“Gostaria de viver numa sociedade em que não fôssemos dirigidos pelos caprichos de alguns, mas num movimento estabelecido pela soma de todos nós. Num mundo pleno de dúvidas, uma vez que para mim a dúvida nos torna mais cuidadosos, mais cautelosos, mais delicados com as relações. Quem supõe ter encontrado a verdade passa a um estado de fanatismo. E isso no exercício do poder é muito perigoso. Meu sofrimento advém de estar e viver numa sociedade tão injusta, em que as diferenças não concorrem para o enriquecimento, mas a diferença é apenas uma maneira de dividir os homens em classes. Sofro por viver em uma comunidade analfabeta, como eu, marcada pela impossibilidade de ler o seu entorno, uma sociedade em que o sofrimento nos impossibilita de participar da poesia existente. Uma vez que as necessidades básicas são mais prementes.”
(Bartolomeu Campos Queirós. Literatura: leitura de mundo, criação de palavra, 2002).
É a hora desperta de mais uma noite de insônia. Diante de mim na mesa de trabalho o monitor do computador, o teclado, a impressora e a parafernália de cabos e fios que se embaraçam, tornam os espaços cada vez mais restritos, a desenhar roteiros próprios sobre o tampo da mesa, a escorrer aquáticos e negros pelas bordas e quinas.
Um cenário típico e sem surpresas do presente laboral de uma escriba.
Os olhos inchados repousam sobre o teclado. Nesta madrugada estão espertos. Os indícios de utilização incessante ganham inusitado relevo. Só então repara no desaparecimento e, em alguns casos, no quase apagamento da tinta branca que facilita o reconhecimento das teclas.
Sem dúvida, a pintura das letras não é de boa qualidade, dialogo-me interiormente. Ou será que a primeira explicação nasce do autoengano de atribuir culpa a outrem?
Melhor, penso: talvez o uso constante tenha corroído algumas teclas. Investigo as pistas da persistente escrita. Estão invisíveis o A e o E. Semidesaparecidos os desenhos do I e do O. Mas imperturbável, inteiro, quase novo: o U.
A língua portuguesa é realmente uma pauta sonora colorida, clara, de cantos solares de estio. O lúgubre U e suas propriedades invariantes, sem tons e semitons, o deixam pouco tocado. Os dedos irão pesar em outras combinações da partitura. Assim os As estupendos em claridade e combinações com acentos, nasais e tônicas. Como o E e o O, abrindo-se em brados de trompete ou fechando-se em lamentos saxofônicos. O I vibrante despertando olhos e ouvidos para sua esbelta agudeza, para os alertas de ironias e desatinos.
A vocalidade da língua falada e escrita no Brasil, despudorada, sem segredos, difere das oclusões e esconderijos da fala de Portugal. Nossa tropical alegria e malemolência e nossa tropical lentidão ecoam na fala que acompanha os dedos tamborilando o ritmo ralentado da enunciação.
E as consoantes?
O maior número delas suporta melhor o apagamento da identidade dada pela tinta. elas dividem o peso das palavras a sustentar-se ora sobre umas, ora sobre outras. As mais enfraquecidas e quase invisíveis são as teclas R e S: a sibilante e a vibrante, a manifestarem as contradições deste país-continente. Entre sussurros e arroubos, juntos ou separados, vão descrevendo nos sons nossas mazelas adolescentes.
Outra dupla siamesa, o M e o N, contribuem para nasalizar o veludo de uma língua em tom menor, amaciada pela história de um povo dito pacífico e quase de joelhos. O povo do jeitinho, das fugas, dos esconderijos e da impunidade.
A letra D perde sua redondeza e cria ângulos quase explodindo no T, como a querer cortar as ligações prepositivas de, dos, das, dum, duma e a esgarçar relações, deixando-as soltas na frase. Pão Açúcar, casa seis milhões…
Surpreende-me a tecla SHIFT, que no seu orgulhoso anglicismo, me leva a pensar que ando exagerando nos nomes próprios, nos títulos e quiçá nos Absolutos e até no egocentrismo do meu nome espalhado em tudo o que escrevo.
