A linha tênue

Marta Morais da Costa

 

Foto por Vladyslav Dushenkovsky em Pexels.com

Gosto da palavra “tênue”: ela tem classe e delicadeza. É forte e sutil ao mesmo tempo: a consoante inicial explode e sem demora se estende em uma sequência de vogais e nasal, que atenua a força inicial. Os sons da palavra deslizam em direção à calma, à leveza e ao silêncio.

            A expressão “vida tênue” nada tem de original, nem na forma, nem em seu conteúdo. A vida é, sim, débil, delgada, fina, fraca. Um sopro. Um raio. Uma cigarra, barulhenta e efêmera. Tem a consistência da espuma degradável e a força de um fio de cabelo. Nasce vigorosa, vive de esperanças e se desfaz em perdas.

            É porque ela assim se constitui que a amamos com forças íntimas e ímpetos românticos. Ela nos dói e nos sorri. Espanca e afaga. Existe nos limites e desafia os imprevistos. Convida para um banquete e, muitas vezes, serve apenas ossos. Anuncia-se no primeiro choro e se despede no último suspiro. Entre a lágrima e apagamento ficam semeados momentos de prazer e horas de aflição. Mas tem bonitezas, embora nem sempre as vejamos. Alguns até fecham os olhos ou a recobrem toda de feiura e recusas. E antecipam o suspiro.

            A leitura de livros e a escuta de pessoas construiu em mim a associação de velhice e sabedoria. Como se a vida fosse cumulativa como a idade. Traríamos ao longo da jornada fardos cada vez mais pesados de aprendizagens e adornos cada vez mais leves de compreensão da realidade. Chegaríamos assim à linha tênue das despedidas. Serenos e cordatos.

            Mais uma ilusão. Tão imensa e tão distante como Jorge e seu dragão,  desenhados na diáfana lua cheia que invade meu quarto. O corpo que enfraquece abriga revoltas juvenis e sonhos adolescentes. Nada é calmo, nem envolto em aceitação. Não são as mesmas indecisões do começo do caminho, mas são sempre inseguranças, expectativas e nebulosidades.

            O corpo repousará definitivamente um dia. Seguirá em mim, no entanto, a certeza de que o espírito preserva o vigor da juventude e os olhos, mesmo fechados, estarão em busca de paisagens e cores ainda não vividas.

            E quando a Parca vier com sua cortante presença definir a ruptura do fio tênue, encontrará, não a mesa posta e cada coisa em seu lugar, como descreveu Manuel Bandeira; terá que me buscar entre livros, preparando o banquete de palavras fortes e delicadas, rudes e interrogativas, em que consoantes e vogais se contradigam em linhas vincadas, pétreas, permanentes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s