A botica da pandemia

Marta Morais da Costa

 

Estacionou o Ka na garagem do prédio. Do porta-malas retirou três sacolas plásticas. Ajeitou a máscara e com cuidado pressionou o botão de chamada do elevador. Imediatamente deu um banho de álcool em gel nas mãos. Dentro do elevador, mais um banho. Abriu a porta do apartamento, deixou os sapatos na entrada ao lado das sacolas. Correu lavar as mãos com sabão, ainda de máscara. Preparou uma solução higienizadora, armou-se de bacia, panos e vaporizadores e voltou à entrada da casa. Banho cuidadoso em pacotes e sacolas e mãos. Também os sapatos.

Só então retirou a máscara, acondicionou-a em um saco plástico e levou à lixeira, do lado de fora da porta de serviço.

Cumprido o ritual, abriu a janela e respirou pausadamente para recobrar a segurança e a tranquilidade. Nove meses haviam se passado. Quatro apavoradas saídas ao longo desse tempo todo. Uma consulta médica, uma bateria de exames de laboratório, uma extração dentária e um passeio em automóvel fechado para relaxar de violenta crise de ansiedade que lhe custou uma insônia de quatro noites.

Foto por Skitterphoto em Pexels.com

E agora a quinta saída: uma visita dispendiosa à farmácia. Ela foi precedida de dias de preparação da lista de remédios e chás e unguentos. Havia adotado um procedimento de registro de sintomas quase diário, intitulado: A botica da pandemia. Para isso, observava-se detidamente ao longo do dia e anotava tudo o que sua saúde apontasse como anômalo. Eram diferentes tipos de queixumes. Anotado o acontecimento, buscava lembrar pessoas que pudessem, à distância, sugerir ou indicar medicamentos e recursos para melhorar as dores e incômodos.

Quando amanhecia com dor de cabeça no lado direito, tia Constância era uma boa fonte de soluções: compressas de chá de melissa com folhas de louro. Se a dor era do lado esquerdo, melhor consultar primo Luís e lá vinha a receitinha: chá reforçado de alecrim, gotas de cachaça da boa e um comprimido de AAS. Na falta deste, um suco reforçado de couve com limão. 

Para os dias em que a dor era muscular, a consulta invariavelmente era com prima Dorinha. Escalda pés com gotas de vinagre de maçã e uma boa fricção de abacate, devidamente embebido e maturado por 40 dias em álcool 45º. E mais um repouso de 15 minutos de manhã e à tarde, depois de comer uma maçã fuji. Talvez uma pomada de castanha da Índia também possa ajudar. Mas a maçã tem efeito mais imediato. E é uma delícia! Dorinha é uma mulher prática.

Para o estômago virado do avesso uma tisana de camomila, melissa e ruibarbo. Na falta deste, umas gotinhas de extrato de calêndula: era tiro-e-queda segundo vó Leonor. Caso a melhora não fosse imediata, ela recomendava uma taça de vinho do porto, aquecido e temperado com canela.

Se o intestino estava condenado à prisão perpétua, aí o tratamento era mais rigoroso. Dieta imediata: água e mais água durante um dia inteiro, exclusivamente. No segundo dia, caldo de legumes frescos exclusivamente. No terceiro, dieta pastosa de batata doce, mandioquinha e aipim amarelo. Se o a entrega do supermercado chegasse a tempo e com os ingredientes certos… Na falta de aipim amarelo, um bom suco de laranja, medicava a irmã, sofredora contumaz da falta de liberdade do criminoso intestino.

A insônia é combatida com relaxamento, insistia prima Celeste. Algumas posições de ioga (pegue lá no Google, tem um monte, dizia). Um copo de leite com  chocolate belga atende seu desejo libidinoso gastronômico e aquieta sua angústia com a balança. Afinal, remédios sempre têm efeitos colaterais, o peso é um deles. Dormir emagrece; daí o corpo se equilibra… Com essa filosofia médica, Celeste é a prima que mais recebe pedidos de ajuda na família.

A medição em casa deu aumento da taxa de glicose? Não se apoquente, aconselhava tio Dudu, compreensivo. Elimine frutas e carboidratos. Alface e verduras em geral, em especial as verde- escuras. Com três dias dessa dieta, você perderá peso, ganhará uma pele mais ecológica, e, batata, o índice de glicose despencará! Depois, estará liberada: até maionese e leite condensado são recomendados!

A pandemia trouxe o estresse mental e a falta de atividade física jogou seu condicionamento no lixo? Ou você sai do conforto e faz exercícios em casa, com vassoura, um tapetinho, uma corda de varal e recipientes com água pra servir de pesos, ou vai pro sofá assistir jogos de futebol pelo mundo, concursos hípicos e hóquei no gelo. Neste segundo caso, programe uma visita ao geriatra logo, logo. Seco e direto, o primo Benjamim sugeriu.

Para o estresse mental, leia livros de autoajuda, sucinta recomendou prima Dita.

A piora geral levou nossa heroína à quinta saída: a consulta ao clínico geral, a visita à farmácia e às sacolas plásticas, mais recheadas do que as de supermercado.

Agora estava preparada para mais nove meses: que venham os sintomas!

Recomendação do narrador: as receitas aqui divulgadas são de responsabilidade dos familiares consultados. Eu apenas servi como escriba.

Instantâneos na casa de Antenor

Foto por George Becker em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Antenor está empregado numa fábrica de móveis. Seu trabalho consiste em cortar  e lixar a madeira para a fabricação de móveis. Telefona para casa no meio do expediente. Lúcia está na cozinha, preparando o almoço dos filhos. Ao ouvir o telefone, assusta-se. Confere as horas e pergunta-se quem poderia ser. A voz de Antenor a deixa mais assustada ainda. Ele diz que não está se sentindo bem e que vai ao médico.

De imediato, histórias de acidentes, infartos, derrames enchem a cabeça da mulher. Pede a ele que telefone avisando o que o médico vai dizer e que venha para casa o mais cedo possível, para deitar, descansar e recuperar-se. Ele concorda e desliga o  telefone.

