Literatura oral e cultura

Wolff, Fausto. A milésima segunda noite: história do mundo para sobreviventes. Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 2005. p. 569-570.

“Como Paulo Rónai, amo histórias, principalmente as que me são contadas.  Sócrates só acreditava em cultura oral, pois era explícita e contava com o talento do narrador.  Achava que, uma vez escrita, ficaria à mercê de interpretações medíocres.  Felizmente Platão, pelo que parece, estava lá para tomar nota das palavras do mestre. 
Gosto de contar histórias e, geralmente, em aniversários de amigos, costumo fazer um discurso para marcar o acontecimento.  Infelizmente, este salutar hábito de contar histórias perdeu-se no Brasil.  O neoliberalismo fez com que as pessoas se afastassem umas das outras, elas não têm mais tempo para nada.  Ou estão atrás de um emprego, ou têm medo de perdê-lo.  Tornando-se proprietário, o homem tornou-se também escravo da sua propriedade e de tudo o que vem com ela.  Graças a isto e aos meios de comunicação, a sociedade imbecilizou-se a tal ponto que é incapaz de construir uma frase com mais de quinze palavras.  Até mesmo o nosso povo – de tão rica cultura – ficou bobo e suas discussões nos botequins que há alguns anos eu tanto apreciava e muito aprendia tornaram-se grosseiras, pobres, vulgares, grotesco reflexo da classe dominante.
Enquanto escrevia este livro, reli duas vezes As mil e uma noites, seus aforismos, pensamentos, preceitos, máximas, devaneios e desvarios.  São mais de quatro mil anos dentro de um livro.  São muitos os autores anônimos e cada um tem um estilo diverso, cada um nasceu num século diverso.  São histórias que vêm da China para o Egito, onde são adaptadas antes de viajarem para a Índia para depois acabarem no Japão ou no Camboja.  Todas louvam a vida que tanto maltratamos.
Hoje temos computadores, verdadeiros cinemas em casa, aparelhos de som com os quais Mozart não ousaria sonhar, aparelhos de TV, de rádio, aviões supersônicos, telefones celulares.  Só não temos o que dizer uns para os outros.  Só não sabemos mais fazer as pessoas sorrirem, chorarem, se comoverem com nosso talento.  Antes da invenção do trem, as famílias de conhecidos marcavam encontros através de cartas que levavam semanas para chegar: ‘Em setembro de 1779 eu e minha família sairemos de Londres para visitá-los em Amsterdã.  Esperamos chegar antes do Natal.’  No caminho, os viajantes descobriam novas flores, remédios, animais, enriqueciam o espírito.  Hoje os homens de negócios viajam do Hilton de Montevidéu para o Hilton de Nova Delhi em poucas horas e da paisagem nada mais conhecem do que os hotéis decorados pelos mesmos decoradores sem alma.
‘Um povo jovem como o nosso que tem sua cultura interrompida, roubada, está condenado a tornar-se um país de zumbis.  Onde estão nossa literatura, nosso teatro, nossa música, nosso esporte, nossa imprensa?  Onde está a nossa cultura que muito tem a ver com o verbo tradire (passar de uma geração para outra)?  Escravos do dinheiro, já nem sabemos nos divertir inteligentemente.  Pensem nisto: as canções de roda vicentinas (da época de Gil Vicente, como Teresinha de Jesus, Atirei um pau no gato, O cravo brigou com a rosa e centenas de outras) atravessaram o Atlântico e aqui foram adaptadas aos nossos costumes.  Essas histórias resistiram mais de quinhentos anos e foram destruídas por programas de televisão para pedófilos e crianças, como os da Xuxa e muitos outros.  Quando estive na Dinamarca há alguns meses, meu neto mais moço perguntou a minha filha: ‘O que é que o vovô faz?’  E ela: ‘Ele é um contador de histórias.’  Para que o menino entendesse, teve de dizer que trabalho na TV, o que não é verdade.  Desculpem a chateação, mas estou muito triste.”

Transamazônica

Marta Morais da Costa

A proximidade do início da primavera lhe trazia uma sensação de fragrância florais, brisas instáveis ao sabor do passar das horas do dia, a expectativa de melhor humor e passeios tranquilos à luz do sol de raios amenos.

Mais do que isso: mal se anunciavam os tons róseos da manhã, já estava às voltas com o aguar das flores, a sensação de um novo e promissor dia de vida e os preparativos do café a dois, silencioso, mas cheio de pequenas atenções.

