AMOR

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                                        Marta Morais da Costa
 
Julgava o amor
voraz sentimento tirânico,
avalanche, tsunami,
catástrofe bem-vinda,
êxtase devastador,
raio beta radioativo.
 
Tropecei e despenhei-me na própria ilusão.
 
Amor chegou de mansinho,
pouco a pouco, sadio
e melancólico,
inseguro de si  e míope.
Não lamentou suas deficiências,
instalou-se em mim
como velho inquilino,
cobrou seus direitos, não pagou suas dívidas,
comeu, bebeu, dormiu
e esqueceu-se de partir.
 
Até hoje mora comigo,
acomodado e sorumbático.
Por causa dele sobrevivo
a sonhar loucuras impossíveis,
Sancho Pança, algemado
a normas e crenças.
Sem batalhas, sem medalhas,
feliz em minha limitada mediania.

DISTÂNCIAS

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                                                                                Marta Morais da Costa

Passou o tempo da vida
a medir distâncias.
 
Entre a brincadeira e o trabalho
entre o estudo e a aprendizagem
entre a saúde e a doença
entre o ser, o estar e o fazer.
 
 
Os cálculos mediam
quase tudo o que limita.
Arriscavam, porém,
inoperantes e imprecisos,
quase tudo o que amplia.
 
Os números descreviam
fatos, emoções, expectativas.
O que comia e vestia,
o que ganhava e dispendia,
os ardores dos desejos,
o tamanho da solidão,
o percurso dos sonhos.
 
A conta mais inevitável, porém,
ficou inexata e incompleta:
não conseguiu numerar
a distância inapreensível
entre o surgir e o dissolver,
entre o que foi e deixou de ser
entre o que viveu de verdade
e o que ficou inalcançável.
 
Conta fechada pelo cálculo
imensurável da morte.

De manhã, todos os dedos são parvos.

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Marta Morais da Costa

Noite tranquila de sono, para ele, é de quatro horas. Em outras, o rolar na cama tem oito horas de insônia. Você precisa dormir, descansar, o médico recomenda, a revista de saúde confirma, a mãe adverte. Quem diz quê? Deitar a cabeça no travesseiro é incendiar o cérebro de medos, dúvidas e lembranças angustiantes. Dorme, infeliz! As pálpebras pesam, o corpo dói. É estresse, o amigo define e recomenda: beba mais água, não tome café, faça apenas um lanche à noite, frutas, nada de biscoitos ultraprocessados. Tentativas não faltam, a fome aperta lá pelas duas da madrugada. Jura que não vai assaltar a geladeira, vira pro lado, os olhos estalados, a cabeça dói. Mas não levanta.

Aquele compromisso das oito da manhã agita o sono que se afasta para Marte. Odeia Morfeu principalmente o com braços: quem inventou a expressão foi alguém que dormia doze horas ininterruptas. Nem Morfeu lhe faz carinho, abraça, sussurra palavras doces, convida para a cama, embala seus sonhos. A cabeça em curto-circuito, os olhos doem: vai chegar um lixo no escritório, já está se vendo, olheiras, mau hálito, cabelo que nem gel consegue domar, pernas pesando arrobas. E o mau humor? Daqueles de morder, ranger dentes, unhar borracha e trocar as letras do teclado. Tomara que o chefe tenha outro compromisso e adie a tal reunião.

Abre o computador, a internet deu pau novamente. Toca chamar o Ângelo da TI pra dar uma olhada na máquina. Pega o telefone e descobre que a telefonista da recepção não veio nesta manhã: o filho está com infecção na garganta. Qual é mesmo o ramal do Ângelo? Cara, tu pode vir aqui no almoxarifado ver o que aconteceu com minha internet? Tá descendo? Te espero, vem logo. Onde coloquei a planilha do Excel pra reunião de hoje? Em que pasta? Não consigo me organizar com este peso na cabeça: parece ressaca. Será que o chefe vai pensar que andei tendo uma noitada daquelas? Só me falta uma advertência na ficha. Logo agora que arrumei este emprego, depois de dois anos de bicos e falta de grana! Ah, Ângelo, vê se dá um jeito nesta internet, preciso buscar umas informações na rede.  Acho que uma máquina nova iria bem, Alfredo. Esta aqui já foi bem usada e tá precisando memória, fazer umas atualizações, substituir a placa-mãe e uma pá de acessórios. Melhor pedir uma nova. Ângelo, tá louco? Mal entrei na empresa e vou pedir uma nova? O que o chefe vai pensar de mim? Posso fazer isso não. Não esquente, Alfredo, eu falo com o Artur: ele vai entender o problema, deixa comigo.

