Caderno

Olho vigilante, o velho caderno
aponta o passado e acusa.
O que restou em notas dispersas
prova o vivido e já apagado.
Nuvens de letras, cenários pintados,
onde o tempo encenou por anos
os enredos do saber.
Pendurados nas linhas,
datas e fatos,
olhos maus a espiar
o presente viajante,
a acessar a memória
de perdas nem sabidas
pedaços do tempo esquecido,
linhas de um passado
rabiscadas em hiatos de vida
hoje nada.

Contos em mim menor

A escrita do conto dialoga com a variedade dos gêneros literários. Pode conter a concisão e musicalidade dos poemas, o diálogo e a ação do teatro, as personagens complexas dos romances, a filosofia dos tratados, o humor da linguagem carnavalizada, os temas e contraditos da realidade, a veloz e cotidiana comunicação do jornalismo, as relações éticas e emocionais da psicanálise, e os mitos ancestrais em roupagens atualizadas. Enfim, um conto é a vida em movimento, acondicionada em embalagens econômicas.

Contos em mim menor é livro quese fez de leituras, observação, memória e imaginação. E pretende se inserir nas dobras da tradição milenar do escrever para narrar histórias de personagens comuns, de momentos especiais, de acontecimentos ímpares. É uma antologia pautada pela diversidade. Por vezes se aproxima do relato realista, em outras demanda parentesco com a poesia. As personagens aproximam-se dos leitores, mas por vezes se colocam distantes para serem observadas e analisadas. A linguagem narrativa é envolvida pelo coloquial, sem dispensar a presença do termo incomum, da frase tortuosa, da ironia ferina ou do humor revelador.

Esta coletânea metaforiza-se no vidro: os grãos minúsculos da areia formando uma liga poderosa e múltipla. O vidro que protege, torna transparente, reflete impiedosamente, envolve ou estilhaça-se em cacos: corta, fere, expõe entranhas.

Com defeitos e plenitude, Contos em mim menor realiza uma literatura de grãos de areia, de vidros e de espelhos.

Bonde

Marta Morais da Costa



trilhos são cicatrizes

no corpo da cidade

passos pesados de ontens

seguem as linhas mortas

a memória é trajeto

remexido e vivaz

acordando vozes e risos

na viagem que já não há

na rua estreita os trilhos

rebrilham interrompidos

no tempo esfumado

da perdida meninice

criança saltita

entre pedras e trilhos

borboleta fugaz

beijando a flor

que já não há

no casulo de aço e vidro

o  urbanista projeta sereno

o novo traçado da rua

sem ontem

sem trilhos

Mar remoto

Marta Morais da Costa

Foto por Mikhail Nilov em Pexels.com

Decidiu falar apenas o necessário. Abdicou das conversas animadas. O silêncio, companhia constante.

Gostou da sensação.

Surdez voluntária, mudez assumida.

Os olhos passam a construir cenários: personagens e paisagens avolumam-se em melhores cores e maior nitidez.

Ouve outras vozes, reais e imaginárias. Ressoam músicas recônditas.

Descobre no silêncio outras possibilidades. Histórias assomam ao desvelar o que a fala acobertava.

Decide deixar-se enlear. Carregara ao longo dos anos narrativas ouvidas e vividas, sufocadas, porém, por falas infindáveis. Mas no silêncio, elas se falam. Alegres e vivazes, trágicas ou ameaçadoras. São tantas e tão avassaladoras ocupando a cavidade da boca, enovelando-se nas pregas vocais, obstruindo as fossas nasais, perdendo-se nos labirintos dos ouvidos, invadindo os globos oculares e derramando-se pela face, descendo pelo peito e atingindo a extremidade das mãos que tentam conter a torrente.

Em vão.

As histórias encharcam os dedos e criam maremoto tão intenso que só amaina lançado sobre a areia do papel em ondas insofreáveis.

O silêncio conquista sua vastidão. Antes o desaparecimento no ar, agora o desenho das letras.

As histórias ascendem à sua casa.

Mulheres na guerra

Marta Morais da Costa

Svetlana Aleksiévitch. A guerra não tem rosto de mulher.  SP: Companhia das Letras, 2016.    390p.

Livro contundente escrito pela autora ucraniana, ganhadora do Nobel em 2015. Ela realizou mais de quinhentas entrevistas com mulheres sobreviventes da Segunda Grande Guerra, principalmente oriundas da Bielorrússia e que combateram no exército soviético em tempos do Stalin. Alistaram-se no exército, na aeronáutica e na marinha com a intenção exclusiva de lutar no front das batalhas. Estavam motivadas principalmente pela ideologia de pátria e esperançosas de uma guerra curta, almejando sempre o dia da Vitória e a entrada em Berlim. Encontraram obstáculos entre seus colegas de farda, lutaram bravamente, inúmeras delas morreram em combate. Foram aviadoras, enfermeiras, médicas, nas comunicações e como partisans, manejaram metralhadoras, dirigiram carros de combate, tornaram-se competentes no uso de metralhadoras e de artilharia aérea, comandaram equipes femininas e masculinas. Exerceram, enfim, papeis relevantes na guerra contra os alemães em terras da então União Soviética.

