Brasília, Capital da Esperança.

Marta Morais da Costa

Ando por demais pessimista.

Quando Juscelino Kubitschek de Oliveira inaugurou Brasília fez um emocionado discurso, exaltando o poder transformador da nova capital do Brasil. Citou André Malraux em sua profecia a respeito dessa cidade nascendo do chão desértico, a Capital da Esperança. Seguindo o mesmo tom ufanista, Juscelino envolveu no momento glorioso de sua gestão todos os colaboradores, dos figurões aos operários e não poupou uma visão eufórica do feito mais relevante de seu governo:

Em nenhum momento de sua oração retórica tratou dos políticos e de seus gabinetes e dos ocupantes dos Três Poderes. Dirigiu-se a nós e ao futuro: “Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.”

Bem, hum, ham, pois é. Após 66 anos, o resultado de toda essa empolgação cabe em uma caixa de isopor (com cadeado, claro, porque deve ser sigiloso), a tal “revolução fecunda em prosperidade”.

Correta está a letra do Hino Nacional: “deitado em berço esplêndido”.

Meu pai, aventureiro arrojado, esteve em Brasília enquanto a cidade surgia do chão. Voltou a Curitiba, empolgadíssimo. Disse para minha mãe: “Apronte as malas. Junte tudo que é nosso. Vamos pra Brasília.” Minha mãe, sábia, cercada do quinteto filial, não arredou o pé: “Só saio daqui morta!”. Foi uma rebelde exemplar e certeira.

Hoje, solidários aos brasileiros sem penduricalhos, sofremos a prosperidade alheia e consideramos que a “Capital da Esperança” é uma fake news vetusta e seletiva.

Mais ainda: sofremos de neurose informativa. É só o veículo de comunicação chamar o repórter de Brasília que já erguemos a bandeira da desesperança. E ouvimos tilintar nossas moedas, escorrendo do bolso e caindo na vala comum.

Ai, ai, Brasília, a menina dos olhos e do coração do Presidente Bossa Nova metamorfoseou-se em vampira.

Nossos filhos nos olham em silêncio. Lá dentro deles, a voz da realidade, grave e soturna, nos acusa.

– Ingênuos, crédulos, ladrões de futuro!

Abaixo a cabeça, fecho os olhos, o coração em frangalhos e o pensamento, de chumbo.

Antigamente II

Marta Morais da Costa

Foto por Teddy Yang em Pexels.com

Antigamente os sinos badalavam para marcar o inexorável escorrer do dia e da noite. Havia o ranger das rodas das carroças, algumas explosões de motores de automóveis, a atingir velocidades surpreendentes de 80 km horários!

A família crescia a cada dois anos, como cresciam os seios e as preocupações. A infância ainda não se fora de todo. Adolescência não era termo nem impedimento ainda. Era como se a passagem fosse direta da infância para a juventude adulta. Com dois marcos irredutíveis: o baile dos 15 anos (hoje em franca desvalorização) para as chamadas meninas-moças e o serviço militar para os rapagões (hoje pernóstica e colonizadamente denominados teens).  Pórticos para a vida adulta com suas disponibilidades e responsabilidades. Esse duo de –ades não se exercia com igual intensidade nos dois sexos (entenda-se hoje: gênero, como palavra mais adequada e politicamente correta). Rapazes criavam asas e esporas facilmente. As moças ficavam sob as rédeas familiares. Avós, tios e irmãos decretavam costumes em igualdade de condições com os atarefados pais, às voltas com todos os demais filhos e com a subsistência diária.

Nada impedia as brincadeiras de sempre: bola de gude, futebol, figurinhas, bonecas, pingue-pongue, pular corda e usar rodas de todos os diâmetros. Sem distinção de sexo. Ops, de gênero.

Antigamente se pedia à benção dos mais velhos e dos padres, na esperança de que tudo viesse a acontecer conforme o previsto e a tradição e que todo o mal ficasse afastado (quem sabe, até por perto, atrás das cortinas). Orava-se ajoelhados à beira da cama, mesmo que o sono chamasse para o travesseiro e o colchão de crina ou de palha de milho. Colchão de mola era coisa de rico, bom demais para as camisolas de chita e os pijamas de morim.

Os relógios de pêndulo na parede, as imagens de santos recortadas de folhinhas, a foto de casamento dos avós a observar e guardar os costumes recatados de outrora. Paredes de tábuas e sarrafos, paredes com ouvidos e móveis de modelo caixote, sem glamour nem décor. Eram funcionais e bastava. A mesa comprida na cozinha acomodava em cadeiras de madeira rústica e assento de palha o bando de molecas e molecotes, uma ou outra visita e os pais nas duas pontas a governar com os olhos a família crescente, buliçosa, balaio de brigas e afetos.

