Musicais

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Marta Morais da Costa

Musicais

I

Dor maior,

recipiente de lágrimas e

mil flechas,

fabricantes de ocas

soluções  ilusórias,

labirínticas falácias,

simulacros de cura.

                           

Dor maior que

sustém o coração

em síncopes

e silêncios.

 

II

Doce amor primeiro,

respirou ares de  primavera

mirando paixões estivais,

fatalizou os ventos gélidos  e

solidificou-se no outono,

latência aguda neste ocaso,

sinuosa e persistente chama.

 

Dos embates da paixão

restaram  ternas asperezas

misturadas a imagens solares,

fascínio de paisagens insólitas

solstícios de inquietudes

lastreados em tormentas,

sismos que todo amor contempla.

 

Olhar de Jano

 

 

 
Marta Morais da Costa
o dia a alvorecer
o botão pendente do galho
o vento da manhã a acariciar a floresta
o ventre da mulher grávida
a primeira página do caderno novo
a escavação dos alicerces da casa
janeiro na agenda ainda em branco
o tecido, a tesoura, o molde
o primeiro dia do primeiro emprego
o livro virgem aos olhos experientes
os preparativos para as férias
da janela ver chegar o bem-querer
os passeios  a cavalo na Lua
deslizar pelo arco-íris e pelos anéis de Saturno
a paz na minha aldeia

 

realidades e delírios de começos

A botica da pandemia

Marta Morais da Costa

 

Estacionou o Ka na garagem do prédio. Do porta-malas retirou três sacolas plásticas. Ajeitou a máscara e com cuidado pressionou o botão de chamada do elevador. Imediatamente deu um banho de álcool em gel nas mãos. Dentro do elevador, mais um banho. Abriu a porta do apartamento, deixou os sapatos na entrada ao lado das sacolas. Correu lavar as mãos com sabão, ainda de máscara. Preparou uma solução higienizadora, armou-se de bacia, panos e vaporizadores e voltou à entrada da casa. Banho cuidadoso em pacotes e sacolas e mãos. Também os sapatos.

Só então retirou a máscara, acondicionou-a em um saco plástico e levou à lixeira, do lado de fora da porta de serviço.

Cumprido o ritual, abriu a janela e respirou pausadamente para recobrar a segurança e a tranquilidade. Nove meses haviam se passado. Quatro apavoradas saídas ao longo desse tempo todo. Uma consulta médica, uma bateria de exames de laboratório, uma extração dentária e um passeio em automóvel fechado para relaxar de violenta crise de ansiedade que lhe custou uma insônia de quatro noites.

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E agora a quinta saída: uma visita dispendiosa à farmácia. Ela foi precedida de dias de preparação da lista de remédios e chás e unguentos. Havia adotado um procedimento de registro de sintomas quase diário, intitulado: A botica da pandemia. Para isso, observava-se detidamente ao longo do dia e anotava tudo o que sua saúde apontasse como anômalo. Eram diferentes tipos de queixumes. Anotado o acontecimento, buscava lembrar pessoas que pudessem, à distância, sugerir ou indicar medicamentos e recursos para melhorar as dores e incômodos.

Quando amanhecia com dor de cabeça no lado direito, tia Constância era uma boa fonte de soluções: compressas de chá de melissa com folhas de louro. Se a dor era do lado esquerdo, melhor consultar primo Luís e lá vinha a receitinha: chá reforçado de alecrim, gotas de cachaça da boa e um comprimido de AAS. Na falta deste, um suco reforçado de couve com limão. 

Para os dias em que a dor era muscular, a consulta invariavelmente era com prima Dorinha. Escalda pés com gotas de vinagre de maçã e uma boa fricção de abacate, devidamente embebido e maturado por 40 dias em álcool 45º. E mais um repouso de 15 minutos de manhã e à tarde, depois de comer uma maçã fuji. Talvez uma pomada de castanha da Índia também possa ajudar. Mas a maçã tem efeito mais imediato. E é uma delícia! Dorinha é uma mulher prática.

Para o estômago virado do avesso uma tisana de camomila, melissa e ruibarbo. Na falta deste, umas gotinhas de extrato de calêndula: era tiro-e-queda segundo vó Leonor. Caso a melhora não fosse imediata, ela recomendava uma taça de vinho do porto, aquecido e temperado com canela.

Se o intestino estava condenado à prisão perpétua, aí o tratamento era mais rigoroso. Dieta imediata: água e mais água durante um dia inteiro, exclusivamente. No segundo dia, caldo de legumes frescos exclusivamente. No terceiro, dieta pastosa de batata doce, mandioquinha e aipim amarelo. Se o a entrega do supermercado chegasse a tempo e com os ingredientes certos… Na falta de aipim amarelo, um bom suco de laranja, medicava a irmã, sofredora contumaz da falta de liberdade do criminoso intestino.

A insônia é combatida com relaxamento, insistia prima Celeste. Algumas posições de ioga (pegue lá no Google, tem um monte, dizia). Um copo de leite com  chocolate belga atende seu desejo libidinoso gastronômico e aquieta sua angústia com a balança. Afinal, remédios sempre têm efeitos colaterais, o peso é um deles. Dormir emagrece; daí o corpo se equilibra… Com essa filosofia médica, Celeste é a prima que mais recebe pedidos de ajuda na família.

A medição em casa deu aumento da taxa de glicose? Não se apoquente, aconselhava tio Dudu, compreensivo. Elimine frutas e carboidratos. Alface e verduras em geral, em especial as verde- escuras. Com três dias dessa dieta, você perderá peso, ganhará uma pele mais ecológica, e, batata, o índice de glicose despencará! Depois, estará liberada: até maionese e leite condensado são recomendados!

