O que será, será.

                Marta Morais da Costa

Pensar era atividade para a qual nunca tinha tempo. Melhor não pensar e deixar que os outros lhe dissessem o que fazer. Como resolver os problemas. As atividades do dia seguinte.

Já na infância havia descoberto que o pensamento próprio pode trazer problemas. E que sempre é pura perda de tempo. Na escola, toda vez que o professor pedia uma solução, uma comparação ou argumentos, ele se fazia de ausente, escondia-se atrás dos colegas, copiava descaradamente as respostas – em livros ou nas provas dos vizinhos. É verdade que poucos professores na época pediam aos alunos que pensassem. Achavam que era melhor só ter respostas iguais às palavras dos livros. Sem mudanças.

Em casa, nem precisava ficar se escondendo. Os pais determinavam, mandavam, exigiam. Era só obedecer. Sem reclamar. Fazer sem saber porquê. Não ter respostas e não reclamar. A vida seguia tranquila desse modo.

Assim, já adolescente, esperou que os pais resolvessem se continuava a estudar ou iria trabalhar na oficina mecânica do Deco. Foi trabalhar. Até achou bom: teria dinheiro para as matinês, para as balas azedinhas, e, futuramente, para o cigarro.

O pai é que tinha ambições: queria ver o filho logo, logo longe da oficina. Quem sabe ser office-boy no banco ou no escritório do Dr. Darcy. Podia ser um bom começo. E obedecer era uma das qualidades do seu menino.

A mãe sonhava com netos e um a menos na casa, para aliviar o serviço. Não perdia a oportunidade de chamar a atenção do filho para as garotas que desfilavam pela calçada. Elogiar a Maria pela beleza, a Dalva pela elegância, a do Carmo pelo recato e pela religião. Quem sabe ele não poderia ir até elas, fazer um elogio, puxar conversa? Afinal ele já tinha um emprego, estava quase na idade de casar. Contando o tempo de namoro e de noivado, ia estar bem na época de assumir uma família.

Convencido pelo pai, arrumou emprego no escritório. Descartou o banco porque para os números da matemática precisava pensar. E Dr. Darcy só queria que ele fizesse coisas e não pensasse.

Um dia, esbarrou na Elaine: foi olhar e gostar. Ela pediu para casar em maio, mês que achava lindo demais para usar branco e um buquê de flores. Também escolheu a casa, decidiu sobre os móveis e bateu o pé para que ele usasse um terno de linho azul marinho no casamento.

A festa ficou por conta dos pais dela e dos pais dele. Só precisou dizer o sim. Era o que tinha de fazer e fez.

Os filhos vieram, mudou de emprego, foi um funcionário padrão, deixou a educação dos filhos por conta da Elaine. Os dias eram iguais. Às vezes a mulher resolvia que deviam ir para a praia: ele cuidava do carro, juntava dinheiro para as despesas, embarcava a família e desciam para o litoral. Subiam de volta, sem o dinheiro, com a pele corada, os meninos amuados e a mulher sorrindo. Até a próxima viagem.

Os anos não mudaram o homem que não gostava de pensar. Nem quando baixou ao hospital com um câncer no rim pensou que poderia morrer. Tudo se resolveria bem. Porque o médico disse que logo ele estaria curado. Não se curou.

Pouco antes de falecer, pensou na vida tranquila que havia levado, nos filhos criados e na mulher, ainda bonitona, que iria deixar. Como um raio, pensou: e se a vida tivesse sido diferente?

Não deu tempo de responder. Fechou os olhos e se deixou ir. Tinha certeza que a mulher haveria de cuidar bem de seu enterro.

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Banalidade

Marta Morais da Costa

“a banalidade do Mal” (Hanna Arendt)

No silêncio compactuado
da sala de reuniões,
ele habita.

Nos conchavos ardilosos
a farejar recompensas pessoais,
ele viceja.

Na concordância bovina
ao abuso dos desmandos ,
ele fermenta.

Na passividade do lar,
na presença doméstica do medo,
ele amadurece.

Nos sabujos sem cérebro
a exaltar a imbecilidade,
ele ceva e cega.

Esse mal, disseminado e sutil,
igualmente habita em mim
e me paralisa.


Seis meses e meio propósito

Marta Morais da Costa

Resolvo que vou resolver tudo o que está em atraso. Daí resolvo que as resoluções são complicadas, porque nem tudo dá pra fazer à distância. E deixo pra depois das quarenta semanas.

Resolvo que vou limpar novamente a casa, aquela geral que antes a gente só fazia no Natal ou na véspera do aniversário. Daí resolvo que estou mais é com vontade de ver um filme, mesmo que seja classe B.

Resolvo que vou fazer dieta porque nem as roupas do tempo em que bati recordes na balança conseguem fechar zíperes, colocar botões nas casas correspondentes, enfeitar-se com cintos sem precisar novos furos. Daí resolvo ir pra cozinha fazer aquela moqueca caprichada, camarões saltando da panela e das moquequeiras por falta de espaço; molho em cascata dendezeira a inundar os pratos e aquela porção de farinha que só os antigos moinhos ainda produzem.

Resolvo que vou escrever pros manos que andam recolhidos e preocupados com filhos e netos, como eu e como a maioria das mulheres que levam a sério a maternidade e a netoposteridade. Daí resolvo que mandar uma mensagem de voz pelo whats é suficiente.

