Marta Morais da Costa
Comece pelo mais prazeroso: não faça nada. Somente relaxe e aproveite o sol, o mar, o quase silêncio das obras nas ruas, nos prédios, na vizinhança, sobre sua cabeça no apartamento daquele vizinho que não dá sossego, mas que sustenta o trabalho e emprego dos profissionais da construção e da decoração.
Se os parentes não abrem mão da sua divertida companhia e o convidam pra churrasco ou um rodízio de sushi ou aquela paella coloridíssima e rescendendo a maresia, vai com tudo. Esqueça colesterol, fígado e pâncreas. Caia de boca.
Se aquela tia idosa reclama que faz tempo que você não aparece e que ela está quase se despedindo da (ah você sabe de quê! Dela, aquela, a inescapável, ora!). Ela quase não consegue terminar o convite, a voz engasgada no telefone (porque whats, você sabe, né? Ninguém é obrigado a consumir aos 83 anos!) Vá até ela: l’humanité oblige!. Troque a televisão, o futebol e seus acompanhamentos por algumas horas naquela casa-museu, mas com cheirinho de bolo de laranja e cafezinho à moda mineira. Acumule milhas-minutos em sua conta no éter!
Mas quem sabe esse domingo tenha cara de cultura. Sabe aquele lançamento do livro de seu ex-colega de universidade, cujo convite não sai das postagens do instagram há mais de dois meses? Vai, são poucos minutos lá no bar do Geninho, e mais umas horas no trânsito, mas amizade é cada vez mais rara hojemdia. Amigo é pra essas coisas. E depois vai que o colega ganha um prêmio Jabuti ou um Oceanos. Cara, o autógrafo vai render mais reais em sua conta! É só anunciar mais tarde no OLX. E o amigo só vai descobrir que você vendeu o livro ou porque foi ele mesmo que comprou ou porque visitou justamente o sebo em que o autógrafo com seu nome explícito foi acompanhar o volume do livro que você nem leu.
Ou o domingo cultural pode ser uma ida ao cinema com seu filho desejoso de comer umas pipocas coloridas com gosto de morango (argh!!) ou, pior a nda, com sabor de falso chocolate que lambuzará até as imagens daquele filme de animação que todos os pais da escola estão elogiando e que, tal como o chocolate, vem adocicado e melequento trazer as mesmas personagens, fazendo as mesmas coisas e usando diálogos com as mesmas palavras acompanhadas de grunhidos, que alguns denominam, cinicamente a meu ver, de “filme dirigido a crianças inteligentes” (argh!)
Para completar seu domingo feliz, não esqueça a stand up comedy que sua esposa tanto tem vontade de ver. Recomendação enfática das amigas do salão de beleza em que ela passou a tarde toda do sábado dando um trato no visual para desfilar sua beleza pra você (segundo ela). Acho que não convém eu aprofundar essa questão. Mas, voltando à peça de riso fácil: você vai se divertir um bocado, tenho certeza. O tempo passará rapidamente e todo ele indolor. Só ficará um resquício de cinzas em seu cérebro, que tentou desesperadamente encontrar sentido onde não havia. Tudo era entretenimento, meu!
Enfim, seu domingo foi agitado, acompanhado, tumultuado, solidário, socializante.
Pense bem, nada é em vão. Afinal, a vida passa rapidamente. E quem sabe, daqui a algum tempo, você não pensará com seus botões (se eles ainda existirem) ou com seus parafusos: como eram felizes os domingos de antigamente!