Seus relatos e depoimentos são  reproduzidos no livro a partir de entrevistas gravadas sobre como se militarizaram, como era a vida no front, o amor, os filhos, o sofrimento, a família. Geralmente são jovens muito novas que entraram na guerra aos dezesseis ou dezessete anos. Muito sofrimento, muitas feridas internas e externas, um povo arrasado e faminto, cenas cruéis, a perda do feminino, o preconceito (inclusive das mulheres não-soldados que as acusavam de prostituição). Cada depoimento vem com o nome real e função que exerceu durante a guerra.

A escrita de Svetlana é quantitativa e intencionalmente limitada no livro. Mas o fato de ceder a palavra a mulheres extraordinárias não apenas acentua a realidade que viveram (e pela qual muitas morreram), mas acima de tudo torna o livro assustador, dilacerante, comovente e acentua a bestialidade das guerras e a capacidade humana de heroísmo e sobrevivência.

A narrativa está organizada em blocos temáticos e desvenda uma face oculta da guerra: a participação das mulheres. A diversidade de histórias e opiniões revelam o quão dilacerantes são as memórias da guerra, o quanto as feridas da alma são mais doloridas por vezes do que os ferimentos de guerra. O passado visto sob a ótica do presente e da velhice é uma história silenciada que, por força do trabalho de Svetlana Aleksiévitch chega aos leitores de hoje. Juntamente com as notícias atuais das guerras que acreditávamos jamais acontecerem. 

São mulheres sem redes sociais fúteis. Suas redes eram de solidariedade e crença na liberdade. Humanas, marcadas pelas armas e pelas perdas, mulheres partidas, precocemente envelhecidas, vítimas de tempos sem paz.

A guerra e a poesia

ERA A ÉPOCA DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Um dos maiores representantes do catolicismo francês, Charles Péguy, usava metáforas marciais que cabiam como uma luva no percurso de jovens educados para a vida militar como Antônio [o filho mais novo da Princesa Isabel e de Gastão de Orleans, conde d’Eu]. “Deus me dê a batalha, os inimigos, as multidões a urrar, todos os combates de que serei capaz.” Dizia haver “uma necessidade de heroísmo que abraçava toda uma geração”, uma necessidade de “guerra militar e de glória militar, uma necessidade de sacrifício e até de martírio, e sem dúvida uma necessidade de santidade”.

Apesar das belas palavras, a guerra se revelou bem pior do que se imaginou. A França vacilou, orgulhosa do fim do conflito, mas incapaz de afrontar suas perdas: mil homens por dia. Durante o conflito, um milhão e quatrocentos mil franceses perderam a vida e um milhão retornou inválido, estropiado e desfigurado. O que iria durar meses durou quatro anos. As cicatrizes mais profundas não estavam visíveis. A guerra vista como uma nobre cruzada para restaurar valores como disciplina, honra, fé e progresso transformou-se num massacre mecânico sem precedentes. Os signos de um desespero tranquilo estavam em toda parte. Muitos fugiam das lembranças dolorosas num hedonismo frenético.

A guerra mostrou que virtudes como fidelidade e tradição não levavam mais ao sucesso., e sim ao fracasso. O pós-guerra deixou entrever o desengano com o progresso, o desespero diante de descobertas científicas transformadas em armas poderosas, a solidão diante da perda da religião e a consciência da mediocridade da vida. Os “anos loucos” foram a resposta dos sobreviventes. Em Montparnasse e Montmartre, o jazz, os cabarés, o movimento surrealista, a “dançomania” e a cocaína atraíam uma geração nova que repetia: “Nunca mais isso!”. Um narcisismo extravagante encarnado por artistas e escritores asfixiava de vez os valores das décadas anteriores.

(Fonte: Mary del Priore. Segredos de uma família imperial: a vida da Princesa Isabel, de Gastão conde d’Eu e dos príncipes D. Pedro, D. Luís e D. Antônio no exílio. Rio de Janeiro, Planta, 2024.  p.183)

Comentário

Neste tempo de guerras, um fragmento de discurso histórico, matizado pela poesia da linguagem. Poesia que se manifesta também na descrição do trágico e do cruel. Nada consegue, entretanto, esconder o horror nem as justificativas insanas. O tempo se esvai, mas os conflitos armados permanecem, mostrando o alto grau de violência, ambição e desumanidade de que os seres humanos são capazes.

Féretro



a via férrea
a vila férrea
a veia férrea
a vida férrea

o apito do trem
o aperto do trem
o preto do trem
o peito de outrem

o chiar do trem
o chefe do trem
a chave do trem
o choque do trem

ferrugem sanguínea
fuligem curvilínea
falida frenagem
ferida viagem


na via férrea,
o preto da roda
corta e ceifa
vidas sem dó.

Marta Morais da Costa

Sem ponto final

Marta Morais da Costa

Em meu dia de leituras cabem tantos textos de tantos gêneros de tantos autores e muitos assuntos. Passo do exótico ao erótico, do econômico ao espacial, do gastronômico ao policial, do esportivo ao musical, do horóscopo à política. Tropeço nas linhas retas e nos assuntos tortos. Leio os colunistas que odeio e aplaudo os que amo.

