Relendo Farenheit 451, lembrei de anotar uma fala linda do personagem Granger sobre seu avô.
Pensando em Bartolomeu Queirós e sua trilogia “Indez”, “Por parte de pai” e “Ler e escrever e fazer conta de cabeça”, com lindas e líricas passagens sobre pai e avô, compartilho o texto de Ray Bradbury.
“Meu avô morreu quando eu era garoto. Ele era escultor. Também era um homem muito generoso, com muito amor para dar ao mundo, e ajudou a reduzir a miséria de nossa cidade; e ele fazia brinquedos para nós e fez milhões de coisas na vida; sempre tinha as mãos ocupadas. E quando morreu, subitamente percebi que não estava chorando por ele, mas por todas as coisas que ele fazia. Eu chorava porque ele nunca mais as faria novamente, nunca mais esculpiria outra peça de madeira ou nos ajudaria a criar pombos no quintal, nem tocaria violino do jeito que tocava ou nos contaria piadas com aquele seu jeito especial. Ele fazia parte de nós e quando morreu, todas essas coisas morreram com ele, e não havia ninguém para fazê-las do jeito que ele fazia. Ele era único. Era um homem importante. Jamais superei sua morte. Muitas vezes penso: quantas esculturas maravilhosas jamais vieram à luz porque ele morreu. Quantas piadas estão perdidas para o mundo e quantos pombos suas mãos deixarão de tocar. Ele moldava o mundo. Ele fazia coisas para o mundo. O mundo sofreu uma perda de dez milhões de ações generosas na noite em que ele morreu.”
Quando você me pediu para escrever um pequeno texto sobre minha profissão para ser publicado no Dia do Professor, pensei em fazê-lo à moda dos discursos políticos e oficiais, com frases de incentivo, adjetivos elogiosos, substantivos idealizados e muitos verbos de afeto. Algo parecido com: “Ser professor é padecer no Paraíso. A educação é o esteio moral de um país. Ser educador é missão que enobrece e constrói o cidadão do futuro. Não há nação desenvolvida sem educação de qualidade. O professor educador é o agente de mudanças e alicerce de um país melhor.”
Já lemos e ouvimos essas palavras em diversos lugares, situações, textos e momentos. Concorda?
No entanto, se compararmos essas frases com a realidade e a história da educação no Brasil, podemos verificar o quanto são dizeres contraditórios e enganosos. Por vezes, embora expressem verdades parciais, nunca se realizam, não passam de palavras vazias, esbarram na cruel e desprezível e mesquinha recompensa do cotidiano escolar e social.
Deixo que essas frases retóricas continuem soando em forma de discurso repetido e repetindo-se como música de fundo, para que lhe conte um pouco de minha biografia como educadora. Creio que, desse modo, você poderá avaliar melhor o que representa a data de 15 de outubro para mim.
Sou de família humilde e estudei sempre em escolas públicas. Para meus familiares, ser professor era profissão altamente considerada, pois lidava com um conhecimento que havia sido, com dificuldades, acumulado por gerações. Representava uma pessoa destaque na comunidade porque era alguém capaz de dominar esse saber.
Na escola pública, no entanto, ser professor era, acima de tudo, um emprego estável. Alguns de meus professores cumpriam à risca esse mandamento. Davam suas aulas com quem carimba papéis ou atende formalmente o público. Alguns deles chegavam a usar a estabilidade como respaldo para arbitrariedades. No entanto, entre dezenas de professores, alguns poucos deixavam emprego e segurança em segundo plano para se aventurar nos mares do conhecimento – para cuja viagem nos convidavam – e no universo da afetividade. Educavam para o presente, indagando o imprevisível futuro.
Foram eles os responsáveis mais diretos por minha decisão pela carreira do magistério. Foram, e continuam sendo, exemplos de vida profissional que persigo.
Da universidade saí munida de receitas e esperanças e iniciei minha atuação docente. Minha biografia até aquele momento, um plácido conto de Natal, ganhou os contornos de tragédia do cotidiano. As receitas só funcionaram enquanto a esperança resistiu.
(Ao fundo, continua a música das frases de efeito, não?)