Resolvo que vou entrar no face pra saber dos amigos, mandar mensagens e responder a todas as postagens. Daí resolvo que ando meio cansada da publicidade que inunda a plataforma e que é melhor deixar quieto.

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Resolvo que vou começar a fazer uns exercícios de alongamento, tipo terceira (melhor, quarta) idade e preparo halteres com garrafas de água, elásticos, um cabo de vassoura, uma esteirinha chinfrim e boto aquele Adidas meio velhinho pra poder me esbaldar sem comprometer as costuras. E aquele tênis Reebok crossfit abandonado. Daí resolvo que sem personal não dá pé, nunca vai dar. E depois até o ar anda rarefeito; com certeza terei tonturas.

Resolvo que vou ler aquele volume do Philippe Ariès, “O homem diante da morte”, de 837 páginas que me fita descaradamente lá da estante, me desafiando e me chamando de covarde porque não quero enfrentar o tema (ou como diriam os jornalistas e comunicadores que tratam a língua portuguesa a chicote: “enfrentar de frente o tema”). Sem querer dar o braço, o pé e a cabeça a torcer, reconhecendo um pouco de verdade no desafio, resolvo que primeiro preciso ler aquele volumezinho do Robert Musil, “Sobre a estupidez”, de 62 páginas, porque irá me permitir entender melhor o Brasil neste excepcional momento histórico. Planejo ler Ariès depois da vacina…

Resolvo que é melhor seguir Voltaire e Luciene e “cuidar de meu jardim”. Programo o passo a passo de minha ação: podo, planto, mudo, adubo, contrabandeio a água racionada, pinto os vasos e reforço a composteira. Daí resolvo que é melhor deixar por conta do jardineiro. Afinal, de meus avós e bisavós lavradores herdei um nome honrado e o desejo de me mudar para a cidade grande.

Resolvo que vou dar um rolê com meu carrinho que precisa esquentar o motor, movimentar a gasolina do tanque, por a bateria pra funcionar, aquecer os pneus e tomar um banho de sol. Irei só até o limite de meu bairro, entro no retorno e volto pra casa. E se o corona estiver me esperando na esquina? E o tal de por a máscara, tirar os sapatos ao voltar, lavar pela duocentésima vez diária as mãos com aquele sabão mal cheiroso? Daí resolvo que não terei tempo, porque ainda não li os dois jornais diários e aqueles sites especiais de cultura e me sentirei desatualizada. Provavelmente o remorso não me deixará dormir à noite.

Resolvo que depois de seis meses reclusa, qualquer resolução perdeu o sentido. A vontade e o pensamento tornaram-se prisioneiros da sobrevivência. Sem resiliência, sinto-me um legume (sem querer ofender os vegetarianos). Sem desejo de aventuras, sinto-me um cão treinado (sem ofensa aos amigos dos pétis). Sem horizontes e sem poder gritar meu horror e minha discordância, sinto que a cidadania morre um pouco a cada dia.

Nem sei se a escrita ainda pode me socorrer.

Consultório editorial

Para Júlio,

Célia Cris e

Cristiane,

editores, por ordem de entrada em meu afeto.

Marta Morais da Costa

Minha mesa de trabalho é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Papéis de todos os formatos, em blocos ou avulsos. Textos fotocopiados e encadernados com capas de muitas cores, espirais, grampos e prendedores em busca de publicação.  Livros impressos – alguns bem mal impressos – de diferentes espessuras, de formatos os mais estapafúrdios – muito grandes, diminutos, redondos, com ou sem vazados, em tecido e plástico ansiando por reedição. Dentro deles, ilustrações que vão do desenho medíocre ao regular, do figurativo ao geométrico, da escola de Da Vinci à de Romero Brito, de Janjão das Contas  a Mariazinha de Belém. Enfim, a mixórdia habitual da mesa de um editor de literatura para crianças.

Esqueci de incluir nessa mesa a pasta de correspondências. Cartas em papel, algumas até manuscritas! Nela, também a imensa variedade das escolhas humanas. Cores diferentes, tintas e fontes diversas, com ou sem logos, monogramas, stickers, adesivos, etiquetas, ilustrações e cartões de visita… Uma delas trouxe a foto do remetente; outra, uma flor seca colada em papel perfumado.

Enfim, minha mesa é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Não pelo contém, mas pelo que o material me obriga a fazer: destruir, ignorar, renegar, recusar, mandar procurar outra turma. Os raros sins implicam ainda muito trabalho: sugestão de correções, alterações, novos títulos, cortes na abundância de adjetivos, na sobra de preposições, na obesidade dos verbos. E a pontuação! É tanto erro que repasso a tarefa ao revisor, porque é paciente, minucioso e calado.

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Eu poderia responder às cartas que me pedem edição de originais com respostas-padrão. “Lamento, mas nosso catálogo está completo para este ano.” “Lamento, mas seu original não atende a linha editorial.” “Lamento que, apesar da qualidade de seu material, não temos interesse em publicá-lo.” E assim por diante.