Lúcia volta à cozinha. Agora os preparativos ficam mais difíceis. Nem enxerga bem as recomendações das embalagens,. Troca as louças de lugar, sem saber bem o que quer fazer com elas. Desliga o rádio: as palavras do religioso, a falar de pecados e de Jesus agora não fazem muito sentido. Sente falta do sal para temperar o alimento. Mas havia esquecido de anotar na lista de compras do supermercado. Nervosa, toma o telefone para falar com a vizinha: quem sabe consegue um pouco de sal. Mas não lembra o número. E as crianças devem chegar logo da escola… Um cheiro desagradável chega a suas narinas. As batatas! Agora, precisa inventar outro prato. Quem sabe não vai lembrar alguma receita rápida? Na rua, o frear do ônibus anuncia a chegada dos filhos.

Valdelúcia entra em casa disposta a ir imediatamente ao quarto, largar sobre a cama os materiais do cursinho e telefonar para o namorado, desmarcando o encontro da tarde. A prova do ENEM no final de semana está lhe tirando o sono, a fome e o amor. Precisa garantir boa nota para tentar o vestibular da universidade pública. Seu pai não pode arcar com mensalidades de uma particular. Anda assustada com a redação: soube de alguns exemplos ridículos que o professor ironicamente comentou em sala. Não quer dar vexame. Na cama, continuam espalhados os livros que havia consultado de manhã bem cedo, antes de sair. Separa os que trouxera da biblioteca, põe sobre a mesa de estudos os CDs de música emprestados pela amiga, e voa para o telefone no corredor perto da porta da rua.

Lucas dá um beijo distraído na mãe, larga os livros no meio da sala, deita-se no sofá e liga o televisor. Seu desenho animado preferido já vai pelo meio. Em nada diminui, no entanto, o interesse e curiosidade do menino. Entre um efeito especial e a sonoplastia adequada aos socos e explosões que pipocam na tela, tira o material da mochila e de barriga para baixo, a maior parte do tempo com os olhos no televisor, lança olhadelas nas páginas escritas e reproduz nos exercícios o que a professora havia explicado durante a aula. Sua pressa em terminar os exercícios se justifica: mal engolido o almoço que se anuncia pelo cheiro apetitoso que vem da cozinha, sairá a brincar com Felipe, da casa ao lado. Bola e videogame encherão a tarde e o tempo vai escoar rapidamente. Lúcia, da porta da cozinha, olha o menino, orgulhosa pela dedicação que o filho dá aos estudos: nem almoçou ainda e já está mergulhado nos livros! Este menino vai ser médico, no mínimo!

O almoço está na metade quando Antenor chega. Traz o semblante abatido. Queixa-se de fortes dores de cabeça. O médico não descobriu a causa, mas lhe receitou vários remédios, de nome difícil, mas que, segundo o doutor, o deixariam curado. Bem que tentou guardar as palavras do médico explicando o modo como tomar os remédios. Era uma conversa de colheres e horários. Pelo menos, o médico havia escrito tudo. Poderia ler quando precisasse, pensou Enquanto se prepara para almoçar, pega a receita. A letra é um garrancho só. Vai ter que telefonar ou passar novamente no consultório para ouvir as explicações. Não é só isso que o incomoda: pensa no dia de trabalho perdido. Havia sido tão difícil conseguir aquele emprego! Não poderia perdê-lo agora! Trabalha muito e espera uma promoção para breve. Até está  buscando aprender um pouco mais. Valdelúcia o ajuda e lhe traz algumas informações, tiradas da biblioteca e de uma tal interné. A dor de cabeça aumenta. Deita-se, fecha os olhos e fica a ouvir os barulhos da casa, em plena tarde.

Enquanto Antenor tenta acalmar a dor e a angústia, Lúcia liga o rádio para ouvir o programa de fofocas sobre artistas de televisão; Valdelúcia estuda no quarto, muda com lentidão as páginas da apostila por causa da dificuldade em compreender as idéias das frases; Lucas joga futebol alegremente e de vez em quando atravessa o gramado da praça em busca da bola, muito próximo da placa em letras vermelhas e exuberantes: NÃO PISE NA GRAMA.

Na lida diária dessa família, futuro é apenas mais uma palavra abstrata. Talvez vazia. 

MAGISTÉRIO E RESISTÊNCIA

Foto por Flora Westbrook em Pexels.com

   Marta Morais da Costa

Caro jornalista,

            Quando você me pediu para escrever um pequeno texto sobre minha profissão para ser publicado no Dia do Professor, pensei em fazê-lo à moda dos discursos políticos e oficiais, com frases de incentivo, adjetivos elogiosos, substantivos idealizados e muitos verbos de afeto. Algo parecido com: “Ser professor é padecer no Paraíso. A educação é o esteio moral de um país. Ser educador é missão que enobrece e constrói o cidadão do futuro. Não há nação desenvolvida sem educação de qualidade. O professor educador é o agente de mudanças e alicerce de um país melhor.”

            Já lemos e ouvimos essas palavras em diversos lugares, situações, textos e momentos. Concorda?

No entanto, se compararmos essas frases com a realidade e a história da educação no Brasil, podemos verificar o quanto são dizeres contraditórios e enganosos. Por vezes, embora expressem verdades parciais, nunca se realizam, não passam de palavras vazias, esbarram na cruel e desprezível e mesquinha recompensa do cotidiano escolar e social.

Deixo que essas frases retóricas continuem soando em forma de discurso repetido e repetindo-se como música de fundo, para que lhe conte um pouco de minha biografia como educadora. Creio que, desse modo, você poderá avaliar melhor o que representa a data de 15 de outubro para mim.

Sou de família humilde e estudei sempre em escolas públicas. Para meus familiares, ser professor era profissão altamente considerada, pois lidava com um conhecimento que havia sido, com dificuldades, acumulado por gerações. Representava uma pessoa destaque na comunidade porque era alguém capaz de dominar esse saber.

Na escola pública, no entanto, ser professor era, acima de tudo, um emprego estável. Alguns de meus professores cumpriam à risca esse mandamento. Davam suas aulas com quem carimba papéis ou atende formalmente o público. Alguns deles chegavam a usar a estabilidade como respaldo para arbitrariedades. No entanto, entre dezenas de professores, alguns poucos deixavam emprego e segurança em segundo plano para se aventurar nos mares do conhecimento – para cuja viagem nos convidavam – e no universo da afetividade. Educavam para o presente, indagando o imprevisível futuro.