O telefone toca. É a secretária do Dr. Artur avisando que a reunião foi adiada para a tarde. De repente lembrei a pasta: a do Arquivos Provisórios. Ufa! Como é, Ângelo, vai dar para usar a internet hoje? Espera um pouco, acho que sim, vou tentar este atalho…

A cabeça começa a clarear, o resto do corpo pesado, um fio de pensamento se forma. Nada a ver com trabalho. O sol é de praia, o barulho é de onda quebrando, o corpo curvilíneo ao lado é de Adriana, o cheiro é de bloqueador solar, a toalha suja de areia. Tem um mês atrás, no feriadão, a gente numa boa, cerveja e moleza.  Tá pronto, Alfredo. Vai dar pra usar a conexão, mas o computador logo vai falhar. Use enquanto der. Vou ver se arrumo outro para você. Legal, Ângelo. Tu é um bom amigo.

Da janela aberta  entra a luz do sol e do barulho da rua vem o dia que começa na cidade. Corpo cansado, olhos fechando, a cabeça a voar por lembranças associadas: vontade de casar, vontade de mudar de cidade, vontade de sair da casa dos pais. Nem adianta ter vontade: adiantaria se tivesse a grana para tudo isso. Preciso recuperar a planilha, vai que o chefe me chama. Os dedos não obedecem ao comando. As letras dançam, difícil segurá-las em um espaço flutuante. Calma, vai com calma, Alfredo. Respira, toma uma água. Melhor se fosse café. Boa ideia! Vai até a máquina de café na sala, tira um expresso, corto, denso. Agora vai acordar.

Volta à sua mesa, retoma a procura. Digita, erra, digita, acerta. Erra de novo. A planilha não está nos “Arquivos provisórios”. A cabeça volta a doer. Pesquisa, vai de pasta em pasta. Nada. Saídas, Entradas, Correspondências, Atas, Reuniões, Código de Conduta da Empresa, Editais. Nada. Última pasta. Diversos. Lá está a planilha! Salvo! Vou copiar e salvar em várias pastas, por enquanto. Os dedos tropeçam, os comandos se confundem, a planilha some. Ângelo! Ângelo! Por favor, venha rápido aqui, preciso recuperar a planilha! Maldita insônia! Se eu perder este documento… A cabeça pesa. O corpo tomba na cadeira. As pálpebras se colam. Talvez uma soneca…

O chefe entra na sala, inesperadamente.

A janela aberta

Marta Morais da Costa

Em frente ao teclado e à tela abre-se a ampla janela. A cabeça cede à urgência da escrita. À revelia dos comandos, a crônica nasce contestadora.

Eu queria escrever sobre a descoberta desanimadora de que quatro milhões e seiscentos mil brasileiros não quiseram ser leitores, segundo a recente edição do “Retratos de Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e o Itaú Cultural. Mas lá fora o sol ilumina a paisagem e impõe um desejo de sair, passear, encontrar a natureza.

Eu pensei em escrever sobre o processo de desertificação em curso no Brasil e na absoluta irrealidade em que vivem brasileiros e, em especial, os comandantes desta casa incendiada e desarvorada. Mas a janela aberta deixa passar uma brisa cálida e terna que abraça o corpo e o deixa acarinhado.

Preciso escrever sobre os mais de 137 mil brasileiros enterrados e silenciados por abandono e descaso neste país negacionista e cruelmente anti-solidário. País de festas e bares, de praias e inadiáveis compras. Um país em que as máscaras não são de pano nem de acrílico, são naturais e procuram disfarçar a hipocrisia. Mas através da janela descubro um ninho de pássaros na árvore da calçada, a me avisar que ainda há vida que vale a pena lá fora.

Estava em minha pauta escrever sobre o acobertamento da corrupção mais a roubalheira do dinheiro dos pagadores de impostos – pesando na cesta básica e no churrasco domingueiro, porém o caviar fica de fora. Neste país em que, podendo, muitos não se furtam em roubar e desmentir. Mas o esplendor das flores no jardim, anunciando a presença de mais uma primavera, capturam meus olhos com brilhos e cores e formas e beleza.

