FINÍLOGO

Marta Morais da Costa

O livro chega ao fim. Choro devidas lágrimas. Ou um entressorriso de final feliz. Ou um brutal ponto de interrogação: como? acabou? mas “isso” é um final?

Final não sei, mas sinal de resposta do leitor “isso” é.

Mas, e para quem escreve?

Chegar ao final é brindar com champanha como no filme “Obsessão”?

Tirar toneladas de temores e ansiedade dos ombros e da consciência?

Colocar o computador no modo enviar e jogar a bomba no colo do editor?

Ou é sair sorrateiramente no meio da madrugada e ir beber sozinha no Bar Fim de Noite no largo São Judas aqui no calçadão do bairro?

Ou é fechar o arquivo do livro ainda sem título, deixar pra amanhã, escovar os dentes e cair com a roupa de trabalho na cama desalinhada e deixar Morfeu atacar com mísseis e obuses o corpo em exaustão?

Só sei que ao acordar só lembrava os deuses do Olimpo tentando me convencer que a vida continua e vale a pena.

Não sei se foram eles, não sei se foi minha contraparte enxerida e digitante, não sei se copiei de algum site e esqueci qual, mas, ao abrir o computador no dia seguinte, saltou pra tela o último escrito da noite do fim do livro.

Peço aos amigos e inimigos, a algum e nenhoutros que escrevam pra mim dando respostas ou pistas mínimas sobre a autoria da cantilena que transcrevo.

Desde já considero que amigos ou inimigos respondentes integrarão a história do livro que, recém-findo, já deve andar por aí leve e solto, pronto para afagos e sopapos. Sempre receptivo a outras e novas palavras.

Foto por Stefan Messing em Pexels.com

Desenlaçamento

 

Um ensaio crítico sobre a história do livro pode ser a costura entre retalhos de histórias de livros, tal como uma história da leitura resulta do somatório parcial de histórias de leitores.

O propósito de aproximar, comparar, escolher e redigir fatos esparsos, coletados por outros escritores vários e diversos, é um exercício de persistência, de leitura de incontáveis páginas (impressas e virtuais), de um amálgama de materiais por vezes conflitantes, de um exercício diário de escolhas, de descartes, de favorecimentos.

Para quem escreve é, acima de tudo, estar em constante estado de aprendizagem. Não apenas de assuntos ou fatos ou narrativas sobre fatos, mas aprendizagens de entrelinhas, de empatias, de concordâncias e discordâncias teóricas e ideológicas em busca da construção de um texto denso e fluido, informativo sem ser cansativo, de admiração sem ser acrítico.

O resultado geralmente deixa lacunas no tecido da escrita pela impossibilidade de usar todos os fios, de saber que uma nova leitura trará à tona informações submersas. Emerge também o desejo maior e sempre avassalador de reescrever, de adicionar, de limar o estilo, de apagar impurezas, de recomeçar.

A escrita de um livro é sempre o desejo de reescrevê-lo.

Esse sentimento de recomeço corre paralelo ao momento da despedida, ao se colocar no alto da página a palavra “conclusão”.

No entanto, é necessário neste livro, que irá lançar-se ao mar dos leitores e do infinito de obras já escritas, colocar o ponto final – na realidade, as reticências.

Para tanto é preciso (re)ler, (re)ver o que ficou nas páginas anteriores e procurar dar a elas um norte, uma amarração, ou como Nanci Nóbrega ensinou, um arredondamento. Juntar o fim com o começo e o meio, e como a mítica serpente Ananta, percorrer o espaço sem tempo, fechar um círculo, uma etapa, um trabalho. Então, vamos concluir.

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