Antes

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Marta Morais da Costa


 
me telefone
me escreva
sorria pra mim
acaricie com a voz
o meu nome
antes que seja tarde
 
me leve a passear
mãos dadas
sorriso leve
olhos na paisagem
coração aberto
antes que seja tarde
 
me conte segredos
exponha críticas
abrindo fundas chagas
de revelação
e velhos desgostos
antes que seja tarde
 
me ame
na cama
na grama
no tapete da sala
no leito de sempre núpcias
antes que seja tarde
 
ria dos meus defeitos
chore de alegria
confirme seu amor
ilumine a escuridão
próxima
antes que seja tarde

Interrupção

Marta Morais da Costa
 
Na suspensão do tempo viver
 
as asas do pássaro travadas em voo
a folha a caminho do chão
a frase musical no oco da boca do cantor
o olhar detido a caminho do objeto
a caneta em meia letra
o pé entre o vácuo e o asfalto
a colher ao tocar a superfície dos lábios
a carícia petrificada na ponta dos dedos
a mosca imóvel no ar
o grão de poeira suspenso ao sol
o perfume entre a flor e as narinas
o estertor da máquina em energia cortada
o pingo da chuva congelado no limite da vidraça
os lábios entreabertos à espera do beijo
- hiato do amor –
a nota truncada no choro agudo do bebê
o dedo em riste viajando para o mapa
o pensamento incompleto no branco do esquecimento
este poema sem
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Recomeço

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                               Marta Morais da Costa
Ao abrirem portas
em frinchas temerosas
as pessoas, vulneráveis,
sairão para o “novo normal”.
 
Sobreviventes.
 
A busca da generosidade universal
o apoio aos princípios da ciência médica
a crença na reorganização do trabalho
o abandono de posições terrivelmente rígidas
o congraçamento sem preconceitos
a amorosidade ao enlaçar pessoas.
 
Utópicas.
 
Mas nem a peste, a queda dos impérios,
as guerras, a tragédia das torres,
as revoluções e suas quimeras,
nem mesmo a pomba alvissareira
extinguiu Sodoma, criou espécies
ou fechou a caixa de Pandora.
 
Resistentes.
 
A solidão que não ensina,
o medo que não desafia,
a morte que não alerta,
e a reflexão que não atua
não mudam as pessoas
que não mudam o mundo.
 
Aprendizes.
 
 
Novas atitudes resilientes
seguirão latentes.
Até a próxima hecatombe.

Quarentena 3

“Eu canto porque o instante existe”

na voz de Cecília, a que não mais vê,

mas continua a cantar.

Canto porque temo,

temo porque vejo

a derrocada ao redor.

Canto porque sucumbem

o decoro vetusto,

a ansiada harmonia,

o áureo respeito.

Canto porque inacessível

está o toque, o abraço,

a troca afetuosa

de gestos que acolhem.

Canto porque, no silêncio

da solidão, a palavra

explode incontrolável.

Canto porque a noite

ainda não se fez fatal.

Antologia : ACONCHEGO

                          Marta Morais da Costa


nas dobras, ainda mornas, dos lençóis,
imagino o corpo agora distante
o aconchego agora inexistente
a completude perdida.
 
estar juntos, lado a lado,
em falsa euforia a perder-se
nos prenúncios da morte
cada vez mais perto.
 
não poder viver a intensa
brevidade desses momentos
é vingança de deuses
irados e invejosos
 
a destruir em mim
as raras alegrias,
que submergem na rotina
vã, implacável, insossa.
 
O aconchego de raros instantes
torna-se parede de dias sem sol.
 

BEIJA-FLOR EM SETE ATOS

Marta Morais da Costa

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“The blackbird is envolved

                                                                             in what I know”

Wallace Stevens

I

Na luz da manhã

escurecem a rosada flor

as pétalas alucinantes

de um beija-flor.

II

À sombra de pétalas perfumadas

dança eletrizante a folha movente

e minúscula.

III

O ar parado da tarde

freme e treme

na visita frenética

de asas mínimas.

IV

Você e eu unos

a mirar em conúbio

a corte ritmada

e sutil à flor de romã.

À espera sem tempo

do voo mínimo e bailarino

em direção à noiva-flor.

V

Ao pisar o gramado distraída

afugento o etéreo sedutor

surpreendido em beijo delicado.

VI

Cultivo camarões como iscas

(pesco formigas aranhas mosquitos).

Em voos rasantes ri vitorioso

em brilhos e bailados

o beija-flor livre

a fugir da colorida trapaça.

VII

Fracassa o poeta

em versos pesados e aprisionados

imperfeitos laços

de prender esquivos beija-flores.

Quarentena 1

Marta Morais da Costa

Hoje cantei velhas canções.

Entoei palavras em desuso

verbos no pretérito

adjetivos de pura utopia:

galhardo, sinuoso, merencória.

Pastorinhas, perfídia, amor pra chuchu.

Visitei em notas e acordes

sentimentos plácidos,

a paixão perenal,

o ósculo sonhado,

a valsa dolente entre seus braços,

a queda que ensina a levantar,

beijinhos e peixinhos infinitos,

a vida que valia a pena.

A proximidade dos astros,

em que pisávamos distraídos,

em um carrossel de emoções,

resolvidas no riso aberto

e aos pés do altar.

A música melodiosa

ainda soa aos ouvidos

enquanto no ar, lá fora,

reina o silêncio do medo

e a ameaça do fim.

10/abril/2020