Só que não.

Os olhos foram o primeiro alerta: secos, doloridos, como se mergulhados em areias desérticas. Logo a respiração perdia sua leveza quase imperceptível para ganhar arquejos de pouco fôlego.

A janela do apartamento deu o alarma: o horizonte perdia a limpidez para acinzentar, embaçar e quase esconder a linha do horizonte. A noite parecia sofrer para ir embora e permanecia em surda batalha com as margens do dia.

A imagem idílica de amanheceres em poética quietude embaçava-se igualmente. A rinite tomou conta de sua respiração e de seu dia, que começava se liquefazendo em rotinas de cuidados e socorros. Os anúncios do corpo eram de incômodos e mal-estares.

Entre a surpresa e a ansiedade, o olhar lançado ao exterior através da janela do quarto foi ganhando mais compreensão: a linha cinzenta era mais espessa e mais alongada do que a cotidiana poluição. Trazia em sua cor mais definida uma pressuposição de ameaça.

Pelas frestas de portas e janelas o velho novo monstro insalubre trouxe as sobras da natureza em combustão. O ar monoxidal, carbonífero carbonizador, espalhava o mal-estar, furava pulmões em agressiva invasão, tomando posse de espaços, telas, corpos em absorção ingênua, movimentando formigas humanas sem proteção pelos caminhos de hospitais, clínicas, enfermarias e sofrimentos.

Entre lágrimas e coriza, ela padecia a asfixia de um tempo e uma sociedade agora desvalida por força de suas inconsequentes atitudes de descaso e desleixo.

Plantas e troncos, bichos e águas, envoltos em fogo e fumaça apontavam dedos carbonizados para assassinos Neros a tocar não harpas, mas fósforos e isqueiros em combustíveis.

Enquanto isso, prisioneira do horror, ela sonhava umidades e verdes, cada vez mais distantes e imaginários. E ela contava para ninguéns a bucólica narrativa, versão pastoral, de camponeses cantando em versos aos sons de flautas, a natureza risonha de “verdes mares bravios” de uma terra de palmeiras, embelezada pelo nome sonoro de Pindorama.

Enquanto isso, chegavam notícias de acordos e conchavos protelatórios, cozidos em negociatas ao fogo de agonizantes árvores e cerrados, em crepitações eleitoreiras.

Criavam-se os sulcos de nova e flamante transamazônica viajando em um sinistro corredor de fumaça.

Um entre 4

Marta Morais da Costa

Foto por Xi Xi em Pexels.com
Ler jornais está se tornando um exercício flagelante, torturador. Diariamente uma dose cavalar de surpresas más, de informações dolorosas, de fechamento de horizontes de esperança se abate sobre mim durante o ato de ler telas e telas, com imagens e publicidade e textos escritos.
Hoje doeu ler “Geração nem-nem: quantos jovens não estudam nem trabalham no Brasil? E nos países ricos?”, publicado na edição de 10 de setembro de O Estado de São Paulo. São 24% dos jovens entre 25 e 34 anos que se dedicam a construir um futuro de sombras e apagões. Por diferentes razões: necessidade de emprego, preguiça, rejeição à escola e aos estudos. Entre as mulheres, gravidez, tarefas domésticas e cuidar de outros, sem eliminar aas três justificativas anteriores.
Está no jornal, com todas as letras:
“Os jovens entre 25 e 34 anos que não trabalham nem estudam — os chamados “nem-nem” — são quase 1 em cada 4 (24%) no País, conforme o estudo Education at a Glance 2024, divulgado nesta terça-feira, 10, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países desenvolvidos economicamente do qual o Brasil não faz parte. Esse número caiu 5,4 pontos percentuais em sete anos (era de 29,4% em 2016), mas ainda é considerado alto pelos especialistas.
O número da entidade internacional é pior do que o divulgado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) da Educação, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado e correspondente a 2022, de 20% (9,6 milhões de jovens). A PNAD avalia uma faixa etária diferente: dos 15 aos 29 anos.”
No amplo espectro da idade dos 15 aos 34 anos, em que se alicerçam valores, competências, habilidades, crenças e vida familiar independente, quando os estudos ainda encontram uma mente aberta e idealista, os brasileiros abrem mão de estudos profissionalizantes ou de aprofundamento para cuidar da vida prática e da prática que provavelmente se tornará repetitiva e defasada em pouco tempo.
Na sociedade cambiante e veloz, a ausência de vontade e resiliência para investir na autoeducação e em projetos de vida que passem além do sucesso Tik Tok/ Instagram condena os novos analfabetos funcionais a uma vida boçal, medíocre e massificada.
Talvez o que seja mais excruciante na reportagem além dos números, é constatar que a diminuição proporcional se dá em um ritmo tão lento que o Brasil se (des)qualifica para ocupar sempre posições em final de lista, em um inalcançável futuro de vida digna. São milhões de pessoas a viver um estado de alienação, de vida à margem das conquistas civilizatórias.
Enquanto ainda lutamos contra o analfabetismo funcional, países mais avançados, cultural e economicamente, discutem como tirar proveito da Inteligência Artificial e como criar um mundo em que possa haver um pouco mais de segurança e de crença no futuro.
Novas adversidades irão surgir, isso nem se discute. Mas pessoas com melhor conhecimento e preparação sempre estarão em vantagem sobre os que nem estudam, nem trabalham, nem usam o cérebro em funções propriamente humanas.
O mais deprimente nessa história toda? Saber que nem todos nós poderemos esperar pelas décadas necessárias para que essa porcentagem mortífera diminua.