Dizem línguas venenosas que jornal de aposentado tem apenas três seções: obituário, horóscopo e palavras cruzadas. Ao considerar minha leitura, posso afirmar que estou desaposentada. Quer dizer, quase, pois há dias em que caio na armadilha dos horóscopos e dias em que o temor me precipita para as palavras cruzadas, em busca de oxigenação cerebral.  Finalidade que, por exemplo, as notícias políticas não produzem em mim.

Abrindo o linque enviado por uma amiga, que deveria dar acesso à sua crônica semanal, caí, desavisada, nas notas de falecimento referentes aos três últimos dias.

Bafejada pela vontade dos deuses, mergulhei texto adentro: nomes, idades, hospitais, endereços e velórios. Encontrei registros de falecidos sem a identificação do nome do pai. (Ah, esses homens cuja responsabilidade some num jato!). Confirmei que a morte não respeita idades, nem considera profissões e, muito menos, dá bola para sobrenomes ilustres ou embaçados.

Mas, ficcionista fiel, construí histórias singulares e redes coletivas. Reuni em espaços comuns idosos, jovens e bebês em narrativas enredadas e recheadas de simultaneidade e coincidências.

Dois idosos, com o mesmo sobrenome e em registros separados, a sugerir uma trajetória conjunta e a morte idem, quem sabe na impossibilidade de sobreviverem um ao outro depois de uma longa união. A mãe, estuprada, que morre ao dar à luz um bebê enfermiço que a acompanha na viagem ao desconhecido. Um jovem a desafiar a sucessão normal das gerações, tendo gozado loucamente seus poucos anos de vida. O pai que, acidentado, leva consigo o filho querido para uma jornada sem rumo definido. O avô, deixado na casa de repouso com a promessa de visitas periódicas, encontra quem poderia ser uma companheira derradeira, mas as debilidades comuns e as desiguais levaram os dois, em dias subsequentes, para o descanso final. A mãe amorosa, o pai provedor, a mãe autoritária, o pai omisso, o filho responsável, a filha desorientada, a vítima de bala encontrada, mortes voluntárias e mortes rejeitadas: a vasta galeria literária de personagens e biografias que povoam a mente do leitor quando o gatilho da ficção é acionado. Estavam lá a literatura e a vida em espelho multiplicador.

Não li a crônica, retornei da visita ao reino de Plutão envolvida por uma atmosfera de histórias e a imaginar segredos que cada um daqueles nomes levou consigo.

Fechei o jornal com um clique lento e a convicção de que um dia meu nome estará em uma página de um jornal que algum leitor desavisado lerá antes de, ele também, ter a certeza que seu nome estará lá um dia e que outro leitor desavisado lerá e terá confirmado que em um futuro qualquer seu nome…

Foto em fim de tarde

O dia ainda esbanjava dourados quando ele apareceu e buscou apoio na pedra do jardim, cercada por amores perfeitos. Parecia intranquilo, a cabeça em rotação da esquerda para a direita. Da direita para a esquerda. Os olhos curiosos buscavam uma paisagem familiar, som de vozes, cheiros e talvez um horizonte próximo.

Havia guardado na memória luzes, cores e movimentos interrompidos por fios regulares e pela impossibilidade de contato. Até que, de repente, inexplicavelmente, rasgou-se uma brecha no horizonte e as asas o levaram através de aberturas e brisas para uma altitude desconhecida, superando paredes e telhados.

Ao sol, seu corpo estranhou a quentura, buscou sombras, todas longínquas. Fumaça, ruídos, movimentos ininterruptos, figuras. Um mundo todo novo, sem limites, sem clausura. Atravessava o espaço com alguma dificuldade no começo, logo ganhando flexibilidade e amplitude.

Não demorou, veio o tempo da sede, o cansaço das asas, o peso dos pés. Buscou uma árvore. Nenhum verde, nenhum galho. Buscou água, nem um rio, nenhuma fonte. Buscou apoio e encontrou a pedra.

A pedra que povoava o jardim. Lisa, quase branca, redonda, fresca, protegida pela sombra do edifício. Alto, de vidros semelhantes a águas retidas em aquários. Atrás de um deles, uma pessoa em clausura, como havia sido a sua.

Movia-se à vontade sobre a pedra e pôde admirar vagarosamente o amarelo vibrante das penas, esvoaçando na brisa, experimentando a liberdade. Renascia.

Sobressaltou-se quando sentiu próximas duas crianças, fotografando com olhos espantados os movimentos de seu bico, dos pés mantendo o apoio, do corpo hesitando entre o voo e o cansaço.

Logo materializou-se o adulto, com olhos escondidos atrás da câmera, a registrar espantos e indecisões.

Subiu. Sumiu. Refez rotas e rodeios. Deixou lá embaixo a imagem fixada numa câmera que roda de mão em mão e que espalha no ar a poesia da passagem do pássaro amarelo e fremente, lépido e livre, em direção ao horizonte.