O salário não resistia ao mês. Vendi na escola o que produziam minhas mãos nas madrugadas e finais de semana: blocos de papel decorados, almofadas de crochê, toalhas pintadas, sachês, artigos de Natal, sabonetes e velas. Mascateando, pude ter uma modesta cerimônia de casamento, comprar o enxoval dos filhos, pagar o aluguel de uma casa melhor. Livros? Ganhei de presente, comprei em sebo, recebi de editoras. Não abandonei o sonho de ser uma boa professora para não me tornar uma carimbadora de papéis.
Enfrentei o descaso de colegas (alguns até com maior experiência na carreira!) com o trabalho sério em sala de aula, ouvindo perguntas assim: “Por que se dedicar tanto se não vai ganhar mais com isso?” Resisti ao desânimo, às dúvidas, às dificuldades. Com realismo, tentei alcançar a estatura de meus bons professores. Vi crescer a indisciplina e a violência entre alunos e na comunidade. Experimentei a humilhação infligida a mim e a meus colegas por pais e alunos. Revoltei-me (e assim continuo) com o discurso oco e eleitoreiro sobre a “nobre missão do professor”.
“É nobre, mas não é missão. É profissão!”, dizia e digo convictamente.
Sinto-me por vezes uma espécie desatualizada de Dom Quixote lutando para vencer moinhos de ignorância e desprezo.
Hoje, vendo cosméticos, e não deixei de ler e estudar nas poucas horas vagas. Tento convencer alguns alunos ,mais porosos a meu exemplo e às minhas palavras, da importância do conhecimento para uma visão crítica da realidade. Sofro ao ver meu trabalho e boas intenções desprezados por alunos sem disciplina, nem respeito.
As imagens de meus bons professores às vezes sorriem para mim, numa espécie de conversa interior, numa espécie de farol a guiar-me nesta viagem cheia de percalços.
Os olhos de alguns poucos alunos abrem-se e brilham quando aprendem algo novo. Poucos e raros pais me confessaram que seus filhos mudaram, para melhor, demonstrando confiança na educação.
Se eu desistiria de ser professora? Pensei sobre isso várias vezes ao longo dos anos. Mas sempre que as dificuldades pesavam mais na balança, os pequenos resultados positivos, aqueles olhos brilhando, aquele sorriso de compreensão me estimulavam a continuar. Por eles continuei.
Por essas razões, o Dia do Professor para mim não tem sabor de festa. Tem marca de resistência. Agora sei: continuo porque resisto.
Para as crianças, depois de seu dia oficial de consumo.
Marta Morais da Costa
Luísa tossia muito na segunda-feira: estava com uma gripe poderosa, devastadora, contagiosa. Vítor caiu de cama, com gripe, na quinta. Luísa era sua colega de classe.
Artur estava com rubéola na aula de natação. Vítor caiu de cama, com rubéola. Artur e Vítor nadavam na mesma piscina.
Aurélio faltou à aula. Causa? Virose. Três dias depois Vítor não pôde ir ao aniversário de Letícia, Causa? Virose. Vítor e Aurélio são irmãos.
A insolação de Sérgio e a diarreia de Camila contaminaram Vítor: sol e intestino o deixaram de cama. Sérgio, Camila e Vítor curtiam férias juntos e misturados.
Vítor era um solidário. Nem a solidão dos dias chuvosos era penosa. Sabia que, cada um em sua casa, olhavam para as mesmas águas. Havia aprendido o significado de conviver.
O pecado foi o monstro temível e aterrador de minha infância. A cabeça hipertrofiada, o riso bestial, olhos em fogo, dentes lupinos, garras e cascos. Algo como um diabo medieval somado à besta do lago Ness. Nem por isso eu deixava de levar semanalmente ao confessionário uma lista decuplicada de transgressões às leis divinas. É verdade que, perto do que a idade madura traria, o rol era apenas fruto da imaginação e eco dos sermões dominicais. Nascemos todos anjos, alguns perdem as asas e humanizam-se rapidamente. Em slow motion, demorei a perdê-las. E até hoje tento humanizar-me. Dura tarefa, talvez impossível. Se o que vejo ao redor e cotidianamente é o modelo de humanidade, fico mais certa de que não quero assumir em mim o que meus olhos descobrem.
Esta crônica não tem a intenção de atuar como confessionário, portanto, fiquem tranquilos, leitores, prometo não enveredar por questões religiosas, embora elas enveredem teimosamente no meio de minhas palavras e dos dedos a dançar pelo teclado. Vade retro, temptatione!