Compravam-se alimentos a granel nos poucos armazéns de famílias a atender famílias, à vista ou no fio de bigode das cadernetas a fiado. A economia doméstica rigorosa mal permitia a matinê aos domingos. Mas a roupa era sempre asseada, engomada e impecável. Mães e tias estilistas e prendadas mantinham na máquina de costura a pedal a família em sua elegância interiorana.

Um tempo em que a rua só era perigosa em momentos regulados pelo trabalho: a hora de ir para a fábrica ou a lavoura e a hora de voltar para casa, jantar e dormir. Sem televisão nem baladas ou raves: apenas as ondas do rádio e as conversas na cozinha, centro da sociabilidade familiar.

Quermesses da igreja, leilões, rifas, pescarias de bugigangas e músicas dedicadas aos namoricos e amigos, nessa ordem de preferência. Quando sobravam moedas, as matinês de domingo, animadas por filmes lançados há anos nos cinemas da capital.

No mais, a monotonia feliz dos dias regulados, das férias em casa, das viagens raras, dos amigos que só se disputavam por figurinhas e intrigas tolas.

O antigamente se espraia em ações e expectativas do hoje. De tal maneira amalgamou-se na vida interior e na memória, que dá sempre a impressão de ter sido apenas um documento histórico para dizer, entre rugas e cãs, “meninos, eu vi!”. Ou, em dias de mau humor e indignação com o presente, poder dizer-se em silêncio ou como uma acusação ao mundo mudado: “Era um tempo melhor: aquilo é que era vida!”

No entanto, no silêncio da solidão, em conversa com o espelho interior, sei que, verdade da verdade, o melhor mesmo era a idade: os olhos impregnados de jovens aprendizados e a alma aberta a acreditar no que viria.

Uma agenda peculiar

Marta Morais da Costa

Em 2000, ganhei de uma amiga especial uma agenda especial. Editada pela Biblioteca Nacional, tinha o título sedutor de “Agenda da Literatura Brasileira”. Veio somar-se a muitas outras, que colecionei ao longo da vida docente. Assumindo uma filosofia de desapego, fui deixando entre os papeis descartáveis quase todas as outras agendas que me auxiliaram a guardar informações, pensamentos, compromissos, relacionamentos de amizade ou de interesse, projetos (feitos ou jamais realizados) e muitos, muitos endereços e contatos com pessoas que já não moram mais, que já trocaram de número de telefone ou que, até, nem mais estão precisando de casa ou de comunicação.

Mas da velha agenda, agora completando jovens 25 anos, não me desfiz. Não apenas me lembra aquele ano final do século 20, como ainda me retém a atenção pelos textos nela reproduzidos. Poemas, fragmentos de contos e de romances, cópias de manuscritos, fotos de capas de livros, aquela miscelânea de textos verbais e visuais que fizeram e fazem parte das coisas boas da vida de uma professora de literatura.

Os poemas são os mais numerosos, talvez porque, por apresentarem um texto completo, chegam com maior impacto à mente leitora. No seu primeiro mandamento, o de representar uma unidade textual, montam o cenário, a situação, as personagens e seus sentimentos em alguns poucos versos, tendo ainda espaço para a identificação do autor e do livro.

Gostosamente releio alguns desses textos, reconhecendo o grande número de escritores escolhidos dentre aqueles que participaram de dois movimentos especialmente importantes da literatura brasileira: a juventude do Romantismo e a jovialidade revolucionária do Modernismo de 22. Mas não apenas esses dois momentos: a literatura que se encadeou desde Anchieta no século 16 até Vinícius, Clarice e Guimarães Rosa, multiplicando os textos de Machado de Assis. Afinal, monumentos são pra serem exibidos. Manteve-se em autores clássicos e ignorou a juventude audaz do último quarto do século passado.

Depois de reproduzir a capa da “Arte da grammatica da lingoa mais falada na costa do Brasil” – que não era o português, mas o tupi!-  a agenda reproduz na íntegra o poema “Saudade” do ex-popularíssimo Casemiro de Abreu, preterido hoje por Fernando Pessoa, como se o Tejo fosse o rio de nossas aldeias, ou pelas sensaborias de Bráulio Bessa.

Mas vamos ao poema, que citarei em fragmentos:

“Nas horas mortas da noite

Como é doce o meditar

Quando as estrelas cintilam

Nas ondas quietas do mar.