Poderia fazer assim. O capeta, porém, mora em mim. Respondo individualmente e em consonância com as mensagens enviadas. E não dou ponto sem nó. Explico-me melhor. Suponhamos que recebo um original, cujo autor me escreve um pedido nos seguintes termos:

“Senhor Editor”, (muitas cartas começam assim, no masculino predominante e em maiúsculas para afirmar minha autoridade e meu poder, penso eu) em anexo envio um original de minha autoria, dirigido ao público infantil. Sei que sua renomada editora… (“renomada” faz parte do puxa-saquismo nacional!)… busca novos autores e, por isso, tomei a liberdade de enviar-lhe meu original. É uma história de amizade, fraternidade, solidariedade e devotamento… (ufa, ainda bem que me poupou de mais um –ade!)…entre dois animais: um urso e uma arara…(ops, se encontraram onde? Em um zoológico multiambiental , tipo do gelo aos trópicos?) … que representam um adulto e uma criança,… (É evidente que o urso não é quem representa a criança!) …capazes de interagir e se compreender, anunciando no final feliz a possibilidade de um futuro melhor para a humanidade!!!(devo comentar na resposta esta  missão impossível? ainda mais com três exclamações?) Aguardo uma resposta afirmativa e…(por que os autores veem o mundo editorial como a Grande Mãe ou o Asilo dos Escritores?) Desejo-lhe uma boa leitura. (Meu Hades, já prevejo o que ela imagina ser uma boa leitura!). Atenciosamente, Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, a Esperançosa. (corações, beijinhos e flores de gosto duvidoso em stickers…).

Resposta do editor (no caso, eu, mulher):

Prezada senhora Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, (a ironia do adjetivo serve como anestesia para a cirúrgica amputação que segue) em resposta à sua elegante cartinha (mais hipocrisia) comunico-lhe que o mundo cor-de-rosa de seu urso e de sua arara não tem igual no Universo. Ocorre que esta editora tem uma linha de publicações que considera os leitores-crianças seres inteligentes e não criaturas dóceis que engolem qualquer historinha insossa e previsível, como a sua.

Cordialmente, (mais hipocrisia)

Mariana Morais Miranda Guerra.

Aqui, da mesa do Ão, em 18 de abril de 2018.

Admito que minha editora tem um catálogo reduzido. O trabalho, porém, jorra inesgotável de minha mesa. Estes olhos míopes tendem a fechar-se na altura do primeiro terço dos originais. Aos poucos, surge um sufocante nó na garganta.  É sinal inequívoco para interromper a leitura, porque os neurônios se movem adoidados, sem rumo e em revolta. Meus Campos Elíseos! Por que autores de livros para crianças se parecem a Torquemadas, prontos a jogar em fogueiras os indefesos pequenos leitores pelo crime de quererem arte  e não sermões? Literatura e não exercícios narrativos autoritários, recobertos pelo mel das boas intenções? Se as crianças que esses escritores concebem são o futuro deste país, pobre Brasil!

No entanto, como boa capeta, sou uma editora de princípios. Somente entra no catálogo o texto que ocupar um espaço de provocação. Não sou de Guerra à toa. Não me dobro a mistificações ocultas sob o manto subversivo da literatura. Uau, esta frase ficou retumbante! Vai para a legenda abaixo do logotipo da editora. Acompanhada de uma vibrante chama vermelha. Ops, estereótipo não!

Uma ideia melhor clareia meu propósito. Na logo, colocarei a imagem estilizada de minha mesa editorial e um lema em latim caprichado para criar uma aura de distinção: Ipsa littera potestas est. (Por sugestão do revisor de texto paciente, minucioso e quase calado, esclareço que o lema quer dizer: A letra é poder.). Ficou meio sem graça, não é? Acho melhor não traduzir. Assim não trairei a aura da erudição. Ocultarei este parágrafo do revisor de texto paciente, minucioso e crítico.

Desperto da derrapagem.

Num canto da estante, poucos originais à espera de uma segunda leitura. Ao lado da mesa, uma fragmentadora de papeis.

Adendo 1: Este texto foi publicado no site da Editora Olho de Vidro em 16 de março de 2018. Eu o retomei, fiz algumas alterações e o republico porque gosto muito dele. Espero que meus poucos leitores não me abandonem de vez em razão de eu estar me repetindo, fazendo replay de mim, incapaz de escrever algo original. Tenho que reconhecer que talvez estejam certos.

Adendo 2: Por indicação do Marcelo del’Agnol, esta curta crônica me levou ao livro “A arte de recusar um original”, de Camilien Roy, que gostei demais de ler e com o qual me diverti muito. Nele aprendi novas técnicas de dizer “não” a qualquer escritor. Já estou preparada para criar uma editora, já que o trabalho de escritora fracassou ao me levar a redundâncias e autoplágios.

A solidão da mais alta prateleira

Foto por Film Bros em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Em obra sobre livros e bibliotecas, encontrei uma poética imagem de Lorde Macaulay sobre o sentido atribuído ao estado e à posição de certos livros na estante: “a poeira e o silêncio da mais alta prateleira”. Pensando em paredes cobertas de volumes, algumas somente alcançáveis por banquetas ou escadas, e refletindo sobre os valores que nos levam a organizar e dispor os livros num lugar determinado, escolhendo para eles tal ou qual companhia na estante, percebo o quanto de nossas transformações ao longo da vida se refletem nas bibliotecas que temos ante os olhos. Como os organizamos? Por assunto, época histórica, cor, ordem alfabética, gênero, coleção, tamanho, importância afetiva? Ou mais excentricamente ao sabor do acaso e do tempo em que foram lidos?