Herdei do repertório brasileiro de canções, tão rico, diverso e inovador (com o perdão dos países que reclamam esses adjetivos, mas não passam de arremedos de nossa criatividade musical) uma composição que, se puder, canto no volume mais alto que as pregas vocais aguentarem: “Da cor do pecado”, de Bororó. Para além do caldo sensual, das imagens voluptuosas, me intriga essa minúscula construção verbal desafiadora do título. Qual é a cor? Por que é pecado?
Vai daí que recebo um meme instigante sobre “Os 7 pecados literários” de @nosso_universo_literario. Conhecem? Tomo a liberdade de reproduzir para os poucos que ainda não o viram:
1 Gula- Devorar um livro em poucos dias.
2 Avareza- Não emprestar livros.
3 Luxúria – Desejar um livro sem ter lido os que já tem.
4 Ira – Querer matar um personagem.
5 Inveja – Cobiçar o livro do próximo.
6 Preguiça – Enrolar para terminar um livro.
7 Orgulho – Achar que o gênero que você lê é o melhor.
Depois de um exame de consciência na velocidade da luz, fiquei achando que até melhorei ao longo dos anos. Sabem aquela lista de 10 pecados no confessionário da infância? Pois é, agora são somente sete!
Incorro em todos esses, sem culpa, gostosamente.
Também não é para fazer uma profissão de fé pecaminosa em relação à leitura que iniciei esta crônica-confissão. O que me perturba é a tal “cor do pecado”. Será que tem a ver com a cor das vogais do poema de Rimbaud?
Só pra recordar: o jovem poeta e futuro mercador de armas Arthur Rimbaud escreveu um soneto intitulado “Voyelles” e nele atribuiu às cinco vogais francesas (com timbres diferentes dos da língua portuguesa, embora escritas tal e qual) as seguintes cores: negra (a), branca (e), vermelha (i), azul (o) e verde (u).
É evidente que eu e mais alguns milhões de pessoas dariam cores diferentes para as mesmas vogais, sem correr o risco de levar uma arminha pela cara. Cada um sabe “a dor e a delícia de ser o que é”. E o que não somos é, seguramente, submissos a declarações subjetivas de alfabetos coloridos, mesmo com o arrojo poético rimbaudiano.
Longe de mim ser comparada ao mestre armeiro, mas minha atração pelo abismo me leva a tentar resolver a minha maior incógnita do momento: qual é a cor do pecado?
Junto alhos e bugalhos e parto de imediato para a tentativa de uma resposta exequível (viva a reforma ortográfica recente: pronuncio o u, mas não o marco mais com trema!) sem tremer.
Os tais sete pecados capitais formam um conjunto de número mítico que, como boa virginiana, apresentarei em ordem alfabética. No meu entendimento, hoje composto por neurônios decrescentes e joelhos esfolados de tanto rezar, eles seriam cromaticamente associados, pintados e bordados desta maneira:
– Avareza, dourada como os potes de ouro do rei Midas e a caverna de Ali Babá. Afinal, entesourar hoje é para nababos e contos maravilhosos.
– Gula: a este tenho o maior apreço, e para confirmar minha adesão entusiasta, coloco neste pecadinho a enormidade possível das cores, um cardápio multicolorido como a natureza que nos alimenta o corpo e o espírito.
– Inveja, santa ou pecaminosa, é amarela! Está na palidez do invejoso e nas órbitas esbugalhadas de quem trocaria tudo o que tem pelo ouro de tolo dos outros.
– Ira é branca no esgar dos dentes de crocodilo de um rosto desequilibrado, na baba a espumar nos lábios, no apagão dos neurônios.
– Luxúria – eita “pecado rasgado, suado, do lado de baixo do Equador”! Tua cor está nos cenários da rede Globo, no mesmo vermelho de roupas e espaços de teatros e cinemas, na sensualidade rubra das divas e dos divos, no desejo ardente a levar as almas para os divãs de psicanalistas.
– Orgulho é um pecado de sangue azul. Da cor do céu que julgam habitar os nobres de calção de esfola-gato dos tempos de Gregório de Matos até os privilegiados da vida que circulam nas vias privilegiadas da sociedade de sangue vermelho, igualzinho para todos.
