Albert Camus, cartas e laços.

Albert Camus (1913-1960) foi romancista, ensaísta, dramaturgo, filósofo e jornalista. Construiu sua obra baseado em um humanismo em que a consciência do absurdo da condição humana produz a revolta como uma resposta a esse absurdo. Entre seus textos há uma linha de pensamento filosófico desse absurdo presente na obra O mito de Sísifo (1942) , bem como nos romances O estrangeiro (1942) e A peste (1947) e peças de teatro como Calígula (1945). Em 1957 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Foi uma das mais importantes  consciências morais  do século XX. Faleceu em um acidente de automóvel em 1960.

Ao receber o Prêmio Nobel escreveu uma comovente carta de agradecimento a seu professor da escola primária, M. Germain Louis. A carta de Camus é conhecida. Menos acessível é a resposta de seu professor, de que não encontrei tradução em português e cometi a ousadia de traduzi-la do francês. A seguir as duas cartas.

19 de novembro de 1957

Caro Monsieur Germain,

Deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar-lhe de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno reconhecido. Eu o abraço com todas as minhas forças.

Albert Camus

Carta publicada em “O primeiro homem”, de Albert Camus. [tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca e Maria Luiza Newlands Silverira]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

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30 de abril de 1959

Meu querido menino,

Recebi, enviado por ti, o livro Camus, que o senhor J.Cl.Brisville houve por bem dedicar a mim.

Não sei expressar a alegria que me propiciou teu gesto gentil nem a maneira de te agradecer. Se fosse possível, eu abraçaria fortemente o rapaz que te tornaste e que seguirá sendo para mim sempre “meu pequeno Camus”.

Entretanto ainda não li a obra; apenas as primeiras páginas. Quem é Camus? Tenho a impressão de que aqueles que tentam decifrar tua personalidade não chegam a fazê-lo de verdade. Tu mostraste sempre um pudor instintivo em mostrar tua natureza, teus sentimentos. Tu consegues fazê-lo melhor quando tu és simples, direto. Bom demais! Estas impressões, tu me deste em sala de aula. O pedagogo que quer exercer com consciência sua profissão não negligencia nenhuma ocasião para conhecer seus alunos, suas crianças, e ele não cessa de o fazer. Uma resposta, um gesto, uma atitude são amplamente reveladores. Eu acredito, por isso, conhecer bem o rapaz gentil que tu eras, e o menino, frequentemente, contém em embrião o homem em que se tornará. Teu prazer de estar na aula revelava-se de todos os modos. Teu rosto expressava otimismo. E ao te analisar, eu jamais desconfiei da verdadeira situação de tua família, e não tive senão uma rápida percepção no momento em que tua mãe veio me ver a respeito de tua inscrição na lista dos candidatos a uma bolsa de estudos. Além do mais, isso ocorreu na ocasião  em que tu irias me deixar. Mas até aquele momento tu me parecias estar na mesma situação de teus colegas. Tinhas sempre tudo o que precisava ter. Como teu irmão, tu estavas adequadamente vestido. Acredito que eu não possa fazer um mais belo elogio a tua mamãe do que este.

Eu vi a lista crescente das obras que te são consagradas ou que falam de ti. E é uma satisfação muito grande para eu constatar que tua celebridade (é a exata verdade) não fez tua cabeça. Tu continuaste a ser Camus: bravo. Acompanhei com interesse as múltiplas peripécias da peça teatral que adaptaste e também montaste: Os possuídos. Gosto tanto de você que não me impediria de te desejar o maior sucesso: aquele que tu mereces.

Malraux quer, também, te oferecer um teatro. Sei que o teatro é tua paixão. Mas…conseguirás tu levar a bom termo e avante todas essas atividades? Temo que tu abuses de tuas forças. E, permita a teu velho amigo de observar, tu tens uma esposa gentil e duas crianças que necessitam seu marido e pai. A este respeito, vou te contar o que nos dizia às vezes nosso diretor da Escola Normal. Ele era muito duro conosco, o que nos impedia de ver, de sentir, que ele nos amava realmente. “A natureza tem um grande livro em que ela escreve minuciosamente todos os excessos que vocês cometerem.” Confesso que este sábio conselho me conteve muitas vezes no momento em que eu parecia esquecê-lo. Por isso digo, tente manter em branco a página que te foi reservada no Grande Livro da natureza.