Quero convidar o leitor a pensar no exílio a que destinamos os livros de nosso acervo bibliográfico ao colocá-los nos lugares mais inacessíveis aos olhos e às mãos. Não penso num acervo extraordinário, como o de José Mindlin, nem numeroso como o das bibliotecas universitárias ou públicas. Basta pensar o que nos leva, diante da necessidade de escolher entre os livros que ficarão em fácil acesso e aqueles que ocultamos do olhar em prateleiras mais altas, ou em caixas depositadas em sótãos, ou em depósitos pouco frequentados da casa.

Que livros escolhemos para deixar ao alcance imediato da mão e à localização rápida do olhar? Por que relegamos aos cantos de prateleiras ou aos lugares de mais difícil acesso este ou aquele volume? Que critérios definem a visibilidade e a possível leitura, ou releitura, de um livro?

Começo uma possível justificativa pela suposição de que se encontram acessíveis os livros mais usados e/ou os mais amados. Utilidade e amor não estão necessariamente relacionados. No magistério, talvez eles vivam uma relação de constante confronto. Não uso em minhas aulas os textos de que mais gosto ou, em situação mais dramática, os livros que mais uso não são os de que mais gosto. Na primeira situação, vigora a censura de toda ordem (ideológica, moral, pedagógica, estilística). Na segunda, o conflito e o contraste: entre o que ensino e o que me interessa ler há um inescapável e definitivo divórcio. O perfeito casamento da utilidade com o gosto e o amor depende de tantas variáveis quanto em qualquer relacionamento entre seres humanos. Afinal, o livro também pode ser considerado, em metáforas humanizadas, o amigo, o companheiro, o confidente, o vilão, o inimigo…

Além da incompatibilidade, relegamos para a prateleira mais elevada os livros que, um dia, estiveram ao alcance da mão simplesmente porque hoje somos leitores diferentes. Ou aqueles que foram um erro de aquisição, mas dos quais não nos apartamos mesmo assim. Ou aqueles com os quais nos presentearam em absoluto desacordo com o que pensamos ou queremos ler, mas nos lembram pessoas ligadas indissoluvelmente à nossa história. Ou aqueles que em sua forma menos amorosa já lemos, mas sobre os quais não prevemos a mais remota possibilidade de nova leitura. Livros que deixaram seu silêncio original, passaram pelo processo de leitura e voltaram a um silêncio diferente, o do abandono. E ficaram a acumular a poeira do esquecimento e da solidão. Papel encadernado e desenhado, agora inútil e desdenhado.

Gostaria de imaginar para esses livros uma leve esperança: a de que eles tenham sido colocados no espaço menos acessível porque a utilização e a leitura, embora remotas, não são inexistentes. Livros que ficam à espera de um tempo de leitura mais propício, que tiveram de ser alçados à última prateleira porque alguns ali precisam estar, em razão de que os outros espaços foram todos sendo preenchidos e que, afastada a intenção do descarte, o leitor saberá como os atingir e ler no momento em que o desejar, bastando para tanto uma banqueta ou os degraus de uma escada. Caixas e estantes pouco iluminadas e esquecidas, que a necessidade de redescoberta do passado pode trazer novamente à luz, como a maravilhosa aventura leitora do protagonista Yambo de A misteriosa chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, que, tendo perdido parte de sua memória, recupera-a paulatinamente ao redescobrir o acervo de materiais de leitura esquecidos em sua antiga residência. Quais leitores já viveram a emoção de ter novamente nas mãos o volume que marcou a infância, a adolescência, que trouxe um momento de transformação pessoal no passado? Esse novo nascimento do livro, que incendiou a escuridão da memória da leitura antiga, estará em algum momento vinculado ao movimento das mãos e dos olhos a limparem a poeira e ao fazerem falar o livro guardado, até aquele momento silencioso.

“A poeira e o silêncio da mais alta prateleira” não serão assim, sinais de abandono, mas de esperança de um dia essas páginas alçarem voo das alturas e, como Ícaros menos trágicos, virem a cair em mãos e mente de um leitor transformado pelo tempo. Então abrirão como asas para a jornada do conhecimento e do prazer, e, talvez, da memória até aquele momento adormecida.

A ÁGUA É O MATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Dedico a Guilherme, meu neto,

 e Eliana Yunes, amiga de muitas águas,

aniversariantes.

Marta Morais da Costa

O título acima não é um erro gramatical ou de digitação. Não o inventei. Ganhei de presente de um colega, entre risos e pensamentos até inconfessáveis, em uma sessão de julgamento de redações há algum tempo atrás. Um (ou uma?) jovem vestibulando (a) usou a comparação para argumentar a respeito dos cuidados que devemos ter com a água, que esbanjamos como se fosse eterna.

Vivemos tempos de restrições e de seca, seja de movimento por causa do coronavírus, seja de racionamento de água. E desejar o paraíso de poder correr de um lado a outro, livres, ou de imaginar  a água a fluir em espaços domésticos e na natureza é parte de nossa utopia neste 2020 aziago.

O que passou pela mente jovem e entusiasta ao associar o termo usual (patrimônio) e a descoberta da concordância, segundo seu entender, indispensável entre o sujeito da frase e seu predicativo? A água é patrimônio soa desconforme. Patri- é herdeiro de pater, pai, masculino, impeditivo, normativo, obstaculoso e obstaculador. A água fluida é mais o sentimento feminino, a adaptabilidade, a fonte e a origem. Ao mesmo tempo, é conjugação de componentes: H2O é fórmula geminada, dupla, conjugada.  Combina  melhor com matrimônio.

Lembro versos de Drummond em Menino antigo:

O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.