Eu preciso escrever sobre La Niña, sobre as crianças sem escola, sobre os adultos sem futuro, sobre a seca a mostrar arreganhada a terra em mosaico arenoso. Mas ao longe descubro um menino ciclista, a desafiar a gravidade e os cuidados maternos, e a fazer girar as rodas de sua nave espacial, sonhando com viagens sem tempo nem destino.

Eu queria – e precisava- escrever sobre a solidão, o medo, a dor da ausência, a vida parada no relógio e na folhinha, as frestas de esperança com a possiblidade de uma vacina, venha de onde vier. Vacina que dói em minha alma brasileira, ao saber que a nossa ciência está quase tão destruída quanto a imagem deste país entre nós e entre os outros. Mas o tempo da escrita pode ser um bálsamo momentâneo.

A janela aberta deixa passar os sons de uma música longínqua a falar que “felicidade é como a pluma/ que o vento vai levando pelo ar./ Voa tão leve/ mas tem a vida breve./ Precisa que haja vento sem parar.”

Deixo teclado, tela, computador e crônica em suas possibilidades e concretude. Vou até a janela reverenciar este breve momento de felicidade.

Foto por Alessio Cesario em Pexels.com

Noites de lua cheia

Foto por David Besh em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Noites de lua cheia costumam guardar surpresas e desconfortos. Que poder tem a lua sobre as expectativas humanas e o bem estar das pessoas? Uma hipótese: a luz que afasta a noite e quase traz de volta o dia aviva a sensibilidade. “Venha ver, fulano, que lua!” “Peraí, deixa eu pegar o celular…” “Que foto! Vai lá pro face!”, “Lindaaa!”

É nos olhos voltados ao alto que a lua se mira. Sou seduzido pela aura romântica e me contenho pra não tascar um beijo na minha ex,  tão longínqua ao meu lado. Ah, o jantar! E o vinho, então? A luz da lua clareou-me:  tudo armação pra me fisgar outra vez, conclui um pequeno lúcifer cerebral. Fecho os olhos, apago a lua e volto a meu lugar na mesa e ao meu prato perfumado pelo alecrim e colorido pelos acepipes.

Acepipe? É o vinho novamente. Emerge num clarão o verso drummondiano: “mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo!”. Taí: um leitor não cai tão fácilmente na rede de intrigas. Na verdade, ele cai mais facilmente das nuvens do que do terceiro andar. Agora baixou o irônico Machado. Vou parar, antes que a biblioteca comprima um pouco mais o que sobrou de meu cérebro.

As noites costumam pregar peças cômicas de um ato ou originar uma imensa tragédia em cinco atos, prólogo e epílogo! Acima de tudo, elas carregam em seu útero medos e mortalhas, luzes e solidões. A noite chega e os mistérios se expandem.

Experimente, leitor, marcar um evento qualquer enquanto o sol aquece e os pássaros cantam. E marcar o mesmo evento nas horas em que as galinhas dormem. Casamento, por exemplo. Uma amiga de muitos anos casou de manhã. Os convidados chegaram atrasados, com cara de despertador e boca de café tomado às pressas. Nem o almoço prometido e avisado botou o ânimo pra cima. Ao contrário: os convidados comeram e voltaram pra casa rapidinho, pra terminar o sono interrompido. Nem mesmo as crianças se divertiram. Pensavam brincar antes dos comes, mas os pratos corriam o risco de esfriar. Esperaram brincar depois dos bebes, e os pais se mandaram para o lar aconchegante.

Ah, mas casar à noite tem mais encantos! Dorme-se à tarde, come-se um lanche, porque o jantar vai demorar infalivelmente. Dá tempo de deixar o terno impecável, de escolher a gravata, de combinar sapato e meia. A acompanhante passa o dia no salão e retorna irreconhecível! As crianças ficam elétricas, energizadas pelas expectativas da noite sem hora pra acabar. Até o branco do vestido da noiva fica mais branco! E o futuro maridão adquire uma respeitável face responsável (mesmo que a festança depois acabe por fazê-lo parecer um adolescente cheio de malícias e vontades).