Foram eles os responsáveis mais diretos por minha decisão pela carreira do magistério. Foram, e continuam sendo, exemplos de vida profissional que persigo.

Da universidade saí munida de receitas e esperanças e iniciei minha atuação docente. Minha biografia até aquele momento, um plácido conto de Natal, ganhou os contornos de tragédia do cotidiano. As receitas só funcionaram enquanto a esperança resistiu.

(Ao fundo, continua a música das frases de efeito, não?)

O salário não resistia ao mês. Vendi na escola o que produziam minhas mãos nas madrugadas e finais de semana: blocos de papel decorados, almofadas de crochê, toalhas pintadas, sachês, artigos de Natal, sabonetes e velas. Mascateando, pude ter uma modesta cerimônia de casamento, comprar o enxoval dos filhos, pagar o aluguel de uma casa melhor. Livros? Ganhei de presente, comprei em sebo, recebi de editoras. Não abandonei o sonho de ser uma boa professora para não me tornar uma carimbadora de papéis.

Enfrentei o descaso de colegas (alguns até com maior experiência na carreira!) com o trabalho sério em sala de aula, ouvindo perguntas assim: “Por que se dedicar tanto se não vai ganhar mais com isso?” Resisti ao desânimo, às dúvidas, às dificuldades. Com realismo, tentei alcançar a estatura de meus bons professores. Vi crescer a indisciplina e a violência entre alunos e na comunidade. Experimentei a humilhação infligida a mim e a meus colegas por pais e alunos. Revoltei-me (e assim continuo) com o discurso oco e eleitoreiro sobre a “nobre missão do professor”.

“É nobre, mas não é missão. É profissão!”, dizia e digo convictamente.

Sinto-me por vezes uma espécie desatualizada de Dom Quixote lutando para vencer moinhos de ignorância e desprezo.

Hoje, vendo cosméticos, e não deixei de ler e estudar nas poucas horas vagas. Tento convencer alguns alunos ,mais porosos a meu exemplo e às minhas palavras, da importância do  conhecimento para uma visão crítica da realidade. Sofro ao ver meu trabalho e boas intenções desprezados por alunos sem disciplina, nem respeito.

As imagens de meus bons professores às vezes sorriem para mim, numa espécie de conversa interior, numa espécie de farol a guiar-me nesta viagem cheia de percalços.

Os olhos de alguns poucos alunos abrem-se e brilham quando aprendem algo novo. Poucos e raros pais me confessaram que seus filhos mudaram, para melhor, demonstrando confiança na educação.

Se eu desistiria de ser professora? Pensei sobre isso várias vezes ao longo dos anos. Mas sempre que as dificuldades pesavam mais na balança, os pequenos resultados positivos, aqueles olhos brilhando, aquele sorriso de compreensão me estimulavam a continuar. Por eles continuei.

Por essas razões, o Dia do Professor para mim não tem sabor de festa. Tem marca de resistência. Agora sei: continuo porque resisto.

                                                            (a) Joana Augusta R. Soiset

Solidariedade

Para as crianças, depois de seu dia oficial de consumo.

Marta Morais da Costa

Luísa tossia muito na segunda-feira: estava com uma gripe poderosa, devastadora, contagiosa. Vítor caiu de cama, com gripe, na quinta. Luísa era sua colega de classe.

Artur estava com rubéola na aula de natação. Vítor caiu de cama, com rubéola. Artur e Vítor nadavam na mesma piscina.

Aurélio faltou à aula. Causa? Virose. Três dias depois Vítor não pôde ir ao aniversário de Letícia, Causa? Virose. Vítor e Aurélio são irmãos.

A insolação de Sérgio e a diarreia de Camila contaminaram Vítor: sol e intestino o deixaram de cama. Sérgio, Camila e Vítor curtiam férias juntos e misturados.

Vítor era um solidário. Nem a solidão dos dias chuvosos era penosa. Sabia que, cada um em sua casa, olhavam para as mesmas águas.  Havia aprendido o significado de conviver.

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De manhã, todos os dedos são parvos.

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Marta Morais da Costa

Noite tranquila de sono, para ele, é de quatro horas. Em outras, o rolar na cama tem oito horas de insônia. Você precisa dormir, descansar, o médico recomenda, a revista de saúde confirma, a mãe adverte. Quem diz quê? Deitar a cabeça no travesseiro é incendiar o cérebro de medos, dúvidas e lembranças angustiantes. Dorme, infeliz! As pálpebras pesam, o corpo dói. É estresse, o amigo define e recomenda: beba mais água, não tome café, faça apenas um lanche à noite, frutas, nada de biscoitos ultraprocessados. Tentativas não faltam, a fome aperta lá pelas duas da madrugada. Jura que não vai assaltar a geladeira, vira pro lado, os olhos estalados, a cabeça dói. Mas não levanta.

Aquele compromisso das oito da manhã agita o sono que se afasta para Marte. Odeia Morfeu principalmente o com braços: quem inventou a expressão foi alguém que dormia doze horas ininterruptas. Nem Morfeu lhe faz carinho, abraça, sussurra palavras doces, convida para a cama, embala seus sonhos. A cabeça em curto-circuito, os olhos doem: vai chegar um lixo no escritório, já está se vendo, olheiras, mau hálito, cabelo que nem gel consegue domar, pernas pesando arrobas. E o mau humor? Daqueles de morder, ranger dentes, unhar borracha e trocar as letras do teclado. Tomara que o chefe tenha outro compromisso e adie a tal reunião.

Abre o computador, a internet deu pau novamente. Toca chamar o Ângelo da TI pra dar uma olhada na máquina. Pega o telefone e descobre que a telefonista da recepção não veio nesta manhã: o filho está com infecção na garganta. Qual é mesmo o ramal do Ângelo? Cara, tu pode vir aqui no almoxarifado ver o que aconteceu com minha internet? Tá descendo? Te espero, vem logo. Onde coloquei a planilha do Excel pra reunião de hoje? Em que pasta? Não consigo me organizar com este peso na cabeça: parece ressaca. Será que o chefe vai pensar que andei tendo uma noitada daquelas? Só me falta uma advertência na ficha. Logo agora que arrumei este emprego, depois de dois anos de bicos e falta de grana! Ah, Ângelo, vê se dá um jeito nesta internet, preciso buscar umas informações na rede.  Acho que uma máquina nova iria bem, Alfredo. Esta aqui já foi bem usada e tá precisando memória, fazer umas atualizações, substituir a placa-mãe e uma pá de acessórios. Melhor pedir uma nova. Ângelo, tá louco? Mal entrei na empresa e vou pedir uma nova? O que o chefe vai pensar de mim? Posso fazer isso não. Não esquente, Alfredo, eu falo com o Artur: ele vai entender o problema, deixa comigo.

