, horóscopo e palavras cruzadas. Ao considerar minha leitura, posso afirmar que estou desaposentada. Quer dizer, quase, pois há dias em que caio na armadilha dos horóscopos e dias em que o temor me precipita para as palavras cruzadas, em busca de oxigenação cerebral.  Finalidade que, por exemplo, as notícias políticas não produzem em mim.

Abrindo o linque enviado por uma amiga, que deveria dar acesso à sua crônica semanal, caí, desavisada, nas notas de falecimento referentes aos três últimos dias.

Bafejada pela vontade dos deuses, mergulhei texto adentro: nomes, idades, hospitais, endereços e velórios. Encontrei registros de falecidos sem a identificação do nome do pai. (Ah, esses homens cuja responsabilidade some num jato!). Confirmei que a morte não respeita idades, nem considera profissões e, muito menos, dá bola para sobrenomes ilustres ou embaçados.

Mas, ficcionista fiel, construí histórias singulares e redes coletivas. Reuni em espaços comuns idosos, jovens e bebês em narrativas enredadas e recheadas de simultaneidade e coincidências.

Dois idosos, com o mesmo sobrenome e em registros separados, a sugerir uma trajetória conjunta e a morte idem, quem sabe na impossibilidade de sobreviverem um ao outro depois de uma longa união. A mãe, estuprada, que morre ao dar à luz um bebê enfermiço que a acompanha na viagem ao desconhecido. Um jovem a desafiar a sucessão normal das gerações, tendo gozado loucamente seus poucos anos de vida. O pai que, acidentado, leva consigo o filho querido para uma jornada sem rumo definido. O avô, deixado na casa de repouso com a promessa de visitas periódicas, encontra quem poderia ser uma companheira derradeira, mas as debilidades comuns e as desiguais levaram os dois, em dias subsequentes, para o descanso final. A mãe amorosa, o pai provedor, a mãe autoritária, o pai omisso, o filho responsável, a filha desorientada, a vítima de bala encontrada, mortes voluntárias e mortes rejeitadas: a vasta galeria literária de personagens e biografias que povoam a mente do leitor quando o gatilho da ficção é acionado. Estavam lá a literatura e a vida em espelho multiplicador.

Não li a crônica, retornei da visita ao reino de Plutão envolvida por uma atmosfera de histórias e a imaginar segredos que cada um daqueles nomes levou consigo.

Fechei o jornal com um clique lento e a convicção de que um dia meu nome estará em uma página de um jornal que algum leitor desavisado lerá antes de, ele também, ter a certeza que seu nome estará lá um dia e que outro leitor desavisado lerá e terá confirmado que em um futuro qualquer seu nome…

Foto em fim de tarde

O dia ainda esbanjava dourados quando ele apareceu e buscou apoio na pedra do jardim, cercada por amores perfeitos. Parecia intranquilo, a cabeça em rotação da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Os olhos curiosos buscavam uma paisagem familiar, som de vozes, cheiros e talvez um horizonte próximo.

Havia guardado na memória luzes, cores e movimentos interrompidos por fios regulares e pela impossibilidade de contato. Até que, de repente, inexplicavelmente, rasgou-se uma brecha no horizonte e as asas o levaram através de aberturas e brisas para uma altitude desconhecida, superando paredes e telhados.

Ao sol, seu corpo estranhou a quentura, buscou sombras, todas longínquas. Fumaça, ruídos, movimentos ininterruptos, figuras. Um mundo todo novo, sem limites, sem clausura. Atravessava o espaço com alguma dificuldade no começo, logo ganhando flexibilidade e amplitude.

Não demorou, veio o tempo da sede, o cansaço das asas, o peso dos pés. Buscou uma árvore. Nenhum verde, nenhum galho. Buscou água, nem um rio, nenhuma fonte. Buscou apoio e encontrou a pedra.

