Ex-pesos pesados ou A cultura vai aonde o povo está

Marta Morais da Costa

A professora Liana Leão postou uma mensagem no whatsapp no dia 24 de janeiro de 2024 reproduzindo a notícia saída no jornal com a seguinte manchete: “Busto de Nelson Rodrigues é levado do cemitério”. Seria irônico, se não fosse trágico.

Do mesmo Cemitério de S. João Batista em novembro de 2023 roubaram a estátua fúnebre de Cláudio de Sousa, outro dramaturgo, autor de “Flores de sombra”, fundador e um dos presidentes da Academia Brasileira de Letras.

O busto de Nelson Rodrigues pesava apenas 120 quilos e a imagem de Cláudio, mais de cem quilos. O teatro pesa muito.

Aliás, os ladrões devem ter, além de outras qualidades técnicas, uma boa capacidade de leitura: dramaturgo que escreva peças denominadas “A falecida”, “Viúva, porém honesta”, “Senhora dos Afogados” e um livro de contos “A coroa de orquídeas” deve estar pedindo para que os ladrões entrem no cemitério na ex-calada da noite (hoje todas as noites são do balacobaco) e satisfaçam a morbidez do escritor levando-lhe o busto de alto peso (o preço vai embutido) para aliviar seu – do Nelson Rodrigues – espírito mórbido.

Refiro-me aos títulos, porque, tenho absoluta certeza, os larápios não leram uma linha sequer da obra do autor. São os leitores que inferem dos títulos não apenas o enredo, mas a vida e a visão de mundo do escritor. Se tivessem lido algumas das obras do dramaturgo, conheceriam uma morbidez mais complexa, que ultrapassa a carne rota e poeirenta dos cemitérios e invade a alma de perversos e criminosos homens bárbaros. Mulheres inclusas.

Ao pó mais abjeto voltarão esses que desacreditam da arte, inútil em sua perquirição das almas, mas acreditam no vigor da alma bronzeada de míseros reais dos ferros-velhos, úteis para outros enlevos, estes, sim, mortais.

Cláudio de Sousa não teve melhor sorte. Começou sua carreira de dramaturgo escrevendo “Mata-a ou ela te matará” em 1896. E selou a sorte de sua imagem póstera mais de um século depois. Um título desses conduz mesmo ao cemitério! Escreveu um ensaio biográfico, “Os últimos dias de Stefan Zweig”, e agora, deveria voltar para escrever sua autobiografia póstera depois de mais uma morte simbólica na ladroagem da imagem de bronze de uma centena de quilos.

No entanto, diga-se a bem da verdade, Cláudio de Sousa fez e faz rir na maioria de suas dezenas de peças teatrais e em seus relatos e ensaios. E em “Flores de sombra” foi de uma delicadeza poética fascinante ao escrever sobre os infinitos enredos sutis do amor. Tivessem os ladrões lido suas obras entenderiam melhor o espírito galhofeiro dos cariocas e suas infinitas tristezas escondidas nas máscaras do carnaval e no exibicionismo carnal – futuro pó –  das praias.

O desaparecimento (e quem sabe, o derretimento) dessas esculturas de dois intelectuais brasileiros de destaque seja o retrato volátil e efêmero de uma desgraça brasileira da atualidade: o desprezo dos vivos pela história cultural e o menosprezo dos vivos com qualquer elemento, componente e/ou assunto que lembre de longe um palavrão dos mais reprováveis: cultura.

R.I.P.

155

Foto por Pixabay em Pexels.com

Marta Morais da Costa

 

155 gramas. Em dez dias! Já comecei uma das minhas eternas promessas de Ano Novo.

Cada subida na balança (equivalentes a um degrau médio) implica a perda de 0,0012 calorias. Passo o dia subindo, enraivecendo, me deprimindo e descendo da balança. Hoje, já perdi nela exatas 0,08 calorias.

