Hoje é Dia do, da, de…

Marta Morais da Costa

Foto por Gert Coetzee em Pexels.com

Confesso que a indiferença a datas comemorativas há muito tempo me assola. Em insana consciência acuso a leitura por esta falha calendárica. Essa indiferença resultou de ter bebido  o chá em que o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e o Domidongo comemoraram um  desaniversário em “Alice no país das maravilhas”. A proposta revolucionária de Lewis Carroll acendeu em mim uma lampadinha de descoberta: enquanto brindamos aniversários, datas cívicas e comemorativas de 24 horas, ocultamos outro tempo, muito mais longo, em que a vida pode nos brindar com alegrias mais intensas, com encontros mais inesperados, com brindes surpreendentes.

As datas marcadas e limitadas podem ser motivo de lembrança mais aguda e total. No Natal vamos lembrar mais intensamente os que nascem e os que compõem nossa vida com sua presença. No dia do professor, mais nos lembramos de reivindicações e de valores da profissão. Embora em cada aula, em cada preparação, em cada trabalho extraclasse o dia do professor faça sentido intenso e mais real.

Nos dias de vantagens ao comércio, como os dedicados aos pais, às crianças, aos namorados, às mães, uma rosa é menos rosa do que em dias não marcados. A surpresa e o inesperado perfuram os muros de distância e iluminam o olhar desprevenido. Aquele bilhete inesperado palavreando o afeto, mesmo que deixado em comezinhas mesas, em desengonçados aparadores, em espaços premidos entre louças e panelas, na contumaz porta da geladeira ou no teclado do computador podem alvoroçar sentimentos, revolucionar lembranças, incendiar afetos frios e apáticos.  

A linguagem do afeto não recusa palavrões e transborda em gestos, falas e ações, vestidos do mais torpe figurino, ousando fazer crer que a violência é uma forma de amor, que o assédio é atenção, que autoritarismo é cuidado. Ao arrepio dessa inversão, o coração demanda janelas e respiradouros e se lança ora em abismos de solidão ora em cachoeiras de rebeldia, deixando atrás de si silêncios e pedras, espinhos, limo e lodo.

Não é um dia assinalado em agendas e calendários que os afetos nada pacíficos, mas que almejam encontros verdadeiros, buscam saídas, consolo e retribuição. É no dia a dia dos suores, das rotinas, das pressas silenciadoras que eles se camuflam e se recolhem em esperas que, sem menos, explodem em revelações. Aí não importam datas, presentes e cumprimentos: somente o tempo presente e a indispensável presença.

O  “Oscar da lacração”

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

Que a língua é um organismo vivo, sabemos.

Que os falantes contribuem com termos novos continuadamente, já sabemos.

Que as gírias e jargões identificam, entre outros, grupos sociais, econômicos, profissionais, culturais e etários, estamos cansados de saber.

Mas (há sempre um mas no meio do caminho) ter que ir buscar no dicionário o significado da manchete de uma notícia para confirmar se o que a oralidade nos conta é a mesma narrativa que a língua escrita compreende, dá uma torção na autoestima. A gíria que desconheço é proporcionalmente mensurável com a idade a que consegui chegar. Em palavras mais cruas: pô, estou velha!

Na leitura diária dos jornais, geralmente feita como um exercício de despertar (em vários sentidos), encontrei hoje cedo a manchete que serve de título a esta crônica.

Não assisti à cerimônia da entrega do Oscar 2022. E não foi somente a este evento: não me movo no movie segundo o que a estatueta comanda. Tenho curiosidade, claro, como sou curiosa por resultados de futebol, por estatísticas, por pesquisas, por previsões e resultados de eleições. Procuro manter disso tudo uma distância que me permita continuar saudável. Principalmente manter o sono estável. Sem aquela de “sou inocente e durmo tranquila”! Durmo com todos os meus pecados, principalmente com os de estimação.

Mas um Oscar de lacração tem a ver com públicos e com recepção. E confesso que aí a coisa fica mais interessante para mim. Não é exatamente sobre a qualidade dos filmes a que o título da notícia faz referência. Mas à própria rentabilidade de público para a premiação tradicional. Os jornalistas apontam o dedo em riste para o fracasso de edições recentes do evento. As notícias insistem nas novidades inseridas no roteiro e nos apresentadores deste ano.