O telefone toca. É a secretária do Dr. Artur avisando que a reunião foi adiada para a tarde. De repente lembrei a pasta: a do Arquivos Provisórios. Ufa! Como é, Ângelo, vai dar para usar a internet hoje? Espera um pouco, acho que sim, vou tentar este atalho…

A cabeça começa a clarear, o resto do corpo pesado, um fio de pensamento se forma. Nada a ver com trabalho. O sol é de praia, o barulho é de onda quebrando, o corpo curvilíneo ao lado é de Adriana, o cheiro é de bloqueador solar, a toalha suja de areia. Tem um mês atrás, no feriadão, a gente numa boa, cerveja e moleza.  Tá pronto, Alfredo. Vai dar pra usar a conexão, mas o computador logo vai falhar. Use enquanto der. Vou ver se arrumo outro para você. Legal, Ângelo. Tu é um bom amigo.

Da janela aberta  entra a luz do sol e do barulho da rua vem o dia que começa na cidade. Corpo cansado, olhos fechando, a cabeça a voar por lembranças associadas: vontade de casar, vontade de mudar de cidade, vontade de sair da casa dos pais. Nem adianta ter vontade: adiantaria se tivesse a grana para tudo isso. Preciso recuperar a planilha, vai que o chefe me chama. Os dedos não obedecem ao comando. As letras dançam, difícil segurá-las em um espaço flutuante. Calma, vai com calma, Alfredo. Respira, toma uma água. Melhor se fosse café. Boa ideia! Vai até a máquina de café na sala, tira um expresso, corto, denso. Agora vai acordar.

Volta à sua mesa, retoma a procura. Digita, erra, digita, acerta. Erra de novo. A planilha não está nos “Arquivos provisórios”. A cabeça volta a doer. Pesquisa, vai de pasta em pasta. Nada. Saídas, Entradas, Correspondências, Atas, Reuniões, Código de Conduta da Empresa, Editais. Nada. Última pasta. Diversos. Lá está a planilha! Salvo! Vou copiar e salvar em várias pastas, por enquanto. Os dedos tropeçam, os comandos se confundem, a planilha some. Ângelo! Ângelo! Por favor, venha rápido aqui, preciso recuperar a planilha! Maldita insônia! Se eu perder este documento… A cabeça pesa. O corpo tomba na cadeira. As pálpebras se colam. Talvez uma soneca…

O chefe entra na sala, inesperadamente.

Noites de lua cheia

Foto por David Besh em Pexels.com

Marta Morais da Costa

Noites de lua cheia costumam guardar surpresas e desconfortos. Que poder tem a lua sobre as expectativas humanas e o bem estar das pessoas? Uma hipótese: a luz que afasta a noite e quase traz de volta o dia aviva a sensibilidade. “Venha ver, fulano, que lua!” “Peraí, deixa eu pegar o celular…” “Que foto! Vai lá pro face!”, “Lindaaa!”

É nos olhos voltados ao alto que a lua se mira. Sou seduzido pela aura romântica e me contenho pra não tascar um beijo na minha ex,  tão longínqua ao meu lado. Ah, o jantar! E o vinho, então? A luz da lua clareou-me:  tudo armação pra me fisgar outra vez, conclui um pequeno lúcifer cerebral. Fecho os olhos, apago a lua e volto a meu lugar na mesa e ao meu prato perfumado pelo alecrim e colorido pelos acepipes.

Acepipe? É o vinho novamente. Emerge num clarão o verso drummondiano: “mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo!”. Taí: um leitor não cai tão fácilmente na rede de intrigas. Na verdade, ele cai mais facilmente das nuvens do que do terceiro andar. Agora baixou o irônico Machado. Vou parar, antes que a biblioteca comprima um pouco mais o que sobrou de meu cérebro.

As noites costumam pregar peças cômicas de um ato ou originar uma imensa tragédia em cinco atos, prólogo e epílogo! Acima de tudo, elas carregam em seu útero medos e mortalhas, luzes e solidões. A noite chega e os mistérios se expandem.

Experimente, leitor, marcar um evento qualquer enquanto o sol aquece e os pássaros cantam. E marcar o mesmo evento nas horas em que as galinhas dormem. Casamento, por exemplo. Uma amiga de muitos anos casou de manhã. Os convidados chegaram atrasados, com cara de despertador e boca de café tomado às pressas. Nem o almoço prometido e avisado botou o ânimo pra cima. Ao contrário: os convidados comeram e voltaram pra casa rapidinho, pra terminar o sono interrompido. Nem mesmo as crianças se divertiram. Pensavam brincar antes dos comes, mas os pratos corriam o risco de esfriar. Esperaram brincar depois dos bebes, e os pais se mandaram para o lar aconchegante.

Ah, mas casar à noite tem mais encantos! Dorme-se à tarde, come-se um lanche, porque o jantar vai demorar infalivelmente. Dá tempo de deixar o terno impecável, de escolher a gravata, de combinar sapato e meia. A acompanhante passa o dia no salão e retorna irreconhecível! As crianças ficam elétricas, energizadas pelas expectativas da noite sem hora pra acabar. Até o branco do vestido da noiva fica mais branco! E o futuro maridão adquire uma respeitável face responsável (mesmo que a festança depois acabe por fazê-lo parecer um adolescente cheio de malícias e vontades).

Casar à noite tem a ver com pecados supostos e cenas eróticas ardentemente entrevistas e desejáveis: e não penso apenas nos noivos. Os convidados, movidos pelo mito das cinderelas e príncipes guerreiros, parecem prometer cenas das mil e uma noites em curtas passagens por camas burguesas. Ah, casar à noite é pedir luas cheias, brilhos nos olhos, surpresas e armadilhas…

Lembro-me, antes de beber mais um copo de vinho, que me casei em noite de Superlua. Deu no que deu. Continuo a fazer fotos para o face e nem vejo a face da ex, obnubilada pelo porre homérico em andamento.

