Marta Morais da Costa

Marta Morais da Costa

Seamus Heaney
À medida em que envelheço e esqueço nomes,
À medida em que minha incerteza nas escadas
É cada vez mais a vertigem
Da primeira vez de um grumete no cordame,
À medida em que o memorável chega ao fundo
Em direção ao irrecuperável,
Não significa que eu já não consiga imaginar
O leve balanço adverso, a inclinação do mundo
Como um vento renovado e a âncora pesada.
(HEANEY, Seamus. 100 poemas. Tradução de Luci Collin. Porto Alegre (RS): Isto Edições, 2023. p.177)
Ela havia aprendido que “só pelo amor vale a vida”. Ela associava a luminosidade da noite, com suas vias estreladas, as pratas lunares, a brisa noturna, aos escurinhos, às declarações de amor, aos gestos e aos corpos em contato. Criava cenários com rosas/lírios/dálias e verbenas/lavandas para perfumar em cômodos íntimos as descobertas do amor.
Não recusava olhares e palavras, desde que viessem acarinhados por afetos apaixonados e loucas imagens dos sentidos desatados em circunvoluções e redemoinhos em homenagem aos amantes.
Imaginava canções pragmáticas e hinos simbólicos ou realistas ao amor em todas as idades. A sonoplastia e a coreografia ficavam à escolha e ao pendor voluptuoso dos pares em danças em louvor a Afrodite, ou se o leitor preferir, a Vênus, em especial a Calipígia.
Quem é esta? De imediato esta escriba, em seu dedilhamento internético, vai buscar uma explicação que esclareça os leitores menos afeitos à estatuária grega. A cronista por vezes perturba a leitura com suas citações meio enigmáticas e com fumaças eruditas. Daí que sua dublê escrevente tem que fazer hora extra e trabalho fora de contrato para não deixar os poucos leitores dos textos da dita cronista sem um apoio para a compreensão da crônica.
Vênus ou Afrodite Calipígia “é uma famosa estátua romana antiga de mármore, que se acredita ser uma cópia de uma original grega mais antiga Seu nome significa literalmente “Vênus (ou Afrodite) das belas nádegas”. A estátua representa uma mulher seminua levantando seu peplo diáfano para cobrir seus quadris e nádegas enquanto olha para trás por cima dos ombros, talvez para admirá-las. O tema é convencionalmente identificado com a deusa Vênus, mas é igualmente possível tratar-se de uma mera mortal.”

Em meu passeio pela Wikipédia, passei de um olhar retrospectivo para um pedido de socorro a informações mais pé-no-chão sobre um uso mais científico e objetivo do nome dessa deusa e encontrei uma versão masculina para formar o par romântico. Um planeta.
“Vênus é considerado um planeta do tipo terrestre ou telúrico, chamado com frequência de planeta irmão da Terra, já que ambos são similares quanto ao tamanho, massa e composição. Vénus é coberto por uma camada opaca de nuvens de ácido sulfúrico altamente reflexivas, impedindo que a sua superfície seja vista do espaço na luz visível.”
Rabisquei os dois fragmentos explicativos em um perfumado papel de carta cor-de-rosa e enviei para ela, a enamorada, a que está em devaneios de amor perfeito. Para a cronista, mandei duas mensagens de whatsapp com os fragmentos encontrados a título de colaboração.
Nenhuma das duas declinou recebimento. Esta escriba aos poucos está se acostumando aos apagamentos de mentes obcecadas de amor e ao descaso de cronistas auto-confiantes.
Para minha total surpresa, chegou-me hoje às mãos, em artístico papel linho, a seguinte mensagem – já devidamente enviada à cronista:
Senhora escriba:
recebi sua mensagem com a informação sobre as duas Vênus, a feminina e a masculina.
Confesso que me comovi ao descobrir que minha crença inabalável no amor também contemplava um par de seres deste mundo: uma estátua e um planeta – não poderia ser uma planeta, já que a palavra termina com vogal feminina? A presença da deusa do Amor nomeando as duas existências só vem comprovar que estou certa em imaginar cenas e cenários dominados pelo afeto amoroso.