Aí, a situação fica mais interessante. Um público de cinema que adora espetacularizar e ser espetacularizado. Um público de espectadores movido por histórias de vida, de superação, de glamour, de sucesso, de emoções que a vida real não lhes trouxe.  O mundo das fadas da arte cinematográfica, com seus ogros e bruxos indispensáveis.

O tapete vermelho, vitrina da moda; os artistas em poses e previsões sobre ser ou não favoritos à estatueta; os grupos em lugares acessíveis pelas câmeras-olhos do mundo; os bordões e gags e piadas narcísicas e centradas no mundinho do cinema. E aqui fora os cavalinhos correndo.

Adoro cinema, minha imaginação foi e continua sendo nutrida por ele. A pandemia favoreceu muitos banquetes à la Babette e intoxicações de lixões. Senti a ausência das comunidades de auditórios e salas, reunidas por causa das telas e histórias.  Confesso que se pudesse estar frente a frente, olhos nos olhos com Frances McDormand, Olívia Colman, Judy Dench ou Viola Davis  ficaria para sempre muda e paralisada pela emoção. Para citar as que andam vivas nas ruas reais. Vê-las na telinha do televisor ao menos me impede um infarto.

Mas a cerimônia do Oscar me exclui por uma razão muito simples: se for pra competir, prefiro o esporte; se for pra exaltar, prefiro meus heróis próximos; se for pra mitificar, estou fora. É um espetáculo tedioso para quem tem mais o que ler e escrever. Nem para copiar e/ou admirar modelitos das atrizes famosas ou pretendentes a) me serve. Até porque tenho noção do ridículo. E espelhos.

A sucessão de nomes, fotos, cenas, fragmentados e isolados mostrados na assim proclamada cerimônia conta uma história que é pura ilusão, mais do que o cinema naturalmente produz. Dirão alguns que é o reconhecimento do trabalho de técnicos, atores, diretores e todas as pessoas que constroem essa indústria de arte e de dinheiro. Nem assim. Prefiro que meu jornal diário lacre quem está fazendo um trabalho meritório de alimentar o imaginário ensinando a pensar e a pescar. Quem está lutando bravamente para afirmar sua humanidade e sua competência erguendo casas, iluminando a vida, mantendo os espaços limpos de sujeira material e moral.

Artistas são o sal da terra, talvez seu Himalaia. Espetáculos de premiação são disputas de poder. Festa, ornamento, carnaval que termina em uma quarta-feira de cinzas. Para mim, é mais lucração do que lacração.

Agora, com licença, vou rever “Três canções para Benazir”, mais feroz do que um ataque de cães e em ritmo de um coração despedaçado.

Que fazer? Sou mesmo inclinada a tragédias…

Os bonitinhos 1

Marta Morais da Costa

Foto por Pixabay em Pexels.com

O rádio do carro me faz companhia. Fico sabendo que há uma campanha pública para adotar um ninho artificial para que os papagaios em quase extinção na Serra do Mar possam se acasalar e procriar. Uma iniciativa meritória em um país tão pouco cuidadoso com sua natureza. Um país que considera meritórias narrativas com bichinhos tão bonitinhos de carinha tão amigável e pelos que pedem carinho. Veja, Carlinhos! Observe, Luisinha! Não é lindo, Aninha? Com isso cresce a meiguice, a noção falseada sobre ratos e aranhas, ursos e serpentes, mas todos animais dignos de cuidados: tão bonitinhos!

Em um país nem tão distante, nas fotos e vídeos, as expressões de medo, o olhar assustado, a mão pequena colada na mão da mãe, as crianças esquecem as narrativas e seus personagens para atravessar corredores humanitários em fuga incompreensível. A disputa do espaço da rua não se dá com carros ou com brincadeiras: a paisagem é ocultada pelo carro de combate, pelas armas, pelo fogo que resta da batalha sem piedade. Nenhum livro, nenhuma escola, nenhuma paz doméstica preparou esses perdidos meninos e meninas para um tempo de guerra.