A pandemia trouxe o estresse mental e a falta de atividade física jogou seu condicionamento no lixo? Ou você sai do conforto e faz exercícios em casa, com vassoura, um tapetinho, uma corda de varal e recipientes com água pra servir de pesos, ou vai pro sofá assistir jogos de futebol pelo mundo, concursos hípicos e hóquei no gelo. Neste segundo caso, programe uma visita ao geriatra logo, logo. Seco e direto, o primo Benjamim sugeriu.

Para o estresse mental, leia livros de autoajuda, sucinta recomendou prima Dita.

A piora geral levou nossa heroína à quinta saída: a consulta ao clínico geral, a visita à farmácia e às sacolas plásticas, mais recheadas do que as de supermercado.

Agora estava preparada para mais nove meses: que venham os sintomas!

Recomendação do narrador: as receitas aqui divulgadas são de responsabilidade dos familiares consultados. Eu apenas servi como escriba.

Lives: pleonasmos e entusiasmos

Marta Morais da Costa

Ao longo desta longa reclusão desta infortunada e cada vez mais longa pandemia, escolhi dividir meu tempo diário com um grande número de lives, esta invasora dos lares e dos silêncios. Se alguma aversão eu tivesse à tecnologia, eu a teria perdido gostosamente neste período. Ser analfabeta digital não significa que sonho com tempos do uso da pena de ganso e do pergaminho. Como nos amores não correspondidos, quanto mais dificuldades encontro, mais o desejo aumenta.

Seria muito mais devoradora de vida a pandemia sem a vida (live) com que a tecnologia me presenteou. Seria menos ativa intelectualmente esta trecentena sem o convívio com pensares e falares tão diversificados. Seria mais triste este tempo de horror (e não só causado pela pandemia) sem o riso provocado por palavras jocosas e por erros imprevistos que rechearam esse tempo de espetáculos. Seria mais tedioso o contínuo descarte das folhas do calendário – enquanto a vacina não chega – não fosse a companhia de pessoas, em sua maioria desconhecidas, que desfilaram em imagens quadradinhas ou em diálogos chat(ianos).

Congressos, feiras, cursos, palestras, entrevistas, encontros à distância, nada deixei de lado quando os assuntos estavam no meu horizonte de interesse ou na minha simpatia pelos assuntos. Do entusiasmo e voracidade iniciais cheguei ao sublime estágio da seleção rigorosa e do impiedoso descarte do que se repetia, do que se superficializava, do que demonstrava a arrogância e presunção de falantes e escreventes.

Porque estou em fase de prova de vida em ano de mortes e rebobino os filmes – caraca, como esta expressão envelheceu! – do que vi e vivi, registro uma breve síntese. Já que falei em filmes, recordo também aquele aviso providencial que eximia de responsabilidade judicial a equipe técnica e artística: “Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é mera coincidência.” Coincidência sim, mas também consciência de que essas pessoas existem de fato.

Mediador-a: Por favor, ligue seu microfone. Aí na parte de baixo da tela…não achou? o ícone que tem um microfone…esse é o do vídeo!…a imagem sumiu…está me ouvindo? tente o outro, o do microfone…Aíííí, agora deu. Parabéns!

Entrevistado-a: Pois é na minha infância, quando eu era criança, não tinha livros em casa…Li meu primeiro livro completo na universidade. Mas lá na escola a gente lia historinhas com fadinhas, bichinhos, fantasminhas, casinhas…

Mediador-a: Professora, como a senhora explica os resultados da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” que dão conta da diminuição do número de leitores no Brasil? Mas antes que a senhora responda que saudar as pessoas que estão nos assistindo…oi, Clara! Há quanto tempo!! que bom que você está aqui. Nossa, também o Carlos Alberto, presidente da companhia de Velas Iaraçu! Agradeço por estar aqui. Professora, sua amiga Joana lhe manda um beijo e saudades. Também estão conosco pessoas de Luís Navegador (SC), Arraial dos Aflitos (GO), Boa Esperança dos Vulneráveis (PR), Cratera (PI), Sol de Inverno (AC) e muitos outros lugares deste Brasilzão. Professora, o que a senhora poderia dizer sobre a leitura de bebês?

Entrevistado: Então, quando vim morar aqui na capital e entrei para a universidade…sei lá, meio assim sem muita leitura, entusiasmado com a possibilidade de aprender e aí fui conhecendo alguns mestres: o professor João que me emprestou muitos livros e dava umas aulas inesquecíveis; o excelente professor Vítor, que me apresentou Descartes, Darwin, Derrida e me indicou o livro de minha vida, o ….(inaudível), do grande Nietszche. Também li Sartre, Camus, Proust, Butler, Botton, Bacon, Arendt (neste momento a avalanche de nomes foi cortada por uma tosse agnóstica potente e o mediador passou a palavra para outra convidada).

Palestrante: Bom dia a todos. Bom dia a todas. Gostaria de agradecer blá-blá-blá  e dizer que no momento desenvolvo os seguintes projetos blá-blá-blá (a enrolação se prolonga por mais uns vinte minutos ). Eu escrevi a minha fala e peço desculpas porque vou ler. Segundo os princípios da epistemologia genético-virótica, os sintomas de desleiturização estão relacionados….(o número de pessoas assistindo diminui a cada 30 segundos). Passando ao segundo item (já são 15 os participantes). Concluindo… (o-a palestrante e o-a mediador-a são os participantes restantes).

Mediador-a: Vou fazer uma pergunta a todos os convidados  e quem quiser começar é só falar: a literatura infantil serve para quê?  E, se quiserem, podem já responder à segunda questão: como é escrever para crianças?

Não fiquei conectada para ouvir as respostas. Sei que, ao menos por boa educação e respeito, deveria dar aos participantes meu voto de confiança e acreditar que as respostas seriam de alto nível e proveito, já que as perguntas ficaram aquém do analfabetismo indagativo. Mas me esperava no canto esquerdo da mesa um volume da obra completa de João Cabral de Melo Neto. Preferi rever a “Educação pela pedra”, porque o avanço tecnológico ainda não conseguiu me explicar porque a educação tem tantas carências no Brasil.