A pedra que povoava o jardim. Lisa, quase branca, redonda, fresca, protegida pela sombra do edifício. Alto, de vidros semelhantes a águas retidas em aquários. Atrás de um deles, uma pessoa em clausura, como havia sido a sua.

Movia-se à vontade sobre a pedra e pôde admirar vagarosamente o amarelo vibrante das penas, esvoaçando na brisa, experimentando a liberdade. Renascia.

Sobressaltou-se quando sentiu próximas duas crianças, fotografando com olhos espantados os movimentos de seu bico, dos pés mantendo o apoio, do corpo hesitando entre o voo e o cansaço.

Logo materializou-se o adulto, com olhos escondidos atrás da câmera, a registrar espantos e indecisões.

Subiu. Sumiu. Refez rotas e rodeios. Deixou lá embaixo a imagem fixada numa câmera que roda de mão em mão e que espalha no ar a poesia da passagem do pássaro amarelo e fremente, lépido e livre, em direção ao horizonte.

Diálogos I

Foto por Cup of Couple em Pexels.com

Entrevista de Paulo Freire a Elias Fajardo em 1985.


EF- Fale um pouco de sua infância, do Recife em que nasceu.

PF – Há algum tempo, com profunda emoção, visitei a casa onde nasci. Pisei o chão em que me pus de pé, andei, corri, falei e aprendi a ler. O mesmo mundo que foi o meu primeiro mundo que se deu à minha compreensão pela leitura que dele fui fazendo. Lá, reencontrei algumas árvores da minha infância. Reconheci-as sem dificuldade. Quase abracei os grossos troncos, que eram os mesmos jovens troncos da minha infância. , Então uma saudade que costumo chamar de mansa ou de bem comportada, saindo do chão, das árvores, da casa, me envolveu cuidadosamente.

Na casa mediana em que nasci, no Recife, à sombra das árvores eu brincava e, em seus galhos mais dóceis à minha altura, eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço, o sítio de avencas de minha mãe, o quintal amplo, tudo isso foi meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei.

Os textos, as palavras, as letras daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros – o do sanhaçu, o do olha-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; nas águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os textos, as palavras e as letras daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos, na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores – das rosas e jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos, na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada verde, o verde da manga-espada inchada, o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura, na relação entre estas cores, no desenvolvimento e no seu gosto. Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a significação da ação de amolengar.

Daquele contexto – o do meu mundo imediato – fazia arte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do meu mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar.

Até os meus sete anos, talvez, o bairro do Recife onde nasci era iluminado por lampiões que se perfilavam, com certa dignidade, pelas ruas. Eram lampiões elegantes que, aos cair da tarde, se “davam” à vara mágica de seus acendedores. Eu costumava acompanhar do portão de minha casa, de longe, a figura magra do acendedor de lampiões de minha rua, que vinha vindo, andar ritmado, vara iluminadora no ombro, de lampião a lampião, dando luz à rua. Uma luz precária, mais precária do que a que tínhamos dentro de casa. Uma luz muito mais tomada pelas sombras do que iluminadora delas. (p.18-19)

Me lembro das notes em que, envolvido no meu próprio medo, esperava que o tempo passasse, que a noite se fosse, que a madrugada semiclareada viesse chegando, trazendo com ela o canto dos passarinhos “amanhecedores”.

EF- O senhor é tão poético. Que ligação tem com a poesia?

PF- Adoro a poesia, gostaria de ser poeta, enquanto capaz de fazer o tratamento poético das palavras. Mas eu me acho poeta enquanto sou capaz apenas de sentir o pingo da neve, a flor abrindo; mas não sou possivelmente poeta enquanto capaz de dar forma ao sentido e ao sentimento do mundo.

EF- Eu discordo um pouco, porque uma pessoa que diz coisas como “no conhecer não se pode desprezar o adivinhar” é também um poeta.

PF – Inclusive, a poesia adivinha, não é?

FAJARDO, Elias. Paulo Freire: “Conhecer não é adivinhar, mas tem a ver com adivinhação.”