No sótão – IV

Seamus Heaney

À medida em que envelheço e esqueço nomes,

À medida em que minha incerteza nas escadas

É cada vez mais a vertigem

 

Da primeira vez de um grumete no cordame,

À medida em que o memorável chega ao fundo

Em direção ao irrecuperável,

 

Não significa que eu já não consiga imaginar

O leve balanço adverso, a inclinação do mundo

Como um vento renovado e a âncora pesada.

 

(HEANEY, Seamus. 100 poemas. Tradução de Luci Collin.  Porto Alegre (RS): Isto Edições, 2023. p.177)

Lua azul

Ela havia aprendido que “só pelo amor vale a vida”. Ela associava a luminosidade da noite, com suas vias estreladas, as pratas lunares, a brisa noturna, aos escurinhos, às declarações de amor, aos gestos e aos corpos em contato. Criava cenários com rosas/lírios/dálias e verbenas/lavandas para perfumar em cômodos íntimos as descobertas do amor.

Não recusava olhares e palavras, desde que viessem acarinhados por afetos apaixonados e loucas imagens dos sentidos desatados em circunvoluções e redemoinhos em homenagem aos amantes.

Imaginava canções pragmáticas e hinos simbólicos ou realistas ao amor em todas as idades. A sonoplastia e a coreografia ficavam à escolha e ao pendor voluptuoso dos pares em danças em louvor a Afrodite, ou se o leitor preferir, a Vênus, em especial a Calipígia.

 Quem é esta? De imediato esta escriba, em seu dedilhamento internético, vai buscar uma explicação que esclareça os leitores menos afeitos à estatuária grega. A cronista por vezes perturba a leitura com suas citações meio enigmáticas e com fumaças eruditas. Daí que sua dublê escrevente tem que fazer hora extra e trabalho fora de contrato para não deixar os poucos leitores dos textos da dita cronista sem um apoio para a compreensão da crônica.

Vênus ou Afrodite Calipígia “é uma famosa estátua romana antiga de mármore, que se acredita ser uma cópia de uma original grega mais antiga Seu nome significa literalmente “Vênus (ou Afrodite) das belas nádegas”. A estátua representa uma mulher seminua levantando seu peplo diáfano para cobrir seus quadris e nádegas enquanto olha para trás por cima dos ombros, talvez para admirá-las. O tema é convencionalmente identificado com a deusa Vênus, mas é igualmente possível tratar-se de uma mera mortal.”

 

Em meu passeio pela Wikipédia, passei de um olhar retrospectivo para um pedido de socorro a informações mais pé-no-chão sobre um uso mais científico e objetivo do nome dessa deusa e encontrei uma versão masculina para formar o par romântico. Um planeta.

“Vênus é considerado um planeta do tipo terrestre ou telúrico, chamado com frequência de planeta irmão da Terra, já que ambos são similares quanto ao tamanho, massa e composição. Vénus é coberto por uma camada opaca de nuvens de ácido sulfúrico altamente reflexivas, impedindo que a sua superfície seja vista do espaço na luz visível.”

Rabisquei os dois fragmentos explicativos em um perfumado papel de carta cor-de-rosa e enviei para ela, a enamorada, a que está em devaneios de amor perfeito. Para a cronista, mandei duas mensagens de whatsapp com os fragmentos encontrados a título de colaboração.