– Preguiça, vício macunaímico, indolente pendão das décadas perdidas e do retrocesso, bandeira falsa atribuída aos artistas, que mais criam quanto mais trabalham, mesmo estando em redes ou leitos insones. Você, preguiça, é bege, flicts, a cor rejeitada da boca para fora e tatuada a ferro e fogo, que a alma lava, esfrega, mas não apaga.
Como pecadora não arrependida, entendo que esta crônica se estende por demais com apenas sete pecados. Os outros estarão escritos em livros inúmeros localizados nos cantos mais escuros da biblioteca infindável de Borges.
Marta Morais da Costa
Julgava o amor
voraz sentimento tirânico,
avalanche, tsunami,
catástrofe bem-vinda,
êxtase devastador,
raio beta radioativo.
Tropecei e despenhei-me na própria ilusão.
Amor chegou de mansinho,
pouco a pouco, sadio
e melancólico,
inseguro de si e míope.
Não lamentou suas deficiências,
instalou-se em mim
como velho inquilino,
cobrou seus direitos, não pagou suas dívidas,
comeu, bebeu, dormiu
e esqueceu-se de partir.
Até hoje mora comigo,
acomodado e sorumbático.
Por causa dele sobrevivo
a sonhar loucuras impossíveis,
Sancho Pança, algemado
a normas e crenças.
Sem batalhas, sem medalhas,
feliz em minha limitada mediania.
Marta Morais da Costa
Passou o tempo da vida
a medir distâncias.
Entre a brincadeira e o trabalho
entre o estudo e a aprendizagem
entre a saúde e a doença
entre o ser, o estar e o fazer.
Os cálculos mediam
quase tudo o que limita.
Arriscavam, porém,
inoperantes e imprecisos,
quase tudo o que amplia.
Os números descreviam
fatos, emoções, expectativas.
O que comia e vestia,
o que ganhava e dispendia,
os ardores dos desejos,
o tamanho da solidão,
o percurso dos sonhos.
A conta mais inevitável, porém,
ficou inexata e incompleta:
não conseguiu numerar
a distância inapreensível
entre o surgir e o dissolver,
entre o que foi e deixou de ser
entre o que viveu de verdade
e o que ficou inalcançável.
Conta fechada pelo cálculo
imensurável da morte.
Noite tranquila de sono, para ele, é de quatro horas. Em outras, o rolar na cama tem oito horas de insônia. Você precisa dormir, descansar, o médico recomenda, a revista de saúde confirma, a mãe adverte. Quem diz quê? Deitar a cabeça no travesseiro é incendiar o cérebro de medos, dúvidas e lembranças angustiantes. Dorme, infeliz! As pálpebras pesam, o corpo dói. É estresse, o amigo define e recomenda: beba mais água, não tome café, faça apenas um lanche à noite, frutas, nada de biscoitos ultraprocessados. Tentativas não faltam, a fome aperta lá pelas duas da madrugada. Jura que não vai assaltar a geladeira, vira pro lado, os olhos estalados, a cabeça dói. Mas não levanta.
Aquele compromisso das oito da manhã agita o sono que se afasta para Marte. Odeia Morfeu principalmente o com braços: quem inventou a expressão foi alguém que dormia doze horas ininterruptas. Nem Morfeu lhe faz carinho, abraça, sussurra palavras doces, convida para a cama, embala seus sonhos. A cabeça em curto-circuito, os olhos doem: vai chegar um lixo no escritório, já está se vendo, olheiras, mau hálito, cabelo que nem gel consegue domar, pernas pesando arrobas. E o mau humor? Daqueles de morder, ranger dentes, unhar borracha e trocar as letras do teclado. Tomara que o chefe tenha outro compromisso e adie a tal reunião.
Abre o computador, a internet deu pau novamente. Toca chamar o Ângelo da TI pra dar uma olhada na máquina. Pega o telefone e descobre que a telefonista da recepção não veio nesta manhã: o filho está com infecção na garganta. Qual é mesmo o ramal do Ângelo? Cara, tu pode vir aqui no almoxarifado ver o que aconteceu com minha internet? Tá descendo? Te espero, vem logo. Onde coloquei a planilha do Excel pra reunião de hoje? Em que pasta? Não consigo me organizar com este peso na cabeça: parece ressaca. Será que o chefe vai pensar que andei tendo uma noitada daquelas? Só me falta uma advertência na ficha. Logo agora que arrumei este emprego, depois de dois anos de bicos e falta de grana! Ah, Ângelo, vê se dá um jeito nesta internet, preciso buscar umas informações na rede. Acho que uma máquina nova iria bem, Alfredo. Esta aqui já foi bem usada e tá precisando memória, fazer umas atualizações, substituir a placa-mãe e uma pá de acessórios. Melhor pedir uma nova. Ângelo, tá louco? Mal entrei na empresa e vou pedir uma nova? O que o chefe vai pensar de mim? Posso fazer isso não. Não esquente, Alfredo, eu falo com o Artur: ele vai entender o problema, deixa comigo.