Os olhos que veem a guerra, viram a vida tranquila. Os olhos que viram a paz, agora contemplam as armas. Talvez na sua perdoável ignorância, achem tudo com cara de brincadeira, a mesma, só que em versão trágica. O gesto das mãos continua a cuidar do figurino da boneca amada, a fazer rodar o caminhão de bombeiros, tão bonitinho, vermelho e com luzes piscantes! Marcha, soldado/cabeça de papel…

As crianças de guerras pautadas pelo absurdo estão espalhadas pelo chão que sangra, ou deitadas em macas de flores vermelhas regadas com abundância, ou olhando incrédulas de olhos abertos e imóveis um céu enegrecido pela bestialidade adulta. Não mereceram nem os cuidados que animais predadores recebem nas histórias que ninguém mais lhes contará.

Crianças tão bonitinhas longe de seus bichinhos tão bonitinhos, maiúsculas em seu sacrifício, berrando cá dentro em mim a dor de um tempo convulso e sem remissão.

Veja, Carlinhos! Por que você está dormindo, Luisinha? Não é triste, Aninha?

AVESSOS

Marta Morais da Costa

 

nas contas opacas de um colar de dores

a cinza leve de um corpo ausente

 

no sorriso tímido de um rosto magro
a voragem imersa da fome atroz
 
a lua alfange mira o vácuo
a vida desatenta se esvai
 
no canto do quarto em silêncio
o menino sorve o veneno do sonho
 
a noite insensível ensombra
 
ela dá as costas e tranca a porta
desta vez sem volta.
Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com

FINÍLOGO

Marta Morais da Costa

O livro chega ao fim. Choro devidas lágrimas. Ou um entressorriso de final feliz. Ou um brutal ponto de interrogação: como? acabou? mas “isso” é um final?

Final não sei, mas sinal de resposta do leitor “isso” é.

Mas, e para quem escreve?

Chegar ao final é brindar com champanha como no filme “Obsessão”?

Tirar toneladas de temores e ansiedade dos ombros e da consciência?

Colocar o computador no modo enviar e jogar a bomba no colo do editor?

Ou é sair sorrateiramente no meio da madrugada e ir beber sozinha no Bar Fim de Noite no largo São Judas aqui no calçadão do bairro?

Ou é fechar o arquivo do livro ainda sem título, deixar pra amanhã, escovar os dentes e cair com a roupa de trabalho na cama desalinhada e deixar Morfeu atacar com mísseis e obuses o corpo em exaustão?

Só sei que ao acordar só lembrava os deuses do Olimpo tentando me convencer que a vida continua e vale a pena.

Não sei se foram eles, não sei se foi minha contraparte enxerida e digitante, não sei se copiei de algum site e esqueci qual, mas, ao abrir o computador no dia seguinte, saltou pra tela o último escrito da noite do fim do livro.

Peço aos amigos e inimigos, a algum e nenhoutros que escrevam pra mim dando respostas ou pistas mínimas sobre a autoria da cantilena que transcrevo.

Desde já considero que amigos ou inimigos respondentes integrarão a história do livro que, recém-findo, já deve andar por aí leve e solto, pronto para afagos e sopapos. Sempre receptivo a outras e novas palavras.

Foto por Stefan Messing em Pexels.com

Desenlaçamento

 

Um ensaio crítico sobre a história do livro pode ser a costura entre retalhos de histórias de livros, tal como uma história da leitura resulta do somatório parcial de histórias de leitores.

O propósito de aproximar, comparar, escolher e redigir fatos esparsos, coletados por outros escritores vários e diversos, é um exercício de persistência, de leitura de incontáveis páginas (impressas e virtuais), de um amálgama de materiais por vezes conflitantes, de um exercício diário de escolhas, de descartes, de favorecimentos.

Para quem escreve é, acima de tudo, estar em constante estado de aprendizagem. Não apenas de assuntos ou fatos ou narrativas sobre fatos, mas aprendizagens de entrelinhas, de empatias, de concordâncias e discordâncias teóricas e ideológicas em busca da construção de um texto denso e fluido, informativo sem ser cansativo, de admiração sem ser acrítico.

