Marta Morais da Costa
Ao abrirem portas
em frinchas temerosas
as pessoas, vulneráveis,
sairão para o “novo normal”.
Sobreviventes.
A busca da generosidade universal
o apoio aos princípios da ciência médica
a crença na reorganização do trabalho
o abandono de posições terrivelmente rígidas
o congraçamento sem preconceitos
a amorosidade ao enlaçar pessoas.
Utópicas.
Mas nem a peste, a queda dos impérios,
as guerras, a tragédia das torres,
as revoluções e suas quimeras,
nem mesmo a pomba alvissareira
extinguiu Sodoma, criou espécies
ou fechou a caixa de Pandora.
Resistentes.
A solidão que não ensina,
o medo que não desafia,
a morte que não alerta,
e a reflexão que não atua
não mudam as pessoas
que não mudam o mundo.
Aprendizes.
Novas atitudes resilientes
seguirão latentes.
Até a próxima hecatombe.
Aceitei um desafio proposto no facebook para apresentar, ao longo da semana, as capas de sete livros que fossem considerados relevantes em minha formação como leitora. O resultado dessa escolha difícil vem a seguir.
Dia 1
Vai longe o dia em que tudo começou, mas continua aqui próximo o encantamento da leitura de “Reinações de Narizinho”. A lamentar os brasileiros e brasileirinhos que passaram ao largo de Monteiro Lobato porque, segundo alguns professores, é “muito difícil de ler”, em especial porque escreve em português rsrsrs
Vai na capa primeira, no título primeiro: o amor primeiro.
Dia 2
No tempo em que os contos maravilhosos retornaram às bibliotecas (ignorados por quem acreditava que as fadas eram fator de alienação), Marina Colasanti trouxe um mundo de encantos, do imaginário recobrindo o inconsciente, de personagens e enredos ultrapassando os limites do racional e submergindo os leitores em inúmeros subtextos. A poesia e o encantamento vieram de mãos dadas a partir de “Uma ideia toda azul” (1980) e “Doze reis e a moça no labirinto do vento” (1982). Até hoje continuam de mãos dadas tecendo maravilhas e “A moça tecelã” se tornou senhora de muitas mentes femininas, sua representante poética e sua bandeira.
Dia 3
Antônio Callado escreveu sobre o Brasil, com argúcia, com dedicação, com amor não correspondido. Nando, protagonista do romance-retrato-epopeia deste país, “Quarup” (1967) em sua expedição em busca do centro geográfico do país, encontra-o em um formigueiro. Saúvas – hoje diríamos ratazanas – que consomem as forças do país. Quem o lê hoje? Callado era realmente um gentleman e um homem dominado pelo amor a um país ingrato. De sua obra ficcional, minha paixão é por “Sempreviva”, uma história de amor e morte, de rebeldia e torturadores. Nela me encantam o lirismo rude, a linguagem poética e Herinha, a menina-natureza, nosso Puck (de “Sonhos de uma noite de verão”) tropical, a ninfa da vingança. Dessa paixão pelo romance nasceu o título de meu livro e de meu blog. Callado semprevivo.
Dia 4
são sete dezenas de pequenos textos encadeados em sequência de videoclipe, editados em 2001. rufatto usa o cenário da cidade de são paulo – que pode ser qualquer cidade – com seus habitantes quase invisíveis, com acontecimentos tipo trailer de filmes diferentes: ação, suspense, comédia, psicopatia, romantismo. a gente lê eles eram muitos cavalos (citação de um verso do romanceiro da inconfidência, de cecília meireles) e descobre a vida prismática de quem (sobre)vive na desigual urbanidade atual. a gente ri, quase chega às lágrimas, se revolta, se interroga, busca respostas e descobre que mesmo em minúsculas, a literatura nos coloca diante do imprevisível, do desumano, dos conflitos e da vida como ela é.