(…)

Nessas horas de silêncio

De tristezas e de amor

Eu gosto de ouvir ao longe

Cheio de mágoa e de dor,

O sino do campanário

(…)

Esses prantos de amargores

São prantos cheios de dores

– Saudades – dos meus amores

– Saudades – da minha terra!

Como faz bem aos ouvidos o ritmo desses versos, como faz bem à alma saber dessas dores fictícias, dessa mágoa permanente, desse chororô romântico! Hoje sem silêncio nem estrelas (obscurecidas pela poluição), sem sinos de campanário ( a não ser os fakes pré-gravados), a saudade da terra é a das terras alheias, asilo de numerosos brasileiros que fogem por diferentes causas e razões em buscam do que não “encontram por cá”.

O penúltimo texto reproduzido é o “Soneto de Natal” , de Machado de Assis, lembrado principalmente por seu último verso chave-de-ouro: ”Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Dúvida que se chegou a ser antropo-psico-filosófica, é agora um clichê de sentido pé-no-chão.

Manuscrito de Machado de Assis

E o último texto, correspondendo à última semana do ano 2000 é “Desejo”, de Junqueira Freira, outro romântico.

“Eu – que tenho arrostado imensas mortes,

E que pareço eterno,

Eu quero de uma vez morrer pra sempre,

Entrar por fim no inferno!

(…)

Que de arrostar as dores desta vida,

Quase pareço eterno!

Estou cansado de vencer o mundo,

Quero vencer o inferno!”

A primeira e a última estrofe aqui reproduzidas formatam o círculo dantesco de uma vida de dores e mágoas à moda da época, acrescido de um desejo oposto ao que hoje formulamos na última semana de todos esses anos felizes que vivemos. Nada de desejos generosos, utópicos, repetitivos. Em lugar de “vamos descer para BC”, o endereço é mais quente e mais duradouro…

Enfim, uma agenda com a cara do Brasil: seus chorões de amores verdadeiros e falsos; de saudades nostálgicas em tempo presente, em que não se abre mão dos confortos e do consumo; de saudades de uma terra que não mais existe e quando nos cerca, nos enterra em violência, corrupção e não-me-importismo.

Vinte e cinco anos depois, esta velha agenda, por meio de textos literários, ainda me interessa, me faz pensar, olhar a realidade e reafirmar minha crença no poder da literatura e das palavras para dizer:

“Eu – que tenho arrostado imensas mortes,

E que pareço eterno,”

Ainda tudo desejo, sem usura e sem cortes,

 Céu azul, nunca inferno!

Sem ponto final

Marta Morais da Costa

Em meu dia de leituras cabem tantos textos de tantos gêneros de tantos autores e muitos assuntos. Passo do exótico ao erótico, do econômico ao espacial, do gastronômico ao policial, do esportivo ao musical, do horóscopo à política. Tropeço nas linhas retas e nos assuntos tortos. Leio os colunistas que odeio e aplaudo os que amo.

Dizem línguas venenosas que jornal de aposentado tem apenas três seções: obituário, horóscopo e palavras cruzadas. Ao considerar minha leitura, posso afirmar que estou desaposentada. Quer dizer, quase, pois há dias em que caio na armadilha dos horóscopos e dias em que o temor me precipita para as palavras cruzadas, em busca de oxigenação cerebral.  Finalidade que, por exemplo, as notícias políticas não produzem em mim.

Abrindo o linque enviado por uma amiga, que deveria dar acesso à sua crônica semanal, caí, desavisada, nas notas de falecimento referentes aos três últimos dias.

Bafejada pela vontade dos deuses, mergulhei texto adentro: nomes, idades, hospitais, endereços e velórios. Encontrei registros de falecidos sem a identificação do nome do pai. (Ah, esses homens cuja responsabilidade some num jato!). Confirmei que a morte não respeita idades, nem considera profissões e, muito menos, dá bola para sobrenomes ilustres ou embaçados.

Mas, ficcionista fiel, construí histórias singulares e redes coletivas. Reuni em espaços comuns idosos, jovens e bebês em narrativas enredadas e recheadas de simultaneidade e coincidências.