Agradeço.
(a) Ela
A cronista até hoje não havia se manifestado.
Eis senão que recebo um e-mail – formato já meio em desuso, atestando a possível idade provecta da autora cronista.
Prezada senhora escrevente,
venho lhe comunicar que terminei de redigir esta crônica e solicito que seja devidamente registrada em palavras e frases, parágrafos e pontuação, da forma que vai anexa a esta mensagem.
Sem mais, reitero meu desejo de que não seja alterada nem uma vírgula do que escrevi. E declaro extinto nosso contrato.
(a) Cronista
Reproduzo, conforme recebimento:
Ela era uma romântica inveterada. Passava noites à janela, admirando a Lua, a chuva, as estrelas. E pedia às entidades celestes que a abençoassem com um amor, mesmo que frágil, mas infinito enquanto durasse.
Seus pedidos se intensificavam quando brilhava no céu a Lua azul. Como os astros são indiferentes aos desejos humanos, os anos se passaram, ela se cobriu de rugas e cabelos brancos, mas o amor não bateu à sua porta.
Em noites de Lua cheia, é possível distinguir seu perfil na janela do apartamento do pequeno e envelhecido prédio, hoje cercado de altos edifícios que lhe roubaram até a visão sem horizontes da Via Láctea e da Lua de diferentes cores.
Marta Morais da Costa
Marta Morais da Costa

Em noites de super-Lua, me surpreendo em repentes de nostalgia e recordação de tempos idos. Deve ser porque a nada cândida hospedeira de São Jorge e de seu dragão de estimação manda em nosso humor feminil.
Ah, as mulheres!! Nada de “piuma al vento”, esse instrumento de suave agressão masculina ao querer definir nossa desafiadora multidimensionalidade e diversidade cambiante por excesso de interesses! Somos capazes de viajar em pensamento por diferentes rotas e em diferentes veículos e sempre chegar a um ponto único de destino: o de nossa sagaz e autóctone satisfação com a vida.
E sem deixarmos de ser dramáticas, apaixonadas e eternas sofredoras ficcionais.
Mas o assunto não era esse universo feminino genérico e meio exagerado. A super-Lua continua a brilhar e a objetividade bate à porta. Do que mesmo você tratar em seu texto, ó cronista divagante?
Algo a ver com nostalgia. Em minha índole conservadora – neste estágio da vida, devidamente enrijecida – os objetos são presenças quase íntimas devido ao longo tempo que convivem comigo. Ainda cumprem suas funções, meio cansadinhos, com visual que envergonha meus filhos.
– Mãe, que tal trocar o liquidificador? Você ainda tem esse celular lento? Sabia que existem panelas de inox? Câmbio mecânico, mãe?
Pois é, como são Jorge continua lá, não deixa seu cavalo e nem faz amizade com o dragão, meu carrinho também não visita outras garagens, nem quer saber de um pezinho menos leve para pisar em sua embreagem ou uma mão mais magra pra repousar sobre o volante de direção.
Mas o carrinho garboso precisa de periódicas revisões, cada vez em períodos mais curtos. Por isso, telefono pra oficina e me atende seu Jorge (outro):
– Ah, a senhora vai trazer pra revisão? Ainda é o mesmo carro?
Aquele ainda quase rompeu minhas coronárias. Nem tive coragem de perguntar se o ainda era curiosidade, ironia ou deboche. Vai que fosse esse último…Daí até o coração iria à falência.
– É seu Jorge, é o mesmo. (um pouco de rosa forte no rosto: ainda coro como velha adolescente) . Intimamente jurei pra mim: será a última revisão, seu Jorge. Vou trocar de carro.
Essa conversa e seus protestos de renovação aconteceram no mês passado.
Meu belo corcel agora tem um motor silencioso, a troca de marchas parece acontecer na maciez de um carinho, os pneus deslizam suavemente, até a buzina ficou mais forte. Mágica de um certo Jorge.