Dia 5
O teatro. Ah, o teatro! Coração rasgado em cada espetáculo, sangue arterial alterado em cada fala, veias abertas em cada gesto. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, deixou de herança – entre outras belezuras – este testamento, ditado em seu leito no hospital: “Rasga, coração”. Em 1969 assisti à estreia em Curitiba. Desde então vive em mim. O projeto de revolucionário do filho ainda jovem a dialogar e conflitar com o pai, velho revolucionário, agora em casa, mas assumindo o protagonismo de uma revolução cotidiana, a que podemos fazer todos na vida real, comum, burguesa ou não. O coração humano que se rasga nas batalhas diárias, seja por pão, paz, protagonismo, pensamento livre ou partilhamento. Ah, o teatro e os milênios de um legado de humanidade e denúncia.
Dia 6
Sándor Márai (1900-1989), um escritor húngaro, entrou em minha biblioteca e em minha leitura com este livro, “AS BRASAS”, indicado por uma grande amigo e enorme pessoa, o dr. Jamil Signorini. Chegou com delicadeza no grupo de leitura da PUCPR – que durou dez anos de leituras semanais ininterruptas, um tempo e uma atividade das mais felizes de minha vida profissional. Uma narrativa escrita com perfeição sobre a amizade, o amor, a honra, a palavra que revela e esconde. dois amigos se reencontram 41 anos depois: o tempo, a memória e o ajuste de contas com um passado sempre presente chegam ao leitor com vagar e profundidade, num entrecruzar de vozes que identificam a melhor literatura. Os detalhes, as sugestões e os fiapos de fala e memória são fios de uma teia que prende o leitor, que o fazem querer ler mais e outros livros do autor, que fazem valer demais o tempo de leitura investido. Li várias obras dele, traduzidas para o português, e igualmente apaixonantes. Uma delas – Veredicto em Canudos (2002) – apresenta sob uma perspectiva diferente a nossa epopeia de Canudos, texto que nasceu da leitura entusiasmada do livro de Euclides da Cunha, realizada por Sándor Márai. “As brasas” é uma obra-prima da literatura.
Dia 7
Deixei para o final da lista semanal a paixão mais forte, mais duradoura, mais vital. A obra total de Guimarães Rosa! Grande sertão: veredas: primal, inaugural, épico, transcendental, beleza perfeita. Citado e transcitado e trescitado por dez entre dez bons leitores. Paixão para a vida inteira, de mesa e cabeceira. Para não repetir, trago a capa de uma edição primorosa, com a ilustração do incrível e maravilhoso Poty. Basta comparar com as capas posteriores, para ver o quanto perdemos em desafio e beleza em troca da tal modernização. Os contos antológicos do volume, lançado em 1946, (salientando “Burrinho pedrês”, “Sarapalha”, “Duelo”, “São Marcos”, “Conversa de bois”, “A hora e a vez de Augusto Matraga”) desafiam até hoje nossos padrões de narrativa, desafiam a língua que pensamos conhecer, desafiam o pouco conhecimento que temos deste país, desafiam a literatura brasileira, inauguram rios caudalosos de outras obras que tentam se aproximar dela. Assunto para muitos e muitos posts. Poty traduziu como nenhum outro artista plástico a essência dessas narrativas. Amor geral pela obra, com coração em pedaços por não colocar também a trilogia de “Corpo de baile”. Ave, Guimarães Rosa! Os que escrevem deveriam te saudar. Os que escreverão talvez venham a te esquecer (a geleia geral de nossa cultura de fa$chada sequestra e esquece de nossos autores mais significativos).
Pergunte ao professor se as crianças gostam de ouvir histórias. Pode apostar que de 100 entrevistados, 100 deles dirão que elas adoram. Nem importa muito a qualidade dessas histórias, nem a do contador. Vale muito mais a dose de fantasia que elas trazem. Em 2006, saiu publicado “Sobre histórias de fadas”, livro de Tolkien, autor de “O senhor dos anéis”. Éum texto excelente sobre esse gênero literário, com um estudo sobre a diferença entre magia, encantamento e fantasia, termos que não se equivalem integralmente. Para o referido autor, a magia finge produzir uma alteração no Mundo Primário, aquele que atinge os sentidos mais concretos. Corresponde a narrativas de mundos imaginários, muitas vezes fora da realidade, mas que acabam em situação conhecida: tudo não passara de um sonho da personagem! O extraordinário se reduz a um sonho, por isso Tolkien o considera magia, resultado de um truque que tem explicação lógica.