Nenhuma das duas declinou recebimento. Esta escriba aos poucos está se acostumando aos apagamentos de mentes obcecadas de amor e ao descaso de cronistas auto-confiantes.

Para minha total surpresa, chegou-me hoje às mãos, em artístico papel linho, a seguinte mensagem – já devidamente enviada à cronista:

Senhora escriba:

recebi sua mensagem com a informação sobre as duas Vênus, a feminina e a masculina.

Confesso que me comovi ao descobrir que minha crença inabalável no amor também contemplava um par de seres deste mundo: uma estátua e um planeta – não poderia ser uma planeta, já que a palavra termina com vogal feminina? A presença da deusa do Amor nomeando as duas existências só vem comprovar que estou certa em imaginar cenas e cenários dominados pelo afeto amoroso.

Agradeço.

(a) Ela

A cronista até hoje não havia se manifestado.

Eis senão que recebo um e-mail – formato já meio em desuso, atestando a possível idade provecta da autora cronista.

Prezada senhora escrevente,

venho lhe comunicar que terminei de redigir esta crônica e solicito que seja devidamente registrada em palavras e frases, parágrafos e pontuação, da forma que vai anexa a esta mensagem.

Sem mais, reitero meu desejo de que não seja alterada nem uma vírgula do que escrevi. E declaro extinto nosso contrato.

(a) Cronista

Reproduzo, conforme recebimento:

Ela era uma romântica inveterada. Passava noites à janela, admirando a Lua, a chuva, as estrelas. E pedia às entidades celestes que a abençoassem com um amor, mesmo que frágil, mas infinito enquanto durasse.

Seus pedidos se intensificavam quando brilhava no céu a Lua azul. Como os astros são indiferentes aos desejos humanos, os anos se passaram, ela se cobriu de rugas e cabelos brancos, mas o amor não bateu à sua porta.

Em noites de Lua cheia, é possível distinguir seu perfil na janela do apartamento do pequeno e envelhecido prédio, hoje cercado de altos edifícios que lhe roubaram até a visão sem horizontes da Via Láctea e da Lua de diferentes cores.

Marta Morais da Costa

Pensamentos nostálgicos sob a luz do luar

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Em noites de super-Lua, me surpreendo em repentes de nostalgia e recordação de tempos idos. Deve ser porque a nada cândida hospedeira de São Jorge e de seu dragão de estimação manda em nosso humor feminil.

Ah, as mulheres!! Nada de “piuma al vento”, esse instrumento de suave agressão masculina ao querer definir nossa desafiadora multidimensionalidade e diversidade cambiante por excesso de interesses! Somos capazes de viajar em pensamento por diferentes rotas e em diferentes veículos e sempre chegar a um ponto único de destino: o de nossa sagaz e autóctone satisfação com a vida.

E sem deixarmos de ser dramáticas, apaixonadas e eternas sofredoras ficcionais.

Mas o assunto não era esse universo feminino genérico e meio exagerado. A super-Lua continua a brilhar e a objetividade bate à porta. Do que mesmo você tratar em seu texto, ó cronista divagante?

Algo a ver com nostalgia. Em minha índole conservadora – neste estágio da vida, devidamente enrijecida –  os objetos são presenças quase íntimas devido ao longo tempo que convivem comigo. Ainda cumprem suas funções, meio cansadinhos, com visual que envergonha meus filhos.

– Mãe, que tal trocar o liquidificador? Você ainda tem esse celular lento? Sabia que existem panelas de inox? Câmbio mecânico, mãe?

Pois é, como são Jorge continua lá, não deixa seu cavalo e nem faz amizade com o dragão, meu carrinho também não visita outras garagens, nem quer saber de um pezinho menos leve para pisar em sua embreagem ou uma mão mais magra pra repousar sobre o volante de direção.

Mas o carrinho garboso precisa de periódicas revisões, cada vez em períodos mais curtos. Por isso, telefono pra oficina e me atende seu Jorge (outro):

– Ah, a senhora vai trazer pra revisão? Ainda é o mesmo carro?

Aquele ainda quase rompeu minhas coronárias. Nem tive coragem de perguntar se o ainda era curiosidade, ironia ou deboche. Vai que fosse esse último…Daí até o coração iria à falência.

