Marta Morais da Costa
A rua parecida com um dia feriado. A manhã era quase silêncio. É verdade: cedo demais pra passeios, tarde demais para festeiros. Também, sem previsão de trabalho ou compromisso, a mente disparava pensamentos não convergentes em frenética sucessão.
Um som seco e em estalidos de vidros e plástico. Mais uma batida. Surpreendente pela calma circundante. No chão, fragmentos; nos carros, ferimentos. Poucos curiosos e alguns prestativos transeuntes a perguntar se machucou? Precisa socorro? Quer que eu telefone para alguém?
Mãos e braços de socorro, vozes alternadas de consolo e preocupação.
A criança, enlaçada na cadeirinha, olhos abertos de susto, boca aberta sem som. Tão logo, cercada por mãos e rostos desconhecidos, invasivos, começa a gritar e chorar. O som agudo amplia-se no espaço e comove pela sensação de impotência e de cuidados. A mãe, desfalecida e inválida, separada do filho, tudo ignora.
Sem acordo nem conspiração, cada qual passante se ocupa de ações simultâneas. Desembaraçar as pessoas de seus cintos, telefonar aos bombeiros e policiais, buscar manter o ar circulando entre os feridos. Dois carros, ações em dobro.
Um médico se apressa em avaliar o estado dos motoristas e passageiros. Há ferimentos diferentes em extensão e gravidade.
Ninguém ainda pensa em culpado, erro ou legislação. Somente em acudir, cuidar, solidarizar-se.
Sorrateiramente a mão resvala pelo banco, outra vasculha o porta malas aberto. Qualquer objeto será lucro. Rapidamente coisas somem em casaco, bolsos e bolsas, jaquetas.
O choro aumenta de volume, as vozes aumentam de quantidade, a preocupação aumenta de intensidade.
Ao longe, sirenas. Da cena do acidente esgueiram-se quase sombras.
Aos poucos, a roda se abre, os paramédicos trabalham e a cena fica cada vez mais definida e reiterada. É um acidente comum, com pessoas comuns e na dor comum de estarem vivas.
Aos poucos o sol é ofuscado pelas nuvens. A rua ganha maior sonoridade e movimento.
Os passantes passageiros curiosamente param, verificam a repetição entre o que veem e o que já viram, e passam adiante.
O silêncio do feriado se desfaz, os acidentados se refazem, os feridos são transportados. Os carros jazem tortos no asfalto.
Tudo passa.
Foi mais uma cena dramática em uma rua simpática de uma cidade brutalizada e semeadora de sofrimentos e mãos de afagos e afanos.
