Uma trança de desastres

Marta Morais da Costa

Assim como há temporada de pesca da tainha, do festival de cinema francês, das feiras de livro e dos eventos culturais e literários de Parati, existe a temporada dos resultados de pesquisas. Geralmente eles são divulgados ao final do ano, para que nós, não entrevistados e curiosos, tenhamos a oportunidade de ficar estarrecidos e desanimados, prontos a pensar no Ano Novo como um ano de redenção. “Nada será como antes, amanhã” vem lá do streaming a voz de Milton Nascimento, na parceria com Ronaldo Bastos.

A grita dos leitores interessados nos assuntos se junta à dos jornalistas em suas notícias diárias, efêmeras como as chuvas de verão. Amedrontam e passam. Enquanto durar a maciez do pãonosso do noticiário de tododia, nos horrorizamos e esquecemos senilmente em 48 horas.

Aproveitando que dois pães acabaram de sair do forno, vou montar um petisco com uma lâmina fina de cada um. Comida para o cérebro a ser digerida por estômagos fortes, daqueles de quem passa fome todos os dias e come pão com pedra, desde que em lascas translúcidas.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA divulgado há menos de três dias reafirma o que já se sabe desde o ano 2000: em leitura, ciências e matemática, os estudantes brasileiros de 15 anos colocam o Brasil e seu sistema de educação na zona de rebaixamento, pesquisa após pesquisa. As alterações de uma pesquisa para a outra são tão pequenas que é como o salário mínimo: sobram R$10 reais em um mês, no seguinte faltam R$30 reais e, noves fora, falta nota no final da formação escolar, assim como faltam recursos financeiros em cada balanço anual do trabalhador.

Não basta saber que em leitura, 66% dos alunos brasileiros mal conseguem entender um texto de 10 páginas – limite máximo. Este dado levado a sério poderia colaborar com o reflorestamento da Amazônia: um decreto poderia estabelecer que no Brasil somente fossem editados livros com no máximo 10 páginas para serem utilizados nas escolas. Reunindo com a pouca ou nenhuma escrita, os cadernos teriam minguadas 10 páginas também. Seria a contribuição brasileira para a crise climática.

Talvez nem esta diminuição proteja nossos alunos porque entre os alunos que leram textos de no máximo uma página, só 6% atingiram o patamar 3 na média geral do PISA, que é 6 no nível máximo.

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Em matemática, bicho-papão da escola, segundo o jornal Folha de São Paulo,  73% dos alunos brasileiros de 15 anos não sabem entre outros conhecimentos:

  • “resolver problemas com porcentagem, frações e números decimais;
  • resolver tarefas que envolvam questões do cotidiano, sem que o cálculo necessário seja apresentado no enunciado do problema;
  • elaborar estratégias de solução, incluindo as que exigem tomada de decisão sequencial ou flexibilidade na compreensão de conceitos familiares; (…)
  • resolver tarefas que exigem a realização de vários cálculos diferentes, mas rotineiros, que não estão todos claramente definidos no enunciado do problema; (…)
  • interpretar e usar representações baseadas em diferentes fontes de informação e raciocinar diretamente a partir delas, incluindo tomada de decisão condicional usando uma tabela de duas vias.” (Folha de São Paulo, 6dez2023)

Se os referidos alunos foram entregues pelos pais às escolas desde a educação infantil, podem ter em sua biografia 15 anos de idas diárias à escola. Esse cálculo, transformado em tempos de aula, subjugou esses adolescentes a milhares de horas que não resultaram em aprendizado.

Mais lamentável é saber que quase nunca são os alunos os únicos responsáveis por sua desaprendizagem. A sociedade em sua configuração global, a família e os profissionais da educação se digladiam em acusações mútuas, enquanto o Titanic da educação submerge ao som da orquestra desafinada de uma ignorância generalizada.