O telefone toca. É a secretária do Dr. Artur avisando que a reunião foi adiada para a tarde. De repente lembrei a pasta: a do Arquivos Provisórios. Ufa! Como é, Ângelo, vai dar para usar a internet hoje? Espera um pouco, acho que sim, vou tentar este atalho…
A cabeça começa a clarear, o resto do corpo pesado, um fio de pensamento se forma. Nada a ver com trabalho. O sol é de praia, o barulho é de onda quebrando, o corpo curvilíneo ao lado é de Adriana, o cheiro é de bloqueador solar, a toalha suja de areia. Tem um mês atrás, no feriadão, a gente numa boa, cerveja e moleza. Tá pronto, Alfredo. Vai dar pra usar a conexão, mas o computador logo vai falhar. Use enquanto der. Vou ver se arrumo outro para você. Legal, Ângelo. Tu é um bom amigo.
Da janela aberta entra a luz do sol e do barulho da rua vem o dia que começa na cidade. Corpo cansado, olhos fechando, a cabeça a voar por lembranças associadas: vontade de casar, vontade de mudar de cidade, vontade de sair da casa dos pais. Nem adianta ter vontade: adiantaria se tivesse a grana para tudo isso. Preciso recuperar a planilha, vai que o chefe me chama. Os dedos não obedecem ao comando. As letras dançam, difícil segurá-las em um espaço flutuante. Calma, vai com calma, Alfredo. Respira, toma uma água. Melhor se fosse café. Boa ideia! Vai até a máquina de café na sala, tira um expresso, corto, denso. Agora vai acordar.
Volta à sua mesa, retoma a procura. Digita, erra, digita, acerta. Erra de novo. A planilha não está nos “Arquivos provisórios”. A cabeça volta a doer. Pesquisa, vai de pasta em pasta. Nada. Saídas, Entradas, Correspondências, Atas, Reuniões, Código de Conduta da Empresa, Editais. Nada. Última pasta. Diversos. Lá está a planilha! Salvo! Vou copiar e salvar em várias pastas, por enquanto. Os dedos tropeçam, os comandos se confundem, a planilha some. Ângelo! Ângelo! Por favor, venha rápido aqui, preciso recuperar a planilha! Maldita insônia! Se eu perder este documento… A cabeça pesa. O corpo tomba na cadeira. As pálpebras se colam. Talvez uma soneca…
Em frente ao teclado e à tela abre-se a ampla janela. A cabeça cede à urgência da escrita. À revelia dos comandos, a crônica nasce contestadora.
Eu queria escrever sobre a descoberta desanimadora de que quatro milhões e seiscentos mil brasileiros não quiseram ser leitores, segundo a recente edição do “Retratos de Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e o Itaú Cultural. Mas lá fora o sol ilumina a paisagem e impõe um desejo de sair, passear, encontrar a natureza.
Eu pensei em escrever sobre o processo de desertificação em curso no Brasil e na absoluta irrealidade em que vivem brasileiros e, em especial, os comandantes desta casa incendiada e desarvorada. Mas a janela aberta deixa passar uma brisa cálida e terna que abraça o corpo e o deixa acarinhado.
Preciso escrever sobre os mais de 137 mil brasileiros enterrados e silenciados por abandono e descaso neste país negacionista e cruelmente anti-solidário. País de festas e bares, de praias e inadiáveis compras. Um país em que as máscaras não são de pano nem de acrílico, são naturais e procuram disfarçar a hipocrisia. Mas através da janela descubro um ninho de pássaros na árvore da calçada, a me avisar que ainda há vida que vale a pena lá fora.
Estava em minha pauta escrever sobre o acobertamento da corrupção mais a roubalheira do dinheiro dos pagadores de impostos – pesando na cesta básica e no churrasco domingueiro, porém o caviar fica de fora. Neste país em que, podendo, muitos não se furtam em roubar e desmentir. Mas o esplendor das flores no jardim, anunciando a presença de mais uma primavera, capturam meus olhos com brilhos e cores e formas e beleza.
