Musicais

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Marta Morais da Costa

Musicais

I

Dor maior,

recipiente de lágrimas e

mil flechas,

fabricantes de ocas

soluções  ilusórias,

labirínticas falácias,

simulacros de cura.

                           

Dor maior que

sustém o coração

em síncopes

e silêncios.

 

II

Doce amor primeiro,

respirou ares de  primavera

mirando paixões estivais,

fatalizou os ventos gélidos  e

solidificou-se no outono,

latência aguda neste ocaso,

sinuosa e persistente chama.

 

Dos embates da paixão

restaram  ternas asperezas

misturadas a imagens solares,

fascínio de paisagens insólitas

solstícios de inquietudes

lastreados em tormentas,

sismos que todo amor contempla.

 

Olhar de Jano

 

 

 
Marta Morais da Costa
o dia a alvorecer
o botão pendente do galho
o vento da manhã a acariciar a floresta
o ventre da mulher grávida
a primeira página do caderno novo
a escavação dos alicerces da casa
janeiro na agenda ainda em branco
o tecido, a tesoura, o molde
o primeiro dia do primeiro emprego
o livro virgem aos olhos experientes
os preparativos para as férias
da janela ver chegar o bem-querer
os passeios  a cavalo na Lua
deslizar pelo arco-íris e pelos anéis de Saturno
a paz na minha aldeia

 

realidades e delírios de começos

DESPEDIDA

Marta Morais da Costa

Os fios da rua passarinham uma primavera.

As cantoras põem valsas no ar.

O ninho de inverno se aquece,

frágil fortaleza imune a tróias.

O olhar pandêmico se despede todos os dias

porque se sabe espreitado e indefeso.

Nos arremates do dia não sei de amanhãs.

A Terra se move, aberta em fios de covas,

uma delas será meu ninho derradeiro?

Os pássaros retornarão com asas de aurora.

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AMOR

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                                        Marta Morais da Costa
 
Julgava o amor
voraz sentimento tirânico,
avalanche, tsunami,
catástrofe bem-vinda,
êxtase devastador,
raio beta radioativo.
 
Tropecei e despenhei-me na própria ilusão.
 
Amor chegou de mansinho,
pouco a pouco, sadio
e melancólico,
inseguro de si  e míope.
Não lamentou suas deficiências,
instalou-se em mim
como velho inquilino,
cobrou seus direitos, não pagou suas dívidas,
comeu, bebeu, dormiu
e esqueceu-se de partir.
 
Até hoje mora comigo,
acomodado e sorumbático.
Por causa dele sobrevivo
a sonhar loucuras impossíveis,
Sancho Pança, algemado
a normas e crenças.
Sem batalhas, sem medalhas,
feliz em minha limitada mediania.

DISTÂNCIAS

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                                                                                Marta Morais da Costa

Passou o tempo da vida
a medir distâncias.
 
Entre a brincadeira e o trabalho
entre o estudo e a aprendizagem
entre a saúde e a doença
entre o ser, o estar e o fazer.
 
 
Os cálculos mediam
quase tudo o que limita.
Arriscavam, porém,
inoperantes e imprecisos,
quase tudo o que amplia.
 
Os números descreviam
fatos, emoções, expectativas.
O que comia e vestia,
o que ganhava e dispendia,
os ardores dos desejos,
o tamanho da solidão,
o percurso dos sonhos.
 
A conta mais inevitável, porém,
ficou inexata e incompleta:
não conseguiu numerar
a distância inapreensível
entre o surgir e o dissolver,
entre o que foi e deixou de ser
entre o que viveu de verdade
e o que ficou inalcançável.
 
Conta fechada pelo cálculo
imensurável da morte.

Banalidade

Marta Morais da Costa

“a banalidade do Mal” (Hanna Arendt)

No silêncio compactuado
da sala de reuniões,
ele habita.

Nos conchavos ardilosos
a farejar recompensas pessoais,
ele viceja.

Na concordância bovina
ao abuso dos desmandos ,
ele fermenta.

Na passividade do lar,
na presença doméstica do medo,
ele amadurece.

Nos sabujos sem cérebro
a exaltar a imbecilidade,
ele ceva e cega.

Esse mal, disseminado e sutil,
igualmente habita em mim
e me paralisa.


Bordado

                                                                          Marta Morais da Costa


A linha, que trama
e cobre o pano
imagem e cor,
traduz compassos
de um concerto de maciez e relevos.
No risco, o desenho a se fazer corpo
que os dedos acariciam
sensualmente.
Os fortes fios
mergulham em abismos,
revelam em seda e algodão
segredos imersos
nos mares do tecido
que, impudico, se abre
ao toque e ao parto
das mãos artífices.
 
Bordar o dentro
como quem desenha
riscos no mar,
segredos de corais,
pérolas
e serpentes.
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Antes

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Marta Morais da Costa


 
me telefone
me escreva
sorria pra mim
acaricie com a voz
o meu nome
antes que seja tarde
 
me leve a passear
mãos dadas
sorriso leve
olhos na paisagem
coração aberto
antes que seja tarde
 
me conte segredos
exponha críticas
abrindo fundas chagas
de revelação
e velhos desgostos
antes que seja tarde
 
me ame
na cama
na grama
no tapete da sala
no leito de sempre núpcias
antes que seja tarde
 
ria dos meus defeitos
chore de alegria
confirme seu amor
ilumine a escuridão
próxima
antes que seja tarde

Interrupção

Marta Morais da Costa
 
Na suspensão do tempo viver
 
as asas do pássaro travadas em voo
a folha a caminho do chão
a frase musical no oco da boca do cantor
o olhar detido a caminho do objeto
a caneta em meia letra
o pé entre o vácuo e o asfalto
a colher ao tocar a superfície dos lábios
a carícia petrificada na ponta dos dedos
a mosca imóvel no ar
o grão de poeira suspenso ao sol
o perfume entre a flor e as narinas
o estertor da máquina em energia cortada
o pingo da chuva congelado no limite da vidraça
os lábios entreabertos à espera do beijo
- hiato do amor –
a nota truncada no choro agudo do bebê
o dedo em riste viajando para o mapa
o pensamento incompleto no branco do esquecimento
este poema sem
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Recomeço

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                               Marta Morais da Costa
Ao abrirem portas
em frinchas temerosas
as pessoas, vulneráveis,
sairão para o “novo normal”.
 
Sobreviventes.
 
A busca da generosidade universal
o apoio aos princípios da ciência médica
a crença na reorganização do trabalho
o abandono de posições terrivelmente rígidas
o congraçamento sem preconceitos
a amorosidade ao enlaçar pessoas.
 
Utópicas.
 
Mas nem a peste, a queda dos impérios,
as guerras, a tragédia das torres,
as revoluções e suas quimeras,
nem mesmo a pomba alvissareira
extinguiu Sodoma, criou espécies
ou fechou a caixa de Pandora.
 
Resistentes.
 
A solidão que não ensina,
o medo que não desafia,
a morte que não alerta,
e a reflexão que não atua
não mudam as pessoas
que não mudam o mundo.
 
Aprendizes.
 
 
Novas atitudes resilientes
seguirão latentes.
Até a próxima hecatombe.