Ler sem entender, ler sem se estender para além do mínimo dos mínimos, calcular sem saber usar o raciocínio fora de esquemas abstratos, matemática ilusória e de uso cerebral restrito não são assuntos extraordinários, mágicos, escalofobéticos e esotéricos. Fazem parte intrínseca de um país obsceno, que veste os trajes de discursos de palanque e não consegue esconder a nudez de um sistema que aleija e queima intelectualmente os cérebros que construiriam um país melhor. E elimina a esperança de que o gigante, adormecido a golpes de ignorância, acorde.

Eu falava em duas lâminas: uma a do PISA. A outra, mais fina, mais genérica, igualmente dolorosa é a pesquisa realizada pela Nielson Book Data, a pedido da Câmara Brasileira do Livro, que quantificou os números relativos à compra de livros no Brasil: 84% dos brasileiros não compram livros. Nem um. Nem unzinho.

E nem frequentam bibliotecas, fontes de livros em formato de empréstimo.

Sem livros e sem biblioteca. Um país anterior à chegada da família de D. Maria, a Rainha Louca em 1808. Mesmo que já circulassem alguns livros, importados da Europa, mas que ficavam em acervos individuais, tão restritos, que eram cobiçados até pelos inventários e herdeiros.

Hoje que estão disseminados, popularizados, acessíveis, inumeráveis, são desprezados. Melhor pensando: nem o período anterior a 1808 se compara ao deserto de livros de hoje. Algumas bibliotecas de fancaria, reveladas pelas lives da pandemia, são bem o retrato dos livros no Brasil. Servem para simular status intelectual. Não para serem lidos. Uma fantasia de carnaval, um pênalti simulado no futebol, a esquálida imagem da mulher romântica leitora em um pedaço de jornal que embrulha o peixe do almoço.

Talvez o gigante nem queira acordar em um cenário tão depressivo.

Armário

Marta Morais da Costa

Foto por Markus Spiske em Pexels.com
ARMÁRIO 
Dentro dele se escondem
os brinquedos esquecidos.

A porta do armário
parece a entrada 
da caverna de Ali Babá.

Lá dentro tesouros me esperam.

O carrinho de rolimã
vermelho brilhante 
e o Pinóquio de madeira
com braços articulados
companheiro de tantas horas
no tempo do eu menino.

Aquele laço de fita
da boneca Zazá
que tanta falta faz
na sua cabeça careca
faz minha irmã Rita
rir até inundar os olhos.

Meu pião de madeira
que mal aprendi a rodar,
mas que guarda na fieira
o suor da mão de meu pai.

Aquela casa de porcelana
pintada em arco-íris
trazida por tia Beatriz
da distante Alemanha.

Estavam no armário 
esquecidos
e voltaram para alegrar
este dia cinzento de chuva.

Se amanhã o sol sair,
voltam a repousar 
e a ser esquecidos.

Bom mesmo é poder retornar
a esses tesouros escondidos,
como um pirata bandido
assaltando armários-caverna
pela saudade movido.

Dá arrepios de dó*

Marta Morais da Costa

  • Olhar para a casa do joão-de-barro que, por falta de proteção, mudou-se para a periferia. Talvez seja obrigado a voltar.
  • Reencontrar o jardim da casa de infância transformado em pátio de estacionamento, todo revestido de concreto e sujo de manchas de óleo.
  • Descobrir que o tempo apagou aquela tímida mensagem escrita a lápis dizendo que eu era a razão de sua vida.
  • Vasculhar absolutamente todos os recantos e caixas e pacotes e gavetas e não recuperar aquela foto de debutante em que alguém escreveu: “pose de miss, corpo de miss”.
  • Descobrir naquela primeira edição rara do romance experimental de Valêncio Xavier que as traças- leitoras o devoraram.
  • Verificar que os apelos cenográficos e hipócritas levam mais pessoas a acreditar em ideias absurdas do que os sábios e sua ciência da vida conseguem persuadir.
  • Encontrar entre as pedras do quintal o corpo da sabiá-cantora, mutilado a pedras de um estilingue de um menino que considera a natureza sua posse exclusiva.
  • Ver na smart TV LED, 65 polegadas, sistema 8 K, Dolby Audio, a derrubada veloz e definitiva das árvores centenárias da Amazônia.
  • Ouvir dois dias e noites a fio o uivar do cão dos vizinhos, preso em casa enquanto eles se divertem na praia.
  • Saber que, no restaurante de luxo, a comida jogada no lixo alimentaria famílias famintas em casas, apartamentos e casebres da cidade que habito.
  • Conhecer a realidade da leitura neste país: onde ela inexiste, prolifera a ignorância, mãe dos crimes e das tragédias; onde ela existe, prolifera a preguiça, a linguagem pobre e a recusa do livro denso.
  • Constatar que, em meados do século passado, a remuneração de juízes de primeira instância e de professores se aproximava. Hoje há anos-luz de diferença entre eles.
  • Passear os olhos pelo Instagram, Tik tok e outras leseiras, denominadas por cabeças encartoladas de “redes sociais”, e descobrir que as pessoas se envergonham de serem fotografadas lendo: preferem biquínis, músculos e cenários.
* Dó, dor, doença, 
tormento sofrimento, 
pesadelo, desconforto, 
angústia, agonia.

