A janela aberta

Marta Morais da Costa

Em frente ao teclado e à tela abre-se a ampla janela. A cabeça cede à urgência da escrita. À revelia dos comandos, a crônica nasce contestadora.

Eu queria escrever sobre a descoberta desanimadora de que quatro milhões e seiscentos mil brasileiros não quiseram ser leitores, segundo a recente edição do “Retratos de Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e o Itaú Cultural. Mas lá fora o sol ilumina a paisagem e impõe um desejo de sair, passear, encontrar a natureza.

Eu pensei em escrever sobre o processo de desertificação em curso no Brasil e na absoluta irrealidade em que vivem brasileiros e, em especial, os comandantes desta casa incendiada e desarvorada. Mas a janela aberta deixa passar uma brisa cálida e terna que abraça o corpo e o deixa acarinhado.

Preciso escrever sobre os mais de 137 mil brasileiros enterrados e silenciados por abandono e descaso neste país negacionista e cruelmente anti-solidário. País de festas e bares, de praias e inadiáveis compras. Um país em que as máscaras não são de pano nem de acrílico, são naturais e procuram disfarçar a hipocrisia. Mas através da janela descubro um ninho de pássaros na árvore da calçada, a me avisar que ainda há vida que vale a pena lá fora.

Estava em minha pauta escrever sobre o acobertamento da corrupção mais a roubalheira do dinheiro dos pagadores de impostos – pesando na cesta básica e no churrasco domingueiro, porém o caviar fica de fora. Neste país em que, podendo, muitos não se furtam em roubar e desmentir. Mas o esplendor das flores no jardim, anunciando a presença de mais uma primavera, capturam meus olhos com brilhos e cores e formas e beleza.

Eu preciso escrever sobre La Niña, sobre as crianças sem escola, sobre os adultos sem futuro, sobre a seca a mostrar arreganhada a terra em mosaico arenoso. Mas ao longe descubro um menino ciclista, a desafiar a gravidade e os cuidados maternos, e a fazer girar as rodas de sua nave espacial, sonhando com viagens sem tempo nem destino.

Eu queria – e precisava- escrever sobre a solidão, o medo, a dor da ausência, a vida parada no relógio e na folhinha, as frestas de esperança com a possiblidade de uma vacina, venha de onde vier. Vacina que dói em minha alma brasileira, ao saber que a nossa ciência está quase tão destruída quanto a imagem deste país entre nós e entre os outros. Mas o tempo da escrita pode ser um bálsamo momentâneo.

A janela aberta deixa passar os sons de uma música longínqua a falar que “felicidade é como a pluma/ que o vento vai levando pelo ar./ Voa tão leve/ mas tem a vida breve./ Precisa que haja vento sem parar.”

Deixo teclado, tela, computador e crônica em suas possibilidades e concretude. Vou até a janela reverenciar este breve momento de felicidade.

Foto por Alessio Cesario em Pexels.com

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