A vida, triste quimera, devora com suas cabeças horrendas qualquer frágil vislumbre de felicidade existente neste solitário descasado. Antes que meus olhos se fechem para o clarão da lua, lembro mais uma vez a esplendorosa noite de verão, o céu estrelado, a brisa suave, sons de valsa nupcial e uma enorme bola de prata a sorrir cinicamente lá no alto.

O que será, será.

                Marta Morais da Costa

Pensar era atividade para a qual nunca tinha tempo. Melhor não pensar e deixar que os outros lhe dissessem o que fazer. Como resolver os problemas. As atividades do dia seguinte.

Já na infância havia descoberto que o pensamento próprio pode trazer problemas. E que sempre é pura perda de tempo. Na escola, toda vez que o professor pedia uma solução, uma comparação ou argumentos, ele se fazia de ausente, escondia-se atrás dos colegas, copiava descaradamente as respostas – em livros ou nas provas dos vizinhos. É verdade que poucos professores na época pediam aos alunos que pensassem. Achavam que era melhor só ter respostas iguais às palavras dos livros. Sem mudanças.

Em casa, nem precisava ficar se escondendo. Os pais determinavam, mandavam, exigiam. Era só obedecer. Sem reclamar. Fazer sem saber porquê. Não ter respostas e não reclamar. A vida seguia tranquila desse modo.

Assim, já adolescente, esperou que os pais resolvessem se continuava a estudar ou iria trabalhar na oficina mecânica do Deco. Foi trabalhar. Até achou bom: teria dinheiro para as matinês, para as balas azedinhas, e, futuramente, para o cigarro.

O pai é que tinha ambições: queria ver o filho logo, logo longe da oficina. Quem sabe ser office-boy no banco ou no escritório do Dr. Darcy. Podia ser um bom começo. E obedecer era uma das qualidades do seu menino.

A mãe sonhava com netos e um a menos na casa, para aliviar o serviço. Não perdia a oportunidade de chamar a atenção do filho para as garotas que desfilavam pela calçada. Elogiar a Maria pela beleza, a Dalva pela elegância, a do Carmo pelo recato e pela religião. Quem sabe ele não poderia ir até elas, fazer um elogio, puxar conversa? Afinal ele já tinha um emprego, estava quase na idade de casar. Contando o tempo de namoro e de noivado, ia estar bem na época de assumir uma família.

Convencido pelo pai, arrumou emprego no escritório. Descartou o banco porque para os números da matemática precisava pensar. E Dr. Darcy só queria que ele fizesse coisas e não pensasse.

Um dia, esbarrou na Elaine: foi olhar e gostar. Ela pediu para casar em maio, mês que achava lindo demais para usar branco e um buquê de flores. Também escolheu a casa, decidiu sobre os móveis e bateu o pé para que ele usasse um terno de linho azul marinho no casamento.

A festa ficou por conta dos pais dela e dos pais dele. Só precisou dizer o sim. Era o que tinha de fazer e fez.

Os filhos vieram, mudou de emprego, foi um funcionário padrão, deixou a educação dos filhos por conta da Elaine. Os dias eram iguais. Às vezes a mulher resolvia que deviam ir para a praia: ele cuidava do carro, juntava dinheiro para as despesas, embarcava a família e desciam para o litoral. Subiam de volta, sem o dinheiro, com a pele corada, os meninos amuados e a mulher sorrindo. Até a próxima viagem.

Os anos não mudaram o homem que não gostava de pensar. Nem quando baixou ao hospital com um câncer no rim pensou que poderia morrer. Tudo se resolveria bem. Porque o médico disse que logo ele estaria curado. Não se curou.

Pouco antes de falecer, pensou na vida tranquila que havia levado, nos filhos criados e na mulher, ainda bonitona, que iria deixar. Como um raio, pensou: e se a vida tivesse sido diferente?

Não deu tempo de responder. Fechou os olhos e se deixou ir. Tinha certeza que a mulher haveria de cuidar bem de seu enterro.

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Descarte

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Marta Morais da Costa

O dia amanhecera vestido de nuvens cinzentas, pesadas e compactas. O sol continuava adormecido no espaço sideral. Afinal, uma das funções das nuvens é garantir a privacidade do astro. Outra função? Servir de música nupcial quando a chuva convive com ele em dia de casamento de viúva ou de espanhol, a depender da ordem em que algum engraçadinho colocar o par romântico: sol e chuva; chuva e sol.

Em dia nublado, espírito sossegado. No espaço de tempo entre uma demorada xícara de café e um prato de sopa aromática, ela decidiu concluir a tarefa de descartar o conteúdo da caixa organizadora, deformada pela quantidade de fotos, cartas, recortes e um sem-fim de lembrancinhas, acumulada ao longo de anos.

Para bem da verdade, não era a primeira vez que se propunha a dar cabo definitivamente do máximo de coisas sem mais utilidade, guardadas pouco a pouco. Hoje vai, pensou. Já que as providências para o restante do dia já haviam sido tomadas. Já que o tempo com cara de vilão não permitia uma saidinha ao ar livre sem a ameaça de um banho frio e indesejado.

Escolheu o cantinho de leitura: poltrona, almofadas, uma mesa de apoio e todo o material para cortar, picotar, etiquetar, reunir, escrever, separar. De todos os verbos, o que lhe dava maior prazer era picotar. Quem não viveu aquela sensação de limpeza e de dever cumprido, quando descarta o que não lhe serve mais e cria espaços vazios e renovados para receber mais material? Pois é, era assim.

A tampa da caixa já era um vaticínio: sol poente, flores murchas, terra seca e, para arrematar, um solene flamingo cor de fogo. Não dava para fugir daquela sina de destruição. Motivação se faltasse, era só rasgar os olhos em direção à tampa e qualquer dúvida virava fumaça. O odor que atingiu suas narinas tão logo a tampa se deslocou era um pouco do ácido do papel velho, a violência tóxica da última bola de naftalina em um dos cantos, a tinta envelhecida das fotos rosadas, dos tecidos, dos badulaques e do papel jornal dava um toque mais repulsivo à abertura da caixa. A intenção de descarte se fazia um ato de higiene ambiental.