DESPEDIDA

Marta Morais da Costa

Os fios da rua passarinham uma primavera.

As cantoras põem valsas no ar.

O ninho de inverno se aquece,

frágil fortaleza imune a tróias.

O olhar pandêmico se despede todos os dias

porque se sabe espreitado e indefeso.

Nos arremates do dia não sei de amanhãs.

A Terra se move, aberta em fios de covas,

uma delas será meu ninho derradeiro?

Os pássaros retornarão com asas de aurora.

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ANA MARIA, EU E AS PEDRAS DO CAMINHO

Só quem já percebeu o riso escarninho com que o interlocutor recebe a informação “Sou professora. De leitura e literatura.” sabe o que é uma sociedade desprovida de atenção e compromisso com a informação, o conhecimento, a cultura e a capacidade de compreender o mundo a partir de visões plurais.

Primeiro porque sempre se considera leitura sinônimo de alfabetização. A relação tem, é claro, sua história e pertinência. Até a década de 60, a leitura passava mais pelas metodologias de aprendizagem de letras do que por reflexões filosóficas, históricas, psicológicas, sociológicas e linguísticas. Com as teorias da recepção foram crescendo e se intensificando as áreas conectadas aos estudos sobre leitura, interpretação, conhecimentos prévios, cultura e desenvolvimento de inteligências. A leitura ganhou foros de cidadania, de espírito crítico, de relações plurais e de pensamento inovador.

E o Brasil, como em muitos setores mais, viveu um novo achamento da terra: a leitura era um território ainda ágrafo. Nova bandeira passou a tremular nas lides universitárias e nas salas de aula e centros de cultura: é preciso criar um país de leitores. Despejou-se sobre os bem intencionados bandeirantes um enorme volume de escritos, de teses, de ações, de feiras e congressos. As reações foram quebrando algumas barreiras, mas muros e fortalezas ainda resistem. Os números das pesquisas apontam um andar sonolento e desestimulante rumo ao não-me-importismo e mimimis irresponsáveis.

Vamos com Ana Maria Machado, retratando essa realidade amarga no livro Silenciosa algazarra, quando trata da outra leitura, a que não é alfabetização: “É outra a leitura que tantas vezes parece não ter importância e que, por isso, tem sua significação questionada e debatida nas insistentes perguntas feitas por jornalistas em entrevistas a escritores ou pelas sugestões de tema dadas por organizadores de congressos e seminários. É leitura de jornais, revistas, principalmente livros, a leitura daquilo que faz crescer. Tanto a leitura de informação aprofundada, que aumenta os conhecimentos, como a de literatura – sobretudo esta. Da primeira, é voz corrente dizer (com um ar superior e cheio de si, como se fosse verdade) que hoje em dia ela ficou inteiramente dispensável, substituída por meios de informação mais rápidos e eficientes, como a televisão ou a internet. Da literatura, desconfia-se porque se diz que ela é elitista, um luxo, coisa de intelectual de óculos que não faz sucesso na hora de namorar, algo que não tem nada a ver com a vida das pessoas, toma tempo de atividades mais interessantes e outras bobagens no gênero.” (p.13-14)

São comentários e comportamentos que tratam a cultura e o desenvolvimento de pessoas – e por extensão do país em que habitam – como se fosse um jogo de futebol em que apenas dois times concorrem (os leitores e os analfabetos funcionais) a um prêmio consumista e imediato (dinheiro, teres e haveres, erudição vazia e pernóstica). Um “ou isto ou aquilo” fora de tempo em uma sociedade plural e uma cultura diversificada. Em especial, quando se confunde uma rima que não é solução: leitura e literatura. Um mal entendido que não se dissipa porque convém aos seres de má vontade: “não leio literatura porque ela não serve para nada”.

Tudo mais mal que bem: adultos em geral são pessoas de caráter formado (assim creem), não dispostos a mudanças (comodidades são conquistas) e avessos a desafios (tá bom como está). Nem se queixam mais dos filhos mimados e do conhecimento atrasado. Afinal, se der para curtir o final de semana, as férias, a televisão, para que estudar? para que ler? para que suportar essa chatice?

Mais um pouquinho de Ana Maria Machado, a escritora e uma das muitas defensoras da leitura e da literatura como formadoras de autonomia pessoal: “Lê-se pouco no Brasil porque não se acha que ler é importante, não se tem exemplo de leitura, existe a sensação de que livro é uma coisa difícil, trabalhosa, não compensa o esforço. Só se faz obrigado. Um sacrifício penoso, feito andar em esteira de ginástica (…). No entanto, a realidade cotidiana, ao longo da vida, me ensinou outra coisa. Se é verdade que não é comum que um adulto que nunca leu consiga, de repente, do nada, descobrir as delícias da leitura, também é verdade que não conheço um único caso de criança alfabetizada que, tendo acesso a livros bons e interessantes, deixe de encontrar algum que a atraia muito e, a partir daí, queira ler mais e mais, sem parar. A curiosidade é instintiva. A constatação do encantamento, advinda do alimento da imaginação e do prazer da inteligência em atividade, garante o resto.” (p.16)

O texto de hoje é apenas um sinalizador: muitas paragens ainda virão nesse trabalho de Sísifo que é a formação de leitores.

SERVIÇO: MACHADO, Ana Maria. Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura.  São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Instantâneos na casa de Antenor

Foto por George Becker em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Antenor está empregado numa fábrica de móveis. Seu trabalho consiste em cortar  e lixar a madeira para a fabricação de móveis. Telefona para casa no meio do expediente. Lúcia está na cozinha, preparando o almoço dos filhos. Ao ouvir o telefone, assusta-se. Confere as horas e pergunta-se quem poderia ser. A voz de Antenor a deixa mais assustada ainda. Ele diz que não está se sentindo bem e que vai ao médico.