– É seu Jorge, é o mesmo. (um pouco de rosa forte no rosto: ainda coro como velha adolescente) . Intimamente jurei pra mim: será a última revisão, seu Jorge. Vou trocar de carro.

Essa conversa e seus protestos de renovação aconteceram no mês passado.

Meu belo corcel agora tem um motor silencioso, a troca de marchas parece acontecer na maciez de um carinho, os pneus deslizam suavemente, até a buzina ficou mais forte. Mágica de um certo Jorge.

Como posso trocar esse velho amigo? E essa super-Lua falando de amores e entusiasmos? Quase que sozinho, o carro estaciona no mesmo espaço da garagem, se duvidar dentro das mesmas medidas de largura e comprimento do piso. Volta pra casa e vai descansar.

Quem sabe no próximo ano eu procuro um novo carro? Depois de uma última revisão, viu, seu Jorge?

Chaves

Marta Morais da Costa

Foto por George Becker em Pexels.com

Depositou o chaveiro sobre a mesa. Não porque fosse deixá-lo à vista para não perder. Não porque fosse um peso a menos no bolso. Também não para demonstrar propriedades a que pudesse acessar diretamente. Talvez para demostrar a ela sua condição de proprietário, de posses garantidoras do futuro, de acesso a muitos lugares todos seus ou sob sua responsabilidade. Duas chaves podem abrir poucas portas: dezenas delas abrem portas de respeitabilidade e poder.

Distraidamente ela passeou os olhos sobre o molho de chaves. Fixou-se no chaveiro, uma gasta tira de couro com argolas, que reuniam diferentes tamanhos e formas de chaves. Os olhos deslizaram do molho para a mesa, em imbuia escura e aparentemente sólida. Viajaram até as paredes camufladas por um simples papel colorido lembrando flores impressionistas.

– Qual é sua resposta? –  indagou com aparente calma e disfarçada curiosidade.

– Preciso responder agora? – ela retornou com dissimulada ingenuidade.

– Sim, precisa. Dependo dela para decidir meu futuro.

– Se for positiva?

– Inicio os preparativos.

– Se for negativa?

– Sairei de sua vida.

– E um talvez?

– Certamente não se aplica à minha pergunta.

– Então, dois minutos mais. Por favor.

Num aparente gesto descuidado, ele bateu delicadamente com os dedos no molho de chaves e as deixou mais visíveis para ela. Sobressaíam as chaves novas, brilhantes, maiores. As pequenas e coloridas, montavam o cenário para as protagonistas. O tempo escorreu por entre os interstícios do chaveiro.

– E então?

– Bem, sabe… pensando bem… minha resposta é não.

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Lamento. Muito.

Juntou o chaveiro, as chaves tilintaram em despedida, a escorrer lágrimas de metal. Sumiram no bolso e ele sumiu na esquina, apagando-se do cenário.

Ela continuou sentada à mesa, semblante decidido, olhos secos e fixos em uma das flores do papel de parede. Sem portas nem chaves. Apenas a luz filtrada pela janela aberta, que não precisa de chaves. Mas que não dispensa a luz e a lua.

No sítio do Picapau Amarelo, os vingadores perseguem o menino marrom por causa do avesso da pele

Marta Morais da Costa

A literatura é avassaladora. Em sua natureza e na produtividade. A força invasiva no pensamento do leitor – para a mudança e para a permanência – da natureza própria da literatura e a reprodução incontrolável de escritos, livros e formas de transmissão. São aspectos que recebem a atenção dos estudiosos e escritores, e, acima de tudo, se tornam objeto de discursos extremos e delirantes.

 

 

Freio de mão e pé no chão pode ser uma receita para dias de turbulência, como os recentes. Não se trata de jogar na vala geral da polarização: a causa é mais complexa.

A polarização é resultado e pode dispensar o conhecimento. Entra em ação a “ignorância artificial”, assunto tratado com inteligência e alta qualidade textual por Eugênio Bucci em sua recente coluna no jornal “O Estado de São Paulo” (https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/sobre-a-ignorancia-artificial/), essa rede de ideias pré-formatadas e empurradas goela abaixo de gentes crédulas, de boa e má-fé.

Faz parte do cardápio dessa ignorância artificial os recentes casos de censura de livros, acentuadamente os de literatura infantil. O perigo de atribuir a personagens (afinal, seres imaginados em um mundo de invenção) que não são o vizinho da direita, o irmão do dono da casa da esquerda, o pedestre que atravessa a rua, a mulher no banco de espera do ônibus ou a colega de trabalho.