Estar bem, estar mal

Marta Morais da Costa

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Ou será: não há mal que sempre dure, e bem que nunca se acabe? Seria otimista e asseguradora a primeira frase? Seria mais moralizadora a segunda? Afinal, ficam no ar e na mente as últimas palavras da frase, e as primeiras precisam ser pescadas de volta. O bem que nunca permanece e se vai com as esperanças de alívio existencial, deixando um rastro de perda acentuada, esse parece combinar melhor com as notícias que nos abalam desde as primeiras horas da manhã.

Em cada nascer do dia, juro a mim mesma que vou encarar a vida de forma mais leve, porque, afinal, ela está cada dia mais curta. Mas é promessa falsa como nota de três reais ou, atualizando, como discurso político em trem elétrico, em palanque desabante ou nas redes-de-sócios.

Por exemplo, levar uma mala leve em viagem lépida de leva-e-traz. Rir sem me preocupar com a foto que me registra mais amalucada, dançar em horas incomuns e de forma despreocupada, sem modismos e gestos previsíveis. Maratonar aquela série moderninha de mortos-vivos (e são muitos os de verdade) ou bocejar nos filmes de márveis voaçantes e sempre-os-mesmos. Levar o cartão de crédito para o shoppping  e voltar com a conta quase zerada e uma tonelada e meia de sacolas, cheias de badulaques.

Afinal o que é leveza na vida? Consulto psicanalistas, geriatras, astrólogos, minha sábia mãezinha, aquela amiga amadurecida pela experiência, búzios e livros: o que vem a ser vida leve?

As respostas demonstram o quanto o bem e o mal, além de efêmeros, são um bocado diferentes em cada analista e testemunha. A vida é leve quando só faço o que me dá prazer. Ou o que me deixa feliz e em paz. Ou a sensação que me invade depois de atitudes de desapego: de coisas, de desafetos, do passado, de culpas – mesmo que apenas supostas.

Leve como o ar, as borboletas, os pássaros, os lírios do campo. Leve como Julieta, Orfeu, Eros. Leve como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Leve. Leve.

Tambores ressoam: leve pode ser forma de levar. Levar a vida leve. Levar da vida o que é breve. Levar na vida o que me faz levitar: um carinho, um sorriso e aquele lugar. Oi, leva eu(minha saudade)/ Eu também quero ir/quando chego na ladeira/ tenho medo de cair”, na canção de A. Cavalcanti e T. Guimarães, de outras levas .

Será que se pode afirmar que não há vida pesada que não se acabe, nem vida leve que sempre dure? Ou invertendo posições?

Talvez Lenine:

“Há de ser leve
Um levar suave
Nada que entrave
Nossa vida breve
Tudo que me atreve”

De acordo, poeta. Mas onde acho essa utopia de nenhum entrave? Olhei em volta, indaguei, passei pente fino na biografia, lavei as sujeiras do presente e do passado, botei o coração “comovido como o diabo” e travei o exterior. Aí pesou, num viste? Ficou leve e sem sal, tipo arco-íris fugaz, voltei pra mim e decidi: vou enfrentar o mal que acaba e o bem que não perdura.

