Os bonitinhos 1

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

O rádio do carro me faz companhia. Fico sabendo que há uma campanha pública para adotar um ninho artificial para que os papagaios em quase extinção na Serra do Mar possam se acasalar e procriar. Uma iniciativa meritória em um país tão pouco cuidadoso com sua natureza. Um país que considera meritórias narrativas com bichinhos tão bonitinhos de carinha tão amigável e pelos que pedem carinho. Veja, Carlinhos! Observe, Luisinha! Não é lindo, Aninha? Com isso cresce a meiguice, a noção falseada sobre ratos e aranhas, ursos e serpentes, mas todos animais dignos de cuidados: tão bonitinhos!

Em um país nem tão distante, nas fotos e vídeos, as expressões de medo, o olhar assustado, a mão pequena colada na mão da mãe, as crianças esquecem as narrativas e seus personagens para atravessar corredores humanitários em fuga incompreensível. A disputa do espaço da rua não se dá com carros ou com brincadeiras: a paisagem é ocultada pelo carro de combate, pelas armas, pelo fogo que resta da batalha sem piedade. Nenhum livro, nenhuma escola, nenhuma paz doméstica preparou esses perdidos meninos e meninas para um tempo de guerra.

Os olhos que veem a guerra, viram a vida tranquila. Os olhos que viram a paz, agora contemplam as armas. Talvez na sua perdoável ignorância, achem tudo com cara de brincadeira, a mesma, só que em versão trágica. O gesto das mãos continua a cuidar do figurino da boneca amada, a fazer rodar o caminhão de bombeiros, tão bonitinho, vermelho e com luzes piscantes! Marcha, soldado/cabeça de papel…

As crianças de guerras pautadas pelo absurdo estão espalhadas pelo chão que sangra, ou deitadas em macas de flores vermelhas regadas com abundância, ou olhando incrédulas de olhos abertos e imóveis um céu enegrecido pela bestialidade adulta. Não mereceram nem os cuidados que animais predadores recebem nas histórias que ninguém mais lhes contará.

Crianças tão bonitinhas longe de seus bichinhos tão bonitinhos, maiúsculas em seu sacrifício, berrando cá dentro em mim a dor de um tempo convulso e sem remissão.

Veja, Carlinhos! Por que você está dormindo, Luisinha? Não é triste, Aninha?

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