Casar à noite tem a ver com pecados supostos e cenas eróticas ardentemente entrevistas e desejáveis: e não penso apenas nos noivos. Os convidados, movidos pelo mito das cinderelas e príncipes guerreiros, parecem prometer cenas das mil e uma noites em curtas passagens por camas burguesas. Ah, casar à noite é pedir luas cheias, brilhos nos olhos, surpresas e armadilhas…

Lembro-me, antes de beber mais um copo de vinho, que me casei em noite de Superlua. Deu no que deu. Continuo a fazer fotos para o face e nem vejo a face da ex, obnubilada pelo porre homérico em andamento.

A vida, triste quimera, devora com suas cabeças horrendas qualquer frágil vislumbre de felicidade existente neste solitário descasado. Antes que meus olhos se fechem para o clarão da lua, lembro mais uma vez a esplendorosa noite de verão, o céu estrelado, a brisa suave, sons de valsa nupcial e uma enorme bola de prata a sorrir cinicamente lá no alto.

O que será, será.

                Marta Morais da Costa

Pensar era atividade para a qual nunca tinha tempo. Melhor não pensar e deixar que os outros lhe dissessem o que fazer. Como resolver os problemas. As atividades do dia seguinte.

Já na infância havia descoberto que o pensamento próprio pode trazer problemas. E que sempre é pura perda de tempo. Na escola, toda vez que o professor pedia uma solução, uma comparação ou argumentos, ele se fazia de ausente, escondia-se atrás dos colegas, copiava descaradamente as respostas – em livros ou nas provas dos vizinhos. É verdade que poucos professores na época pediam aos alunos que pensassem. Achavam que era melhor só ter respostas iguais às palavras dos livros. Sem mudanças.

Em casa, nem precisava ficar se escondendo. Os pais determinavam, mandavam, exigiam. Era só obedecer. Sem reclamar. Fazer sem saber porquê. Não ter respostas e não reclamar. A vida seguia tranquila desse modo.

Assim, já adolescente, esperou que os pais resolvessem se continuava a estudar ou iria trabalhar na oficina mecânica do Deco. Foi trabalhar. Até achou bom: teria dinheiro para as matinês, para as balas azedinhas, e, futuramente, para o cigarro.

O pai é que tinha ambições: queria ver o filho logo, logo longe da oficina. Quem sabe ser office-boy no banco ou no escritório do Dr. Darcy. Podia ser um bom começo. E obedecer era uma das qualidades do seu menino.

A mãe sonhava com netos e um a menos na casa, para aliviar o serviço. Não perdia a oportunidade de chamar a atenção do filho para as garotas que desfilavam pela calçada. Elogiar a Maria pela beleza, a Dalva pela elegância, a do Carmo pelo recato e pela religião. Quem sabe ele não poderia ir até elas, fazer um elogio, puxar conversa? Afinal ele já tinha um emprego, estava quase na idade de casar. Contando o tempo de namoro e de noivado, ia estar bem na época de assumir uma família.

Convencido pelo pai, arrumou emprego no escritório. Descartou o banco porque para os números da matemática precisava pensar. E Dr. Darcy só queria que ele fizesse coisas e não pensasse.

Um dia, esbarrou na Elaine: foi olhar e gostar. Ela pediu para casar em maio, mês que achava lindo demais para usar branco e um buquê de flores. Também escolheu a casa, decidiu sobre os móveis e bateu o pé para que ele usasse um terno de linho azul marinho no casamento.

A festa ficou por conta dos pais dela e dos pais dele. Só precisou dizer o sim. Era o que tinha de fazer e fez.

Os filhos vieram, mudou de emprego, foi um funcionário padrão, deixou a educação dos filhos por conta da Elaine. Os dias eram iguais. Às vezes a mulher resolvia que deviam ir para a praia: ele cuidava do carro, juntava dinheiro para as despesas, embarcava a família e desciam para o litoral. Subiam de volta, sem o dinheiro, com a pele corada, os meninos amuados e a mulher sorrindo. Até a próxima viagem.

Os anos não mudaram o homem que não gostava de pensar. Nem quando baixou ao hospital com um câncer no rim pensou que poderia morrer. Tudo se resolveria bem. Porque o médico disse que logo ele estaria curado. Não se curou.