Dois idosos, com o mesmo sobrenome e em registros separados, a sugerir uma trajetória conjunta e a morte idem, quem sabe na impossibilidade de sobreviverem um ao outro depois de uma longa união. A mãe, estuprada, que morre ao dar à luz um bebê enfermiço que a acompanha na viagem ao desconhecido. Um jovem a desafiar a sucessão normal das gerações, tendo gozado loucamente seus poucos anos de vida. O pai que, acidentado, leva consigo o filho querido para uma jornada sem rumo definido. O avô, deixado na casa de repouso com a promessa de visitas periódicas, encontra quem poderia ser uma companheira derradeira, mas as debilidades comuns e as desiguais levaram os dois, em dias subsequentes, para o descanso final. A mãe amorosa, o pai provedor, a mãe autoritária, o pai omisso, o filho responsável, a filha desorientada, a vítima de bala encontrada, mortes voluntárias e mortes rejeitadas: a vasta galeria literária de personagens e biografias que povoam a mente do leitor quando o gatilho da ficção é acionado. Estavam lá a literatura e a vida em espelho multiplicador.

Não li a crônica, retornei da visita ao reino de Plutão envolvida por uma atmosfera de histórias e a imaginar segredos que cada um daqueles nomes levou consigo.

Fechei o jornal com um clique lento e a convicção de que um dia meu nome estará em uma página de um jornal que algum leitor desavisado lerá antes de, ele também, ter a certeza que seu nome estará lá um dia e que outro leitor desavisado lerá e terá confirmado que em um futuro qualquer seu nome…

Foto em fim de tarde

O dia ainda esbanjava dourados quando ele apareceu e buscou apoio na pedra do jardim, cercada por amores perfeitos. Parecia intranquilo, a cabeça em rotação da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Os olhos curiosos buscavam uma paisagem familiar, som de vozes, cheiros e talvez um horizonte próximo.

Havia guardado na memória luzes, cores e movimentos interrompidos por fios regulares e pela impossibilidade de contato. Até que, de repente, inexplicavelmente, rasgou-se uma brecha no horizonte e as asas o levaram através de aberturas e brisas para uma altitude desconhecida, superando paredes e telhados.

Ao sol, seu corpo estranhou a quentura, buscou sombras, todas longínquas. Fumaça, ruídos, movimentos ininterruptos, figuras. Um mundo todo novo, sem limites, sem clausura. Atravessava o espaço com alguma dificuldade no começo, logo ganhando flexibilidade e amplitude.

Não demorou, veio o tempo da sede, o cansaço das asas, o peso dos pés. Buscou uma árvore. Nenhum verde, nenhum galho. Buscou água, nem um rio, nenhuma fonte. Buscou apoio e encontrou a pedra.

A pedra que povoava o jardim. Lisa, quase branca, redonda, fresca, protegida pela sombra do edifício. Alto, de vidros semelhantes a águas retidas em aquários. Atrás de um deles, uma pessoa em clausura, como havia sido a sua.

Movia-se à vontade sobre a pedra e pôde admirar vagarosamente o amarelo vibrante das penas, esvoaçando na brisa, experimentando a liberdade. Renascia.

Sobressaltou-se quando sentiu próximas duas crianças, fotografando com olhos espantados os movimentos de seu bico, dos pés mantendo o apoio, do corpo hesitando entre o voo e o cansaço.

Logo materializou-se o adulto, com olhos escondidos atrás da câmera, a registrar espantos e indecisões.

Subiu. Sumiu. Refez rotas e rodeios. Deixou lá embaixo a imagem fixada numa câmera que roda de mão em mão e que espalha no ar a poesia da passagem do pássaro amarelo e fremente, lépido e livre, em direção ao horizonte.

Alá-lá-ô

Marta Morais da Costa

“Alá-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô / Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô “

(marchinha de Haroldo Lobo e Nássara – 1941)

Dirão alguns: esta é de meu tempo!

Outros retrucarão: cara, não sabia que era tão antiga!

Outros, melancólicos: baile de Carnaval ou na rua sem essa marchinha não tem valor!

Alguns, surpresos: mas essa letra é muito atual!

Esclareço: não sei se pensavam na importância dos estados árabes ou na crise climática.

Só sei que cantei e pulei, animadíssima, em salões de velhos carnavais. Sem pensar em religião, petróleo ou desmatamento. Valia apenas o ritmo e o saracoteio. De vez em quando um siricotico: pisão no pé, confete nos olhos e na boca, cabelos entremeados de serpentinas, abuso alcoólico trazendo odores, gestos e olhares de alguns bebuns que, surpreendentemente, sumiam do salão, acompanhados por diretores e, ao lado, a turma do deixa-disso apaziguando pais, maridos e namorados.

De longe,  pais e tias a cuidar dos seus (principalmente das suas); afinal, Carnaval é para espíritos fortes e dispostos. Cansaço, nem pensar. Afinal havia o tempo de descanso dos músicos e a corrida para a toalete mais próxima. Na volta, goles de guaraná ou coca-cola: álcool nem pensar. Afinal, a alegria tinha um espaço natural e o esquecimento de problemas era do código comportamental aceito sem reclamação. Melhor ainda: festejar era parte das férias em estágio de conclusão.