De imediato, histórias de acidentes, infartos, derrames enchem a cabeça da mulher. Pede a ele que telefone avisando o que o médico vai dizer e que venha para casa o mais cedo possível, para deitar, descansar e recuperar-se. Ele concorda e desliga o  telefone.

Lúcia volta à cozinha. Agora os preparativos ficam mais difíceis. Nem enxerga bem as recomendações das embalagens,. Troca as louças de lugar, sem saber bem o que quer fazer com elas. Desliga o rádio: as palavras do religioso, a falar de pecados e de Jesus agora não fazem muito sentido. Sente falta do sal para temperar o alimento. Mas havia esquecido de anotar na lista de compras do supermercado. Nervosa, toma o telefone para falar com a vizinha: quem sabe consegue um pouco de sal. Mas não lembra o número. E as crianças devem chegar logo da escola… Um cheiro desagradável chega a suas narinas. As batatas! Agora, precisa inventar outro prato. Quem sabe não vai lembrar alguma receita rápida? Na rua, o frear do ônibus anuncia a chegada dos filhos.

Valdelúcia entra em casa disposta a ir imediatamente ao quarto, largar sobre a cama os materiais do cursinho e telefonar para o namorado, desmarcando o encontro da tarde. A prova do ENEM no final de semana está lhe tirando o sono, a fome e o amor. Precisa garantir boa nota para tentar o vestibular da universidade pública. Seu pai não pode arcar com mensalidades de uma particular. Anda assustada com a redação: soube de alguns exemplos ridículos que o professor ironicamente comentou em sala. Não quer dar vexame. Na cama, continuam espalhados os livros que havia consultado de manhã bem cedo, antes de sair. Separa os que trouxera da biblioteca, põe sobre a mesa de estudos os CDs de música emprestados pela amiga, e voa para o telefone no corredor perto da porta da rua.

Lucas dá um beijo distraído na mãe, larga os livros no meio da sala, deita-se no sofá e liga o televisor. Seu desenho animado preferido já vai pelo meio. Em nada diminui, no entanto, o interesse e curiosidade do menino. Entre um efeito especial e a sonoplastia adequada aos socos e explosões que pipocam na tela, tira o material da mochila e de barriga para baixo, a maior parte do tempo com os olhos no televisor, lança olhadelas nas páginas escritas e reproduz nos exercícios o que a professora havia explicado durante a aula. Sua pressa em terminar os exercícios se justifica: mal engolido o almoço que se anuncia pelo cheiro apetitoso que vem da cozinha, sairá a brincar com Felipe, da casa ao lado. Bola e videogame encherão a tarde e o tempo vai escoar rapidamente. Lúcia, da porta da cozinha, olha o menino, orgulhosa pela dedicação que o filho dá aos estudos: nem almoçou ainda e já está mergulhado nos livros! Este menino vai ser médico, no mínimo!

O almoço está na metade quando Antenor chega. Traz o semblante abatido. Queixa-se de fortes dores de cabeça. O médico não descobriu a causa, mas lhe receitou vários remédios, de nome difícil, mas que, segundo o doutor, o deixariam curado. Bem que tentou guardar as palavras do médico explicando o modo como tomar os remédios. Era uma conversa de colheres e horários. Pelo menos, o médico havia escrito tudo. Poderia ler quando precisasse, pensou Enquanto se prepara para almoçar, pega a receita. A letra é um garrancho só. Vai ter que telefonar ou passar novamente no consultório para ouvir as explicações. Não é só isso que o incomoda: pensa no dia de trabalho perdido. Havia sido tão difícil conseguir aquele emprego! Não poderia perdê-lo agora! Trabalha muito e espera uma promoção para breve. Até está  buscando aprender um pouco mais. Valdelúcia o ajuda e lhe traz algumas informações, tiradas da biblioteca e de uma tal interné. A dor de cabeça aumenta. Deita-se, fecha os olhos e fica a ouvir os barulhos da casa, em plena tarde.

Enquanto Antenor tenta acalmar a dor e a angústia, Lúcia liga o rádio para ouvir o programa de fofocas sobre artistas de televisão; Valdelúcia estuda no quarto, muda com lentidão as páginas da apostila por causa da dificuldade em compreender as idéias das frases; Lucas joga futebol alegremente e de vez em quando atravessa o gramado da praça em busca da bola, muito próximo da placa em letras vermelhas e exuberantes: NÃO PISE NA GRAMA.

Na lida diária dessa família, futuro é apenas mais uma palavra abstrata. Talvez vazia. 

Edgar Morin: “É preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida”

Palestra de Edgar Morin no 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho de 2019.

“Quando tivemos a ousadia de convidar o francês Edgar Morin para participar do nosso Congresso, não acreditávamos que ele poderia aceitar. Hoje, estamos diante de um dos maiores pensadores da atualidade, que aos 98 anos continua a impactar os educadores com suas falas”, disse Caio Lo Bianco, idealizador e gerente executivo do LIV, durante o 3º Congresso Socioemocional LIV, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de junho.

Morin, antropólogo e teórico da complexidade humana, discursou para 1.500 pessoas durante cerca de 1 hora (veja na íntegra nesta transmissão em vídeo). Além de discorrer sobre a relação entre emoção e razão no pensamento complexo, falou sobre o Brasil. Citou nomes de comunidades e times de futebol, arrancou reações e aplausos da plateia: “Vi neste país muitos episódios magníficos e também terríveis desde 1960. Um Brasil das iniciativas e particularidades, de tantos esforços criativos para criar uma vida melhor mesmo com poderes que só procuram o lucro e a dominação. Esse Brasil que eu amo, eu quero saudá-lo!”, disse.

Abaixo, confira as principais ideias apresentadas pelo pensador, que abordou temas como o conceito de ser humano, as relações entre as pessoas, o papel dos docentes na educação de crianças e jovens, as mudanças na sociedade e a globalização.