Pouco antes de falecer, pensou na vida tranquila que havia levado, nos filhos criados e na mulher, ainda bonitona, que iria deixar. Como um raio, pensou: e se a vida tivesse sido diferente?

Não deu tempo de responder. Fechou os olhos e se deixou ir. Tinha certeza que a mulher haveria de cuidar bem de seu enterro.

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Banalidade

Marta Morais da Costa

“a banalidade do Mal” (Hanna Arendt)

No silêncio compactuado
da sala de reuniões,
ele habita.

Nos conchavos ardilosos
a farejar recompensas pessoais,
ele viceja.

Na concordância bovina
ao abuso dos desmandos ,
ele fermenta.

Na passividade do lar,
na presença doméstica do medo,
ele amadurece.

Nos sabujos sem cérebro
a exaltar a imbecilidade,
ele ceva e cega.

Esse mal, disseminado e sutil,
igualmente habita em mim
e me paralisa.


Seis meses e meio propósito

Marta Morais da Costa

Resolvo que vou resolver tudo o que está em atraso. Daí resolvo que as resoluções são complicadas, porque nem tudo dá pra fazer à distância. E deixo pra depois das quarenta semanas.

Resolvo que vou limpar novamente a casa, aquela geral que antes a gente só fazia no Natal ou na véspera do aniversário. Daí resolvo que estou mais é com vontade de ver um filme, mesmo que seja classe B.

Resolvo que vou fazer dieta porque nem as roupas do tempo em que bati recordes na balança conseguem fechar zíperes, colocar botões nas casas correspondentes, enfeitar-se com cintos sem precisar novos furos. Daí resolvo ir pra cozinha fazer aquela moqueca caprichada, camarões saltando da panela e das moquequeiras por falta de espaço; molho em cascata dendezeira a inundar os pratos e aquela porção de farinha que só os antigos moinhos ainda produzem.

Resolvo que vou escrever pros manos que andam recolhidos e preocupados com filhos e netos, como eu e como a maioria das mulheres que levam a sério a maternidade e a netoposteridade. Daí resolvo que mandar uma mensagem de voz pelo whats é suficiente.

Resolvo que vou entrar no face pra saber dos amigos, mandar mensagens e responder a todas as postagens. Daí resolvo que ando meio cansada da publicidade que inunda a plataforma e que é melhor deixar quieto.

Foto por Eternal Happiness em Pexels.com

Resolvo que vou começar a fazer uns exercícios de alongamento, tipo terceira (melhor, quarta) idade e preparo halteres com garrafas de água, elásticos, um cabo de vassoura, uma esteirinha chinfrim e boto aquele Adidas meio velhinho pra poder me esbaldar sem comprometer as costuras. E aquele tênis Reebok crossfit abandonado. Daí resolvo que sem personal não dá pé, nunca vai dar. E depois até o ar anda rarefeito; com certeza terei tonturas.

Resolvo que vou ler aquele volume do Philippe Ariès, “O homem diante da morte”, de 837 páginas que me fita descaradamente lá da estante, me desafiando e me chamando de covarde porque não quero enfrentar o tema (ou como diriam os jornalistas e comunicadores que tratam a língua portuguesa a chicote: “enfrentar de frente o tema”). Sem querer dar o braço, o pé e a cabeça a torcer, reconhecendo um pouco de verdade no desafio, resolvo que primeiro preciso ler aquele volumezinho do Robert Musil, “Sobre a estupidez”, de 62 páginas, porque irá me permitir entender melhor o Brasil neste excepcional momento histórico. Planejo ler Ariès depois da vacina…

Resolvo que é melhor seguir Voltaire e Luciene e “cuidar de meu jardim”. Programo o passo a passo de minha ação: podo, planto, mudo, adubo, contrabandeio a água racionada, pinto os vasos e reforço a composteira. Daí resolvo que é melhor deixar por conta do jardineiro. Afinal, de meus avós e bisavós lavradores herdei um nome honrado e o desejo de me mudar para a cidade grande.

