Bem que eu quis escrever sobre o Natal

Marta Morais da Costa

Pensei em escrever um texto, de um formato qualquer, sobre o Natal.

Talvez um conto, desses que narram histórias emocionantes sobre possíveis milagres de papais e mamães ou do Noel ou de Jesus Menino.

Natal é uma data épica. Ou lírica, se pensamos nos solitários e nos memoriosos de infâncias.

Na falta de imaginar um “como se”, pensei em um poema de muitas estrofes, em que coubessem pessoas queridas e presentes, árvores verdejantes e multicoloridos enfeites, um montão de comida – para ser jogada, talvez, no lixo, por excesso de calorias: ai, os famintos, nem migalhas herdarão. Ah, mas haveria contenção métrica, metáforas deslumbrantes e um par de estrofes de tirar o fôlego dos leitores.

O poema, contudo, travou no oitavo corte de um verso decassílabo: o repertório léxico não se deu o humano prazer de solidarizar-se com a poeta buscadora e perdida e abandonou-a no dátilo incompleto.

Quem sabe uma crônica? Esse gênero tão incompreendido e que parece um “mafuá de malungo” (grata, Bandeira, pela generosa permissão do meu roubo titular!). Nessa feira de ofertas desencontradas, enfiam-se estilos, narrativas tortas, pretensiosos escritos que semeiam a discórdia teórica e colhem os ventos das liberdades sem eira nem beira.

Assim, fiz chover uma narrativa em primeira pessoa, amorosamente bordada de memórias infantis de natais felizes e infelizes, com o objetivo de emocionar os leitores adultos de hoje, que juntariam às minhas as suas lembranças de natais para rir, chorar copiosamente ou sorrir amarelo em razão da lembrança de uma agressiva vergonha pessoal.

Já a vergonha alheia me lembrou de escrever uma antologia de piadas natalinas para serem contadas à mesa do banquete substitutivo da Missa do Galo. Anedotas provocadoras de explosões de farofas e pernis e perus renascidos depois da combustão. Seriam piadas castas em respeito à data festiva de um nascimento de renovação e confirmação de contratos religiosos.

Também deixei de lado: há uma face moralizadora em todo piadista de plantão.

Quem sabe uma página em formato de diário, em que pessoas reais vivem momentos imaginários, coloridos pela pátina de uma falsa escrita antiga dos tempos do eu-criança. Um diário permitiria narrativas, as homenagens aos vivos e às novas estrelas em outros céus, as correções da realidade trágica de natais coloridos pelo vermelho dos sofrimentos censurados e até mesmo as mentiras contadas às crianças, crentes em falsos doadores dos presentes desejados. Uma página de um diário de boas intenções, de pessoas dadivosas, de manjares de mel e ambrosia, de noites em comunhão, de desejos formais de futuro abundante em prêmios e paz.

Nem para diário natalino as teclas do computador se mostram buliçosas e operárias. Os dedos supreendentemente ficam pousados inertes sobre letras incapazes de se combinarem em uma frase com um mínimo de coerência.

Escrever – por que não? – um cartão de Natal ao menos, que expresse a ansiada metamorfose de tempos duros e cruéis em uma época de alegrias e desejos de que tudo dê certo (mesmo o que sabidamente dará errado). Um cartão colorido, corações à beça, vermelhos e verdes vinhetando as palavras-chave, emoticões e gifes salpicando a página, substituindo as palavras que, sempre indiferentes e obstaculizadoras, teimam em não sair. Um cartão sonoro, à moda e com auxílio da Célia Cris, com uma música sugerida pela Rita, que possa substituir em sua volúpia sonora a falta de inspiração para um texto natalino.

Nem cartão, nem cartinha: nada se faz substancial e merecedor de estar em letras e palavras.

A única certeza é que continuarei, insistente, a busca por uma escrita que me diga, que diga em eco a quem gosto de boa e demais, que bendiga tempos vindouros, que consiga fazer acreditar que esta escriba ainda pode nascer, verdadeira e consistente, em um momento qualquer, de dia ou de noite.

Talvez até em uma noite de Natal.

 

Foto por Aleksandr Slobodianyk em Pexels.com

2 comentários sobre “Bem que eu quis escrever sobre o Natal

  1. Marili dos Anjos Martins

    Não me considero cristã mas, sou sim temente a Deus. Na minha concepção,Natal é sinônimo de Amor e , Amor é Deus. Natal é relembrar que somos todos filhos de um mesmo Pai e moramos todos numa mesma casa, Terra. Para que isso nos torne cada vez mais unidos e nunca esqueçamos que viemos a este mundo para um único propósito: nos ajudarmos a fazer um Mundo Melhor. Feliz Natal!

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