Como posso trocar esse velho amigo? E essa super-Lua falando de amores e entusiasmos? Quase que sozinho, o carro estaciona no mesmo espaço da garagem, se duvidar dentro das mesmas medidas de largura e comprimento do piso. Volta pra casa e vai descansar.
Quem sabe no próximo ano eu procuro um novo carro? Depois de uma última revisão, viu, seu Jorge?
Marta Morais da Costa

Depositou o chaveiro sobre a mesa. Não porque fosse deixá-lo à vista para não perder. Não porque fosse um peso a menos no bolso. Também não para demonstrar propriedades a que pudesse acessar diretamente. Talvez para demostrar a ela sua condição de proprietário, de posses garantidoras do futuro, de acesso a muitos lugares todos seus ou sob sua responsabilidade. Duas chaves podem abrir poucas portas: dezenas delas abrem portas de respeitabilidade e poder.
Distraidamente ela passeou os olhos sobre o molho de chaves. Fixou-se no chaveiro, uma gasta tira de couro com argolas, que reuniam diferentes tamanhos e formas de chaves. Os olhos deslizaram do molho para a mesa, em imbuia escura e aparentemente sólida. Viajaram até as paredes camufladas por um simples papel colorido lembrando flores impressionistas.
– Qual é sua resposta? – indagou com aparente calma e disfarçada curiosidade.
– Preciso responder agora? – ela retornou com dissimulada ingenuidade.
– Sim, precisa. Dependo dela para decidir meu futuro.
– Se for positiva?
– Inicio os preparativos.
– Se for negativa?
– Sairei de sua vida.
– E um talvez?
– Certamente não se aplica à minha pergunta.
– Então, dois minutos mais. Por favor.
Num aparente gesto descuidado, ele bateu delicadamente com os dedos no molho de chaves e as deixou mais visíveis para ela. Sobressaíam as chaves novas, brilhantes, maiores. As pequenas e coloridas, montavam o cenário para as protagonistas. O tempo escorreu por entre os interstícios do chaveiro.
– E então?
– Bem, sabe… pensando bem… minha resposta é não.
– Tem certeza?
– Absoluta.
– Lamento. Muito.
Juntou o chaveiro, as chaves tilintaram em despedida, a escorrer lágrimas de metal. Sumiram no bolso e ele sumiu na esquina, apagando-se do cenário.
Ela continuou sentada à mesa, semblante decidido, olhos secos e fixos em uma das flores do papel de parede. Sem portas nem chaves. Apenas a luz filtrada pela janela aberta, que não precisa de chaves. Mas que não dispensa a luz e a lua.
Marta Morais da Costa
A literatura é avassaladora. Em sua natureza e na produtividade. A força invasiva no pensamento do leitor – para a mudança e para a permanência – da natureza própria da literatura e a reprodução incontrolável de escritos, livros e formas de transmissão. São aspectos que recebem a atenção dos estudiosos e escritores, e, acima de tudo, se tornam objeto de discursos extremos e delirantes.

Freio de mão e pé no chão pode ser uma receita para dias de turbulência, como os recentes. Não se trata de jogar na vala geral da polarização: a causa é mais complexa.
A polarização é resultado e pode dispensar o conhecimento. Entra em ação a “ignorância artificial”, assunto tratado com inteligência e alta qualidade textual por Eugênio Bucci em sua recente coluna no jornal “O Estado de São Paulo” (https://www.estadao.com.br/opiniao/eugenio-bucci/sobre-a-ignorancia-artificial/), essa rede de ideias pré-formatadas e empurradas goela abaixo de gentes crédulas, de boa e má-fé.
Faz parte do cardápio dessa ignorância artificial os recentes casos de censura de livros, acentuadamente os de literatura infantil. O perigo de atribuir a personagens (afinal, seres imaginados em um mundo de invenção) que não são o vizinho da direita, o irmão do dono da casa da esquerda, o pedestre que atravessa a rua, a mulher no banco de espera do ônibus ou a colega de trabalho.
As narrativas passaram a ser consideradas manuais de comportamento, menus de atitudes, publicidade de valores morais e por aí afora. Desenquadram-se de uma cronologia histórica, viram textos escritos neste momento e com personagens atuais.