Acima do Primário, o autor posiciona o Mundo Secundário, sustentado pela necessidade de ficção e de fantasia. Nele é que habita o encantamento, objetivo buscado pela fantasia, uma “atividade humana natural”, que não destrói nem nega a razão. “A fantasia criativa está fundamentada no firme reconhecimento de que as coisas são assim no mundo como este aparece sob o Sol.”, afirma o escritor. Para ter acesso ao Secundário, a imaginação é a chave, e consiste na capacidade da mente humana em “formar imagens mentais de coisas que não estão presentes de fato”.. Quando se aplica a operações mais complexas, pode ser denominada fantasia. É no imaginário que mora o encantamento; não no mágico. O mundo natural – Mundo Primário, segundo Tolkien – quando necessariamente transformado pela capacidade imaginativa dos seres humanos, deixa de ser primário. No Secundário, impera a ordem da fantasia, ou seja, é um mundo comandado por imagens mentais que buscam encantar, construído sobre bases semelhantes ao Primário, mas sem a necessidade de materializar-se. Vivo e real à sua maneira.
Essa rede de significados e conceitos nos auxilia a entender alguns comportamentos infantis e como eles se relacionam com histórias inventadas – ouvidas, escritas ou lidas. Essa compreensão auxilia o trabalho pedagógico dos mediadores de leitura e o processo de formação do leitor.
Ao querer ouvir muitas vezes a mesma história, a criança deixa agir sua imaginação, suspende voluntariamente a incredulidade sobre os fatos narrados e passa a acreditar no que ouve como se fosse realidade. É a voluntária adesão do leitor ao imaginário contido no texto literário. É sua caminhada pelo Mundo Secundário.
Como pode o letramento aproveitar-se da natureza da fantasia infantil e traduzi-la na aprendizagem dos escritos e da leitura?
Em um primeiro momento, o ato de contar histórias, que dá vida à literatura, aproveita essa inclinação da criança para o imaginário.
A segunda etapa consiste em transpor a voz do professor para o livro – seja na versão impressa, digital ou em audiolivro – permite à criança visualizar os sons que ouviu. Deve-se cercar o ambiente com quadrinhos, ilustrações, recortes, desenhos, livros, CDs, DVDs, vídeos. Não é desse modo que as histórias vivem no cotidiano?
Em uma terceira etapa, deve-se evitar que a escola transforme a fantasia em um exercício apenas, seja gramatical ou de conteúdo, seja um desenho. A escola tenta dominar o imaginário infantil, seja separando o imaginado e a realidade (“isso é sonho”, “só na historinha”, dizem os professores). Os contos são usados para moralismo, lição, direcionamento para o real. São considerados mágicos, como se essa fosse uma qualidade positiva para a imaginação humana. Ao contrário, tem forte cunho reducionista. Tudo fica primário, explicável, uma extensão do real.
Uma quarta etapa refere-se à escola que, pragmática, transforma a fantasia em elementos de trabalho pedagógico, em “atividade”, termo que esconde a intenção de cobrança, avaliação e controle.
Ouvir narrativas tem destacado papel na formação de esquemas narrativos mentais, que permanecem na memória das crianças, e retornam quando são evocadas por outras narrativas, lidas ou ouvidas. Explica porque as crianças acostumadas às narrativas aprendem a ler e a escrever com maior facilidade e criatividade.
Quando o adulto lê para a criança, em especial textos de literatura, não apenas a introduz no mundo da escrita e de suas funções, como oportuniza momentos de intimidade com as letras, que podem converter-se em desejo de ler, de decifrar as letras por conta própria. E a literatura age emotivamente sobre o leitor
Se um quadro com motivos alimentares (frutas, comidas, temperos) estimula o apetite, por que não acreditar em resultado semelhante com textos escritos literários e a leitura? A exposição da criança aos textos do mundo cria a necessidade de ler. E pode causar crises de abstinência quando a necessidade não for atendida.
Não há receitas infalíveis para a passagem da alfabetização ao letramento, mas não se consegue autonomia sem práticas, sem um progressivo e contínuo exercício em que o leitor vai aprendendo a lidar com diferentes esquemas e normas que os textos naturalmente contêm. Basta associar a dificuldade que os mais velhos sentem ao lidar com a leitura de quadrinhos ou na tela do computador.