Nesse devaneio tecladista e linguístico, me impressiona sobremaneira a limpidez, a visibilidade e o pouco uso da interrogação. A tecla que a identifica brilha soberana no teclado. Ando assertiva demais, concluo. Onde estão olhos e atenção para os ???? da vida e do meu tempo?
Com urgência meu pensamento precisa reaprender o caminho das perguntas e ordenar ao mindinho direito que tecle o quê, quem e por quês deste tempo presente trágico.
Formar leitores vai além de alfabetizar. Supera momentos de encanto e emoção. É mais do que ter uma companhia que leia em voz alta ou que esteja junto em uma leitura silenciosa e individual. Formar leitores não é encher a casa de livros ou deixar alguém em uma biblioteca, perdido entre estantes. Formar leitores tem a ver com educação, gradação, diversidade, acompanhamento. Não tem a ver com controle. Significa dar a mão para a pessoa e ensiná-la a andar entre livros. Formar leitores (não importa se crianças ou adultos) é apresentá-los aos textos do mundo, contar de sua beleza e de seus perigos, exemplificar com outras histórias de leitores (inclusive a nossa) e aos poucos educar para ver, compreender, interpretar. Para descobrir e recriar. Educar tem a ver com conhecimento e paciência. As pessoas têm tempos diferentes de aprendizagem: o educador lhes oferece o seu tempo e o seu saber. O saber não é um depósito de informações. São aprendizagens lidas e vividas colocadas a serviço de outrem. Um educador que não lê, não serve para formar leitores. Não terá a aprendizagem necessária para o infinito de textos. Não apenas em livros: em palcos, em sons, em papel, nas telas digitais. Quem não sabe nadar, sucumbe ao mar. Para nadar no mar é preciso saber navegar. Para o oceano de textos, o leitor precisa de bússola, mapas, roteiros, ciência. Que se aprende na prática e no legado dos navegantes que por esse mar viajaram. Formar leitores é uma arte. Arte tem a ver com técnica. Técnica tem a ver com estudo. Estudo tem a ver com leituras. É o ciclo da vida. O círculo.
Mensagens insistentes de que o “céu fica em festas” quando recebe as pessoas queridas comprovam uma forma esperançosa de autoengano.
Entendo a necessidade de amenizar o luto e criar um espaço em que minimamente a dor possa se recolher e ferir menos.
Reconheço que a dor estraçalha e arrebenta todos os sentidos.
Questiono um céu coalhado de milhões de novos mortos, mais do que nunca surpreendidos quando levavam uma vida normal. Ou que acreditavam ser normal: poder escolher ficar ou sair, estar consigo ou com muitos, viajar, visitar sem compromisso as mecas do consumo, abraçar, apertar as mãos de conhecidos ou não, tomar um café ou um porre na mesa do bar, trabalhar respirando sem obstáculos, manifestar-se em presença.
Questiono um céu aglomerado abrindo espaços na Terra e nos corações com São Pedro atarantado e frustrado por não poder receber a todos com as honras, cuidados e atenção que cada um merece. Batalhões e batalhões de anjos convocados com urgência para dar suporte ao atendimento, mais do que os batalhões de equipes intensivistas, do que os contingentes de profissionais da saúde.
Nem a diferença de quem recebe almas e de quem recebe corpos com almas pode desqualificar uns ou outros. Anjos e homens formam uma corrente de acolhimento que parece ligar o Céu e a Terra.
Pensando melhor: nem tudo é tão sereno, nem tudo é tão contínuo, nem tudo é tão homogêneo. Nem o paralelismo formal é definitivo ou definidor.