Revista do Brasil, RJ, ano2, nº 4, 1985, p.12-19.

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INFÂNCIA

          Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusóe,
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala -- e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
Café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando pra mim:
-- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

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MUNDO PEQUENO I

                            Manoel de Barros

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa.
Ele me rã.
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

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MESTRES

              Marta Morais da Costa

Minhas árvores da infância em outros verdes
mais enverdecem nos versos dos mestres.

Minhas águas da infância, em ouro e peixes,
mais clareiam nos versos dos mestres.

Meus pássaros da infância em cores e voos
nos versos dos mestres melhor entoam.

A sequestrada casa da minha infância
libera-se nas imagens dessa poesia.



			
					

Sobre escrita e leitura #2

Marta Morais da Costa

“Um sábio disse um dia que o amor de uma mulher era como uma tabuleta envernizada de superfície virgem, na qual elas têm o hábito de depositar a memória. Apagando com um pouco de saliva o primeiro nome que escrevem, aquele que vem em seguida é escrito por cima. Semelhante a uma tabuleta branca é a alma das mulheres. Se hoje és tu que estás escrito, amanhã elas te apagarão. Não é preciso mais que um dia, meu senhor, pois o amor delas é feito de verniz, para que possam colocar Pedro lá onde estava escrito Juan.”

(Fala de Beltrão, personagem de “O Príncipe perfeito”, comédia de Lope de Vega (1562-1635)).

Em seus 73 anos de existência, Lope de Vega escreveu aproximadamente 2 000 peças de teatro, segundo seus biógrafos. Contemporâneo de Shakespeare (1564-1616) superou o dramaturgo inglês em idade, produção dramatúrgica e filhos. Lope de Vega era mulherengo , segundo os biógrafos, envolveu-se em alguns escândalos e procriou 15 filhos. Nessa matemática exagerada, o espanhol é um dos mais significativos autores teatrais da história ocidental. É dele uma as mais importantes peças de nossa cultura teatral: “La vida es sueño” (“A vida é sonho”), em que brilhantemente registrou para a posteridade uma das metáforas mais justas e belas a respeito da vida, ela é o sonho que o tempo alimenta e interrompe.

Deixando de lado esses dados biográficos, rápidos e lacunares, faço um pequeno comentário a respeito dessa fala de Beltrão, dirigida ao príncipe em tom de ensinamento: as mulheres são volúveis, tal qual a “piuma al vento”. Essa qualidade atravessou os séculos e continua a transitar por eles.

A relação é estabelecida pelo personagem no pentágono fechado e definitivo mulher-amor- tabuleta-escrita-memória. Definitivo ao menos para Beltrão. Escrever o nome do amado e apagar com a saliva tem um quê sensual e ao mesmo tempo mortal: da boca sai o esquecimento, o apagamento, na atualidade diz-se cancelamento. De onde saem a fala e os beijos, que dão vida ao amor, também é produzida a substância que o cancela. Do corpo de que partem as flechas de Eros também emanam as substâncias de Thanatos a matar o amor.

Mas a saliva é também curativa: permite que um novo amor possa nascer e ser registrado: Pedro substitui Juan na dança do afeto.

Mais grave, no entanto, é considerar que o escrito contém a memória da mulher, que se apaga voluvelmente. Uma mulher sem memória está fadada a perder sua história. Ou a permitir que quem a descreve a considere volúvel como “a pluma que o vento vai levando pelo ar”. Ai, os versos lindos da canção “Felicidade”, de Vinícius de Moraes, em “Orfeu negro”, um filme com Brasil e brasileiros, cantado e falado em português, ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 1960, que foi contabilizado para o cinema francês, cujo diretor e cujos patrocinadores fizeram jus em levar para a França a estatueta dourada.

A mulher e a felicidade, plumas ao vento, talvez tenham adquirido novos contornos e outras qualidades ao longo da História. Mas a ideologia que representam não se mantém entre os limites dos séculos. E na interminável guerra dos sexos, não é raro encontrarmos beltrões a alertar outros homens sobre a facilidade com que as mulheres trocam pedros e joões.

