O perigo de estar lúcida, de Rosa Montero

Marta Morais da Costa

Desde A louca da casa (2004), Rosa Montero passou a integrar minha biblioteca e minha história de leitora. O fascínio pelo tema da criação literária, somado a uma escrita sedutora, me  atraiu. Não apenas para volumes semelhantes dessa escritora como para outros de escritores diversos. Indo e voltando no tempo e nas estantes, acumulei vários livros de Rosa Montero. E cheguei a O perigo de estar lúcida (2023). Um livro realmente perigoso porque passa o tempo todo pelas escuridões do cérebro e suas iluminações artísticas; passa pelos amores e pelas mortes; pelos penhascos da vida e pelos abismos da imaginação. Um livro perturbador porque alicerçado na experiência da escritora e  em um número volumoso de citações e narrativas, todas voltadas para a interrogação sobre o sentido da criação literária e sobre as mentes esplêndidas e trágicas dos escritores.

A interrogação sobre o que seja a escrita, sobre a constituição e riqueza da imaginação, sobre sonhos e pesadelos, sobre vícios e tragédias pessoais, sobre o universo de transtornos mentais que deram origem a obras extraordinárias e perturbadoras. Obras que ampliaram as noções de literatura, beleza e tradução dos sentidos da vida física e psíquica, reflexas e refletidas em personagens marcantes.

Uma narrativa a despir escritores e obras e, com a explicação (às vezes incompleta) da ciência, traduzir o universo mental de Pessoas Altamente Sensíveis – PAS, esses autores belos e sofredores que trazem a nós, leitores, a beleza e o universo múltiplo e fulgurante da criação artística.

O perigo de estar lúcida, um livro que encara com intencional crueza os transtornos das mentes criativas, sem deixar de lado a compreensão solidária e cuidadosa de suas causas e consequências. Um livro que termina na entrevista, realizada em 1997, de Rosa Montero com a escritora britânica Doris Lessing, ganhadora do Nobel de Literatura em  2007. Ao final, um diálogo cortante, assim como a grande literatura consegue ser, sem perder seu lirismo, por mais árido que ele seja:

“- Por favor, me diga que a essa idade (Doris Lessing na ocasião tinha 78 anos) também há momentos em que a vida é bela.

– Eu nunca achei que a vida fosse bela.

– Então pelo menos me diga que ainda se preserva a curiosidade, e a excitação de descobrir coisas novas, e o prazer de escrever…

– Sim, isso sim. Tudo isso ainda se mantém intacto.” ( p.268)

E o livro acaba.

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Mas este comentário ainda não chega ao final. A seguir, um fragmento dessa narrativa tão complexa e contraditória a falar de um aspecto real e, ao mesmo tempo, desafiador das relações humanas, fonte de escritos e de arte: a presença do Mal e de “sujeitinhos sem escrúpulos”.

“Dierssen se pergunta se nós humanos temos a necessidade física de ver e produzir arte. Ou, o que dá no mesmo, para que nos serve? Ela não dá uma resposta definitiva, mas aponta coisas curiosas, por exemplo, que a música (que ,pode ter sido uma pré-adaptação da linguagem) ativa as mesmas respostas cerebrais de sexo ou de comer com fome, e que o prazer artístico “poderia ser entendido como um mecanismo evolutivo para sobreviver”. Justamente, há pesquisadores que sustentam que, a existência dos PAS (Pessoas Altamente Sensíveis) é uma vantagem evolutiva para a espécie, devido à sua capacidade de processar mais informação em paralelo. Imaginemos – é apenas uma hipótese – que essas Pessoas Altamente Sensíveis sejam também aquelas que possuem os cérebros não inibidos de Dierssen, isto é, gente que pensa mil coisas ao mesmo tempo.

(…)

Mas me deixe incluir um dado perturbador: recentemente saiu um livro intitulado Mi jefe es un psicópata, do psicólogo Iñaki Piñuel, que defende que 2% da população mundial é composta de psicopatas, gente muito má, incapaz de sentir empatia pelo próximo (por favor, não vamos confundir a psicopatia, que não é considerada uma doença mental, com o terrível transtorno da psicose).  A essa porcentagem, seria preciso acrescentar entre 10% e 13% de egocêntricos e narcisistas, pessoas também terrivelmente tóxicas que apenas usam o outro para seu proveito. Ao todo, então, 15% de sujeitinhos sem escrúpulos. Não é curioso que em ambos os lados da balança haja a mesma quantidade de pessoas? Quer dizer, nos extremos do arco social estariam, como dois contrapesos , os indivíduos excessivamente empáticos e os incapazes de sentir. Corações de pedra contra corações de alcachofra. as pessoas más também seriam um recurso genético? De uma certa vertigem pensar assim. Como se o Mal pudesse ter um lugar no mundo.”

Rosa Montero. O perigo de estar lúcida. Tradução de Mariana Sanchez. S.Paulo: Todavia, 2023. p.78-79.