Afinal leveza é para os anjos e santos, e eu habito muito longe deles. No meio de trovões e tempestades. O peso na alma não acalma, nem alivia. Mas tem dias que a leveza trava e fica lado a lado com a fadiga. E por alguns momentos, seguem juntas, “mão na mão, pé no chão”, cada qual com seu tempo de duração e juntas tecendo o compasso da vida: breve, tensa, leve, densa, breve, tensa, leve, densa…

Foto por Pixabay em Pexels.com

“O QUE É A ÁGUA? UMA ANEDOTA DE FOSTER WALLACE

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Eis porque gosto de ler aos meus alunos, no início de cada ano académico, uma passagem de um discurso apresentado por David Foster Wallace aos finalistas do Kenyon College, nos Estados Unidos. O escritor — morto tragicamente em 2008, aos quarenta e seis anos —, em 21 de Maio de 2005, conta aos seus alunos uma breve historieta em que são magnificamente ilustrados o papel e a função da cultura:

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”Dois jovens peixes vão nadando, e a certa altura encontram um peixe já velho que vai em sentido oposto, lhes faz um gesto de saudação, e diz: “Vivam, rapazes. Que tal está a água?”. Os dois peixes jovens nadam mais um pouco, e depois um vira-se para o outro e diz: “Que raio de coisa é a água?””

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O próprio autor nos dá a chave para interpretar a sua história: “a essência da historieta dos peixes é, simplesmente, que as realidades mais óbvias, omnipresentes e importantes são muitas vezes as mais difíceis de compreender e de debater”. Tal como os dois peixes jovens, nós não nos apercebemos daquilo que é realmente a “água” em que vivemos cada minuto da nossa existência. Efectivamente, não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos, a cultura e a instrução, constituem o líquido amniótico ideal em que as ideias de democracia, de liberdade, de justiça, de laicidade, de igualdade, de direito à crítica, de tolerância, de solidariedade, de bem comum, podem conhecer um desenvolvimento vigoroso.”

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— NUCCIO ORDINE (Calábria, 18 de Julho de 1958 — 10 de Junho de 2023), professor, filósofo e crítico literário italiano, in “A Utilidade do Inútil”, Faktoria K de Livros, Kalandraka Editora Portugal, 2017 (reimpr.), p. 31-32.

Vem me contar…


Vem me contar,
gestos, sorriso e voz
as histórias de belos finais
de príncipes e camponesas
de campônios e suas princesas
enlaçados e felizes para sempre.

Vem me contar
entre o gemido e o espanto
no ricto do horror e da revolta
as histórias sangrentas de guerras urbanas
de desvalidos e até graduados
de presos e liberais, justos e marginais,
tombados nas ruas e lixeiras
de um país trucidado e trucidante.

Vem me contar
antes que o tempo acabe
e a alma em desalento apague
as histórias secretas repugnantes
de conluios, trapaças e saques,
(de quem sem arma mata,
com sorrisos de traição,
com verborreia falsificadora)
inoculados nas veias safenas
de um país de impunes gloriosos
e de operários sem construção.


Marta Morais da Costa

“De volta pro meu aconchego”

Marta Morais da Costa

Tem algo mais gostoso quando, ultrapassado um período de distopia, voltamos, mesmo que de modo fugaz, a um estado de acomodação à rotina? Buscamos nesse reencontro as forças do passado para um salto à frente, ousado, se possível mais feliz.

O som que ouço imaginariamente nasce de Dominguinhos e Elba Ramalho, em gravação conjunta de “De volta pro meu aconchego”, em uma das demonstrações da força e poesia de nossa música popular:

É duro ficar sem você, vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.

Aquele viver intenso de pulmões, olhos e coração no reencontro da cidade natal, da casa em que se morou na infância, no encontro com aquele velho e querido amigo desgarrado pelos caminhos divergentes da vida, a visão daquela foto de quem invadiu nosso coração e nele gostosamente se instalou – mesmo que por um tempo efêmero. Afinal o amor pode ter dias contados ou décadas encadeadas: no fundo, lá no âmago, é o mesmo “fogo que arde sem se ver”.