Na dança das cadeiras amorosas, talvez hoje haja tabuletas, escritas e posteriormente apagadas com saliva, nas mãos de homens e mulheres de pouca fé e fidelidade.

Por isso, que o dia 8 de março bem próximo permita registros menos indeléveis nas tabuletas que constroem a história e a memória dos amores.

Alá-lá-ô

Marta Morais da Costa

“Alá-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô / Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô “

(marchinha de Haroldo Lobo e Nássara – 1941)

Dirão alguns: esta é de meu tempo!

Outros retrucarão: cara, não sabia que era tão antiga!

Outros, melancólicos: baile de Carnaval ou na rua sem essa marchinha não tem valor!

Alguns, surpresos: mas essa letra é muito atual!

Esclareço: não sei se pensavam na importância dos estados árabes ou na crise climática.

Só sei que cantei e pulei, animadíssima, em salões de velhos carnavais. Sem pensar em religião, petróleo ou desmatamento. Valia apenas o ritmo e o saracoteio. De vez em quando um siricotico: pisão no pé, confete nos olhos e na boca, cabelos entremeados de serpentinas, abuso alcoólico trazendo odores, gestos e olhares de alguns bebuns que, surpreendentemente, sumiam do salão, acompanhados por diretores e, ao lado, a turma do deixa-disso apaziguando pais, maridos e namorados.

De longe,  pais e tias a cuidar dos seus (principalmente das suas); afinal, Carnaval é para espíritos fortes e dispostos. Cansaço, nem pensar. Afinal havia o tempo de descanso dos músicos e a corrida para a toalete mais próxima. Na volta, goles de guaraná ou coca-cola: álcool nem pensar. Afinal, a alegria tinha um espaço natural e o esquecimento de problemas era do código comportamental aceito sem reclamação. Melhor ainda: festejar era parte das férias em estágio de conclusão.

O ano letivo começava em março. As férias eram de três meses corridos (com mais dias ou menos dias, dependendo do cidadão: estudou e passou: férias a partir de novembro.; vadiou ou se perdeu nos conhecimentos, novas provas, segunda época, férias a partir de janeiro). Mas passar de ano ou reprovar e ter que repetir a série escola não impedia o Alá-lá-ô.

E no salão democrático, bons e maus estudantes formavam o cordão carnavalesco que arregimentava pessoas, trazia as tias, insistia com os pais, esvaziava as mesas, cooptava os presentes e fazia serpentear os movimentos ao som das marchinhas pelos poucos espaços vazios de uma festa quase-familiar, onde Baco era amordaçado por uma liberação controlada e bem-posta.

Os pecados do lado de baixo do Equador eram tão comportados que o padre na confissão de quarta-feira de cinzas não passava penitências com mais de cinco Ave-Marias: quase todos os supostos bacantes pareciam fantasiados de anjos, meio decaídos, mas revitalizados pelos Alá-lá-ôs, “Saca-rolha”, “Ó Abre Alas”, “A canoa virou”, “Mamãe eu quero”, “Aurora”, “Jardineira”, “Pierrô apaixonado”, “Chiquita Bacana”. Letras que, cantadas, pareciam ser só ritmo e folia, sem sentido, nem correspondência com a realidade. Discurso politicamente correto? Censura moral? Que nada! Toca pular, fazer guerra de confetes, puxar cordão, gastar energias!

Afinal, na quarta-feira “sempre desce o pano” e as cinzas, marcando a testa em cruzes improvisadas, ajudavam a enterrar o Carnaval daquele ano, para que ressuscitasse em velhas e novas marchinhas no ano seguinte.

Só vim a conhecer o outro lado do Carnaval quando li Manuel Bandeira: “Epílogo”.

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior…

Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade…
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura…
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!…

Ah, mas esta é outra história!