Tal como a abertura rápida, o fechamento da caixa indicava a necessidade de paramentar-se adequadamente. Luvas e máscara vieram completar o arsenal de medidas profiláticas: sacos para lixo, tesoura, aspirador, mãos ágeis, afetos anestesiados, consciência algemada no pila da vontade. Estavam prontos o cenário, os instrumentos e o carrasco para o descarte.

O que leva as pessoas a guardar coisas, carregá-las por anos a fio e depois destruí-las? A necessidade de parar o tempo na forma de objetos? A angústia de experimentar a memória desintegrando-se e, por isso, buscar ancorá-la em coisas? A busca de prender ao coração as pessoas idas e vindas por meio de lembranças palpáveis? O projeto de recomposição de pedaços de vida na velhice, nos tempos ociosos da velhice? A construção de uma herança para os descendentes em formato de documentos de uma fase “meninos, eu vi”?

Não importa qual tenha sido o motivo de construção deste depósito heterogêneo, o fato é que ela se encontra diante de uma caixa que contém o que pôde e quis guardar como testemunhos de um tempo pretérito e violável. A mão caminha entre objetos e papeis, como se os dedos fossem rastreadores e pelo tato reconhecessem os momentos de dor ou de alegria, a identidade dos bilhetes e dos fotografados, contassem a narrativa originária daquele objeto, trouxessem à luz em novo nascimento a flor seca de amores idos.

Aos poucos o corpo em movimento coordenado faz transitar o conteúdo da caixa pelas tábuas, cantos e superfícies do quarto. Fotos de amigos sorridentes, paisagens, monumentos de viagens pretéritas, as faces amadas em desfile fora de cronologia. Rostos envelhecidos precedendo a juventude, o homem maduro não reconhecível na criança que foi, a avó enternecida com o neto e de costas para a  foto da jovem esposa de olhar tímido em vestido de noiva. O fotógrafo sempre um voyeur, fora da foto, presença ausente. Muitas delas recobertas com a neblina rósea dos velhos filmes e das antigas reproduções e seus carimbos invasores a dizer de laboratórios já desaparecidos e só existentes nos guardados de uma vida.

A pilha de papeis, desigual em formato e tamanho, coloca em inesperada posição em cima-embaixo uma profusão de bilhetes, recortes amarelados de jornais, rótulos, bolachas de chope, cartões de visita, convites. O aniversário de um ano do Chico, o casamento do André, a formatura do Guto, a festa das bodas de ouro dos avós, o lançamento do livro da Bia. Como dizia o velho professor de Português, as efemérides, sem se dar conta de que a origem grega significava simplesmente de cada dia, diário, assim sem pompa, sem prestígio, sem diferença do dia de trabalhar, limpar a casa, pagar as contas, comprar batatas e cebolas. Indiferentes à etimologia, lá estavam os convites, lampeiros, exibindo cores e letras especiais, volumosos por vezes, sempre festeiros.

Era nos badulaques que a caixa de guardados mais se exibia. Chaveiros, rolhas, um coração de papier maché, estrelinhas de latão, anéis de coco, o colarzinho de miçangas que Antônia ganhou aos cinco anos, uma enegrecida torre Eiffel daquela viagem desastrada a Paris, um bonequinho de amigurumi prêmio da professora de Artes à melhor performance no canto coral. Ah, e uma medalha de terceiro lugar na natação juvenil, a única ganha na vida de quem poderia ter sido atleta e não o foi. Coisas e casos casados na memória, registros de anos de existência abandonados em uma caixa no armário mais esquecido da casa.

Talvez uma história que quisesse permanecer em silêncio, escritas de um tempo escorrendo para o nada, memórias a comprovar uma vida fragmentada, concreta e mesmo assim esquecível, um passado a querer se presentificar,  mas já deturpado, torto, sem a costura que lhe dê ao menos consistência e permanência.

Recolheu os pedaços de seu passado, desordenados, misturados, destecidos, e os devolveu à caixa. Lentamente passou nela um barbante em formato de cruz, amarrou fortemente. Sobre a tampa colou um envelope endereçado à mais querida das netas, talvez por comungarem  sonhos e temperamento. Dentro um bilhete a ser lido após a morte: “Sílvia, grata por ter plantado em mim a semente do amor sem limites. Peço que, depois que eu partir, você destrua esta caixa e o que ela contém. Voltam a ser apenas coisas sem minha presença viva.  Coisas velhas, sem sentido. Se você as queimar, talvez as cinzas possam reencontrar o pó em que me tornei.”

Lá fora, as nuvens mantinham o sol prisioneiro.

Vento

Marta Morais da Costa

 
Vento que balança as palhas dos coqueiros
vento que encrespa as ondas do mar
vento que assanha os cabelos da morena
me traz notícia de lá
(Prece ao vento, de Luiz Fernando Câmara, Gilvan Chaves e Alcy Pires Vermelho.)

– Hoje o vento está para chuva, disse a mãe.

– Mas o rádio falou que vai ter sol, mãe! , retrucou sem titubear Julieta.

– Eu sei que a moça do tempo falou, mas é só olhar para o céu. Vento mais nuvem rabo de galo não dá outra. Até amanhã será uma chuvarada…

Julieta nada falou, mas confiava mais na meteorologia. Afinal, havia aprendido na escola o valor da ciência e a fé no progresso.

A mãe voltou à costura. Estava cansada, os olhos doíam, mas sentia muito prazer em costurar vestidos para a filha, Sempre inventava um tipo diferente de mangas, às vezes alterava o modelo do corte da saia, a posição dos botões, as fitas, o formato dos decotes e, sobretudo, as nervuras. O resultado de tanto trabalho a deixava tão realizada! Ainda mais que no corpo da filha qualquer roupa caía bem. Parecido com ela: quando moça não tinha páreo para sua elegância. Fosse na missa, na matinê no Cine Palácio, na visita às amigas, nas festas de aniversário, no baile da Sociedade 7 de Abril. Procurava um jeito modesto de olhar, meio cabisbaixa, mas, como uma onda de admiração, os olhares dos outros atravessavam sua modéstia e batiam forte em seu coração orgulhoso.