O resultado geralmente deixa lacunas no tecido da escrita pela impossibilidade de usar todos os fios, de saber que uma nova leitura trará à tona informações submersas. Emerge também o desejo maior e sempre avassalador de reescrever, de adicionar, de limar o estilo, de apagar impurezas, de recomeçar.

A escrita de um livro é sempre o desejo de reescrevê-lo.

Esse sentimento de recomeço corre paralelo ao momento da despedida, ao se colocar no alto da página a palavra “conclusão”.

No entanto, é necessário neste livro, que irá lançar-se ao mar dos leitores e do infinito de obras já escritas, colocar o ponto final – na realidade, as reticências.

Para tanto é preciso (re)ler, (re)ver o que ficou nas páginas anteriores e procurar dar a elas um norte, uma amarração, ou como Nanci Nóbrega ensinou, um arredondamento. Juntar o fim com o começo e o meio, e como a mítica serpente Ananta, percorrer o espaço sem tempo, fechar um círculo, uma etapa, um trabalho. Então, vamos concluir.

Tocando as mesmas teclas

Marta Morais da Costa

Tem manhãs que são como holofotes sobre o nada. Muito trabalho e pouco resultado aproveitável.

Tem manhãs que são como roseiras em flor: o trabalho rende umas flores miúdas e bonitas, mas muito, muito espinho.

Tem manhãs que são como show de hard rock: muita luz, fumaça, barulho, maquilagem e gritos como se fosse música. O resultado? Cabeça à roda, corpo moído.

Tem manhãs com gosto de café, de terra molhada por chuva fininha, de sabiá cantando a alegria de filhotes. Dá vontade de escrever.

Hoje novamente foi assim.

Foto por Kaboompics .com em Pexels.com

O que veio para a ponta dos dedos foi uma cantilena antiga, ciranda de volta e meia, partitura toda de cor e ação, sons arcaicos, ritmo em dobras e voltas, ideias de voltas e dobras.

É que o assunto era a formação de leitores, “pra toda vida” dizem os utópicos; “na prática de sala de aula” pedem os ansiosos; “pra meus alunos deixarem os tabletes e os celulares” rogam os desiludidos.

O café, a chuva e o sabiá sonorizam e aromatizam a escrita. Só que ela vem dizer quase que o mesmo de anos passados porque o presente não soube ou não quis ver, ouvir, dançar junto, repartir.

Nas teclas já conhecidas o que surge é enumeração farta e aberta.

1 Gostar de ler é como amor feinho: leva tempo pra chegar, vem sorrateiro e fica morando pra sempre. Precisa de dois: olhares, recusas, balbucios, rubores, persistência. Mas quando chega, toma posse, instala-se, abre as janelas, purifica o ar e a alma.

Precisa de dois: eu e tu, tu e eu. Um livro e um leitor, apresentados em festa ou em velório. Presenteados: tu me envolves e eu recuo. Eu recuso, tu insistes. Tu demonstras e eu me calo. Eu te afasto, tu me cercas. Não te esqueço e tu me enlaças. Depois, cantam as harpas de Sião.

2 Formar leitores não é colocar em fôrmas. É estimular em alguém as formas de expressão, de extensão, de comoção. Formas são infinitas, pessoas são infinitas, livros são infinitos. Finita é a displicência, a ignorância, a desimportância e a falsa suficiência.

Precisa criar, rir, compartilhar, narrar e poetar o quanto não baste, nunca. Lançar ao ar as folhas da fantasia e as flores da sedução e esperar ansioso que elas caiam no colo de quem não sabia que as desejava tanto. Banir a tempestade das utilidades para um canto remoto; trazer no assovio a mutável imaginação para um namorico sob o leque da palmeira dançando com a brisa.

3 Leitura é infinda como as águas dos mares. Diversas em coloração, efêmeras em humores, fieis ao ir-e-vir constante, ora rasas-ora abismos, às vezes piscosas-às vezes perigosas, sempre maiores do que o tamanho de nossas vidas.