O ano letivo começava em março. As férias eram de três meses corridos (com mais dias ou menos dias, dependendo do cidadão: estudou e passou: férias a partir de novembro.; vadiou ou se perdeu nos conhecimentos, novas provas, segunda época, férias a partir de janeiro). Mas passar de ano ou reprovar e ter que repetir a série escola não impedia o Alá-lá-ô.

E no salão democrático, bons e maus estudantes formavam o cordão carnavalesco que arregimentava pessoas, trazia as tias, insistia com os pais, esvaziava as mesas, cooptava os presentes e fazia serpentear os movimentos ao som das marchinhas pelos poucos espaços vazios de uma festa quase-familiar, onde Baco era amordaçado por uma liberação controlada e bem-posta.

Os pecados do lado de baixo do Equador eram tão comportados que o padre na confissão de quarta-feira de cinzas não passava penitências com mais de cinco Ave-Marias: quase todos os supostos bacantes pareciam fantasiados de anjos, meio decaídos, mas revitalizados pelos Alá-lá-ôs, “Saca-rolha”, “Ó Abre Alas”, “A canoa virou”, “Mamãe eu quero”, “Aurora”, “Jardineira”, “Pierrô apaixonado”, “Chiquita Bacana”. Letras que, cantadas, pareciam ser só ritmo e folia, sem sentido, nem correspondência com a realidade. Discurso politicamente correto? Censura moral? Que nada! Toca pular, fazer guerra de confetes, puxar cordão, gastar energias!

Afinal, na quarta-feira “sempre desce o pano” e as cinzas, marcando a testa em cruzes improvisadas, ajudavam a enterrar o Carnaval daquele ano, para que ressuscitasse em velhas e novas marchinhas no ano seguinte.

Só vim a conhecer o outro lado do Carnaval quando li Manuel Bandeira: “Epílogo”.

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior…

Quando o acabei — a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade…
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura…
— O meu carnaval sem nenhuma alegria!…

Ah, mas esta é outra história!

Neste sábado de Carnaval, quero mais é cair em uma alegria efêmera, virar rainha de copas, sair de porta-estandarte, cantar as antigas modinhas e acreditar que, em algum tempo, o Carnaval foi apenas a passagem das férias para os estudos, da vida despreocupada da infância e da adolescência para um tempo de trabalho e de criação  que até hoje vive em mim.

Alá-lá-ô-ôôôôô.

Um entre 4

Marta Morais da Costa

Foto por Xi Xi em Pexels.com
Ler jornais está se tornando um exercício flagelante, torturador. Diariamente uma dose cavalar de surpresas más, de informações dolorosas, de fechamento de horizontes de esperança se abate sobre mim durante o ato de ler telas e telas, com imagens e publicidade e textos escritos.
Hoje doeu ler “Geração nem-nem: quantos jovens não estudam nem trabalham no Brasil? E nos países ricos?”, publicado na edição de 10 de setembro de O Estado de São Paulo. São 24% dos jovens entre 25 e 34 anos que se dedicam a construir um futuro de sombras e apagões. Por diferentes razões: necessidade de emprego, preguiça, rejeição à escola e aos estudos. Entre as mulheres, gravidez, tarefas domésticas e cuidar de outros, sem eliminar aas três justificativas anteriores.
Está no jornal, com todas as letras:
“Os jovens entre 25 e 34 anos que não trabalham nem estudam — os chamados “nem-nem” — são quase 1 em cada 4 (24%) no País, conforme o estudo Education at a Glance 2024, divulgado nesta terça-feira, 10, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), grupo de países desenvolvidos economicamente do qual o Brasil não faz parte. Esse número caiu 5,4 pontos percentuais em sete anos (era de 29,4% em 2016), mas ainda é considerado alto pelos especialistas.
O número da entidade internacional é pior do que o divulgado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) da Educação, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado e correspondente a 2022, de 20% (9,6 milhões de jovens). A PNAD avalia uma faixa etária diferente: dos 15 aos 29 anos.”
No amplo espectro da idade dos 15 aos 34 anos, em que se alicerçam valores, competências, habilidades, crenças e vida familiar independente, quando os estudos ainda encontram uma mente aberta e idealista, os brasileiros abrem mão de estudos profissionalizantes ou de aprofundamento para cuidar da vida prática e da prática que provavelmente se tornará repetitiva e defasada em pouco tempo.
Na sociedade cambiante e veloz, a ausência de vontade e resiliência para investir na autoeducação e em projetos de vida que passem além do sucesso Tik Tok/ Instagram condena os novos analfabetos funcionais a uma vida boçal, medíocre e massificada.
Talvez o que seja mais excruciante na reportagem além dos números, é constatar que a diminuição proporcional se dá em um ritmo tão lento que o Brasil se (des)qualifica para ocupar sempre posições em final de lista, em um inalcançável futuro de vida digna. São milhões de pessoas a viver um estado de alienação, de vida à margem das conquistas civilizatórias.
Enquanto ainda lutamos contra o analfabetismo funcional, países mais avançados, cultural e economicamente, discutem como tirar proveito da Inteligência Artificial e como criar um mundo em que possa haver um pouco mais de segurança e de crença no futuro.
Novas adversidades irão surgir, isso nem se discute. Mas pessoas com melhor conhecimento e preparação sempre estarão em vantagem sobre os que nem estudam, nem trabalham, nem usam o cérebro em funções propriamente humanas.
O mais deprimente nessa história toda? Saber que nem todos nós poderemos esperar pelas décadas necessárias para que essa porcentagem mortífera diminua.