O aconchego da roupa caseira, o toque, as marcas do uso constante, o desbotado de cores que se perderam no tempo.

O odor do tempero cotidiano da comidinha frugal, sem harmonizações amadeiradas ou de frutas vermelhas e tabaco, sem talheres de prata e porcelana chinesa: o prato de cada um, do seu jeito e gosto, que conhece até a quantidade necessária e a disposição dos alimentos em seu interior.

A geografia da casa, quase tão imutável quanto o Himalaia, os cantos onde sabemos que se aninham aranhas e os vãos mais escondidos onde o pó fez sua morada. A mancha no assoalho a lembrar do dia em que, por descuido ou intenção…

Os objetos em sua disposição costumeira, a esperar aquele dia especial, em que a vontade assume ares de amena loucura e desaba sua disposição de mudar o cenário, de desapegar, de trazer ao ambiente outras visualidades e enquadramentos. Mas pra que tudo mude, é preciso que tudo esteja no mesmo lugar.

É desse paradoxo que vive o aconchego: saber que pode ter sido quase duradouro, quase eterno. Ao nos receber, entretanto, o aconchego se apresta às boas vindas, mas ele mesmo se prepara para as boas idas, para as trocas, para o que terá uma encadernação nova.

O “pedaço de mim” reencontrado abalroa os demais pedaços que, ao regressarem, irão contaminar a expectativa de “felicidade sem fim”. Porque felicidade é assim: fugaz, finita, incompleta, desaconchegante. Uma utopia.

Mas o que é a vida senão visões utópicas em choque com fatos distópicos?

Tal qual a literatura, a superação sucede ao fracasso que sucedeu ao desejo utópico. Na gangorra de perdas e ganhos, ora me alteio, ora desabo.

Neste momento, especialíssimo, alegro-me em “estar contigo de novo”, porque, afinal, da vida noves fora, essa é “a paz que eu gosto de ter”.

Foto por NHP&Co em Pexels.com

George Orwell: Por que escrevo.

George Orwell. Porque escrevo e outros ensaios.  Tradução Cláudio Marcondes. Companhia das Letras, Penguin, 2021     126p.

“Por que escrevo”: Orwell dá como justificativa da escrita o “puro egoísmo”, o “entusiasmo estético”, o “impulso histórico” e o “propósito político”.

“Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e bem no fundo de seus motivos há sempre um mistério. Escrever um livro é uma luta terrível e exaustiva, como o longo acesso de uma enfermidade dolorosa. Ninguém empreenderia nada do tipo se não fosse impelido por algum demônio, ao qual não se pode resistir nem tampouco compreender. Até onde se sabe, esse demônio é simplesmente o mesmo instinto que leva um bebê a berrar por atenção. E, no entanto, também é verdade que não se pode escrever nada legível a não ser que se lute constantemente para apagar a nossa própria personalidade. A boa prosa é como a vidraça numa janela. Não posso afirmar ao certo quais dos meus motivos são os mais fortes, mas sei qual deles merece ser seguido.” (p.19)

No escurinho da gaveta do tempo

Marta Morais da Costa

O avanço do tempo de vida traz amarguras e algum consolo. Não me abandone, caro leitor, pensando que vou falar das tristezas e dores da velhice! Vou não.

Já deixei essa baba de tristeza em tantos textos… E voltarei a deixar, não tenho dúvida. Mas hoje eu quero falar de outras marcas do tempo.

Descobri que cada vez mais gosto de esquecer. Principalmente esquecer onde guardo coisas. Aliás, coisas-objetos é o que mais acumulamos ao longo do tempo. Só perde em quantidade para os amores.

Onde deixei aquele colar de contas marinhas que ganhei da Anita? Minha cabeça anda avoada: esqueci onde deixei a chave que abre a porta do armário com os presentes das bodas de prata! Em que caixa guardei aquelas fotos da viagem ao México? Meu filho pediu emprestado o cabo HDMI para que ele possa ter acesso ao streaming de filmes: sei que coloquei em algum lugar da casa, mas onde?