Neste sábado de Carnaval, quero mais é cair em uma alegria efêmera, virar rainha de copas, sair de porta-estandarte, cantar as antigas modinhas e acreditar que, em algum tempo, o Carnaval foi apenas a passagem das férias para os estudos, da vida despreocupada da infância e da adolescência para um tempo de trabalho e de criação  que até hoje vive em mim.

Alá-lá-ô-ôôôôô.

Sobre escrita e leitura #1

“Ordenei que as letras maiúsculas fossem feitas de metal brilhante, para que o aspecto material, na falta de ideias, valorize o preço do livro (são os árabes, talvez, que trouxeram até aqui o ouro graças ao qual brilham as primeiras letras dos textos). Encomendei a pintura das outras iniciais em vermelho ou verde, para que a obra inteira tenha um brilho mais admirável, de modo que, aqueles a quem a riqueza de expressão for incapaz de seduzir, serão, ao menos seduzidos pela aparência do manuscrito.”

BAUDRI DE BOURGUEIL (1045 – 1130), abade da abadia beneditina de Saint-Pierre–de-Bourgueil, mais tarde arcebispo de Dol-de-Bretagne. Cronista, prosador e poeta.

Citado em Roger Chartier. Inscrever & apagar: cultura escrita e literatura (séculos XI-XVIII). SP: Editora UNESP, 2007, p.30-31.

Comentário :

Ao ler esse fragmento, pensei cá com meus livros: “para que o aspecto material, na falta de ideias, valorize o preço do livro” associo aos livros infantis lindos, pop ups, com páginas espelhadas e imagens deslumbrantes, facas, recortes, explosão de cores, papel couché, brilhos e pesos, capa dura, um luxo só.

Mas vigora mesmo é a fábula de Esopo:

O CÃO E A MÁSCARA

Procurando um osso para roer, um cão encontrou uma máscara: era formosíssima e de cores muito belas e animadas.

O cão farejou a máscara e reconhecendo o que era, desviou-se com desdém.

– A cabeça é realmente bonita – disse – mas não tem miolos.”

A fábula vai transcrita, assim, nuazinha, sem a moralidade final, que é translúcida, evidente, gritante.

Chocante mesmo é verificar que o poeta medieval anteviu nossos tempos e lascou uma definição tipo moralidade feicebuquiana:

“aqueles a quem a riqueza de expressão for incapaz de seduzir, serão, ao menos seduzidos pela aparência do manuscrito.”

Esses leitores-consumidores tão obcecados por ouros e brilhos, caindo nas armadilhas das aparências brilhantes, atropelando e ignorando “a riqueza da expressão”. Lendo o vazio em embalagens de ouropéis, brilhos de ouro de tolo, capas sedutoras e títulos tragicomicamente bombásticos.

Do século XI ao XXI e de volta ao XI. Em marcha à ré.

Sobre literatura – #1

“O valor da literatura reside justamente nessa experiência que autores e leitores vivenciam ao manusear a linguagem literária. Por ser única, pessoal e intransferível, por ser uma experiência singular de linguagem, por ser uma construção simbólica feita somente de palavras, a experiência literária é extremamente libertária e humanizadora. Por meio dela, como já anunciava Roland Barthes em sua Aula (1980), podemos assumir o lugar do outro sem deixar de ser nós mesmos, rompemos com os limites do tempo e do espaço da realidade histórica a que estamos irremediavelmente presos, significamos e ressignificamos nossa vida e nosso mundo em outras tantas vidas e mundos. Em suma, pela relação intensa com a linguagem enquanto linguagem e construção simbólica do mundo e de nós mesmos, , que é o fundamento da experiência literária, nos libertamos das constrições e dos ordenamentos que nos são dados socialmente e nos fazemos verdadeiramente humanos. Por ser linguagem simbólica, palavra imaginada, a literatura guarda em si todos os sonhos do homem e a experiência literária nos revela que não há sujeito ou mundo impossível de ser sonhado (Paulino e Cosson, 2009).” (p.179)

COSSON, Rildo. Paradigmas do ensino da literatura. SP: Contexto, 2020.