Relação entre razão e emoção no pensamento complexo

“Eu quero abordar a, que é o tipo de pensamento que eu pratico e elaborei. Costumamos identificar o homem como homo sapiens, ou seja, dotado da razão, mas nessa definição clássica não há a emoção e o delírio. Mesmo um matemático com uma atividade unicamente racional sente ao mesmo tempo a paixão pela matemática. Não há razão fria – apenas talvez em alguns economistas ou tecnocratas que consideram os seres humanos como objetos nos quais podemos botar cifras. Se não, sempre temos a presença da emoção.

O ser humano é um ser de paixão, que pode ter sentimentos muito fortes que, no limite, podem levá-lo ao delírio. Cada um de nós pode participar de fenômenos de histeria quando fazemos parte de uma multidão ou se estamos em crise de uma certa loucura, algo que depois podemos nos arrepender. Essa loucura não se encontra apenas nos indivíduos, mas num processo histórico. A paixão deve ser sempre controlada pela razão. Se não, podemos sentir um amor cego por alguém que se aproveita de nós, ou viver a paixão por um líder – como um Hitler ou Stalin.  

A primeira lição dialógica: é preciso ser guiado ao mesmo tempo pela razão e pela paixão, e isso é navegar pela vida. O ser humano não é apenas um fabricante ou usuário de ferramenta, um homo faber, mas alguém que vive com mitos, crenças e religiões.”

A prosa e a poesia da vida

“Do ponto de vista da vida, temos a prosa e a poesia. A prosa da vida são as coisas que somos obrigados a fazer para ganharmos o pão de cada dia. Já a poesia da vida é o que nos dá o fervor, a emoção, a exaltação, o jogo, a beleza, o fato de contemplar o oceano, as gaivotas e as praias. Infelizmente, nossas sociedades são invadidas pela prosa, mas devemos resistir delas em nossas amizades e relações humanas. Poesia na vida é fundamental. A poesia é um aspecto de emoção feliz, que nos coloca no deslumbramento e no êxtase.”

A razão e a afetividade

“A afetividade pode ocorrer no âmago da racionalidade. Precisamos promover uma razão sensível e aberta: que conhece seus limites, que aceita o que não pode conhecer – como o mistério do mundo e de coisas que fogem de seu controle –, e que aceita as contradições. Noções que podem ser contraditórias, como vida e morte, podem ser complementares, como tudo o que é inseparável. A razão sensível proporciona emoções. O pensamento precisa dialogar com a mitologia e o pensamento simbólico, por exemplo. A razão precisa ser vigilante contra seus próprios limites e sua tendência de ter certezas absolutas.”

Exploração das emoções

preciso estar atento à exploração da emoção para fins econômicos ou políticos, na propaganda ou na mídia. Muitos costumam selecionar crimes ou catástrofes, ou mostrar crianças e idosos sorrindo, para causar emoções e impulsionar determinadas ações. Há um problema da exploração e controle da emoção que provoca guerras, levanta histeria designando culpados ou excluindo minorias, sendo racista, machista e homofóbico.”

Papel das humanidades e da educação

“Percebemos qual o papel essencial da literatura, da filosofia, do cinema e das artes. O romance, por exemplo, nos comove porque seguimos os personagens e conhecemos as relações sociais, o que a ciência é incapaz de fazer. Um romance, o cinema ou o teatro nos ensinam sobre a vida.

Não basta uma educação baseada apenas na técnica e na racionalidade: a educação deve ter o papel fundamental das humanidades, que nos ensina a meditar sobre a vida e que enriquece nosso destino e o dos outros. Fui marcado por leituras e filmes, e penso que isso deve estar presente na mente dos professores. A tendência atual é diminuir o papel das humanidades e das artes para prevalecer as ciências – e é claro que devemos ter engenheiros e matemáticos –, mas o problema da cultura é muito grande por causa da dissociação entre a cultura científica e as humanidades. A reflexão da ciência não chega aos humanistas e a reflexão dos humanistas faz falta aos cientistas.

A missão do ensino é fundamental para o ser humano, já que ajuda o ser a dar o melhor de si mesmo e evitar o pior. Somos potencialmente homo sapiens, seres razoáveis e delirantes, pensantes e afetivos. Devemos buscar que esse ‘eu’ seja cultivado sempre com o ‘você’.”

Primeira conclusão: o ser humano é complexo e paradoxal

“Vamos à primeira conclusão: é preciso ter racionalidade na emoção e na paixão. A razão, a emoção e a paixão são necessárias e insuficientes. Relacionar tudo isso é essencial.

A contribuição do pensamento complexo é de salientar que pode ser aceito tudo o que parecer contraditório e paradoxal. Por exemplo: não há autonomia sem dependência. É preciso romper com o pensamento linear, aquele que liga uma só causa a um efeito.”

Segunda conclusão: devemos ensinar as crianças a questionar

“A segunda conclusão diz respeito ao ensino: a qualidade de qualquer docente deve ser praticar o eros, que é o amor, tanto para a matéria que ensina quanto pelo estudante. O professor deve lembrar que a criança é um filósofo selvagem e um poeta selvagem.

Filósofo selvagem porque é aquele que faz as perguntas fundamentais. Infelizmente, fazemos com que as crianças percam esse tipo de pensamento e se adaptem a um pequeno compartimento social. Devemos desenvolver nelas a capacidade de questionar, já que a chave de qualquer filosofia é a curiosidade. Essa capacidade poética deve ser valorizada enquanto criança e mantida em toda a vida adulta.

A criança é um poeta selvagem porque se surpreende e olha com certo deslumbramento para as coisas. O adolescente tem aspirações profundas, talvez utópicas ou insensatas, mas o que fazemos normalmente é domesticá-lo para esquecer a tudo. Todo o sistema educacional que conhecemos foi feito para degradar e transformar o indivíduo numa máquina específica dentro da máquina social. O que se pede para as pessoas é que elas se resignem, mas os professores devem ajudar todos a desenvolver essa dialógica entre a razão, a emoção e a paixão.”