Quanto mais leio, mais releio. Quanto mais acumulo, mais devo. Quanto mais me despreza, mais me tem de joelhos. Quanto mais, quanto mais…

4 Um livro é uma máquina criada e movida por pessoas. Cadeia de gentes, seus elos são ares e olhares de quem pensa, age, recolhe e leva adiante. Elos de uma corrente que foi, é e virá. Diálogo entre tempos, têmperas e temperamentos. Corrente que integro e lego. O elo pequenino que sou suporta a torrente de todos os leitores.

O livro, indiferente ao meu afeto, segue, Casanova, em busca de mais amores.

Magnetismo

Marta Morais da Costa

Foto por Jaiju Jacob em Pexels.com

Se você pensa que leitura é atividade para sedentários, para velhinhos solitários, para esquisitões que adoram posar de intelectuais, para desempregados que precisam dar um up em seus conhecimentos, para aqueles entediados que buscam emoções em romances apimentados, enfim, para viajantes confinados pela pandemia que, na falta de viagens reais, buscam nos livros os países que não podem visitar, então, me desculpe: você está sendo restritivo, equivocado, talvez até preconceituoso.

Se você aí, prefere outras atividades mais emocionantes ou recompensadoras que a leitura, tipo viagem para qualquer lugar (até em volta de seu bairro), ou prefere o suor das academias, ou até mesmo o balanço das ondas sobre um barco ou deitado na areia. Ou uma visita ao shopping com todo o stress e aqueles encontros inesperados que acabam em café frio ou virada de rosto para não encarar o inimigo. Ou uma sessão de cinema, perfumada pelo ranço da manteiga da pipoca super-salgada. Ou a conversa de bar que acaba invariavelmente com seu humor no dia seguinte, embebido em uma ressaca homérica. Ou…ou… Me perdoe a franqueza, mas você está sendo restritivo, equivocado, desperdiçador dessas energias que desmobiliam o cérebro.

Leitura será para poucos? Para os experts que identificam já na primeira frase proferida se o falante lê de verdade ou se prefere apenas ouvir seletivamente o que lhe trazem os ventos das telas, dos fones e das bocas com pouco investimento cerebral? Ou poderia ser para todos, rompidos os grilhões de preconceitos e paralisias?

De criança eu achava ler a coisa mais adulta e difícil do mundo. Uma espécie de mágica, aquela de tirar daqueles desenhos em linha coelhos de palavras, pássaros de ideias, borboletas de histórias, árvores frondosas de sentimentos pra rir e pra chorar.

Assim. Uma pessoa chega, como se fizesse isso há anos, com um objeto retangular que ora engorda ora emagrece e muda sempre de vestido, senta (e até fica em pé, se for preciso), tira a roupa do retângulo, ventila as dobras das anáguas, abraça as linhas e entrelinhas com olhos devoradores e que dançam de cima a baixo, acompanhando silenciosa partitura em passos cadenciados, de lá pra cá, de cá pra lá.

Se perguntada o que faz, responde lentamente: “Leio…arrisco…me entrego.”

Continuo na clave da infância, porque diante dessa espécie singular de ser humano, saio com pontos de interrogação nos olhos, na mente, na memória: “Como pode? Como? Deve ser uma mágica ancestral, aprendida com xamãs poderosos, que nem a mais avançada tecnologia consegue vencer.”

Religiosamente, toda ferromagnetizada, atravesso as ruas e me rendo ora a livrarias, ora a bibliotecas imantadas, onde vou viver por um tempo sem relógio no campo magnético da escrita. Aprendendo uma pouco mais sobre as operosas artes das fórmulas, rituais e símbolos da leitura.

Sem restrições, sem preconceitos, sem desperdícios.

Árvores

Marta Morais da Costa

Foto por Darius Krause em Pexels.com

Eram árvores vizinhas.

Uma de largas folhas. Outra de delicada folhagem.

Cada uma a produzir flores em diferentes épocas do ano. Uma lançava grandes cachos amarelados na primavera. Outra se enfeitava de pequenas flores roxas no verão.