A criança se comporta diante dos textos que lhe são desconhecidos como o ancião: precisa aprender, exercitar-se – e muito – para descobrir os sentidos, para compreender os mecanismos de organização e funcionamento textual.
Neto e avô vivem realidade em espelho nessas duas situações. O que vai impelir um ou outro ao atendimento da carência é a consciência da falta. Se me faz falta, busco eliminá-la. A leitura carece deixar de ser luxo, para tornar-se necessidade, preenchimento de vazios na alma.
“A risada é uma manifestação de divertimento, e o divertimento é um estado de espírito socialmente fecundo voltado ao mundo exterior. O riso começa como uma condição coletiva, como quando as crianças riem juntas por causa de alguma bobagem. Na idade adulta, a diversão continua sendo uma das maneiras com que os seres humanos desfrutam da companhia uns dos outros, conciliam as diferenças e aceitam a sorte comum. Rir ajuda a superar o isolamento e nos fortalece perante o desespero.”
(Citação retirada de obra de Roger Scruton)
Amigos:
em tempo de notícias tristes, saber que o riso é uma condição coletiva que nos fortalece e ajuda a ultrapassar dores e temores só nos faz desejar estar logo, logo reunidos em volta de uma mesa, com café quentinho, pinhão na brasa, conversas sem fim e o riso correndo de boca em boca, dizendo de nosso estado de afetuoso reencontro.
em 26 de maio de 2020, 7 graus lá fora, saudades aqui dentro.
Ela aparentava 35 anos, mas seus olhos baixos e nervosos a convertiam em uma anciã. O corpo moreno franzino, as costas eretas, a cabeça em contínuo movimento e as mãos a remexer papeis, revistas, folhetos de publicidade desfaziam a velhice em agitação quase infantil.
A sala de espera do consultório estava vazia, exceto pelo funcionário, atento à tela do computador e com o telefone colado à orelha. Falava e escrevia simultaneamente com domínio perfeito de corpo e máquinas.
Quando a mulher loira entra, com ela também entra o ar abafado do corredor. O ar refrigerado da sala de espera é uma ilha de bem-estar. A loira dirige-se imediatamente à mesa do atendente:
– Boa tarde! Meu nome é Helena Ricordati. Tenho consulta marcada com dr. Artur para as 15 horas.
– Boa tarde, senhora! fala o rapaz enquanto confere a agenda no computador. Por favor, queira sentar-se e aguardar.
– Sei que cheguei cedo demais, mas não quis perder a carona com meu marido que vinha nesta direção. Aguardarei. Sem problema.
Senta-se de frente para a outra mulher. Toma uma revista como um álibi. Folheia vagarosamente e entre uma página e outra lança um olhar curioso para a companheira de espera. Quem será? como vive? de que sofre? indaga-se interiormente.
Faz sempre assim: as outras pessoas são mistérios a serem desvendados.
Numa coincidência, os olhares se cruzam. Helena não perde a oportunidade:
– Está quente hoje, não?
– Hum, hum… e um movimento afirmativo de cabeça.
Mulher de poucas palavras, pode ser até antissocial. Helena a classifica de imediato.
– A senhora é cliente do dr. Artur há muito tempo?
– Não. Primeira vez.
– Ah, mas a senhora vai gostar muito dele. É competente, simpático, atencioso…
– Que bom! fala a morena como um ponto final da conversa.
Helena volta à revista: o que será que ela tem? gravidez? cólicas estomacais? endometriose? quem sabe câncer? A loira busca examinar furtivamente a outra. Descobre na palidez, a possível anemia. Nos olhos que teima em olhar para o chão vê a depressão. Nas mãos amareladas, a hepatite. Na respiração por vezes fora de ritmo, o temor de uma gravidez indesejada.
A loira cria diagnósticos desenfreadamente. Fosse realidade tudo o que atribui à outra, seria um catálogo de doenças à espera do veredito fatídico.
– A senhora mora aqui? Em que bairro?
– Sou de outro estado.