Um rápido cruzar de nuvem carregada toldou suas lembranças. A vida difícil e o tempo consumiram aquele pequeno orgulho e a modelagem de seu corpo. Hoje os quadris largos e o andar inseguro soterram a elegância juvenil. Mas sua filha, ah, tão linda, apaga esse desgosto!

Corta, alinhava, costura, desmancha, costura novamente, coloca os aviamentos finais. Está nessa labuta há três dias, mas o resultado certamente ficará bom.

– Mãe, vou sair. Até a casa da Nieta. Volto logo.

Sozinha, a mãe coloca no trabalho maior atenção. Ouve-se apenas o ritmo descompassado da agulha da máquina, ligando bobina e lançadeira, cumprindo o percurso que a mão desenha. As horas convertem-se em minutos. O vestido toma forma e encanto.

Aos poucos, enquanto as mãos enfrentam a tarefa de terminar a costura, o pensamento dança entre lembranças ao som da máquina de costura. Tia Filomena ocupou de imediato o nascer da memória: aprendera com ela a costurar. Ainda adolescente fora morar na casa da tia por alguns meses, “pra mode aprendê as custura”, segundo a mãe. Chegou ressabiada, com a sacolinha de roupas poucas e já gastas, com o jeito de menina da roça, olhar baixo, magrela, sandálias rotas. Tia Filomena a recebeu como filha: para aprender, para trabalhar, para receber conselhos e corretivos. No começo, as mãos mal controlavam os anéis das lâminas da tesoura e muito menos a direção do corte. Insistia, refazia, ensaiava os moldes em papel, firmava os pulsos. Aos poucos, juntando as duas paciências, ela e a tia começaram a trabalhar em dupla. Do alinhavo à costura final, cada uma fazia uma parte. Os vizinhos começaram a gostar das roupas que saíam da Filomena: saias de organdi, vestidos de chita e flanela, camisas de algodão, blusas de seda.

A máquina parece conversar com as lembranças da mãe: o tecido do vestido engancha-se na teia dos pensamentos e o passado redesenha-se a cada ponto e corte. O prazer de apender é agora o de criar e fazer: tia Filomena, que Deus a tenha, sempre soube que a menina franzina se tornara mulher de valia por sua graça e ajuda.

Voltou outra para a casa de seus pais. Ali sentiu que sua vida estava em outro lugar e foi embora para a cidade no carro de tio Anselmo para trabalhar na loja dele, vendendo coisas de enfeitar a casa. Enquanto vendia, sonhava com a sua casa, a família que iria criar, o marido de quem cuidar. Não sonhou muito. A realidade veio na pessoa do Antônio, boa pinta, operário da fábrica de autopeças, papo firme.

A máquina de costura silencia para ouvir um suspiro profundo. A mãe é tomada por uma lembrança morna de desejo. Ah, que rapaz cheiroso! Aquele sorriso infantil somado ao olhar de menino travesso mudou o rumo de sua vida. A primeira camisa que fez para ele teve que passar por umas cinco ou seis provas porque o melhor da testagem era deixar a mão escorregar pelo tecido das costas em forma de carinho com se fosse uma investigação de falhas na costura. Tinha de acabar como previsto: altar e cama.

O que ficou apenas no desejo foi a família grande, de muitos filhos. O tempo e o desamor fizeram da mãe mais uma peça defeituosa, descartada na lixeira da fábrica. Em uma das curvas da vida se viu sozinha mais Julieta. Mas a mãe não dá tempo para a tristeza. A máquina volta a ritmar o trabalho e o vestido remexe-se sobre o calcador, espalhando-se sobre a mesa e enxotando as lembranças de volta ao passado.

Julieta retorna antes de o trabalho estar pronto. Ao passar pela porta do quarto de costura, lança um olhar despreocupado, mas de imediato suspende a respiração e o olhar. O vestido é um primor! Nem tem tempo de segurar a autocensura: as amigas iriam morrer de inveja! Nieta, Bibi, Aléssia, Ciça, todas iriam querer um parecido ou igual. Mais forte veio o olhar de admiração do Alex. Julieta sorriu, prevendo um casinho de provocar carinhos e, quem sabe, ardências menos infantis.

– Mãe, que lindo! Posso provar?

– Ainda não terminei, Julieta. Faltam os acabamentos.

Percebendo a ansiedade da filha, consente. Julieta roda o quarto, expande-se para a sala, usa todo o corredor, desfilando a la Giselle, contente de si, agradecida à mãe, fazendo planos.

A noite toda a casa parecia estremecer com a ventania: janelas, portas, paredes. A tarde traz a tormenta, a inquietude e mais temor. Fechadas em casa, mãe e filha, correm a socorrer goteiras, a reforçar janelas, a impedir a água de passar sob as frestas das portas.

De nada adiantou: a casa não resistiu ao ciclone bomba e desabou. Na correnteza da enchente ficou a boiar, desvalido, de braços abertos, saia em roda e todo ataviado um lindo vestido vermelho, vazio de sua dona e da fada de mãos habilidosas que o criara.

“Vento diga, por favor,
aonde se escondeu o meu amor.”

Rotinas

                                           Marta Morais da Costa

1

-Alô, mãe?

– Alô? Alô? Quem fala?

– Sou eu, mãe, a Adriana. Não tá reconhecendo a voz?

– Oi, filha. Sabe, né, que tô meio surda…Você está bem?

– Me virando, mãe, com essa loucura da epidemia…

– Me conte uma novidade.

– Eu?? Tô fechada em casa, como a senhora. Novidade nenhuma. O de sempre.

O diálogo pode ser monótono. A novidade inexistente. As relações longínquas. A rotina entediante. Tudo o que conspira contra a vida social, mesmo a mais recatada do novo ano a.C.

Olha que Adriana caprichou nas mensagens de Ano Novo. Votos de paz, saúde, prosperidade. Tudo em cinzas. Parece que foi no século passado. Talvez tenha sido mesmo. Sente como se relatasse sua vida de menina para o filho mais novo. “Naquele tempo a gente saía para um jantar no restaurante, via uns filmezinhos no cinema, namorava, comprava sorvete, dava uma passadinha no shopping, ia pro chá com as amigas. Coisinhas básicas. Até abraço, aperto de mão, confiança no outro. Isso tudo que a gente não pode fazer hoje, filho.”