Andréia me lembra que nós te vimos e ouvimos num programa literário da televisão, referente à peça Os possuídos. Era emocionante te ver respondendo às perguntas. E, apesar de mim, eu fazia a observação maliciosa de que tu não duvidavas que, finalmente, eu acabaria te vendo e ouvindo. Isto compensou um pouco tua ausência da Argélia. Não te vemos há tanto tempo…

Antes de terminar, quero te dizer o quanto me fazem sofrer como professor leigo, os projetos ameaçadores urdidos contra nossa escola. Acredito, ter respeitado ao longo de toda a minha carreira o que há de mais sagrado na criança: o direito de procurar a sua verdade. Eu vos amei a todos e creio haver feito todo o possível para não manifestar minhas ideias e não pesar assim sobre vossa jovem inteligência. Quando o assunto era Deus (está no programa), eu dizia que alguns acreditavam nele, outros não. E que na plenitude de seus direitos, cada um fazia o que queria [fazer]. O mesmo para o capítulo das religiões, eu me limitava a indicar aquelas que existem, às quais pertenciam aqueles a quem ela agradava.

Para ser sincero, eu acrescentava que havia pessoas que não praticavam nenhuma religião. Sei bem que isso não agrada àqueles que gostariam de fazer dos professores uns caixeiros viajantes da religião e, para ser mais preciso, da religião católica. Na Escola primária da Argélia (instalada então no parque de Galland), meu pai, como seus companheiros, era obrigado a ir à missa e comungar todos os domingos. Um dia, revoltado com esta obrigação, ele pôs a hóstia “consagrada” dentro de um livro de missa e o fechou! O Diretor da escola foi informado desse fato e não hesitou em expulsar meu pai da escola. Eis o que querem os partidários da “Escola livre” (livre…para pensar como eles). Com a composição da atual Câmara de Deputados, temo que o golpe tenha sucesso. O “Canard Enchainé” assinalou que, em um departamento, uma centena de turmas da Escola leiga funciona sob um crucifixo afixado na parede. Vejo nisso um abominável atentado contra a consciência das crianças. O que virá a acontecer daqui a algum tempo? Esses pensamentos me entristecem profundamente.

Saiba que, mesmo quando não escrevo, penso frequentemente em vocês todos.

A senhora Germain e eu abraçamos fortemente a vocês quatro.

Afetuosamente teu

Germain Louis

Post Scriptum: Deixo a cada leitor a interpretação da carta do professor Germain Louis, mas não posso deixar de manifestar minha admiração pelo exemplo de ser humano e de profissional educador. Há na relação entre o professor e o aluno por ele educado uma corrente ética indelével, transfusiva, de continuidades. Assim como nossos filhos, nossos alunos serão sempre “nossos pequenos”, não porque permaneceram infantis, mas porque deixaram em nós o sopro da infância e da juventude que manteve nosso espírito vivo e interessado na vida e na profissão.

Marta Morais da Costa

2 comentários sobre “Albert Camus, cartas e laços.

  1. Géssica Peniche

    Obrigada pela tradução! Ficarei muito tempo pensando em tudo, ando tão inquieta, preocupada, mas confesso que a carta me trouxe uma paz surpreendente, precisarei reler muitas vezes, claro, mas há na carta do professor algo que precisa ser resgatado dentro de mim. É um campo sagrado, misterioso e cheio de muitas responsabilidades esse “negócio” de ser mestre…
    Obrigada, mestra!

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  2. Géssica Peniche

    Escolas fechadas, crianças longe da escola, do ambiente sagrado, poucos estão falando sobre isso…angústia…angústia…

    É 2021 e a educação não está no centro do debate junto com a saúde.

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