Resolvo que vou dar um rolê com meu carrinho que precisa esquentar o motor, movimentar a gasolina do tanque, por a bateria pra funcionar, aquecer os pneus e tomar um banho de sol. Irei só até o limite de meu bairro, entro no retorno e volto pra casa. E se o corona estiver me esperando na esquina? E o tal de por a máscara, tirar os sapatos ao voltar, lavar pela duocentésima vez diária as mãos com aquele sabão mal cheiroso? Daí resolvo que não terei tempo, porque ainda não li os dois jornais diários e aqueles sites especiais de cultura e me sentirei desatualizada. Provavelmente o remorso não me deixará dormir à noite.

Resolvo que depois de seis meses reclusa, qualquer resolução perdeu o sentido. A vontade e o pensamento tornaram-se prisioneiros da sobrevivência. Sem resiliência, sinto-me um legume (sem querer ofender os vegetarianos). Sem desejo de aventuras, sinto-me um cão treinado (sem ofensa aos amigos dos pétis). Sem horizontes e sem poder gritar meu horror e minha discordância, sinto que a cidadania morre um pouco a cada dia.

Nem sei se a escrita ainda pode me socorrer.

Consultório editorial

Para Júlio,

Célia Cris e

Cristiane,

editores, por ordem de entrada em meu afeto.

Marta Morais da Costa

Minha mesa de trabalho é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Papéis de todos os formatos, em blocos ou avulsos. Textos fotocopiados e encadernados com capas de muitas cores, espirais, grampos e prendedores em busca de publicação.  Livros impressos – alguns bem mal impressos – de diferentes espessuras, de formatos os mais estapafúrdios – muito grandes, diminutos, redondos, com ou sem vazados, em tecido e plástico ansiando por reedição. Dentro deles, ilustrações que vão do desenho medíocre ao regular, do figurativo ao geométrico, da escola de Da Vinci à de Romero Brito, de Janjão das Contas  a Mariazinha de Belém. Enfim, a mixórdia habitual da mesa de um editor de literatura para crianças.

Esqueci de incluir nessa mesa a pasta de correspondências. Cartas em papel, algumas até manuscritas! Nela, também a imensa variedade das escolhas humanas. Cores diferentes, tintas e fontes diversas, com ou sem logos, monogramas, stickers, adesivos, etiquetas, ilustrações e cartões de visita… Uma delas trouxe a foto do remetente; outra, uma flor seca colada em papel perfumado.

Enfim, minha mesa é a oficina do Ão, do Cujo, do Sem Nome. Não pelo contém, mas pelo que o material me obriga a fazer: destruir, ignorar, renegar, recusar, mandar procurar outra turma. Os raros sins implicam ainda muito trabalho: sugestão de correções, alterações, novos títulos, cortes na abundância de adjetivos, na sobra de preposições, na obesidade dos verbos. E a pontuação! É tanto erro que repasso a tarefa ao revisor, porque é paciente, minucioso e calado.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Eu poderia responder às cartas que me pedem edição de originais com respostas-padrão. “Lamento, mas nosso catálogo está completo para este ano.” “Lamento, mas seu original não atende a linha editorial.” “Lamento que, apesar da qualidade de seu material, não temos interesse em publicá-lo.” E assim por diante.

Poderia fazer assim. O capeta, porém, mora em mim. Respondo individualmente e em consonância com as mensagens enviadas. E não dou ponto sem nó. Explico-me melhor. Suponhamos que recebo um original, cujo autor me escreve um pedido nos seguintes termos:

“Senhor Editor”, (muitas cartas começam assim, no masculino predominante e em maiúsculas para afirmar minha autoridade e meu poder, penso eu) em anexo envio um original de minha autoria, dirigido ao público infantil. Sei que sua renomada editora… (“renomada” faz parte do puxa-saquismo nacional!)… busca novos autores e, por isso, tomei a liberdade de enviar-lhe meu original. É uma história de amizade, fraternidade, solidariedade e devotamento… (ufa, ainda bem que me poupou de mais um –ade!)…entre dois animais: um urso e uma arara…(ops, se encontraram onde? Em um zoológico multiambiental , tipo do gelo aos trópicos?) … que representam um adulto e uma criança,… (É evidente que o urso não é quem representa a criança!) …capazes de interagir e se compreender, anunciando no final feliz a possibilidade de um futuro melhor para a humanidade!!!(devo comentar na resposta esta  missão impossível? ainda mais com três exclamações?) Aguardo uma resposta afirmativa e…(por que os autores veem o mundo editorial como a Grande Mãe ou o Asilo dos Escritores?) Desejo-lhe uma boa leitura. (Meu Hades, já prevejo o que ela imagina ser uma boa leitura!). Atenciosamente, Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, a Esperançosa. (corações, beijinhos e flores de gosto duvidoso em stickers…).