Nunca objetos de compartilhamento de opiniões diferentes, ouvidas e respeitadas de hoje e do tempo de seu autor. A opinião já nasce vestida em armadura e armada até os dentes. Ninguém contextualiza na história da literatura. A narrativa ou o poema se transforma, na interpretação falsamente crítica e intencionalmente tendenciosa, em uma bula de remédio para as necessidades cotidianas dos leitores, como resolver conflitos familiares, exemplificar o que é bulling, disfarçar a depressão, consolar da morte do animal de estimação. Literatura é antes de tudo arte e invenção. Textos voltados à didática da vida escanteiam a literatura e privilegiam sua utilidade prática.
A violência da personagem, que, na narrativa infantil, via de regra, termina por ser condenada e penalizada, passa a ser entendida como uma lição comportamental, ou seja, uma ordem: faça assim ou imite a personagem, leitor ingênuo!
Quem faz uma reflexão sobre a sociedade violenta e de valores hipócritas? Pronto, está declarada guerra ao texto provocador. Melhor censurar a literatura (essa libertina que deseduca) do que trabalhar em prol da compreensão do problema em suas dimensões diversificadas e na adoção de atitudes que o solucionem.
Falta a esses censores deseducados um enfrentamento de seus medos que a literatura vem desvendar. Quanto do medo adulto se manifesta nos pedidos de retirada de livros de literatura das estantes (tão raras e pobres) das bibliotecas escolares? Quanto de má pedagogia existe que silencia sobre a censura ou esquece seu papel de favorecer a compreensão da história e da vida, latente no texto censurado? Quanto de jornalismo sensacionalista está nas manchetes que anunciam mais um livro censurado, sem que trate com a devida inteligência a natureza do texto literário e as questões de interpretação? Lembrar que a interpretação resulta sempre de um histórico de leitura e não de ideias/valores projetados desrespeitosamente sobre o texto.
Reconheço como é meritória a preocupação dos pais com a formação psíquica e emocional de seus filhos. Reconheço como a escolha de livros é, por vezes, resultado de gentes que não têm formação adequada para realizá-la. Reconheço que existem equívocos na mediação da leitura literária (por presunção, prepotência ou desconhecimento dos mediadores: exceções à parte). Reconheço que há muito livro ruim circulando como se fosse literatura de qualidade humana e estética. Reconheço que existem erros no tratamento e na adequação de livros a seus leitores mirins. Mas me pergunto: o que fazem os atores/agentes desses equívocos? Dialogam, trocam argumentos, propõem soluções? Não. É mais fácil censurar. Propostas de cadeia para o livro e não de livros em cadeia para desenvolver o pensamento e a interlocução!
Mas não são apenas os leitores que desaparecem a cada pesquisa sobre o status da leitura no Brasil. Somem leitores qualificados e aparecem os profetas do caos. Saem a beleza e a força da literatura e passam a vigorar os estatutos dos medos e o obscurantismo.
Proibir atiça o desejo. Talvez seja uma boa propaganda para leitores curiosos.
Enfim, não é apenas a educação institucionalizada que vai mal…
Marta Morais da Costa
A palavra apego, embora de origem latina pela forma verbal adpegare, tem sido uma constante no léxico do idioma falado no Brasil. Não por sua versão positiva: apego como sentimento de afeição, de simpatia, de dedicação e estima. Mas especialmente por sua forma negativa, dita e escrita em forma afirmativa, quando não imperativa: desapego e desapegue.
Em sua versão recente é uma palavra tangencial de livre-se, livramento, fique mais leve, passe adiante. E aí os objetos diretos da frase ou do complemento nominal (desapego de…) podem estar contidos nos mais diversos campos semânticos: coisas, pessoas, sentimentos, ideias.
Desapegue de suas roupas sem uso, desapegue dos sentimentos frustrantes, desapegue de pessoas pessimistas ou fofoqueiras e até o extravagante e abusado desapegue dos livros que já leu, que ainda não leu, que jamais lerá.