Nem tudo posso falar para ele. O tédio, a saudade, o medo. Da casa hoje conheço cada canto, cada azulejo, cada coisa no e fora de lugar. Precisa consertar a pia do banheiro, a torneira do jardim, o piso da garagem. Acho que a calha está entupida…Mas cadê a coragem para trazer os trabalhadores e aceitar sua circulação pelo ambiente da casa?

Nem falo do cabelo espevitado do Rui, da visita rotineira ao cárdio, da roupa na lavanderia esperando ser retirada, no aniversário da Ninoca que se aproxima, no presente do Raul prometido e atrasado.

A vida ficou reduzida, os compromissos caducaram, a viagem anual foi adiada, as aulas suspensas. Tudo o que já não poderá ser.

Liga a TV e tudo parece o mesmo de ontem. Liga o computador e não aguenta mais lives e lives e facebook e instagram: tudo do mesmo. Se whats gastasse, restaria a tela vazia. Por que ninguém mais escreve? A lista de contatos encolheu e silenciou. Nem a alegria de receber o marido na volta do trabalho existe mais. Aliás, nem o trabalho.

O vazio, o medo, a perspectiva de futuro encolhendo.

Soube que o vizinho da esquina foi para a UTI. A família dele recolhida, cortinas fechadas. Silêncio.

É, podia ser pior aqui. “Se queixando de barriga cheia”, diria a mãe. Hoje, como transanteontem, como há noventa dias.

Por causa do corona até deixou de lado a obsessão por famílias reais, suas coroas de cabeça em cabeça. Seu encanto aristocrático, cadáveres futuros iguaizinhos aos milhares de enterrados em covas rasas e sem velório.

Soube que andam derrubando estátuas: teme que seus valiosos reis e rainhas coroados despenquem em praça pública, arrojados ao chão pela horda de inimigos. Seria mais um fator dramático a ser contabilizado em suas perdas e danos.

– Novidades, mãe? Ah, a chuva desta noite foi ótima: abriu mais um botão de rosa no jardim!

– Como? Vai viajar de novo para Berlim?

– Não, não. Nasceu uma rosa no jardim!

– E isso é novidade? Rosas nascem todos os anos… Conte uma novidade pra valer.

Mal sabe ela que uma novidade para valer tem muitos algarismos de tragédias e descasos. Melhor voltar aos cantinhos empoeirados da casa. E limpá-los como se fosse o cérebro e o coração dominados pelo medo.

fique-em-casa

2

O velho despertador soa frenético e se sacode no horário de sempre: mais um dia de trabalho. Em poucos minutos, de roupa limpa, cara amassada, xícara de café na mão, pão com manteiga, sério, magro, ansioso. Deposita a xícara na pia, no mesmo movimento pega a marmita e coloca na mochila. Um beijo distraído no rosto de mulher, um tchau quase inaudível, a porta que se fecha depois de deixar entrar o ar ainda frio e úmido da madrugada.

Na rua outros vultos silenciosos: um bando de mascarados apressados em direção ao ponto de ônibus. Que chega quase lotado. Alguns sentam, outros agarram firmemente as barras de apoio, aos poucos o ar se aquece, as máscaras sufocam, o rodar dos pneus embalança os corpos até o próximo solavanco.  Ninguém fala, as cabeças vão projetando filmes particulares: imagens de casa, de conversas, planos de trabalho, advertências de saúde, expectativas. A costurar as imagens aquela frase inútil do ”fique em casa”, tão inútil quanto os inúteis que ficam em casa e não trabalham, ou dizem que trabalham num tal de romófice.

Se ficasse em casa, poderia estar mais seguro, mas a quem poderia recorrer se perdesse o emprego no açougue? Já foi tão difícil seu Amadeu me contratar. Se eu disser que vou ficar em casa, posso assinar a demissão, pensava Delvair. O filme na cabeça reprisava as imagens de queixas da mulher, de pedidos chorosos do filho, de bolsos vazios, de caminhadas sem fim em busca de emprego, de idas inúteis à agência do trabalhador, de noites em claro. “Fique em casa!”: isto é coisa pra riquinho ou pra aposentado.

O terminal ferve de gente. Lá na frente uma fila pra passar álcool em gel. Já que tem que andar pelas ruas, um pouco de cuidado tem que ter: a tevê insiste nisso. Ainda vai andar uns quarteirões até chegar ao trabalho. É gente andando pra todos os lados, todos muito próximos, alguns sem máscara. É confiar em Jesus e seguir em frente.

Seu Amadeu no caixa parece ficar menos ansioso quando Delvair entra. Imediatamente o rapaz veste avental e gorro e vai pro fundo do açougue começar a fatiar a carne e separar o que vai para o balcão e o que fica na geladeira.

Hoje a carne veio bonita, parece macia. Corta, limpa, separa. Algumas peças vão temperadas pro churrasco da moçada. E o dia corre em trabalho, mal tem tempo de almoçar, de beber uma água, de lavar as mãos. Ainda bem que os fregueses voltaram: se continuasse aquela venda mixuruca talvez perdesse o emprego. Agora não.

Seu Amadeu liga a tevê e lá pelo meio do noticiário, um jornalista com cara de tragédia anuncia que o número de infectados subiu, que é preciso aumentar os cuidados, que talvez fosse melhor fechar o comércio. Tá louco, o privilegiado! Lá no estudiozinho com ar condicionado, terno elegante, voz macia, sorriso colgate, lá tudo pode. Mas a vida real é esta aqui: se não sair, não trabalha. Se não trabalhar, não põe comida na mesa, nem filho na escola. Vivem todos no mundo da lua, como dizia meu pai.

Hora de ir para casa. Mesmo caminho, mesmo terminal, mesmo ônibus lotado, mesmos perigos. Em casa um afago no filho, um beijo rápido na mulher, um jantar de luxo (seu Amadeu lhe deu uns retalhos de carne), um pouco de futebol na tevê e cama.

Logo o despertador vai tocar. Ele vai levantar e fazer tudo igual. Talvez lá pela frente tenha um encontro marcado com o tal coronavírus. Isso será uma quebra da rotina, uma novidade. Ou talvez a última novidade.