Resposta do editor (no caso, eu, mulher):

Prezada senhora Maria Fernanda da Silva Gaspar de Oliveira, (a ironia do adjetivo serve como anestesia para a cirúrgica amputação que segue) em resposta à sua elegante cartinha (mais hipocrisia) comunico-lhe que o mundo cor-de-rosa de seu urso e de sua arara não tem igual no Universo. Ocorre que esta editora tem uma linha de publicações que considera os leitores-crianças seres inteligentes e não criaturas dóceis que engolem qualquer historinha insossa e previsível, como a sua.

Cordialmente, (mais hipocrisia)

Mariana Morais Miranda Guerra.

Aqui, da mesa do Ão, em 18 de abril de 2018.

Admito que minha editora tem um catálogo reduzido. O trabalho, porém, jorra inesgotável de minha mesa. Estes olhos míopes tendem a fechar-se na altura do primeiro terço dos originais. Aos poucos, surge um sufocante nó na garganta.  É sinal inequívoco para interromper a leitura, porque os neurônios se movem adoidados, sem rumo e em revolta. Meus Campos Elíseos! Por que autores de livros para crianças se parecem a Torquemadas, prontos a jogar em fogueiras os indefesos pequenos leitores pelo crime de quererem arte  e não sermões? Literatura e não exercícios narrativos autoritários, recobertos pelo mel das boas intenções? Se as crianças que esses escritores concebem são o futuro deste país, pobre Brasil!

No entanto, como boa capeta, sou uma editora de princípios. Somente entra no catálogo o texto que ocupar um espaço de provocação. Não sou de Guerra à toa. Não me dobro a mistificações ocultas sob o manto subversivo da literatura. Uau, esta frase ficou retumbante! Vai para a legenda abaixo do logotipo da editora. Acompanhada de uma vibrante chama vermelha. Ops, estereótipo não!

Uma ideia melhor clareia meu propósito. Na logo, colocarei a imagem estilizada de minha mesa editorial e um lema em latim caprichado para criar uma aura de distinção: Ipsa littera potestas est. (Por sugestão do revisor de texto paciente, minucioso e quase calado, esclareço que o lema quer dizer: A letra é poder.). Ficou meio sem graça, não é? Acho melhor não traduzir. Assim não trairei a aura da erudição. Ocultarei este parágrafo do revisor de texto paciente, minucioso e crítico.

Desperto da derrapagem.

Num canto da estante, poucos originais à espera de uma segunda leitura. Ao lado da mesa, uma fragmentadora de papeis.

Adendo 1: Este texto foi publicado no site da Editora Olho de Vidro em 16 de março de 2018. Eu o retomei, fiz algumas alterações e o republico porque gosto muito dele. Espero que meus poucos leitores não me abandonem de vez em razão de eu estar me repetindo, fazendo replay de mim, incapaz de escrever algo original. Tenho que reconhecer que talvez estejam certos.

Adendo 2: Por indicação do Marcelo del’Agnol, esta curta crônica me levou ao livro “A arte de recusar um original”, de Camilien Roy, que gostei demais de ler e com o qual me diverti muito. Nele aprendi novas técnicas de dizer “não” a qualquer escritor. Já estou preparada para criar uma editora, já que o trabalho de escritora fracassou ao me levar a redundâncias e autoplágios.

A solidão da mais alta prateleira

Foto por Film Bros em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Em obra sobre livros e bibliotecas, encontrei uma poética imagem de Lorde Macaulay sobre o sentido atribuído ao estado e à posição de certos livros na estante: “a poeira e o silêncio da mais alta prateleira”. Pensando em paredes cobertas de volumes, algumas somente alcançáveis por banquetas ou escadas, e refletindo sobre os valores que nos levam a organizar e dispor os livros num lugar determinado, escolhendo para eles tal ou qual companhia na estante, percebo o quanto de nossas transformações ao longo da vida se refletem nas bibliotecas que temos ante os olhos. Como os organizamos? Por assunto, época histórica, cor, ordem alfabética, gênero, coleção, tamanho, importância afetiva? Ou mais excentricamente ao sabor do acaso e do tempo em que foram lidos?