Li recentemente no jornal (a leitura consumiu 0, 000002 calorias) que mais vale uma dieta com alimentos equilibrados e com qualidades nutritivas do que a contagem de calorias/dia. Sou fã número 1 da matemática – o que não me impediu de trabalhar a vida toda com literatura, só para contrariar os que dizem que preferem o curso de Letras porque detestam Matemática. Pobrezinhos! Ops, isto é preconceito? Se for, apaguem e substituam por “otários”. Dizia eu de minha preferência pelo conhecimento dos números e de seus raciocínios sofisticados. Portanto, vou continuar contando calorias, c.q.d.

Quando adolescente pensava que o mistério mais misterioso do mundo estava contido na sigla c.q.d. Naquele tempo heroico, c.q.d. significava “como queríamos demonstrar”. Nesses tempos  audazes,  eu me julgava uma matemática do porte de Descartes, Euclides e Poincaré quando usava esse verbo na primeira pessoa do plural. Totalmente incluída.

E olha que naquele tempo não entravam em sala de aula calculadoras nem o Google e muito menos a IA!!! Era tudo no célebro (sic), na ponta do lápis e no cuspe da borracha!

Meu professor de Matemática, fumante inveterado em sala de aula, vestido à moda de o-que- estiver-à-mão-eu-visto, meio desligado da vida real (depois dizem que isso acontece só com poetas), mas um bamba com equações de todos os graus, inclusive os da crise climática atual. Amável no trato docente e satúrnico na avaliação das provas. Temido e execrado por 98% das alunas. Um grande professor grande.

Aprendi com ele e carreguei pelo resto da vida: não sou capaz de ajudar a resolver a “Equação diofantina x³+y³+z³=k”, mas surpreendo comerciantes, balconistas e vendedores de seguros, e até gerentes de banco, porque uso a cabeça para resolver porcentagens, as quatro operações, frações e, se duvidar, até medidas de cortinas e terrenos. Só não consigo c.q.d. porque os professores ganham menos do que os juízes e os militares.

Meu médico endocrinologista estabeleceu, de forma descrente, o quanto eu preciso consumir de calorias diárias para perder 500 gramas ao mês. Dobrei a aposta e consegui, em longos 30 dias, perder 465 gramas! Calculo que no andar dessa carroça eu consiga celebrar meus cem anos pesando mais do que pesava no ano passado! Vou ficar devendo dietas e cálculos retumbantes para a próxima encarnação…

Por essa enrolação toda, quem me lê sabe que lá vem decisão existencial, daquelas que mudam o mundo e meu entorno. É isso mesmo: abdiquei de luxo e riqueza, abdiquei de joias e viagens, renunciei aos restaurantes estrelados Michelin, às churrascarias de rodízio pantagruélico, às confeitarias mais badaladas, aos menus de chefs cinco estrelas, às espigas de milho na praia e aos quilos de pinhão assado na chapa no fogão à lenha da minha avó (herança que minha irmã conserva e engrandece). Mas não renuncio à minha balança algoz: será a minha cota de contribuição com a purgação dos pecados do mundo.

Começando pelo maior de todos, a gula, que me adotou e tem me mimado ao longo de décadas. Afinal, ela me ama e me faz companhia. Na carência de bons sentimentos na crise humanitária atual, não dá pra desprezar um amor assim.

Neste novo ano, iremos as três – a gula, a balança e eu – carnavalizar 2024, enquanto as pernas e os pés aguentarem e o rebolado não acabar com os quadris.

Evoé, meu povo!

Natal, outra vez: três personagens à procura de uma mensagem.

Marta Morais da Costa

PERSONA A – Minha gente!

PERSONA  J- Acho tão aconchegante e inclusivo esse “minha gente”!

PERSONA  Z – Tão comum…

PERSONA A – O Natal está chegando e eu gostaria de escrever uma mensagem a você, meus amigos.

PERSONA  J – Eu também. Mas teria que ser uma mensagem fora do esperado.

PERSONA Z – “Fora do esperado”? Ih, lá vem texto em linguagem experimental…

PERSONA A – Dizer de meu afeto e de quanto vocês são imprescindíveis na minha vida.

PERSONA J – Eu sabia”! Lá vem a linguagem acadêmica. Imprescindível é do tempo do uniforme de normalista.

PERSONA Z – Afeto é bom e está na moda. Quero ver encaixar a vida toda na mensagem.