É um tal de distribuir, dividir, compartilhar, livrar-se do que foi atado e que compõe a base sólida e segura de sua vida, para lançar-se a novas bases a serem, por sua vez e futuramente, desapegadas.
Para algumas pessoas desapegar-se é apenas trocar os móveis e tapetes, livrar-se dos eletrodomésticos antiquados (sem timer nem lâmpadas led), colocar em outras mãos tudo aquilo que um dia foi uma sinalização, uma identificação e a memória pessoal.
Desapegar é um ato heroico e um grito de liberdade. Em termos. Cortar laços, representados por objetos e pessoas, não é (ou não deveria ser) uma atitude inócua, irresponsável, desestruturante. Um lançar o passado na bacia das almas, apagar as provas do vivido, esquecer os exemplos de um tempo, talvez mais feliz.
Desapegue, dizem tantos: reconheça que eram coisas e pessoas efêmeras em sua vida, trocados que a atualidade da abastança despreza e destrói. Eram fúteis, vaidades tolas, pecados a serem escondidos. Desapegue rapidamente, antes que a hesitação habite seu desejo ou sua obediência. Lance longe, encaixote e envie sem remetente, cubra, embrulhe, despache. Sem remorsos, vire as costas ao que estava e não é mais, abra asas de liberdade e voe para o novo, o diferente, o que não era e passa a conviver com você.
Assim, tendo a alma leve e o passo rápido, entre em um novo mundo de consumo e povoe sua casa, sua vida e seus afetos como um renascer. Isso tudo não deixa de ser um apelo imantado, irrecusável, embriagador.
Algo como a água de uma fonte de juventude e um eldorado existencial.
Coragem: deixe os vinis rodarem ladeira abaixo, ponha no freezer do esquecimento os presentes de casamento, as lembranças de viagens, os desenhos dos filhos-crianças, os livros que guardam pó e peso nas estantes, as imagens dos amigos da escola, da formatura emocionante, do primeiro beijo, ah, e os documentos com mais de cinco anos de emissão!
Crie um marco zero em sua caminhada, alivie seu coração dos afetos do bem, do remorso e da culpa. Ponha tudo em uma caixa bem decorada, feche com fitas e enderece para uma rua ladrilhada onde sua vida passou.
E voe mais leve e mais vazio.


Minha mãe está fazendo 100 anos neste 31 de maio. Mesmo que não esteja em nenhum cômodo do apartamento, mesmo que não precise de agasalhos contra o frio (ela, que sentia muito frio nos pés e nas mãos), mesmo que dispense bolos e abraços, mesmo que não esteja sorrindo aos ver os filhos reunidos e os netos a chamar vovó. Mesmo que não atenda aos telefonemas para, com dificuldade de audição, ouvir a resposta a seu rápido alô.
Essa mãe, forte para parir e criar seis filhos, hoje tem uma força sobrenatural, em outro estágio, em outra dimensão. E continua presente na história que construiu em nós e conosco. Continua a sorrir, a aconselhar, a contar suas histórias, a lamentar a hora da despedida quando ultrapassávamos a porta de saída e a se queixar da vida presente, tão confusa, tão incompreensível, tão diferente.
Sabe, mãe, somente convivi com você 77 anos desse centenário que você comemora longe de nós. Não conheci você no tempo de sua infância, meninice e juventude, mas elas vieram com suas histórias do tempo passado fechar lacunas, dar a conhecer um pouco do que você viveu.
A gente é assim mesmo: o que não vivemos também se torna nossa história pela voz dos outros.
Por isso, mãe, aquela plaquinha de comemoração de seu centenário não existe, apenas ficou como palavras em seus ouvidos e na minha intenção. Faz mal não, mãe! Este bilhete não substitui a plaquinha e as homenagens. Mas igual a elas, fala de meu agradecimento por tudo que herdei, de corpo e de caráter. E de quanto sinto sua falta.