As narrativas passaram a ser consideradas manuais de comportamento, menus de atitudes, publicidade de valores morais e por aí afora. Desenquadram-se de uma cronologia histórica, viram textos escritos neste momento e com personagens atuais.

 

Nunca objetos de compartilhamento de opiniões diferentes, ouvidas e respeitadas de hoje e do tempo de seu autor. A opinião já nasce vestida em armadura e armada até os dentes. Ninguém contextualiza na história da literatura. A narrativa ou o poema se transforma, na interpretação falsamente crítica e intencionalmente tendenciosa, em uma bula de remédio para as necessidades cotidianas dos leitores, como resolver conflitos familiares, exemplificar o que é bulling, disfarçar a depressão, consolar da morte do animal de estimação. Literatura é antes de tudo arte e invenção. Textos voltados à didática da vida escanteiam a literatura e privilegiam sua utilidade prática.

A violência da personagem, que, na narrativa infantil, via de regra, termina por ser condenada e penalizada, passa a ser entendida como uma lição comportamental, ou seja, uma ordem: faça assim ou imite a personagem, leitor ingênuo!

Quem faz uma reflexão sobre a sociedade violenta e de valores hipócritas? Pronto, está declarada guerra ao texto provocador. Melhor censurar a literatura (essa libertina que deseduca) do que trabalhar em prol da compreensão do problema em suas dimensões diversificadas e na adoção de atitudes que o solucionem.

Falta a esses censores deseducados um enfrentamento de seus medos que a literatura vem desvendar. Quanto do medo adulto se manifesta nos pedidos de retirada de livros de literatura das estantes (tão raras e pobres) das bibliotecas escolares? Quanto de má pedagogia existe que silencia sobre a censura ou esquece seu papel de favorecer a compreensão da história e da vida, latente no texto censurado? Quanto de jornalismo sensacionalista está nas manchetes que anunciam mais um livro censurado, sem que trate com a devida inteligência a natureza do texto literário e as questões de interpretação? Lembrar que a interpretação resulta sempre de um histórico de leitura e não de ideias/valores projetados desrespeitosamente sobre o texto.

 Reconheço como é meritória a preocupação dos pais com a formação psíquica e emocional de seus filhos. Reconheço como a escolha de livros é, por vezes, resultado de gentes que não têm formação adequada para realizá-la. Reconheço que existem equívocos na mediação da leitura literária (por presunção, prepotência ou desconhecimento dos mediadores: exceções à parte). Reconheço que há muito livro ruim circulando como se fosse literatura de qualidade humana e estética. Reconheço que existem erros no tratamento e na adequação de livros a seus leitores mirins. Mas me pergunto: o que fazem os atores/agentes desses equívocos? Dialogam, trocam argumentos, propõem soluções? Não. É mais fácil censurar. Propostas de cadeia para o livro e não de livros em cadeia para desenvolver o pensamento e a interlocução!

Mas não são apenas os leitores que desaparecem a cada pesquisa sobre o status da leitura no Brasil. Somem leitores qualificados e aparecem os profetas do caos. Saem a beleza e a força da literatura e passam a vigorar os estatutos dos medos e o obscurantismo.

Proibir atiça o desejo. Talvez seja uma boa propaganda para leitores curiosos.

Enfim, não é apenas a educação institucionalizada que vai mal…

Desapegos

Marta Morais da Costa

A palavra apego, embora de origem latina pela forma verbal adpegare, tem sido uma constante no léxico do idioma falado no Brasil. Não por sua versão positiva: apego como sentimento de afeição, de simpatia, de dedicação e estima. Mas especialmente por sua forma negativa, dita e escrita em forma afirmativa, quando não imperativa: desapego e desapegue.

Em sua versão recente é uma palavra tangencial de livre-se, livramento, fique mais leve, passe adiante. E aí os objetos diretos da frase ou do complemento nominal (desapego de…) podem estar contidos nos mais diversos campos semânticos: coisas, pessoas, sentimentos, ideias.

Desapegue de suas roupas sem uso, desapegue dos sentimentos frustrantes, desapegue de pessoas pessimistas ou fofoqueiras e até o extravagante e abusado desapegue dos livros que já leu, que ainda não leu, que jamais lerá.

É um tal de distribuir, dividir, compartilhar, livrar-se do que foi atado e que compõe a base sólida e segura de sua vida, para lançar-se a novas bases a serem, por sua vez e futuramente, desapegadas.

