Máquina do tempo

Através dos relatos, podemos saber como sonhavam ou sentiam pessoas que morreram antes de nosso nascimento, podemos até ouvi-las vivas dentro de nós, uma invocação impossível para qualquer outra espécie. Desde a Ilíada, onde nasce a literatura europeia, reconstituímos mentalmente épocas passadas, escutando as vozes e outros milênios. É possível que as palavras impressas não sejam mais que fantasmas de vozes ou sombras mentais, mas são importantes. Elas ampliam nossa breve passagem pela vida, porque quem lê acrescenta à sua vida as vidas de todas as épocas e, assim, milhares de anos de conhecimento se fundem dentro de si. O tempo de cada leitor se expande pela confluência entre a realidade tangível e o passado reconstruído. A máquina do tempo existe: são os livros.

Irene Vallejo. Manifesto pela leitura. Tradução Julia Dantas. Porto Alegre, Dublinense/Seiva, 2026. p.31.

Foto por Kader Azra Namuslu em Pexels.com

O tempo dos livros: sua criação, a edição, o conteúdo, a chegada aos olhos de um leitor.

O tempo do leitor: sua biografia de leitura, o ritmo no tempo dos olhos, a viagem à memória. o tempo do lido.

O tempo do tempo do leitor: reler, descobrir de novo, descobrir-se, reler-se.

O tempo de repouso. O tempo de leitura. O tempo de repouso. O esquecimento.

Um livro é um livro, é um livro, é um livro…

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