Quereres

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Marta Morais da Costa

Quero a montanha e a árvore
quero a trilha íngreme
o ar fresco da altura
os pés nas pedras do caminho.
 
Quero a solidão gelada
a invadir nuvens e silêncios
onde a dor não respira
e a mortalha não alcança.
 
Quero cascatas impetuosas
diluindo nos abismos
os assombros o desespero,
o abandono a impotência.
 
Quero no canto dos pássaros
ver acolhido o desvalimento
mais atroz desses dias
sem oxigênio e sem saída.
 
Quero nas alturas ter asas
para fugir em direção ao sol
abandonando ao léu
as penas não consoladas
as lágrimas não extintas
a humanidade dissolvida
em arquejos e isolamentos,
cinicamente desprezados.
 
Quero levar comigo
na dissolvente memória
os dias não vividos
as dores vizinhas
os sacrifícios humanos
a perda dos amores
as esperanças roubadas.
E sepultá-los pelo caminho.
 
Quero deixar na terra
o horror de números
em escalada lúgubre,
hidras com mil cabeças
a uivar tragédias
a buscar o oxigênio
de um futuro que
talvez não chegue.

Desfile

Marta Morais da Costa

de mansinho cheguei ao camarim
no silêncio da madrugada
em cima vesti  cetim
por baixo rala alpaca
olhos de quiçá e cautela
pensar de só dúvidas
 
às pressas saí pra rua
pernas à toa
voz em sussurro
fora de prumo
leque de plumas
olhar quase azul
 
cantei
dancei
cansei
 
hora de retrair
mãos vazias
rosto sem brilhos
traje em tiras
na passarela
jaz a fantasia

 

esquecida
no asfalto.
 
cá dentro a nudez
reveste o  jamais

LEITURA

Marta Morais da Costa

Hoje, 7 de janeiro, Dia do Leitor

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Folhear livros é ter certeza da ignorância.

Ler vorazmente é a certeza do tempo rarefeito.

Na biblioteca infinita a consciência do tempo.

Na solidão da página a evidência do outro.

Um livro é o começo de outro eu,

desenhado na capa dos encontros,

inatingível na última página,

lançado à incógnita do próximo volume.  

Na leitura, a eterna incompletude.

Musicais

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Marta Morais da Costa

Musicais

I

Dor maior,

recipiente de lágrimas e

mil flechas,

fabricantes de ocas

soluções  ilusórias,

labirínticas falácias,

simulacros de cura.

                           

Dor maior que

sustém o coração

em síncopes

e silêncios.

 

II

Doce amor primeiro,

respirou ares de  primavera

mirando paixões estivais,

fatalizou os ventos gélidos  e

solidificou-se no outono,

latência aguda neste ocaso,

sinuosa e persistente chama.

 

Dos embates da paixão

restaram  ternas asperezas

misturadas a imagens solares,

fascínio de paisagens insólitas

solstícios de inquietudes

lastreados em tormentas,

sismos que todo amor contempla.

 

Olhar de Jano

 

 

 
Marta Morais da Costa
o dia a alvorecer
o botão pendente do galho
o vento da manhã a acariciar a floresta
o ventre da mulher grávida
a primeira página do caderno novo
a escavação dos alicerces da casa
janeiro na agenda ainda em branco
o tecido, a tesoura, o molde
o primeiro dia do primeiro emprego
o livro virgem aos olhos experientes
os preparativos para as férias
da janela ver chegar o bem-querer
os passeios  a cavalo na Lua
deslizar pelo arco-íris e pelos anéis de Saturno
a paz na minha aldeia

 

realidades e delírios de começos

DESPEDIDA

Marta Morais da Costa

Os fios da rua passarinham uma primavera.

As cantoras põem valsas no ar.

O ninho de inverno se aquece,

frágil fortaleza imune a tróias.

O olhar pandêmico se despede todos os dias

porque se sabe espreitado e indefeso.

Nos arremates do dia não sei de amanhãs.

A Terra se move, aberta em fios de covas,

uma delas será meu ninho derradeiro?

Os pássaros retornarão com asas de aurora.

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AMOR

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                                        Marta Morais da Costa
 
Julgava o amor
voraz sentimento tirânico,
avalanche, tsunami,
catástrofe bem-vinda,
êxtase devastador,
raio beta radioativo.
 
Tropecei e despenhei-me na própria ilusão.
 
Amor chegou de mansinho,
pouco a pouco, sadio
e melancólico,
inseguro de si  e míope.
Não lamentou suas deficiências,
instalou-se em mim
como velho inquilino,
cobrou seus direitos, não pagou suas dívidas,
comeu, bebeu, dormiu
e esqueceu-se de partir.
 
Até hoje mora comigo,
acomodado e sorumbático.
Por causa dele sobrevivo
a sonhar loucuras impossíveis,
Sancho Pança, algemado
a normas e crenças.
Sem batalhas, sem medalhas,
feliz em minha limitada mediania.

DISTÂNCIAS

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                                                                                Marta Morais da Costa

Passou o tempo da vida
a medir distâncias.
 
Entre a brincadeira e o trabalho
entre o estudo e a aprendizagem
entre a saúde e a doença
entre o ser, o estar e o fazer.
 
 
Os cálculos mediam
quase tudo o que limita.
Arriscavam, porém,
inoperantes e imprecisos,
quase tudo o que amplia.
 
Os números descreviam
fatos, emoções, expectativas.
O que comia e vestia,
o que ganhava e dispendia,
os ardores dos desejos,
o tamanho da solidão,
o percurso dos sonhos.
 
A conta mais inevitável, porém,
ficou inexata e incompleta:
não conseguiu numerar
a distância inapreensível
entre o surgir e o dissolver,
entre o que foi e deixou de ser
entre o que viveu de verdade
e o que ficou inalcançável.
 
Conta fechada pelo cálculo
imensurável da morte.

Banalidade

Marta Morais da Costa

“a banalidade do Mal” (Hanna Arendt)

No silêncio compactuado
da sala de reuniões,
ele habita.

Nos conchavos ardilosos
a farejar recompensas pessoais,
ele viceja.

Na concordância bovina
ao abuso dos desmandos ,
ele fermenta.

Na passividade do lar,
na presença doméstica do medo,
ele amadurece.

Nos sabujos sem cérebro
a exaltar a imbecilidade,
ele ceva e cega.

Esse mal, disseminado e sutil,
igualmente habita em mim
e me paralisa.