Com ela, sim, me entendo bem melhor:

Mãe é muito mais fácil de enganar.

(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)

Lembro também Adélia Prado e sua conclusão imperiosa de que “Mulher é desdobrável”. Revejo na memória de leitura todos os poetas da água, desde o Amazonas caudal e misterioso de Cobra Norato, de Raul Bopp, à água que banha Manaus dos romances de Hatoum, as águas profundas e simbólicas de Grande sertão: veredas e a viagem pantaneira de Manoel de Barros, bem como as águas sulinas de Breviário das terras do Brasil, de Luiz Antônio de Assis Brasil e Os rios inumeráveis, de Álvaro Cardoso Gomes. Todos esses (e muitos mais) caminhos de água doce por onde viajam e cruzam as embarcações que carregam origens e brasileiros de todos os tempos.

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A mãe e as águas. A mãe das águas: Iara, a que deseja, atrai e mata. A mulher matrimônio.

São tempos de queimadas e de assassinato da natureza neste Brasil de meu Deus, que costumava ser dadivoso e compartilhável, e que se transforma dia a dia, por incúria e ganância, no deserto de “tenebrosas transações”, como Chico Buarque advertiu.

Voltando à descoberta juvenil, pode ser que a receosa e tensa candidata (imagine aqui, leitor, também as formas masculinas) a uma vaga na universidade não tenha feito nenhuma dessas associações. Mas esta leitora que aqui escreve, sim. A analogia tomada por outros colegas leitores enquanto erro ou manifestação de incapacidade linguística, pôde provocar em mim outra interpretação. E indagações.

A mãe-matrimônio da humanidade também pode ser considerada a linguagem verbal, oral ou escrita, pois permite ao leitor fecundado criar, por sua vez, e disseminar sentidos, valores, belezas, enganos, ilusões…

O livro-útero, cuja água placentária envolve o leitor e na qual ele experimenta e aprende a reconhecer a autoimagem (borrada, deformada, cruel ou prazerosa) em vivência solitária num primeiro momento.

Que mistérios e belezas esconde a língua nesses encontros inesperados? O quanto pode criar o leitor a partir de textos sem intenção estética? Freud acena com os achados dos lapsos inconscientes e o leitor deleita-se com a busca dos processos analógicos e das razões (conscientes) que originaram as imagens reveladoras.

O leitor, essa figura metamórfica e plural, arredia, desconfiada ou apaixonada – e entregue -, mas sempre em busca de uma parcela de identidade em cada livro lido. Identidade que foge, como correm as águas dos rios.

Em O último leitor, o ficcionista e professor argentino Ricardo Piglia escreveu estudos sobre autores (Borges, Kafka, Tolstoi e Joyce) além de estudos sobre leitores. O prólogo trata de um fotógrafo, que “diz que se chama” Russell. Ele constrói uma maquete, antes uma “máquina sinóptica” da cidade de Buenos Aires, fruto de sua interpretação da cidade “que era mais real do que a realidade, mais indefinido e mais puro”. Piglia, citando Pound, reafirma que “a leitura é uma arte da réplica”. A tentativa de compreender e o fascínio pelo que se consegue apreender do que se lê, tornam a nós, leitores, seres replicantes.

Esta crônica tem a ver com o desejo de replicação, maternidade torta em busca de continuidade, enraizada na frase desajeitada do tenso e esperançoso vestibulando (leia-se aqui sua versão feminina também) e no entusiasmo pelo texto denso de Piglia, a procriar sentidos em mim.

Bordado

                                                                          Marta Morais da Costa


A linha, que trama
e cobre o pano
imagem e cor,
traduz compassos
de um concerto de maciez e relevos.
No risco, o desenho a se fazer corpo
que os dedos acariciam
sensualmente.
Os fortes fios
mergulham em abismos,
revelam em seda e algodão
segredos imersos
nos mares do tecido
que, impudico, se abre
ao toque e ao parto
das mãos artífices.
 
Bordar o dentro
como quem desenha
riscos no mar,
segredos de corais,
pérolas
e serpentes.
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PAIS E PAÍS

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Olha, já estou roendo unha

A saudade é testemunha

Do que agora vou dizer

Quando na janela

Eu me debruço

O meu cantar é um soluço

A galopar no maçapê




(Roendo unha, de Luiz Gonzaga e Luiz Ramalho)

Sei que os números são criação humana e que o sistema decimal é uma convenção. Mas quando alguns algarismos se alinham com zeros à direita, como tudo ganha um formato diferente. Um sentido mais intenso. Uma noção de ciclo que finda ou que se inicia.

Assim foi com o ano 1000, assim vivemos em 2000, e agora sufocamos com 100.000.

Neste 9 de agosto, um Dia dos Pais à distância, seja por causa do confinamento com temores e esperanças, seja por causa do com fim dos que se foram sem a presença dos filhos que geraram, sem a presença da mulher com quem os gerou. Pais que deixam retratos, soluços e saudade.

Aos que estão ao alcance da voz, da imagem em telas, à espera da visita próxima no tempo e na distância, será um Dia dos Pais passível de adiamento, mas pleno das expectativas de abraços e beijos e olhos e carinhos logo ali adiante.

Dos que sumiram na aterradora dimensão da vida e que ultrapassaram o limite da existência ficou o perfume ácido da saudade, os rios sofridos que viajam  pela planície da ausência, a memória dolorida de momentos marcantes e de horas e dias fugazes, perdidos, não vividos em plenitude e agora desaparecidos para sempre.