PERSONA A – Já sei! Como se diz hojemdia: Amo vocês!

PERSONA  J- Eita, que fofura mais gratuita!

PERSONA  Z – Amar pode ser tanta coisa ou ser apenas uma fala apressada e, na essência, banal. Tô achando que é a segunda.

PERSONA A – Não, não gostei! Melhor dizer que estou sonhando com um Natal de paz e vocês estão na origem dela.

PERSONA  J- Ééé, só pode ser paz sonhada. Ali, no vamos ver, é guerra o tempo todo!

PERSONA  Z – Sonhar não custa, mas também não paga.

PERSONA A – Que seja um Natal de luz e de brilhos!

PERSONA  J- Tipo árvore de Natal, né, fofa?

PERSONA  Z – Luz de pisca-pisca.

PERSONA A – Que neste Natal vigore o sentido primeiro da palavra: nascimento para uma nova vida.

PERSONA  J- Mais linguagem acadêmica: só faltou usar “etimologia” no lugar de sentido primeiro.

PERSONA  Z – Taí um desejo bonito: a oportunidade de recomeçar.

PERSONA A – Que as bênçãos do Senhor recaiam sobre todos, em especial sobre os pequenos, os fracos, os necessitados, os fragilizados.

PERSONA  J- Agora sim: gostei dessa abrangência. Me lembra “Boas Festas”, de Assis Valente. É canção tipo “pare e pense”.

PERSONA  Z – Essa democracia toda ainda não vi por aqui…Só em mensagem  de Natal.

PERSONA A – Amigos, neste final de ano, quero renovar os laços de nossa amizade, compromisso que me faz tanto bem.

PERSONA  J- Bonito! Estou solidária neste afeto tão enternecedor, comovente, prazenteiro, jubiloso e humano, que é a amizade. Ah, a academia!

PERSONA  Z – Faltou objetividade. Sugiro: Feliz Natal, amigos!

Foto por George Dolgikh em Pexels.com

Peter Burke. Ignorância: uma história global.

Marta Morais da Costa

Estava eu posta em sossego aposentadorial quando li o anúncio do lançamento de um livro do historiador Peter Burke. O título veio ao encontro de uns pensamentos meus, meio mórbidos, sobre o assunto: Ignorância. Uma história global. Tornou-se imediatamente um sonho de consumo.

Traindo meu amor por livrarias, entrei no site proibido e catei esta maçã do Bem e do Mal, trazendo num voo de alcíone o livro pra perto de mim.

Não o devorei porque o prato é suculento, substancial, substantivo. Consumi aos poucos, até porque a quantidade de informações é para um banquete pantagruélico.

Cá esteve durante dias comigo o livro sobre a ignorância escrito por Peter Burke em edição de 2022 pela Yale University Press, traduzido por Rodrigo Seabra  e  pela editado Vestígio, com uma apresentação bacana de Renato Janine Ribeiro. Coisa fina, que só vem reforçar em mim o Sócrates de “Só sei que nada sei.”

Degustei, terminei, dei tempo para uma deglutição lenta – meu médico me ensinou que é como devo ler a vida. Hoje, desejo atendido, leitura assimilada, brotou a vontade de escrever sobre o livro.

O que posso dizer de um livro que tem a seguinte dedicatória? “Para os professores deste mundo, heróis e heroínas na tentativa diária de remediar a ignorância.” Não tenho razão de cair de amores por ele?

Ponho aqui o sumário do livro na esperança de fisgar outros leitores para darem vida a seus conteúdos.

Parte I: A ignorância na sociedade

  1. O que é a ignorância?
  2. Filósofos e a ignorância
  3. Ignorância coletiva
  4. Estudando a ignorância
  5. Histórias da ignorância
  6. A ignorância da religião
  7. A ignorância da ciência
  8. A ignorância da geografia

Parte II: Consequências da ignorância

9. A ignorância na guerra

10. A ignorância nos negócios

11 A ignorância na política

12 Surpresas e catástrofes

13 Segredos e mentiras

14 Futuros incertos

15 Ignorando o passado

Conclusão: o novo conhecimento e a nova ignorância

Peter Burke faz deste um livro daqueles que não nos deixa do mesmo tamanho intelectual ao seu término. Sua leitura conduz a verbos como aprender, ampliar, questionar. Os exemplos históricos são, ao mesmo tempo, informações, advertências e material para reflexão.