Para algumas pessoas desapegar-se é apenas trocar os móveis e tapetes, livrar-se dos eletrodomésticos antiquados (sem timer nem lâmpadas led), colocar em outras mãos tudo aquilo que um dia foi uma sinalização, uma identificação e a memória pessoal.

Desapegar é um ato heroico e um grito de liberdade. Em termos. Cortar laços, representados por objetos e pessoas, não é (ou não deveria ser) uma atitude inócua, irresponsável, desestruturante. Um lançar o passado na bacia das almas, apagar as provas do vivido, esquecer os exemplos de um tempo, talvez mais feliz.

Desapegue, dizem tantos: reconheça que eram coisas e pessoas efêmeras em sua vida, trocados que a atualidade da abastança despreza e destrói. Eram fúteis, vaidades tolas, pecados a serem escondidos. Desapegue rapidamente, antes que a hesitação habite seu desejo ou sua obediência. Lance longe, encaixote e envie sem remetente, cubra, embrulhe, despache. Sem remorsos, vire as costas ao que estava e não é mais, abra asas de liberdade e voe para o novo, o diferente, o que não era e passa a conviver com você.

Assim, tendo a alma leve e o passo rápido, entre em um novo mundo de consumo e povoe sua casa, sua vida e seus afetos como um renascer. Isso tudo não deixa de ser um apelo imantado, irrecusável, embriagador.

Algo como a água de uma fonte de juventude e um eldorado existencial.

Coragem: deixe os vinis rodarem ladeira abaixo, ponha no freezer do esquecimento os presentes de casamento, as lembranças de viagens, os desenhos dos filhos-crianças, os livros que guardam pó e peso nas estantes, as imagens dos amigos da escola, da formatura emocionante, do primeiro beijo, ah, e os documentos com mais de cinco anos de emissão!

Crie um marco zero em sua caminhada, alivie seu coração dos afetos do bem, do remorso e da culpa. Ponha tudo em uma caixa bem decorada, feche com fitas e enderece para uma rua ladrilhada onde sua vida passou.

E voe mais leve e mais vazio.

 

Foto por Mauro Torres V em Pexels.com

Ela comemora cem anos.

Minha mãe está fazendo 100 anos neste 31 de maio. Mesmo que não esteja em nenhum cômodo do apartamento, mesmo que não precise de agasalhos contra o frio (ela, que sentia muito frio nos pés e nas mãos), mesmo que dispense bolos e abraços, mesmo que não esteja sorrindo aos ver os filhos reunidos e os netos a chamar vovó. Mesmo que não atenda aos telefonemas para, com dificuldade de audição, ouvir a resposta a seu rápido alô.

Essa mãe, forte para parir e criar seis filhos, hoje tem uma força sobrenatural, em outro estágio, em outra dimensão. E continua presente na história que construiu em nós e conosco. Continua a sorrir, a aconselhar, a contar suas histórias, a lamentar a hora da despedida quando ultrapassávamos a porta de saída e a se queixar da vida presente, tão confusa, tão incompreensível, tão diferente.

Sabe, mãe, somente convivi com você 77 anos desse centenário que você comemora longe de nós. Não conheci você no tempo de sua infância, meninice e juventude, mas elas vieram com suas histórias do tempo passado fechar lacunas, dar a conhecer um pouco do que você viveu.

A gente é assim mesmo: o que não vivemos também se torna nossa história pela voz dos outros.

Por isso, mãe, aquela plaquinha de comemoração de seu centenário não existe, apenas ficou como palavras em seus ouvidos e na minha intenção. Faz mal não, mãe! Este bilhete não substitui a plaquinha e as homenagens. Mas igual a elas, fala de meu agradecimento por tudo que herdei, de corpo e de caráter. E de quanto sinto sua falta.

Parabéns, mãe! Você viverá muitos e muitos anos mais enquanto vivermos: meus irmãos, seus netos e bisnetos, genros e noras e todos os amigos que você fez na vida. Eles lembram com afeto da vó Pierina, da tia Pierina e da dona Pierina: as muitas mulheres que você foi.

Ah, aí ao lado do pai (esse centenário rapaz elegante e bonito), diz para ele que ele também faz falta e que ser órfão só é bom em romance que acaba bem. Pra valer, orfandade dói, dói.

Beijos e feliz aniversário!