Tocando as mesmas teclas

Marta Morais da Costa

Tem manhãs que são como holofotes sobre o nada. Muito trabalho e pouco resultado aproveitável.

Tem manhãs que são como roseiras em flor: o trabalho rende umas flores miúdas e bonitas, mas muito, muito espinho.

Tem manhãs que são como show de hard rock: muita luz, fumaça, barulho, maquilagem e gritos como se fosse música. O resultado? Cabeça à roda, corpo moído.

Tem manhãs com gosto de café, de terra molhada por chuva fininha, de sabiá cantando a alegria de filhotes. Dá vontade de escrever.

Hoje novamente foi assim.

Foto por Kaboompics .com em Pexels.com

O que veio para a ponta dos dedos foi uma cantilena antiga, ciranda de volta e meia, partitura toda de cor e ação, sons arcaicos, ritmo em dobras e voltas, ideias de voltas e dobras.

É que o assunto era a formação de leitores, “pra toda vida” dizem os utópicos; “na prática de sala de aula” pedem os ansiosos; “pra meus alunos deixarem os tabletes e os celulares” rogam os desiludidos.

O café, a chuva e o sabiá sonorizam e aromatizam a escrita. Só que ela vem dizer quase que o mesmo de anos passados porque o presente não soube ou não quis ver, ouvir, dançar junto, repartir.

Nas teclas já conhecidas o que surge é enumeração farta e aberta.

1 Gostar de ler é como amor feinho: leva tempo pra chegar, vem sorrateiro e fica morando pra sempre. Precisa de dois: olhares, recusas, balbucios, rubores, persistência. Mas quando chega, toma posse, instala-se, abre as janelas, purifica o ar e a alma.

Precisa de dois: eu e tu, tu e eu. Um livro e um leitor, apresentados em festa ou em velório. Presenteados: tu me envolves e eu recuo. Eu recuso, tu insistes. Tu demonstras e eu me calo. Eu te afasto, tu me cercas. Não te esqueço e tu me enlaças. Depois, cantam as harpas de Sião.

2 Formar leitores não é colocar em fôrmas. É estimular em alguém as formas de expressão, de extensão, de comoção. Formas são infinitas, pessoas são infinitas, livros são infinitos. Finita é a displicência, a ignorância, a desimportância e a falsa suficiência.

Precisa criar, rir, compartilhar, narrar e poetar o quanto não baste, nunca. Lançar ao ar as folhas da fantasia e as flores da sedução e esperar ansioso que elas caiam no colo de quem não sabia que as desejava tanto. Banir a tempestade das utilidades para um canto remoto; trazer no assovio a mutável imaginação para um namorico sob o leque da palmeira dançando com a brisa.

3 Leitura é infinda como as águas dos mares. Diversas em coloração, efêmeras em humores, fieis ao ir-e-vir constante, ora rasas-ora abismos, às vezes piscosas-às vezes perigosas, sempre maiores do que o tamanho de nossas vidas.

Quanto mais leio, mais releio. Quanto mais acumulo, mais devo. Quanto mais me despreza, mais me tem de joelhos. Quanto mais, quanto mais…

4 Um livro é uma máquina criada e movida por pessoas. Cadeia de gentes, seus elos são ares e olhares de quem pensa, age, recolhe e leva adiante. Elos de uma corrente que foi, é e virá. Diálogo entre tempos, têmperas e temperamentos. Corrente que integro e lego. O elo pequenino que sou suporta a torrente de todos os leitores.

O livro, indiferente ao meu afeto, segue, Casanova, em busca de mais amores.

12 comentários sobre “Tocando as mesmas teclas

  1. Jeovana Maybaum

    Adorei o texto, a magia da escrita está nas suas veias professora Marta. Ler nos dá asas, nos dá a oportunidade de viajarmos para outros mundos, nos ensina a vermos o mundo de uma outra forma. Ler é simplesmente maravilhoso!

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    1. Juliana, fico contente por receber seu comentário. Realmente, o Brasil não seria um país perfeito, mas poderia ter um futuro melhor se houvesse mais leitores de livros significativos, isso seria. Outro abraço com meu agradecimento pelo convite para participar do podcast. Tenha um bom Natal e que em 2022 possamos nos encontrar mais vezes, presencial ou virtualmente. Felicidades no trabalho e na vida pessoal.

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  2. Luiz Lucena

    Marta, você professa aquilo que é mais bonito e penoso dessa existência frágil: nossa vulnerabilidade. Uma riqueza da qual a gente insiste em se afastar. Obrigado!.🙏🏻

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    1. Luiz, gratíssima por seu inteligente comentário. A pandemia e a iminência de perdas me levaram a pensar, mais do que nunca, nessa vulnerabilidade. E também na urgente necessidade de registrar, de não deixar que somente os atos falem, mas que sejam secundados (e até priorizados) pelas palavras. Grande abraço, esperando a publicação de seu livro.

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