A primeira parte se responsabiliza por, didaticamente, conduzir o leitor pela mão para fazê-lo vislumbrar os campos vastos da ignorância e das intenções de mantê-la viva e acesa para disso tirar proveito. É um painel amplo e comprovado de que a ignorância não é somente desconhecer fatos e procedimentos em áreas do saber humano. Ela é, acima de tudo, um instrumento ideológico e um recurso de resultado quase seguro para reduzir o humano em nós.

A segunda parte, mais dolorida para a leitura e conhecimento, mostra, com minúcias, fotos e ampla bibliografia, o porquê de catástrofes que se abateram sobre povos e civilizações, bem como abre um amplo espectro de perguntas a respeito do que poderá ser o futuro à nossa frente. E até mesmo o quanto esse futuro pode ser retrógrado.

O Brasil está presente em vários momentos do livro e quase nunca com sua face “risonha e  franca”. Nada de futebol, carnaval e praias deslumbrantes.

Também não estão no livro apenas fatos de um passado milenar. Até a pandemia de SARS Covid 19 estende seu manto maléfico na forma do negacionismo da ciência.

Evitando intencionalmente dar um spoiler da obra, estas poucas palavras são antes um convite para a leitura, um convite para refletir e lutar nas hostes daqueles que, com ou sem diploma, educam, combatem por vezes com poucos recursos e forças a ignorância.

Sugestão de leitura:

Peter Burke. Ignorância: uma história global. Tradução Rodrigo Seabra. São Paulo: Vestígio, 2023.

Uma trança de desastres

Marta Morais da Costa

Assim como há temporada de pesca da tainha, do festival de cinema francês, das feiras de livro e dos eventos culturais e literários de Parati, existe a temporada dos resultados de pesquisas. Geralmente eles são divulgados ao final do ano, para que nós, não entrevistados e curiosos, tenhamos a oportunidade de ficar estarrecidos e desanimados, prontos a pensar no Ano Novo como um ano de redenção. “Nada será como antes, amanhã” vem lá do streaming a voz de Milton Nascimento, na parceria com Ronaldo Bastos.

A grita dos leitores interessados nos assuntos se junta à dos jornalistas em suas notícias diárias, efêmeras como as chuvas de verão. Amedrontam e passam. Enquanto durar a maciez do pãonosso do noticiário de tododia, nos horrorizamos e esquecemos senilmente em 48 horas.

Aproveitando que dois pães acabaram de sair do forno, vou montar um petisco com uma lâmina fina de cada um. Comida para o cérebro a ser digerida por estômagos fortes, daqueles de quem passa fome todos os dias e come pão com pedra, desde que em lascas translúcidas.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA divulgado há menos de três dias reafirma o que já se sabe desde o ano 2000: em leitura, ciências e matemática, os estudantes brasileiros de 15 anos colocam o Brasil e seu sistema de educação na zona de rebaixamento, pesquisa após pesquisa. As alterações de uma pesquisa para a outra são tão pequenas que é como o salário mínimo: sobram R$10 reais em um mês, no seguinte faltam R$30 reais e, noves fora, falta nota no final da formação escolar, assim como faltam recursos financeiros em cada balanço anual do trabalhador.

Não basta saber que em leitura, 66% dos alunos brasileiros mal conseguem entender um texto de 10 páginas – limite máximo. Este dado levado a sério poderia colaborar com o reflorestamento da Amazônia: um decreto poderia estabelecer que no Brasil somente fossem editados livros com no máximo 10 páginas para serem utilizados nas escolas. Reunindo com a pouca ou nenhuma escrita, os cadernos teriam minguadas 10 páginas também. Seria a contribuição brasileira para a crise climática.

Talvez nem esta diminuição proteja nossos alunos porque entre os alunos que leram textos de no máximo uma página, só 6% atingiram o patamar 3 na média geral do PISA, que é 6 no nível máximo.

Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Em matemática, bicho-papão da escola, segundo o jornal Folha de São Paulo,  73% dos alunos brasileiros de 15 anos não sabem entre outros conhecimentos:

  • “resolver problemas com porcentagem, frações e números decimais;
  • resolver tarefas que envolvam questões do cotidiano, sem que o cálculo necessário seja apresentado no enunciado do problema;
  • elaborar estratégias de solução, incluindo as que exigem tomada de decisão sequencial ou flexibilidade na compreensão de conceitos familiares; (…)
  • resolver tarefas que exigem a realização de vários cálculos diferentes, mas rotineiros, que não estão todos claramente definidos no enunciado do problema; (…)
  • interpretar e usar representações baseadas em diferentes fontes de informação e raciocinar diretamente a partir delas, incluindo tomada de decisão condicional usando uma tabela de duas vias.” (Folha de São Paulo, 6dez2023)

Se os referidos alunos foram entregues pelos pais às escolas desde a educação infantil, podem ter em sua biografia 15 anos de idas diárias à escola. Esse cálculo, transformado em tempos de aula, subjugou esses adolescentes a milhares de horas que não resultaram em aprendizado.

Mais lamentável é saber que quase nunca são os alunos os únicos responsáveis por sua desaprendizagem. A sociedade em sua configuração global, a família e os profissionais da educação se digladiam em acusações mútuas, enquanto o Titanic da educação submerge ao som da orquestra desafinada de uma ignorância generalizada.

Ler sem entender, ler sem se estender para além do mínimo dos mínimos, calcular sem saber usar o raciocínio fora de esquemas abstratos, matemática ilusória e de uso cerebral restrito não são assuntos extraordinários, mágicos, escalofobéticos e esotéricos. Fazem parte intrínseca de um país obsceno, que veste os trajes de discursos de palanque e não consegue esconder a nudez de um sistema que aleija e queima intelectualmente os cérebros que construiriam um país melhor. E elimina a esperança de que o gigante, adormecido a golpes de ignorância, acorde.

Eu falava em duas lâminas: uma a do PISA. A outra, mais fina, mais genérica, igualmente dolorosa é a pesquisa realizada pela Nielson Book Data, a pedido da Câmara Brasileira do Livro, que quantificou os números relativos à compra de livros no Brasil: 84% dos brasileiros não compram livros. Nem um. Nem unzinho.

E nem frequentam bibliotecas, fontes de livros em formato de empréstimo.

Sem livros e sem biblioteca. Um país anterior à chegada da família de D. Maria, a Rainha Louca em 1808. Mesmo que já circulassem alguns livros, importados da Europa, mas que ficavam em acervos individuais, tão restritos, que eram cobiçados até pelos inventários e herdeiros.

Hoje que estão disseminados, popularizados, acessíveis, inumeráveis, são desprezados. Melhor pensando: nem o período anterior a 1808 se compara ao deserto de livros de hoje. Algumas bibliotecas de fancaria, reveladas pelas lives da pandemia, são bem o retrato dos livros no Brasil. Servem para simular status intelectual. Não para serem lidos. Uma fantasia de carnaval, um pênalti simulado no futebol, a esquálida imagem da mulher romântica leitora em um pedaço de jornal que embrulha o peixe do almoço.

Talvez o gigante nem queira acordar em um cenário tão depressivo.

Armário

Marta Morais da Costa

Foto por Markus Spiske em Pexels.com
ARMÁRIO 
Dentro dele se escondem
os brinquedos esquecidos.

A porta do armário
parece a entrada 
da caverna de Ali Babá.

Lá dentro tesouros me esperam.

O carrinho de rolimã
vermelho brilhante 
e o Pinóquio de madeira
com braços articulados
companheiro de tantas horas
no tempo do eu menino.

Aquele laço de fita
da boneca Zazá
que tanta falta faz
na sua cabeça careca
faz minha irmã Rita
rir até inundar os olhos.

Meu pião de madeira
que mal aprendi a rodar,
mas que guarda na fieira
o suor da mão de meu pai.