Ah, ah! Veio em busca de uma clínica de aborto. Ou de um tratamento mais barato. Helena volta a lançar hipóteses como um alarme dispara ao ser acionado.
– Eu gosto muito desta cidade. Nasci e cresci aqui. Conheço muita gente e muitos lugares. Só não conheço esses bairros novos. São tantos e nascem como plantas parasitas. Parece que toda semana tem um novo. Tem muita gente chegando para morar aqui.
-É, pois é.
Deixa ver: morena, magra, calada, de passagem, nervosa, em um consultório médico. Deve ser alguém que quer esconder uma doença. Já sei: é câncer mesmo! Ou quem sabe leucemia…Pode morrer em breve. Coitada! Este corpo frágil já anuncia…
A porta do consultório se abre, dr. Artur aparece, ainda sem jaleco e se dirige à mulher morena:
– Então, dona Bárbara, o dr. Argolo mandou o recibo dos honorários dele? Sim? Então entre, por favor, enquanto faço o cheque.
Helena, um tanto decepcionada, fecha a revista. Que pena: era mais interessante se fosse leucemia…
Busca outra revista, pois a porta do corredor deixa passar a figura alquebrada de uma idosa, magérrima, exalando aroma de flores de cemitério.
Desta vez não tem erro, pensa. Folheia a revista, pronta a reiniciar o processo de desvendamento do mistério e disposta a não perder desta vez as palavras e a caminhada rumo ao patíbulo da Maria Antonieta chegante.
Satisfeita por poder voltar a exercer seus dotes de interpretação conclui: ainda bem que só tenho uma gripezinha.
Um terço do corpo tatuado, os lóbulos esbanjando enormes botões pretos assemelhados a bodoques, fones devidamente posicionados nos ouvidos para curtir um heavy metal altissonante, skate nas mãos e boné de pala reta – colocado ao contrário, é claro – e a última gíria na boca: tudo isso me permitiria, anciã provecta, divar na tchurma do meu neto?
Segundo alguns equivocados (vá lá, talvez bem intencionados) lidadores culturais, atitude e ação semelhantes podem ser adotadas com textos machadianos com o objetivo meritório de conquistar leitores.
Depois da morte do autor, constatada e epitafiada por Foucault e Barthes, estaríamos vivendo os lúgubres tempos da morte da autoria e da autoridade escrevente. Nada de a linguagem expressar um tempo e uma cosmovisão históricos. O importante agora é travesti-la em garota-propaganda para seduzir o mercado de leitores. Diriam os anjos do Mal: bem feito para quem colocou o leitor como juiz absoluto! Tal como nas famílias condescendentes, o adolescente bate o pé e as chaves do carro deslizam para suas mãos. Então, adolescente e leitor viram rei.
Queremos conquistar leitores? Sim. Temos recursos para isto? Sim. Até mesmo trocar autoria e estilo dos maiores escritores da língua portuguesa para adequar obras à compreensão tida como rastaquera e rasteira dos adolescentes e dos jovens? Sim e não! Sim, para a finalidade de prolongar, aprofundar e manter a imbecilidade cultural reinante. Não, se entendermos que a leitura é também desafio e conquista, e não é acomodação.
A formação de leitores para a literatura pela escola tem produzido resultados esquizofrênicos. Alguns poucos alunos se dizem leitores por causa de seus professores. A maioria foge entediada da leitura obrigatória, dos livros considerados clássicos ou de qualquer texto que exija um razoável espaço de tempo e concentração, uma reflexão de profundidade mínima, um trabalho de compreensão mais apurado. Essa realidade é flagrada nos índices nacionais e internacionais a respeito da leitura de qualidade, é flagrada na absurda ausência de usuários de bibliotecas e frequentadores de livrarias. Talvez seja arcaísmo pensar bibliotecas e livrarias físicas. Pensemos, então, em celulares, tablets e e-readers. Basta averiguar o que fazem os aficionados de produtos de alta tecnologia que, alheios ao entorno, se dedicam a teclar e alisar telas o tempo todo. Quantos deles estão lendo algum livro digital?