Parabéns, mãe! Você viverá muitos e muitos anos mais enquanto vivermos: meus irmãos, seus netos e bisnetos, genros e noras e todos os amigos que você fez na vida. Eles lembram com afeto da vó Pierina, da tia Pierina e da dona Pierina: as muitas mulheres que você foi.
Ah, aí ao lado do pai (esse centenário rapaz elegante e bonito), diz para ele que ele também faz falta e que ser órfão só é bom em romance que acaba bem. Pra valer, orfandade dói, dói.
Beijos e feliz aniversário!
Marta Morais da Costa
Em tempo de redes sociais, a felicidade mora em todos os tempos e lugares da vida. Um historiador do futuro ao olhar para este começo atormentado do século 21 e ao estudar suas fontes documentais visuais estará fadado a um trabalho insano, destemperado e sem conclusão. Haja fotos inumeráveis e vidas com registros de costumes e modas e poses e caras e caretas!
Poderá estudar cenários (cenográficos muitas vezes), trilhas musicais, dancinhas, ambientes, objetos e um sem número de marcas e testemunhos dos tempos de hoje. Irá se deleitar com a cínica, narcísica e patológica busca da felicidade contínua e com fios desencapados.
Terá ainda vasto material de memórias pessoais e coletivas em publicações que tangenciam o infinito. Nesta festa de exibições, quero expor minha parte no partido dos leitores compulsivos.
Passeando pela internet, cheguei a uma citação que gostaria de tomar como ponto de partida para uma rápida reflexão:
“Não sou capaz de dizer que obra ou que autor inoculou em mim o vício da leitura, porque nasci entre livros, milhares deles. Meu pai tinha estantes espalhadas por várias partes da casa, inclusive na garagem.”
ALBERTO MUSSA, escritor brasileiro

Isso é que é nascer em berço esplêndido! No paraíso dos eleitos leitores! Algo com que eu nunca sonhei, nem em minhas noites mais perfeitas e com iluminação onírica.
Não sei bem o que é uma iluminação onírica, mas gostei da combinação. Penso ser uma expressão que expande seus significados. Talvez algo contrário à escuridão dos pesadelos e suas dores implícitas. Talvez sonhos que de tão lindos vêm com iluminação de primeira, como se fosse um toque de Beto Bruel e sua genialidade com refletores, gelatinas e painéis de controle. Sonhos que podem parecer um cenário de Barbie, visitado pelo Ken dos livros e da leitura. Enfim, uma iluminação espiritual em que a claridade do paraíso vem acompanhada pela musicalidade dos cânticos angélicos.
Seja como e o que for, a declaração de Alberto Mussa sobre uma casa-estante (ou seriam estantes-casa?) desabou sobre minha história e abriu com cunhas de inveja e de descoberta uma percepção de felicidade tipo Instagram. É possível alguém nascer entre livros? A felicidade mora em milhares de livros? Então é possível ser inoculado pelo vício da leitura por meio da biosmose com as estantes?
Em minha profissão, tão livresca e livreira, como a dos escritores, encontrei não-leitores em famílias abastadas e de biblioteca doméstica razoável, além de um cartão de crédito generoso que aceitava também a compra de livros. Encontrei leitores famintos e desejosos, olhando com cobiça para as vitrinas de antigas livrarias (hoje, são telas digitais), com os bolsos vazios, a cabeça a inferir narrativas na impossibilidade de as ler concretamente. Encontrei leitores escarrapachados em bancos, poltronas, beirais de janelas, no assoalho das ditas livrarias antigas, absortos viajantes de livros que podiam ler mesmo sem poder adquirir. Encontrei leitores, e a mim mesma, nos espaços de bibliotecas públicas, buscando, encontrando, emprestando, devorando os livros que o bolso vazio não conseguia manter nas tábuas-estantes do domicílio carente de pão, mesmo sonhando com poesia.
É possível uma casa com milhares de livros? Minha infância, como a de muitos leitores, costumava olhar as paredes e encontrar nos cantos mais desprezados dos armários apenas alguma dezena de volumes de uma pobre bibliografia escolar.