Quero convidar o leitor a pensar no exílio a que destinamos os livros de nosso acervo bibliográfico ao colocá-los nos lugares mais inacessíveis aos olhos e às mãos. Não penso num acervo extraordinário, como o de José Mindlin, nem numeroso como o das bibliotecas universitárias ou públicas. Basta pensar o que nos leva, diante da necessidade de escolher entre os livros que ficarão em fácil acesso e aqueles que ocultamos do olhar em prateleiras mais altas, ou em caixas depositadas em sótãos, ou em depósitos pouco frequentados da casa.

Que livros escolhemos para deixar ao alcance imediato da mão e à localização rápida do olhar? Por que relegamos aos cantos de prateleiras ou aos lugares de mais difícil acesso este ou aquele volume? Que critérios definem a visibilidade e a possível leitura, ou releitura, de um livro?

Começo uma possível justificativa pela suposição de que se encontram acessíveis os livros mais usados e/ou os mais amados. Utilidade e amor não estão necessariamente relacionados. No magistério, talvez eles vivam uma relação de constante confronto. Não uso em minhas aulas os textos de que mais gosto ou, em situação mais dramática, os livros que mais uso não são os de que mais gosto. Na primeira situação, vigora a censura de toda ordem (ideológica, moral, pedagógica, estilística). Na segunda, o conflito e o contraste: entre o que ensino e o que me interessa ler há um inescapável e definitivo divórcio. O perfeito casamento da utilidade com o gosto e o amor depende de tantas variáveis quanto em qualquer relacionamento entre seres humanos. Afinal, o livro também pode ser considerado, em metáforas humanizadas, o amigo, o companheiro, o confidente, o vilão, o inimigo…

Além da incompatibilidade, relegamos para a prateleira mais elevada os livros que, um dia, estiveram ao alcance da mão simplesmente porque hoje somos leitores diferentes. Ou aqueles que foram um erro de aquisição, mas dos quais não nos apartamos mesmo assim. Ou aqueles com os quais nos presentearam em absoluto desacordo com o que pensamos ou queremos ler, mas nos lembram pessoas ligadas indissoluvelmente à nossa história. Ou aqueles que em sua forma menos amorosa já lemos, mas sobre os quais não prevemos a mais remota possibilidade de nova leitura. Livros que deixaram seu silêncio original, passaram pelo processo de leitura e voltaram a um silêncio diferente, o do abandono. E ficaram a acumular a poeira do esquecimento e da solidão. Papel encadernado e desenhado, agora inútil e desdenhado.

Gostaria de imaginar para esses livros uma leve esperança: a de que eles tenham sido colocados no espaço menos acessível porque a utilização e a leitura, embora remotas, não são inexistentes. Livros que ficam à espera de um tempo de leitura mais propício, que tiveram de ser alçados à última prateleira porque alguns ali precisam estar, em razão de que os outros espaços foram todos sendo preenchidos e que, afastada a intenção do descarte, o leitor saberá como os atingir e ler no momento em que o desejar, bastando para tanto uma banqueta ou os degraus de uma escada. Caixas e estantes pouco iluminadas e esquecidas, que a necessidade de redescoberta do passado pode trazer novamente à luz, como a maravilhosa aventura leitora do protagonista Yambo de A misteriosa chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, que, tendo perdido parte de sua memória, recupera-a paulatinamente ao redescobrir o acervo de materiais de leitura esquecidos em sua antiga residência. Quais leitores já viveram a emoção de ter novamente nas mãos o volume que marcou a infância, a adolescência, que trouxe um momento de transformação pessoal no passado? Esse novo nascimento do livro, que incendiou a escuridão da memória da leitura antiga, estará em algum momento vinculado ao movimento das mãos e dos olhos a limparem a poeira e ao fazerem falar o livro guardado, até aquele momento silencioso.

“A poeira e o silêncio da mais alta prateleira” não serão assim, sinais de abandono, mas de esperança de um dia essas páginas alçarem voo das alturas e, como Ícaros menos trágicos, virem a cair em mãos e mente de um leitor transformado pelo tempo. Então abrirão como asas para a jornada do conhecimento e do prazer, e, talvez, da memória até aquele momento adormecida.