
Northrop Frye. A imaginação educada. Tradução de Adriel Teixeira , Bruno Geraldine e Cristiano Gomes. Campinas (SP): Vide Editorial, 2017. p19-21.
“Temos (…) três níveis da mente e uma linguagem para cada uma, o que nas sociedades de língua inglesa quer dizer uma língua inglesa para cada um. Há o nível da consciência e perspectividade, onde o mais importante é a diferença entre o eu e tudo o mais. A linguagem desse nível é a da conversa corriqueira, que consiste basicamente em monólogo. Como vocês logo perceberão se abrirem os ouvidos para as conversas alheias ou para a própria fala. Podemos chama-la de linguagem da autoexpressão. Em seguida vem o nível da participação social – a linguagem profissional ou tecnológica dos professores, pregadores, cientistas, juristas, políticos, publicitários, jornalistas. A essa já chamamos linguagem do senso prático. Por fim há o nível da imaginação, que produz a linguagem literária dos poemas, peças teatrais, romances. Não são de fato três línguas, é claro, mas sim três motivos para usar as apalavras.
Com base nisso podemos talvez distinguir entre as artes e as ciências. A ciência parte do mundo onde temos de viver, aceitando seus fatos e tentando explicar suas leis. A partir daí, move-se em direção à imaginação: torna-se um constructo mental, o modelo de uma maneira possível de interpretar a experiência. Quanto mais longe vá nessa direção, mais tende a falar a linguagem da matemática que é, com efeito, uma das linguagens da imaginação tal como a literatura e a música. A arte, por sua vez, parte do mundo que construímos, e não do mundo que observamos. Ela começa com a imaginação, e então dirige-se para a experiência comum – isto é, procura fazer-se tão convincente e reconhecível quanto possível. Entende-se daí por que costumamos veras ciências como acionais e as artes como emocionais: aquelas partem do mundo como ele é, estas do mundo que queremos ter. (…) Mas, claro, é tolice ver o cientista como um pensador frio, desprovido de emoções, e o artista como um tipo mergulhado numa embriaguez emocional sem fim. Não se pode distinguir as artes das ciências pelos processos mentais realizados nelas: ambas operam num misto de intuição e senso comum. Uma ciência e uma arte altamente desenvolvidas aproximam-se muito no aspecto psicológico como nos demais.
(…)
Uma importante diferença (…) A ciência à medida que avança vai aprendendo cada vez mais sobre o mundo; ela evolui e aprimora-se. Um físico contemporâneo sabe mais de física do que sabia Newton, ainda que não seja um cientista tão notável. Já a literatura começa com o modelo possível da experiência, e o que ela produz é o modelo literário que denominamos clássico. A literatura não evolui, não se aprimora, não progride. Talvez dramaturgos do futuro venham a escrever peças tão boas quanto Rei Lear, embora muito diferentes, mas é a arte dramática como um todo jamais superará Rei Lear, que ocupa o seu topo, assim como Édipo Rei, escrito dois mil anos antes; ambos continuarão modelos de arte dramática enquanto perdurar a espécie humana.”
Comentário
Arte e ciência não correm em linhas paralelas. Imbricam-se, enlaçam-se em momentos históricos em que predomina a concepção de uma escrita de base realista e mesmo naturalista como no século XIX. Afastam-se nos períodos de arte intimista e psicológica. Voltam a encontrar-se em ambientação de fidelidade histórica, como nos romances de Sthendal e Walter Scott. E perdem-se em horizontes de nevróticos versos simbolistas para renascer em autobiografias dee Annie Ernaux ou na sofisticada reconstituição do sul dos Estados Unidos, feita por Faulkner.
Enquanto a ciência, segundo Frye evolui, a literatura retorna a modelos passados para mostrar escritas contemporâneas que guardam, como pérolas em seu interior, os grandes livros lidos por escritores na língua viva do seu tempo presente.
O que Northrop Frye nos ensina é que preconceitos, frases feitas e mitos de um olhar objetivo e frio sobre a realidade humana como oposto ao olhar idealizador, imaginativo e e desfigurador da mesma realidade não encontram na literatura abrigo ou acolhimento. O gênero literário embebeda-se na pluralidade e adormece, pleno, nos braços generosos da linguagem.