O que será

Marta Morais da Costa

Foto por Rezha-fahlevi em Pexels.com

Já levantava da cama com a língua envenenada. Expelia um “bom dia” que sabia a cianureto. Os olhos, geralmente atrozes círculos vermelhos e íris dilatadas, jogavam sobre coisas e pessoas o ácido muriático armazenado em noites de insônia. As mãos, enregeladas, eram hélices em movimento tentando afincar garras e unhas em qualquer corpo sólido interposto ao seu caminhar. A cabeça coroava o píncaro da arrogância e da pretensão.

Abriu a porta dos fundos e lançou-se ao quintal, farejando rastros da noite agonizante e caçando razões para alimentar sua fome de ações turbulentas, motivadas por nenhum sentido e sem objetivos confessáveis.

Chutou pedras, latas e tijolos. Catou cavacos e galhos secos para acolchoar os lugares possíveis de andar, de sentar ou descansar. Aos outros, o pior. Um varapau lhe servia de lança para cutucar ninhos, desfazer frutas, desbastar folhas das árvores. Sanhudo e beligerante, começou o dia a seu modo: em pé de guerra.

Trouxe para a casa e a rua, a aguda e inescapável violência. Reprimendas, caras feias, palavras azedas e gestos indignados eram combustível aditivado para sua razão de existir e agir.

O tempo lhe trouxe a solidão e o repúdio. A comunidade preferiu preservar-se e garantir frestas de paz.

Isabel contou para Raul que disse ao José que avisou ao Fernando que trocou mensagens com o Luiz que comunicou à Gabriela que resolveu interromper a corrente: o dia se anunciava em trevas, o ar rarefeito lembrava fumos de enxofre, tudo era culpa dele, o Cujo, o que trazia guardado no dentro o desejo de aniquilar – pelas armas, pelo descaso, pela língua e por atos – as amedrontadas manifestações de sobrevivência e de afeições.

Gabriela sussurrou para Vitória que murmurou ao ouvido de Sofia que repassou a Francisco que confidenciou ao Álvaro que cochichou a Simone uma mensagem de convocação à resistência. Nem precisou de brisa a espalhar o desejo de agir. Aos poucos cada qual trouxe ao grupo o que sabia fazer de melhor: cantar, escrever, discursar, guardar segredos, destilar confiança, clarear obscuridades, desvendar intenções, cumprir acordos, despertar esperança.

Quando a noite instalou no céu a lua dos sonhos, uma nova história começou a nascer. Nela não haveria o protagonismo plutônico. O raio da novidade iluminou céu e, mesmo sabendo das agonias a ser vividas, ninguém titubeou, temeu ou desistiu.

Mal a luz atravessou as soleiras, um a um, eles foram povoando a praça e, congraçados plantaram árvores, desembaraçaram de galhos os lugares, restabeleceram velhas normas de convivência. E se prepararam para dizer não e enfrentar as Fúrias.

Sóis e luas se sucederam, indiferentes. No pó, que o tempo vai espalhar, continuam a circular grãos beligerantes. No presente, os venenos ainda se impõem. Amanhã, quem sabe, os perfumes irão impregnar a brisa.

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