Para consertar esse mundo quase sem literatura, pensam alguns que basta aplicar aos textos a mesma idiotia pedagógica da facilitação, uma metodologia de facilitação. Pois é preciso ler os clássicos – porque sempre são eles os bodes expiatórios de programas e professores que, para formar leitores, servem-se da papa fina da literatura, usando-a como angu. Então, para que a pretensa e, segundo eles, a intransponível dificuldade de leitura seja amenizada, não se furtam a resumir, adaptar, extrair palavras, sinonimizar pobremente os textos literários de qualidade. Há tempos a escola vem operando essa mutilação. Agora, a intenção, a metodologia e os recursos ganham notoriedade na imprensa com o aval do governo federal.
Relato uma experiência do início dos anos 90 do século passado. Em União da Vitória, cidade do interior do Paraná, uma professora, orientada por Sandra Konell, na época mestranda da Universidade Federal do Paraná, trabalhou com alunos de NOVE anos textos de Kafka (“A ponte”) e de Guimarães Rosa (“A menina de lá”) entre outros da literatura infantil e adulta. O resultado foi do choque e catatonia iniciais ao deslumbramento e aprendizagem finais. Onde esteve a varinha de condão desse sucesso? No trabalho professoral de mediação qualificada, na crença de que os alunos mesmo muito jovens não são estúpidos e incapazes, e, não menos importante, na certeza de que a literatura de qualidade (mesmo que não seja Machado de Assis, vítima contumaz de citações sem leitura) pode abrir horizontes de compreensão do mundo.
Uma perguntinha me atormenta: o cáustico, desvendador e elegante humor machadiano precisará ser transformado em deboche, em stand-up comedy, em cômico de séries televisivas para ser melhor compreendido?
Marta Morais da Costa
nas dobras, ainda mornas, dos lençóis,
imagino o corpo agora distante
o aconchego agora inexistente
a completude perdida.
estar juntos, lado a lado,
em falsa euforia a perder-se
nos prenúncios da morte
cada vez mais perto.
não poder viver a intensa
brevidade desses momentos
é vingança de deuses
irados e invejosos
a destruir em mim
as raras alegrias,
que submergem na rotina
vã, implacável, insossa.
O aconchego de raros instantes
torna-se parede de dias sem sol.
O tema é muito importante para as discussões a respeito de leitura e, em especial, de leitura da literatura. A indicação do vídeo selecionado levará o leitor para a entrevista feita pela professora Deisily de Quadros com a escritora, contadora de histórias e agitadora cultural Célia Cris Silva. O endereço é https://www.facebook.com/linguagensesociedadeunintergrad/videos/1107094956313703
Tive, enquanto professora da Universidade Federal do Paraná, a oportunidade de orientá-las em dissertação de Mestrado e tese de Doutorado e pude, nesse tempo, conviver com duas pesquisadoras entusiasmadas com a literatura para crianças. Deisily construiu seu doutoramento estudando a obra de Lygia Bojunga e Célia Cris concluiu seu Mestrado estudando os contos tradicionais, ditos de fadas.
A importância desses textos acadêmicos poderia restringir-se apenas aos assuntos tratados. Não para essas duas pesquisadoras: elas transformaram o aprendizado em carreiras sólidas dentro do magistério e dentro das atividades culturais destinadas à formação de leitores.
O vídeo com a entrevista mostra entre elas o que o tema da conversa preconiza: afetos originados e intensificados pela leitura e pela literatura. Há ao mesmo tempo uma franca corrente de familiaridade entre entrevistadora e entrevistada que confere um clima de conversa simples, à vontade e carregada de vivências pessoais. Circula no tempo da entrevista uma outra face: a transformação do prazer de ler em ações de intenso compartilhamento desse prazer. Seja na universidade – e em sua comunidade de professores e alunos, seja na sociedade em geral pela atuação com grupos de diferentes idades, recursos materiais e estágios de vida.
Para mim, tendo conhecido as duas pesquisadoras em fases de amadurecimento na área da literatura infantil, foi um enorme prazer de assistir a sua fala agora, senhoras do conhecimento, empolgadas com fazeres, à vontade com livros, leitores e literatura.
Por isso, recomendo fortemente este registro de um depoimento e de uma alegria por compartilhar a força da leitura da literatura.