Lua azul

Ela havia aprendido que “só pelo amor vale a vida”. Ela associava a luminosidade da noite, com suas vias estreladas, as pratas lunares, a brisa noturna, aos escurinhos, às declarações de amor, aos gestos e aos corpos em contato. Criava cenários com rosas/lírios/dálias e verbenas/lavandas para perfumar em cômodos íntimos as descobertas do amor.

Não recusava olhares e palavras, desde que viessem acarinhados por afetos apaixonados e loucas imagens dos sentidos desatados em circunvoluções e redemoinhos em homenagem aos amantes.

Imaginava canções pragmáticas e hinos simbólicos ou realistas ao amor em todas as idades. A sonoplastia e a coreografia ficavam à escolha e ao pendor voluptuoso dos pares em danças em louvor a Afrodite, ou se o leitor preferir, a Vênus, em especial a Calipígia.

 Quem é esta? De imediato esta escriba, em seu dedilhamento internético, vai buscar uma explicação que esclareça os leitores menos afeitos à estatuária grega. A cronista por vezes perturba a leitura com suas citações meio enigmáticas e com fumaças eruditas. Daí que sua dublê escrevente tem que fazer hora extra e trabalho fora de contrato para não deixar os poucos leitores dos textos da dita cronista sem um apoio para a compreensão da crônica.

Vênus ou Afrodite Calipígia “é uma famosa estátua romana antiga de mármore, que se acredita ser uma cópia de uma original grega mais antiga Seu nome significa literalmente “Vênus (ou Afrodite) das belas nádegas”. A estátua representa uma mulher seminua levantando seu peplo diáfano para cobrir seus quadris e nádegas enquanto olha para trás por cima dos ombros, talvez para admirá-las. O tema é convencionalmente identificado com a deusa Vênus, mas é igualmente possível tratar-se de uma mera mortal.”

 

Em meu passeio pela Wikipédia, passei de um olhar retrospectivo para um pedido de socorro a informações mais pé-no-chão sobre um uso mais científico e objetivo do nome dessa deusa e encontrei uma versão masculina para formar o par romântico. Um planeta.

“Vênus é considerado um planeta do tipo terrestre ou telúrico, chamado com frequência de planeta irmão da Terra, já que ambos são similares quanto ao tamanho, massa e composição. Vénus é coberto por uma camada opaca de nuvens de ácido sulfúrico altamente reflexivas, impedindo que a sua superfície seja vista do espaço na luz visível.”

Rabisquei os dois fragmentos explicativos em um perfumado papel de carta cor-de-rosa e enviei para ela, a enamorada, a que está em devaneios de amor perfeito. Para a cronista, mandei duas mensagens de whatsapp com os fragmentos encontrados a título de colaboração.

Nenhuma das duas declinou recebimento. Esta escriba aos poucos está se acostumando aos apagamentos de mentes obcecadas de amor e ao descaso de cronistas auto-confiantes.

Para minha total surpresa, chegou-me hoje às mãos, em artístico papel linho, a seguinte mensagem – já devidamente enviada à cronista:

Senhora escriba:

recebi sua mensagem com a informação sobre as duas Vênus, a feminina e a masculina.

Confesso que me comovi ao descobrir que minha crença inabalável no amor também contemplava um par de seres deste mundo: uma estátua e um planeta – não poderia ser uma planeta, já que a palavra termina com vogal feminina? A presença da deusa do Amor nomeando as duas existências só vem comprovar que estou certa em imaginar cenas e cenários dominados pelo afeto amoroso.