Globalização e comunidade humana: conclusão final

“Estamos em uma época que, com a globalização, todos os seres humanos do mundo sofrem os mesmos perigos e ameaças: uma ameaça da biosfera que está precipitando, principalmente quando os governos deixam que essa degradação avance, como aqui na Amazônia. Temos o desenvolvimento das armas, a destruição maciça e as armas cibernéticas que podem destruir a sociedade. Há esse fenômeno extraordinário que é a globalização técnica e econômica, mas ao invés de fazer com que as pessoas se entendam melhor, as coloca em situações de crise e de angústia. E, ao invés de saberem que têm um destino em comum, se fecham em uma identidade particular e singular.

Esquecem que todos somos humanos, da mesma aventura que nos leva não sei pra onde. É preciso situar novamente o sentido da aventura humana. Cada um de nós não é somente um cidadão de uma nação, mas uma partícula dessa aventura que começou na pré-história. Muito antes da história, há um conflito inseparável entre as forças da união e amor, e as forças da destruição, da guerra e do conflito. Cada vez é uma delas que vai predominar. Há uma única certeza: é preciso saber tomar partido pelas forças de eros, do amor, da fraternidade para toda a humanidade.”

Fonte: https://blog.inteligenciadevida.com.br/2019/06/20/edgar-morin-e-preciso-ser-guiado-ao-mesmo-tempo-pela-razao-e-pela-paixao-e-isso-e-navegar-pela-vida/

Ler é perigoso! A literatura nas encruzilhadas da vida. (2)

Marta Morais da Costa

Continuo pelo avesso: não estarão certos os leitores que trocam os livros por outras atividades? Não estarão certos os entrevistados do mais recente “Retratos da Leitura no Brasil”(publicado em 2020 , cuja  pesquisa foi realizada de novembro 2019 a janeiro de 2020)  a não ler um único livro, mesmo que incompleto, nos últimos três meses? Quatro milhões e seiscentos mil brasileiros  deixaram de ler, e sinalizam aos demais que é preferível crer no que dizem do que encontrar tempo e paciência para ler um livro, a sós? A pesquisa dá conta que houve queda nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.  Apenas as regiões Norte e Sul tiveram acentuado acréscimo: 10% e 8% respectivamente.

Stefan Zweig escreveu que os livros são um universo “diversificado e perigoso”. No entanto, muitos projetos de leitura no Brasil ainda propõem visão única, padrão antigo, fuga a polêmicas, engessamentos. Lê-se para não pensar. Lê-se para não se pensar. Pode haver um “perigo na esquina” do texto que constrange e do texto que liberta, do texto que se consome e do texto que nos consome.

Julgo que ao confrontarmos as duas posições antagônicas das encruzilhadas da leitura (o padrão único e o diversificado) em momentos diferentes de nosso percurso na vida, chegamos à conclusão de que o alicerce da valorização da leitura nasce de nossa experiência, de nossas vivências com os textos. E a partir dessa vivência construímos nossa crença e nossa ética. Afirmamos, e com razão, que ler se aprende lendo. Melhor ainda, ler se aprende correndo riscos, permitindo que a diversidade de textos (e também de suportes) mantenha a aprendizagem em contínua revisão.

Nem sempre a leitura e a literatura entram em nossa vida como um ato de razão, uma escolha racional. Por vezes, ler constitui um momento mágico. O nascer do leitor, por exemplo, origina narrativas que o registram de forma sempre emocionante. Uma das mais tocantes, a meu ver, é a de Alberto Manguel contada em “A história da leitura” (1997, p.18)

“Então, um dia, da janela de um carro (o destino daquela viagem está agora esquecido) vi um cartaz na beira da estrada. A visão não pode ter durado muito: talvez o carro tenha parado por um instante, talvez tenha apenas diminuído a marcha, o suficiente para que eu lesse, grandes, gigantescas, certas formas semelhantes às de meu livro, mas formas que eu nunca vira antes. E, contudo, de repente eu sabia o que eram elas; escutei-as em minha cabeça, elas se metamorfosearam, passando de linhas pretas e espaços brancos a uma realidade sólida, sonora, significante. Eu tinha feito tudo aquilo sozinho. Ninguém realizara a mágica para mim. Eu e as formas estávamos sozinhos juntos, revelando-nos em um diálogo silenciosamente respeitoso. Como conseguia transformar meras linhas em realidade viva, eu era todo-poderoso. Eu podia ler.”

Esse momento inaugural e iluminado do processo de alfabetização é um caminho sem volta, melhor ainda, um caminho que dará em muitas encruzilhadas. Não há diplomas de leitor, eles se fazem ao andar. Não existe encruzilhada quando o caminho é único, não é mesmo?

Passei a adolescência na companhia dos livros que comprei (com verba de aniversários e natais) de baciada na papelaria próxima de casa (traduzindo: a Biblioteca das moças, com M. Delly capitaneando os livros preferidos). Li também os que fui encontrando aleatoriamente em estantes da Biblioteca Pública, em especial aventuras da coleção Terramarear. Naquele tempo as bibliotecárias se limitavam a carimbar a carteirinha e a conferir se devolvíamos os livros inteiros, sem rabiscos, manchas de café etc.  Li o que encontrei em caixotes de revistas e livros de bolso de um tio aficionado:  a revista X9, volumes de Seleções do Reader’s Digest e os volumes do faroeste fake, tendo como cenário o oeste dos EUA . Mais tarde descobri que o faroeste era caboclo, os livros foram escritos por  José Carlos Riyoki Inoue, autor do interior de S. Paulo. É claro que não li os 1 086 que escreveu, mas passei por dezenas deles e por muitos de seus 39 pseudônimos! Vem daí, acredito, uma elasticidade leitora que me levou nas muitas décadas da vida a não ter preconceitos arraigados contra quaisquer gêneros literários! Eu tinha a estrada pavimentada para ser uma devoradora de inutilidades bibliográficas! Mas encontrei uma história semelhante ao ler um romance menor de Umberto Eco, “A misteriosa chama da Rainha Loana”(2004),  que me devolveu a serenidade de encontrar citados muitos dos livros, revistas e filmes que fazem parte desse terreno subterrâneo e inconfessável de leituras que afrontam os cânones.