É normal, previsto e fatal que um dia nos faltassem. Mas que tivessem o tempo de vida roubado e antecipado é imperdoável e incompreensível. Hoje mais do que nunca. Em especial quando o descaso de muitos, quando a prepotência de tantos, quando a insensibilidade de milhões conseguiram produzir uma chacina sem precedentes no Brasil.

Não há solidariedade, nem sacrifício de profissionais de saúde e nem equipamentos que estanquem a falta de ar, a falta de medicamentos, a falta de competência e falta de vergonha em quem poderia diminuir essa tragédia.

Um país que se esboroa, em frangalhos, poroso a todas as desumanidades e desumanização, fruto de pessoas que se dedicam de corpo e alma ao dinheiro e ao poder, crava dentes cada vez mais incisivos na carne de seus compatriotas, arrancando-lhes últimos suspiros a cada minuto do dia.

Pais, mães e filhos, em uma conta macabra, não cansam de preencher estatísticas, gráficos, murais de fotos e valas – milhares de valas – em todo o país.

Números redondos que possuem pontas afiadas a ferir de mortes simbólicas e afetivas a outros milhares de brasileiros.

Já existe quem diga que em três anos teremos esquecido a pandemia. Há quem diga que a vida normal deixará de existir. Há quem diga que nada se deve lamentar pois todos morreremos um dia, há quem diga que esses números são inflados por ideologia, há quem simplesmente diga se não for da minha família, tudo bem.

Na verdade, 100 000 brasileiros levaram com eles uma parte de nossa história coletiva, uma parte de nosso sentir solidário, uma parte da identidade deste país.

Deixaram para trás uma nova identidade que arreganha os dentes, que fuzila com o olhar e que distribui a mancheias doses letais de indiferença.

Pais ausentes que posam em retratos retorcidos de um pobre país.

 

Marta Morais da Costa

Descarte

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Marta Morais da Costa

O dia amanhecera vestido de nuvens cinzentas, pesadas e compactas. O sol continuava adormecido no espaço sideral. Afinal, uma das funções das nuvens é garantir a privacidade do astro. Outra função? Servir de música nupcial quando a chuva convive com ele em dia de casamento de viúva ou de espanhol, a depender da ordem em que algum engraçadinho colocar o par romântico: sol e chuva; chuva e sol.

Em dia nublado, espírito sossegado. No espaço de tempo entre uma demorada xícara de café e um prato de sopa aromática, ela decidiu concluir a tarefa de descartar o conteúdo da caixa organizadora, deformada pela quantidade de fotos, cartas, recortes e um sem-fim de lembrancinhas, acumulada ao longo de anos.

Para bem da verdade, não era a primeira vez que se propunha a dar cabo definitivamente do máximo de coisas sem mais utilidade, guardadas pouco a pouco. Hoje vai, pensou. Já que as providências para o restante do dia já haviam sido tomadas. Já que o tempo com cara de vilão não permitia uma saidinha ao ar livre sem a ameaça de um banho frio e indesejado.

Escolheu o cantinho de leitura: poltrona, almofadas, uma mesa de apoio e todo o material para cortar, picotar, etiquetar, reunir, escrever, separar. De todos os verbos, o que lhe dava maior prazer era picotar. Quem não viveu aquela sensação de limpeza e de dever cumprido, quando descarta o que não lhe serve mais e cria espaços vazios e renovados para receber mais material? Pois é, era assim.

A tampa da caixa já era um vaticínio: sol poente, flores murchas, terra seca e, para arrematar, um solene flamingo cor de fogo. Não dava para fugir daquela sina de destruição. Motivação se faltasse, era só rasgar os olhos em direção à tampa e qualquer dúvida virava fumaça. O odor que atingiu suas narinas tão logo a tampa se deslocou era um pouco do ácido do papel velho, a violência tóxica da última bola de naftalina em um dos cantos, a tinta envelhecida das fotos rosadas, dos tecidos, dos badulaques e do papel jornal dava um toque mais repulsivo à abertura da caixa. A intenção de descarte se fazia um ato de higiene ambiental.

Tal como a abertura rápida, o fechamento da caixa indicava a necessidade de paramentar-se adequadamente. Luvas e máscara vieram completar o arsenal de medidas profiláticas: sacos para lixo, tesoura, aspirador, mãos ágeis, afetos anestesiados, consciência algemada no pila da vontade. Estavam prontos o cenário, os instrumentos e o carrasco para o descarte.

O que leva as pessoas a guardar coisas, carregá-las por anos a fio e depois destruí-las? A necessidade de parar o tempo na forma de objetos? A angústia de experimentar a memória desintegrando-se e, por isso, buscar ancorá-la em coisas? A busca de prender ao coração as pessoas idas e vindas por meio de lembranças palpáveis? O projeto de recomposição de pedaços de vida na velhice, nos tempos ociosos da velhice? A construção de uma herança para os descendentes em formato de documentos de uma fase “meninos, eu vi”?

Não importa qual tenha sido o motivo de construção deste depósito heterogêneo, o fato é que ela se encontra diante de uma caixa que contém o que pôde e quis guardar como testemunhos de um tempo pretérito e violável. A mão caminha entre objetos e papeis, como se os dedos fossem rastreadores e pelo tato reconhecessem os momentos de dor ou de alegria, a identidade dos bilhetes e dos fotografados, contassem a narrativa originária daquele objeto, trouxessem à luz em novo nascimento a flor seca de amores idos.