Aquela casa de porcelana
pintada em arco-íris
trazida por tia Beatriz
da distante Alemanha.

Estavam no armário 
esquecidos
e voltaram para alegrar
este dia cinzento de chuva.

Se amanhã o sol sair,
voltam a repousar 
e a ser esquecidos.

Bom mesmo é poder retornar
a esses tesouros escondidos,
como um pirata bandido
assaltando armários-caverna
pela saudade movido.

Dá arrepios de dó*

Marta Morais da Costa

  • Olhar para a casa do joão-de-barro que, por falta de proteção, mudou-se para a periferia. Talvez seja obrigado a voltar.
  • Reencontrar o jardim da casa de infância transformado em pátio de estacionamento, todo revestido de concreto e sujo de manchas de óleo.
  • Descobrir que o tempo apagou aquela tímida mensagem escrita a lápis dizendo que eu era a razão de sua vida.
  • Vasculhar absolutamente todos os recantos e caixas e pacotes e gavetas e não recuperar aquela foto de debutante em que alguém escreveu: “pose de miss, corpo de miss”.
  • Descobrir naquela primeira edição rara do romance experimental de Valêncio Xavier que as traças- leitoras o devoraram.
  • Verificar que os apelos cenográficos e hipócritas levam mais pessoas a acreditar em ideias absurdas do que os sábios e sua ciência da vida conseguem persuadir.
  • Encontrar entre as pedras do quintal o corpo da sabiá-cantora, mutilado a pedras de um estilingue de um menino que considera a natureza sua posse exclusiva.
  • Ver na smart TV LED, 65 polegadas, sistema 8 K, Dolby Audio, a derrubada veloz e definitiva das árvores centenárias da Amazônia.
  • Ouvir dois dias e noites a fio o uivar do cão dos vizinhos, preso em casa enquanto eles se divertem na praia.
  • Saber que, no restaurante de luxo, a comida jogada no lixo alimentaria famílias famintas em casas, apartamentos e casebres da cidade que habito.
  • Conhecer a realidade da leitura neste país: onde ela inexiste, prolifera a ignorância, mãe dos crimes e das tragédias; onde ela existe, prolifera a preguiça, a linguagem pobre e a recusa do livro denso.
  • Constatar que, em meados do século passado, a remuneração de juízes de primeira instância e de professores se aproximava. Hoje há anos-luz de diferença entre eles.
  • Passear os olhos pelo Instagram, Tik tok e outras leseiras, denominadas por cabeças encartoladas de “redes sociais”, e descobrir que as pessoas se envergonham de serem fotografadas lendo: preferem biquínis, músculos e cenários.
* Dó, dor, doença, 
tormento sofrimento, 
pesadelo, desconforto, 
angústia, agonia.

Estar bem, estar mal

Marta Morais da Costa

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Ou será: não há mal que sempre dure, e bem que nunca se acabe? Seria otimista e asseguradora a primeira frase? Seria mais moralizadora a segunda? Afinal, ficam no ar e na mente as últimas palavras da frase, e as primeiras precisam ser pescadas de volta. O bem que nunca permanece e se vai com as esperanças de alívio existencial, deixando um rastro de perda acentuada, esse parece combinar melhor com as notícias que nos abalam desde as primeiras horas da manhã.

Em cada nascer do dia, juro a mim mesma que vou encarar a vida de forma mais leve, porque, afinal, ela está cada dia mais curta. Mas é promessa falsa como nota de três reais ou, atualizando, como discurso político em trem elétrico, em palanque desabante ou nas redes-de-sócios.

Por exemplo, levar uma mala leve em viagem lépida de leva-e-traz. Rir sem me preocupar com a foto que me registra mais amalucada, dançar em horas incomuns e de forma despreocupada, sem modismos e gestos previsíveis. Maratonar aquela série moderninha de mortos-vivos (e são muitos os de verdade) ou bocejar nos filmes de márveis voaçantes e sempre-os-mesmos. Levar o cartão de crédito para o shoppping  e voltar com a conta quase zerada e uma tonelada e meia de sacolas, cheias de badulaques.