Foto por Olenka Sergienko em Pexels.com

Assim como não fui tolhida ao garimpar os caixotes sangrentos, o mesmo não se pode dizer de experiências de leitura censuradas, seja no plano individual, seja no social. Bibliotecas escolares organizadas segundo critérios discutíveis (eles sempre o são) estabelecem rigidamente por prateleira a série a que correspondem os livros e professores e bibliotecários ou atendentes da biblioteca, seriamente comprometidos, mas censores convictos, impedem as crianças de terem acesso a prateleiras “proibidas”, “perigosas”.

Expandindo essa censura escolar para momentos históricos e ideológicos mais complexos, a destruição de livros, nascida da necessidade que o poder impõe de corrigir rotas, de apagar encruzilhadas tem acompanhado a história da humanidade desde tempos muito remotos. E atende sempre à intenção de destruir a encruzilhada e substituí-la pelo caminho único. Luciano Canfora, em “Livro e liberdade” rastreia o desaparecimento violento de obras e a censura a autores na Antiguidade Clássica. Fernando Báez, em “A história universal da destruição de livros” mapeia eventos e estigmas que levaram ao desaparecimento cruel e intencional de boa parte dos escritos ao longo da história da humanidade. O SESC Copacabana realizou uma exposição imersiva em que, depois de assistir à reconstituição da biblioteca real de Alberto Manguel (cujo livro dá título à exposição: “Biblioteca à noite”), os visitantes iniciavam, no cenário de uma floresta, uma viagem por dez bibliotecas físicas ou lendárias, visíveis com óculos de realidade virtual e uma delas de impacto brutal: o incêndio da biblioteca de Sarajevo, durante a Guerra da Bósnia Herzegovina. Um violinista tocando, sentado no degrau da uma escada que conduz ao saguão da biblioteca, enquanto o fogo inicia e se propaga atrás das portas fechadas da entrada ao acervo da biblioteca.

Báez no final de seu livro relata o episódio trágico da destruição da Biblioteca de Bagdá pelas tropas dos Estados Unidos em evento recente. E anuncia uma possibilidade arrepiante:

“Convém assinalar que milhões e milhões de livros foram digitalizados e convertidos em dados eletrônicos recebidos por uma espécie de biblioteca de caráter virtual. (…) Essas bibliotecas de traços futuristas, no entanto, não estão a salvo. Dezenas de hackers, ou piratas informáticos, tentam atacá-las constantemente para destruir seus arquivos. Não está longe o dia em que no lugar de fogo os biblioclastas utilizarão programas informáticos destrutivos, limpos e devastadores.(…) A destruição dos livros está longe de acabar.”

Enfim, nesta tarefa de colocar em perigo de morte as bibliotecas com seus livros, fica muito distante a compreensão da atividade leitora, segundo C.S. Lewis, em Um experimento na crítica literária : “O verdadeiro leitor, este lê todas as obras com seriedade, no sentido que as lê com total entusiasmo, fazendo-se tão receptivo quanto é capaz.”. A negação dos livros é a escolha exata das eternas Veredas Mortas, dos pactos com a negação, com a ausência de recepção, com  o fechamento e bloqueio de todas as estradas. O negacionismo da essência do entusiasmo, que etimologicamente assinala a ligação da ação de ler com o estado de arrebatamento, de fervor interior, de inspiração divina.

Não pretendo abrir a intimidade de minha leitura para todas as encruzilhadas que vivi, não se preocupem. Há abismos que nem a nós mesmos confessamos… Mas um dos mais recentes, eu posso confessar.

Referi-me no início desta fala sobre a atração dos abismos, o amor ao perigo. Na leitura, é claro. Vasculhando livrarias há alguns poucos anos encontrei um livro nessa linha perigosa. É de Mikita Brottman, uma psicanalista e professora estadounidense, do Maryland Institute College of Art, de Baltimore, intitulado “The solitary vice against reading” (O vício solitário contra a leitura). É um livro instigante porque traz relatos, experiências e reflexões a respeito de leituras que não são as mais respeitadas, que não estão exclusivamente em livros e integram a cultura de massa (revistas e cinema, por exemplo). Enquanto professora universitária e escritora, ela lê os repertórios da cultura contemporânea pelo avesso ou pelo anverso, como quer João Cabral de Melo Neto, em poema dedicado à poeta Marianne Moore (1897-1972):

Ela aprendeu que o lado claro

das coisas é o anverso

e por isso as disseca:

para ler textos mais corretos.

E que gêneros ela leu e se encontrou neles? Livros de crime e horror, biografias, livros com confissões de celebridades (que denomina “vanity fair” e a cultura do voyeurismo), policiais- sem dúvida-  e revistas leigas sobre psicanálise. Mikita Brottmann enlaça essas leituras com uma bem-humorada crítica à leitura de obras “bem comportadas” e de clássicos da literatura. Sua argumentação gira em torno da rejeição de leitores adultos a leituras sisudas, tradicionais, que apelam mais à razão do que à sensibilidade, mais à abstração do que ao real cotidiano. Sua visão de leitura aponta para outra sinalização: ‘Não abandone o caminho do prazer da leitura! Leia sem preconceitos. Desconfie de seu professor.”. Sim, isso mesmo! Uma postura à moda da “Sociedade dos poetas mortos” com sua atitude desafiante e a proposta de formas alternativas de ler a produção cultural.