Há aqui na Terra, porém, camadas de horror que bradam aos céus – mesmo que do Céu eu nada conheça e só reproduza o o que me contaram ou o que li. Horror nascido de nossa pobre e material humanidade concreta. É possível imaginar a dor física, a expectativa de cura, a consciência do fim, tudo o que a pessoa moribunda gostaria de viver, dizer, amar. Sofremos junto. Isto é, alguns conseguem essa empatia humanizada. Outros apenas contam quantidades, sem lhes dar algum valor social ou humano. Somente valores numéricos: atingimos a cifra, a curva é ascendente, a média móvel sofreu acréscimo de 7%, estamos em segundo lugar no número de mortos. E dê-lhe polca pandêmica!
Nesta semana, sofro de falta de ar (não aquele que levou ao céu tantas pessoas). Mas só encontro o ar fétido de uma sociedade em grande parte anestesiada e que desligou qualquer aparelho de consideração ao outro, de respeito à coletividade. Aquela que sai em busca de um prazer inadiável, de interações superficiais, de goles substanciais de “eu posso’ e “eu quero” e “e daí?”. Se uma parte desse contingente pode ser considerado imbecil e ignorante, outra parte sofre de sociopatias diversas ou brinca de falsa divindade.
Tenho neste momento (e muitos como eu, certamente) os olhos assombrados pelo medo – por mim e por muitos queridos -, os olhos ensandecidos pelas imagens de não-me-importismo, os olhos inundados pelo lamento e pelo sofrimento de quem foi apartado de seu bem-querer, os olhos indignados pela incompetência daqueles que tudo açambarcam e nada entregam, os olhos a cada dia mais sem brilho ao reconhecer que “vivo em um tempo de guerra, vivo em um tempo sem paz” e vivo em completa derrota por não ter suficientemente contribuído por um mundo melhor.
Observação 1: Esta crônica foi editada inicialmente em 26 de fevereiro de 2021 com o título “251 mil”, mas na medida que a tragédia nacional foi se tornando mais cruel e o número de vidas perdidas aumentou, o título foi sendo atualizado. As demais palavras, embora duras, embora desestimuladoras, porém, continuam sinceras e válidas.
Observação 2: No dia de hoje, 29 de abril de 2021, o Brasil tem registradas 400 021 mortes pela COVID 19. Neste curto tempo de fevereiro até agora, cada atualização do título desta crônica custou a mim doloridas reflexões, intensa indignação e um lamento infindável. Diante da necropolítica que trouxe os brasileiros até aqui, o sentimento de perda não se extinguiu. Extinguiu-se, sim, minha capacidade emocional de seguir registrando ausências. Respeitosamente, pouparei a mim e a meus caros leitores o registro continuado de nossa tragédia.
Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.
Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.
Aos poucos fomos perdendo o receio do pior: bastava ficar recolhido, sair tomando cuidados básicos: distanciamento, máscara, álcool em gel. Passamos um pouco de dificuldade no início: tudo era muito diferente. A falta da vida normal de saídas, encontros, conversas, longos abraços doeu um pouco. A certeza de que estávamos ajudando a salvar vidas, a manter o vírus afastado, a não piorar as estatísticas, acendia a luz da cidadania.
Textos nas redes, telefonemas, oferta de auxílio (em especial para os quarentenados idosos), um desejo de ser solidário (muitas vezes o desejo transformado em ações), podcasts, lives, mensagens de otimismo, muito coraçãozinho e fotos lindas da natureza, de festas antigas, de viagens de sonho. Isso tudo foi acalmando a ansiedade, diminuindo o medo, acomodando nossa vida a um retiro cujo final era luminoso.
As notícias sobre vacinas começavam a ocupar o espaço em noticiário e a produzir imagens de salvação dentro de nossa voluntária solidão. Aprendemos a ter paciência, a minimizar problemas, a rever valores e comportamentos. Ficamos mais próximos de nossos próximos e mais senhores de nós mesmos.
Dedicamos o tempo a tarefas que relegávamos a outrem ou novas ações e atitudes. Aprendemos línguas estrangeiras, lemos mais e outros livros, assistimos a filmes de todas as categorias, colocamos ordem em horários, coisas e rotinas domésticas.