Breve comentário

Não é um belo fragmento que eleva e seduz? “Não há sujeito ou mundo impossível de ser sonhado”? Então, por quais bateladas de água os leitores andam sumindo, as livrarias vendendo canetas cadernos e quejandos, porque os livros empacam e estocam-se nas prateleiras e a literatura não atrai baratas nem traças nem moscas? Para convencer uma criança digital e um adulto mais indigitado ainda, só com filmes muita saliva e olhinhos revirados de prazer carmenmirandado pra dizer: leia, você precisa pensar, largar mão de ser pau-mandado abrir os olhos pro mundo e o cérebro para pensamentos de segundo grau. Nem assim: literatura é Oscar de inutensílio garantido e coisa pra babaca.

Hoje estou incrédula. Perdão aos meus amigos e mestres. Mas não largo a mão de vocês por razões de sobrevivência e um tanto de teimosia: vamos de sonhos e poesia que atrás veio gente e tem muita na nossa frente.

Foto por Leah Newhouse em Pexels.com

Sobre formação de leitores – #1

“Bettelheim e Zelan (1982) consideram a aprendizagem da leitura a experiência mais importante de crianças da escola fundamental – tão importante a ponto de determinar os níveis de sucesso ou de fracasso durante todos os anos escolares. Bettelheim e Zelan descobriram que a forma como as crianças são ensinadas a ler é vital para o sucesso delas. Eles propunham que os professores podem e devem apresentar a leitura como uma atividade valiosa, significativa e divertida. Além disso, sugerem que as competências dos professores, juntamente com considerações afetivas, são os fatores mais importantes relativos ao aprendizado da leitura, ‘independentemente do que a criança traz de casa’. “

Eugene H. Cramer & Marrietta Castle (orgs). Incentivando o amor pela leitura. Artmed, 2001. p.83.

Breve comentário: Relevante a responsabilidade atribuída aos professores do ensino fundamental, principalmente dos anos iniciais. Não basta a afetividade. São necessárias competências intrínsecas ao ato de ler e à escolha de textos. Desde quando a formação em Pedagogia prepara os profissionais para essas competências? E serão eles os responsáveis pelos leitores durante o percurso escolar, universitário e na vida pessoal. Pensemos no resultado aviltante para o país que a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil fotografou a respeito da perda de leitores, coisa de sete milhões, e das fontes de cultura em que os brasileiros estão indo buscar conhecimentos, ideias, comportamentos, estéticas e, acima de tudo, ética.

Foto por Leeloo The First em Pexels.com

Sobre poesia – #1

“A poesia”, escreveu [T.S.] Eliot em O bosque sagrado, “não é um desbordamento de emoção, mas uma fuga à emoção; não é expressão da personalidade, mas fuga à personalidade. É claro, porém, que somente aqueles que tenham emoção e personalidade sabem o que significa querer fugir-lhes.”

Citação extraída do excelente livro de Edmond Wilson, O Castelo de Axel, publicado em 2004 pela Companhia das Letras, à p. 137.

Rápido comentário: Leitores que somente consideram poéticos os versos que arrepiam, fazem chorar ou rir, causam impacto emocional ou apresentam correspondência equitativa entre vida e obra do poeta e , principalmente, só têm qualidade se apresentam correspondência por igual com a vida do leitor (“Ah, bem isso que vivi e senti ou de que sinto saudade” e por aí afora) – e até se transformam em influenciadores digitais – são leitores em formação, em fase inicial, falta-lhes muita leitura e aprendizado.

Foto por Anete Lusina em Pexels.com

Atenção, urgência: alerta!