Eu preciso escrever sobre La Niña, sobre as crianças sem escola, sobre os adultos sem futuro, sobre a seca a mostrar arreganhada a terra em mosaico arenoso. Mas ao longe descubro um menino ciclista, a desafiar a gravidade e os cuidados maternos, e a fazer girar as rodas de sua nave espacial, sonhando com viagens sem tempo nem destino.
Eu queria – e precisava- escrever sobre a solidão, o medo, a dor da ausência, a vida parada no relógio e na folhinha, as frestas de esperança com a possiblidade de uma vacina, venha de onde vier. Vacina que dói em minha alma brasileira, ao saber que a nossa ciência está quase tão destruída quanto a imagem deste país entre nós e entre os outros. Mas o tempo da escrita pode ser um bálsamo momentâneo.
A janela aberta deixa passar os sons de uma música longínqua a falar que “felicidade é como a pluma/ que o vento vai levando pelo ar./ Voa tão leve/ mas tem a vida breve./ Precisa que haja vento sem parar.”
Deixo teclado, tela, computador e crônica em suas possibilidades e concretude. Vou até a janela reverenciar este breve momento de felicidade.
Noites de lua cheia costumam guardar surpresas e desconfortos. Que poder tem a lua sobre as expectativas humanas e o bem estar das pessoas? Uma hipótese: a luz que afasta a noite e quase traz de volta o dia aviva a sensibilidade. “Venha ver, fulano, que lua!” “Peraí, deixa eu pegar o celular…” “Que foto! Vai lá pro face!”, “Lindaaa!”
É nos olhos voltados ao alto que a lua se mira. Sou seduzido pela aura romântica e me contenho pra não tascar um beijo na minha ex, tão longínqua ao meu lado. Ah, o jantar! E o vinho, então? A luz da lua clareou-me: tudo armação pra me fisgar outra vez, conclui um pequeno lúcifer cerebral. Fecho os olhos, apago a lua e volto a meu lugar na mesa e ao meu prato perfumado pelo alecrim e colorido pelos acepipes.
Acepipe? É o vinho novamente. Emerge num clarão o verso drummondiano: “mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo!”. Taí: um leitor não cai tão fácilmente na rede de intrigas. Na verdade, ele cai mais facilmente das nuvens do que do terceiro andar. Agora baixou o irônico Machado. Vou parar, antes que a biblioteca comprima um pouco mais o que sobrou de meu cérebro.
As noites costumam pregar peças cômicas de um ato ou originar uma imensa tragédia em cinco atos, prólogo e epílogo! Acima de tudo, elas carregam em seu útero medos e mortalhas, luzes e solidões. A noite chega e os mistérios se expandem.
Experimente, leitor, marcar um evento qualquer enquanto o sol aquece e os pássaros cantam. E marcar o mesmo evento nas horas em que as galinhas dormem. Casamento, por exemplo. Uma amiga de muitos anos casou de manhã. Os convidados chegaram atrasados, com cara de despertador e boca de café tomado às pressas. Nem o almoço prometido e avisado botou o ânimo pra cima. Ao contrário: os convidados comeram e voltaram pra casa rapidinho, pra terminar o sono interrompido. Nem mesmo as crianças se divertiram. Pensavam brincar antes dos comes, mas os pratos corriam o risco de esfriar. Esperaram brincar depois dos bebes, e os pais se mandaram para o lar aconchegante.
Ah, mas casar à noite tem mais encantos! Dorme-se à tarde, come-se um lanche, porque o jantar vai demorar infalivelmente. Dá tempo de deixar o terno impecável, de escolher a gravata, de combinar sapato e meia. A acompanhante passa o dia no salão e retorna irreconhecível! As crianças ficam elétricas, energizadas pelas expectativas da noite sem hora pra acabar. Até o branco do vestido da noiva fica mais branco! E o futuro maridão adquire uma respeitável face responsável (mesmo que a festança depois acabe por fazê-lo parecer um adolescente cheio de malícias e vontades).