Aos poucos o corpo em movimento coordenado faz transitar o conteúdo da caixa pelas tábuas, cantos e superfícies do quarto. Fotos de amigos sorridentes, paisagens, monumentos de viagens pretéritas, as faces amadas em desfile fora de cronologia. Rostos envelhecidos precedendo a juventude, o homem maduro não reconhecível na criança que foi, a avó enternecida com o neto e de costas para a  foto da jovem esposa de olhar tímido em vestido de noiva. O fotógrafo sempre um voyeur, fora da foto, presença ausente. Muitas delas recobertas com a neblina rósea dos velhos filmes e das antigas reproduções e seus carimbos invasores a dizer de laboratórios já desaparecidos e só existentes nos guardados de uma vida.

A pilha de papeis, desigual em formato e tamanho, coloca em inesperada posição em cima-embaixo uma profusão de bilhetes, recortes amarelados de jornais, rótulos, bolachas de chope, cartões de visita, convites. O aniversário de um ano do Chico, o casamento do André, a formatura do Guto, a festa das bodas de ouro dos avós, o lançamento do livro da Bia. Como dizia o velho professor de Português, as efemérides, sem se dar conta de que a origem grega significava simplesmente de cada dia, diário, assim sem pompa, sem prestígio, sem diferença do dia de trabalhar, limpar a casa, pagar as contas, comprar batatas e cebolas. Indiferentes à etimologia, lá estavam os convites, lampeiros, exibindo cores e letras especiais, volumosos por vezes, sempre festeiros.

Era nos badulaques que a caixa de guardados mais se exibia. Chaveiros, rolhas, um coração de papier maché, estrelinhas de latão, anéis de coco, o colarzinho de miçangas que Antônia ganhou aos cinco anos, uma enegrecida torre Eiffel daquela viagem desastrada a Paris, um bonequinho de amigurumi prêmio da professora de Artes à melhor performance no canto coral. Ah, e uma medalha de terceiro lugar na natação juvenil, a única ganha na vida de quem poderia ter sido atleta e não o foi. Coisas e casos casados na memória, registros de anos de existência abandonados em uma caixa no armário mais esquecido da casa.

Talvez uma história que quisesse permanecer em silêncio, escritas de um tempo escorrendo para o nada, memórias a comprovar uma vida fragmentada, concreta e mesmo assim esquecível, um passado a querer se presentificar,  mas já deturpado, torto, sem a costura que lhe dê ao menos consistência e permanência.

Recolheu os pedaços de seu passado, desordenados, misturados, destecidos, e os devolveu à caixa. Lentamente passou nela um barbante em formato de cruz, amarrou fortemente. Sobre a tampa colou um envelope endereçado à mais querida das netas, talvez por comungarem  sonhos e temperamento. Dentro um bilhete a ser lido após a morte: “Sílvia, grata por ter plantado em mim a semente do amor sem limites. Peço que, depois que eu partir, você destrua esta caixa e o que ela contém. Voltam a ser apenas coisas sem minha presença viva.  Coisas velhas, sem sentido. Se você as queimar, talvez as cinzas possam reencontrar o pó em que me tornei.”

Lá fora, as nuvens mantinham o sol prisioneiro.

Marcos de uma Estrada Real

Marta Morais da Costa

Ler e escrever. Lire et écrire. Leggere e scrivere. To write and to read. Lesen und Schreiben

Essas palavras que, irmanadas, ecoam uma na outra a sonoridade final ou inicial, não constituem apenas verbos e rimas, mas propõem uma aliança  que seus praticantes recusam a desfazer. Leio para bem escrever. Escrevo para melhor ler. Qual dos dois, tal o enigma infantil – e transcendental – da galinha e do ovo, está na origem, é o momento inaugural de uma trajetória em códigos, textos e suportes?

Em décadas recentes, vozes que procuram atestar a importância dessa dupla ação física e intelectual povoam páginas impressas ou digitais. As opiniões, as definições, os depoimentos e as tentativas de descrição invadem a cultura em seus mais diferentes ambientes: a oralidade, o público massivo, a erudição mais refinada. 

Escritores no Brasil espalham-se pelos mais diferentes canais, códigos, plataformas e suportes. A cultura vê-se invadida por uma produção que parece fazer submergir os leitores e emergir escritores em cada canto, fresta e desvão deste país. Talvez seja um auspicioso sinal de um povo em necessidade premente de expressão pessoal. Talvez seja um sinal de um povo em desvio inconsciente da aprendizagem provocada pela leitura: escreve-se mesmo sem amadurecer leituras. Ou talvez a enxurrada de novos textos e nos mais variados suportes comprove que o nível intelectual de um povo talvez possa ser medido não pelo que se lê, mas pelo que se escreve. O que jogaria ao mar todas as pesquisas que achatam nosso orgulho nacional quando os brasileiros participam de concursos ou competições de leitura, compreensão e reflexão a partir do que leem, como o PISA, o Enem, o ENADE.

Sônia Rodrigues dedica um livro à descrição e à análise do RPG – ou seja, do Roleplaying game – um jogo alicerçado em personagens e enredo, arquitetado pelos jogadores ao jogar. O título é “Roleplaying games e a pedagogia da imaginação no Brasil”. Duas afirmações da autora chamaram-me a atenção. Eu as reproduzo para poder comentá-las.