Perdemos um Líbano de leitores

PublishNews, Francis Manzoni*, 27/11/2024

Em artigo, Francis Manzoni comenta os dados da Pesquisa Retratos da Leitura e aponta para a conjuntura de tendências que têm influenciado no resultado do estudo

Como digerir a perda de 7 milhões de leitores brasileiros nos últimos 5 anos? De início, fui ao ChatGPT perguntar quais países têm esse número de população, por ser mais ágil que o Google, e me vi assessorado por um poderoso instrumento de informação. Sim, Líbano, Sérvia e Paraguai têm aproximadamente 7 milhões de habitantes. É como se o Paraguai inteiro não tivesse mais leitores.

A IA das redes sociais vem tragando, em poucos anos, jovens e tradicionais habitués da leitura para pontos de atenção com predominância de imagens e símbolos. Foram necessários 5 séculos para tornar a Europa um continente de leitores, e o Brasil, que nunca chegou a sê-lo, agora parece distanciar-se desse perfil. Aliás, é como perfis e não como leitores que nos ajustamos melhor, como consumidores mapeados por algoritmos na Web. Antes que a falta de intimidade com a ironia cause ruído, isso é uma crítica.

Como editor no setor livreiro, procuro elaborar alguma resposta útil ao triste cenário divulgado na Pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-Livro neste 19 de novembro de 2024.

Ocorreu-me que o resultado das eleições nos EUA foi relacionado por especialistas à censura de obras literárias na maior parte do país, que a extrema direita tem aumentado seus representantes nos governos da Alemanha, capital econômica da Europa, e da América Latina, em que o Brasil é um dos casos mais emblemáticos.

Essa conjuntura de tendência autoritária coloca em risco as democracias, os sistemas de proteção ambiental e contenção das mudanças climáticas, e os direitos humanos, especialmente entre populações menos favorecidas.

Mas o que a leitura tem a ver com isso? Em poucas palavras: cidadania, direitos civis, proteção social, liberdade, equidade. Não é exagero lembrar que todas as social media e seus sistemas de informação são controlados por grandes acionistas, um número reduzido de empresários com alta concentração de renda e pouco compromisso com o futuro do planeta.

No período da Revolução Industrial, entre os séculos XVIII e XIX, existiram pessoas que imaginaram sociedades mais justas e igualitárias diante das condições de trabalho difíceis da época. Foram chamados de “socialistas utópicos”: Henri de Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen. Gosto de pensar neles como pessoas altruístas.

Hoje em dia, os cursos de administração propagam a Sociedade 5.0. O conceito, apresentado em 2016 pelo governo japonês, promete uma sociedade em que as tecnologias digitais, como a IA, a robótica e a Internet das Coisas, devem melhorar a vida de todas as pessoas e resolver os problemas sociais. Acho esse projeto tão utópico quanto o dos socialistas. Na verdade, ao longo da História, sempre há modelos de organização e controle do mundo em disputa, mas parece que chegamos a um limiar perigoso, com as grandes potências nucleares dispostas a usar sua força, e poucos estadistas de peso voltados para a paz mundial, o combate à fome e ao equilíbrio socioeconômico entre as nações. Além disso, temos sido pautados e manipulados pelas grandes empresas que controlam as redes sociais de informação.

Voltando ao Brasil, apenas 26% dizem que gostam muito de ler e 43% gostam só um pouco. Estão todos conectados aos algoritmos, ao lado de 46% que dizem não ter tempo para livros. Perdemos um Líbano, e, em três ou cinco anos, podemos perder uma Sérvia, até nos perdermos de nós mesmos.


*Francis Manzoni é pós-graduado em edição de livros, mestre em história pela Unesp e doutor em história pela mesma área na PUC-SP, com passagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. Atualmente é aluno do MBA em Gestão Estratégica de Pessoas na FGV. Atuou como consultor da área de literatura do Sesc São Paulo e, neste momento, é gerente adjunto das Edições Sesc. É autor do livro ‘Mercados e feiras livres em São Paulo: 1867 – 1933’ (Sesc, 2019) e ‘A criação do Centro Cultural São Paulo’ (Alameda, 2022).