Casar à noite tem a ver com pecados supostos e cenas eróticas ardentemente entrevistas e desejáveis: e não penso apenas nos noivos. Os convidados, movidos pelo mito das cinderelas e príncipes guerreiros, parecem prometer cenas das mil e uma noites em curtas passagens por camas burguesas. Ah, casar à noite é pedir luas cheias, brilhos nos olhos, surpresas e armadilhas…
Lembro-me, antes de beber mais um copo de vinho, que me casei em noite de Superlua. Deu no que deu. Continuo a fazer fotos para o face e nem vejo a face da ex, obnubilada pelo porre homérico em andamento.
A vida, triste quimera, devora com suas cabeças horrendas qualquer frágil vislumbre de felicidade existente neste solitário descasado. Antes que meus olhos se fechem para o clarão da lua, lembro mais uma vez a esplendorosa noite de verão, o céu estrelado, a brisa suave, sons de valsa nupcial e uma enorme bola de prata a sorrir cinicamente lá no alto.
Pensar era atividade para a qual nunca tinha tempo. Melhor não pensar e deixar que os outros lhe dissessem o que fazer. Como resolver os problemas. As atividades do dia seguinte.
Já na infância havia descoberto que o pensamento próprio pode trazer problemas. E que sempre é pura perda de tempo. Na escola, toda vez que o professor pedia uma solução, uma comparação ou argumentos, ele se fazia de ausente, escondia-se atrás dos colegas, copiava descaradamente as respostas – em livros ou nas provas dos vizinhos. É verdade que poucos professores na época pediam aos alunos que pensassem. Achavam que era melhor só ter respostas iguais às palavras dos livros. Sem mudanças.
Em casa, nem precisava ficar se escondendo. Os pais determinavam, mandavam, exigiam. Era só obedecer. Sem reclamar. Fazer sem saber porquê. Não ter respostas e não reclamar. A vida seguia tranquila desse modo.
Assim, já adolescente, esperou que os pais resolvessem se continuava a estudar ou iria trabalhar na oficina mecânica do Deco. Foi trabalhar. Até achou bom: teria dinheiro para as matinês, para as balas azedinhas, e, futuramente, para o cigarro.
O pai é que tinha ambições: queria ver o filho logo, logo longe da oficina. Quem sabe ser office-boy no banco ou no escritório do Dr. Darcy. Podia ser um bom começo. E obedecer era uma das qualidades do seu menino.
A mãe sonhava com netos e um a menos na casa, para aliviar o serviço. Não perdia a oportunidade de chamar a atenção do filho para as garotas que desfilavam pela calçada. Elogiar a Maria pela beleza, a Dalva pela elegância, a do Carmo pelo recato e pela religião. Quem sabe ele não poderia ir até elas, fazer um elogio, puxar conversa? Afinal ele já tinha um emprego, estava quase na idade de casar. Contando o tempo de namoro e de noivado, ia estar bem na época de assumir uma família.
Convencido pelo pai, arrumou emprego no escritório. Descartou o banco porque para os números da matemática precisava pensar. E Dr. Darcy só queria que ele fizesse coisas e não pensasse.
Um dia, esbarrou na Elaine: foi olhar e gostar. Ela pediu para casar em maio, mês que achava lindo demais para usar branco e um buquê de flores. Também escolheu a casa, decidiu sobre os móveis e bateu o pé para que ele usasse um terno de linho azul marinho no casamento.
A festa ficou por conta dos pais dela e dos pais dele. Só precisou dizer o sim. Era o que tinha de fazer e fez.
Os filhos vieram, mudou de emprego, foi um funcionário padrão, deixou a educação dos filhos por conta da Elaine. Os dias eram iguais. Às vezes a mulher resolvia que deviam ir para a praia: ele cuidava do carro, juntava dinheiro para as despesas, embarcava a família e desciam para o litoral. Subiam de volta, sem o dinheiro, com a pele corada, os meninos amuados e a mulher sorrindo. Até a próxima viagem.
Os anos não mudaram o homem que não gostava de pensar. Nem quando baixou ao hospital com um câncer no rim pensou que poderia morrer. Tudo se resolveria bem. Porque o médico disse que logo ele estaria curado. Não se curou.
Pouco antes de falecer, pensou na vida tranquila que havia levado, nos filhos criados e na mulher, ainda bonitona, que iria deixar. Como um raio, pensou: e se a vida tivesse sido diferente?
Não deu tempo de responder. Fechou os olhos e se deixou ir. Tinha certeza que a mulher haveria de cuidar bem de seu enterro.