Na conclusão do livro, ela afirma: (vou tentar traduzir aproximadamente o texto – fiquem tranquilos não o lerei em inglês, pois tenho respeito aos ouvidos alheios.) “A literatura me deu uma dose enorme de prazer, e há certos livros aos quais voltei de novo e de novo. Em retrospecto, porém, eu reconheço que os livros que foram os mais significativos para mim ao longo da vida foram aqueles que, na primeira leitura, eu considerei os mais perturbadores ou os mais difíceis de ler.” Interessante esta conclusão porque, ao mesmo tempo em que insiste na noção de prazer e de liberdade de escolha, retorna à ideia de que significativo é o texto perturbador. Podendo estar fora do circuito das obras constantes de listas das obras mais valiosas e merecedoras de leitura. Posiciona e valoriza o leitor como aquele que foi perturbado e que encontrou a sua frente um texto desafiador.

Segue mais profundamente nessa valorização do leitor, citando Mortimer Adler, com o qual concorda que “a prática de educadores, mesmo que bem intencionados, que tentam deixar a leitura menos  penosa do que ela é, não só a tornam menos estimulante, mas também enfraquecem a vontade e as mentes daqueles contra quem esta fraude é perpetrada.”

Esta é uma encruzilhada profissional tão séria e desafiadora, semelhante às Veredas Mortas de Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”. A função do educador em seu desempenho profissional na formação de leitores, em especial de leitores da literatura, tem a ver com três aspectos, no meu entendimento:

1 a definição dos objetivos e valores humanos da leitura da literatura (permanentes ou mutáveis);

2 a definição dos critérios de seleção de textos (que denomino, “As escolhas de Sofia”);

3 a definição de metodologia equivalente ao objeto em estudo (cujo apelo se pode traduzir por um “Professor, poetize-se!”).

Este momento abre para outros caminhos: os atalhos, veredas e becos sem saída do trabalho voltado à formação de leitores na escola. E pede um novo capítulo. que poderá vir a seu tempo.

fico por aqui, quem sabe na chegada a uma nova encruzilhada. Agradeço sua companhia, sua paciência e atenção. Agradeço em especial à Pastoral; também à Patrícia e à Maria Beatriz pelo impecável suporte tecnológico.

E convido João Cabral de Melo Neto a vir em minha companhia por mais um tantinho do caminho. Maurício Fernandes, a quem agradeço demais, em sua voz e interpretação dirá um pouco do que esta velha leitora conseguiu aprender nas encruzilhadas de sua vida:

“Rio lento da várzea,

Vou agora ainda mais lento,

Que agora minhas águas

De tanta lama me pesam.

Vou agora tão lento,

Porque é pesado o que carrego:

Vou carregado de ilhas

Recolhidas enquanto desço;

De ilhas de terra preta,

imagem do homem aqui de perto

E do homem que encontrei

no meu comprido trajeto (…)”

(João Cabral de Melo Neto, O rio.)

Foto por moein moradi em Pexels.com

A leitura: multicolorida e em mosaico (fragmento)

Foto por rikka ameboshi em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Para Paul Ricoeur, “a leitura é REFIGURAÇÃO = transformação, re-simbolização, re-mitização.” A partir dessa analogia, hoje não se pode mais conceber a leitura como exercício de alfabetização ou como procedimento que levará a interpretações únicas, fechadas, pré-determinadas, pré-configuradas pela intenção de um autor. Mesmo um texto objetivo: “A República foi proclamada pelo marechal Deodoro em 1889.” provocará diferentes reações, a depender do modo de ler e do repertório dos leitores. Aceitação, dúvida, negação, repulsa, patriotismo, exaltação militar etc.

Mesmo alfabetizado, o leitor não termina nunca seu processo de formação leitora. Vive em estado de tensão permanente entre o horizonte do presente (o leitor que é hoje) e os textos do passado. Isso faz com que o horizonte do presente esteja em constante formação porque põe sempre à prova nossos pré-conceitos. Mas a tensão se revela também, e continuamente, quando o leitor se depara com textos até então excluídos de seu repertório: livros sobre física quântica, sobre jornalismo literário, sobre teoria da desconstrução, sobre a história da perspectiva dos excluídos, sobre filmes ficcionais com o tempo reverso (p.e., o filme “Amnésia”, de 2000, com Christopher Nolan).

Essa multiplicidade permite compreender por que as portas de entrada da leitura são muitas e, por vezes, surpreendentes. Bruxos, vampiros, cabanas, números, fórmulas, imagens, sons podem estar na fonte primeira da sede saciada. O perigo não está nessa fonte, está, sim, em converter a fonte em único lugar onde se pode beber. Há lagos, rios, corredeiras, cascatas, riachins e oceanos, em que se apresentam e despenham as águas da leitura. Para beber, para banhar-se, para afogar-se, para aceitar ou recusar. O leitor pode viver sua vida leitora no mesmo lago, mas jamais compreenderá a força do oceano. Pode ler exclusivamente quadrinhos a vida inteira, mas perderá as imagens incompletas dos grandes romances. Pode ler exclusivamente textos científicos, mas perderá o movimento intenso e prismático dos quadrinhos e a força imaginária da literatura. Poderá ler exclusivamente a ficção, mas não aprenderá a intensa liberdade da poesia e o rigor especulativo do discurso histórico. O escritor japonês Haruki Murakami afirma: “Se você só lê os livros que todo mundo está lendo, você só pode pensar o que todo mundo está pensando.”

Ler é uma ação solidária de integração na história da cultura. Ao ler, estou sozinho, isolado, mas apenas fisicamente. Mental, imaginária e intelectualmente, estou bem (ou mal) acompanhado. Por isso, antes de interromper, com boas intenções, a leitura de alguém embevecido, pense que pode estar cortando – temporariamente – o fio humano que tece a história da cultura.

E as ações para formar leitores e dar alma à leitura oferecem às pessoas a oportunidade de descobrirem-se múltiplas na multiplicidade incontrolável dos textos.

(In: Revista da Academia Paranaense de Letras, Curitiba, nº 69, p. 68-70)