Talvez em algum tempo não tão longínquo, eu tenha associado um acervo volumoso com um acervo incomensurável de leituras, atestando “aqui está um leitor” ou “só daqui pode sair um leitor compulsivo”. Acabei aprendendo que ter livros não é ler livros. É apenas um indício de leituras. E indício não é prova, também aprendi.
A pandemia do monstruoso COVID 19 nos ensinou que até o cenário de livros podia ser apenas um pano de fundo cênico a indicar que o protagonista da fala da live exibia somente uma imagem de felicidade contínua, atestada pela quantidade de livros fakes.
Mas, mesmo fakes, as estantes pareciam escorar as falas, decorar a figura humana, anunciar uma iluminação desejosa. Porque ser leitor tem alto grau de feitiçaria potteriana, um incômodo clariceano prestes a irromper em criação, um alumbramento roseano a expandir o sentido das palavras, uma clareza (ou claridade) ítalocalvínica a iluminar o mundo e seus passageiros.
Diversamente de Alberto Mussa, minha infância não teve estantes e milhares era uma conta que eu não sabia fazer. Mas o vício da leitura, ah, esse sim, encontrou casa acolhedora, mimos e consistência.
Não tenho dúvida nesta etapa em que os anos de vida diminuem: a infância que não tive, eu a criei para mim. E milhares passou a ser meu cotidiano.
Marta Morais da Costa

Ilustração de Poty Lazarotto para Sagarana, de Guimarães Rosa.
Ao longo dos anos em que trabalhei com leitura e formação continuada de professores, não foram poucas as vezes em que eu surpreendia os olhares descrentes dos ouvintes diante de minha afirmação de que leitura não é prazer – assim, definitivo, moralista, fechado – e sim um trabalho, que requer operosidade de todos e de cada um dos leitores. Ou já cansados antes mesmo de iniciar o trabalho. Ou secos e áridos diante da necessidade de postergar as possíveis lágrimas de prazer. Ou demissionários antes da ação, dada a exigência de muito mais trabalho.
Era melhor promover na leitura do texto literário o imediato bem-estar da mesmice, o riso solto do trocadilho sediço, a inoperância da historieta desengonçada e sebosa do texto estereotipado. Nada do trabalho cuidadoso, exigente, minucioso, envolvendo corpo e Inteligência e repertório e reflexão e tempo estendido. Mais fácil a resposta primeira e já formatada. Mais fácil a emoção do arrepio do que a conquista do sentido pessoal e significativo.
Para não cansar leitores e mediadores, sobrevivem uma escola que patina em seus índices há mais de vinte anos e uma população à mercê de qualquer notícia falsa, mas espetacular; reféns de nem-nens e de espertalhões, submissas ao atraso e minimizando (ou pior, desdenhando) o conhecimento.
Um país que, mesmo mudando os parâmetros, perde leitores continuadamente, não pode crer nas palavras citadas a seguir, porque seria reconhecer a própria falência.
“Ler um texto não é tarefa simples, requer competência. Requer atenção, memória, concentração, capacidade de relação e associação, visão espacial, certo domínio léxico e sintático da língua, conhecimento dos códigos narrativos, paciência, imaginação, pensamento lógico, capacidade para formular hipóteses e construir expectativas, tempo e trabalho. Um texto é um constructo que é preciso desconstruir e reconstruir e isso exige esforço, embora não signifique que seja isento de prazer. Ler não é resolver uma palavra cruzada, mas é sim encontrar um sentido. O sentido não é a famosa mensagem da qual tanto se falou (ou mal falou) em outros tempos, ou melhor, não é uma mensagem que se desate do texto, mas a mensagem que é [o texto]. O sentido do texto não é algo que se acrescente ao texto, é, repito, o próprio texto. O texto é parte invariável da leitura, o seu pilar, e o espaço comum de todas as leituras, e o fato de que estas sejam variáveis e diferentes não procede de nenhuma qualidade imanente, mas sim dos diversos fatores que se cruzam e entrecruzam durante o processo de leitura.”
(Constantino Bértolo. O banquete dos notáveis: sobre leitura e crítica. Livros da Matriz, 2014)