Afinal o que é leveza na vida? Consulto psicanalistas, geriatras, astrólogos, minha sábia mãezinha, aquela amiga amadurecida pela experiência, búzios e livros: o que vem a ser vida leve?

As respostas demonstram o quanto o bem e o mal, além de efêmeros, são um bocado diferentes em cada analista e testemunha. A vida é leve quando só faço o que me dá prazer. Ou o que me deixa feliz e em paz. Ou a sensação que me invade depois de atitudes de desapego: de coisas, de desafetos, do passado, de culpas – mesmo que apenas supostas.

Leve como o ar, as borboletas, os pássaros, os lírios do campo. Leve como Julieta, Orfeu, Eros. Leve como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Leve. Leve.

Tambores ressoam: leve pode ser forma de levar. Levar a vida leve. Levar da vida o que é breve. Levar na vida o que me faz levitar: um carinho, um sorriso e aquele lugar. Oi, leva eu(minha saudade)/ Eu também quero ir/quando chego na ladeira/ tenho medo de cair”, na canção de A. Cavalcanti e T. Guimarães, de outras levas .

Será que se pode afirmar que não há vida pesada que não se acabe, nem vida leve que sempre dure? Ou invertendo posições?

Talvez Lenine:

“Há de ser leve
Um levar suave
Nada que entrave
Nossa vida breve
Tudo que me atreve”

De acordo, poeta. Mas onde acho essa utopia de nenhum entrave? Olhei em volta, indaguei, passei pente fino na biografia, lavei as sujeiras do presente e do passado, botei o coração “comovido como o diabo” e travei o exterior. Aí pesou, num viste? Ficou leve e sem sal, tipo arco-íris fugaz, voltei pra mim e decidi: vou enfrentar o mal que acaba e o bem que não perdura.

Afinal leveza é para os anjos e santos, e eu habito muito longe deles. No meio de trovões e tempestades. O peso na alma não acalma, nem alivia. Mas tem dias que a leveza trava e fica lado a lado com a fadiga. E por alguns momentos, seguem juntas, “mão na mão, pé no chão”, cada qual com seu tempo de duração e juntas tecendo o compasso da vida: breve, tensa, leve, densa, breve, tensa, leve, densa…

Foto por Pixabay em Pexels.com

“O QUE É A ÁGUA? UMA ANEDOTA DE FOSTER WALLACE

.

Eis porque gosto de ler aos meus alunos, no início de cada ano académico, uma passagem de um discurso apresentado por David Foster Wallace aos finalistas do Kenyon College, nos Estados Unidos. O escritor — morto tragicamente em 2008, aos quarenta e seis anos —, em 21 de Maio de 2005, conta aos seus alunos uma breve historieta em que são magnificamente ilustrados o papel e a função da cultura:

.

”Dois jovens peixes vão nadando, e a certa altura encontram um peixe já velho que vai em sentido oposto, lhes faz um gesto de saudação, e diz: “Vivam, rapazes. Que tal está a água?”. Os dois peixes jovens nadam mais um pouco, e depois um vira-se para o outro e diz: “Que raio de coisa é a água?””

.

O próprio autor nos dá a chave para interpretar a sua história: “a essência da historieta dos peixes é, simplesmente, que as realidades mais óbvias, omnipresentes e importantes são muitas vezes as mais difíceis de compreender e de debater”. Tal como os dois peixes jovens, nós não nos apercebemos daquilo que é realmente a “água” em que vivemos cada minuto da nossa existência. Efectivamente, não temos consciência de que a literatura e os saberes humanísticos, a cultura e a instrução, constituem o líquido amniótico ideal em que as ideias de democracia, de liberdade, de justiça, de laicidade, de igualdade, de direito à crítica, de tolerância, de solidariedade, de bem comum, podem conhecer um desenvolvimento vigoroso.”

.

— NUCCIO ORDINE (Calábria, 18 de Julho de 1958 — 10 de Junho de 2023), professor, filósofo e crítico literário italiano, in “A Utilidade do Inútil”, Faktoria K de Livros, Kalandraka Editora Portugal, 2017 (reimpr.), p. 31-32.