Agradeço.

(a) Ela

A cronista até hoje não havia se manifestado.

Eis senão que recebo um e-mail – formato já meio em desuso, atestando a possível idade provecta da autora cronista.

Prezada senhora escrevente,

venho lhe comunicar que terminei de redigir esta crônica e solicito que seja devidamente registrada em palavras e frases, parágrafos e pontuação, da forma que vai anexa a esta mensagem.

Sem mais, reitero meu desejo de que não seja alterada nem uma vírgula do que escrevi. E declaro extinto nosso contrato.

(a) Cronista

Reproduzo, conforme recebimento:

Ela era uma romântica inveterada. Passava noites à janela, admirando a Lua, a chuva, as estrelas. E pedia às entidades celestes que a abençoassem com um amor, mesmo que frágil, mas infinito enquanto durasse.

Seus pedidos se intensificavam quando brilhava no céu a Lua azul. Como os astros são indiferentes aos desejos humanos, os anos se passaram, ela se cobriu de rugas e cabelos brancos, mas o amor não bateu à sua porta.

Em noites de Lua cheia, é possível distinguir seu perfil na janela do apartamento do pequeno e envelhecido prédio, hoje cercado de altos edifícios que lhe roubaram até a visão sem horizontes da Via Láctea e da Lua de diferentes cores.

Marta Morais da Costa

Pensamentos nostálgicos sob a luz do luar

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Em noites de super-Lua, me surpreendo em repentes de nostalgia e recordação de tempos idos. Deve ser porque a nada cândida hospedeira de São Jorge e de seu dragão de estimação manda em nosso humor feminil.

Ah, as mulheres!! Nada de “piuma al vento”, esse instrumento de suave agressão masculina ao querer definir nossa desafiadora multidimensionalidade e diversidade cambiante por excesso de interesses! Somos capazes de viajar em pensamento por diferentes rotas e em diferentes veículos e sempre chegar a um ponto único de destino: o de nossa sagaz e autóctone satisfação com a vida.

E sem deixarmos de ser dramáticas, apaixonadas e eternas sofredoras ficcionais.

Mas o assunto não era esse universo feminino genérico e meio exagerado. A super-Lua continua a brilhar e a objetividade bate à porta. Do que mesmo você tratar em seu texto, ó cronista divagante?

Algo a ver com nostalgia. Em minha índole conservadora – neste estágio da vida, devidamente enrijecida –  os objetos são presenças quase íntimas devido ao longo tempo que convivem comigo. Ainda cumprem suas funções, meio cansadinhos, com visual que envergonha meus filhos.

– Mãe, que tal trocar o liquidificador? Você ainda tem esse celular lento? Sabia que existem panelas de inox? Câmbio mecânico, mãe?

Pois é, como são Jorge continua lá, não deixa seu cavalo e nem faz amizade com o dragão, meu carrinho também não visita outras garagens, nem quer saber de um pezinho menos leve para pisar em sua embreagem ou uma mão mais magra pra repousar sobre o volante de direção.

Mas o carrinho garboso precisa de periódicas revisões, cada vez em períodos mais curtos. Por isso, telefono pra oficina e me atende seu Jorge (outro):

– Ah, a senhora vai trazer pra revisão? Ainda é o mesmo carro?

Aquele ainda quase rompeu minhas coronárias. Nem tive coragem de perguntar se o ainda era curiosidade, ironia ou deboche. Vai que fosse esse último…Daí até o coração iria à falência.

– É seu Jorge, é o mesmo. (um pouco de rosa forte no rosto: ainda coro como velha adolescente) . Intimamente jurei pra mim: será a última revisão, seu Jorge. Vou trocar de carro.

Essa conversa e seus protestos de renovação aconteceram no mês passado.

Meu belo corcel agora tem um motor silencioso, a troca de marchas parece acontecer na maciez de um carinho, os pneus deslizam suavemente, até a buzina ficou mais forte. Mágica de um certo Jorge.

Como posso trocar esse velho amigo? E essa super-Lua falando de amores e entusiasmos? Quase que sozinho, o carro estaciona no mesmo espaço da garagem, se duvidar dentro das mesmas medidas de largura e comprimento do piso. Volta pra casa e vai descansar.

Quem sabe no próximo ano eu procuro um novo carro? Depois de uma última revisão, viu, seu Jorge?