Nossas casas ganharam efetivamente o sentido de lares: proteção, companheirismo, boas práticas de relacionamento, um “vamos junto” até que a covid nos separe. Mas resistimos, vivemos mudanças que reconhecemos temporárias. Talvez sobrevivam em tempo sem quarentena. Talvez não.
É verdade que os divórcios aumentaram, que as crianças perderam aprendizagens, que os projetos para o Ano Novo foram destruídos e que a balança foi impiedosa com o sedentarismo obrigatório. É verdade que a cidadania (antes uma miragem) mostrou sua face de verdadeiro deserto sem fim, cruel, impiedoso, canalha. Mas hoje até relevamos essas dificuldades porque a proximidade do dia de vacinação apagará todos os pecados.
Afinal, um ano não vivido na integralidade é muito pouco para a sobrevida que acreditamos estar logo à frente.
Corremos sem sair do lugar e aquartelados entre a porta de entrada e a sem saída, aguardamos que nossa obediência e nossa reclusão (com toda sua carga de sacrifícios) nos mantenham vivos até a liberdade, ainda que tardia.
Esperamos a luz no fim do túnel, antes que ele se feche.
Em 13 de março de 2020 entrei em quarentena. Como eu, milhões. O que nos recolheu foram algumas esperanças e um só medo: o de morrer sem preparação.
Entre as esperanças viviam um “vai passar”, “serão três meses no máximo”, “ a solidariedade é a palavra do momento”, “haverá um novo normal, passada a epidemia”.
A epidemia virou pandemia, três meses se quadruplicaram. O medo se tornou um item do cardápio diário. Toda a vida foi trancada em um quarto escuro, guardado por um pitbull e fechado a cadeado.
Os safados e os sacanas de sempre atacaram e destruíram o que apareceu pela frente. Continuam a agir diante de nossa passividade e covardia. Descobriram que o medo é o senhor da razão. Colocaram sem pudor na vitrina sua crueldade, indiferença, ganância e insaciável cobiça.
O novo normal veio em forma de deboche e despreparo. Toda incompetência e arrogância conheceu a luz, despudoradamente.
Veio a ciência com seu discurso meia boca e meia cara. Existe vacina, mas não para todos. Existe conhecimento, mas não para todos. Existem saídas, mas… Afinal, a ciência também é humana, feita por quem se cansa e por quem desiste.
Quem sabe a fé. Deus provê. Enquanto uns oram por seus mitos, outros rezam por seus mortos. Os agnósticos riem esfíngicos. Ao menos não descreem em vão.
A quarentena se transformou em trecentena e como a pilha de mortos, não cessa de crescer. Empilham-se os dias e sonhos e ânsias de liberdade. Para os tolos. Os espertos sempre continuam a vida normal, descuidados, debochados, inconsequentes, carpindo os dias para sai e a noite derradeira para os outros.
O novo normal é a revivescência da barbárie. A solidariedade é o encontro virtual, o que se deseja com a certeza de nunca realizar.
Um ano se vai em um país pindorâmico de um anão anestesiado que sonha um abortado futuro. Não terra brasilis, sed terra ignorantis.
Hoje, com futuro encolhido e regressivo, em um quarto com janela gradeada, de onde se vê o horizonte e as flores, e de onde só sairemos em direção ao porão.
Depois de um ano, colecionamos virtualidades. O mundo dos robôs já chegou. Nossa convivência é com máquinas. Não com gente. As lives são pessoas bidimensionais, como em canais interativos. Não com pessoas diversas, mas com inimigos transmissores, que também nos olham e nos consideram inimigos.
Uma sociedade acuada pelos lobos famintos, agressivos e solidários apenas com sua alcateia.
Uma sociedade ameba, enclausurada, a implorar por vacinas e pela velha normalidade. Desejando apenas continuar a ser sobrevivente, já que a vida se restringiu a paredes, ilusoriamente transitórias.
O novo normal, se chegar, será árido por fora e ácido por dentro. Uma sociedade obrigatoriamente adoecida, em que o riso é um esgar e a voz, um sopro.
Não existe vacina para a assustadora descoberta do Mal e para a devastação interior.