A primeira delas afirma categoricamente que “Uma criança ou adolescente narrando histórias só com o auxílio de sua imaginação, sem repertório ou iniciação, está fadada a propor enredos pobres.”  (RODRIGUES, 2004, p.137). Não posso fugir a uma associação com a escola. Professores almejam que seus alunos sejam capazes de produzir textos denominados pela pedagogia do engano de “criativos” sem a devida preocupação com “repertório e iniciação”. Temas livres, redações de supetão, textos de baixa paródia, chavões, lugares-comuns, banalidades e trivialidades colocadas no alto do pódio da avaliação, como se fossem o suprassumo da capacidade expressiva dos pobres redatores iludidos.

E sabemos que não apenas a escola valoriza este campeonato de trivialidades narrativas ou poéticas. As estantes e os e-readers acumulam textos que não passam de um amontoado de clichês, de desabafos, de falsa espontaneidade em forma de narrativas (como as biografias de anônimos em busca da celebridade, de narcisos desejando que a água se transforme em espelho, de preferência com gambiarras de LED).

É verdade que aprendemos muito ao reconhecer e aplicar modelos, padrões, exemplos. Mais rapidamente aprende a ler quem tem em sua vida exemplos de leitores. A família, os professores, os amigos, um vizinho, um ídolo do cinema ou da música, alguém que leia e divulgue a leitura será sempre um indutor de leitores, um formador de leitores. São círculos concêntricos dentro das águas da cultura.  Mas “sem repertório, sem iniciação…os enredos serão pobres.” Seria como se o mundo começasse repetidamente da fase zero. Seria como se, em termos de leitura e escrita, o aprendiz estivesse sempre retornando ao período anterior à criação dos sumérios. O repertório criado pela história dos textos, o leitor-escritor que tem conhecimento ao menos de parte desse percurso, está melhor equipado para ler e escrever. Mesmo que posteriormente venha a se insurgir contra padrões e exemplaridades. Os pioneiros serão marcos inamovíveis da Estrada Real da leitura e da escrita.  

A segunda afirmação adota outra perspectiva: “Escreve o leitor que se arrisca à exposição. O leitor que não teme (em excesso, pelo menos) a rejeição ou aquele que precisa da companhia, do aplauso, da apreciação de alguém que o leia.” (RODRIGUES, 2004, p.185). Quando me deparei com esta frase, entrei em grave crise identitária. Escrevo há muito tempo com a ingênua intenção de expor ideias, preferencialmente. A forma reflexiva do verbo (expor-se) passava ao largo de minhas modestas pretensões. Mas aprendi que a linguagem é um confessionário ou um divã inescapável. Ao expor me exponho.  Nem Pablo Neruda com sua definição objetiva e professoral de texto  (“Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca ideias.”) me propiciou alívio à crise.

Talvez uma visão cética como a de Carlos Drummond de Andrade pudesse aquietar-me: “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”. Materializar dessa forma a escrita, pensar apenas como um preenchimento de lacunas espaciais, como um quantitativo de linhas e volumes talvez pudesse retirar da escrita o peso da exposição da identidade.

Argumento enganoso! A escrita, mesmo de uma crônica desengonçada e despretensiosa sobre ler e escrever como esta, pode corroborar a visão de Elvira Vigna: “Quando escreve, você não fica igual ao que era antes. Você se modifica. Tem que pagar esse preço, de saber que você vai ficar diferente.”

 

Foto por Pixabay em Pexels.com

Neste período de epidemia – que se faz longo, além de qualquer expectativa – em que fomos encerrados por força de um vírus em nossas casas e em nós mesmos, quantos não deram início à leitura ou à escrita? São tantas as demonstrações livrescas (jogos, gincanas, declarações de amor, bibliotecas como pano de fundo de lives, crescentes vendas eletrônicas de livros, ebooks e audiolivros) que formam um lastro de euforia em educadores e promotores de leitura. Talvez seja apenas um fenômeno pandêmico que cessará com a chegada de vacinas anti-leitura.

Também a escrita se derrama em páginas, sites, blogs, mensagens, diários. Não necessariamente uma escrita literária ou estética. Mas algo como uma via de expressão a mais na sociedade tão afogada por palavras escritas. Mas a escrita, seja destampatória ou exercício, traz novidade para uma cultura avessa a textões e a qualquer papel que lembre, ou exija, o trabalho de ler.

À espera da vacina, à espera das transformações, à espera de outro olhar da sociedade para a escrita e a leitura, continuarei nesta cidadela, acreditando na resistência de seus muros feitos de livros e de suas janelas feitas de escritas. Talvez nada do anunciado “novo normal” se cumpra. Faz mal, não. Perder batalhas, perder a guerra, perder o juízo e até a própria história são fatos da vida. Nem sempre é possível nesta jornada sobre a Terra exclamar “veni, vidi, vici”.

Mas será sempre possível dizer, em latim ou em português, ego vivo, eu vivo, continuo viva.

Obs.: Esta é uma nova versão de um texto que publiquei em novembro de 2017. São dois anos, oito meses, milhares de páginas e uma epidemia de diferença entre aquela data e esta publicação. Algumas ideias e citações permanecem. Outras foram acrescentadas ou intensificadas. O propósito central permaneceu: tratar da relação entre leitura e escrita, porque continuo acreditando que essas duas ações fazem a diferença no mundo e na vida. Salvacionismo? Talvez. Eu diria antes que é um manifesto, um protesto e uma constatação.