Não pense, leitora crítica, que se trata de desorganização mental ou doméstica. Tenho lugares e caixas e baús e gavetas e armários etiquetados para facilitar a identificação dos conteúdos e me poupar o tempo absurdo de sair procurando pelos cantos da casa. Que nem são tantos assim, dada que a casa é um pouco mais do que abrigo para duas pessoas. Trata-se, antes de tudo o mais, de lapsos de organização. Foi naquele segundo antes de pegar o carro e sair meio atrasada para o compromisso: larguei na primeira gaveta que encontrei. Mas em qual delas? 

O telefone chamou justo na hora em que estava com o rolo de barbante na mão: deixei em algum lugar para depois colocar no armário dos utensílios de uso imediato. Mas onde foi esse lugar?

O recibo do pagamento do imposto que trouxe do banco ficou dentro de qual livro? Coloquei na pasta de documentos adequada? Deixei na gaveta do armário junto com as compras e as notas de caixa, para depois dar um destino correto?

Mas mesmo nessa mixórdia cerebral, há dias em que resolvo dar um basta na bagunça. Para que servem as etiquetas senão para organizar o caos? Levanto da cama, ponho primeiro o pé direito no chão, lavo o rosto com o melhor dos sabonetes e enxugo om a mais macia das toalhas. Um trato caprichado no cabelo – rebelde, como sempre – e macacão de operário para dar conta do que, sei, será um trabalho braçomemorial dos bons!

Caderneta para registrar achados e destiná-los à etiqueta correta. Luvas para abrir gavetas sem temer picadas ou beliscões. Chaveiro de mordoma de mansão de 400 quartos. Óculos de proteção contra pó de guardados, mas com lentes de aumento para ler até as letras minúsculas de antigos impressos perdidos em arcas de tesouro. Uma garrafa de água Perrier para enfrentar a sede de organização com um pouco de classe. E um enorme cesto com compartimentos simétricos (olha a virginiana aí, gente!) para ir acomodando os achados-ex-perdidos. Ah, e um belo capacete colonial, daqueles de explorador inglês na Índia; afinal, caçar perdidos merece ser feito com aplomb.

Foto por Francisco Jacquier em Pexels.com

Aí é que vem a consolação, anunciada lá em cima.

Já na primeira gaveta reencontro aquele convite para aquela festa naquele clube onde começou aquela doce amizade. Embaixo dele, a chave do baú de bijuterias que era pra ser de minha neta, mas sem chave, nada feito. Agora já tenho um presente de aniversário completo! Que consolo!

No armário, lá no fundo, fundinho, amassado feito pele de mulher centenária (quase eu), o mil vezes execrado recibo de pagamento da última prestação da bicicleta (hoje parada  e enferrujando no porão) que tive de pagar duas vezes, porque não consegui comprovar. Estava lá, dormindo, aconchegado debaixo do cachecol tri-invernal que deveria ter ido para doação no tempo em que Curitiba tinha inverno.

No pacotinho de celofane guardado com cuidado dentro da caixinha de madrepérola, que abrigou um dia o anel de casamento, a mecha de cabelos de meu filho primogênito, que eu havia prometido dar a ele no dia em que completasse 40 anos, isto é, há uma década e meia atrás!

Mas a descoberta que mais mexeu com meus brios, com a memória falha, com a passagem voraz do tempo, foi a do presente em papel de seda e fita de cetim de um par de brincos comprados em Helsinki para aquela prima apaixonada pela Finlândia, lugar que não teve tempo de conhecer. Brincos guardados para quem não teve tempo também para receber e usar. Escondidos para não alimentar a dor da ausência.

Eu escrevi lá em cima algo sobre consolo. Não lembro mais em que parte deste texto. Não faz mal. Você, leitora atenta, deve saber melhor do que eu onde deixei essa palavra.

Como dizia minha mãe, se está perdido dentro de casa, um dia aparece. O consolo é que esse passado que retorna, sem cobertura, às claras, na levada do tempo, vem embebido de histórias e afetos. Reavê-los é como voltar atrás, viver novamente, querer outra vez.

Hieróglifos da vida.