Descarte

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Marta Morais da Costa

O dia amanhecera vestido de nuvens cinzentas, pesadas e compactas. O sol continuava adormecido no espaço sideral. Afinal, uma das funções das nuvens é garantir a privacidade do astro. Outra função? Servir de música nupcial quando a chuva convive com ele em dia de casamento de viúva ou de espanhol, a depender da ordem em que algum engraçadinho colocar o par romântico: sol e chuva; chuva e sol.

Em dia nublado, espírito sossegado. No espaço de tempo entre uma demorada xícara de café e um prato de sopa aromática, ela decidiu concluir a tarefa de descartar o conteúdo da caixa organizadora, deformada pela quantidade de fotos, cartas, recortes e um sem-fim de lembrancinhas, acumulada ao longo de anos.

Para bem da verdade, não era a primeira vez que se propunha a dar cabo definitivamente do máximo de coisas sem mais utilidade, guardadas pouco a pouco. Hoje vai, pensou. Já que as providências para o restante do dia já haviam sido tomadas. Já que o tempo com cara de vilão não permitia uma saidinha ao ar livre sem a ameaça de um banho frio e indesejado.

Escolheu o cantinho de leitura: poltrona, almofadas, uma mesa de apoio e todo o material para cortar, picotar, etiquetar, reunir, escrever, separar. De todos os verbos, o que lhe dava maior prazer era picotar. Quem não viveu aquela sensação de limpeza e de dever cumprido, quando descarta o que não lhe serve mais e cria espaços vazios e renovados para receber mais material? Pois é, era assim.

A tampa da caixa já era um vaticínio: sol poente, flores murchas, terra seca e, para arrematar, um solene flamingo cor de fogo. Não dava para fugir daquela sina de destruição. Motivação se faltasse, era só rasgar os olhos em direção à tampa e qualquer dúvida virava fumaça. O odor que atingiu suas narinas tão logo a tampa se deslocou era um pouco do ácido do papel velho, a violência tóxica da última bola de naftalina em um dos cantos, a tinta envelhecida das fotos rosadas, dos tecidos, dos badulaques e do papel jornal dava um toque mais repulsivo à abertura da caixa. A intenção de descarte se fazia um ato de higiene ambiental.

Tal como a abertura rápida, o fechamento da caixa indicava a necessidade de paramentar-se adequadamente. Luvas e máscara vieram completar o arsenal de medidas profiláticas: sacos para lixo, tesoura, aspirador, mãos ágeis, afetos anestesiados, consciência algemada no pila da vontade. Estavam prontos o cenário, os instrumentos e o carrasco para o descarte.

O que leva as pessoas a guardar coisas, carregá-las por anos a fio e depois destruí-las? A necessidade de parar o tempo na forma de objetos? A angústia de experimentar a memória desintegrando-se e, por isso, buscar ancorá-la em coisas? A busca de prender ao coração as pessoas idas e vindas por meio de lembranças palpáveis? O projeto de recomposição de pedaços de vida na velhice, nos tempos ociosos da velhice? A construção de uma herança para os descendentes em formato de documentos de uma fase “meninos, eu vi”?

Não importa qual tenha sido o motivo de construção deste depósito heterogêneo, o fato é que ela se encontra diante de uma caixa que contém o que pôde e quis guardar como testemunhos de um tempo pretérito e violável. A mão caminha entre objetos e papeis, como se os dedos fossem rastreadores e pelo tato reconhecessem os momentos de dor ou de alegria, a identidade dos bilhetes e dos fotografados, contassem a narrativa originária daquele objeto, trouxessem à luz em novo nascimento a flor seca de amores idos.

Aos poucos o corpo em movimento coordenado faz transitar o conteúdo da caixa pelas tábuas, cantos e superfícies do quarto. Fotos de amigos sorridentes, paisagens, monumentos de viagens pretéritas, as faces amadas em desfile fora de cronologia. Rostos envelhecidos precedendo a juventude, o homem maduro não reconhecível na criança que foi, a avó enternecida com o neto e de costas para a  foto da jovem esposa de olhar tímido em vestido de noiva. O fotógrafo sempre um voyeur, fora da foto, presença ausente. Muitas delas recobertas com a neblina rósea dos velhos filmes e das antigas reproduções e seus carimbos invasores a dizer de laboratórios já desaparecidos e só existentes nos guardados de uma vida.

A pilha de papeis, desigual em formato e tamanho, coloca em inesperada posição em cima-embaixo uma profusão de bilhetes, recortes amarelados de jornais, rótulos, bolachas de chope, cartões de visita, convites. O aniversário de um ano do Chico, o casamento do André, a formatura do Guto, a festa das bodas de ouro dos avós, o lançamento do livro da Bia. Como dizia o velho professor de Português, as efemérides, sem se dar conta de que a origem grega significava simplesmente de cada dia, diário, assim sem pompa, sem prestígio, sem diferença do dia de trabalhar, limpar a casa, pagar as contas, comprar batatas e cebolas. Indiferentes à etimologia, lá estavam os convites, lampeiros, exibindo cores e letras especiais, volumosos por vezes, sempre festeiros.

Era nos badulaques que a caixa de guardados mais se exibia. Chaveiros, rolhas, um coração de papier maché, estrelinhas de latão, anéis de coco, o colarzinho de miçangas que Antônia ganhou aos cinco anos, uma enegrecida torre Eiffel daquela viagem desastrada a Paris, um bonequinho de amigurumi prêmio da professora de Artes à melhor performance no canto coral. Ah, e uma medalha de terceiro lugar na natação juvenil, a única ganha na vida de quem poderia ter sido atleta e não o foi. Coisas e casos casados na memória, registros de anos de existência abandonados em uma caixa no armário mais esquecido da casa.

Talvez uma história que quisesse permanecer em silêncio, escritas de um tempo escorrendo para o nada, memórias a comprovar uma vida fragmentada, concreta e mesmo assim esquecível, um passado a querer se presentificar,  mas já deturpado, torto, sem a costura que lhe dê ao menos consistência e permanência.

Recolheu os pedaços de seu passado, desordenados, misturados, destecidos, e os devolveu à caixa. Lentamente passou nela um barbante em formato de cruz, amarrou fortemente. Sobre a tampa colou um envelope endereçado à mais querida das netas, talvez por comungarem  sonhos e temperamento. Dentro um bilhete a ser lido após a morte: “Sílvia, grata por ter plantado em mim a semente do amor sem limites. Peço que, depois que eu partir, você destrua esta caixa e o que ela contém. Voltam a ser apenas coisas sem minha presença viva.  Coisas velhas, sem sentido. Se você as queimar, talvez as cinzas possam reencontrar o pó em que me tornei.”

Lá fora, as nuvens mantinham o sol prisioneiro.

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