Uma erguia-se com tronco despido e coroa exuberante. Outra se espalhava em finos galhos, multiplicados e indomáveis ao longo de todo o tronco.

Encontravam-se as duas no alto quando galhos e folhas ficavam tão próximos que as árvores pareciam conversar com intimidade.

Mas era quando o vento punha em movimento a massa verde que elas melhor se definiam. Bastava a brisa chegar que o diálogo manso começava. Eram delicadas palavras de amizade, eram juras de fidelidade, eram sussurros de esperança.

Quando se anunciava a tempestade, e o vento agredia as ramagens, a fúria se instalava. Só se ouviam queixumes, gritos e palavrões. O choque dos galhos era tremendo. Vez ou outra vinham ao chão as folhas mais sensíveis e as pequenas ramas enfraquecidas. O chão cobria-se com os restos de uma batalha floral.

Era, porém, nos dias claros da primavera, em que o vento – criança imprevisível – ora golpeava, ora acariciava, que as duas árvores vizinhas mais se assemelhavam aos humanos. Na lufada mais violenta, se debatiam, misturavam-se com força. Ora se impunham, ora eram feridas.

No entanto, quando o vento amainava, tocavam-se delicadamente, trocavam palavras gentis, e uma delas espargia sobre a outra pétalas douradas, que selavam sua intimidade, como beijos e carícias para sempre.

Até o próximo confronto, eram duas árvores destinadas a viverem próximas e unidas até a morte.

Herança

Marta Morais da Costa

Foto por Sohel Patel em Pexels.com

Herdara da mãe uma panela de ferro, três copos de vidro cristalino que, na infância, chamavam orgulhosamente de taças de vinho e só usavam nos natais. E uma lata de 20 litros que na origem havia armazenado margarina no armazém do seu Lalau.

A mãe ganhara a lata porque seu Lalau sabia que na casa dela não tinha moringa nem outra vasilha para armazenar a água do poço. Depois de uma boa esfregada com um pedaço de pano, cinzas e sabão, a lata quase se podia dizer nova, não fosse a estampa colorida de uma moça branca e loira, de longos cabelos lisos, sorriso de dentifrício a apresentar a margarina Regina, a rainha do forno e fogão.

Só assim para margarina entrar em casa: a mais constante das gorduras era a banha de porco, mais barata, e que seu Ari, do açougue, nem olhava para a balança ao embrulhar o quilo da mercadoria, colocando sempre muitos gramas a mais, por causa dos olhos verdes e tristes de minha mana mais velha. Margarina Regina era apenas uma rima, jamais alimentação.

O que agora chamava de casa desmerecia ainda mais o casebre da infância. Nele havia experimentado a necessidade de roupa, comida, conforto e afeto. Nele, vira o pai morrer  numa poça de vômito da última bebedeira. Nele, repartira a cama com três irmãos, dos quais era a única sobrevivente. Nele, aprendera que solidariedade dura uma única doação e muitas cobranças de reconhecimento. Que falta é palavra mais frequente do que bom dia. Que a barriga tem mais buracos por onde a comida se esvai do que paredes para impedir a fome de entrar. Que o sono é sem sonhos, que a vida é de pouco sono, que a morte tem sono pesado sem despertar.

Por isso, uma panela, copos e uma lata são quase os tesouros do rei da história que ouvira o palhaço contar na praça da cidade. Era o tempo do circo ficar na cidade e do desfile pelas ruas com os artistas convidando o público para os espetáculos. A criançada tinha direito a histórias, algumas mágicas, palhaços a trocar tabefes de mentira e a caírem de barriga postiça no chão a berrarem feito o porco quando vai para o sacrifício. Na época dois irmãos e eu íamos para a praça aproveitar o que era de graça. Sabíamos que nas noites seguintes, somente veríamos as luzes do pavilhão e ouviríamos a música da bandinha. Eram os efeitos luminosos e musicais da imaginação que corria solta em nossas cabeças, sentados os três na porta do casebre. Quando uns poucos amigos, mais sortudos, iam aos espetáculos, no dia seguinte andávamos a persegui-los para que contassem o que viram, ouviram e sentiram. Com esses retalhos de conversa e exageros montávamos nosso circo pessoal em tendas imaginárias, que carregávamos dia e noite por muito tempo.

