Quarentena 3

“Eu canto porque o instante existe”

na voz de Cecília, a que não mais vê,

mas continua a cantar.

Canto porque temo,

temo porque vejo

a derrocada ao redor.

Canto porque sucumbem

o decoro vetusto,

a ansiada harmonia,

o áureo respeito.

Canto porque inacessível

está o toque, o abraço,

a troca afetuosa

de gestos que acolhem.

Canto porque, no silêncio

da solidão, a palavra

explode incontrolável.

Canto porque a noite

ainda não se fez fatal.

Antologia : ACONCHEGO

                          Marta Morais da Costa


nas dobras, ainda mornas, dos lençóis,
imagino o corpo agora distante
o aconchego agora inexistente
a completude perdida.
 
estar juntos, lado a lado,
em falsa euforia a perder-se
nos prenúncios da morte
cada vez mais perto.
 
não poder viver a intensa
brevidade desses momentos
é vingança de deuses
irados e invejosos
 
a destruir em mim
as raras alegrias,
que submergem na rotina
vã, implacável, insossa.
 
O aconchego de raros instantes
torna-se parede de dias sem sol.
 

BEIJA-FLOR EM SETE ATOS

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

“The blackbird is envolved

                                                                             in what I know”

Wallace Stevens

I

Na luz da manhã

escurecem a rosada flor

as pétalas alucinantes

de um beija-flor.

II

À sombra de pétalas perfumadas

dança eletrizante a folha movente

e minúscula.

III

O ar parado da tarde

freme e treme

na visita frenética

de asas mínimas.

IV

Você e eu unos

a mirar em conúbio

a corte ritmada

e sutil à flor de romã.

À espera sem tempo

do voo mínimo e bailarino

em direção à noiva-flor.

V

Ao pisar o gramado distraída

afugento o etéreo sedutor

surpreendido em beijo delicado.

VI

Cultivo camarões como iscas

(pesco formigas aranhas mosquitos).

Em voos rasantes ri vitorioso

em brilhos e bailados

o beija-flor livre

a fugir da colorida trapaça.

VII

Fracassa o poeta

em versos pesados e aprisionados

imperfeitos laços

de prender esquivos beija-flores.

Quarentena 1

Marta Morais da Costa

Hoje cantei velhas canções.

Entoei palavras em desuso

verbos no pretérito

adjetivos de pura utopia:

galhardo, sinuoso, merencória.

Pastorinhas, perfídia, amor pra chuchu.

Visitei em notas e acordes

sentimentos plácidos,

a paixão perenal,

o ósculo sonhado,

a valsa dolente entre seus braços,

a queda que ensina a levantar,

beijinhos e peixinhos infinitos,

a vida que valia a pena.

A proximidade dos astros,

em que pisávamos distraídos,

em um carrossel de emoções,

resolvidas no riso aberto

e aos pés do altar.

A música melodiosa

ainda soa aos ouvidos

enquanto no ar, lá fora,

reina o silêncio do medo

e a ameaça do fim.

10/abril/2020