No sítio do Picapau Amarelo, os vingadores perseguem o menino marrom por causa do avesso da pele

Marta Morais da Costa

A literatura é avassaladora. Em sua natureza e na produtividade. A força invasiva no pensamento do leitor – para a mudança e para a permanência – da natureza própria da literatura e a reprodução incontrolável de escritos, livros e formas de transmissão. São aspectos que recebem a atenção dos estudiosos e escritores, e, acima de tudo, se tornam objeto de discursos extremos e delirantes.

 

 

Freio de mão e pé no chão pode ser uma receita para dias de turbulência, como os recentes. Não se trata de jogar na vala geral da polarização: a causa é mais complexa.

A polarização é resultado e pode dispensar o conhecimento. Entra em ação a “ignorância artificial”, assunto tratado com inteligência e alta qualidade textual por Eugênio Bucci em sua recente coluna no jornal “O Estado de São Paulo” (https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/sobre-a-ignorancia-artificial/), essa rede de ideias pré-formatadas e empurradas goela abaixo de gentes crédulas, de boa e má-fé.

Faz parte do cardápio dessa ignorância artificial os recentes casos de censura de livros, acentuadamente os de literatura infantil. O perigo de atribuir a personagens (afinal, seres imaginados em um mundo de invenção) que não são o vizinho da direita, o irmão do dono da casa da esquerda, o pedestre que atravessa a rua, a mulher no banco de espera do ônibus ou a colega de trabalho.

As narrativas passaram a ser consideradas manuais de comportamento, menus de atitudes, publicidade de valores morais e por aí afora. Desenquadram-se de uma cronologia histórica, viram textos escritos neste momento e com personagens atuais.

 

Nunca objetos de compartilhamento de opiniões diferentes, ouvidas e respeitadas de hoje e do tempo de seu autor. A opinião já nasce vestida em armadura e armada até os dentes. Ninguém contextualiza na história da literatura. A narrativa ou o poema se transforma, na interpretação falsamente crítica e intencionalmente tendenciosa, em uma bula de remédio para as necessidades cotidianas dos leitores, como resolver conflitos familiares, exemplificar o que é bulling, disfarçar a depressão, consolar da morte do animal de estimação. Literatura é antes de tudo arte e invenção. Textos voltados à didática da vida escanteiam a literatura e privilegiam sua utilidade prática.

A violência da personagem, que, na narrativa infantil, via de regra, termina por ser condenada e penalizada, passa a ser entendida como uma lição comportamental, ou seja, uma ordem: faça assim ou imite a personagem, leitor ingênuo!

Quem faz uma reflexão sobre a sociedade violenta e de valores hipócritas? Pronto, está declarada guerra ao texto provocador. Melhor censurar a literatura (essa libertina que deseduca) do que trabalhar em prol da compreensão do problema em suas dimensões diversificadas e na adoção de atitudes que o solucionem.

Falta a esses censores deseducados um enfrentamento de seus medos que a literatura vem desvendar. Quanto do medo adulto se manifesta nos pedidos de retirada de livros de literatura das estantes (tão raras e pobres) das bibliotecas escolares? Quanto de má pedagogia existe que silencia sobre a censura ou esquece seu papel de favorecer a compreensão da história e da vida, latente no texto censurado? Quanto de jornalismo sensacionalista está nas manchetes que anunciam mais um livro censurado, sem que trate com a devida inteligência a natureza do texto literário e as questões de interpretação? Lembrar que a interpretação resulta sempre de um histórico de leitura e não de ideias/valores projetados desrespeitosamente sobre o texto.

 Reconheço como é meritória a preocupação dos pais com a formação psíquica e emocional de seus filhos. Reconheço como a escolha de livros é, por vezes, resultado de gentes que não têm formação adequada para realizá-la. Reconheço que existem equívocos na mediação da leitura literária (por presunção, prepotência ou desconhecimento dos mediadores: exceções à parte). Reconheço que há muito livro ruim circulando como se fosse literatura de qualidade humana e estética. Reconheço que existem erros no tratamento e na adequação de livros a seus leitores mirins. Mas me pergunto: o que fazem os atores/agentes desses equívocos? Dialogam, trocam argumentos, propõem soluções? Não. É mais fácil censurar. Propostas de cadeia para o livro e não de livros em cadeia para desenvolver o pensamento e a interlocução!

Mas não são apenas os leitores que desaparecem a cada pesquisa sobre o status da leitura no Brasil. Somem leitores qualificados e aparecem os profetas do caos. Saem a beleza e a força da literatura e passam a vigorar os estatutos dos medos e o obscurantismo.

Proibir atiça o desejo. Talvez seja uma boa propaganda para leitores curiosos.

Enfim, não é apenas a educação institucionalizada que vai mal…