Nem circo, nem margarina, muito menos vinho no Natal. Os copos passavam o ano inteiro protegidos no fundo da única prateleira da cozinha e de lá só saíam quando o pai ganhava de presente uma caixa com bombons melequentos, biscoitos amolecidos e uma garrafa de vinho azedo como a miséria. Meus irmãos e eu não podíamos tomar. A gente ganhava na canequinha de latão um pouco de limonada, mais azeda do que o vinho, porque açúcar era luxo para se aproveitar de vez em quando.

A panela de ferro hoje faz um arroz saboroso, mas no tempo da mãe recebia uma mistura de legumes, farinha e ovos das galinhas do terreiro. Um mexido que rendia porções miúdas, cheirando a delícias e engolidas com rapidez. Na medida em que a família diminuía, cresciam as porções. Só ficava um pouco de remorso porque a alegria da quantidade de comida era resultado de uma tragédia.

A lata, guardo comigo em lugar de honra na cozinha. Eu a decorei com restos da infância: fitas, panos, uma lasca de madeira da porta do casebre, contas de vidro, um pedaço de espelho, recortes de embalagem, tocos de vela, o único retrato de minha família reunida quando fomos à quermesse de Páscoa, umas tiras de papel em que, nos primeiros rabiscos, registrei lágrimas e sorrisos e a flor, agora seca, que ganhei do primeiro namorado.

A lata de margarina Regina reina sobre minha infância e me ensina, diariamente, a reconhecer as fomes que continuam a debilitar e as fomes que, saciadas, deixam cicatrizes na carne e na alma.

Talvez ela venha a ser a herança a deixar para minha filha.

Canto

Marta Morais da Costa

No alto da escada, ela cantava. Não o sucesso do momento, nem a cantiga de seus amores perdidos ou da esperança do reencontro. Cantava a alegria de estar viva e a beleza da natureza. Trazia do mundo pássaros cantores, brilhos de sol, esperança de chuvas, plantas a germinar.

A garganta abria sons de poesia, rimas alternadas, perfeitas, compassos de canções antigas de um povo assinalado pela alegria. O ar ganhou cores e sentidos. Os minutos ficaram congelados em relógios ocultos, mas implacáveis. A quentura da canção inundou o ar gélido da manhã.

O degrau me congelou no espaço. Os ouvidos me içaram. Foi-se sorrateira a ansiedade das horas que fechariam o dia. Nem compromissos, nem promessas, nem programas. A vida suspensa em lábios e sons e ritmo.

No encontro da música a cortina de um palco abrindo-se afoita e leve. Vinha do passado o reconhecimento: era o canto melancólico e suave da infância longínqua. Lábios maternos a acalentar a filha rebelde, a recusar adormecer-se em um tempo de agitação, a anular no sono as horas de brincar, a recusar o apelo dos jogos em companheirismo infantil.

As palavras adocicadas pelo afeto entravam, então, em ouvidos inquietos que pediam exclamações e interjeições. Vinham falando de prados e pássaros, de amores distantes e luares brilhantes. Promoviam o encontro do dedicado amante e cavaleiro e sua dama distante e altaneira. Construía em palavras castelo e caminhos, trazia nos sons o desejo do amor e da perda de si.

Eu, criança, nada entendia daquele enredo, mas entendia da presença, do afeto, dos sons cálidos, da suave calma que aos poucos fechava os olhos e expandia a paz.  E adormecia sonhando amores outros, ainda inatingíveis e já plenos.

O canto se interrompe. Uma risada estilhaça o ambiente. Ao lado da voz, um homem, desses trabalhadores braçais, magro, negro, pobre. Em sorriso franco, olhar travesso, as palavras ecoaram a claridade do canto: “Eu gosto tanto quando você canta para mim: o dia fica azulzinho.”

Terminei de subir a escada e, sorrindo, atravessei a porta de vidro. O dia ficara azulzinho.

Foto por Dominika Roseclay em Pexels.com