A botica da pandemia

Marta Morais da Costa

 

Estacionou o Ka na garagem do prédio. Do porta-malas retirou três sacolas plásticas. Ajeitou a máscara e com cuidado pressionou o botão de chamada do elevador. Imediatamente deu um banho de álcool em gel nas mãos. Dentro do elevador, mais um banho. Abriu a porta do apartamento, deixou os sapatos na entrada ao lado das sacolas. Correu lavar as mãos com sabão, ainda de máscara. Preparou uma solução higienizadora, armou-se de bacia, panos e vaporizadores e voltou à entrada da casa. Banho cuidadoso em pacotes e sacolas e mãos. Também os sapatos.

Só então retirou a máscara, acondicionou-a em um saco plástico e levou à lixeira, do lado de fora da porta de serviço.

Cumprido o ritual, abriu a janela e respirou pausadamente para recobrar a segurança e a tranquilidade. Nove meses haviam se passado. Quatro apavoradas saídas ao longo desse tempo todo. Uma consulta médica, uma bateria de exames de laboratório, uma extração dentária e um passeio em automóvel fechado para relaxar de violenta crise de ansiedade que lhe custou uma insônia de quatro noites.

Foto por Skitterphoto em Pexels.com

E agora a quinta saída: uma visita dispendiosa à farmácia. Ela foi precedida de dias de preparação da lista de remédios e chás e unguentos. Havia adotado um procedimento de registro de sintomas quase diário, intitulado: A botica da pandemia. Para isso, observava-se detidamente ao longo do dia e anotava tudo o que sua saúde apontasse como anômalo. Eram diferentes tipos de queixumes. Anotado o acontecimento, buscava lembrar pessoas que pudessem, à distância, sugerir ou indicar medicamentos e recursos para melhorar as dores e incômodos.

Quando amanhecia com dor de cabeça no lado direito, tia Constância era uma boa fonte de soluções: compressas de chá de melissa com folhas de louro. Se a dor era do lado esquerdo, melhor consultar primo Luís e lá vinha a receitinha: chá reforçado de alecrim, gotas de cachaça da boa e um comprimido de AAS. Na falta deste, um suco reforçado de couve com limão. 

Para os dias em que a dor era muscular, a consulta invariavelmente era com prima Dorinha. Escalda pés com gotas de vinagre de maçã e uma boa fricção de abacate, devidamente embebido e maturado por 40 dias em álcool 45º. E mais um repouso de 15 minutos de manhã e à tarde, depois de comer uma maçã fuji. Talvez uma pomada de castanha da Índia também possa ajudar. Mas a maçã tem efeito mais imediato. E é uma delícia! Dorinha é uma mulher prática.

Para o estômago virado do avesso uma tisana de camomila, melissa e ruibarbo. Na falta deste, umas gotinhas de extrato de calêndula: era tiro-e-queda segundo vó Leonor. Caso a melhora não fosse imediata, ela recomendava uma taça de vinho do porto, aquecido e temperado com canela.

Se o intestino estava condenado à prisão perpétua, aí o tratamento era mais rigoroso. Dieta imediata: água e mais água durante um dia inteiro, exclusivamente. No segundo dia, caldo de legumes frescos exclusivamente. No terceiro, dieta pastosa de batata doce, mandioquinha e aipim amarelo. Se o a entrega do supermercado chegasse a tempo e com os ingredientes certos… Na falta de aipim amarelo, um bom suco de laranja, medicava a irmã, sofredora contumaz da falta de liberdade do criminoso intestino.

A insônia é combatida com relaxamento, insistia prima Celeste. Algumas posições de ioga (pegue lá no Google, tem um monte, dizia). Um copo de leite com  chocolate belga atende seu desejo libidinoso gastronômico e aquieta sua angústia com a balança. Afinal, remédios sempre têm efeitos colaterais, o peso é um deles. Dormir emagrece; daí o corpo se equilibra… Com essa filosofia médica, Celeste é a prima que mais recebe pedidos de ajuda na família.

A medição em casa deu aumento da taxa de glicose? Não se apoquente, aconselhava tio Dudu, compreensivo. Elimine frutas e carboidratos. Alface e verduras em geral, em especial as verde- escuras. Com três dias dessa dieta, você perderá peso, ganhará uma pele mais ecológica, e, batata, o índice de glicose despencará! Depois, estará liberada: até maionese e leite condensado são recomendados!

A pandemia trouxe o estresse mental e a falta de atividade física jogou seu condicionamento no lixo? Ou você sai do conforto e faz exercícios em casa, com vassoura, um tapetinho, uma corda de varal e recipientes com água pra servir de pesos, ou vai pro sofá assistir jogos de futebol pelo mundo, concursos hípicos e hóquei no gelo. Neste segundo caso, programe uma visita ao geriatra logo, logo. Seco e direto, o primo Benjamim sugeriu.

Para o estresse mental, leia livros de autoajuda, sucinta recomendou prima Dita.

A piora geral levou nossa heroína à quinta saída: a consulta ao clínico geral, a visita à farmácia e às sacolas plásticas, mais recheadas do que as de supermercado.

Agora estava preparada para mais nove meses: que venham os sintomas!

Recomendação do narrador: as receitas aqui divulgadas são de responsabilidade dos familiares consultados. Eu apenas servi como escriba.

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